The New Girl in the House
4 Despedida
Notas iniciais
Fechei pelo lado de fora a porta do dormitório que fora meu pela última vez, apertando a maçaneta com um pouco de força. Mishima pigarreou, indicando que eu estava demorando demais em uma tarefa aparentemente simples. Eu até concordava com ela, por que eu não conseguia largar aquela maçaneta? Por que não estava com pressa para sair daquele lugar?
– Kazama, está na hora – disse Mishima, dura como sempre.
Soltei a maçaneta como se tivesse levado um choque, e de certa forma era o que parecia. Baixei o olhar, evitando seu olhar.
– Vamos logo, eles estão te esperando – apressou-me.
– Sim, senhora – falei, batendo continência.
Ela saiu andando pelo corredor, sem me esperar. Respirei fundo, sabendo que tinha que segui-la. Meu coração falou mais forte, eu precisava ver Akira primeiro. Enfiei-me no meio de um grupo de garotos e subi para o terceiro andar, recebendo alguns olhares duros da parte deles. Ignorei todos que tentavam chamar minha atenção, dirigindo-me á passos robóticos até o quarto G-7.
Hesitei antes de bater, sentindo uma fisgada no coração. Akira e eu não estávamos muito contentes com o acontecido, mas tentávamos manter as aparências o melhor que conseguíamos, se é que era possível. Sacudi a cabeça, livrando-me desses pensamentos. Bati na porta, aguardando apenas alguns segundos. A porta foi aberta, e eu, puxada para dentro, como sempre. Akira fechou a porta, virando-se para me encarar. Seus cabelos estavam quase normais, levando em conta o modo como sempre ficavam. Seus olhos me encaravam fixamente, como se ele tentasse gravar uma última imagem de mim.
– Vou sentir falta disso – confessei, soltando um suspiro – De ser puxada toda vez que venho te ver.
Akira me encarou, cedendo-me um sorriso.
– É temporário – ele disse – Logo teremos nossa própria casa, aí eu puxarei você toda vez que te ver.
Ri, baixando a cabeça. Akira suspirou, tomando minha mão.
– Vim dizer "até logo" – falei, ainda olhando para o chão – Porque eu sei que não vamos dizer adeus.
– Sábias palavras – ele disse, sorrindo.
Ergui o rosto, encarando-o. Akira dava um sorriso malandro, seu olhar falava exatamente o que sua boca não dizia. Abracei-o, sorrindo.
– Vou sentir sua falta – falei, fechando os olhos.
Akira me apertou, beijando minha cabeça.
– Eu também, Nina – ele disse – Mas tenho algo aqui que nunca vai me afastar de você.
Afastei-me dele, Akira sorria. Ele meteu a mão dentro do bolso da jaqueta e tirou um aparelho de dentro, dando-me uma piscadela.
– Um celular? – perguntei, arregalando os olhos.
– É – ele disse.
Sorri para ele, Akira me olhou.
– Como conseguiu? – perguntei.
Ele deu de ombros, baixando o olhar.
– Eu não precisava daquele console portátil mesmo, e Bruce estava interessado nele – contou, ainda sem me olhar – Eu escondo da Mishima e te ligo todos os dias depois do toque de recolher, assim ninguém vai saber.
Abri a boca, Akira encarava o chão.
– Mas você adorava aquele console – protestei – Akira, você fez negócios com o Bruce! Perdeu o juízo?
Ele me olhou, um tanto sério. A firmeza de seu olhar me pegou desprevenida, calei minha boca.
– Sim, eu fiz negócios com Bruce – ele disse, firme – Perdi o juízo, mas não vou perder o contato com você.
Encarei-o, Akira sustentou meu olhar. Suspirei, cedendo-lhe um sorriso.
– Você é impossível – falei – Mas é assim que eu gosto de você.
Ele riu, abraçando-me de novo. Suspirei, aspirando seu cheiro. Akira enfiou a mão no bolso do meu casaco, ergui uma sobrancelha.
– Escrevi o número nesse papel – explicou – Me ligue assim que conseguir um celular.
Assenti, afastando-me dele. Akira mordeu o lábio, encarando meus lábios fixamente.
– No que está pensando, seu safado? – perguntei.
Ele riu, puxando-me para si.
– Tenta descobrir – respondeu, piscando.
