Notas iniciais
HEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEY! Bom dia (Às onze e meia da manhã, tia Oceans dormiu demais hoje). Como estão as minhas princesas no dia de hoje? Espero que estejam todas bem. Seguinte: Hoje a tia vai nem jantar pra guardar estômago pra ceia da véspera de natal, mamãe vai fazer peru no vinho e eu... AMO PERU NO VINHO! Ah, também vai ter lasanha de peru. Aí a tia fica tipo: Lasanha já é divino, imaginem lasanha de peru! A tia vai ficar GORDA! Chega, chega de gordice. Vocês não vieram aqui pra tia deixar vocês com fome, vamos ler que é bom. Vocês aceitam casar comigo? É sério. Eu amo vocês, muito. Nem quero entrar naquele assunto das notas iniciais do capítulo passado (Prometi pra uma pessoa que não ia mais ficar triste, e gosto de cumprir minhas promessas). Muito obrigada pelo carinho e pelo apoio, eu realmente amo muito vocês, suas lindas! Enfim, esse capítulo tá maior que o outro, e tem uma mini treta. Mini treta é tipo Mini Hentai, ou seja: Não vai voar dente nem unhas, é só uma discussãozinha leve (No próximo tem mais). Espero que vocês gostem, foi feito com amor... Ah, temos um flashback! Sério, os flashbacks voltaram (Mas é só dessa vez, nem se animem). É um pouco do passado Nakira, então eu acho que uma tal de BruhM não vai querer me matar muito depois de ler as três partes (~De joelhos - Bruneca, não me odeie). Enfim, esse também é dedicado à todas vocês. Tá, leiam logo essa joça. Tem frases em espanhol, mas eu traduzi... Imagem de hoje: Kaname Vem-Ni-Mim.

– Você quer mais um pouco de couve-flor com queijo, Nina? – perguntou Ukyo.

Assenti, sorridente. O loiro sorriu, mordi o lábio com a visão. Ele estava muito bonito naquela camisa marrom de botões, eu quase não conseguia me concentrar na comida com tantos homens lindos ao meu redor. Até mesmo Rintarou tinha me surpreendido, estava muito bonito naquela roupa social cinza claro. Eu me sentia quase inferior, os Asahina e os Hinata eram muito lindos para mim. Ema estava divina, Yusuke quase tivera um ataque cardíaco quando vira a moça vestindo aquele lindo vestido azul que eu havia escolhido. Passei meu prato a Ukyo, usando Natsume como meu intermediário. O loiro sorriu, servindo-me como se fosse a coisa mais prazerosa do mundo.

– E que tal mais um pouco de peru? – perguntou Ukyo.

– Adoraria – respondi.

Tsubaki riu, todos nós olhamos para ele.

– Por essa eu não esperava, o Ukyo ofereceu o peru dele pra Nina e ela aceitou – ele disse.

Hikaru riu, assim como Kaname. Iori franziu o cenho, juntamente com Louis, Azusa, Masaomi e Ukyo. Revirei os olhos, pronta para ignora-lo por completo.

– Tsubaki, eu agradeceria se você parasse de dizer essas coisas indecentes na presença de três damas – disse Iori, lançando um olhar repreensivo ao irmão.

Tsubaki revirou os olhos, dispensando-o com um aceno de mão.

– Não seja tão chato, foi só uma piadinha – disse Tsubaki.

– Uma piadinha sem graça, Tsubaki – disse Azusa, também lançando um olhar repreensivo ao irmão.

Iori assentiu, enfatizando as palavras de Azusa. Tsubaki bufou, voltando sua concentração a seu prato cheio de comida. Soltei um suspiro, aquela tinha sido a quinta besteira que Tsubaki dissera durante o jantar, a algo me dizia que aquela não seria a última.

– O que deu em vocês dois hoje? – perguntou-me Natsume.

Olhei-o, ele estava sentado bem ao meu lado. O posicionamento das pessoas hoje estava diferente, já que Miwa e Rintarou estavam lá. Cada um ocupava uma ponta da mesa, tomando as duas cabeceiras para si. O resto de nós estava dividido como podia, eu estava quase no meio, com Natsume e Louis me ladeando. Yusuke e Subaru ladeavam Ema, como de costume. Tsubaki e Azusa estavam juntos, o gêmeo moreno estava bem na minha frente. Wataru, Masaomi e Ukyo ocupavam os lugares restantes, eu tentava não encarar muito o lugar vazio que Fuuto deixara na mesa. Aquilo me incomodava, mas eu nunca diria isso em voz alta.

– Eu não sei, só não é um bom tempo – respondi, erguendo o olhar até o rosto de Natsume.

Ele assentiu, pensativo. Desviei o olhar, tentando achar outra coisa para encarar. Ukyo passou-me meu prato através de dois de nossos irmãos, sorri para agradecer. Encarei meu prato, mordendo o lábio. Pus-me a comer, deliciando-me com a comida. Ukyo tinha preparado tudo sozinho hoje, já que Ema estava ajudando Miwa a me arrumar. Ele passara a tarde inteira na cozinha, esforçando-se para fazer essa ceia incrível. Tinha de tudo ali, e tudo estava maravilhoso. Eu simplesmente amara a couve-flor com queijo, assim como amara o peru assado ao molho de vinho tinto.

– Senti muita falta da comida do Ukyo – comentou Natsume.

Ri, ele deu um pequeno sorriso. Seu prato estava parcialmente vazio, ele já comera outro antes daquele.

– Você cozinha para si mesmo ou come fora? – perguntei.

Natsume deu de ombros, olhando-me rapidamente.

– Um pouco dos dois – respondeu – Eu até gosto de fazer minha própria comida, mas é maravilhoso comer algo que foi preparado para você.

Arregalei os olhos, assentindo entusiasticamente.

– Nem me fale, eu me sinto muito mimada ao comer a comida do Ukyo e da Ema – falei – Eu também comia algo preparado para mim no orfanato, mas a comida de lá era horrível.

Natsume riu baixinho, mordi o lábio. Eu já ouvira aquela risada muitas vezes antes, mas nunca deixava de acha-la o som mais sexy do mundo.

– Você não me parece o tipo que cozinha – falei, dando uma risadinha – Mas é claro que tem muita coisa sobre você que eu ainda não sei.

Natsume me olhou, seus olhos faiscaram.

– Você gostaria de descobrir? – ele perguntou.

Meus pelos se eriçaram, meu coração pulou uma batida. Seu rosto estava um pouco mais perto do meu, aqueles olhos pareciam estar me enfeitiçando.

– Eu adoraria – respondi.

Ele abriu um sorriso lento, encarando minha boca entreaberta por um segundo. Mordi o lábio, seus olhos brilharam quando fiz aquilo.

Alguém pigarreou com força, dei um pulinho. Todas as atenções fixaram-se em Tsubaki, ele parecia estar orgulhoso de si mesmo.

– Conte-nos, Natsume – ele disse, abrindo um sorriso diabólico – O que você disse sobre a Nina hoje mais cedo? Em francês?

Natsume engoliu em seco, todos os Asahina passaram a encara-lo. Engoli em seco, sendo tomada por uma curiosidade enorme. Louis franziu o cenho, como se soubesse, mas não quisesse expor aquilo naquela hora.

– Er... E-eu... – gaguejou Natsume, engolindo em seco e pigarreando ao mesmo tempo – E-eu só...

Ele começou a tossir, alarmando todos os presentes. Minha mão voou até seu ombro, meus olhos estavam arregalados.

– Natt, você está bem?! – perguntei, afagando seu ombro suavemente.

Natsume engoliu em seco, acalmando suas tossidas em um ofego desesperador. Mordi o lábio, preocupada.

– Isso mesmo, você está bem depois dessa tosse ridiculamente forçada, Natt? – disse Tsubaki, cuspindo o apelido do irmão como se fosse um palavrão.

Natsume corou, muito. Engoli em seco, agora todos que encaravam o mais novo dos trigêmeos estavam me encarando.

– Que apelido íntimo, Nina – disse Hikaru, abrindo um sorriso perverso.

– Parece um daqueles apelidos que as mulheres uivam na cama – disse Kaname, mordendo o lábio – Tem certeza de que você não quer me chamar de “onii-chan”? Hum, talvez quando estivermos sozinhos?

Rintarou franziu o cenho, voltando-se para encarar Kaname.

– Com licença, quem você pensa que é para falar assim com a minha filha? – perguntou Rintarou.

Miwa olhou para o marido, chocada.

– Rin-kun! – ela disse, lançando-o um olhar repreensivo.

Rintarou encarou a esposa, Miwa sustentou seu olhar.

– Kaname estava só brincando, não dê ouvidos a ele – disse minha mãe.

Meu pai franziu o cenho, ela esperou.

– Isso não me pareceu uma brincadeira boa para se fazer, especialmente com uma garota da família – disse Rintarou – Eu nunca te impedi de mimar seus filhos, Miwa. Mas esse comportamento não é nem um pouco aceitável, especialmente tratando-se de um homem adulto e de uma adolescente.

Miwa abriu a boca para protestar, mas deve ter desistido. Ela soltou um suspiro pesado, todos nós esperamos.

