The New Girl in the House

20 Halloween - Final


Notas iniciais
Ohoohoohoohoo, olá minhas morceguinhas. Como estão vocês? Eu estou ótima. Clima de halloween, sabe como faz? Não? Tia Oceans ensina: Apaga a luz, põe uma musiquinha de fundo (De preferência as que eu coloquei no capítulo), prepare o suco de abóbora com beterraba e laranja (Delícia!!), pega os amendoins ou pipoca e vem. Entrem nesse trem, ou barco, tanto faz. Imaginem um fantasma lendo ao seu lado, ou percebam que realmente tem um fantasma lendo ao seu lado :P Hoje é aquele dia louco em que você acorda da sua soneca diária (De tarde), sente cheiro de ensopado, vai até a cozinha esfregando a barriga e acaba achando aquela sua tia mais estranha cozinhando seus pais em uma panela grande... Super normal, acontece todos os anos. Também é o dia em que você inventa de assistir filmes de terror e passa a madrugada inteira encarando os cantinhos mais escuros do quarto para ter certeza de que seu cérebro zoeiro vai inventar uma forma de colocar a bruxa de Blair em algum lugar. Não se preocupem, isso acontece comigo também. A tia Oceans aqui é muito medrosa, e mesmo assim vou fazer uma maratona de filmes de terror. Vou assistir com meu irmão, e é bem capaz que eu durma ao lado dele esta noite (Só porque o quarto da mamãe passa a noite trancado, eu nem quero imaginar o que meus pais fazem lá dentro). Vocês têm algum ritual para a noite halloween? Compartilhem com a tia Oceans :D Eu gosto de não me sentia a única louca do mundo. Pô, o anterior tava grande, imagina esse. Espero que gostem, cravem suas presas nesse capítulo e bebam o sangue da minha história... Credo. Coloquei várias músicas, sugiro que ouçam enquanto estão lendo, dá uma incrementada. Eu adoro essas bandas, espero que gostem. Gostaria de agradecer aqui por todo carinho que vocês têm me dado, sério, tia Oceans ama vocês, muuuuito. Imagem de hoje: Decidi fazer algo especial.

Soltei um longo suspiro, sacudindo um pouco a cabeça no embalo da música. Eu estava de volta ao salão, Ukyo havia tocado mais umas três músicas até eu decidir deixa-lo em paz. Eu estava muito feliz, finalmente sentia que estava ficando mais próxima a ele. De alguma forma, o piano aproxima as pessoas.

Eu não via nenhum dos meus irmãos há quase vinte minutos, estava sozinha de novo, naquele mesmo sofá. As pessoas já estavam começando a ficar bêbadas, algumas garotas já tinham beijado tantos rapazes que seus rostos estava cobertos de batom. Fechei os olhos por um momento, já estava ficando com um pouco de sono.

Senti um peso ao meu lado, e logo em seguida senti um beijo suave e carinhoso ser depositado em minha bochecha. Soltei um suspiro, seu hálito cheirava à bebida alcoólica, e novamente esse cheiro me deixou com uma sensação boa.

– Boa noite, Nina – ele disse.

Sorri, abrindo meus olhos.

– Boa noite, Louis – respondi.

Ele abriu um lindo sorriso, envolvendo meus ombros com seu braço esquerdo. Deixei-me ser abraçada por Louis, sorrindo.

– Estive procurando por você durante um bom tempo, estava quase achando que você tinha fugido da festa – ele disse.

Ri, ele sorriu para mim.

– Ei, eu não estou tão desesperada assim – falei.

Louis deu uma risadinha, sorri.

– Por onde você esteve? – perguntei, curiosa – Não te vi desde a hora em que chegamos, estava ficando preocupada.

Louis deu um meio sorriso, como se estivesse saboreando minhas palavras. Esperei, tentando não morder o lábio.

– Eu estava conversando com uns amigos que não via há anos, acabei perdendo a noção de tempo – respondeu – Tomei alguns drinques com eles, mas resolvi parar quando comecei a ver duas bocas em cada pessoa.

Ri, Louis fez o mesmo.

– Eu também estou com duas bocas? – perguntei.

Ele encarou meu rosto, sua expressão ficou determinada. Sorri, tentando não morder o lábio. Louis riu, desistindo.

– Sim, você está com duas bocas – ele disse.

Ri, ele sacudiu a cabeça.

– Você bebeu demais, Louis – falei.

Ele riu, assentindo. Observei bem seu rosto, mordendo o lábio. Ele estava piscando mais do que o normal, sua boca estava sempre com um sorriso torto e involuntário. Ele respirava um pouco rápido demais, seus cabelos estavam começando a ficar ondulados.

– Você está parecendo alguém que acabou de ser atingido por um jato de água de chuva, me desculpe – falei.

Louis riu muito daquilo, visivelmente alegre demais. Ri de sua risada, aquele som era tão lindo que quase me fez suspirar.

– Nina, você não existe – ele disse.

Ri, jogando a cabeça para o lado.

– Eu existo, sou bem real – falei – Quer ver?

Seus olhos brilharam, Louis me olhou nos olhos.

– Quero – respondeu.

Sorri, aproximando-me dele devagar. Louis esperou, seus olhos se fecharam. Ri pelo nariz, um sorriso calmo repousou em seus lábios. Lentamente, encostei meus lábios em sua bochecha esquerda. Beijei-o suavemente durante uns dez segundos, depois encerrei nosso breve contato. Afastei-me dele devagar, mordendo o lábio. Era a primeira vez que eu beijava Louis, uma estranha sensação de satisfação encheu meu coração.

Louis abriu os olhos, piscando por um segundo. Seu sorriso estava um pouco menor, ele me encarou.

– Sinto muito, isso não foi o suficiente – ele disse.

Pisquei, fazendo uma careta. Ele riu da minha expressão, sorri de leve.

– Eu ainda não pareço real para você? – perguntei – O que eu tenho que fazer? Acertar sua cabeça com um cano?

Ele riu, negando com a cabeça. Esperei, cruzando os braços.

– Posso te mostrar o que você devia ter feito? – ele perguntou, sorrindo de leve.

Assenti, tentando conter um sorriso. Louis sorriu abertamente, soltando um suspiro de satisfação.

– Obrigado – ele disse.

Franzi minhas sobrancelhas por um segundo, virando um pouco minha cabeça para o lado esquerdo. Louis sorriu, posicionando sua mão direita em minha bochecha. Ele soltou um suspiro longo, encarando meus lábios com um olhar de adoração. Pisquei, sentindo minha respiração mudar um pouco. Louis aproximou seu rosto do meu, seus olhos focaram em minha boca. Retesei-me um pouco, ele continuou avançando. Acabei sendo imprensada contra o sofá, Louis debruçou-se sobre mim até seus lábios tocarem minha bochecha esquerda. Ele beijou-me durante alguns segundos, a mão que segurava meu rosto posicionou-se agora em minha nuca. Louis afastou seus lábios de minha bochecha, inclinando-se para mim outra vez em menos de dois segundos. Sua boca beijou minha outra bochecha, pressionando-me um pouco. Ele fez aquilo mais umas cinco vezes, beijando varias partes do meu rosto. Quando ele beijou a ponta do meu nariz, não fui mais capaz de segurar o riso. Louis se afastou de mim um pouco, seu rosto tinha uma expressão confusa e impaciente.

– Do que você está rindo? – perguntou, confuso.

Ri mais um pouco, tentando me controlar.

– Me desculpe, Louis – falei, tentando me controlar – Eu não consigo evitar, essa situação é cômica.

Ele fez uma careta, beijando a ponta do meu nariz outra vez. Ri mais um pouco, Louis afastou seu rosto do meu um pouco.

– Não ria disso, eu estou me sentindo um lixo – ele disse – Não sabe o quanto é frustrante não conseguir parar de ver dobrado, eu não consigo acertar a sua boca de jeito nenhum.

Franzi as sobrancelhas, tentando afasta-lo de mim. Segurei seus ombros com firmeza, encarando-o.

– Você quer me beijar? – perguntei.

Ele beijou meu queixo, soltando um muxoxo ao afastar-se de mim outra vez.

– Eu estou tentando, mas nunca consigo – confessou, sua voz estava quase sofrida – Me ajude, Nina. Guie-me, eu preciso achar o caminho certo.

Arregalei os olhos, Louis tentou me beijar outra vez, encostando seus lábios em minha bochecha esquerda.

– Louis, para com isso! – falei, exasperada – Eu tenho...

– Namorado, eu sei – ele disse, baixando o olhar – Ele consegue te beijar, ele você ajuda.

Ofeguei, Louis finalmente me soltou. Encarei-o, ele parecia completamente frustrado.

– Louis, eu amo o Akira – falei.

Ele trincou os dentes ao ouvir minhas palavras, pisquei.

– É, eu sei – ele disse, enterrando o rosto nas mãos – Droga, eu estou muito bêbado. Desculpe-me, Nina.

Ele continuou a pedir desculpas, cada vez mais baixo, até sua voz sumir de vez. Meu rosto inteiro ardia, como se os lábios de Louis tivessem sido moldados em minha pele por um maçarico. Encarei o chão por um tempo, Louis não tirou o rosto das mãos. Ele não emitia som algum, sua respiração estava pesada e brusca.

– Louis, me responde com sinceridade, por favor – falei – Você gosta de mim?

Ele nem hesitou, apenas respirou fundo.

– Eu te amo, Nina – respondeu.

Pisquei, exasperada.

– Não, não como sua irmã – falei – Eu perguntei se você está apaixonado por mim, você está?

Ele não respondeu de imediato, nem tirou o rosto das mãos.

– Eu estou bêbado, me desculpa – ele disse.

Louis não disse mais nada, tomei aquilo como resposta: Louis tentara me beijar porque estava bêbado, fim da história.

– Ei, eu conheço você! – disse uma garota.

Louis congelou, finalmente desenterrando o rosto das mãos. A garota que dissera aquilo deu uma risada, visivelmente bêbada.

– Louis! – ela disse.

– Yui? – disse Louis.

Ela riu de novo, correndo em nossa direção. Só tive tempo de raciocinar quando ela já estava sentada no colo de Louis, prendendo-o no sofá com as pernas, como Wataru fizera comigo mais cedo.

– Meu Deus, é você mesmo?! – ela disse, rindo de forma maravilhada – Eu achava que você não podia ficar mais lindo, eu estava mesmo errada.

Louis parecia sem palavras, franzi o cenho.

– Você não tinha ido para Paris? – perguntou Louis, confuso.

A garota, Yui, riu.

– Fui, mas não aguentei mais de tanta saudade – ela disse, rindo – Ah, Louis, como você está sensual.

Ela riu, Louis desviou o olhar. Pigarreei, Yui só percebeu minha presença naquela hora.

– Oi, bonequinha – ela disse em tom de zombaria – Você é o novo brinquedinho do Louis? Parece uma criança.

– O Que?! – guinchei.

Ela riu da minha reação, trinquei os dentes.

– Yui, essa é minha irmã, Nina – disse Louis, parecendo irritado – Não fale com ela nesse tom, eu não gosto.

Yui riu, batendo no peito de Louis como se ele tivesse acabado de contar uma piada.