Sorri, mordendo o lábio e inclinando-me para ele. Akira encostou nossos lábios lentamente, exagerando no atraso em seus movimentos. Entrelacei meus dedos em seus cabelos, puxando-o para mim. Akira riu em meio ao beijo, divertindo-se com meu desespero. Tentei enfiar minha língua em sua boca, mas ele me impediu. Afastei-me dele, desgostosa. Dei um passo em direção à porta, respirando fundo. Akira riu, puxou-me pelo braço e me beijou outra vez em um rápido movimento. Sua língua invadiu minha boca, dando-me pouco tempo para raciocinar. Fechei os olhos lentamente, aproveitando o beijo. Akira puxou-me mais para perto pela minha cintura, aprofundando ainda mais o beijo. Passei meus braços em volta da sua nuca, agarrando-o e puxando-o para mim. Akira mordiscou meu lábio inferior, puxando-me para si em meio ao beijo. Suspirei, sentindo a ausência do ar ficar cada vez maior. Ele riu em meio ao beijo, encerrando o contato com pequenos selinhos. Afastei-me dele o suficiente para poder respirar, Akira ainda ria.
– Algum dia eu ainda acabo te matando sem querer – ele disse.
Sorri, um pouco sem graça. Akira beijou minha testa, roçando nossos narizes.
– Eu te amo, Nina – disse.
Sorri, fechando os olhos e aproximando-me mais dele.
– Eu te amo, Akira – falei.
Abri meus olhos, Akira sorria. Abracei-o com força, aspirando seu cheiro. Ele enterrou o rosto em meus cabelos, beijando minha nuca. Permanecemos abraçados por mais uns dois minutos, até finalmente soltarmos-nos. Akira tinha os olhos marejados outra vez, mas tentava disfarçar. Engoli em seco, sentindo meu choro iminente.
– Não chore – ele pediu, acariciando minha bochecha – Mishima e seus novos pais podem ficar curiosos.
Soltei-me dele instantaneamente, arregalando os olhos. Akira me olhou, confuso.
– Meus novos pais – falei – Estou aqui há dez minutos, a Mishima deve estar pirando.
Akira riu de meu desespero, puxando-me para outro abraço.
– Dane-se a Mishima – ele disse, ainda rindo – É seu último dia aqui, você precisa quebrar alguma regra.
Ri, sacudindo a cabeça. Akira puxou minha boca para a sua outra vez, dando-me um delicado e carinhoso selinho demorado. Separamos nossos lábios, ele sorriu para mim.
– Vai – ele disse, soltando-me – Me ligue, e apareça aqui às sextas.
Assenti, sexta-feira é o dia da visita externa.
– Fotografe, escreva, lembre de tudo – ele disse – Me mantenha informado.
– Tudo bem – falei – Tome cuidado com o Bruce, e cuide dos pequenos por mim.
Akira assentiu, dando um sorrisinho. Percebi que aquela era a minha deixa, caminhei até à porta a passos lentos e hesitantes. Minha mão tocou a maçaneta, suspirei. Minha cabeça virou-se para trás sem que eu pudesse evitar, e deparei-me com a imagem dolorosa de Akira chorando discretamente.
Engoli em seco, respirando fundo. Ele secou os olhos, tentando se acalmar.
– Vai logo – ele disse, sério – Antes que eu vá até ai e nunca mais te deixe sair de perto de mim.
Respirei fundo, piscando furiosamente os olhos. Akira respirou fundo, engolindo em seco.
– Até logo – falei, minha voz saiu fraquinha.
Ele riu pelo nariz, uma risada sem humor.
– Até logo – ele disse.
Tentei sorrir, saiu uma careta desfigurada. Encarei novamente a porta, deixando a vontade que eu sentia de agarrar Akira esconder-se bem fundo em minha mente. Aquilo não era definitivo, ainda nos veríamos de novo.
Respirei fundo, girando a maçaneta e abrindo a porta. Saí do quarto antes que perdesse o controle de vez e pulasse em Akira, e caminhei às cegas pelo corredor.
Já havia me despedido de todos que conhecia no dia anterior, mas deixara esse momento para agora. Eu não podia ir sem ver Akira, queria manter a melhor memória dele que podia.
Desci as escadas quase correndo, lembrando-me dos Hinata. Varei na sala da diretora, abrindo a porta aos tropeços. Os três aguardavam-me do lado de dentro, recebi um olhar mortal.
– Onde você estava? – perguntou Mishima, terrivelmente séria.
Ergui os braços em sinal de arrependimento, respirando fundo.
– Desculpem-me, lembrei que tinha esquecido de falar com um amigo – falei – Eu não podia ir sem vê-lo, e acabamos perdendo a hora. Desculpem-me.
Miwa deu um sorriso contido, como se divertisse-se com meus atos bestas. O senhor Hinata assentiu, vindo até mim a passos firmes.
– Bom dia, Nina – ele disse.
Sorri, fazendo uma pequena reverência.