– Kaname, peça desculpas à sua irmã – disse Miwa.

Kaname prendeu o riso, mas lançou-me um olhar de “sincero” arrependimento.

– Me desculpe, irmãzinha – ele disse, usando aquele tom de voz sexy que ele dominava.

Estremeci de leve, Kaname mordeu o lábio. Rintarou ainda parecia insatisfeito, talvez fosse culpa do olhar sensual que o monge me lançava.

– Ei, estamos nos desviando do assunto principal – disse Hikaru, ainda com aquele sorriso venenoso.

Todos olharam para Natsume de novo, ele engoliu em seco. Encarei seu rosto, esperando. Por mais má repercussão que aquilo tivesse, eu estava curiosa para saber o que Natsume tinha dito sobre mim. O mais novo dos trigêmeos encarou a mesa, respirando fundo.

– E-eu disse que ela ficava bem com esse vestido – disse Natsume, engolindo em seco.

Pisquei, sendo imitada pela maioria dos irmãos. Tsubaki riu pelo nariz, Azusa sacudiu a cabeça.

– Tudo isso para você nos dizer algo que todos nós já sabíamos? – disse Iori, dando uma risadinha – Natsume, você não precisava ter feito tudo isso apenas para dizê-la algo que todos nós já dissemos hoje.

Miwa riu, todos olharam para ela, menos Natsume.

– Estaria tudo bem, se ele tivesse dito apenas isso – disse a nossa mãe, dando aquele sorriso perverso que seus filhos mais malucos herdaram.

Natsume arregalou os olhos, todos os olhares recaíram sobre ele outra vez. Pisquei, Tsubaki semicerrou os olhos.

– O que é isso, Natsume? Desde quando você mente para mim? – ele perguntou, desgostoso – Nos diga a verdade, o que você falou da nossa irmãzinha?

Natsume fez uma careta, mordendo o lábio com força.

– Aonde eu fui me meter? – ele disse, soltando um suspiro pesado – Eu disse exatamente o que todos vocês devem ter pensado.

Ele olhou para mim, engoli em seco.

– Nina – ele disse, respirando fundo – Você está quente como o inferno nesse vestido.

Escancarei a boca, meus olhos pareciam estar saindo de suas órbitas. A reação foi geral, todos os Asahina ofegaram. Tsubaki engasgou-se, tossindo tão alto que quase abafava o som das risadas de Hikaru e Kaname. Miwa ria discretamente, Rintarou encarava Natsume fixamente. Louis exibia uma careta estranha, encarando o próprio prato intensamente. Arquejei, minha boca ainda estava aberta. Natsume me olhou de esguelha, seu rosto estava tão vermelho quanto os cabelos de Yusuke.

– Feliz agora? – perguntou.

Ofeguei de novo, desviando o olhar. Meu rosto estava tão quente que eu poderia assar biscoitos nele, eu devia estar tão vermelha quanto Natsume. Engoli em seco, sentindo minhas entranhas se revirarem com força.

– Você também, Natsume? – disse Azusa, pasmo.

Pisquei, encarando o gêmeo moreno.

– Isso não é justo, nenhum de nós foi tão longe – ele protestou.

– Fale só por você – resmungou Tsubaki, lançando um olhar mortífero ao gêmeo caçula.

Azusa encarou o irmão, Natsume desviou o olhar.

– E desde quando você sabe falar francês? – perguntou Kaname, ainda rindo.

Natsume engoliu em seco, sem encarar ninguém.

– Andei estudando algumas línguas diferentes, é um assunto pessoal – ele disse.

Ergui meu olhar, encarando seu rosto.

– Seu assunto pessoal é nossa guerrinha? – perguntei.

Ele não respondeu, seu rosto ficou vermelho. Sorri, erguendo minha mão para tocar seu rosto corado. Natsume estremeceu um pouco, mas logo relaxou. Afaguei sua bochecha, sorrindo ternamente.

– *Usted es ahora el hombre más caliente y esponjoso que he conocido – falei, carinhosa.

Natsume pareceu confuso, nosso olhar se encontrou. Seus olhos eram lindos, brilhantes e cheios de vida. Aquela vida toda que ele tinha para esbanjar estava rebelando-se dentro dele, implorando para sair. Abri um sorriso terno, ainda afagando sua bochecha.

– Er... Eu não tenho a mínima ideia do que isso significou, mas eu adoro o jeito como seu rosto fica quando você fala em outra língua – disse Natsume.

Aquilo me surpreendeu, soltei um arquejo. Natsume desviou o olhar, ri. Ele inclinou o rosto na minha mão, afaguei sua bochecha por mais tempo.

– *Gracias, gatito – falei.

Ele sorriu, fechando os olhos por um segundo. Sorri, tirando minha mão de seu rosto devagar. Nem me ofendera com a frase que Natsume disse em francês, apenas ficara constrangida. Eu nunca tive problemas com minha autoestima, estava acostumada a ouvir elogios e cantadas de vários garotos do orfanato e fora dele. Mas ouvir algo assim da boca de Natsume, aquilo acabara de vez camada de gelo em volta do meu coração.

– Então é isso? – disse Kaname, rindo pelo nariz – Natsume fala uma coisa dessas da Nina e fica por isso mesmo?

Ele olhou para Rintarou enquanto dizia aquilo, como se estivesse desafiando-o. Rintarou respirou fundo, firme. Meu pai encarou Natsume, meu irmão congelou.

– Sinta-se na mira de um pai, senhor Natsume Asahina – disse Rintarou.

Natsume ofegou, seu rosto ficou vermelho outra vez. A maioria dos nossos irmãos lançava-o olhares hostis, Tsubaki fuzilava o gêmeo com o olhar. Não pude resistir por muito tempo, explodindo em uma risada controlada. Tapei minha boca com a mão, tentando não rir muito alto. Aquilo não durou muito, já que Kaname, Hikaru, Yusuke e até mesmo Wataru resolveram juntar-se a mim, iniciando a crise de risadas mais alta do século. Rimos juntos, e logo Miwa e Rintarou estavam rindo também. Respirei fundo, tentando parar. Mais algumas risadas escaparam por entre meus lábios, Ukyo parecia estar se controlando.

– Acho que já é hora da sobremesa – disse o loiro.

Meus olhos brilharam, Miwa assentiu para o filho. Ukyo levantou-se, dirigindo-se à cozinha com um sorriso divertido no rosto. Ri de novo, tossindo um pouco para tentar me acalmar. Alguns irmãos ainda riam, olhei em volta. Hikaru e Kaname comentavam algo entre si, pela cara do escritor, era algo maldoso. Iori respirava fundo, como se tentasse se acalmar. Masaomi e Wataru riam um para o outro, o mais velho esbanjava alegria. Sorri com a visão, soltando um suspiro.

– Hoje teremos pudim, mousse de chocolate, panetone caseiro e sorvete de chocolate trufado – disse Ukyo.

Ele voltara da cozinha com um pirex cheio de sorvete, sorria como se carregasse seu primeiro filho. Mordi o lábio, animando-me de súbito. Ukyo depositou o pirex que trazia ao lado do enorme panetone caseiro, soltei um suspiro sonhador. Servi-me com panetone, minha boca encheu-se de água.

– Pronta para ganhar alguns quilos? – perguntou-me uma voz deliciosa.

Virei o rosto para o lado, recebendo o olhar de Louis com um sorriso animado.

– Nunca estive tão pronta – respondi.

Ele riu, sorri. Louis largou seu garfo por um momento, colocando sua mão sobre a minha.

– Mais tarde, na hora dos presentes, eu quero que você me ajude com uma coisa – ele disse.

Assenti, curiosa. Louis abriu um sorriso lindo, contente.

– Obrigado – ele disse.

Pisquei, ele mordeu o lábio, encarando meu rosto fixamente.

– Você já deve ter ouvido isso umas mil vezes, mas você é muito linda – disse Louis.

Dei uma risadinha, desviando o olhar. A mão de Louis apertou a minha, entrelacei nossos dedos.

– Nina, você não vai comer? – perguntou Natsume.

Pisquei, erguendo o olhar em sua direção. Ele encarava a mão de Louis, seus olhos pareciam quase fuzilar os dedos do irmão. Engoli em seco, Natsume ergueu o olhar até encarar meu rosto. Ele estava sério, talvez sério demais.

– Você está bem, Natsume? – perguntou Louis, gentilmente.

Natsume semicerrou os olhos por um segundo, o mais novo encarava-o com uma expressão tranquila.

– Estou bem, não se preocupe – ele disse, voltando-se para me olhar como se Louis tivesse virado fumaça – Você dormiu bem naquela noite? Não teve pesadelos com a montanha russa?

Ri, negando com a cabeça. Retraí meus dedos, desvencilhando-me da mão de Louis gentilmente. Não encarei Louis diretamente, mas pude ver que ele lançou um olhar acusador a Natsume enquanto segurava seu garfo outra vez. O mais novo dos trigêmeos deu um sorriso triunfante, segurei meu próprio garfo.