– Seu chato, eu não vou fazer mais – ela disse – Mas ela parece uma criança.

Ela riu, sacudindo seus curtos cabelos loiros. Só reparei melhor nela naquele momento, ela estava vestida de bruxa. Tinha olhos verdes enormes, maiores que os de Wataru, mas não tinham a metade da beleza dos do meu pequeno. Ela me encarou, sorrindo de forma venenosa.

– Oi, cunhadinha – ela disse – Meu nome é Yui, eu sou a namorada do Louis.

Meus olhos se arregalaram, os de Louis também.

– Yui, o que você pensa que está fazendo? – ele perguntou, exasperado – Nina, ela não é a minha...

Ele não chegou a completar a frase, pois Yui silenciou-o com um beijo ruidoso. Minha boca se abriu, meus olhos pareciam estar quase saltando de suas órbitas. Louis arregalou os olhos, tentando empurrar Yui de seu colo. Meu coração parecia a ponto de explodir, arquejei como se estivesse morrendo de asfixia. Por fim, Louis parou de tentar lutar contra a garota. Ela comemorou com os braços, envolvendo-o com seus membros como faria um polvo. Louis olhou para mim de soslaio, ele pareceu entrar em pânico quando me viu.

Ergui-me do sofá de forma robótica, tentando não encarar o casal maravilha. Abri caminho por entre a multidão de pessoas, respirando tão ruidosamente que alguns deles olhavam para mim.

– Nina! – gritou a voz de Louis.

Mas eu já estava longe, ele não deve ter conseguido me achar em meio a tanta gente fantasiada. Corri para onde meus pés me guiaram, sem nem me importar em olhar por onde eu ia. Esbarrei em algumas pessoas, sem parar para pedir desculpas. Corri até não aguentar mais, meu peito doía.

Senti um gosto metálico em minha boca, minhas mãos estavam tão fechadas que minhas unhas feriam as palmas das minhas mãos. Só percebi que estava no meio do jardim quando um gato preto pulou para dentro de um dos arbustos, assustando-me tanto que eu caí no chão.

– Ah! – gritei.

Ergui-me em um pulo, chutando o arbusto. Eu sabia que não ia acertar o gato, mas precisava chutar alguma coisa.

– Você também quer me trair?! Pode ficar à vontade, seu bichano maluco! – berrei – Aproveita e me arranha, eu quero saber se eu estou sonhando ou não!

Continuei chutando o arbusto, destruindo-o em questão de minutos. Joguei-me no chão, puxando aquela peruca até ela sair por completo. Enfiei meus dedos por entre meus cabelos, puxando-os com tanta força que eu senti meu couro cabeludo gritar.

– Nina? – chamou-me uma voz.

Ergui o rosto, deparando-me com o esqueleto humano mais preocupado do mundo.

– Você está bem? – ele perguntou.

Rosnei, engolindo em seco.

– Estou ótima, não podia estar melhor – falei, irônica.

Iori me encarou, cético.

– Nina, se você estivesse bem, não teria arrancado sua peruca com tanta força – ele disse.

Percebi que era verdade, eu arrancara-a com tanta força que a descabelara por inteiro, assim como meus próprios cabelos. Expirei pesadamente, catando a peruca outra vez. Iori suspirou, vindo em minha direção. Ele ajoelhou-se diante de mim, olhando-me com aqueles olhos cor de aveia.

– Eu cuido de você – ele disse.

Assenti, Iori arrumou meus cabelos devagar. Fechei meus olhos, tentando não visualizar aquela cena outra vez.

Mas foi impossível, ela já estava gravada em minha mente.

– Abra os olhos, minha doce Nina – disse a voz suave de Iori.

Fiz o que ele disse, abrindo meus olhos devagar. Ele afagava suavemente minha bochecha, encarando-me com seus olhos serenos e carinhosos.

– Me conte o que aconteceu – pediu.

Assenti devagar, desviando o olhar. Iori sentou-se ao meu lado, envolvendo-me em seus braços.

O espírito do halloween te deixa desamparado, e quando você menos espera, seu maior ponto seguro é corrompido pela luz escura.

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(Música)

– E como está a sua noite? – perguntei, soltando um suspiro.

Iori também suspirou, esperei.

– Foi divertida em alguns momentos, monótona em outros, solitária em boa parte do tempo e um pouco triste no fim – ele disse, dando um pequeno sorriso triste – Ou seja, uma noite como qualquer outra.

Assenti, sentindo um peso no peito ao ouvi-lo dizer aquelas coisas.

– Parece que ambos fomos infelizes hoje, não é? – falei.

Iori não me respondeu de imediato, ele parecia estar refletindo sobre algo.

Caminhávamos juntos no jardim da mansão, iluminados pela pálida luz da lua. Iori tinha meu braço direito seguro junto ao seu, como se estivéssemos em um filme antigo. Andávamos bem devagar, seguindo em frente sem uma destinação definida. Ele encarava o céu de vez em quando, pensativo.

– Pelo menos eu tenho você aqui – sussurrei.

Ele pareceu ter ouvido, seus lábios se repuxaram de leve. Suspirei, fixando meu olhar no céu.

– Nina, eu posso te perguntar uma coisa? – disse Iori.

Assenti, resistindo ao impulso de dar-lhe uma resposta irônica. Eu teria dado essa resposta a qualquer outro, mas Iori não merecia aquilo.

– Você ama o Louis, não ama? – perguntou.

Pisquei, ele não me encarou.

– Claro que sim, ele é meu irmão, Iori – respondi.

Iori ainda não me encarou, senti seu corpo ficar um pouco tenso.

– Não foi isso que eu quis dizer, você sabe – ele disse – Nina, por favor, responda.

Refleti um pouco, pensando no que Iori tinha dito. Eu tinha muito amor pelo Louis, mas era amor fraternal. Eu sentira ciúmes dele, mas era normal, éramos irmãos.

– Eu não estou apaixonada pelo Louis, se é o que quer saber – respondi.

Iori parecia estar aliviado, mas ele ainda não olhou para mim.

– Está apaixonada por um dos nossos irmãos? – ele perguntou.

Neguei com a cabeça, franzindo o cenho. Iori respirou fundo, finalmente me encarando.

– Então por que você me nega tanto? – perguntou.

Sua voz carregava desespero, senti minha garganta se apertar. Iori encarava-me, seu olhar estava repleto de dor.

– Iori, eu não nego você – falei – Eu te amo.

Ele fechou os olhos bem apertados, respirando fundo.

– Você me ama como seu irmão mais velho, não é? – perguntou.

Assenti, Iori respirou fundo.

– Só assim? – perguntou.

– E como você quer que eu te ame? Somos irmãos – falei.

Ele deu um pequeno sorriso, ainda de olhos fechados.

– Esqueça isso – ele disse – Me desculpe.

Pisquei, um pouco confusa. Iori abriu os olhos, encarando-me com aqueles olhos gentis e carinhosos.

– Qual foi a última vez em que eu te presenteei? – perguntou.

Franzi as sobrancelhas, ele riu baixinho.

– Com uma flor, eu quero dizer – corrigiu-se, ainda rindo – Qual foi a última vez que eu te dei uma flor?

Pensei um pouco, ele esperou.

– Já faz um tempo – falei – Foi antes do meu primeiro dia de aulas, tanta coisa aconteceu desde então, parece uma eternidade.

Ele assentiu, concordando comigo.

– Se lembra de qual foi a flor? – perguntou.

Puxei na memória, recordando-me daquele dia com um sorrisinho.

– Uma camélia branca – respondi.

Iori assentiu, sorrindo alegremente.

– Você se lembra do significado? – perguntou.

Fiz um biquinho, encarando o céu. Iori me encarou, um sorriso terno tomou seus lábios.

– Ela é boa para momentos íntimos, mas também simboliza o arrependimento – respondi, mordendo o lábio – Você me pediu desculpas por ter sido estranho no shopping, eu te perdoei.

Iori abriu um grande sorriso, encarando-me com ternura.

– Você tem uma boa memória, Nina – ele disse.

Ri pelo nariz, encarando-o de forma cética.

– Eu tenho uma péssima memória, eu esqueço de algo depois de dois minutos – falei – Eu só lembro disso porque foi algo importante para mim, eu não esqueceria aquele dia incrível que passamos juntos assim tão fácil.

Ele parecia estar transbordando de alegria, sorrindo abertamente para mim.

– Que bom que você se lembra, isso me deixa feliz – ele disse, deixando uma risadinha serena escapar – Tudo bem, o que acha de uma pequena aula sobre as flores?

Abri um grande sorriso, assentindo entusiasmadamente. Iori sorriu de volta para mim, olhando em volta rapidamente.

– Muito bem, devemos ter alguma espécie aqui em algum lugar – comentou.

Sorri, observando-o ir à caça pelas flores. Iori soltou gentilmente seu braço do meu, lançando-me um rápido sorriso. Ele enfiou-se em meio aos arbustos, falando consigo mesmo calmamente. Mordi o lábio ao observa-lo, Iori parecia um garotinho em uma loja de brinquedos.

– Ah, achei algo aqui – ele disse, feliz – Venha, Nina.

Assenti, indo até ele. Senti a grama alta bater em minha pele enquanto eu andava, tentei não me incomodar com aquilo. Parei ao lado de Iori, ele arrancava gentilmente uma flor de seu galho.

– Venha, pequenina – sussurrou, arrumando a flor com carinho.

Abri um grande sorriso, Iori encarou a flor por um segundo, sorrindo abertamente.

– Este é um crisântemo vermelho, essa flor foi símbolo da nobreza aqui no Japão, e é um símbolo do país – ele disse – O que me diz?

Encarei a flor, tinha muitas pétalas. Era vermelha e lembrava o sol, sorri.

– É linda – falei.

Iori sorriu, aproximando-se mais de mim.

– O crisântemo pode ter várias cores, e cada uma delas tem seu significado – ele disse – Toque-a, veja como é macia.

Assenti, esticando minha mão em direção a flor. Iori pegou minha mão, depositando suavemente as pontas dos meus dedos nas pétalas.

– O crisântemo branco simboliza a sinceridade, a verdade mais pura – ele disse, sua voz era tão angelical, era como se ele cantasse para mim.

Assenti, Iori aproximou-se ainda mais de mim. O calor de seu corpo me encontrou, fazendo-me aproximar-me dele até que estivéssemos abraçados.

– O crisântemo amarelo representa o amor frágil, desenhado e a fortuna – ele disse.

Assenti, ele soltou o crisântemo vermelho em minha mão. Segurei a flor com os dedos. Iori envolveu minha cintura com seu braço direito.

– E o vermelho? – perguntei.

Iori me encarou, seu olhar era muito intenso e profundo. Esperei, seu braço segurou minha cintura com mais firmeza.

– Significa amor, paixão – ele disse – Em alguns países, presentear alguém com um crisântemo é uma declaração clara e explícita de amor.

Pisquei, arregalando levemente meus olhos. Iori continuou me encarando, seu olhar parecia querer analisar minha alma.

– Iori...

Ele calou-me com um beijo na testa, abraçando-me com força. Não consegui reagir, a única coisa que eu conseguia pensar era na declaração singela de Iori.

