The New Girl in the House
32 Natal - Final
Notas iniciais
– Presentes! – comemorou Wataru.
Rimos juntos, o pequeno atirou-se contra a grande pilha de caixas que abarrotavam o pé da grande árvore de natal. Fora difícil decorar aquilo tudo, mas o resultado fora completamente incrível. Vários enfeites mediam forças nos numerosos galhos da árvore, ornamentados com pisca-piscas coloridos e brilhantes. Uma estrela enorme e dourada era o topo da decoração, esbanjando seu esplendor sobre a árvore sinuosa. As caixas de presentes eram dos mais variados tipos, tamanhos e cores, eu me perderia ali para sempre, se pudesse. Eram mais de cem caixas, e o que me deixava mais animada era saber quem pelo menos dez delas eram para mim.
Senti um beijo sendo depositado em meio a minhas costas, fazendo-me dar um pulinho de susto. O homem debaixo de mim riu, abraçando-me carinhosamente. Seu queixo fincou-se em meu ombro direito, virei meu rosto para olhar em seus olhos.
– Animada? – perguntou Louis.
Assenti, abrindo um grande sorriso. Ele deu uma risadinha, deitando sua cabeça em meu ombro.
– Lembra da ajuda que eu pedi? – ele disse.
– Lembro – respondi.
Louis sorriu, fechando os olhos por um segundo.
– Quero que você leve a Ema para a cozinha daqui a cinco minutos, Subaru, Iori e eu nos juntamos para fazer o presente dela, mas precisamos de alguns minutos para trazer tudo para cá. Pode fazer isso por mim? – perguntou Louis.
Sorri, assentindo. Ele abriu os olhos, encarando-me intensamente.
– O que eu faria sem você? – ele disse.
Dei de ombros, ele riu. Ri junto com ele, abraçando seus braços que envolviam meu corpo. Eu podia sentir seu coração contra minhas costas, tamanha era a proximidade entre nós. A sala da mansão era enorme, mas não tinha sofás suficiente para dezessete pessoas e um esquilo ranzinza. Todos os homens estavam sentados, Miwa e Ema estavam na cozinha. Eu estava no colo de Louis, foi uma verdadeira algazarra na hora de decidir onde eu sentaria. Tsubaki ainda estava inconformado, mas eu não escolheria outro “banco”.
– Confortável? – disse Yusuke, lançando-me um olhar indagador.
Assenti, Louis me apertou com mais força. Yusuke riu, olhando-nos com um sorriso sacana nos lábios.
– Só faltava isso mesmo para vocês dois, não é? – ele disse – Vocês já dormem juntos, comem juntos, sentam juntos... Só falta tomarem banho juntos.
Arquejei, Yusuke riu. Louis apertou-me com mais firmeza, seu olhar não deixava meu rosto. Fiz uma careta, encarando Yusuke com um olhar venenoso.
– E você e a Ema? Acho bom você se impor, ou ela vai precisar sentar no colo um deles – falei, gesticulando na direção dos nossos irmãos – E sentar no colo é só um passo, quem sabe ela também não acaba tomando banho com um deles?
– Eu voto no Subaru – disse Louis, entrando na minha.
Yusuke arquejou, dando um pulo tão grande que quase caiu do sofá. Louis e eu gargalhamos, meu “banco” sacudiu-me de um lado para o outro.
– Minha criança – ele disse, feliz.
Ri, jogando-me nele com toda minha força. Deixei-me afundar em seu abraço, desfrutando do calor do corpo de Louis.
– Oh, eu te amo – falei.
Ele sorriu, depositando um beijo na curva do meu pescoço.
– Eu também te amo, minha linda criança – disse.
Seu hálito quente eriçou os pelos do meu pescoço, arrepiei-me por inteiro. Ele bebera vinho durante a ceia, mas não fora o bastante para ficar bêbado. Todos tiveram o cuidado de manter os olhos em mim durante o jantar, certificando-se de que eu não beberia nada. Se Fuuto estivesse aqui, eu provavelmente já estaria bêbada.
Ah, meu amado irmão famoso. Ele já devia ter achado meu presente no meio das suas coisas, paguei vinte pratas para o motorista – que eu descobrira ser muito gentil durante minhas semanas com o carro do Fuuto – colocar o embrulho no lugar certo. Se ele me visse nessa semana, eu seria uma garota morta. Mas eu escolhera algo completamente perfeito para ele, ainda que Fuuto pudesse me matar quando me visse. Ele merecera aquele pênis de chocolate, e eu dera duro para conseguir. Não resisti ao anúncio virtual que vi enquanto procurava dicas de presentes de natal, e não fora difícil comprar aquilo online.
Difícil fora esconder a caixa dos meus treze irmãos, e eu tivera que pagar aquilo com o dinheiro que economizei no orfanato para não aparecer nada na fatura do cartão de crédito.
– Muito bem, está na hora! – disse Miwa, entrando na sala.
– Yay! – berrou Wataru, jogando-se contra a mãe.
Ela riu, abraçando-o carinhosamente. Ema apareceu também, sorrindo discretamente. Ela olhou em volta, procurando um lugar para sentar. Yusuke jogou-se de cara no chão, como se tivesse sido empurrado. Todos nós rimos, ele ergueu-se com os joelhos e as palmas das mãos. Seu rosto estava muito vermelho, ele tremia ao encarar Ema.
– P-pode sentar aqui! – ele disse, como uma ordem.
Ema tremeu, Louis tremia de tanto rir.
– O-obrigada – ela disse, nervosa.
A garota estava vermelha, assim como Yusuke. Joguei minha cabeça para trás, gargalhando absurdamente alto. Louis aproveitou a chance para me agarrar, rindo junto comigo. Soltei um muxoxo, afundando-me em seu corpo acolhedor. Miwa pigarreou, balançando as sobrancelhas em minha direção. Mordi o lábio, percebendo apenas naquela hora que todos me encaravam fixamente. Engoli em seco, aprumando-me melhor.
– Assim que ela levantar, ele vai precisar de uma almofada – disse Hikaru.
Kaname riu, sendo seguido por Yusuke, Tsubaki e Miwa. Os outros lançaram olhares indagadores ao homem debaixo de mim, virei o rosto para encara-lo. Ele fugiu do meu olhar, mas não disse nada.
– Eu não entendi – disse Wataru.
Assenti, enfatizando as palavras do pequeno. Hikaru lançou-me um olhar malicioso, mordendo o lábio.
– Nina, você lembra do que eu te disse na nossa última conversa em particular? – ele perguntou.
Estremeci, engolindo em seco. Louis se retesou um pouco, encarando-me curiosamente.
– De qual parte você está falando? – perguntei, evitando o olhar do homem debaixo de mim.
– Do que você fez comigo – disse Hikaru.
Estremeci de novo, reprimindo um grito de agonia. O quarto filho me encarava, um sorriso malicioso brincava em seus lábios.
– Agora pense: Com tudo que você tem, o que vai acontecer com o Louis se você ficar mais tempo sentada no colo dele? – ele disse.
Tremi furiosamente, tentando desvencilhar-me do abraço de Louis.
– Isso é sério? – guinchei.
Louis me apertou, impedindo-me de ir mais além.
– Claro que não, fique comigo – ele disse, manhoso – Não me deixe, Nina. Sabe o que vai acontecer se você sentar no colo de um deles, você está segura aqui comigo.
– “Segura”, sei – bufou Kaname, rindo.
– Ela pode até estar segura, quem está correndo perigo é a sua cueca – acusou Tsubaki, cruzando os braços para complementar sua pose hostil.
Louis soltou um suspiro pesado, engoli em seco.
– Vocês podem pelo menos fingir que não são uns pervertidos e tentar respeitar a Nina por pelo menos um minuto? É repulsivo tratar uma dama dessa maneira, vocês me dão náuseas – disse Iori, erguendo levemente o queixo enquanto falava.
Tsubaki revirou os olhos, Kaname encarou Iori.
– Você não pensa nisso nem um pouco, não é? – disse o monge, dirigindo um olhar atento ao irmão.
Iori franziu o cenho, seu olhar vagou na minha direção. Encarei-o, meus olhos deviam estar um pouco arregalados.
– O que eu penso ou não penso é problema só meu, desde que eu não diga em voz alta – o príncipe respondeu – Pensar uma coisa é diferente de chegar às vias de fato, principalmente quando se trata de uma dama. Nina merece respeito, eu faço o meu melhor para tratá-la com ela merece.
Kaname deu um meio sorriso, seus olhos faiscaram.
– Mas você não negou, não foi? – ele disse.
Iori não respondeu, apenas lançou um olhar de censura ao irmão mais velho. Fiz uma careta, Kaname abriu um sorriso vitorioso.
– Meninos, já chega – disse Miwa – Vamos abrir os presentes, sim?
– Isso! Os presentes! – concordou Wataru, arregalando os olhos para nós.
Ri, o pequeno sorriu para mim. Os ânimos se acalmaram, nenhum dos presentes parecia ser imune à magia de Wataru. Rintarou ergueu-se do sofá, indo em direção à esposa com um sorriso contente.
– Começaremos com as meninas – disse Miwa, abrindo um sorriso enorme – Ema, Nina, venham aqui agora.
Comecei a erguer-me do colo de Louis, Yusuke – que estava sentado no chão, aos pés de Ema – virou a cabeça para trás.
– Rápido, Louis. Pense em coisas repulsivas, como nossa avó de maiô colorido – disse o ruivo.
Quase todos os irmãos riram, apenas Azusa, Natsume e Iori se mantiveram calados, contendo sorrisos. Revirei os olhos, Louis franziu o cenho. Levantei, Louis me ajudou a ficar de pé. Na nossa esquerda, Azusa ofegou de surpresa. Antes que eu pudesse me agitar para entender o motivo, Natsume atirou uma almofada em Louis. Pisquei, virando meu corpo na direção do meu irmão mais confiável.
– Obrigado – ele disse, dirigindo um aceno nervoso a Natsume enquanto tapava a visão de seu ventre com a almofada.