– Eu dormi muito bem, embora eu tenha tido mesmo um pesadelo – falei, dando de ombros.

Aquilo parecia ter atraído a atenção de boa parte dos irmãos, o único que não me olhou foi Yusuke, que estava ocupado demais encarando quase indiscretamente o decote do vestido da Ema. Quase ri daquilo, voltando-me para encarar meu prato.

– Foi mesmo com a montanha russa? – perguntou Natsume.

Neguei com a cabeça, tentando não morder o lábio.

– Sonhei com a noite do... Assalto – falei, hesitando um pouco.

– Assalto...? – disse Natsume, um pouco confuso.

Pisquei, ele me encarava.

– Você não sabe sobre isso? – perguntei.

Ele negou com a cabeça, ainda confuso. Encarei meu prato, engolindo em seco.

– A noite da morte dos meus pais – falei.

Natsume parou de respirar por um segundo, continuei encarando meu prato.

– Você sonha muito com aquilo? – perguntou Louis.

Eu nem percebi que ele estava ouvindo, muito menos que todos os presentes também estavam. Suspirei, dando de ombros uma vez.

– Às vezes, não é sempre – respondi, sem encarar ninguém – Eu costumo sonhar com isso sempre que sinto que alguma coisa está errada.

Masaomi depositou seu garfo na mesa, parando de comer para juntar as mãos abaixo do queixo. Ukyo fez o mesmo, o resto dos irmãos apenas me encarava com uma expressão de puro pesar. Miwa e Rintarou se entreolharam, encarei meu prato.

– Querida, tem alguma coisa te incomodando? – perguntou Miwa, olhando-me atentamente.

– Pode dizer tudo a nós, somos sua família – disse Rintarou.

Os irmãos assentiram, preocupados. Ergui o olhar de leve, reparando em cada rosto sério daquela sala. Wataru estava confuso, fazia um bico de dar pena. Azusa e Tsubaki me olhavam com a mesma expressão pesarosa, como se tivessem esquecido da pequena troca de palavras que tiveram um pouco mais cedo. Masaomi e Ukyo tinham o mesmo olhar que Rintarou tinha, um olhar paternal e acolhedor. Hikaru e Kaname pareciam preocupados de verdade, mas ambos sorriam para me encorajar. Yusuke e Ema me olhavam, o ruivo encarava o rosto da garota de vez em quando, como se estivesse incomodado ao vê-la com aquele olhar triste. Subaru me encarava, ele desviou o olhar quando nossos olhar se encontrou, mas seu rosto continuou com a mesma expressão séria de antes. Iori e Louis olhavam-me ternamente, ambos preocupados demais para descrever.

Desviei o olhar, encarando meu prato outra vez. Havia várias coisas me incomodando, a maioria delas estava me encarando. A pressão de ser a filha nova, a responsabilidade de ser a segunda irmã mais velha, o peso de ser a namorada infiel... E aquilo era só o começo. Como eu explicaria para minha família que o problema era minha falta de caráter? Como explicar aos homens daquela mesa que eu tinha me entregado a um deles? Como explicar para os Asahina que meu maior problema era ser amada demais por eles? Aquilo não era saudável, não era normal. Como explicar para minha família adotiva que o que me incomodava era morar com eles?

Senti uma mão afagar a minha, acordando-me de meu transe. Ergui o olhar, sendo recebida por duas orbes cor de violeta me encarando.

– O que aconteceu com você? – perguntou Natsume.

Aquelas palavras eram minhas, eu as dissera durante o passeio na roda gigante, durante nosso último encontro. Eu dissera aquilo para tentar conforta-lo, para tentar penetrar as paredes que ele construíra em volta que seu coração. Natsume relutara, mas me dissera a verdade. Eu ouvira cada palavra do que ele disse, e senti toda tristeza que ele carregava em seu peito. De todos os irmãos ali, ele era o mais inseguro. Mesmo sendo o mais responsável dos filhos, ele ainda era o mais triste. Mas ele me deixara entrar, ele era o único ali que era meu amigo de verdade. Nem mesmo Louis me fazia sentir tanta segurança, Natsume era o único ali que parecia estar tão confuso quanto eu.

Seu toque era gentil, mas também era firme. Seus dedos entrelaçaram-se nos meus, apertando minha mão para me passar segurança. Seu olhar não deixava meu rosto, ele parecia ler cada linha da minha expressão. Respirei fundo, baixando a cabeça.

– Eu me apaixonei – respondi.

Natsume congelou, e algo me diz que ele não foi o único. Um barulho, para ser exata. Um garfo caindo no chão, largado por seu dono assim que eu disse aquelas palavras.

– O QUE?! – disse Tsubaki, sem nem mesmo ligar para seu garfo caído.

Toda atmosfera do lugar parecia ser feita de chumbo, até mesmo o ar parecia mais pesado. As palavras de Tsubaki pareciam estar ecoando pelo ambiente, deixando-o cada vez mais frio. A mão de Natsume largou a minha, pude senti-lo afastando-se minimamente de mim, como se meu corpo estivesse exalando radioatividade.

– Nina, está na hora – disse Louis.

Ele apenas sussurrara aquilo, mas suas palavras pareciam ter sido gritadas para mim. Engoli em seco, erguendo o olhar. Todos os meus irmãos olhavam para mim, apenas Louis e Hikaru não exibiam expressões de completo choque eu seus rostos. Ema olhava para seu prato, como se estivesse tentando não ouvir.

– O que isso significa, Nina? – perguntou Azusa.

– Você se apaixonou por um de nós, é isso? – disse Iori.

Os dois lançavam-me olhares ternos, quase amorosos. Azusa tentava disfarçar, mas Iori nem mesmo pensara nisso ao me olhar daquele jeito. Olhei em volta, sentindo cada olhar chocado virar amoroso também. O único que me olhava da mesma forma de sempre era Louis, Hikaru encarava seus irmãos com um olhar analítico.

– Você pode dizer, iremos respeitar sua escolha – disse Masaomi.

– E vamos te ouvir, não importa o que você diga – disse Ukyo.

Abri minha boca para responder, mas não consegui dizer nada. Ao sentir todos aqueles olhares esperançosos em mim, minhas palavras pareciam ter sumido para sempre. Natsume continuava calado, encarava meu rosto com seu olhar firme, quase determinado. Engoli em seco, meu coração parecia estar parando de bater.

– Eu sinto muito – falei, engolindo em seco de novo.

Fechei a boca, minhas palavras me abandonaram de novo. Senti uma mão segurar a minha, aquele toque era tão bem vindo quanto o de Natsume. Louis me abraçou, depositando um beijo em minha testa.

– Está tudo bem, você não está sozinha – ele disse.

Assenti, Louis embalou-me em seus braços.

– Nina tem um namorado – disse Louis.

Todos congelaram, suas expressões amorosas pareciam ter virado pedra. Hikaru olhou em volta, analisando a situação. Ele parecia ter gostado do que quer que tenha visto, já que deu um pequeno sorriso. Miwa e Rintarou se entreolharam, ambos soltando suspiros pesados. Masaomi encarou a mesa, chocado. Ukyo franziu o cenho, confuso. Tsubaki me encarava fixamente, vários sentimentos sendo passados em seu rosto. Ele sabia, mas ainda parecia mexido com aquilo. Azusa engoliu em seco, seus olhos estavam levemente arregalados. Louis ainda me abraçava, embalando-me em seus braços como se eu pudesse quebrar a qualquer momento. Natsume encarava-me fixamente, seu rosto parecia estar congelado em uma expressão de dor. Wataru estava boquiaberto, seus olhos enormes estavam saltados. Yusuke parecia chocado, mas sorria como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo. Subaru não encarava ninguém, apenas respirava. Iori fechou os olhos, dando um pequeno sorriso doloroso.

– Agora tudo faz sentido – ele disse, sua voz falhou um pouco – Agora eu entendo tudo.

Ele abriu os olhos, encarando meu rosto. Seus olhos cor de aveia mostravam uma alma em pedaços, seu rosto estava quase se contorcendo de dor.

– Quando? – perguntou Masaomi.

Ele ainda encarava a mesa, sua voz estava séria.

– Antes da chegada dela aqui, durante sua época no orfanato – disse Louis.

Engoli em seco, incapaz de falar qualquer coisa. Louis respirava devagar, como se estivesse tentando acalmar a si mesmo antes de me acalmar. Decidi que aquilo era o fim da picada, ele se esforçava demais para mim, eu estava dependente demais de Louis.

Afastei-me dele devagar, tentando na tremer. Ele encarou meu rosto, surpreso e confuso. Sustentei seu olhar, tentando parecer firme.

– Obrigada, Louis – comecei – Obrigada por estar aqui por mim, mas eles merecem saber, e merecem saber por mim.