– Não precisa dizer nada agora, meu amor – ele disse, sussurrando as palavras para mim com delicadeza – Você ainda não me corresponde, mas eu sinto que um dia você vai me amar tanto quanto eu amo você agora, minha amada Nina.

Ofeguei baixinho, sentindo meu coração acelerar tanto que ficara a ponto de explodir. Iori deu mais um beijo em minha testa, muito mais caloroso e intenso desta vez. Meus olhos fecharam-se sem querer, era como se meu corpo estivesse tentando absorver o carinho que Iori me dava.

– Onee-chan! – berrou uma voz.

Abri meus olhos com força, assustando-me com aquele som repentino. Iori também parecia ter se assustado, seu abraço vacilou por um momento.

– Onee-chan! – aquela voz berrou outra vez.

– Wataru? – chamei, confusa.

Olhei em volta, tentando achar meu pequeno. Avistei-o no meio da trilha, percebendo naquele momento que Iori e eu estávamos enfiados no meio do mato.

– Onee-chan, cadê você? – perguntou Wataru, procurando-me desesperadamente.

Soltei-me de Iori, mesmo sabendo que estávamos em um momento íntimo, eu largava qualquer coisa por Wataru.

– Wataru, eu estou aqui! – respondi.

Fui em sua direção, ele só me viu quando cheguei mais perto dele. Abri meus braços, sabia o que ele ia fazer.

– Onee-chan – disse, pulando em meus braços – Eu procurei a onee-chan em todo canto!

Ri um pouco, ele me soltou. Seus olhos brilhavam, ele sorria de um jeito quase desesperado.

– Fuu-tan disse que está na hora da atração principal, ele me mandou achar a onee-chan – ele disse.

– Fuu-tan? Você está falando do Fuuto? – falei, rindo pelo nariz – Por que ele mesmo não veio me procurar? Você não é escravo dele, sabia?

Wataru riu, abraçando-me outra vez. Ri, apertando meu pequeno carinhosamente.

– Vamos logo, onee-chan! – berrou, quase me deixando surda – Eu quero saber o que o Fuu-tan vai nos mostrar!

Ri, ele me soltou. Wataru pegou minha mão e começou a puxar-me, deixando-me sem alternativa a não ser segui-lo. Olhei para trás, deparando-me com a forma distante de um esqueleto humano.

– Desculpe! – falei.

Ele assentiu, pude vê-lo sorrir antes que as sombras o engolissem.

O espírito do halloween é imprevisível, e antes que possamos perceber, ele te envolve com força, e você não consegue escapar.

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– Atenção, senhorita idiota e pirralho curioso – disse Fuuto, abrindo um sorriso sádico – A noite de vocês acaba de começar.

Dei um meio sorriso, Wataru deu pequenos pulinhos no banco da limusine.

– Hoje vocês vão conhecer alguém muito especial, ela se chama Jun – disse Fuuto – Aposto que ela vai adorar conhecê-los.

Wataru sorriu, contente.

– Ela é legal, Fuu-tan? – perguntou.

Fuuto deu de ombros, dando um meio sorriso.

– Eu não sei, ela morreu antes que eu a conhecesse – respondeu.

Revirei os olhos, ele esperava mesmo assustar alguém com aquilo?

Senti Wataru agarrar minha mão, engoli em seco.

– Isso mesmo, procure conforto – disse Fuuto, dando um sorriso diabólico para o pequeno.

Senti o corpo de Wataru ficar ainda mais tenso, toda a animação do pequeno parecia ter virado fumaça. Lancei um olhar duro a Fuuto, ele apenas piscou para mim.

– Vamos chegar logo, não se preocupem – ele disse, mudando de assunto.

Revirei os olhos, Wataru não disse nada. Estávamos no carro de Fuuto há quase uma hora, nunca chegávamos ao nosso destino. Ele não dissera para onde estávamos indo, mas, pela cara que ele fazia, devia ser algum lugar deserto.

Olhei pela janela, tentando descobrir alguma pista de onde estávamos. Devíamos estar longe da área urbana da cidade, já que a iluminação aqui era pouca. A lua cheia estava tão grande no céu que mais parecia um desenho, fitei-a, admirada.

Ouvi o toque de um celular, despertando-me de meus devaneios. Olhei em volta, tentando identificar de onde vinha o som.

– O que? – disse Fuuto, atendendo o telefone.

Revirei os olhos, não tinha como esse garoto ser mais mal educado.

– Não é da sua conta se ela está aqui ou não, Nina não é sua para você querer saber onde ela está toda hora – resmungou.

Pisquei, redobrando minha atenção ao que ele dizia.

– Não te interessa, eu não estou arrastando ela, a Nina aceitou sair comigo – disse Fuuto, irritado – Se você pode sair com ele quando quer, eu também posso.

Fuuto escutou um pouco, a pessoa do outro lado da linha deve ter dito algum muito ridículo, pois ele explodiu em uma risada.

– E por que diabos a Nina estaria chorando? Eu não sou nenhum maníaco desesperado, só vou dormir com ela quando ele rastejar aos meus pés – ele disse.

Bufei, revirando os olhos. Fuuto soprou-me um beijo, mordendo o lábio e dirigindo-me uma piscadela sínica. Tentei focar minha atenção em qualquer outra coisa, mas não foi muito útil, já que Fuuto estendeu-me seu celular.

– É pra você – resmungou.

Franzi as sobrancelhas, mas peguei o celular. Colei-o contra minha orelha, confusa.

– Alô? – falei.

A pessoa do outro lado da linha parecia estar explodindo de alívio, ouvi-a soltar um longo suspiro.

– Nina, oh, Nina – ele disse – Me desculpe, me desculpe, Nina.

Congelei, Louis continuou repetindo aquela mesma frase até que não aguentou mais.

– Eu fui atrás de você, não te achei em lugar algum – contou, exasperado – Eu te procurei em cada canto dessa casa, você não estava, nem um sinal de você. Eu fiquei louco, Nina.

Ele estava ainda mais bêbado do que antes, sua voz estava falhando.

– Louis, você está chorando? – sussurrei, não queria que Fuuto ouvisse.

Mas ele ouviu, pude ouvi-lo rir como um bêbado. Franzi o cenho, tentando me concentrar na voz falha de Louis.

– Não, eu já estou bem, estou ouvindo sua voz – respondeu, respirando fundo – Acho que bebi uma garrafa inteira de Martini, não consigo nem achar o caminho para o lado de fora.

Eu não queria, mas foi inevitável. Ri, tentando me controlar. Louis ficava muito engraçando quando estava bêbado, parecia um menino sonolento.

Pode rir, eu deixo – ele disse, rindo um pouco – Sinto sua falta, queria você aqui comigo.

Soltei um suspiro, tentando não rir. Louis nunca me parecera ser mimado, mas ele esbanjava infantilidade naquela hora.

Ouvi um gemido do outro lado da linha, um gemido feminino.

– Louis, o que foi isso? – perguntei, intrigada.

Ele não respondeu de imediato, a garota que gemera agora parecia estar conversando com ele com uma voz manhosa demais para descrever.

– Essa é a Yui? – perguntei, irritada.

Nina, eu... – começou Louis.

Mas ele foi interrompido, sons molhados encheram a linha. Grunhidos de prazer, eu diria. Um beijo, com certeza.

– Você ligou para me fazer ouvir enquanto você transa com a sua namorada?! – perguntei, indignada – Vai se ferrar, Louis Asahina!

Eu não sei se ele me ouviu, pois desliguei a chamada antes que ele respondesse. Joguei o celular no peito de Fuuto, o garoto arregalou os olhos.

– Ei, você está pensando o que? – protestou – Desconte sua raiva em outra pessoa, não me culpe por ter ganhado um par de chifres.

Bufei, ignorando-o como se ele não passasse de um inseto irritante.

Queria socar alguém, enterrar minhas unhas em alguma coisa. Chutar um arbusto não seria suficiente agora, e eu nem tinha Iori para me abraçar e me acalmar. Eu tenho um problema: Sou irada demais.

Mas eu tinha razão, pelo menos desta vez. Ficar com ciúmes do irmão era natural, e mesmo que minha reação não tivesse sido tão exagerada da primeira vez, ainda era um pouco errado ignorar Louis daquele jeito. Eu sabia que ele faria tudo por mim, ele era o único naquela casa que me tratava como uma irmã.

Mas ligar para saber onde eu estou, pedir para falar comigo e me fazer escutar enquanto ele tentava devorar a boca da namorada era o fim da picada. Eu nunca sentira ciúmes de Akira, ele nunca me dera motivos. As garotas do orfanato eram sensatas, eles nunca deram em cima do meu namorado, mesmo antes do nosso namoro.

Mas aquilo, aquilo não era algo divino. Aquela dor, aquele aperto, aquela raiva, aquilo não era normal. Eu me sentia somo se estivesse sendo cozida em banho Maria, e aquela chama parecia não ter fim.

– Ei, niña – chamou-me Fuuto, cutucando-me com a ponta do sapato.

Virei para encara-lo, o garoto sacudia seu celular.

– É seu namorado traidor, atendo? – perguntou.

Bufei, mordendo a língua com força.

– Ele não é meu namorado, e se você falar isso de novo, eu abro a porta e me jogo no meio da estrada – falei.

Fuuto riu, encarei a janela. Wataru estava calado, só nos observando.

– Você ligou para Fuuto Asahina, quem é o honrado? – disse Fuuto, atendendo a ligação.

Mesmo não querendo e fingindo não me importar, apurei os ouvidos para escutar. Fuuto riu um pouco, lançando-me um olhar maldoso.

– Sim, a Srta. Kazama está aqui, e bem irritada, por sinal – ele disse – Você quer deixar algum recado?

Ele zombava da embriaguez de Louis com tanta perversidade que me fez arrepiar, Fuuto era mesmo muito infame.

– Tudo bem, senhor. Vou dar o recado, espere só um segundo – riu-se, encarando-me – Louis mandou dizer que pede desculpas, umas trinta vezes.

Ri pelo nariz, Fuuto riu da minha reação.

– Diga que eu não quero as palavras repetidas dele, mande ele me deixar em paz e ir se esfregar na namorada dele lá no quinto dos infernos – respondi.

Wataru arregalou os olhos, surpreso. Fuuto riu, mas fez o que eu disse. Era a primeira vez que eu dizia algo tão indecente na frente deles, mas estava com tanta raiva que nem me importei.

– Claro, senhor – disse Fuuto, ainda rindo – Ele pediu desculpas mais umas trinta vezes, ele está tão bêbado que parece estar babando no celular.

Bufei, revirando os olhos.

– Manda ele ir babar na tal da Yui, aposto que ela vai adorar ter a boquinha dele bem naquele lugar – resmunguei.

Fuuto explodiu em risadas, arregalando os olhos e transmitindo meu recado. Wataru não parecia ter entendido aquela, mas também estava surpreso.

– Não, eu não acho que ela está bêbada – disse Fuuto, conversando com Louis durante um tempo – Ela está quase soltando fogo pelas ventas, mas não está bêbada.

Ele escutou durante um tempo, sua boca retorceu-se em um sorriso perverso.

– Eu acho melhor você não dizer isso, do jeito que ela tá, isso só vai piorar a situação – ele disse, crescendo aquele sorriso.