Arregalei os olhos, Louis fugiu do meu olhar. Seu rosto estava vermelho, ele trincou os dentes.
– Nina, venha – chamou Rintarou, firme.
Sua voz grave me sobressaltou, dei um pulinho. Engoli em seco, indo em direção aos meus pais. Enquanto eu observava Louis, Ema já ganhara seu presente. A garota sorria, suas bochechas estavam coradas enquanto ela encarava a caixa prateada com um par de brincos brilhantes.
– Obrigada, Miwa-san. Obrigada, pai – ela disse.
O casal sorriu para a garota, ela parecia brilhar de felicidade. Sorri, Miwa deu uma risadinha.
– São pequenos, mas Rintarou garantiu que você iria gostar – ela disse, sorrindo para Ema.
– Eu adorei, muito obrigada! – disse a garota.
Nossos pais sorriram, Ema deu um sorriso enorme e sincero. Suspirei, mordendo lábio. Ainda que eles também tivessem me chamado, eu me sentia um pouco de fora. Ema foi para o seu lugar, e logo todas as atenções estavam voltadas para mim.
– Muito bem, para a nossa garotinha – disse Miwa.
Sorri, mordendo o lábio. Rintarou pegou uma caixa do topo da pilha, sorrindo para mim.
– Esperamos que você goste, foi comprado com carinho – disse Miwa.
Assenti, meu pai entregou-me a caixa. Desfiz o laço vermelho que envolvia a caixa dourada, prendendo a respiração assim que tirei a tampa. Meus olhos se arregalaram, minha boca se abriu.
– Esmeraldas! – ofeguei, chocada.
Miwa assentiu, aproximando-se de mim.
– Sim, esmeraldas polidas na Itália – ela disse, indicando as pequenas pedras com o dedo indicador – Seu pai pensou em brincos, mas decidimos que um colar ficaria melhor. Seus cabelos são escuros, seus olhos são pretos e sua pele é levemente rosada. Um colar fino seria uma escolha comum, mas decidimos que essas correntes trançadas lhe dariam um ar mais europeu. Fora que o corte dessas esmeraldas é um incrível, deixando a joia com um toque mais oriental. Você gostou?
Abri a boca para responder, mas as palavras tinham me abandonado por completo. Eu não tinha percebido que éramos tão ricos até esse momento. Eu sempre fora acostumada com anéis finos ou brincos pequenos nos natais, meus pais tinham certo dinheiro, mas não era nada comparado à fortuna que Miwa devia ter. Akira já me dera um anel de latão uma vez, que quebrara quando eu tive a ideia mirabolante de escalar o orfanato pelos canos, quase decepando meu dedo médio. E ali estava eu, ganhando um colar de esmeraldas de presente de natal. Isso deixaria qualquer uma garota como eu abismada, minha boca mais parecia uma caverna. Ofeguei, piscando. Engoli em seco, os presentes me encaravam ansiosamente.
– Se eu gostei? Eu devo estar sonhando – respondi, arquejando em meio à frase – Obrigada, muito obrigada mesmo.
Miwa abriu um grande sorriso, abraçando-me com carinho. Abracei-a de volta, tomando o cuidado de não derrubar a caixa com o lindo colar que eu ganhara.
– Não há de que, querida – disse minha mãe – Esse é seu primeiro presente de natal dado por nós, Rintarou e eu não queríamos fazer feio.
Ri, ela fez o mesmo. Miwa me soltou, sorridente demais para uma mãe convencional.
– Claro que eu comprei esse colar pensando naquela lingerie verde, eles fazem um par perfeito – ela disse, falando baixo para que apenas eu pudesse ouvir – Use batom vermelho e faça um coque meio solto, o resultado é imbatível.
Arregalei os olhos, ela riu da minha reação.
– Mãe! – protestei.
Miwa riu de novo, erguendo as mãos para tocar minhas bochechas. Suas unhas eram tão grandes que não deixavam as pontas de seus dedos tocarem minha pele, contentei-me com aqueles arranhões carinhosos.
– Eu adoro quando você faz essa cara, é simplesmente adorável – disse Miwa, sorrindo ternamente – Eu sou sua mãe, é apenas natural que eu te ensine algumas coisas. Sabia que em Esparta as mães ensinavam às filhas como deviam agir nas relações sexuais? O mundo mudou bastante, mas esse tipo de conhecimento precisa continuar sendo transmitido. Como acha que eu tive treze filhos? Temos que dar duro!
Arquejei, sentindo meu rosto esquentar. Só de pensar em Miwa me assistindo transar com Akira meus pelos se eriçaram, engoli em seco.
– Também não eram muito receptivos aos recém-nascidos com algum tipo de deficiência em Esparta, e eu nem quero tocar no tema “planejamento familiar” agora – falei, arrepiando-me – Mãe, obrigada por se preocupar, mas eu estou bem assim.
Miwa soltou um muxoxo, fazendo um bico.
– Oh, mas eu queria tanto lhe ajudar – ela disse, suspirando – Muito bem, faça o que você sabe. Mas, se precisar de alguns conselhos, venha até mim.
Assenti, forçando um sorriso. Miwa me soltou, um pouco desapontada com minha aparente repulsa aos métodos sedutores que ela impôs. Eu não usaria aquele conselho dela nem se estivesse seduzir um rei, o que seria surreal demais, até para uma garota desequilibrada como eu.
– Chega de atormentar a garota, Miwa – disse Rintarou, lançando-me um olhar compreensivo – É difícil ligar com o espírito jovial da sua mãe em alguns momentos, é simplesmente impossível fazê-la parar de falar sobre moda quando ela começa.
Ri, Miwa deu um sorrisinho travesso. Mesmo sendo uma mulher madura, ela parecia uma adolescente levada com aquele sorriso no rosto.
– Tudo bem, eu adoro esse entusiasmo tudo – confessei, dando de ombros – É meio complicado quando ela começa a falar de lingeries, mas eu sei que no fundo ela só está sendo uma boa mãe para mim.
– Então vocês falam sobre lingeries? Obrigado, mamãe – disse Tsubaki.
Arregalei os olhos, Miwa piscou maliciosamente para o filho.
– Cortes, cores, tamanhos... – ela disse – Um dia essa garota vai ser a sedutora número um desse país, não podíamos esperar menos de uma filha minha.
Tsubaki, Kaname, Hikaru e Yusuke riram, os demais apenas se entreolharam com a mesma cara de “Sim, essa louca é a nossa mãe”. Ema e eu nos entreolhamos, Rintarou sacudiu a cabeça.
– É só nisso que vocês pensam? Eu transformar a Nina em símbolo sexual? – perguntou Natsume, sério – Agora eu vejo porque ela fica entusiasmada quando saímos juntos, ela está mais segura comigo do que aqui.
Kaname abriu um sorriso largo, encarando o mais novo dos gêmeos com um brilho sagaz no olhar.
– Então você está sugerindo que ela vá morar com você, Natsume? – disse o monge.
Natsume arregalou os olhos, recebendo o olhar indagador de todos os nossos irmãos.
– Meu amigo, casa logo com ela – disse Yusuke, dando um sorriso sacana.
– Aí ele leva a nova irmãzinha e transforma ela em seu símbolo sexual pessoal, ótima ideia – ironizou Tsubaki, lançando um olhar quase enojado ao gêmeo mais novo – Ela está mais segura com todos nós ao redor dela, nem tente enfiar suas unhas na minha irmã.
– Isso se for só as unhas que ele está querendo enfiar nela, não é mesmo? – comentou Hikaru, bebericando um pouco de vinho de sua taça.
Foi minha vez de arregalar os olhos, Iori pigarreou.
– Eu não acabei de pedir que vocês respeitem a Nina? O que há com vocês hoje? – ele disse, lançando um olhar reprovador aos irmãos.
Kaname dispensou-o com um aceno de mão, Tsubaki revirou os olhos.
– Falou o santinho que já deve ter até casado com a Nina em seus pensamentos – ele disse – Pelo menos nós somos homens o bastante para deixar nossas intenções bem claras, enquanto você fica só fingindo que nunca pensou nela dessa forma.
Iori endureceu sua expressão, seu olhar frio parecia tentar congelar Tsubaki.
– Pelo menos eu respeito os sentimentos dela, e foi o único aqui a ser “homem o bastante” para ser honesto e confessar meus sentimentos – ele disse.
– Não, você não foi o único – interveio Louis.
Todos olharam para ele, o cabeleireiro sustentou todos aqueles olhares com uma expressão firme.
– Então você também se confessou? Isso está ficando cada vez melhor – disse Kaname, rindo maliciosamente.
– Ela dormiu com ele uma vez, e eles vivem grudados – disse Yusuke.
Ukyo expirou pesadamente, encarando o ruivo mais novo.
– Se você usasse todo esse poder de observação na escola, teria notas melhores – disse o loiro.
Prendi o riso, mas fui a única. Meus irmãos riram da observação de Ukyo, Yusuke lançou-lhes um olhar irritado.
– Calem a boca, eu passei de ano com mais de trinta pontos em cada matéria – disse o ruivo.
– Pela primeira vez na vida, aparentemente – observou Hikaru, bebendo mais um gole de vinho.
Se ele continuasse naquele ritmo, ficaria bêbado rapidinho. Eu não tinha medo de Hikaru, mas não queria ver como ele era quando bebia demais. Pigarreei, todos olharam para mim.
– Hikaru, você não acha que já está bom? – perguntei, gesticulando na direção de sua taça.
O ruivo riu, negando com a cabeça.
– Eu estou bem, não se preocupe – ele disse.
Hesitei, incerta. Ele sorriu para mim, como se me desafiasse a falar mais.
– Você não tem problemas com a bebida, tem? – perguntei.
– Ah, eu só paro quando estou tirando a roupa – disse Hikaru, dando uma risada provocante – Quer ver?
Arregalei os olhos, negando com a cabeça tão rápido que minha cabeça quase saiu do lugar. O ruivo abriu um sorriso malicioso, tomando mais um pouco de vinho.
– Então pare de me censurar, você mesma á uma figura quando bebe demais – ele disse – Aliás, eu nem sou o foco dessa conversa.
