Notas iniciais
Olá, aqui estamos. Gostaria de agradecer à Mallow por seu comentário, estou postando tão cedo por sua causa, obrigada. Espero que gostem, á partir do próximo capítulo as coisas ficam mais interessantes.

Dobrei cuidadosamente a última blusa que sobrara, e guardei-a na mala. A Sra. Mishima observava meus movimentos em seu ritual padrão de “despedida” de um residente, fazendo-me sentir sobre a mira de um Sniper. Fechei a mala azul novinha que os Hinata tinham me dado, dando um sorriso. O senhor Hinata tinha dito que me daria tudo o que eu precisasse daqui para a frente, enquanto Miwa tinha dito que faríamos compras e renovaríamos meu guarda-roupas. Eu estava super feliz, me sentia quase querida por duas pessoas que eu mal conhecia.

– Pegou tudo? – perguntou Annelise, assustando-me um pouco.

– Peguei, senhora – respondi, batendo continência.

Ela assentiu, pigarreando.

– Seus novos responsáveis iram pegá-la ás dez horas da manhã de amanhã, esteja pronta –ela disse – Despeça-se de seus amigos, e não faça nenhuma cena.

Assenti, refreando o impulso de manda-la ao inferno. A diretora deixou o quarto, fechando a porta com um pouco de brutalidade. Suspirei, tínhamos varias teorias para o temperamento de Annelise, mas eu sabia a história real. Ela era completamente diferente, até seu marido e seu filho morrerem em um acidente de carro. Desde então, Mishima tem sido essa pedra de gelo que todos conhecem.

Sentei na minha cama, olhando em volta. Eu morava naquele quarto desde o assassinato dos meus pais, há dois anos atrás. Odiava morar no orfanato, mas gostava daquele dormitório. Eu passara noites e mais noites sem dormir, pensando em minha curta vida. Chorara muito naquele quarto, socara muito aquelas paredes em ataques de raiva. Já tinha escondido muitos doces debaixo daquela cama, e até sabia de uma tábua solta no chão, onde escondia meu dinheiro.

Agachei-me no chão, levantando a tábua. Tudo que eu juntara durante todo esse tempo de orfanato estava ali, eu devia ter algumas centenas. Participei dos esquadrões dos biscoitos durante alguns meses, até Mishima achar que eu estava velha demais para me passar por uma criança inocente. O dinheiro de algumas extorsões também estava ali, lembrando-me de cada vez que os valentões me deram dinheiro para que eu não contasse a ninguém o que eles faziam juntos quando ninguém estava vendo. Em todo esse tempo, eu só gastara um pouco de dinheiro em absorventes para a pequena Cléo, uma das minhas jovens amigas que tinham sido adotadas enquanto eu era rejeitada. Somando tudo, fora um dinheiro muito bem ganho.

Guardei tudo no bolso do casaco, levantando-me em um pulo. Fui até minha cômoda e peguei um papel e um lápis, sentando-me no chão outra vez. Escrevi naquele papel tudo o que sentira naqueles anos de solidão naquele lugar, botando para fora toda minha tristeza e toda a minha raiva. Escrevi sobre as vezes que chorei naquele quarto, e sobre as vezes que ri até passar mal com minhas amigas quando nos reuníamos ali. Escrevi sobre cada criança solitária que abracei, lembrando-me de seus sorrisos únicos. Escrevi sobre os inimigos que tive, mas fiz referencia maior aos amigos que fiz. Citei até mesmo Bruce na carta, e contei a história de Annelise do melhor modo que pude, assim a nova residente não sentiria tanta raiva dela. Escrevi sobre Akira, e sobre todas as vezes que fiquei sem dormir, nervosa quanto aos meus sentimentos. Contei como fora nosso primeiro beijo, sorrindo só de lembrar. Escrevi sobre tudo que vivi naquele orfanato, acrescentando o quão triste eu era lá, e dizendo o quão triste eu estava por ter de deixa-los. A carta acumulou quase dez páginas quando eu terminei, e um enorme peso saiu de meu peito quando coloquei aquele “fim”no rodapé da carta. Sequei as lágrimas que soltara ao escrever, assinei meu nome e guardei a carta, fechando o esconderijo. Talvez ela nem fosse achada, mas eu não me importava, alguém iria conhecer minha história, e isso já era o suficiente.

Levantei do chão, deixando toda a minha tristeza ficar naquela carta. Sequei as últimas lágrimas que tinham ficado, arrumei meus cabelos e respirei fundo. Saí do quarto, deixando lá dentro todas as minhas angustias e concentrei-me no mais grave: Contar para Akira.

Desci as escadas quase correndo, varando no andar da escola. O turno da manhã já tinha acabado, não havia quase ninguém por perto. Dirigi-me para a sala do conselho estudantil, abrindo a porta e entrando.