Esperei, Fuuto escutou durante um tempo, até rir.

– Tá, eu vou dizer – ele disse – Nina, Louis disse que não está te reconhecendo. Ele perguntou onde está a garota doce e amável que ele conhece.

Bufei, quase indo até lá e dizendo uma série de palavrões na orelha de Louis.

– Diga que eu estou enterrando essa garota agora mesmo, e diga também que eu já preparei um túmulo de casal para ele e para a namoradinha dele – falei.

Fuuto riu, transmitindo meu recado. Wataru pegou minha mão, como se estivesse tentando me acalmar de alguma forma. Fuuto riu, lançando-me um rápido olhar.

– Tudo bem, o traseiro é seu – ele disse, voltando seu olhar a mim – Ele mandou dizer que te ama.

Aquilo foi a gota, senti meu corpo pegar fogo.

– Ama muito, sei – resmunguei, irritada – Diga que eu vou amar quebrar o nariz dele com minhas próprias mãos, esse sujeito filho da mãe. Ama muito, pois o mande pegar esse suposto amor, fazer uma bolinha, deitar de ladinho, baixar as calças, levantar a perna e enfiar o amor bem no meio do...

– Onee-chan! – berrou Wataru, interrompendo-me com os olhos arregalados.

Fuuto parecia estar tendo um ataque, ele ria tanto que seu corpo tremia violentamente. Ele demorou para conseguir falar, mas quando o fez, reproduziu minha fala para Louis ouvir. Não me senti nem um pouco arrependida, eu queria mesmo era dizer tudo. Nunca sentira tanta raiva na vida, nem mesmo quando Bruce cortara meus cabelos pela metade durante a aula de física.

– Cara, já chega – disse Fuuto, tentando respirar – Eu já ri muito, você já levou tantas que vai passar a noite toda chorando. Já chega, você é masoquista?

Fuuto parou para escutar um pouco, concentrei-me em olhar pela janela.

– Cansei de bancar o mensageiro, se entenda com ela outra hora, já chega de gastar meu tempo com a frescura de vocês – disse Fuuto, desligando a chamada – Nina Kazama, você aceita casar comigo?

Revirei os olhos, ele riu. Wataru me encarava, afagando meu braço. Se fosse outra criança, eu já teria atirado pela janela.

O espírito do halloween é selvagem, ele te faz sentir coisas insanas, querer coisas insanas, ser uma coisa insana.

**~**~**~**

– Isso não vai dar certo – falei, pela terceira vez.

Fuuto ignorou-me, forçando ainda mais o cadeado. Olhei em volta, nervosa. Como se não bastasse estarmos tentando invadir um cemitério à meia noite, Fuuto ainda cantarolava uma de suas músicas como se não fosse nada anormal.

– Onee-chan, eu to com frio – disse Wataru, abraçando-me.

Abracei-o de volta, afagando seus braços. Se eu tivesse um casaco, eu já tinha dado ao pequeno. Por mais vestido que ele estivesse, Wataru sempre seria minha prioridade.

– Consegui – anunciou Fuuto.

Ele puxou o sobrara do velho cadeado, empurrando os portões de ferro. Um rangido terrível cortou o silêncio da noite, Wataru estremeceu.

– Vamos, entrem – disse Fuuto.

Wataru apertou meus braços em volta de seu corpo, como se estivesse tentando buscar conforto. Eu sabia que ele estava com medo, mas também sabia que ele estava tentando parecer durão para mim.

– Não precisamos fazer isso – falei.

Fuuto me encarou, cético. Indiquei Wataru discretamente, o pequeno encarava o interior escuro do cemitério com uma expressão congelada. Fuuto assentiu, parecendo entender aonde eu queria chegar. Ele agachou-se diante de Wataru, lançando-lhe um meio sorriso desafiador.

– Ei, pirralho – chamou – Não está pensando em fazer nada nas calças, está?

Wataru arregalou os olhos, apertando-me com ainda mais força. Lancei um olhar repreensivo a Fuuto, ele me ignorou.

– Sabe o que tem aí dentro? Gente morta, muita gente morta – disse ao pequeno – Sabe que dia é hoje? 31 de outubro. Está de madrugada, está escuro e tem uma neblina sinistra cercando a gente. Percebeu onde eu quero chegar?

Wataru negou com a cabeça, estremecendo. Fuuto abriu um grande sorriso perverso, aquela fantasia o deixava assustador.

– Significa que estamos amaldiçoados, pirralho – ele disse – O espírito do halloween está nos seguindo, não temos como fugir. Estamos na casa dos mortos agora, nós vamos nos juntar a eles em breve, e nunca mais conseguiremos sair.

Wataru arregalou os olhos, pude sentir seu coração disparar. Agachei-me, abraçando-o com força.

– Onee-chan, eu to com medo! – ele disse, sua voz tremia.

Droga, agora eu mato o Fuuto.

Carreguei Wataru, mesmo não sendo uma tarefa fácil, considerando os sapatos que eu usava e minha leve embriaguez. Encarei Fuuto, enterrando o rosto de Wataru em mim de forma protetora.

– Você vai morrer, aqui e agora – ameacei.

Fuuto revirou os olhos, Wataru apertou-me com mais força.

– Parem de frescura, vamos entrar logo – disse Fuuto, chutando uma pedrinha.

Trinquei os destes, o garotinho em meu colo quase tremia.

– Eu quero ir pra casa, onee-chan – ele disse.

Sua voz estava manhosa, pode sentir que ele estava com sono. Ele estava com frio, com sono e com muito medo, e eu não podia fazer nada.

– Fuuto, vamos embora – falei – Eu não vou entrar aí, nem eu e nem o Wataru.

Fuuto riu pelo nariz, ignorando-me.

– Vocês vão nos fazer perder a melhor parte da noite, deixem de ser medrosos – ele disse.

Neguei com a cabeça, senti Wataru respirar fundo. Fuuto percebeu aquela reação, ele abriu um sorriso perverso.

– Está com medo, pirralho? – perguntou – Acha que um dia vai ser homem suficiente para ela se chora por qualquer besteira? Acha que vai poder proteger ela de alguma coisa se nem consegue parar de tremer? Quer ser homem para ela? Então por que não começa sendo homem por si mesmo?

Senti o corpo de Wataru se enrijecer, Fuuto ampliou aquele sorriso.

– Isso é patético – ele disse, zombando do irmão – Já vi meninas serem mais corajosas do que você jamais vai ser, eu mesmo sou mais corajoso. Adivinha quem ela vai escolher se estiver com medo? Adivinha com quem ela vai preferir terminar a noite?

Wataru afrouxou seu abraço, forçando seu corpo para baixo. Ele separou nossos corpos, empurrando-me para trás com força. Pisquei, confusa. Encarei Wataru, o pequeno exibia uma expressão dura, eu nunca tinha visto ele assim antes.

– Quem vai ser o primeiro a entrar? – perguntou Fuuto, sorrindo e fazendo uma mesura em direção aos portões do cemitério.

Wataru nem mesmo hesitou, dando alguns passos fortes e decididos em direção à entrada do cemitério. Fuuto deu um sorriso satisfeito, fechei a cara. Aproximei-me de Fuuto, lançando-lhe um olhar homicida.

– Se ele sair desse cemitério chorando, eu corto suas bolas e faço um ensopado com elas – chiei.

Fuuto abriu um sorriso malicioso, encarando-me de volta.

– Quer tanto assim colocar minhas bolas na boca? Tem um jeito melhor, sabia? – zombou.

Bufei, passando por ele com um empurrão. Entrei no cemitério, olhando em volta para tentar achar meu irmãozinho.

Foi difícil localizar qualquer coisa naquele lugar, visto que estava tudo escuro. Contornos de túmulos e lápides cobriam boa parte do chão, medindo espaço com pedrinhas e grama seca. Algumas árvores faziam sombra para alguns túmulos isolados ao longe, quase perdendo-se de vista em meio ao mar de túmulos. Algumas estátuas também compunham o cenário, eram anjos, em sua maioria. O ar ali era muito frio, e realmente havia certa neblina.

– Wataru? – chamei, abraçando meu próprio corpo.

Ele não respondeu, olhei em volta outra vez.

– Búh! – disse uma voz em minha orelha.

Meu corpo deu um tranco para frente, senti alguém agarrando minha cintura.

– Droga, idiota! – berrei.

Empurrei Fuuto para longe, ele ria de minha reação. Trazia duas lanternas nas mãos, uma mochila estava pendurada em seu ombro esquerdo.

– Nina, você é muito burra – ele disse, rindo – Acha mesmo que um fantasma faria “Búh”? Você é ridícula.

Trinquei os dentes, puxando uma das lanternas dele.

– Eu me assustei porque não tem ninguém aqui, e você me agarrou por trás – respondi.

Acionei o botão da lanterna, um feixe de luz branca acendeu-se de imediato. Apressei-me a girar a lanterna, procurando iluminar um pouco o ambiente. A maquiagem de Fuuto estava um pouco mais borrada do que antes, ele parecia mesmo um palhaço fantasma.

– Cadê o Wataru? – perguntei.

Fuuto deu de ombros, ligando sua própria lanterna. Olhei em volta, sem achar nenhum sinal do pequeno.

– Deve ter se perdido em algum lugar, coisa que nós dois devíamos fazer – disse Fuuto.

Revirei os olhos, resistindo ao impulso de dar-lhe um bom soco.

– Você só fala besteira, respeita os mortos – falei.

Fuuto bufou, apontando a lanterna para uma das lápides.

– Kanji Akihito, morreu em 1973 – leu, sua voz monótoma – Próxima.

Ele apontou a lanterna para outra lápide, esperei.

– Eikichi Ren, morreu em 2001 – leu, voltando-se em minha direção – Sabe o que eles dois tem em comum?

Neguei com a cabeça, Fuuto deu um meio sorriso malicioso.

– Eles eram homens, ou seja, se masturbavam – disse.

Bufei, arregalando um pouco os olhos.

– E daí? – falei, jogando os braços para o alto.

– E daí que temos o dever cívico de dar a esses pobres homens algo para eles se alegrarem, ou acha que eles exibem filme pornô dentro dos caixões? – zombou – Você não é das melhores, mas deixa dois velhos cadáveres eretos.

Dei-lhe um soco, fazendo-o recuar. Sua lanterna quase caiu, ele riu.

– Seu idiota, eu vou chutar sua bunda da próxima vez – rosnei.

Fuuto revirou os olhos, cruzei os braços.

– Não gostou do que eu disse? Vamos reformular – ele disse, fingindo pompa – Você é muito sexy, querida. Me deixa ereto, tenha certeza.

Dei-lhe outro soco, ele riu de novo.

– Você vai ver pra onde eu vou mandar a sua ereção – resmunguei.

Ele abriu um grande sorriso, mordendo o lábio.

– Tudo bem, me mostre – provocou – Pode sentar em uma dessas lápides, aposto que o Ren aqui não vai se importar se eu te der uma lição bem aqui.

Ele imitou aqueles mesmos movimentos sexuais do clipe e deu duas tapinhas na lápide de Ren, mordi a língua.

– Seu idiota, eu detesto você – falei.