Ele lançou um olhar sarcástico aos irmãos, instigando-os a brigarem outra vez. Funcionou, já que Iori encarou Louis.
– Você pelo menos respeitou os sentimentos dela? – perguntou o príncipe.
Louis riu, uma risada carregada de escárnio.
– Acho que eu fui o único até agora, meu caro – ele respondeu, lançando um olhar de esguelha a Tsubaki antes de continuar – Inclusive, ela só confia tanto em mim porque eu sou o único aqui que não a trata como um pedaço de carne.
Tsubaki explodiu em uma risada, sendo seguido por Kaname, Hikaru e Yusuke. Iori lançou um olhar incrédulo a Louis, Subaru bufou.
– Falou o cara que teve uma ereção por tê-la no colo durante cinco minutos – disse.
Pisquei, Subaru fingiu que não via todos nós encarando seu rosto. Louis olhou para baixo rapidamente, tirando a almofada de cima de seu ventre.
– Não há nada aqui, estão vendo? – ele disse.
Tsubaki riu de novo, negando com a cabeça.
– Impotência sexual é um problema sério, você devia procurar um médico – comentou, rindo de novo.
– Impotência? Deixa só a Nina sentar no colo dele de novo – provocou Kaname.
Hikaru explodiu em uma risada, assim como Yusuke. Ema me olhou, ambas estávamos com os olhos arregalados.
– Tem garotas aqui, parem de dizer essas coisas indecentes – disse Iori, duro.
Meu pai pôs a mão em meu ombro, dei um pequeno pulo de susto.
– Garotas que eu estou cogitando seriamente levar para bem longe de vocês e nunca mais trazer de volta – disse Rintarou.
Tremi, aproximando-me de meu pai com um pouco de medo do que veio a seguir.
Todos arregalaram os olhos, chocados. Miwa piscou, surpresa.
– Querido, você não pode estar falando sério – ela disse.
Rintarou parecia bem sério para mim, seu olhar reprovador era tão forte que eu até me senti mal.
– Você não está vendo o que está acontecendo aqui? Deixar duas garotas sozinhas no meio de todos eles lhe parece uma boa ideia? – ele perguntou, encarando a esposa – Isso porque estamos aqui, o que não deve acontecer quando viajamos?
Ah, eu tinha até uma lista. Eu podia citar tudo para deixar meu pai satisfeito, mas acho que minha mãe não ia gostar muito. Preferi ficar calada, apenas esperando a palavra final.
Coisa que Hikaru não fez.
– Então é melhor deixá-las com Natsume, ele parece ter um fraco por donzelas em apuros, já que gosta de oferecer seu apartamento como um refúgio ou coisa do tipo – ele disse.
– Só espero que ele não tenha algemas e chicotes, seria terrível entregar nossas irmãs a um maluco – disse Kaname, concordando.
Os dois riram, assentindo ao mesmo tempo. Natsume bufou, irritado.
– Eu não lembro de ter dito que levaria elas para meu apartamento, e mesmo se eu levasse, eu nunca seria bruto com nenhuma delas – ele disse, lançando um olhar duro ao monge e ao escritor.
– Faria com carinho, então? – provocou Kaname.
– Não faz seu estilo, admita – concordou Hikaru.
Natsume pegou impulso para levantar, mas Azusa segurou-o com firmeza.
– Já chega disso, estamos parecendo um bando de bárbaros – disse o gêmeo moreno.
Tsubaki bufou, lançando-me um olhar desafiador.
– Ela nem fala nada, então deve estar gostando – ele disse.
Todos me olharam, arregalei os olhos.
– Ei, não leve pra esse lado! – protestei, encolhendo-me contra o peito de Rintarou – Eu não falo nada porque não quero ficar maluca, e da última vez que eu tentei me defender em uma reunião de família, vocês ficaram discutindo a minha virgindade.
Rintarou arregalou os olhos, desviei o olhar.
– Mas você nem tenta acabar com nada, só fica dando espaço – disse Yusuke.
– E ainda provoca a gente com esse charme maravilhoso e esse corpo sexy, nós não somos de ferro – disse Kaname.
Semicerrei os olhos, lançando-lhe um olhar hostil.
– Ela não faz por mal, a Nina é linda naturalmente – disse Louis – E eu nunca vi ela provocando ninguém, pelo contrário. Nós vivemos cercando-a, ela fica sem espaço. Não podemos culpá-la, já que somos tão responsáveis quanto ela.
Nossa, eu amo aquele homem.
– Louis, nem vem com esse papinho, não tá funcionando – disse Tsubaki, rindo pelo nariz – Ela provoca sim, se não provocasse, não teria praticamente costurado os mamilos um no outro no dia que Natsume levou ela pra jantar.
Wataru deu um pulo, lançando um olhar assassino a Tsubaki.
–Não fale dos peitos da minha onee-chan, eu já disse que eles são MEUS! – berrou.
Bati a mão na testa, refreando um gemido de vergonha. Kaname explodiu em uma risada, sendo seguido por onze dos meus treze irmãos. Subaru e Iori apenas sacudiram as cabeças, refreando sorrisos. Até mesmo Ema riu daquilo, de forma histérica e surpresa, mas riu. Miwa arregalou os olhos, sorrindo como uma louca. Rintarou expirou pesadamente, sacudindo a cabeça.
– Nem o caçula a vê como uma irmã, é incrível – ele disse, cansado – Nina, certifique-se de trancar a porta do seu quarto quando você for dormir.
Assenti, tentando não rir. Meu pai suspirou, olhando para a esposa com um olhar quase exasperado.
– Miwa, controle seus filhos, por favor – ele disse – É da nossa filha que eles estão falando essas coisas absurdas, que bom que não é assim com Ema também.
– Não na frente dela, acredito – cochichei para apenas meu pai ouvir – Do jeito que eles são, o senhor acha que eles não falam nada?
Ele assentiu, dando-me a razão. Olhei em volta, notando que meus irmãos estavam agora olhando para mim.
– Você quer passar um tempo na nossa casa, querida? – perguntou Miwa, olhando-me com certo pesar – Podemos contratar um segurança para cuidar de você enquanto estamos viajando, e um motorista também.
Neguei com a cabeça, tentando não parecer indelicada.
– Pode parecer loucura, mas eu gosto de morar com todos eles – falei – Eu acho que posso lidar com isso, mas agradeço pela oferta.
Miwa assentiu, soltando um suspiro pesado. Rintarou apertou afetuosamente meu ombro, olhei para cima para encarar seu rosto.
– Se qualquer coisa acontecer, me ligue – ele disse.
Assenti, abrindo um pequeno sorriso. Ele sorriu de volta, envolvendo meus ombros com seu braço direito. Deixei-me ser abraçada por Rintarou durante um tempo, tempo suficiente para que Masaomi levantasse do sofá e caminhasse em direção à árvore de natal. Ele pegou duas caixas com as duas mãos, olhando em volta como se pedisse atenção para si.
– Melhor continuarmos com a entrega de presentes agora que a poeira baixou – ele disse, um pouco cansado, assim como Rintarou – Ema, esse é seu, espero que goste.
Ele entregou um das caixas à garota, ela abriu um sorriso enorme.
– Obrigada, Masaomi – disse Ema, feliz.
Ele sorriu, feliz. Esperei, Masaomi virou-se em minha direção.
– Nina, esse é seu – ele disse.
Abri um grande sorriso, esticando meus braços em um gesto infantil.
– Dá! – falei.
Meus irmãos riram, meus pais sorriram carinhosamente.
– Ela ainda é um bebê – disse Miwa.
Tsubaki riu pelo nariz, lançando-me um olhar cheio de segundas intenções. Revirei os olhos, fazendo um biquinho. Masaomi sorriu, entregando-me minha caixa.
– Abra no seu quarto, querida – disse Miwa – Assim dá tempo de entregar todos os presentes antes da meia noite.
Assenti, piscando meus olhos três vezes seguidas. Encarei Masaomi, abrindo um sorriso doce.
– Obrigada – falei, suspirando – Comprei algo para você também.
Ele sorriu, animado.
– Sério? Obrigado – disse Masaomi, olhando-me carinhosamente.
Sorri, assentindo. Coloquei a caixa que ele tinha me dado e a caixa com o colar de esmeraldas no braço do sofá mais perto de mim, ou seja, ao lado de Azusa. Sorri para ele enquanto me movimentava, o gêmeo moreno retribuiu meu sorriso com um lindo repuxar de lábios. Voltei para perto da árvore, caçando a caixa com o presente que eu comprara para Masaomi em meio ao mar de presentes. Achei depois de um minuto inteiro de procura, o mais velho dos irmãos me esperava onde eu o deixara. Sorri, estendendo-lhe a caixa.
– Obrigado, Nina – ele disse.
– Não há de que – respondi, balançando-me para frente e pra trás – Abra-o?
Pisquei os olhos com doçura, sorrindo. Masaomi ofegou, dando um sorriso sem graça. Ele abriu a caixa, desfazendo o laço vermelho que eu colocara. Esperei, mordendo o lábio. Os presentes que eu comprara foram uma verdadeira fortuna, gastei mais de quinhentas pratas nos treze. Mas estávamos no Japão, tudo era mais fácil de se pagar por aqui. Masaomi arregalou os olhos quando viu o que eu comprara, abrindo um sorriso ensolarado.
– Uau, Nina – ele disse, rindo de felicidade – Um relógio? É incrível, obrigado.
Dei de ombros, sorrindo modestamente.
– Eu achei que você fosse gostar, pensei em você assim que bati o olho na vitrine daquela loja – falei – Ele tem todos esses botões complicados e deve ser mais inteligente do que eu, e dourado combina com seu jaleco branco. Gostou?
Masaomi riu de novo, sacudindo a cabeça como se tentasse agitar seu cérebro.
– Eu amei, muito obrigado – ele disse.
Sorri, indo em sua direção. Abri meus braços, deixando-o sem escolha. Abracei-o, enterrando-me naquele corpo aconchegante. Masaomi abraçou-me também, soltando um suspiro contente. Sorri mais um pouco, soltando um muxoxo.