– Eu já disse que não vou ficar nessa droga de punição – disse Bruce, batendo no balcão com raiva – Invente alguma coisa, diga que eu morri, mas eu não vou ser punido.

Sarah, a responsável pelo turno da tarde, suspirou. Tinha cabelos loiros e olhos verdes, e estava com seu costumeiro uniforme de patrulha.

– Eu não ligo para essa sua birra idiota, são as normas – ela disse, encarando Bruce de forma quase entediada – Agora saia daqui, e apareça às cinco e meia para a sua punição.

Bruce chamou um palavrão, socando a mesa outra vez. Ele virou-se, sua expressão mudou quando ele me viu.

– Gatinha, você por aqui – ele disse, aproximando-se de mim – Também foi vista roubando os cigarros do professor?

Neguei com a cabeça, Bruce riu.

– Só um idiota como você faria uma coisa dessas – afirmei.

Ele bufou, indignado.

– Ei! A culpa é toda dele – ele disse – Todo mundo sabe que não se trás cigarros para uma escola, eu nem ia fumar aquilo. Tenho alguns clientes aqui dentro, eu só estava tentando ganhar algum dinheiro.

– Sei – falei – Bem feito pra você.

Ele bufou, passando por mim e saindo da sala. Sarah suspirou, sonolenta.

– Como se não bastasse a ronda noturna ter sido redobrada, eu ainda tenho que lidar com idiotas como Bruce – ela disse, infeliz.

Soltei um suspiro, já tinha participado da ronda noturna uma vez, mas acabei pegando no sono no meio do meu turno.

– O Akira já veio aqui? – perguntei.

Sarah negou, soltando um bocejo.

– Não, e se o vir, mande-o ficar no meu lugar – ela disse, respirando fundo – Estou exausta.

Assenti, ela deitou o rosto nos braços.

– Devia pedir dispensa essa noite, dormir uma noite inteira para variar – falei – Essas rondas não te fazem nada bem.

– Eu sei, mas elas garantem minha foto no quadro de "patrulheiro do mês" – ela disse, quase dormindo – Poderia apagar a luz? Vou tirar um cochilo.

Ri, mas fiz o que ela disse.

– Obrigada – disse Sarah, bocejando outra vez – Ah, quase esqueci. Soube que você vai embora amanhã, meus parabéns.

Sorri, desviando o olhar.

– Obrigada – falei.

Ela sorriu, seus olhos já estavam fechados. Virei para a porta, Sarah já tinha dormido quando eu saí. Ri sozinha, indo em direção às escadas. Subi todos os andares com certa lentidão, observando bem cada detalhe insignificante daquele lugar. Crianças brincavam em seu andar, despreocupadas. Garotas conversavam em seu andar, penteando os cabelos uma da outra. Garotos jogavam cartas e brigavam, apostando quedas de braços em seu andar. Suspirei, indo em direção ao telhado. Forcei a fechadura para baixo e o trinco se abriu, empurrei a porta e saí. Fechei a porta atrás de mim, já que era proibido ir ali desde o suicídio de Mark Mason no ano passado.

Akira estava encostado no parapeito, olhando em volta e observando o céu. Ele sempre fazia isso, e sempre exibia uma expressão serena e calma quando observava o céu daquele telhado. Sorri, indo até ele devagar. Uma brisa agradável soprou, agitando os cabelos de Akira, que hoje estavam presos em um rabo de cavalo. Abracei-o por trás, enterrando meu rosto em suas costas. Ele levou um pequeno susto, mas logo relaxou. Soltei-o, indo ficar ao seu lado. Seus olhos estavam muito mais claros por conta do sol, fazendo-os parecer quase azul turquesa.

– Oi – falei, dando um meio sorriso.

– Oi – respondeu, seu sorriso em resposta foi radiante.

Engoli meu sorriso, junto com minha coragem. Akira abraçou-me de lado com seu braço direito, passando-o por minha cintura. Encostei minha cabeça em seu ombro, sentindo seu calor.

– Você está bem? – ele perguntou, sua voz mostrava preocupação – Eu vi você chorando hoje, no jardim com uma mulher.

Respirei fundo, abraçando-o por completo. Akira acolheu-me em seus braços, encostando minha cabeça em seu peito. Senti-me abrigada, protegida, amada em seus braços.

– Está tudo bem – ele disse, falando calmamente – Você pode me dizer qualquer coisa, eu vou te ouvir.

Apertei-o com toda a minha força, Akira beijou minha cabeça. Senti segurança em seu abraço, mas minha coragem ainda não tinha voltado.

– Aquela mulher veio com o marido, eles adotaram uma garota – falei, fechando os olhos.