Ele riu, ainda mordendo o lábio.

– Péssima coisa para dizer a alguém em pleno halloween – ele disse.

Revirei os olhos, bufando.

– Que se dane o halloween, nosso irmãozinho sumiu e você fica falando coisas idiotas e agindo como o safado que você é – acusei.

Fuuto revirou os olhos, apontando a lanterna para algum lugar aleatório.

– Ele está logo ali, senhorita preocupada – zombou – Fez um péssimo trabalho como guardiã, se não fosse por mim, esse pirralho ia passar a noite toda aqui.

Trinquei os dentes, passando por ele sem dizer nada. Fui na direção que ele apontava, meus braços se cruzaram sozinhos.

Wataru estava parado diante de um grande mausoléu, ele encarava a construção de modo que seu corpo estava paralisado.

– Wataru? – chamei.

Ele deu um pulo, assuntando-se com minha voz. O pequeno virou-se em minha direção, seus olhos estavam arregalados de puro medo.

– Você está bem? – perguntei.

Ele rapidamente se recompôs, soltei um suspiro. Eu sabia que ele não queria demonstrar, mas Wataru estava apavorado.

– Vem – chamei, estendendo-lhe minha mão – Não sai de perto de mim.

Ele assentiu, aceitando minha mão. Ele estava frio, soltei um suspiro de preocupação.

– Eu to bem, onee-chan – ele disse.

Sua voz estava confiante, mas eu pude ler os sinais de seu corpo. Ele estava caindo de sono, seu corpo quase tremia de frio.

– To vendo – resmunguei – Vamos sair daqui.

Ele assentiu, lançando um último olhar ao mausoléu. Olhei para a construção também, sentindo um arrepio na espinha ao perceber que algo me encarava de volta.

Apertei a mão de Wataru, meus olhos se arregalaram de medo. O pequeno apertou minha mão de volta, puxando-me para longe da criatura.

– Calma, onee-chan – ele disse, calmo e sério como eu nunca o tinha visto – É só um rato, não tenha medo, eu estou aqui.

Deixei-me ser puxada por ele, o enorme rato preto que me encarara correu para dentro do mausoléu, desaparecendo nas sombras.

O espírito do halloween desperta seus maiores medos, e quando você afunda, você percebe o quanto você é fraco.

**~**~**~**

– Coloca essa aqui, pirralho – disse Fuuto, apontando para um ponto no chão.

Wataru assentiu, agachando-se para colocar a vela no chão. Terminei de posicionar a minha, enterrando-a um pouco para que ela não caísse.

– Todas estão fixas? – perguntou Fuuto.

– Sim, Fuu-tan – respondeu Wataru.

Ele dissera aquilo como um marujo fala com seu capitão, não pude deixar de rir comigo mesma.

– Beleza, agora é só acender todas – disse Fuuto.

Wataru assentiu, Fuuto entregou-o um isqueiro. O pequeno acendeu as velas que estavam ao seu alcance, sua mão tremia um pouco.

– Entrem no círculo – disse Fuuto.

Levantei-me do chão, fazendo o que ele havia dito. Wataru entrou no círculo junto comigo. Agora éramos três ali.

Ou quatro, se fossemos contar com a garota morta debaixo de nossos pés.

– Agora vamos começar, sentem – disse Fuuto.

Ele parecia muito contente consigo mesmo, considerando que planejara tudo aquilo sozinho. O círculo de vinte velas em volta do túmulo e de nós mesmos realmente tinha sido uma ideia genial, o fogo aceso abrandou o frio, só um pouco. Sentei-me em uma pedra grande, tomando o cuidado de segurar meu vestido de Lolita para que ele não se encostasse em nenhuma vela acesa. Wataru sentou-se em uma pedra perto da minha, ele ainda estava naquela de “Pose de durão na frente da Nina”, mas eu sabia que ele estava buscando conforto ao sentar ali.

– Vamos começar – disse Fuuto, esfregando as mãos – Desliguem as lanternas.

Desliguei a minha, Wataru desligou a de Fuuto. As únicas coisas que iluminavam o lugar eram as velas e a luz pálida da lua, e mesmo sendo o suficiente para enxergar o rosto dos meus irmãos, só clareava uma pequena parte daquele ponto afastado. Não havia nenhuma lápide ali, apenas a de Jun.

– O jogo é o seguinte: contaremos charadas, e se ninguém conseguir acertar a resposta, jogaremos um dado para decidir quantas velas iremos apagar – disse Fuuto – Faremos isso até ficar apenas uma, e quem tiver mais pontos tem direito a um desejo.

Wataru assentiu, parecia concentrado. Por mais idiota que Fuuto era, ele sabia algumas brincadeiras bem legais.

– Como sabemos o nosso número de pontos? – perguntei.

Fuuto abriu um sorriso, claramente satisfeito por perceber que tinha conseguido minha atenção. Ele sacudiu um pequeno dado, piscando com o olho direito.

– Os dois imbecis entenderam? – perguntou – Ótimo, primeiro as damas.

Ele jogou o dado para mim, revirei os olhos. Encarei o dado, mordendo o lábio de leve. Eu devia conhecer alguma charada, só precisava me lembrar.

Meu pai adorava me contar charadas, sorri ao lembrar de sua favorita.

– Era uma vez um vigia noturno que vivia dormindo durante o trabalho. O chefe então disse que se aquilo se repetisse, o guarda seria demitido. Na noite seguinte, o chefe encontrou o vigia dormindo e gritou “Te peguei!”. O vigia então disse apenas uma única palavra que fez o chefe pedir desculpas e ir embora, o que ele disse? – perguntei.

Wataru franziu as sobrancelhas, pesando. Fuuto revirou os olhos, mordi o lábio.

– Essa é a charada mais fácil que eu já ouvi, eu nem sei por que eu perco o meu precioso tempo aqui – resmungou – Ele disse “Amém”, fazendo o chefe acreditar que ele estava rezando e não dormindo.

Wataru riu, assentindo como se tivesse entendido. Fuuto abriu um sorriso, gesticulando para que eu lhe desse o dado. Revirei os olhos, jogando-lhe o dado. Fuuto girou o dado na mão, jogando-o no chão.

– Três – conferiu Wataru.

Fuuto sorriu, contente.

– Estou na frente – ele disse – E por isso, é a minha vez.

Dei um meio sorriso, estava me divertindo com aquilo. Fuuto olhou de mim para Wataru, como se estivesse decidindo a dificuldade da charada.

– Três irmãos compartilham um esporte familiar, a maratona “Nunca para” – começou, sorrindo como o louco que era – O mais velho é baixinho e gordinho, ele corre muito devagar. O segundo mais velho é alto e magro, ele mantém um ritmo constante. O caçula corre como o vento, sempre muito rápido. Os irmãos mais velhos dizem: “Ele é muito jovem... Então o deixamos correr. Com certeza ele é o número um, mas de certa forma ele é o segundo”. Quem são os irmãos?

Franzi as sobrancelhas, tentando gravar o que ele havia dito. Wataru parecia tão confuso quanto eu, nos entreolhamos.

– Não sabemos – falei.

Fuuto abriu um sorriso brilhante, mordi o lábio.

– É muito fácil, é só pensar um pouco – ele disse – Eles são os ponteiros de um relógio: O mais velho marca as horas, o segundo mais velho marca os minutos e o caçula marca os segundos.

Senti um sorriso nascer em meu rosto, Wataru riu outra vez. Não era difícil, eu só na havia me concentrado o suficiente.

– Eu jogo o dado para apagar as velas, já que ninguém acertou – disse Fuuto.

Eu sabia que ele estava zombando de nós, mas como Wataru sorriu e assentiu, decidir relevar a chatice de Fuuto. O mais velho de nós jogou o dado no chão, ele caiu perto do meu pé.

– Cinco – li, erguendo o olhar.

Fuuto assentiu, erguendo-se de sua pedra. Ele soprou a chama de uma vela, apagando-a com rapidez. Observei-o repetir aquele processo durante mais quatro vezes, quando terminou, Fuuto voltou para sua pedra. Mesmo com quinze velas acesas, a iluminação diminuiu bastante, assim como o calor.

– Muito bom, pirralho, é a sua vez – disse Fuuto.

Wataru assentiu, coçando a cabeça. Ele ficava simplesmente adorável quando estava pensativo, senti vontade de morder o bico que ele fazia.

– Um homem mergulhou na água sem nenhum equipamento para mergulho e conseguiu passar o resto da vida dentro da água. Como isso é possível? – perguntou, dando um meio sorriso travesso.

Franzi as sobrancelhas, Fuuto teve a mesma reação que eu.

– Eu não sei – falei, sincera.

Fuuto assentiu, concordando com minha afirmação. Wataru deu um grande sorriso, divertindo-se com nossas reações.

– É muito fácil, onee-chan – ele disse – O homem morreu.

Franzi as sobrancelhas, Fuuto deu uma risada.

– Esperto, pirralho – ele disse.

Wataru abriu um grande sorriso, claramente satisfeito. Continuei confusa, Fuuto bufou.

– Como essa garota é idiota – resmungou – Pirralho, ela ainda não entendeu.

Wataru riu, encarando-me com aqueles olhos grandes.

– Onee-chan, ele morreu, fim da charada – ele disse, ainda rindo – Eu disse que ele entrou na água sem aparelhos de mergulho e ficou lá pelo resto da vida, ou seja, ele morreu afogado.

Arregalei os olhos, abrindo a boca. Fuuto e Wataru riram, fiz o mesmo.

– Essa foi boa – admiti.

Fuuto assentiu, Wataru parecia estar em êxtase. Ele pegou o dado e jogou-o no chão, ele caiu perto de mim outra vez.

– Um – li.

Wataru assentiu, pulando de sua pedra. Ele parecia estar mais desperto agora, seu rosto não mostrava mais sinais de sono. Ele apagou uma das velas e voltou para seu lugar, peguei o dado outra vez.

– É minha vez? – perguntei.

Eles assentiram, pensei um pouco.

– Um criminoso foi condenado à morte, e por isso ele tinha que escolher entre três portas diferentes para entrar – falei – A primeira estava cheia de focos de incêndio acesos, a segunda estava cheia de assassinos armados e a terceira tem três leões que não comem há três meses. Em qual delas ele deve entrar?

Wataru riu, manifestando-se antes mesmo que Fuuto tivesse tempo de pensar.

– Muito fácil, onee-chan – ele disse – A terceira, se os leões não comem há três meses, eles estão mortos.

Ri, assentindo. Fuuto parecia impressionado, ele encarou o pequeno.

– Você não era um pirralho idiota? – disse.

Wataru bufou, sacudindo a cabeça.

– Eu sou mais esperto que vocês dois juntos, sem querer ofender a onee-chan – ele disse.

Ri, esticando meu braço para afagar sua bochecha. Ele sorriu, trazendo sua cabeça em direção a minha mão.

– Eu sei disso, minha hiena – falei – Muito bem, jogue o dado.

Ele assentiu, entreguei-lhe o dado. O pequeno jogou o dado para o alto, ele caiu perto de Fuuto.

– Dois – disse Fuuto.

Wataru fez uma careta, esticando-se na direção do dado.

– Deu seis, Fuu-tan! – protestou.