Louis piscou, franzindo o cenho em uma expressão de entendimento. Engoli em seco, girando meu corpo para ficar diante dos meus irmãos outra vez. Quase nenhum deles olhava para mim, apenas Hikaru, Yusuke, Kaname e Tsubaki tinham essa coragem. Iori encarava a mesa, seu rosto estava tão contorcido de dor que senti uma fisgada em meu peito quando o vi. Azusa e Natsume estavam quase na mesma situação, a diferença era que Natsume parecia mais contido que Iori. Subaru tinha o olhar fixo em um garfo diante de si, calado. Eu sabia que ele não se importaria muito com aquilo, ele não sentia nem mesmo amor fraternal por mim. Éramos tão distantes, e de certa forma, aquilo era a coisa mais segura que eu tinha para manter minha coragem. Respirei fundo, pigarreado para achar minha voz.

– Eu tinha acabado de chegar ao orfanato, o assistente social não estava nada satisfeito com minha crise de silêncio, mas eu não conseguia abrir a boca de jeito nenhum – falei, engolindo em seco – Eu estava assustada, confusa, com medo. Sabia falar japonês, já que meu pai me ensinara quando eu era criança. Eles tinham essa mania de me ensinar línguas diferentes em vez de me dar uma viagem para a Disney ou algo assim, devo minhas quatro línguas fluentes aos dois.

Olhei em volta, percebendo que alguns deles pareciam me ouvir. Louis encarava meu rosto, incentivando-me com um olhar compreensivo. Desviei o olhar, encarando Subaru antes de continuar. Ele ainda não se movera, então continuava sendo minha força.

– Eu não conhecia o Japão, vivi minha vida quase toda na Espanha – contei – Estava assustada, em choque por perder meus pais, e com medo desse lugar. Eu não conhecia ninguém, não era minha língua, não era meu lugar. Eu me sentia sufocada. Olhava em volta na esperança de ver minha mãe sorrindo para mim em algum lugar, ou na esperança de ver meu pai, sentado em sua poltrona preta com algum jornal na mão. Eu olhava em volta sempre que parava em algum lugar, com medo de ver aqueles bandidos de novo, com medo de ver aquilo tudo se repetir.

Senti uma mão segurando a minha, engoli em seco. Natsume não me encarava, mas sua mão segurava a minha com firmeza. Arrisquei um olhar em sua direção, não vendo nada além daquela expressão controlada de antes.

– Eu olhei em volta naquele pátio, recebendo muitos olhares curiosos de volta – falei, engolindo em seco – Ele tem esse vício de ficar a tarde toda no telhado, ele adora ver os pássaros voando. Ele estava lá naquele dia, e nosso olhar se encontrou na hora em que eu olhei em volta. De todos os olhares que eu recebi depois do assassinato dos meus pais, aquele olhar foi o primeiro que me confortou de verdade. Eu vi sofrimento naquele olhar, mas também vi algo que eu nunca pensei que teria. Nos olhos de Akira, eu vi esperança.

A mão de Natsume de retesou, mas ele não a tirou do lugar. Olhei em volta, percebendo que Masaomi, Ukyo e Wataru já olhavam para mim. Eu me sentia um pouco constrangida diante daquela plateia, mas não me deixei abalar.

– Não tirei meus olhos dele depois disso, foi assim durante quase uma semana – contei – Eu ainda não queria falar, a diretora do orfanato me mandava para o psicólogo do lugar todas as quintas. Eu não confiava naquele homem, não confiava em ninguém naquele lugar. As crianças me encaravam, os garotos pareciam tão curiosos quanto as garotas, e aquilo era mais assustador ainda na época. Eu não comia nem bebia nada, não no refeitório. Eu ficava no meu quarto, encarando as paredes, mordendo a língua e sem conseguir chorar. Quatro dias depois da minha chegada no orfanato, eu desmaiei no banheiro.

Ouvi alguém arquejar, mas não consegui identificar o autor da ação. A mão de Natsume apertou a minha de leve, ele arriscou um olhar em minha direção. Sustentei seu olhar, como se pedisse força. Ele respirou fundo, assentindo quase imperceptivelmente. Mordi o lábio, respirando fundo.

– Ele se ofereceu para ser meu “A.P”, é a sigla para “Ajudante pessoal”. Funciona como um mentor dentro da própria instituição, é quando um residente fica responsável por outro enquanto a diretora permite – continuei – Eu detestei a ideia, não confiava nele, assim como não confiava nos outros garotos que tentavam chegar perto de mim. Akira era gentil, me dava espaço, mas eu não conseguia confiar nele. Mesmo receosa, eu não conseguia afastá-lo. Eu era grossa com todo mundo, mas com ele eu era apenas tensa. Meu comportamento era péssimo, os professores me detestavam. Alguns alunos pediam para a diretora me expulsar, mas ela nunca fez isso. Acho que ela nunca me odiou, devo ter conquistado ela de alguma maneira. Aliás, quando ela me vê hoje em dia, ela até sorri para mim. Não sei se foi por conta da minha adoção, eu fico um pouco...

– Não desvie do assunto, conte-nos o que queremos saber – disse Subaru.

Arregalei os olhos, calando a boca. Ele não tinha se pronunciado até então, e eu meio que preferia que ele se mantivesse assim durante mais tempo. Seu rosto estava duro como pedra, ele parecia cansado como se tivesse jogado três jogos inteiros sem pausa para beber água.

– Subaru, menos – disse Masaomi, um pouco tenso.

– Deixe-a falar, você não é o único que quer saber mais sobre isso – disse Tsubaki.

Encarei-o, ele me encarou de volta. Seu rosto estava retorcido em uma expressão desgostosa, pisquei. Tsubaki já sabia, ele já tinha até conversado com Akira por telefone. Porque ele estava agindo daquela maneira?

– Nina, continue – disse Louis.

– Isso, continue esmagando nossos corações sem pena alguma – resmungou Kaname, fingindo tristeza.

Hikaru riu do comentário do irmão, franzi o cenho.

– Se é para vocês ficarem me interrompendo, eu prefiro nem continuar – falei.

Tsubaki bufou, lançando-me um olhar chateado.

– Você não está em posição para exigir nada, acabamos de descobrir que a nossa irmãzinha escondia o fato de que tem um namorado durante todo esse tempo – ele disse, fungando.

Fiz uma careta cética, encarando-o. Infelizmente, todos ao redor da mesa pareciam concordar com Tsubaki.

– Eu sempre senti que você escondia alguma coisa, mas nunca imaginei a extensão disso – disse Ukyo, soltando um suspiro pesado – Por que você não nos disse antes?

Agora ele, Masaomi, Azusa, Tsubaki, Subaru e até mesmo Louis me encaravam, como se repetissem aquela pergunta para mim. Engoli em seco, mordendo o lábio com força.

– Eu queria evitar essa reação, não queria deixá-los com raiva – falei, arquejando em meio à frase – Sinto muito, eu queria contar, mas sabia que seria difícil.

– Teria sido muito mais fácil se você tivesse contado no dia em que nos conhecemos, isso teria evitado muita coisa – disse Masaomi, sério.

– Ponha “muita coisa” nisso – resmungou Tsubaki, soltando um suspiro pesado.

Arquejei, ele fazia um bico manhoso.

– Tsubaki, você já sabia disso – falei.

Os outros encararam o mais velho dos gêmeos, ele bufou.

– É verdade, mas isso não deixa nada mais fácil – ele disse.

Azusa franziu o cenho, Tsubaki mordeu o lábio.

– Você é especial para todos aqui, não acha que é doloroso ouvir essas coisas? – ele disse, bufando – Eu já sabia, mas nada vai mudar o fato de que dói saber que você não confia em nós.

– Quando você ficou tão sentimental? – perguntei, exasperada – Esse não é o Tsubaki que eu conheço, o que houve com você?

Ele me encarou, seus olhos violeta brilhavam intensamente.

– O que houve comigo? Fui magoado pela minha irmãzinha – ele disse – Respondendo sua primeira pergunta, eu fiquei sentimental assim que percebi que você era muito mais que uma parente para mim.

Pisquei, sentindo minhas entranhas se retorcerem. Tsubaki ainda me encarava, como se me desafiasse a dizer alguma coisa.

– Tsubaki, você não é o único, pare de agir como tal – disse Azusa, encarando o gêmeo.

Tsubaki deu de ombros, recostando-se preguiçosamente em sua cadeira.

– Que seja – ele disse, cruzando os braços atrás da nuca – Continue, maninha. Prometo que não vou mais te interromper, mas eu só falo por mim mesmo.

Ele fechou os olhos, respirando fundo. Pisquei, olhando em volta. A maioria dos irmãos ainda encarava Tsubaki, mas Subaru, Iori e Natsume olhavam para mim, como se enfatizassem a fala de Tsubaki. Engoli em seco, desviando o olhar.

– Ele foi se aproximando aos poucos, tentando me fazer comer no refeitório e me perguntando seu eu precisava de alguma coisa. Eu sempre negava, mas ele é muito insistente. Ficamos nessa durante duas semanas, ele se negava a me deixar sozinha – contei, respirando fundo – Em uma noite, eu tive uma crise de raiva. Estava socando as paredes quando ele abriu a porta, eu sempre esquecia de trancá-la após meu banho noturno. Quase bati nele com o susto, mas ele não se afastou. Berrei com ele a noite inteira, chorando e jogando minhas frustrações na cara dele durante horas. Eu pensava que, se eu agisse daquela maneira, ele desistiria de tentar ser meu amigo. Mas não deu nada certo, pelo contrário. Em vez de fugir de mim, Akira me segurou pelos ombros e disse uma frase que mudou a minha vida para sempre.