Akira sorriu, abraçando-me com carinho.

– Mais uma que escapa desse lugar – ele disse, parecia realmente contente – Quem foi?

Ergui meu rosto, olhando em seus olhos. Por mais feliz que eu tivesse ficado, por mais que eu quisesse uma família, eu tinha Akira.

– Fui eu – respondi, falando baixinho – Eu fui adotada, Akira.

Seu rosto congelou, seu sorriso foi morrendo aos poucos. Seus olhos tremeram, ele parou de respirar. Akira me encarou por alguns segundos, até sacudir a cabeça e adotar um novo sorriso, um menos sincero dessa vez.

– Q-que bom – gaguejou, pigarreando – Isso é ótimo, Nina. Estou feliz por você.

Olhei em seus olhos, Akira parecia estar fazendo força para não parecer triste. Mas eu conhecia bem aqueles olhos, e aquele olhar não mentia.

Akira estava triste, e aquilo me destruiu.

Baixei a cabeça, deixando as lágrimas saírem sem tentar para-las. Akira soltou um suspiro pesado, abraçando-me um pouco mais. Agarrei-me a ele, usando seu uniforme como objeto para puxá-lo para mim. Akira respirou fundo, pude sentir seu coração acelerado contra minha orelha.

– Não chore, Nina. Você sempre quis esse momento, precisa ficar feliz – ele disse, sua voz saiu entrecortada – Eu estou feliz por você, feliz porque finalmente você vai ser feliz.

– Eu sou feliz – funguei, minha voz estava falha – Eu sou feliz aqui, eu tenho alguns amigos, eu tenho as crianças. Eu sou feliz, Akira. Eu tenho você.

Ele me apertou mais, respirando fundo.

– Feliz de verdade, Nina – ele disse – Eu não posso te dar o que você merece, também moro aqui. Você não vai ser feliz comigo, não morando aqui. Você precisa de um lar, um lugar com pessoas que te amem e te protejam.

Ergui meu rosto, minhas lágrimas ainda escorriam. Akira tinha os olhos marejados, como se estivesse fazendo força para não chorar.

– Aqui eu tenho um lar, com você – falei, minha voz saia muito fraca – Você me protege, você me ama.

Aquilo soou mais como uma pergunta, mas Akira não se ofendeu.

– Minha Nina – suspirou, prendendo as lágrimas – É claro que eu te amo, mas não sou o homem que você merece. Eu não posso te dar um bom futuro, uma família pode.

Afastei-me dele, limpando algumas lágrimas com meus punhos.

– Eu quero uma família, Akira – falei, olhando em seus olhos – Eu quero uma casa, eu quero um lar. Eu quero pessoas com quem eu possa conversar, pessoas em quem eu possa confiar. Eu quero refeições animadas e preces antes de dormir, eu quero natais privados e abraços apertados.

Parei para tomar fôlego, Akira baixou um pouco a cabeça.

– Eu quero tudo isso, mas não quero sem você – falei, fungando – Eu não quero, não posso ficar sem você. Eu quero você, Akira.

Ele ergueu um pouco o rosto, permitindo-me ver suas lágrimas.

– Eu também quero, Nina. Eu quero casar com você, ter filhos com você – ele disse, sua voz estava um pouco tremula, mas ainda era firme – Eu quero feriados, festas e jantares ao seu lado. Eu quero acordar todos os dias com nossos filhos pulando em nós dois na nossa cama. Eu também quero você, Nina.

Não consegui me conter, pulei em Akira, abraçando-o com toda a minha força. Ele retribuiu meu abraço, chorando, assim como eu. Ficamos abraçados durante minutos, talvez quase uma hora. Meus braços estavam começando a cansar, mas eu não conseguia soltá-lo. Akira arquejou, soltando-me um pouco. Olhei para ele, o garoto chorava quase tanto quanto eu.

– Vá, Nina – ele disse – Seja feliz, termine seus estudos.

Akira segurou meu rosto entre suas mãos, olhando bem no fundo dos meus olhos.

– Eu só tenho mais um ano aqui, depois serei maior de idade – ele disse, encarando-me de forma quase desesperada – Eu vou entrar em um campus onde deem moradia, vou trabalhar, vou comprar uma casa.

Ele me apertou contra si outra vez, apertando os olhos.

– Eu vou casar com você, Nina – ele disse – Formaremos uma família, eu te prometo.

Apertei-o, enterrando meu rosto em seu peito.

Confiava em Akira, e o amava. Sabia que poderia demorar, mas não me importava. Eu sabia quem Akira era, e sabia que podia acreditar em suas palavras.

Akira cumpriria sua promessa.

Notas finais
Espero que tenham gostado, comentem. Beijo