Fuuto abriu um sorriso perverso, Wataru bufou. Sacudi a cabeça, meu irmãozinho voltou para sua pedra. Fuuto pegou o dado, pensando um pouco.

– Dois pais e dois filhos foram pescar. Eles passaram o dia todo pescando, mas só conseguiram pescar três peixes – disse – Um dos pais disse: “Isso é suficiente, vamos ter um para cada”. Como isso é possível?

Pensei um pouco, Wataru parecia não saber essa. Mordi o lábio, uma resposta veio à minha mente.

– Eram um pai, um filho e um neto – respondi.

Fuuto abriu um sorriso sarcástico, Wataru jogou a cabeça para o lado.

– Finalmente, pelo menos uma – zombou Fuuto, rindo – Jogue o dado, niña.

Revirei os olhos, mas fiz o que ele disse. Joguei o dado no chão, ele caiu diante de mim mesma.

– Seis – falei.

Abri um sorriso, Wataru fez o mesmo.

– Sua vez, pirralho – disse Fuuto.

Wataru assentiu, pensando um pouco.

– Na televisão cobre um país, no futebol atrai a bola, em casa incentiva o lazer. O que é? – perguntou.

Fiz um bico, Fuuto fez uma careta.

– Diz – disse Fuuto.

Assenti, rendendo-me como ele. Wataru riu, sacudindo a cabeça.

– É a rede, Fuu-tan – respondeu.

Fuuto franziu o cenho, incrédulo.

– Como eu não vi isso? – resmungou.

Ri, encarando Wataru.

– É a estratégia dele, esse moleque espertinho – falei – Ele faz perguntas fáceis de um jeito difícil, então ficamos pensando em coisas absurdas e não percebemos que a resposta é algo simples.

Wataru riu, dando um sorriso travesso. Fuuto semicerrou os olhos, desafiador.

– Muito bem, vamos jogar assim – ele disse – Sua vez, niña.

Assenti, pensando um pouco. Meu estoque de charadas estava quase acabando, eu nunca dera muita atenção às charadas que meu pai tentava me ensinar. Eu sempre achei jogos da lógica algo muito chato, eu nunca me dera bem em xadrez também.

– Se você enfiar uma moeda dentro de uma garrafa e tampar a garrafa com a rolha, como você pode tirar a moeda sem tirar a rolha? – perguntei.

Fuuto mordeu o lábio, pensativo. Encarei-o, dando um sorriso perverso. Aquela era bem simples, só precisava de uma simples ação e poderíamos tirar a moeda da garrafa.

– É só empurrar a rolha para dentro da garrafa, depois é só sacudir a garrafa até a moeda sair – disse Wataru.

Pisquei, o pequeno dava um sorrisinho maroto. Fuuto bufou, cruzando os braços em irritação.

– Jogue o dado, Wataru – falei.

O pequeno assentiu, fazendo o que eu dissera. O dado caiu diante de mim, estiquei meu pescoço para ver.

– Seis – falei, admirada.

Wataru riu, comemorando com uma dançinha fofa. Ri junto com ele, Fuuto bufou.

– Dois trabalhadores estavam concertando um telhado, quando, de repente, os dois caem na chaminé. O rosto de um deles ficou todo sujo de fuligem, enquanto o rosto do parceiro dele continuou limpo. O que ficou de cara limpa foi lavar o rosto, mas sei parceiro continuou trabalhando – ele disse, parecia um pouco irritado – Por quê?

Wataru franziu as sobrancelhas, fiz o mesmo. Não consegui pensar em nada, o pequeno também não parecia saber a resposta.

– Simples, eu explico – disse Fuuto – Quando os dois se olharam, o homem sujo achou que também estava limpo, enquanto o homem limpo achou que também estava sujo. O homem sujo continuou trabalhando, e o homem limpo foi lavar o rosto.

Assenti, gravando na memória. Wataru riu, contente.

– Legal, Fuu-tan – disse, sorrindo abertamente para o mais velho.

Fuuto pareceu amolecer com aquilo, sorri para ele. Ele ficou encarando meu sorriso durante um tempo, soltei um leve suspiro.

O espírito do halloween pode te deixar desesperado, mas tenha certeza de que você sempre achará algo que o deixará calmo de novo.

**~**~**~**

(Música)

– Ganhei! – berrou Wataru.

Ele parecia te dado uma cambalhota, mas não pude ver direito. Só restava uma vela acena agora, a que Fuuto colocara no túmulo de Jun. Eu não conseguia ver quase nada, só podia ver os contornos distorcidos dos corpos de Fuuto e Wataru porque ambos estavam se mexendo.

– Onee-chan, eu ganhei! – berrou Wataru.

Não sei com ele conseguiu me achar, mas retribuí seu abraço animado. Ri um pouco, ele vibrava em meus braços.

– Parabéns, hiena – falei.

Ele riu, acomodando-se em meus braços. Sorri, percebendo que aquele era seu objetivo desde o começo daquele jogo: estar em meus braços.

– Muito bom, nada mal para um pirralho – disse Fuuto.

Wataru riu, nem mesmo as provocações de Fuuto o faziam parar de rir.

– Você tem direito a um desejo, pense bem – falei.

Wataru fez um biquinho, seus olhos refletiam a luz da lua como dois espelhos.

– Eu quero um Milk-shake de chocolate com cobertura de chantili, cereja e chocolate granulado – disse.

Pisquei, Fuuto riu.

– Muito bem, eu te compro um amanhã – falei.

– Nada disso, niña – disse Fuuto – O desejo tem que ser feito na hora.

Franzi a testa, cética.

– E da onde eu vou tirar um Milk-shake de chocolate com cobertura de chantili, cereja e chocolate granulado no meio de um cemitério? Será que a Jun tem um? – falei, sarcástica.

A expressão de Fuuto se fechou, ele levantou se sua pedra. Observei-o ir até o túmulo de Jun, Fuuto passou a mão nele como se estivesse tentando limpá-lo.

– Não zombe da Jun, sua idiota – ele disse – Se você tivesse vivido metade das coisas que ela viveu, estaria vegetando em algum hospital qualquer.

Pisquei, ele não parecia estar brincando. Era a primeira vez que eu ouvia Fuuto dizer algo em um tom tão sério, parece que aquela noite era “a noite das primeiras vezes”.

– Sabe quem criou esse jogo? Sabe quem mandou a Jun para cá? – perguntou Fuuto, virando-se para me olhar.

Seu olhar era crítico, engoli em seco. Fuuto suspirou, sentando-se perto do túmulo de Jun. Ele recostou-se no túmulo, olhando para o chão.

– Jun era uma menina muito alegre, todos que a conheciam diziam que ela era um anjo em forma de gente – contou – Era viveu na década de quarenta, antes mesmo dos nossos pais sonharem em nascer.

Fuuto fez uma pequena pausa, esperei.

– Quando ela tinha sete anos, sua mãe ficou muito doente – disse Fuuto – Seu pai ficou responsável pela casa, pela mercearia que eles tinham, por pagar os remédios que a mulher precisava e por cuidar de Jun e seu irmãozinho, Aiko.

Fuuto parou outra vez, fazendo uma careta completamente enojada.

– Aquele cara era um doente, sabe? Ele merecia sofrer muito por tudo o que fez, ele é quem deveria ficar doente, não a mãe de Jun – ele disse, arquejando no meio da frase – Ele era muito nojento, um verdadeiro bruto com os filhos.

Senti o corpo de Wataru ficar mais pesado, ele devia ter cedido ao sono. Fuuto encarou o pequeno em meus braços, esperei.

– Depois do terceiro ano de doença da mãe de Jun, esse doente decidiu que estava muito necessitado de uma mulher, mas não queria trair sua esposa com uma mulher qualquer – disse Fuuto – Ele estuprou Jun, Nina. Várias e várias vezes, até deixa-la doente também.

Senti um frio na espinha quando Fuuto disse aquilo, abracei Wataru com um pouco mais de força, apenas por instinto.

– Ela era muito alegre, sabe? Adorava brincar, e era muito inteligente – disse Fuuto, olhando para o céu com nostalgia – Ele criou esse jogo para tentar anima-la, iludindo-a com a ideia de que se ela ganhasse, ela podia pedir qualquer coisa, até mesmo a saúde de sua mãe, ou sua liberdade.

Fuuto parou durante um tempo, a chama da vela tremulou com uma leve brisa que soprou.

– Ela estava muito debilitada, quase não saía da cama – disse Fuuto, encarando o chão – O pai dela não parava de estupra-la, nem mesmo respeitava sua doença. Esse cara era muito doentio, ele fazia essas coisas com ela e ainda a forçava a jogar esse jogo maldito.

Engoli em seco, já nem me senti tão presunçosa por ter feito dez pontos. Fuuto me olhou, ele não sorria, nem zombava de mim.

– Ela nunca ganhou, estava muito doente para conseguir pensar direito – ele disse – O estado da mãe dela piorou depois de um tempo, o pai de Jun não comprava mais os remédios que ela precisava por comprar remédios para fazer Jun melhorar, ele era tão doente que não gostava de quando ela ficava calada, ele gostava de ouvir Jun gritar enquanto ele a estuprava.

Wataru se remexeu, dando-me a impressão de que ele estava acordado. Fuuto encarou o pequeno por um momento, ele tinha uma expressão amargurada no rosto.

– Depois que a mãe de Jun morreu, o pai dela ficou ainda mais louco – contou – Em uma de suas vitórias, ele desejou que Jun cavasse uma cova para sua própria mãe no quintal, onde eles a enterrariam. Jun ainda estava doente, mas como tinha a ilusão de poder desejar a vida da mãe de volta, ela fez o que o pai mandara. Eles enterraram a mãe de Jun, e o pai dela e estuprou sobre o túmulo de sua mãe.

Senti meu estômago se revirar, mas eu não sabia se era um efeito retardado do drinque que eu tomei, ou se era efeito da história que Fuuto contava.

– Jun melhorou depois de um tempo, mas seu pai continuava estuprando ela, toda noite – disse Fuuto – Ela completou dez anos um tempo depois da morte da mãe, todos percebiam que ela não era a mesma, mas ninguém sabia o motivo. O único que sabia era o irmão de Jun, mesmo sendo muito pequeno, ele via o que acontecia.

Fuuto encarou Wataru outra vez, meu pequeno engoliu em seco. Ele parecia ter cochilado, mas já acordara.

– Em um dos jogos, o penúltimo deles, o pai desejou que ela matasse o garotinho, ele tinha apenas cinco anos, era muito pequeno – disse Fuuto – Ela se recusou, mas o pai disse que se ela ganhasse, poderia desejar ter mãe e irmão de volta. Jun não acreditou, mas aquele filho da mãe matou o filho na frente dela, enterrou-o na mesma cova que enterrara a mãe de Jun, e estuprou ela de novo, no mesmo lugar.

Fuuto falara essa última parte com uma voz carregada de ódio, engoli em seco. Wataru abraçou-me, como se estivesse buscando conforto.