– É fofo aqui, e quente – comentei, manhosa – Eu gosto disso, abraçar você.
Masaomi respirou fundo, afastei-me dele um pouco. Suas bochechas estavam coradas, mas ele sorria alegremente.
– Fico feliz por isso, é ótimo agradá-la – ele disse.
Ri, inclinando a cabeça para o lado.
– Ei, não monopolize nossa irmãzinha – disse Kaname, enfiando-se entre mim e Masaomi – Boa noite, minha linda donzela.
Ofeguei, Masaomi teve a mesma reação. Kaname nem ligou, apenas sorriu ao pegar minha mão direita e puxá-la gentilmente até sua boca. Seus lábios depositaram um beijo quente e sensual em minha pele, meus pelos se eriçaram.
– Está tendo uma boa noite? – ele perguntou, lançando-me um olhar de tirar o fôlego – Seu presente é uma massagem em uma parte do corpo, você decide onde.
Arfei, puxando minha mão de volta o mais rápido que consegui. Kaname riu, dando de ombros.
– Não quer a massagem? Tudo bem – ele disse, tirando uma caixinha de dentro do bolso da calça – Comprei para você, espero que goste.
O monge estendeu-me a caixa, peguei-a com certa relutância. Tinha um pequeno laço roxo envolvendo a caixa prateada, dei um sorrisinho. Abri o presente, dando um sorriso largo ao ver seu interior.
– Que pingente lindo! – falei, rindo um pouco – Obrigada, Kaname.
Ele sorriu, aproximando-se de mim daquele jeito sensual.
– Não há de que, disponha sempre – ele disse, arrastando um pouco sua voz – Comprei para combinarmos, esse crucifixo já foi bem abençoado pelo melhor e mais sexy monge vivo: Eu.
Ri, ele deu uma piscadela.
– Se quiser combinar ainda mais nós dois, eu posso ter deixar usar minhas camisas e cuecas quando você quiser – disse Kaname – Aliás, você gostaria de passar um fim de semana no meu apartamento? Garanto que vai ser divertido, e eu posso te fazer aquela massagem, e talvez mais algumas...
– Kaname, já chega – disse uma voz.
Olhei para o lado, deparando-me com meu irmão loiro.
– Ukyo, não seja severo comigo – disse Kaname, fazendo um biquinho – É natal, tente ser mais receptivo.
Ukyo sacudiu a cabeça, olhando para mim.
– Não o escute. Kaname é uma pessoa confiável, mas é extremamente desequilibrado – ele disse.
Ri, Kaname fez uma careta de falsa modéstia.
– Não me elogie tanto, assim eu fico encabulado – disse o monge, dando de ombros – Preciso dar os outros presentes, nos vemos daqui a pouco.
– Mas eu nem...
– Não se preocupe, eu já peguei o presente que você comprou para mim diretamente da árvore – disse Kaname, cortando-me sem dó – Aliás, ótima escolha.
Arquejei, fechando minha boca. Kaname acenou, afastando-se. Ukyo suspirou, sacudindo a cabeça.
– Esse cara – ele disse – Tenho algo para você, espero que goste.
Sorri, Ukyo estendeu-me uma caixa envolta em papel de presente roxo. Não queria ser indelicada, mas estava curiosa. Rasguei cuidadosamente, quase gritando quando vi o que era.
– U-ukyo! – guinchei, arregalando os olhos – V-você gastou... Isso... Esse perfume deve ter custado uma fortuna!
Ukyo fechou minha boca escancarada com seu dedo indicador, engoli em seco.
– Eu tenho um bom emprego, posso me dar o luxo de comprar bons presentes – ele disse – Você gostou?
Bufei, atirando-me nele.
– Se eu gostei? Por Deus, que garota não ficaria abismada ao ganhar um perfume da Carolina Herrera? – perguntei, estupefata – Muito obrigada, Ukyo. Muito obrigada mesmo.
Ukyo deu uma risadinha calma, afagando minhas costas carinhosamente.
– Fico feliz que tenha gostado, foi um verdadeiro terror pensar em um presente para te dar – ele disse – Tive medo de que você fosse achar um pouco de menos, mas só pensei em você quando vi esse perfume na loja.
Bufei, afastando-me dele. Ukyo parecia confortável em nosso abraço, mas suas orelhas estavam um pouco vermelhas.
– “Um pouco de menos”? Isso descreve o que eu comprei para você – confessei, desviando o olhar – Eu estava até animada, mas não sei se será o presente ideal pra você.
O loiro suspirou, olhando-me de maneira afetuosa.
– Não se preocupe com isso, eu tenho certeza de que você comprou algo maravilhoso – disse Ukyo.
Soltei um suspiro, fazendo um bico de chateação.
– Promete que não vai fazer careta? – pedi.
Ukyo soltou um suspiro carregado de afeto, abraçando-me de novo. Afundei-me em seus braços quentes, respirando fundo.
– Prometo – disse Ukyo – Agora, que tal um pouquinho de autoconfiança?
Ri, ele fez o mesmo. Afastei-me dele, assentindo. Ukyo afagou meu queixo, sorrindo de forma doce.
– Vá lá buscar meu presente, estou ansioso – ele disse.
Ri de novo, mas assenti. Fui até a árvore, quase trombando com Wataru no caminho. O pequeno estava praticamente desmaiado em cima de sua nova bicicleta, ri. Catei o presente de Ukyo, a pilha havia diminuído um pouco, mas continuava enorme. Aproveitei para pegar mais algumas coisas, evitando outras viagens. Voltei até onde o loiro me esperava, equilibrando três caixas num braço só para poder entregar-lhe seu presente. O loiro sorriu, pegando a caixa. Esperei, tentando não morder o lábio com muita força. Ukyo abriu um sorriso ensolarado quando viu o que eu comprara, sorri.
– Incrível! Finalmente vou poder fazer os pratos mediterrâneos que eu sempre quis tentar – ele disse, feliz – Muito obrigado, Nina. É um presente maravilhoso, não duvide disso.
Sorri, realizada.
– Que bom que você gostou, eu fiquei preocupada – falei.
Ukyo sacudiu a cabeça, inclinando-se na minha direção. Seus lábios perfeitos depositaram um beijo rápido em minha testa, senti meu estômago se revirar. Ukyo voltou ao seu lugar, suas orelhas ainda estavam vermelhas.
– Eu adorei, fique tranquila – ele disse, sorrindo – Vou usá-los amanhã mesmo, eu deixo você escolher o prato.
– Verdade?! – guinchei, animada – Você é demais, obrigada.
Ele corou um pouco, suas orelhas pareciam estar em chamas. Ouvimos uma risadinha travessa, olhei em volta. O ruivo mais estranho que eu conhecia envolveu o pescoço de Ukyo com seu braço direito, quase como Tsubaki faz com Azusa. Seus olhos verdes sagazes pareciam gritar palavras maliciosas para mim, ele cheirava a vinho.
– Flertando no meio da troca de presentes? Vejam se não é um casal ousado esse aqui – ele disse, soltando uma risada aguda.
Ukyo corou, sua expressão logo ficou séria.
– Hikaru, não diga besteiras – ele disse, rígido – Nina e eu estávamos conversando, não confunda as coisas.
O ruivo riu, sacudindo o irmão. Ukyo ofegou, empurrando Hikaru para livrar-se de seu aperto.
– Bêbado – decretou o loiro.
Hikaru riu mais um pouco, dando de ombros.
– Um pouquinho – admitiu, piscando para mim – Deixei seu presente em cima da sua cama, e já peguei o que você comprou para mim. Gostei bastante, e também adorei o que eu comprei para você. Devia usar no dia de ano novo, e me fazer uma visitinha depois da meia noite.
Engoli em seco, sentindo um frio na barriga. Ukyo bufou, irritado.
– O que você comprou? – perguntou, encarando o ruivo.
Hikaru soltou uma gargalhada, envolvendo o pescoço do irmão outra vez.
– Não é da sua conta, mama – ele disse, rindo – Vamos, já chega de tomar a Nina só pra você, ou vai criar uma fila de espera.
Ukyo parecia querer argumentar, mas Hikaru puxou-o para longe. Ri da cena inusitada, sacudindo a cabeça.
– Loucos, não? – disse uma voz na minha orelha.
Dei um pulinho, Tsubaki riu. Azusa estava ao seu lado, segurando uma grande caixa branca. Os gêmeos sorriram para mim, Tsubaki piscou.
– Pronta para cair para trás? Aposto que vai amar o que eu comprei para você – ele disse.
Bufei, refreando um sorriso.
– Não vejo nada em suas mãos, só o Azusa comprou presente para mim – falei.
Tsubaki riu, Azusa sorria enquanto estudava meu rosto.
– Compramos seu presente juntos, então pudemos combinar – disse o gêmeo moreno.
– Ele dá o presente e eu recebo o abraço, não parece justo? – disse Tsubaki.
Revirei os olhos, rindo um pouco. Azusa sacudiu a cabeça, seu gêmeo idêntico piscou para mim.
– É sério, você vai cair para trás – disse Tsubaki, sorrindo abertamente – Mas eu te seguro, pode ficar tranquila.
Revirei os olhos, os gêmeos sorriram para mim.
– Eu também comprei presentes para vocês, aqui – falei.
Estendi duas das quatro caixas que eu segurava, tomando cuidado para não deixar a de Azusa cair. Os gêmeos sorriram, pegando seus presentes ao mesmo tempo. Antes de abrir o seu, Azusa entregou-me a caixa que trouxera para mim.
– Vamos abrir ao mesmo tempo – ele disse.
Assenti, sorrindo. Equilibrei o outro presente que eu segurava no chão ao meu lado, voltando minha atenção à caixa que os gêmeos me deram. Desfiz o laço azul que prendia a tampa, destampando a caixa e soltando um grito imediato. Cambaleei, quase caindo para trás. Minha boca se abriu, gaguejei algumas palavras confusas, sem conseguir formular uma frase inteira. Tsubaki riu, Azusa admirava o perfume que eu comprara para ele com um sorriso lindo.