– Bom dia, Sr. Hinata – respondi, feliz.
Ele não apertou minha mão dessa vez, e sim, abraçou-me. Sorri, retribuindo seu carinho de forma contente.
– Pronta para irmos? – perguntou, olhando-me de cima.
Assenti, soltando-o do abraço. Miwa sorriu, vindo até mim e abraçando-me também. Abracei-a carinhosamente, já havia criado certos laços com aquela mulher.
– Olá, querida – ela disse.
– Olá, Miwa – falei.
Ela sorriu, soltando-me.
– Eu já disse, me chame de mãe – ela disse.
Assenti, sorrindo. Mishima veio até nós, estendendo uma pasta grossa para o Sr.Hinata.
– Os documentos da garota, transferências escolares e registros médicos – ela disse.
Sr. Hinata pegou a pasta, olhando para mim de soslaio.
– Vamos providenciar a escola hoje mesmo, e ela será tratada pelo médico da família – ele disse.
Assenti, Miwa pegou minha mão.
– Você vai estudar com seu irmão, e será tratada por seu outro irmão – ela disse, sorrindo para mim.
Assenti, sorrindo. Então eu iria ter dois irmãos, “animador”.
– Vamos? – disse Miwa, olhando para o marido – Ainda precisamos cuidar da escola hoje.
Sr. Hinata assentiu, apertando a mão de Mishima.
– Obrigado por tudo, Sra. Mishima – ele disse – Tenha um bom dia.
– Igualmente – disse a diretora, séria como sempre.
Miwa levou-me para o corredor ainda segurando minha mão, Sr. Hinata vinha logo atrás. Mishima ficou em sua sala, como sempre fazia.
– Minhas coisas? – perguntei.
Sr. Hinata sorriu, emparelhando-se a Miwa e eu no corredor.
– Já estão no carro – respondeu.
Assenti, ele também pegou minha mão. Me senti como uma garotinha outra vez, e tive que sorrir. Saímos do prédio do orfanato, algumas crianças olhavam-me de forma triste. Era claro que todos queriam ser adotados, mas não havia quem os quisesse. Sofri com isso durante alguns anos, e sabia bem como era a sensação.
– O carro está logo ali – disse Sr. Hinata, recuperando minha atenção.
Olhei para onde ele apontava, abrindo a boca sem querer. O carro prateado aguardava bem na frente dos portões principais do orfanato, fazendo-me babar. Era enorme e tinha rodas cromadas, eu não sabia muito de carros, mas sabia que aquele devia ter sido caro.
– Impressionada? – perguntou Miwa, piscando alegremente para mim.
– Um pouco – respondi, tentando disfarçar.
Ela riu, fechando minha boca com seus dedos.
– Não é o que seu rosto está me mostrando – ela disse.
Baixei a cabeça, envergonhada. Era muito claro que eu nunca havia tido um carro como aquele, nem mesmo na época em que meus pais estavam vivos. Miwa me olhou, parecendo perceber minha vergonha.
– Não fique assim, Nina – ela disse, afetada – Eu estava brincando.
Ergui um pouco o rosto, ela sorria de maneira delicada. Dei um pequeno sorriso, ela abraçou-me de lado.
– Isso, querida – ela disse – Sorria.
Abri um sorriso maior, ela riu, contente. Chegamos perto do carro, Sr. Hinata abriu a porta para mim. Agradeci com um sorriso, entrando no carro. Eles afastaram-se para entrar também, deixei meus olhos vagarem entre as crianças daquele pátio. Olhei em todos os rostos, reconhecendo Bruce bem perto do portão. Ele piscou para mim, sinalizando com as mãos que eu era dele. Revirei os olhos, erguendo o olhar para o telhado.
Não me surpreendi ao ver o rosto que eu mais adorava lá em cima, fitando-me à distancia. Ele parecia triste, mas eu não podia dizer isso com toda a certeza. Lembrei-me de meu primeiro dia no orfanato, quando cheguei junto com um assistente social. Lembrei o quão apavorada eu estava, olhando em volta como se estivesse a espera de um novo ataque de bandidos. Lembrei que olhei para cima naquele dia, e deparei-me com o mesmo rosto que fitava agora. Desta vez, o rosto de Akira não me causou medo, e sim tristeza.
Sr. Hinata ligou o carro, cortando minha linha de pensamento por um segundo. Akira ainda me observava de longe, e aquilo cortou-me o coração. O carro acelerou devagar, como se tudo conspirasse para que aquela tortura durasse ainda mais. Aos poucos, a imagem de Akira foi desaparecendo. Dobramos umas duas ruas, e logo o orfanato não estava mais a vista.
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