– Ela ganhou o último jogo, o que deixou o pai muito surpreso, já que ele achava que ela não era inteligente o suficiente para ganhar dele – disse Fuuto – Jun era muito inteligente, ela aprendeu todas as charadas que ele contava, e criou suas próprias charadas, inspirando-se em coisas que ela mesma vivia. No fim, aquele jogo foi tão perturbador, tão forte, que o próprio homem implorou para ter um pedido. Ela não cedeu, percebendo que havia destruído a alma daquele homem com suas charadas.

Fuuto deu um pequeno sorriso, como estivesse contando os acertos de uma prova feita por seu único filho. Ele encarava o chão, sua expressão era tão distante quanto a de Louis.

– Ele jurava que ela era inocente demais para perceber que não podia desejar a vida de sua mãe e de seu irmão de volta, então não se preocupou com aquela vitória – disse Fuuto – Mas Jun era muito inteligente, e mais que inteligente, ela havia sofrido mais do que devia, e sabia disso.

Fuuto finalmente me encarou, não desviei o olhar, nem mesmo sentindo uma conexão sinistra se estabelecer entre nós.

– Jun desejou morrer – disse Fuuto, sua voz saiu suave – Ela desejou, e mesmo ouvindo as recusas dele, ela desejou morrer, e assim aconteceu. Na noite de 31 de outubro de 1944, com dez anos, Jun enterrou uma faca em seu próprio peito, deitou-se em sua cama e esperou pela morte com um sorriso aliviado e lágrimas de alegria nos olhos. Ela morreu para encontrar sua família, morreu para que todos conhecessem sua história. E está se cumprindo, hoje, no aniversário de 70 anos de sua morte, eu estou contando a história dela para vocês.

Desviei o olhar para o chão, Wataru fungou.

– O que aconteceu com o pai dela? – perguntei.

Minha voz saiu quase inaudível, mas Fuuto ouviu.

– Ele se matou duas semanas depois, a polícia só descobriu seus crimes quando foram revistar a casa deles – respondeu – Eles acharam vários diários escritos por Jun, e em um deles, ela confessou o desejo de morrer. Aquele doente também escrevia tudo que fazia com ela, então os policiais ficaram sabendo do suicídio da menina. Revistaram a casa e encontraram o corpo dela no porão, ele não a enterrara porque queria continuar estuprando ela até que seu corpo apodrecesse.

– Eu vou vomitar – gemeu Wataru.

O pequeno enterrou o rosto em meus cabelos, abraçando-me com força. Eu mesmo estava me sentindo péssima, tudo que pude fazer foi tentar acalmar Wataru ao afagar suas costas.

– Entenderam a moral da história? – perguntou Fuuto.

Não respondi, tudo que eu ouvira até agora fora uma história terrivelmente cruel e doentia, mas não tirara mais nada daquilo.

– A moral é: Cuidado com o que você deseja – disse Fuuto – Jun não sabia, mas seu corpo continuou sendo usado. Enterraram ela aqui, mas ela continuou sendo usada. O que a história dela nos ensina é que os desejos que fazemos só favorecem a nós mesmos, os outros apenas sofrem para realiza-los.

Ele parou de falar, fazendo-me entender que ele havia terminado de contar a história de Jun. Não falei nada, ainda estava muito chocada e muito triste para fazer qualquer coisa. Wataru ainda me apertava com força, ele parecia estar tão triste quanto eu.

Fuuto catou todas as velas, enfileirou-as diante da lápide lascada de Jun e acendeu-as com seu isqueiro. As chamas das velas parcialmente derretidas tremeluziram e iluminaram o túmulo velho e maltratado da pequena Jun, a menina mais corajosa e forte que já conheci, e que morrera antes mesmo de saber da minha existência. Fuuto limpou um pouco da terra que cobria o sobrenome de Jun, senti um calafrio ao ver que compartilhávamos o sobrenome.

– Descanse em paz, Jun Kazama – disse Fuuto, encarando a lápide com firmeza no olhar – Você não vai ser esquecida.

Uma forte brisa soprou, apagando a chama de quase todas as velas. Apenas uma ficou acesa, a que iluminava a frase quase toda destruída que fora escrita no túmulo de Jun.

Porque ninguém pode ter completo controle sobre nada, e porque nenhum desejo nos traz a verdadeira felicidade”.

O espírito do halloween existe, você só nunca o viu.

**~**~**~**

(Música)

– Me dê isso – disse Fuuto.

Assenti, passando-o o corpo adormecido de Wataru para meu irmão mais velho. Fuuto carregou o garotinho sem esforço algum, deixando-me com uma enorme sensação de alívio.

– Ele é pesado – falei.

– E você é molenga – retrucou Fuuto.

Ri, sacudindo a cabeça. Ele estava diferente desde a hora em que ele nos contara a história de Jun, não pude deixar de reparar que aquilo tinha afetado-o muito. Fuuto cantara uma música de ninar, acendera as velas de novo e velara o túmulo de Jun até que todas as vinte velas derretessem por completo. Eu o ajudara, cantando uma das músicas que minha mãe cantava para mim antes de dormir. Aquilo parecia ser muito importante para Fuuto, e se era importante para ele, era importante para mim também. Eu vira um novo lado dele naquela noite, um novo lado que me fez gostar dele ainda mais.

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Estávamos indo para a saída do cemitério agora, Fuuto já parecia conhecer o caminho. O túmulo de Jun ficara em uma parte muito afastada, mesmo tendo andado muito, ainda não tínhamos chegado nem no meio do cemitério. Wataru dormira no começo do trajeto, abraçando-me como se sua vida dependesse disso. Ele sempre ficara tão tranquilo e lindo ao dormir, mas daquela vez tudo que eu via ao encarar seu rosto adormecido era uma criança que não sabia, mas era privilegiada.

– Gostou da noite? – perguntou Fuuto, quebrando o silêncio.

Assustei-me um pouco com sua ação repentina, afagando meu próprio braço.

– Adorei, obrigada por me trazer aqui – falei, antes de dar uma risada – Mesmo considerando que você me trouxe a um cemitério e me fez jogar um jogo macabro perto do túmulo de uma garotinha que cometeu suicídio, você salvou minha noite.

Ele riu um pouco, sorri. Eu segurava as duas lanternas, iluminando o caminho certo. Wataru nem mesmo se mexia no colo de Fuuto, acho que ele estava em um estado de sono muito profundo.

– Curtiu a festa? – perguntei.

Fuuto assentiu, antes de rir em tom de zombaria.

– Nem vou perguntar se você curtiu a festa – ele disse.

Revirei os olhos, mas cedi-lhe um sorriso. Fuuto sorriu para o caminho, suspirei.

– Você é apaixonada pelo Louis, não é? – ele disse.

Revirei os olhos, jogando as mãos para o alto.

– Por que diabos todo mundo diz a mesma coisa? – resmunguei – Eu já disse e vou repetir: Eu amo o Louis, mas apenas como meu irmão.

– Reação exagerada por um cara que você ama apenas como irmão – disse Fuuto.

Aquilo me desarmou, soltei um suspiro frustrado.

– Eu sinto ciúmes do Louis, somos irmãos, isso é natural – falei – Se eu te visse beijando uma garota, eu também ia ficar com raiva. É uma reação natural, eu ficaria assim se visse qualquer um de vocês com uma garota.

– Você deve ter visto Tsubaki com umas vinte garotas hoje, por que você não teve nenhum ataque antes? – perguntou Fuuto.

Que droga, ele me desarmava mais a cada nova pergunta. Bufei, tentando organizar meus pensamentos.

– Tsubaki é previsível, e seria suicídio sentir ciúmes dele, eu ficaria louca – respondi – Louis não, ele é muito reservado. Eu achei que ele não namorava ninguém, muito menos uma garota como essa tal de Yui.

Fuuto não disse nada de imediato, apenas pensou no que eu tinha dito durante um tempo. Fiquei em silêncio, apenas iluminando nosso caminho e pensando na ligação de Louis.

– Eu nunca tive um irmão mais velho, e do nada eu ganho uns 12 – falei – Eu me sinto ameaçada de alguma forma, eu sei que é muito egoísta e ridículo da minha parte, mas eu quero ser a menina de vocês.

Fuuto riu, mas não foi uma risada gozadora.

– Isso é mesmo a sua cara, niña – ele disse – Vamos parar de falar nisso, não quero que você tenha outro ataque de fúria.

Ri, mas assenti. Permanecemos em silêncio durante um tempo, devíamos estar perto da saída agora, já que eu via os faróis acesos do carro de Fuuto bem ao longe.

– Ei, topa um desafio? – ele disse.

Assenti, mesmo sem saber o que era. Fuuto pareceu meio surpreso, mas sorriu abertamente para mim.

– Quero que suba em uma pedra e grite bem alto que o ceifador está segurando nossos corações – ele disse.

Ri pelo nariz, ele me encarou.

– Eu não vou fazer isso, não é verdade – falei.

Ele sacudiu a cabeça, ajeitando o pequeno Wataru em seu colo.

– Você já topou, não adianta voltar atrás agora – ele disse.

Revirei os olhos, olhando em volta. Seria errado fazer aquilo, dizer a palavra “ceifador” em um cemitério.

Mas Fuuto havia me desafiado, e por mais insensato que aquilo parecesse, eu odiava ser desafiada.

– Qual pedra? – perguntei.

Fuuto abriu um grande sorriso, mas indicou uma pedra enorme. Fui na direção que ele apontava, subindo na pedra com certo esforço. Tirei meus saltos para conseguir ficar em pé, segurando-os em uma mão enquanto as duas lanternas ficaram na outra.

– O ceifador está segurando nossos corações! – berrei.

Minha voz ecoou pelo cemitério, cortando o silencio da noite. Wataru se mexeu no colo de Fuuto, mas não acordou. Abri um sorriso, respirando fundo.

Aquilo era muito errado, mas de certa forma era libertador. Aquela frase fazia todo sentido, era só rever minha noite inteira. Durante todo o dia e a noite de hoje, meu coração foi segurado por alguém que não tinha a menor pena de tortura-lo. Parecia mesmo que algo macabro estava apaixonado por mim, tinha mesmo um ceifador segurando meu coração.

– Isso! – exclamou Fuuto – Agora diga que não é nossa culpa, mas a morte está apaixonada por nós.

Ri, jogando a cabeça para cima.

– Não é nossa culpa se a morte está apaixonada por nós! – berrei.

Fuuto riu de novo, ri. Wataru acordou, parecendo confuso por um momento.

– Onee-chan? – chamou, procurando-me.

Fuuto riu, girando o pequeno em seu colo para que ele pudesse me ver. Sorri para Wataru, me sentindo tão viva que podia estar brilhando.

– Onee-chan! – berrou Wataru.

Fuuto ergueu o rosto para me encarar, seus olhos se arregalaram logo em seguida. Wataru berrou, um berro de medo.

– Corre, Nina! – disse Fuuto.

Franzi o cenho, virando o rosto para trás. Uma silhueta enorme corria para frente, quase em minha direção, pude ver que ele segurava algo parecido com uma pá enorme.

– Nina! — berrou Fuuto.

Arregalei os olhos, percebendo que a coisa corria mesmo na minha direção.

– Merda! – berrei.

Pulei para o chão, quase me desequilibrando e caindo de cara no chão. Fuuto começou a correr, Wataru se agarrava ao seu corpo. Corri, logo atrás deles. Ouvi passos furiosos atrás de mim, sua respiração era quase um rugido de búfalo.