– O gato comeu sua língua? Diz logo o que achou – disse Tsubaki, agitando o barbeador elétrico que eu lhe dera em minha direção – Aliás, adorei isso aqui. Valeu.
Grunhi alguma coisa, ofegando. Fechei minha boca, engolindo em seco. Encarei o conteúdo da caixa, como se tentasse fazer meus olhos acreditarem no que estavam vendo.
– Vocês querem me matar? Meu coração não vai aguentar muito tempo – falei, minha voz saiu muito aguda – Deus! Um Macbook e um Tablet da linha Air? Acho que nunca mais vou me recuperar, vocês dois são terrivelmente malvados.
Os dois riram, Azusa olhou-me de forma afetuosa.
– Você gostou? A ideia foi minha – ele disse – Tsubaki ia comprar só o tablet, mas eu achei melhor dar o kit completo. Agora você tem o melhor da tecnologia da Apple, e ainda combina com seu celular.
Ri, eles esperaram.
– Isso tudo porque a mamãe me deu um iPhone quando eu vim morar aqui? A família Asahina vai falir de tanto dar dinheiro pra Apple – brinquei, radiante – Eu adorei, muito obrigada mesmo.
Azusa riu, Tsubaki encarou meu rosto. Ele sorria, seus olhos brilhavam.
– Isso é pra mostrar que nós te amamos. Feliz natal, maninha – disse Tsubaki, suave.
Sorri, sacudindo a cabeça. Coloquei a caixa com os aparelhos que eles me deram ao lado do outro presente, tomando cuidado na hora de coloca-la no chão. Azusa riu um pouco daquilo, ergui-me novamente. Abri meus braços, abraçando ambos os gêmeos ao mesmo tempo. Tsubaki riu, tentando puxar-me discretamente para si. Teria dado certo, se Azusa não tivesse percebido e imitado o gesto do irmão. Ofeguei, os gêmeos se encararam. Ambos pareciam muito determinados, sorrindo de maneira quase fria um para o outro.
– Vamos mesmo continuar com isso? Desista, Tsubaki – disse Azusa, soltando um suspiro falsamente gentil.
Tsubaki riu, negando com a cabeça.
– E eu sou homem de desistir? – ele disse, encarando o gêmeo – Segure-se, maninha.
Mal tive tempo para processar suas palavras, e logo Tsubaki me tinha em seu colo. Arquejei, seus braços prendiam minha cintura com força. Azusa ofegou, arregalando os olhos. Tsubaki riu, girando-me em seu colo. Gritei, fechando os olhos e agarrando-o com força. Ouvi os protestos de Azusa, mas não pude tentar descer. Tsubaki começou a correr, apertando-me contra seu peito com força. Gritei de novo, ele ria tanto que quase me deixava surda. Paramos depois de três minutos de corrida, Tsubaki girou-me nos braços outra vez. Abri meus olhos, meu coração estava disparado.
– Que droga! O que você pensa que tá fazendo? – protestei.
Ele deu de ombros, fazendo meu corpo sacudir um pouco.
– Roubando você, ora bolas – ele disse, piscando – Tem um tempão que eu quero te ter só pra mim, preciso dizer uma coisa.
Engoli em seco, ele sorriu para mim.
– Pode me pôr no chão primeiro? – pedi.
Tsubaki riu, mas fez o que eu disse. Senti meus pés tocarem o chão, soltei um suspiro de alívio. Olhei em volta, reparando apenas naquele momento que estávamos na sacada. Nevava aqui fora, pintando Tóquio inteira de branco. As luzes da cidade pareciam borrões, a árvore do jardim estava enfeitada como se fosse a árvore mãe do mundo todo. Respirei fundo, tentando acalmar meu coração. Ninguém nunca tinha me pegado no colo daquele jeito, apenas meu pai. Mas eu era uma criança na época, e meu pai não era um tarado terrivelmente sexy. Olhei para Tsubaki, ele sorria suavemente para mim. Seu olhar estava fixo em meu rosto, seus cabelos sacudiam um pouco com a brisa fria da noite de natal.
– Você é linda, sabia disso? – ele disse, rindo um pouquinho – Eu podia te encarar por toda minha vida, você continuaria linda mesmo depois de mil anos.
Bufei, ele riu baixinho da minha reação. Ele estava estranho. Seus olhos estavam brilhantes demais, ele parecia suave demais. Se eu não o conhecesse, diria que ele era um príncipe encantado.
– O que deu em você? Desde quando você é tão galanteador? – zombei, revirando os olhos.
Tsubaki bufou, inclinando o rosto para o lado.
– Eu te chamo de linda e você reclama? O que há com você? – ele disse, bufando uma risada – Se eu te chamasse de gostosa como chamei naquele dia, você ficaria feliz? Tá vendo só porque eu nunca tento ser romântico com você? É estranho.
Bufei, revirando os olhos de novo.
– Você não precisa ser romântico, não há motivo algum para isso – falei, cruzando os braços abaixo dos seios – Era isso que você queria me dizer? Não precisava ter me carregado até aqui.
Tsubaki bufou, aproximando-se de mim. Nossos corpos estavam a uns dois passos de distância, seu cheiro incrível encheu meus pulmões.
– Claro que eu preciso ser romântico, ou você prefere que eu seja o cafajeste safado que eu sou sempre? – ele perguntou, franzindo o cenho – E eu não te chamei aqui só pra te chamar de linda, isso eu podia ter feito lá dentro.
Revirei os olhos, desviando o olhar até a árvore do jardim.
– Prefiro que você seja você mesmo, eu gosto do seu jeito maluco – confessei – Se tem algo a dizer, diga logo. Está frio aqui fora, e eu preciso entregar o resto dos presentes.
Tsubaki suspirou, encarando a árvore por um segundo, antes de encarar meu rosto outra vez. Ele estava sério, sério como eu nunca tinha o visto.
– O que está acontecendo com você? – ele perguntou – Você ficar estranha perto de mim, eu queria saber o motivo. Eu não fiz nada pra te constranger assim, por que você fica nervosa perto de mim?
Ri, sacudindo a cabeça. Tsubaki estranhou um pouco a minha reação, mas não disse nada. Encarei-o, fixando meu olhar no seu.
– Eu fico nervosa? Desde quando? – perguntei, sarcástica – Talvez seja porque você me embebedou para depois enfiar a língua na minha vagina? Ou isso não é motivo suficiente para você?
Ele piscou, seus olhos estavam um pouco arregalados. Inesperadamente, ele começou a rir como se eu tivesse contado uma piada. Franzi o cenho, ele curvou-se para frente. Suas mãos seguraram minhas bochechas, ele plantou um beijo molhado em minha testa. Arfei, Tsubaki afastou-se de mim. Ele tentou controlar suas risadas ao engolir em seco, deve ter visto minha expressão irritada.
– Foi mal, mas você falou aquilo de uma forma tão engraçada que eu não pude segurar – ele disse, soltando um suspiro alegre – Nina, não trate o que aconteceu com tanta banalidade.
Foi minha vez de rir, ele pareceu surpreso.
– Eu estou tratando com banalidade? Foi você quem chamou o que houve entre nós de “detalhe sórdido” – acusei, rindo pelo nariz – Não venha rir da minha cara, você não sabe o quanto eu sofri por causa daquilo.
Tsubaki suspirou, olhando-me fixamente.
– Eu não sei se você percebeu, mas nós dois moramos juntos – ele disse – É claro que eu sei que você sofreu, só não quero que você aja como se você fosse a única a sair lesada dessa situação.
Ri pelo nariz, encarando-o.
– E eu não fui a única? Eu não vi você sofrer – falei – Eu briguei com o meu namorado e levei uma bronca do Louis, isso porque ele foi o único a descer. Ou melhor, ele não foi o único. Hikaru também viu o que fizemos, e ele praticamente fez sexo verbal na minha orelha uns três dias depois. Enquanto isso você saiu com uma garota, fez sexo e teve um ótimo final de semana. Você sofreu mesmo? Pois eu acho que não.
Tsubaki riu pelo nariz, encarando-me com um olhar quase azedo.
– Você acha que eu não sofri? Como acha que eu me senti depois que percebi que estava fazendo besteira? – ele disse – Como acha que eu fiquei depois de te tocar e ser arrancado de você? E depois, como acha que eu fiquei quando vi que você passou o dia todo grudada no Louis e nem olhou na minha cara? Esse tempo todo tem sido um inferno para mim, acha que eu fico feliz em ser ignorado por você?
– Bem! Você ficou bem, muito bem – retruquei, irritada – Se você tivesse mesmo sofrido, não teria saído com uma garota dois dias depois do que aconteceu entre nós só pra fazer sexo. Se você tivesse mesmo sofrido, não teria ido atrás de mais um porre e não estaria sendo o idiota de sempre. Se você estivesse sofrendo mesmo, perceberia que a nossa distância tá doendo em mim também. Você não sentiu nada na hora, e nem está sentindo nada agora.
Tsubaki acabou com a distância entre nossos corpos, segurando-me pelos lados da cabeça. Seus olhos nunca me pareceram tão profundos, eu nunca tinha visto ele tão sério. Mesmo com aquela expressão dura, seus olhos tremiam de leve.
– Eu sou um idiota, mas não sou um desalmado – ele disse, encarando-me intensamente – Se eu não sentisse nada por você, eu não teria começado aquilo tudo. Se eu não sentisse nada, eu não tentaria desesperadamente tirar você da minha cabeça. Se eu não sentisse nada por você, eu não teria enfiado aquela garota em um táxi depois de um beijo frio e um pedido de desculpas por não ter feito o que tinha prometido.
Pisquei, surpresa e confusa. Tsubaki fechou os olhos por um segundo, segurando meu rosto enquanto pensava em algo para dizer.