Suspirei, fechando os olhos por um segundo. Lembranças daquele tempo enchiam minha mente, eu me sentia sugada por elas. Deixei-me vagar por entre o mar de lembranças, respirando fundo.

Flashback on.

Soquei a parede, trincando os dentes. Minha mão direita já estava doendo, os nós dos meus dedos pareciam estar quase feridos. Engoli em seco, sentindo o ar deixar meus pulmões. Minhas lágrimas molhavam meu rosto, era a primeira vez que eu chorava depois de ser mandada para cá. Eu sentia minha garganta se fechar, como se eu estivesse sendo esganada por uma mão invisível.

Eles me deixaram, morreram diante de mim. Era minha culpa, eu matei meus pais. Minha estupidez, minha infantilidade fora o que causou tudo. Eles se foram para sempre, e era por minha causa.

Soquei a parede de novo, refreando um grito de dor. Arquejei, sentindo minhas lágrimas saírem por outro motivo, além da raiva. Segurei minha mão direita com sua irmã, engolindo em seco.

– Kazama?! – chamou-me uma voz surpresa.

Girei nos calcanhares, esticando meu punho para frente com toda força que consegui reunir. O garoto arquejou de surpresa, desviando-se de meu soco desajeitado com tanta facilidade que me senti humilhada. E como se isso fosse pouco, eu ainda me desequilibrara com a força do soco. O chão me recebeu, grudando em minha bochecha com força. Mal tive tempo para ofegar de surpresa, e logo um gemido de dor escapou por entre meus lábios.

– Você ficou doida? Por que ia socar a minha cara? – perguntou o garoto, chocado.

Gemi de dor outra vez, tentando erguer meu corpo do chão. Fiz força em meus braços, mas só conseguir descolar minha bochecha esquerda do assoalho. Mãos agarraram os dois lados da minha cintura, forçando-me para cima gentilmente. Sacudi meu corpo, livrando-me de seus toques. Sentei no chão, sem vontade de ir mais além. Eu parara de chorar com a confusão, mas meus olhos ardiam.

– Do que você está reclamando? Fui eu quem quase beijei o chão – resmunguei, pigarreando com força para fazer minha voz funcionar.

Yushima riu pelo nariz, sacudindo a cabeça. Evitei seu olhar, a última coisa que eu precisava agora era deixar que o brilho em seus olhos azuis me tirasse a raiva que eu queria sentir.

– A culpa foi sua, afinal, socar o visitante não é nada educado – ele disse, olhando-me com uma expressão divertida.

Bufei, ele riu baixinho.

– O que você está fazendo aqui? Acho que esse soco deixou bem claro que você não é bem vindo aqui – resmunguei.

Ele inclinou o rosto em minha direção, rindo.

– Me desculpe, senhorita Kazama – ele disse – Um humilde cavalheiro como eu não merece mesmo ocupar o mesmo espaço que uma dama como a senhorita, mil perdões. Mas um soco tão gracioso como o seu jamais causaria algum dano, nem se ele acertasse o alvo, o que não foi o caso.

Ele riu mais um pouco, funguei.

– Qual é o seu problema, Yushima? – perguntei, engolindo em seco – Será que você não pode me deixar em paz? Eu não pedi para você ser meu assistente ou coisa do tipo, eu só quero ficar sozinha.

– E priva-la da minha humilde companhia? Nunca! – ele disse, fingindo ultraje – Eu não tenho um problema, só estou tentando ajuda-la a resolver o seu.

Soltei uma risada carregada de escárnio, erguendo o olhar. Ele parou de sorrir quando viu minha expressão, talvez ele não gostasse de ver uma garota chorosa.

– Meu problema é você, não tá vendo? – falei – Fala sério, o que diabos você veio fazer aqui?

Yushima suspirou, continuei evitando seu olhar. Ele agachou-se ao meu lado, deixando seu corpo cair pesadamente no chão. Estremeci, afastando-me dele quase indiscretamente. Eu não confiava nele, mesmo depois de quase um mês de convivência.

– Você não foi jantar, eu fiquei preocupado – ele disse – O que houve? Achei que tínhamos feito algum progresso.

Ele me olhou, parecia mesmo preocupado. Desviei o olhar, engolindo em seco.

– Não estava com fome – respondi.

Yushima me encarou, como se tentasse ler minha mente.

– Sério? Esse é seu argumento? – ele disse – Por favor, Kazama. Eu ando grudado contigo há semanas, se tem uma coisa que eu descobri é que você tem um apetite de leão.

Bufei, quase baixando minha guarda. Ele deu um pequeno sorriso, contente. De todas as vezes que ele tentara me animar, aquela era a única vez que ele quase me fizera sorrir.

– Eu não estava com fome, é sério – falei – E eu não tenho apetite de leão, eu nem como direito, não aqui.

Ele riu, dando-me um leve empurrãozinho com seu ombro.

– Isso é o que você diz, mas eu vejo muito bem a cara que você faz quando é dia de pizza – ele disse – Aliás, você está magrinha. Devia comer mais, e sair desse quarto com mais frequência.

Suspirei, encarando a parede. Ele encarava meu rosto, analisando minha expressão.

– Você nunca cansa de tentar mandar em mim? Acho que eu já devo ter deixado bem claro o quanto eu detesto seguir ordens – falei.

Ele suspirou, fixando seu olhar na parede.

– Eu não estou tentando mandar em você, só não acharia legal se você morresse de desnutrição nesse quarto – ele disse – Eu não estou brincando, Kazama. Você é muito teimosa, mas está ficando fraca de novo. Eu consegui te fazer comer direito desde a semana passada, mas hoje você regrediu. Voltamos ao começo? Eu vou ter que te arrastar para o refeitório de novo?

Pensei sobre aquilo, e era verdade. Ele me arrastara para o refeitório na segunda feira passada, e por mais que eu relutasse, eu sabia que ele estava certo. Eu não fazia refeições completas desde... Aquele dia. Eu sentia vertigens de vez em quando, e não conseguia erguer uma simples caneta. Fora que uma dor de cabeça me atormentava, mas eu não conseguia confiar naqueles órfãos.

– Eu sei que é difícil, eu também não fui um novato muito fácil de ser contido – disse Yushima, despertando-me de meus devaneios – Eu vim pra cá com uma garota chamada Sarah, ela está na nossa classe. É nova demais, mas pulou algumas séries por ser inteligente.

Assenti, indicando que sabia quem era. Sarah sorrira para mim no meu primeiro dia de aulas, e sentava ao meu lado desde então. Era gentil, mas eu não confiava em ninguém.

– Meu modo de extravasar minha raiva foi diferente, eu ficava tentando arrumar briga. Achei que se socasse alguém, aquela raiva passaria – disse Yushima, dando um sorriso de canto – Como eu estava errado, arrumar brigas só me deu um nariz quebrado, um braço deslocado e um belo chute no saco.

Ri pelo nariz, ele soltou um suspiro.

– Aquilo doeu, mas eu meio que mereci – ele disse, suspirando.

Sacudi a cabeça, ele olhou para mim.

– Eu fui um idiota, mas não tentei me autodestruir – ele disse – Você já deve estar cheia dessa minha frase, mas você realmente precisa comer.

Soltei um suspiro, Yushima desviou o olhar.

– Deixando isso de lado, você está parecendo alguém que precisa seriamente de um pote de sorvete – ele disse – Por que estava chorando?

Olhei-o, cética. Yushima não me encarou, apenas fitou a parede enquanto esperava minha resposta.

– Sério? Você ainda pergunta? – perguntei, bufando – Eu sou órfã.

Ele deu de ombros, virando o rosto para me encarar.

– Isso somos todos, ou não estaríamos nesse orfanato – ele disse – Não foi isso que eu quis saber, não se faça de burra.

Pisquei, ele continuou me encarando. Bufei, desviando o olhar.

– Eu ainda não sei por que eu não te chutei daqui, tava demorando para você revelar seu lado “pé no saco” – resmunguei.

Ele riu, lançando-me um olhar calmo.

– Ei, eu já levei um pé no saco, não é divertido – ele disse, suspirando – Vai, não vai doer se você me contar.

Suspirei, ele esperou. Eu não confiava nele, não mesmo. Ainda que estivéssemos nos aproximando um pouco, eu ainda não me sentia confortável ao seu lado. Engoli em seco, tentando ganhar coragem.

– Eu sinto falta deles, dos meus pais – falei – Me sinto mal quando penso que estou viva enquanto eles estão mortos, principalmente quando levamos em conta que a culpa da morte deles foi toda minha.

Yushima piscou, franzindo as sobrancelhas. Evitei seu olhar, encarando a parede.

– Acha que o que aconteceu foi sua culpa? – ele perguntou.

Assenti, mordendo a língua. Já sentia meus olhos arderem outra vez, eu estava perigosamente perto da beirada daquele precipício.

– Por quê? – perguntou Yushima.

Bufei, engolindo em seco.