– Mais rápido, Fuuto! – berrei.

A coisa estava quase me alcançando, o peso de Wataru não deixava Fuuto correr muito rápido.

– Onee-chan! – berrou Wataru.

Berrei, o grito do pequeno parecia ter me dado um choque. Inclinei o corpo para a frente, iniciando uma corrida ridiculamente desajeitada, mas eficiente.

– Nina?! – chamou Fuuto.

– Bem atrás de você! – respondi, gritando – Corre logo!

Ele não me respondeu, apenas correu mais rápido. Tínhamos alcançado certa vantagem, eu não ouvi mais a respiração da coisa com tanta nitidez. No desespero, derrubei uma das lanternas para trás. Minha primeira reação foi voltar e pegar, meu corpo agiu sem minha permissão. Parei de correr por um momento, virando meu corpo para trás.

A coisa berrou de fúria quando viu meu gesto, aquele corpo enorme sacudiu a pá.

– O que está fazendo? Sua idiota! – berrou Fuuto, parando de correr também – Ele vai te pegar.

Nossa, ele vai me pegar!

Voltei a correr, sentindo a veracidade das palavras de Fuuto. Ele também voltou a correr, empurrando os portões do cemitério com um chute violento. Os portões rangerem, Fuuto correu para fora. Segui-o, pulando como uma gazela sendo perseguida. Puxei os portões, fechando-os rapidamente. Fuuto abriu a porta do carro, jogando Wataru para dentro e voltando para me buscar. Minhas pernas pareciam ter perdido a força, ele me jogou por cima dos ombros.

– Suas crianças idiotas! – berrou a coisa, batendo com a pá nos portões – Respeitem os mortos, seus idiotas.

Gritei, percebendo que a coisa era um homem enorme, com uma pá enferrujada. Fuuto atirou-me para dentro do carro, rastejei para onde Wataru estava encolhido. O mais velho de nós entrou no carro, batendo a porta e berrando para o motorista:

– Pisa fundo!

O homem nem mesmo hesitou, o carro deu uma arrancada tão violenta que fez o corpo de Wataru chocar-se contra o meu com força. Fuuto abriu a janela do carro, abrindo um sorriso insano.

– Feliz halloween! – berrou.

Ouvi o homem berrar do lado de fora, a limusine dobrou uma esquerda e o cemitério sumiu de vista. Meu coração ainda não tinha se acalmado, Wataru tremia, seus olhos enormes estavam arregalados de medo.

– O que foi aquilo?! – guinchou.

Agora sim ele abandonara a pose de machão, Fuuto riu pelo nariz.

– Era o coveiro – respondeu.

Engoli em seco, minha respiração estava terrivelmente pesada. Atirei meus sapatos para um canto qualquer da limusine, meus pés estavam doloridos. Eu correra no chão de pedras e gravetos, com certeza tinha me cortado em alguma coisa.

– Será que tem alguma sorveteria aberta? – disse Fuuto.

Bufei, e mesmo não querendo, ri. Fuuto me acompanhou, ergui meu olhar. Ele estava com a maquiagem quase toda desfeita, seus olhos faiscavam em minha direção. Seu sorriso era completamente insano, sua blusa verde tinha alguns botões abertos. Ele estava terrivelmente lindo.

Wataru riu também, mas foi uma risada sonolenta. Ele parecia estar se acalmando, eu não duvidava nada que ele iria dormir assim que eu o abraçasse.

Sorrindo, abriguei o corpo do pequeno em meus braços. Ele aninhou-se em meu corpo, soltando um suspiro de alívio e contentamento. Abracei-o com carinho, ele deitou a cabeça em minha clavícula. Sua respiração eriçava levemente os pelos do meu peito, ajeitei-o em meu colo. Dei um beijo em sua testa, seu perfume tinha se misturado com o cheiro úmido do cemitério.

– Você é muito maternal, Nina – disse Fuuto.

Revirei os olhos, embalando meu pequeno irmão em meus braços. Em questão de uns cinco minutos, ele parecia ter dormido.

– O pirralho foi corajoso hoje – disse Fuuto.

Assenti, sorrindo carinhosamente para o rosto adormecido de Wataru.

– Parece que ele já virou homem, não é mesmo? – sussurrei.

Wataru sorriu, fazendo-me perceber que ele estava apenas de olhos fechados. Ri, sacudindo a cabeça. Fuuto riu, sentando-se ao meu lado. Beijei de novo a testa de Wataru, desta vez ele ia dormir.

– Chega mais – disse Fuuto.

Franzi as sobrancelhas, virando-me para encara-lo. Ele deitou a cabeça em meu ombro, puxando meu braço para cima. Fuuto enfiou-se debaixo do meu braço, aconchegando o rosto em minha clavícula. O resto do seu corpo acomodou-se no banco da limusine, ele fechou os olhos.

– Eu não sou sua cama, sabia? – protestei.

Ele bufou, abrindo um leve sorriso.

– Mas também é macia – sussurrou.

Ri, sacudindo a cabeça. Passou-se alguns minutos, os dois pareciam ter dormido em meus braços. Dei um sorrisinho, aninhando-me no corpo de Fuuto. Se ele ia me fazer de cama, então eu também ia aproveitar sua maciez. Ele me abraçou, mesmo dormindo, parecia saber o que eu queria fazer. Ajeitei Wataru, ele nem se mexeu.

Ficamos ali, nós três, abraçados até eu estar quase dormindo. Parecíamos ter saído da cidade para visitar aquele cemitério, então ainda teríamos um bom tempo para descansar. Minhas pálpebras mediam forças comigo, o silêncio agradável e a temperatura confortável do carro não ajudaram.

Sem ter mais forças para evitar, decidi render-me. Fechei os olhos, respirando fundo. Fuuto respirava bem perto da minha orelha, seu ressonar calmo foi minha cantiga de ninar naquela noite.

O espírito do halloween te caça, te assusta. Você tem medo, você sente frio, mas você continua correndo. Você corre porque sabe que tem um lugar para onde ir, um lar para te proteger. E no fim, você agradece ao espírito do halloween pela diversão, e abraça quem você ama enquanto tudo que você viveu parece virar apenas uma boa história de terror.

O espírito do halloween é você mesmo.

**~**~**~**

Senti algo quente pressionando meus lábios, gerando uma coceira agradável. Aquilo puxou-me devagar até a consciência, respirei fundo, como se estivesse me afogando.

Ouvi uma leve risadinha, o peso saiu dos meus lábios. Abri meus olhos bem devagar, sentindo minhas pálpebras lutarem para continuarem fechadas.

– Não abra os olhos – disse uma voz angelical – Continue dormindo, minha criança.

Por mais curiosa que estivesse, eu estava morrendo de sono. Deixei meus olhos se fecharem outra vez, o homem que me tinha em seus braços parecia estar andando. Ouvi fragmentos de vozes, mas estava sonolenta demais para tentar entender o que elas diziam. O balanço do corpo do homem que me carregava parou depois de alguns minutos, senti meu corpo ser depositado em uma superfície macia e quente.

Os braços do homem se afastaram um pouco, senti um peso ao meu lado. Minhas pálpebras tremeram de novo, mas não abri os olhos. Senti algo pressionar meu queixo, aquele peso tomou meus lábios outra vez. Tentei falar, movendo meus lábios e emitindo um ligeiro gemidinho. O peso em meus lábios me abandonou, ouvi de novo aquela risadinha.

– É bem mais fácil achar sua boca quando você está de olhos fechados, assim o brilho deles não me desconcentra – sussurrou.

Aquela frase me despertou, bem, só um pouco.

– Louis? – chamei, sonolenta.

Ele riu de novo, seus braços fecharam-se em volta do meu corpo com carinho.

– Sou eu, minha criança – ele disse – Volte a dormir.

Tentei não obedecer, mas minha mente estava muito distraída.

– Eu estou com raiva de você? – falei.

Saiu como uma pergunta, nem eu mesma tinha certeza do que havia dito. Louis deu uma risadinha, abraçando-me com mais força.

– Nós selamos nosso contrato de paz com um beijo – ele disse – Durma, não pense em nada.

Assenti devagar, lerda demais para entender o que ele havia dito. Deixei-me ser abraçada por ele, ainda que uma vozinha fina gritasse para que eu o soltasse bem no fundo da minha mente.

Nem meu corpo podia reagir a Louis, ele era simplesmente mais forte.

IMAGEM ESPECIAL (PARA REFLETIR)

Todos nós, desde pequenos, temos um lado oculto. Esse lado é oculto por uma máscara, e essa máscara pode ser muito forte ou muito fraca. As máscaras fracas são aquelas que quase não existem, as que são tão moles que quase não escondem nosso lado oculto. As fortes são aquelas tão duras, tão rígidas, que ninguém consegue tirar. As máscaras fortes são os sorrisos, e as máscaras fracas são as lágrimas. Todos nós temos um pouco de loucura dentro de nós, e mesmo que sua máscara seja fraca, não se aflija. Se você deixa sua loucura transparecer, saiba que você é um de nós.

Todo mundo tem demônios dentro de si, o único problema está em quem os esconde.

Notas finais
Pois é, tia Oceans está poética hoje. Espero que tenham gostado dessa minha reflexão, acreditem, essa filosofia me segue todos os dias da minha vida. Minha máscara não é nem forte e nem fraca, já que eu prefiro nem usar uma. Deixo meus demônios aparecerem, fundindo-se comigo mesma. As pessoas acham que eu sou louca, acham que eu sou má. Amores, eu sou má. Sou egoísta e sínica, só olho para mim mesma, mas é assim que eu sou. Agora, me digam: Quem não é assim? Deixem suas máscaras caírem neste dia, sigam-me para o caminho das trevas. *Até eu fiquei com medo desse meu discurso, me ignorem. Eu sou completamente louca, fazer o que? Espero que tenham curtido, comentem para deixar a tia Oceans feliz XD Imagem especial ---> http://acertandooalvo.files.wordpress.com/2014/08/monstro.jpg O próximo capítulo vai ser legal, eu acho. Data: 03/11/2014. Mais reflexão: Gente, o mês tá acabando (Jura? Eu não tinha percebido... Tia Oceans idiota). E com o mês, se vai a primeira etapa da Fic (Nãaaaao, já vai acabar!). Não, a fic não vai acabar, longe disso. Eu separei as etapas de acordo com o amadurecimento da Nina, e vocês vão sentir isso. Percebam que até o jeito de narrar dela já está mudando, e daqui a dois capítulo, encerramos nossa primeira etapa. Eu não vou fazer nada em temporadas, só avisando. Pra quem shippa Nakira: Ótimo. Pra quem odeia Nakira: Veja por si só XD No comecinho de novembro, ou meio de novembro, iremos ter nosso terceiro especial... Comecem as especulações. Tenham uma boa noite de sono, não se preocupem, com certeza alguém vai rasgar sua barriga com uma faca. Se você dorme sozinha: Não coloquem o cachorro para dentro, tem uma história sobre isso que me arrepia até hoje... Tia Oceans ama vocês, sonhem comigo vestida de bruxa... Ou não. Beijo...