– Exatamente, eu não fiz sexo naquela noite, nem em noite alguma depois do que nós fizemos. Está sendo frustrante, acredite – ele disse, engolindo em seco – Talvez eu tivesse conseguido, mas você teve que esbanjar seu charme e me desejar uma boa transa. Talvez eu conseguisse mesmo ter uma boa transa, se suas palavras não tivessem me atormentado durante todo o encontro. Eu tentei, juro. Beijei aquela garota, mas tudo que me vinha à mente era o beijo que eu dei em você. Eu estava bêbado, mas lembro perfeitamente como foi. Sua boca é tão macia, tão delicada. E sua língua, ah, ela é tão quente. Seu beijo é tão doce, Nina. E seu gosto é incrível, seu outro gosto, aquele. Droga, Nina.
Tsubaki abriu os olhos, soltando um suspiro pesado.
– Você acha que eu não sinto nada? Se eu não sentisse, eu pensaria tanto naquela noite? – ele disse, franzindo um pouco a testa – Eu to tão cansado, Nina. Tão cansado de beijos sem gosto e transas vazias, to tão cansado de ser visto apenas por fora. To cansado de dar apenas prazer, eu quero saber como é dar amor a alguém. Eu te dei amor naquela noite, e foi a melhor coisa que eu já fiz. Eu não sou bom pra você, mas você é tão boa para mim. Boa demais, até. Mas eu não consigo evitar, e não consigo passar um minuto sem lembrar do que aconteceu.
Ele parou de falar, encarando meu rosto. Engoli em seco, tentando fazer minha língua se mexer.
– Tsubaki... – comecei, parando para respirar antes de continuar – Você me... Ama?
Ele pensou um pouco, encarando meus olhos. Sustentei seu olhar, esperando sua resposta. Eu não sabia o que pensar, e, pelo visto, nem ele. Tsubaki fechou os olhos, fazendo uma careta de dor.
– Eu não sei – ele disse – Não sei se já amei de verdade um dia, da última vez foi meio... Ruim. E teve um final confuso. Eu não sei mesmo. Desculpe.
Respirei fundo, engolindo em seco.
– O que você sente? – perguntei, pigarreando para fortalecer minha voz – Por mim? Por ela? O que você sente quando estamos juntos? O que sentia quando estava com ela? Conte-me, Tsubaki.
Ele deu um sorrisinho, abrindo os olhos.
– Já pensou em ser terapeuta? – perguntou.
Encarei-o, cética. Tsubaki riu baixinho, sacudindo a cabeça.
– Desculpe, não consegui segurar – ele disse, soltando um suspiro – Eu acho que ela era novidade, carne nova no pedaço. Tem aqueles olhos que mais parecem chocolate ao leite, e aqueles cabelos sedosos. Tem aquela pele branquinha, sem nenhuma marca ou imperfeição. Eu não vou mentir para você, ela é uma verdadeira boneca. Ela tem um corpo bom também, e deve ser virgem, já que...
– Ei, concentre-se no que importa! – falei, dando-lhe um empurrãozinho.
Tsubaki riu, lançando-me um olhar safado.
– Você queria saber o que eu sentia, só estou tentando te obedecer – ele disse.
Revirei os olhos, ele sorria.
– Poupe-me dos detalhes sórdidos, ninguém se importa com seu apetite sexual – falei.
Ele riu, respirei fundo.
– Como queira, madame – disse, sarcástico – Quando eu vi ela pela primeira vez, já pude até mesmo decidir como seria nossa primeira vez e...
– Tsubaki! – protestei, arregalando os olhos para parecer mais firme.
Ele bufou, soltando meu rosto.
– Assim fica difícil, você não me deixa falar – protestou.
Cruzei os braços, séria. Teria continuado aquela discussão, se não fosse o som dos passos da pessoa que entrara na sacada.
– Nina, você não vai entrar? – perguntou Louis, olhando-me daquela sua forma serena – Está frio e...
– Agora não, Louis – respondi, cortando-o no meio de sua frase.
– Estamos no meio de algo aqui, não interfira – completou Tsubaki.
Assentimos juntos, encarando Louis. Meu irmão cabeleireiro piscou, confuso e surpreso. Ele me encarou, lançando um rápido olhar indagador na direção de Tsubaki. Quase pude ouvi-lo dizer “Você vai me trocar por ele? Sério mesmo?”, não pude deixar de rir daquele pensamento. Tsubaki riu junto comigo, como se tivesse lido minha mente. Louis franziu o cenho, respirando fundo.
– Tudo bem, eu vou embora – ele disse.
Assenti, dando um meio sorriso. Tsubaki piscou para mim, mordendo o lábio e gesticulando para que Louis saísse logo. Ri, quase me arrependendo daquilo ao ver a cara de Louis. Ele praticamente fuzilava Tsubaki com o olhar, sorrindo daquele jeito frio que sorrira para Akira da última vez que o viu. Engoli em seco, Tsubaki lançou um olhar indagador ao irmão.
– Vai embora ou não? – ele perguntou – Xô.
Louis respirou fundo, seu sorriso vacilou. Ele me olhou. Parecia pronto para protestar, mas saiu depois de alguns segundos. Esperei até que ele tivesse desaparecido para poder rir, Tsubaki bufou.
– Seu cãozinho está cada vez mais ousado, onde já se viu? – ele disse, sacudindo a cabeça – É a regra universal: Não interrompa quando seu irmão está namorando.
Revirei os olhos, ele sorriu diabolicamente.
– Não estávamos namorando, pode parar – falei – Continue, e sem dizer nada obsceno.
Tsubaki riu, mas assentiu. Ele encostou as costas no parapeito, erguendo o olhar até as estrelas.
– Enfim, ele cortou o clima, mas eu nunca falho quando estou “no ponto de bala” – ele disse, lançando-me uma piscadela safada antes de continuar – Eu me apaixonei por ela desde nossa primeira conversa, e fiquei ainda mais apaixonado depois dos beijos que trocamos. Eu roubei todos eles, os beijos.
Tsubaki riu um pouquinho, suspirando.
– Sabe o que dizem sobre amar alguém que não te ama? É doloroso – ele disse – Ela não fazia por mal, mas me enfeitiçava a cada respiração. Eu não via a hora de possuí-la, não via a hora de tê-la só pra mim.
Ele me olhou, engolindo em seco.
– Mas ela me rejeitou – ele disse – Rejeitou meus sentimentos como se eles não fossem nada, foi quase cruel. Eu devo ter rejeitado umas mil garotas durante minha vida toda, finalmente provei meu próprio veneno. Não é estranho que eu evitasse me apaixonar de novo depois daquilo, e então você me aparece.
Tsubaki suspirou, encarando meu rosto. Esperei, inerte.
– Você é linda, e muito, muito, muito gata – ele disse – Gata naquele sentido, estou tentando não te chamar de gostosa. Droga, acabei de chamar.
Ele fez uma careta, me segurei para não rir.
– Foi mal, é mais forte do que eu – ele disse – Eu sou um safado, só sei me expressão com palavras obscenas.
Neguei com a cabeça, aproximando-me dele mais um passo. Toquei sua mão, olhando em seus olhos.
– Isso não é verdade, Tsubaki – falei, antes de rir – Sim, você é um safado, mas não é só isso.
Ele fez uma careta, me encarando.
– Vai me xingar mais? Acho que uns palavrões não devem ser pronunciados na noite de natal – ele disse.
Ri, sacudindo a cabeça. Tsubaki sorriu, encarando meu rosto com um olhar carinhoso.
– É disso que eu gosto em você – falei, suspirando – Você é um tarado, safado, pervertido, idiota, cafajeste e canalha. Você é completamente louco, e vive perturbando os outros. Mas eu sei que isso é só uma parte do que você é de verdade. Você tem um coração quente, Tsubaki. Eu sinto isso em você, e sinto com força. Eu posso não ser a garota mais esperta do mundo, mas eu vejo que você tá se escondendo por trás dessa sua máscara. Você é doce, Tsubaki. Não é só coisas ruins, você é amoroso e fofo.
Tsubaki riu, lançando-me um olhar carinhoso.
– Com tanto elogio para escolher, você me chama de “fofo”? – ele disse.
Revirei os olhos, ele riu. Seu corpo aproximou-se do meu, seus braços envolveram minha cintura. Minhas mãos apoiaram-se em seu peito, ergui um pouco meu rosto. Sua cara estava bem perto da minha, seu eu ficasse nas pontas dos pés, poderia beijá-lo sem esforço. Eu nunca tinha percebido o quanto ele era lindo. Mesmo sendo uma pervertida e mesmo tendo visto-o nu, eu nunca tinha percebido a beleza de seus olhos. Sua respiração esquentava meu rosto, seu calor protegia-me do vento frio da noite.
– Tá vendo só? Você é mesmo um patife – acusei, cutucando-o com meu indicador direito – Eu não sei por que eu ainda perco meu tempo com um cretino como você.
Tsubaki riu, inclinado-sena minha direção. Seus lábios depositaram um beijo carinhoso em minha testa, ele afastou-se logo em seguida.
– Então já temos “patife” e “cretino” – ele disse, sorrindo de lado – O que mais você acha de mim?
Pensei um pouco, fazendo um biquinho. Tsubaki mordeu o lábio, encarando meu bico com um brilho no olhar.
– Você também é muito... Obsceno – falei, esticando a última palavra – E também muito mulherengo.
– Opa, mulherengo não – protestou Tsubaki – Eu só tive umas trinta namoradas na minha vida toda, sou quase um santo.
Bufei, rimos juntos. Ele suspirou, apertando um pouco mais seu abraço.
– O que mais você pensa de mim? – perguntou.
Fiz outro biquinho, dessa vez ele mordeu o lábio.
– Você é um libertino, devasso, libidinoso, salaz e incestuoso – acusei, encarando seus olhos e sacudindo a cabeça para frente a cada nova palavra – Eu nunca conheci alguém tão...
– Sexy? – induziu, abrindo um sorriso lento – Pode dizer, não tem problema.
Neguei com a cabeça, rindo pelo nariz. Tsubaki esperou, sorrindo.
– Eu não ia dizer isso, mas posso adicionar “convencido” à nossa conta – falei, rindo mais um pouco – Eu estava pensando em... Insolente, atrevido e petulante.
Tsubaki riu, sorri.