– Porque sim, foi minha culpa – falei – Eu insisti para sairmos de casa, eles nem queriam. Eu insisti para tomarmos sorvete antes de ir para casa. Fui eu quem fiz birra para sairmos logo e fiz meu pai esquecer de trancar tudo direitinho. Eu fiz questão de passar duas horas numa fila para pegar o autógrafo de uma modelo exibicionista e fútil. Eu não deixei que eles descansassem porque sou egoísta!

Percebi um pouco tarde demais que estava chorando de novo, e parei de falar. Engoli em seco, fungando para fazer as lágrimas pararem de jorrar. Meu esforço foi inútil, minhas lágrimas lavavam meu rosto, como uma cachoeira quente.

– Eu fui a culpada, foi por minha causa que meu pai levou aquele tiro – falei, tossindo um pouco – Eles eram jovens para morrer, Yushima. Eu tirei a vida de suas pessoas incríveis, e não estou pagando por isso. Eu sou uma assassina, posso não ter sido o ladrão que puxou o gatilho, mas foi por minha causa que meus pais morreram.

Tentei secar minhas lágrimas com minhas mãos, mas logo outras saíram. Engoli em seco, trincando os dentes.

– Dizem que lembrar dos bons momentos alivia a dor, mas isso é mentira – falei – Só me faz querer estar com eles, só me faz sentir ainda mais dor e culpa.

– Kazama, o que diabos você pensa de si mesma? – disse Yushima.

Encarei seu rosto, ele estava sério.

– Nada do que aconteceu foi culpa sua, pare de dizer isso – ele disse.

Trinquei os dentes, ele fixou seu olhar no meu.

– Foi minha culpa, eu sei disso, cala a boca – resmunguei – Se eu não tivesse insistido eles...

– Teriam ficado em casa, isso é verdade – disse Yushima, interrompendo-me – Mas aqueles ladrões viriam assim mesmo, eles roubariam e matariam todos vocês. Você teve sorte, seus pais te amavam, eles morreram por você.

Pisquei, meu coração pulou uma batida. Yushima fechou os olhos, soltando um suspiro pesado.

– Eles estariam dormindo, e você estaria na sala, assistindo TV ou coisa do tipo – disse o garoto – Você gritaria quando visse os ladrões, e seus pais acordariam. Você levaria um tiro, morreria na hora. Seu pai teria um ataque, os ladrões o matariam assim que ele tentasse lutar contra eles. E sua mãe correria até seu corpo, gritaria tão alto que alertaria os vizinhos. Os ladrões a matariam também, e depois fugiriam o mais rápido que conseguissem. Percebe onde eu quero chegar? Seus pais salvaram a sua vida.

Engoli em seco, sentindo minhas lágrimas saírem com força.

– Mas e se não fosse assim? E se só eu morresse? – perguntei.

Yushima segurou-me pelos ombros, encarando-me profundamente.

– Você está viva, Kazama – ele disse – Você não morreu, você está viva por causa deles. Pais não medem esforços para proteger seus filhos, você é a prova viva disso. Se só você morresse naquele dia, eles dois nunca iriam viver em paz. Você devia ser grata pelo sacrifício deles, já que você só está viva porque eles morreram.

Arquejei, desviando o olhar. Ele não me soltou, apenas segurou-me pelos ombros.

– Sabe quem foi minha mãe? Miko Yushima – ele disse – Ou melhor: Mikkie, a prostituta. Ela engravidou para tentar arrancar dinheiro do meu pai, mas quando viu que não ia funcionar, ela me jogou em um porão escuro e mofado durante dez anos. Eu só comia os restos que as outras prostitutas deixavam para mim, até mesmo aquele cafetão imundo me alimentava, e ela não. Eu teria ficado lá por mais tempo, se não fosse a morte da mãe da Sarah. Depois disso, eu fui jogado aqui. Mikkie nunca apareceu para me tirar daqui, e eu passei cinco anos sem saber onde ela estava. Foi só quando eu fiz quinze anos que um assistente social apareceu aqui e disse que minha mãe estava morrendo, ela tinha câncer, mas não parava de beber nunca. Eu fui visita-la no hospital, e ela cuspiu na minha cara quando me viu. E sabe o que ela disse antes de ter uma crise e morrer bem na minha frente? Ela disse que meu pai devia ter usado camisinha, porque eu era o maior erro que ela já cometera.

Soltei um muxoxo, engolindo em seco. O aperto de Yushima em meus ombros se desfez, mas ele não me afastou. Em vez disso, ele aproximou-se de mim até eu estar abrigada em seus braços.

– Ela morreu na minha frente, o por mais ódio que eu sentisse, aquela dor foi mais forte – ele disse – Eu nunca soube o que era amor de uma mãe, tudo que eu já conheci foi os sorrisos distantes e os olhares tristes que meu pai me lançava quando nos víamos. Ele sofreu um acidente quando eu tinha sete anos, ficou na cadeira de rodas por um ano, depois sofreu um ataque cardíaco e morreu. Ele tinha outros quatro filhos, pelo que eu me lembro. Teve uma crise no casamento e conheceu minha mãe em uma esquina qualquer, e foi disso aí que eu saí. Ele era alemão, eu acho. Tinha um sotaque engraçado, e ainda dizia que o Japão era como uma segunda casa para ele. Eu nunca soube o nome dele, mas ele sempre me chamava de “sohn”, que significa “filho” em alemão. Meu pai nunca tentou me tirar daquele porão, só dava uma quantia mensal para comprar comida para mim e me via uma vez por mês em um hotel qualquer. Eu nunca soube o que ele era, mas meu pai sempre estava bem vestido. Isso foi o mais perto de um afeto que eu já recebi, mas nunca senti nada além de repulsa por meus pais.

Yushima respirou fundo, arquejando um pouco. Funguei, ele me apertou um pouco mais.

– Eu cuidei da Sarah porque não queria que ela sofresse como eu, éramos como irmãos – ele disse – Ela é minha única família, e eu faria qualquer coisa por aquela garota. Eu posso não ser um pai, mas sei o que é querer proteger alguém com a própria vida. Você não precisa acreditar em mim, mas tente aceitar o esforço que seus pais fizeram por você. Eu não sei o que é receber amor, mas posso ver quando alguém recebe. Você é sortuda, seus pais te amavam. Ele se sacrificaram por você, e tudo que você fez até agora foi pensar em si mesma. Pense neles, Kazama. Você acha que eles gostariam de te ver assim, agindo como uma bruta e passando dias sem comer? É isso que você faz para agradecer o que eles fizeram por você? É isso que a morte deles significa para você?

Ele me apertou com força, enterrando o rosto em meus cabelos. Senti sua respiração na raiz dos meus cabelos, meu coração pulou uma batida.

– Reaja, Kazama – ele disse – Viva por eles, viva por você.

Engoli em seco, fechando meus olhos. Minha cabeça gritava para eu afasta-lo, insistia que o que ele dissera não era verdade. Mas meu coração falou mais alto, e naquele momento, tudo que eu queria era o calor de Yushima.

Devagar, com timidez, fui me aproximando dele. O garoto parecia saber onde eu queria chegar, e me ajudou ao colar nossos corpos. Abracei-o, forçando meus braços a reagirem. Funguei, tentando não chorar muito alto. Yushima tinha cheiro de mel e aveia, como mingau infantil da melhor qualidade. Também cheirava a livros e grama recém-aparada, como se tivesse passado o dia todo lendo nos jardins do orfanato. Seus braços eram magros, mas me passavam segurança. Sua respiração batia em meu pescoço, eriçando os pelos ali presentes. Eu me irritaria com aquilo, mas o calor do corpo daquele garoto suprimia meus sentidos.

– Agora, tente parar de chorar – ele disse, seu hálito quente bateu em minha pele – Se tem uma coisa que eu aprendi naquele porão, é que mulheres não nasceram para sofrer. Eu já vi muitas garotas chorando, mas quando é você, eu sinto como se o mundo estivesse perdendo a cor. Não chore mais, Kazama. Não tenha medo, você não está sozinha.

Arfei, apertando-o com toda força que tinha. Afundei-me em seu abraço, deixando seu calor matar aos poucos minha tristeza. Sua mão direita fixou-se no meio das minhas costas, sua outra mão começou a afagar meus cabelos carinhosamente. Aquilo era diferente do carinho que eu estava acostumada a receber, aquele carinho não era tão gentil, aquele carinho era bruto. Como se tentasse afastar todo mal que me rodeava, aquele carinho cercou-me como muralhas. Modelando-me, construindo-me. Meu corpo inteiro amoleceu, senti uma espécie de chama esquentando meu peito.

– Promete que vai comer direito? – disse Yushima.

Assenti, ainda de olhos fechados. Ele soltou um suspiro, encerrando nosso abraço. Uma sensação de solidão me encheu, abri os olhos. O garoto olhava em meus olhos, o brilho daquelas suas esferas azuis pareciam aquecer meu coração. Ele sorriu, um sorriso sincero.

– Então, vou começar a te chamar pelo seu primeiro nome – ele disse.

Fiz uma careta, afastando-me dele.