– Só isso? Achei que eu fosse mais coisa – ele disse – Aproveite que hoje eu estou em clima natalino e estou deixando você me ofender sem puni-la por isso, não espere o mesmo de mim amanhã.
Bufei, ele encarou meu rosto.
– Eu já to sem xingamentos, preciso de um tempo – falei.
Ele abriu um sorriso, inclinando seu rosto em direção ao meu. Seus lábios tocaram minha testa, deixando um beijo lento em minha pele. Aquele contato me aqueceu, reprimi um muxoxo.
– Te dou dez segundos – ele disse – Começando agora.
Arquejei, ele continuou beijando minha testa. Repassei mentalmente tudo que já dissera, debatendo comigo mesma sobre os outros xingamentos que conhecia. Tsubaki só parou de beijar minha testa para deslizar seus lábios macios no meio das minhas sobrancelhas. Respirei fundo, tentando manter meus olhos abertos.
– Seu tempo acabou – disse Tsubaki.
Seu hálito esquentou meu rosto, eriçando todos os pelos do meu corpo. Arfei baixinho, ele deu uma risadinha safada.
– Seu cínico, descarado, galinha, malando, maldito, vaidoso, pretensioso – disparei, sem nem parar para respirar – Você é o traste mais ultrajante que eu já conheci, seu... Xucro.
Ele arquejou, descolando seus lábios da minha cara. Nosso olhar se encontrou, pisquei. De súbito, Tsubaki explodiu em uma gargalhada. Ri com ele, mesmo sem saber do que ele estava rindo. Sua risada era contagiante demais, eu não conseguia resistir.
– Xucro? O que isso significa? – ele disse, rindo ao encarar meu rosto.
Arquejei, rindo um pouco.
– Eu não sei, passou pela minha cabeça – respondi, dando de ombros.
Tsubaki riu, sacudindo a cabeça.
– Viu só? É por isso que eu gosto de você – ele disse – Ema nunca diria essas coisas para mim, você é sincera e espontânea.
Franzi o cenho, ele encarou meu nariz.
– E quando foi que a Ema entrou nessa conversa? – perguntei.
Tsubaki deu de ombros, esperei.
– Era dela que eu gostava, antes de ser enfeitiçado por você – ele disse – Você me entende agora? Entende porque não deu certo? O que um canalha como eu faria com uma garota ela? É por isso que eu me conformei depois de um tempo. E ela nunca me provocou, eu roubava alguns beijos apenas para ter certeza do que eu queria. Mas você? Ah, você é o demônio disfarçado, maninha. Você me enlouquece, me enfeitiça e me mata de desejo com um simples olhar. Eu não sei o que eu sinto por você, mas é forte. E se eu refrear por muito tempo, posso acabar explodindo de novo.
Engoli em seco, mordendo o lábio. Tsubaki mordeu seu lábio, soltando um muxoxo. Ele envolveu-me em seus braços de novo, colando nossos corpos. Meus seios estavam completamente colados contra seu peito. Eu estava sem sutiã, esse vestido não me permitia esse luxo. Arfei, sendo meus mamilos serem espremidos no peito forte de Tsubaki. Ele gemeu, fechando os olhos e mordendo o lábio com força. Devia ter sentido a rigidez dos meus mamilos, e eu não conseguia desgrudar nossos corpos.
– Você é uma droga, sabia disso? E das fortes – ele disse, ainda mordendo o lábio – Eu provei apenas um pouco, mas já estou completamente viciado. Eu quero mais de você, Nina. Preciso de mais, ou vou acabar pirando. Eu nunca quis tanto uma mulher, eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu fico “animado” só de olhar pra você. Quando sinto seu cheiro, preciso me segurar para não prensá-la contra uma parede e fazê-la minha. Eu te quero tanto, Nina. Eu só quero você.
Ele abriu os olhos, encarando-me fixamente. O brilho dos seus olhos nunca me parecera tão intenso, aquele seu cheiro me inebriava. Arfei baixinho, deixando a boca entreaberta para absorver mais aquele cheiro. Tsubaki mordeu o lábio com força, trincando os dentes logo em seguida. Seus dedos seguraram meu queixo, puxando um pouco meu lábio inferior para baixo. Meus dentes ficaram à mostra, ele deixou a boca entreaberta. Devagar, como se estivesse tentando se segurar, Tsubaki foi aproximando o rosto do meu. Senti sua respiração esquentar meu rosto, ofeguei baixinho. Ele encarou-me até nossos narizes encostarem um no outro, depois disso, ele fechou os olhos. Senti sua aproximação ficar ainda maior, minhas pálpebras vacilaram. Seus lábios roçaram nos meus, todos os pelos do meu corpo se eriçaram na mesma hora. Eles estavam tão quentes, como as chamas de uma fogueira.
E lá estava eu, quase beijando aquelas chamas.
Meu rosto se retesou, fiquei sem fôlego apenas por conta daquela proximidade das chamas.
– N-não – gaguejei.
Tsubaki abriu os olhos, quase em choque. Afastei-me dele, engolindo em seco. Meu coração batia como louco, eu estava tão quente que nem sentia o frio da brisa noturna. O gêmeo mais velho piscou, engolindo em seco.
– Me desculpe, Tsubaki – falei, respirando fundo – Você sabe que eu não posso.
Ele franziu o cenho em uma expressão séria, aproximando-se de mim outra vez. Tentei fugir, mas a única coisa que consegui foi fazer minhas costas colidirem contra o parapeito frio. Tremi com o contato, minhas costas estavam nuas, afinal. Tsubaki prendeu meu corpo com o seu, deixando-me sem ter para onde ir. Seu olhar fixou-se no meu, engoli em seco.
– Você não pode? Mesmo? – ele disse – Não banque a “rainha do gelo” agora, Nina. Eu vi no seu olhar, você queria tanto quanto eu.
– Não é verdade! Eu tenho um namorado – falei, recuando até estar quase caindo do parapeito.
Tsubaki segurou-me pelos ombros, puxando-me para si. Colidi contra seu peito outra vez, ele encarou meu rosto. Arfei, engolindo em seco.
– Não minta, Nina. Você não me afastou até estarmos quase nos tocando. Se não quisesse aquele beijo, não me deixaria chegar tão longe – ele disse, firme – Você não pensou no seu namorado, você apenas está presa ao título que ele representa. Quer uma prova? Se você não pudesse de verdade, não pediria desculpas por estar agindo corretamente.
Abri a boca para protestar, mas as palavras me abandonaram por completo. Engoli em seco, desviando o olhar. As palavras de Tsubaki me desarmaram completamente, eu nem podia argumentar a meu favor. Ele bufou, sacudindo a cabeça.
– Isso acabou com o clima, acha que é fácil ser romântico em um lugar frio como essa sacada? Teria sido perfeito – ele disse – Deixa para lá, não é como se isso fosse me fazer desistir.
Ofeguei, ele me soltou. Seu rosto não estava mais sério, mas ele não sorria como sempre.
– Desistir de que? De tentar me deixar maluca de vez? – perguntei, irritando-me levemente.
Tsubaki lançou-me um olhar de esguelha, rindo sem emitir som algum. Seu corpo afastou-se do meu, ele caminho em direção à saída. Arfei, pronta para protestar. Antes que eu pudesse sequer da um mísero passo, ele virou-se em minha direção. Seus lábios retorceram-se em um sorriso sinistro, seus olhos brilharam como as estrelas de uma noite de verão.
– Um dia eu vou te beijar até você ficar sem ar – ele disse – Você nunca vai esquecer a sensação da minha língua no céu da sua boca. Eu vou morder seus lábios e puxá-los até você gemer. E depois, vou finalmente fazê-la minha. Quando esse dia chegar, ninguém vai me impedir.
Meus pelos se eriçaram por completo, arquejei. Tsubaki riu, lançando-me uma piscadela.
– Vou te deixar em paz por enquanto, mas te deixo esse pequeno aviso – ele disse, mordendo o lábio antes de continuar – É bom você esquecer logo seu maldito namorado, pois um dia o meu nome vai ser o único que você vai gritar.
E com isso, Tsubaki deixou-me sozinha na sacada. Meu coração parecia estar tentando imitar o famoso “rufem os tambores” que os filmes vivem recitando. Meu peito estava quente, pesado. Mas não era um peso incômodo, era apenas diferente.
Eu não sabia o que era, mas era quente.
**~**~**~**
– Cuidado aí – falei.
Meu acompanhante assentiu, sem dizer uma única palavra. Empurrei a porta do meu quarto com dificuldade, já que segurava alguns presentes que recebera. Eu não conseguiria levar tudo ao meu quarto sozinha, então pedi ajuda ao meu irmão mais forte. Entrei no quarto, esperando que ele me seguisse. Ao contrário do que eu pensei, o homem alto apenas esperou-me do lado de fora.
– Entra, Subaru – falei, tentando não revirar os olhos.
Corado, ele assentiu. Como se fosse um robô enferrujado, ele adentrou em meu quarto com movimentos duros. Segurei o riso, não queria deixá-lo desconfortável. Coloquei tudo que trazia nos braços em cima da cama, soltando um suspiro de alívio. Subaru olhou em volta, como se esperasse ser atacado por meus móveis a qualquer segundo.
– Pode colocá-los na cama, por favor? – pedi, dando um pequeno sorriso.
Ele assentiu, ainda duro. Não pude deixar de dar uma risadinha, Subaru colocou as caixas que trazia nos braços em cima da minha cama. Uma caixa vermelha enfeitava minha cama, como se fosse uma almofada quadrada. Outra caixa vermelha enfeitava minha mesa de cabeceira, como se ganhar treze presentes não fosse mimo o bastante. Caminhei em direção à caixa da mesinha, sentindo o olhar de Subaru em mim. Ele estava vermelho, como se nunca tivesse entrado no quarto de uma garota antes. Desfiz o laço que prendia a caixa, destampando-a e dando de cara com um bilhete. Peguei o papel, não antes de sorrir ao ver a almofada avestruz que descansava dentro da caixa. Abri o bilhete, deparando-me com a letra desleixada mais linda que eu já vira na vida.