– E o que uma coisa tem a ver com a outra, Yushima? – perguntei.

Ele riu, dando de ombros.

– Se vamos ser amigos, então eu vou te chamar pelo seu primeiro nome – ele disse.

Soltei uma risada carregada de escárnio, erguendo-me do chão.

– Eu nunca disse que seríamos amigos, eu só disse que ia comer – falei.

Ele abriu um grande sorriso, erguendo-se do chão. Seu corpo parou diante do meu, Yushima encarou meus olhos.

– Se você prometeu algo para mim, isso significa que somos amigos – ele disse.

Revirei os olhos, sentindo meus lábios se repuxarem em um pequeno sorriso. Ele envolveu minha cintura com seus braços, puxando-me para si. Arquejei, Yushima enterrou o rosto em meus cabelos.

– Obrigado – ele disse.

Pus minhas mãos em seu peito, afastando-me dele de forma quase rude. Ele não reclamou, mas também não me soltou.

– Pelo que? – perguntei.

Ele sorriu, encarando meus lábios.

– Por sorrir – ele disse – Posso estar faltando com respeito à senhorita, mas você fica linda quando está sorrindo.

Revirei os olhos, permitindo-me dar mais um sorriso. Yushima riu, apertando-me em um abraço forte. Ele girou-me de leve, rindo baixinho.

– Então, qual é o seu nome mesmo? – ele perguntou.

Suspirei, ele esperou.

– Nina – respondi – E o seu?

Ele suspirou, esperei.

– Akira – respondeu.

Suspirei de novo, ele me imitou. Yushima... Digo, Akira, me soltou. Seu sorriso era reluzente, combinando com o brilho de seus olhos. Senti meus pelos se eriçarem, nunca tinha visto seu rosto tão de perto. Ele era lindo, lindo de um jeito desleixado e bagunçado. Sua expressão gentil combinava com seu sorriso safado, ainda que aquela fosse uma combinação estranha. Por mais dor que eu carregasse no meu peito, eu não podia deixar de me eriçar.

E a beleza daquele rosto não era nada comparada à beleza daquela alma. Akira era bom, e era meu apoio.

Flashback Off.

Engoli em seco, encarando a mesa. Lembrar daquilo fazia meu peito doer, como se meu coração estivesse bombeando ácido no lugar de sangue. Eu já não conversava com Akira há semanas, e aquilo estava me matando. Eu mesmo pedira aquele tempo, mas morria a cada segundo que passava.

– Nina? – chamou-me uma voz linda.

Pisquei, erguendo o olhar. Louis encarava meu rosto, ele parecia quase preocupado.

– Sim? – respondi.

Louis fez uma careta engraçada, esperei.

– Você ficou vegetando durante uns cinco minutos, encarando a mesa – disse Tsubaki, sacudindo a cabeça a cada nova palavra, como se estivesse cantando – Tava pensando no seu namorado? O caso é mesmo grave.

Azusa franziu o cenho, encarando seu gêmeo.

– Ei, isso não é motivo de piada – ele disse, sério – Esse assunto continua sendo importante e...

– Tá, todo mundo já sacou – disse Tsubaki, abrindo os olhos e fazendo uma careta – A Nina tem um namorado, viva! Podemos terminar de comer agora? Eu quero meus presentes.

Kaname riu, Hikaru e Yusuke fizeram o mesmo. Tsubaki deu um sorrisinho, nosso olhar se encontrou. Esperei, ele deu uma piscadela.

– Depois diga a ele que eu mandei um abraço de natal – ele disse.

Ri, mas assenti. Tsubaki deu um sorriso contente, como se estivesse feliz por me fazer rir. A verdade era que nós estávamos distantes, e ele sempre tentava me fazer rir. Talvez suas piadas idiotas de hoje fossem apenas um último apelo, ele devia estar desesperado. Sorri, lançando-o um olhar doce.

– Obrigada – gesticulei com os lábios.

Tsubaki sorriu, assentindo de leve. Masaomi respirou fundo, Ukyo fez o mesmo. Iori ainda encarava a mesa, engolindo em seco de vez em quando. Subaru agora comia sua sobremesa, ignorando os cutucões que levava de Kaname, o monge mais pervertido e lindo que eu já vira. Azusa, Natsume e Louis olhavam para mim, como se esperassem por meu pronunciamento. Engoli em seco, não sabia o que dizer.

– Acho que já chega desse assunto – disse Masaomi.

Ukyo assentiu, confirmando as palavras do irmão. Soltei um suspiro de alívio, sentindo um sorriso minúsculo nascer em meu rosto. Os irmãos murmuraram palavras de acordo, senti aquele clima pesado se dissipando devagar.

– Bom, uma coisa é certa – disse Kaname, sorrindo abertamente – A corrida agora ganhou alguns obstáculos.

– Resta apenas ver quem é o melhor competidor – completou Hikaru, assentindo para o irmão monge.

Os dois riram, ambos olharam para mim. Franzi o cenho, desviando o olhar.

– Que bom que eu tenho canelas fortes – disse Tsubaki, lançando-me uma piscadela.

Natsume bufou, assim como Subaru, Azusa e Wataru. Louis franziu o cenho, fiz o mesmo.

– Não fique tão confiante, alguém me disse recentemente que não é todo mundo que tem canelas como as minhas – disse Natsume, simplesmente.

Tsubaki piscou, todos os olhares recaíram sobre mim. Arregalei os olhos, Natsume deu um sorrisinho discreto.

– Por que todo mundo olha logo para mim? Qualquer um podia ter dito isso – falei, tentando não ficar nervosa.

Hikaru e Kaname se entreolharam, eles trocaram risadinhas maliciosas. Azusa fechou os olhos, respirando profundamente. Iori continuava inerte, assim como Subaru. Tsubaki soltou um muxoxo de desgosto, lançando-me um olhar indagador.

– Por que disse isso, maninha? – ele disse – Isso não é justo, a mim você não elogia.

Natsume deu de ombros, lançando-me um olhar de soslaio.

– Se vocês soubessem quanta discussão eu tive que aguentar para receber esse “elogio”... – ele disse, deixando a voz morrer no ar.

Arregalei os olhos, lançando-lhe um olhar indignado.

– Nós não discutimos, não diga bobagens – protestei.

Natsume riu, olhando-me de cima com seu jeito brusco de sempre.

– Não sou eu quem vive dizendo bobagens, sou, gatinha? – ele disse.

Pisquei, ele deu um sorriso brilhante. Tsubaki deu um tranco para frente, fazendo barulho com sua cadeira. Natsume piscou, olhando em volta. A metade dos nossos irmãos encarava-o com o mesmo olhar hostil, até mesmo Azusa estava no meio. Wataru fazia um bico tão lindo que eu não conseguia ficar assustada, ainda que seu olhar assassino fuzilasse Natsume.

– O que é isso? Estão trocando apelidinhos de casal agora? – resmungou Tsubaki, cruzando os braços acima do peito.

– “Natt”, “Gatinha”... – disse Kaname, rindo em meio à frase – Mamãe, algo me diz que logo, logo teremos um casamento por aqui.

Arregalei os olhos, Natsume teve a mesma reação. Senti meu rosto esquentar, eu nem sabia o motivo. O mais novo dos gêmeos estava tão vermelho quanto os cabelos de Yusuke, ele parecia estar sem palavras. Encarei seu rosto com os olhos arregalados, esperando que ele negasse. Natsume me olhou, seu olhar deixava bem claro que ele estava tão impotente quanto eu. Arregalei ainda mais meus olhos, alguém pigarreou.

– Nina é jovem demais para casar, não diga besteiras impossíveis como essa – disse Iori.

Pisquei, virando o rosto em sua direção. Ele finalmente saíra de seu modo silencioso, e agora, encarava-me com um olhar determinado.

– Além disso, ninguém aqui é digno de uma dama como ela – ele disse – Pelo menos, ainda não.

Pisquei outra vez, surpresa. Iori ergueu um pouco o queixo, recostando-se em sua cadeira enquanto encarava meu rosto. Aquele olhar era esperançoso demais para mim, desviei o olhar.

– Ora, o que é isso? – disse Hikaru, dando um meio sorriso sinistro – Natsume já está na idade de casar, e ele é alguém bem responsável.

– Poderia fazer nossa irmãzinha feliz, e já tem um apartamento para morar – concordou Kaname, assentindo de leve.

O terceiro e o quarto filho se entreolharam, dando de ombros com um sorriso contente no rosto. Os dois olharam para mim, congelei.

– Vocês esqueceram que a Nina é comprometida? – disse Louis.

Todos olharam para ele, meu irmão parecia estar ocupado demais comendo para se importar com isso.

– É verdade, ainda tem o tal do Akira – comentou Yusuke, rindo no fim da frase – É esse o nome, não?

Assenti, um pouco desconfortável. Tsubaki fez um bico, jogando-se pesadamente contra o encosto de sua cadeira.

– Sendo assim, cancelem o casamento – disse Miwa.

– Mãe! – protestei, arregalando os olhos.

Ela riu, erguendo as mãos em rendição. Bufei, desviando o olhar até meu prato.

– Aliás, como vocês estão? – perguntou Tsubaki, olhando-me de esguelha – Ele não pirou por causa daquele detalhe sórdido?

Estremeci, fazendo uma careta. Que forma indelicada de tratar o que aconteceu, mesmo que não fosse algo importante para nenhum de nós.

– Detalhe sórdido? – perguntou Azusa, encarando o irmão mais velho.

Tsubaki deu de ombros, todos me encararam. Suspirei, sentindo um gosto amargo na boca.

– Estamos dando um tempo – anunciei.

Louis me encarou, fugi de seu olhar. Encarei a mesa, respirando fundo. Todos me olharam, fingi que não tinha percebido.

– E você está bem com isso? – perguntou Louis, delicadamente.

Forcei um sorriso, lançando-lhe um rápido olhar.

– Tenho que estar, afinal de contas, a culpa foi minha – respondi.

Louis suspirou, sua mão encontrou a minha. Encarei nossas mãos juntas, ele entrelaçou nossos dedos.

– Sinto muito – disse Louis.

Ergui o olhar, ele me encarou. Seus olhos brilhavam com sinceridade, mas tinha algum sentimento que eu não consegui desvendar. Por trás daqueles lindos olhos cor de malva, existia uma alma misteriosa e gentil. E ele me amava, eram situações controvérsias demais.

– Nina? – chamou-me Tsubaki.

Olhei-o, cortando o olhar que eu trocava com Louis. O gêmeo mais velho encarava a mão de Louis na minha com uma careta, ele suspirou.

– Ele está com raiva de você? – perguntou Tsubaki.

Hesitei, pensando um pouco. Akira dissera que não estava com raiva, mas era impossível não sentir raiva de uma traição. Tínhamos discutido feio, então ele devia estar com raiva. Akira me amava demais para querer me machucar, então ele devia estar apenas tentando me poupar. Eu amava isso nele, esse senso de proteção forte que ele tinha, principalmente comigo. Era isso que afastava os garotos do orfanato de mim, até mesmo Bruce tinha certo medo do ciúme de Akira. Eu nunca o vira como um namorado possessivo, mas sabia que ele era muito protetor.

– Eu não sei – respondi, olhando para Tsubaki – Ele disse que não, mas eu sei quando ele mente. Discutimos, mas ele não queria dar um tempo. Eu não sei se ele está com raiva ou se está apenas com ciúme, é muito difícil desvendar aquele garoto, embora seja fácil ama-lo.

– E você o ama? – perguntou Natsume.

Sua voz estava um pouco rouca, ele não me olhava enquanto esperava pela minha resposta. Os outros me encaravam, apenas alguns deles estavam calmos. Respirei fundo, engolindo em seco.

– Se você me perguntasse isso um mês atrás, eu te diria que eu o amo sem nem hesitar – comecei – Aconteceu tanta coisa na minha vida ultimamente, parece que o mundo todo está girando em outro sentido. Às vezes eu paro e fico pensando, tentando refletir. Eu não sei mais quem eu era e quem eu deveria ser, só sei que eu sou quem eu sou. Ainda que nada pareça fazer sentido, eu sei que o amor que eu sentia pelos meus pais nunca mudou. Eu não deveria trazer para esse lado, mas é uma boa coisa para se apoiar. Eu sei que amo todos vocês, sem exceção. Sei que amor de verdade não muda de uma hora para outra, e sei amor de verdade sobrevive a pior das tormentas. Eu ainda não vivi um terço do que eu sei que eu deveria, mas não consigo parar de ver minha vida como se eu já estivesse no auge. Eu sei que eu mudei, e sei o Akira também mudou. Essa mudança pode ou não ser boa para nosso namoro, mas eu sei que ele sempre vai estar lá por mim, assim como eu sempre vou estar lá por ele. Podemos estar a centímetros ou a milhas de distância, mas eu sei que isso nunca vai mudar, não importa o que aconteça. Eu não sei se eu ainda o amo o suficiente para continuar nosso namoro, mas sei que eu o amo o bastante para tê-lo dentro de mim para sempre. E se isso não for amor, eu sinceramente não sei mais o que pode ser.

Fechei minha boca, sentindo um vazio enorme aparecer dentro de mim como mágica. Respirei fundo, fechando os olhos para desfrutar daquela sensação. Foi como se um peso enorme tivesse sido retirado dos meus ombros, como antes de tudo isso acontecer. Nina Kazama era uma pessoa familiar para mim, mas eu sentia como se ela estivesse se esvaindo. Escapando por entre meus dedos, era isso que a essência dessa garota estava fazendo. Por mais estranho que aquele vazio me parecesse agora, eu sabia que ele estaria comigo daqui para frente.

– Profundo – refletiu Kaname.

– Poderia encher um livro – observou Hikaru.

Abri um grande sorriso, abrindo meus olhos. Olhei nos olhos de cada um dos presentes, embebendo-me no brilho de cada olhar. Eram muitas cores diferentes, cada uma mais linda que a outra. Aquilo podia não ser eterno, mas era tão familiar quanto meu próprio nome.

– Isso já nutre uma história – falei – A história de Nina Kazama, uma adolescente desequilibrada que foi arrancada de tudo que conhecia para ser jogada em uma outra realidade. Nessa nova realidade ela encontrou muitas pessoas, todas diferentes e iguais ao mesmo tempo. Ela tinha medo, se sentia insegura no começo. Mas o amor dessas novas pessoas foi o bastante para que ela conseguisse achar seu caminho. Ela pode não retribuir todo esse amor como aquelas pessoas merecem, mas ela está se esforçando. Foi um belo começo, de fato. Mas essa jornada ainda tem muitas reviravoltas, mas eu sei como vai terminar: Com pessoas incríveis reunidas diante de tudo que Nina viveu, sorrindo ou chorando, de acordo com o que ela sente. Posso não prever o futuro, mas sei que essa história ainda vai render muitas alegrias para seus leitores e seus personagens.

Fechei minha boca, sentindo aquele vazio ser preenchido com violência. Respirei fundo, mordendo o lábio. Aquela sensação era incrível, como beber água depois de um dia inteiro com sede. Deixei-me ser agraciada por aquela sensação, recebendo os dezesseis sorrisos que vinham até mim com um sorriso ainda maior. Hikaru ergueu sua taça de vinho, pigarreando para atrair a atenção de todos.

– Um brinde – ele disse.

Masaomi abriu um grande sorriso, erguendo sua taça também.

– À Nina Kazama – ele disse – A nova garota da casa.

– Seja oficialmente bem vinda – acrescentou Ukyo, juntando-se aos irmãos.

– À casa, e às nossas vidas – completou Azusa, erguendo sua taça.

– Iremos estar aqui por você – disse Tsubaki, juntando-se aos outros.

– Dia e noite – disse Natsume, erguendo sua taça sem tirar os olhos de mim.

– De agora em diante – disse Iori, sorrindo amorosamente enquanto erguia sua taça.

– Para sempre – disse Louis, com a taça já erguida.

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Ofeguei, mordendo o lábio. Os restantes ergueram suas taças também, Wataru ergueu seu copo de suco.

– Seja bem vinda à família! – disseram todos ao mesmo tempo.

Arquejei, sentindo meu corpo inteiro tremer. Todos lançaram-me o mesmo olhar repleto de amor, mordi minha língua com força. Trêmula, ergui meu copo de suco de uva. Louis sorriu, envolvendo meus ombros com seu braço esquerdo. Ele largou sua própria taça, ajudando-me a erguer a minha sem tremer. Ri, sentindo lágrimas quentes querendo sair. Louis tocou minha orelha com seus lábios, dando uma risadinha carinhosa.

– Nós te amamos – ele disse – Eu te amo.

Ele beijou minha orelha, abraçando-me com um pouco mais de força. Sorri, sem nem tentar conter minhas lágrimas de alegria.

Então aquilo era ter um natal em família, eu já nem lembrava de como era a sensação. Aquele vazio recém preenchido se solidificou, enchendo-me com uma onda de energia quente. Eu não sabia o que era, mas era sólido.

CONTINUA (É, DE NOVO).

IMAGEM ESPECIAL

Kaname Asahina (Tipo: Vem-Ni-Mim, seu gostoso!)

Notas finais
Então, gostaram? Comentem para deixar a tia Oceans feliz XD Imagem de hoje---> http://img2.wikia.nocookie.net/__cb20130822150542/brothersconflict/images/e/ee/Asahina.Kaname.full.1570499.jpg Roupa da Ema---> http://www.polyvore.com/ema_hinata_ceia_de_natal/set?id=142607407 Tradução das frases: *Usted es ahora el hombre más caliente y esponjoso que he conocido = Você agora é o homem mais quente e fofo que eu já conheci. *Gracias, gatito = Obrigada, gatinho. Eu nem sei o que dizer aqui, tô com fome, e quando eu tô com fome eu não consigo pensar direito. Enfim, espero que tenham gostado. A parte três vai ser a maior, garanto que vou matar vocês de tanto ler. Próximo capítulo: 25/12/2014 (Tô me despedindo de 2014, que ano estranho). Beijo...