Para suas sonecas na biblioteca da escola ficarem mais confortáveis, eu não aguento mais ouvir sua voz irritante quando você reclama de dor no pescoço. Não se esqueça de olhar para a árvore à meia noite, eu vou te punir severamente se você não me obedecer.
– Seu cantor favorito.
Ri, sacudindo a cabeça. Dobrei o bilhete ao meio outra vez, soltando um suspiro de alegria. Subaru continuava parado no mesmo lugar, tentando fingir que não me encarava.
– Fuuto é incrível, não é? – falei, dando de ombros – Eu odeio aquele garoto, mas ele é incrível.
Ri do meu próprio comentário, Subaru apenas sacudiu a cabeça para frente, como se assentisse. Suspirei, fechando a caixa com o presente que Fuuto deixara para mim. Virei para pegar a outra caixa, sabendo que se tratava do presente que Hikaru tinha me dado. Desfiz o laço preto que o prendia, destampando a caixa. Seja o que for, estava envolto em uma espécie de fronha de ceda. Tirei o embrulho de dentro da caixa, precisando esticar os braços para poder abrir a fronha. Assim que desfiz o pequeno laço que o prendia, o “presente” de Hikaru apareceu. Desenrolando-se como um pergaminho antigo, a peça de renda preta esbanjou seu esplendor. Aquilo seria minimamente aceitável se eu estivesse sozinha, mas é claro que o universo ia me ferrar mais uma vez naquela noite. Subaru soltou um som muito estranho, como um urso engasgado. Soltei um ofego do fundo do peito, como se estivesse tentando imitar uma foca chorando. Enfiei o presente de volta na caixa como se ele fosse uma barata gigante, minhas mãos tremiam tanto que eu quase não consegui tapar a caixa. Não tive coragem de erguer o olhar, minha cara estava tão quente que eu me sentia como se estivesse diante de um forno aceso. Recuperei-me durante alguns segundos, meu coração parecia nunca diminuir seu ritmo frenético. Engoli em seco, fechando os olhos. Ergui o rosto, cerrando os dentes.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Se você contar isso pra alguém, eu descubro seu maior segredo e saio gritando ele a plenos pulmões por toda a cidade, fui clara? – perguntei.
Subaru ofegou, abri os olhos. Seu corpo tinha se retesado, sua cara estava mais vermelha do que um sinal de trânsito.
– Fui clara?! – repeti, histérica.
Ele tremeu, mas assentiu. Bufei, atirando a caixa debaixo da cama. Ela ficaria ali até o dia da minha morte, pois eu nunca usaria a lingerie que a caixa guardava. Ergui-me da cama, encaminhando-me até meu guarda-roupa como se nada tivesse acontecido. Subaru retesou-se um pouco quando passei por ele, mas não falou nada. Abri a porta do meio, tirando uma caixa pesada de dentro. Tentei não ficar irritada com a inércia de meu irmão, ele ainda estava chocado demais para perceber que eu estava tentando levantar uma coisa que devia ter a metade do meu peso.
– Pode me ajudar aqui? Meu querido Subaru – perguntei, lançando-lhe um olhar exasperado.
Como se tivesse levado um choque, ele tremeu da cabeça aos pés. Nosso olhar se encontrou, corei apenas ao pensar no que acontecera.
– S-sim, d-desculpe! – ele disse, gaguejando.
Forcei um sorriso irônico, ele tirou a caixa dos meus braços. Soltei um suspiro de alívio, ele desviou o olhar.
– Obrigada – falei – Eu queria ter seus músculos, mas nasci com esses dois gravetos em forma de braços aqui.
Ele corou um pouco, mas esboçou um sorriso. Respirei fundo, tentando me acalmar. Encarei-o, ainda que ele evitasse meu olhar.
– É o seguinte: Esse é o presente do Louis – falei – Eu não entendo nada de aparelhos eletrônicos, então vou precisar da sua ajuda. Quero que você mantenha esse segredo, pode fazer isso por mim?
Ele assentiu, ainda evitando meu olhar. Respirei fundo, tentando conter minha raiva sem motivo.
– Pode olhar na minha cara enquanto me promete algo, ou é pedir demais? – perguntei – Eu sei que você é travado perto de garotas, mas eu sou sua irmã. Você não precisa ter medo ou vergonha de ficar perto de mim, eu não vou pular em você nem nada disso.
Ele corou, olhando-me rapidamente. Tentei parecer firme, minhas sobrancelhas estavam franzidas de irritação.
– D-desculpe – ele disse.
– Sem gaguejar, por favor – pedi, aproximando-me dele – Você me recebeu na sua família durante a ceia, tente pelo menos fingir que eu não sou uma garota completamente estranha pra você, certo?
Dei um sorriso gentil, mas não devo ter parecido muito convincente. Eu estava muito irritada pelo presente de Hikaru, mas não tinha o direito de descontar aquilo em Subaru.
– C-... Certo – ele disse, corrigindo seu gaguejar antes de terminar de falar.
Soltei um suspiro de alívio, ele engoliu em seco de leve.
– Perfeito, obrigada – falei – Venha, eu consegui a chave reserva do quarto de Louis com Masaomi, mas não quero que mais ninguém nos veja.
Subaru assentiu, bem mais leve agora. Sorri, passando por ele. Saí do quarto, ele saiu logo depois de mim. Tranquei a porta do meu quarto, não queria mais nenhuma surpresa. Rintarou estava certo, eu não podia baixar minha guarda.
– Vá na frente – falei, lançando um olhar de esguelha a Subaru enquanto trancava a porta.
Ele assentiu, obedecendo-me sem emitir uma só palavra. Seguimos nosso caminho em silêncio, Subaru nem olhava na minha direção. Tentei relevar aquilo, ele não viraria meu amigo de uma hora para outra. Passamos por várias portas até finalmente acharmos a certa, eu podia sentir o cheiro de Louis mesmo do lado de fora. Sorri com o pensamento, enfiando a chave na fechadura. Abri a porta, entrando sem cerimônia alguma. Já tinha até dormido naquele quarto, eu já sentia como se também fosse sua dona. Subaru entrou logo depois de mim, fechei a porta assim que pude. Acendi a luz, rezando para que ninguém subisse tão cedo.
– Arme-o para mim, por favor? – pedi.
Subaru assentiu, colocando a caixa em cima da cama de Louis para começar a trabalhar. Ele não parecia desconfortável ali, talvez o que o deixasse tão travado era estar em um lugar completamente feminino. Engoli em seco, tentando achar uma desculpa para fazer algo que queria fazer desde o quase beijo de Tsubaki.
– Olha, eu preciso ir ao banheiro – menti, tentando não parecer nervosa – Se importa se eu te deixar sozinho?
Subaru negou com a cabeça, sem nem mesmo olhar na minha direção. Contei até dez em espanhol, tentando não me entristecer com aquilo.
– Certo, obrigada – falei – Volto em um segundo.
Ele apenas assentiu, bufei baixinho. Encaminhei-me ao banheiro, fechando a porta com cuidado para não fazer barulho. Acendi a luz, olhando em volta. Tudo estava do jeito que eu lembrava, mas a banheira estava molhada dessa vez. Louis devia ter tomado banho ali antes de ir arrumar meus cabelos. Eu podia até mesmo lamber aquela banheira, se não estivesse com a mente ocupada. Sentei-me no vaso sanitário, respirando fundo. Tirei meu celular de dentro do vestido, desbloqueando a tela em questão de segundos. Não queria deixar Subaru sozinho por muito tempo, e não queria passar mais nem um segundo sem ouvir a voz do meu namorado. Disquei o número certo, pressionando o celular contra a orelha. Respirei fundo, sentindo meu coração disparar de expectativa. Ele atendeu no primeiro toque, como se estivesse com o celular na mão.
– Boa noite, senhorita Kazama – disse Akira.
Expirei pesadamente, como se tivesse acabado de descobrir a cura da AIDS. Recompus-me, sentindo um sorriso nervoso abrir-se em meus lábios.
– Boa noite, Akira – respondi.
Ele esperou, como se quisesse ter certeza de que aquilo estava mesmo acontecendo. Eu estava na mesma situação, nem conseguia acreditar no que eu acabara de fazer.
– A que devo essa ligação? – perguntou Akira, fingindo pompa.
Ri, ele deve ter sorrido. Hesitei, mordendo o lábio.
– Er... Eu sei que não nos falamos a duas semanas, mas eu queria... – engoli em seco, queria ouvir sua voz, saber se você ainda me ama, coisas assim.
Ele deu uma risadinha, fechei a boca.
– Desejar feliz natal? – ele disse, divertido.
– É! Isso – falei, arquejando – Eu queria te dar feliz natal.
Ele riu mais um pouquinho, soltando um suspiro contente. Mordi o lábio, nervosa.
– Muito bem, pode desejar feliz natal agora – ele disse, devia ter mordido o lábio também.
– Er... Como você está? – perguntei,tentando desviar do assunto.
Ele deu uma risadinha, esperei.
– Estou morto, agora que você tocou no assunto – ele disse – Finalmente convenci Sarah a dormir, vou ficar de vigia no lugar dela hoje. Aliás, meu turno começa em dez minutos.
Assenti, sorrindo de leve.
– Pelo menos assim ela descansa um pouco, mas não se esforce demais – falei.
– Você está preocupada comigo? – perguntou Akira.
Pude sentir esperança em sua voz, meu coração pulou uma batida.
– Estranho seria se eu não estivesse, Yushima – respondi.
Minha voz deve ter vacilado um pouco, eu estava nervosa. Akira suspirou, contendo uma risadinha.
– Então você continua a mesma, minha Nina – ele disse – Sinto sua falta, mais do que sinto fome ou sono. Eu sei que só faz duas semanas, mas é como se eu não te visse há anos.
Engoli em seco, ele esperou. Suspirei, fechando os olhos.
– Também sinto sua falta, meu Akira – confessei.
– Vamos para logo com isso, Nina. Eu quero te ver, quero te abraçar – ele disse, soltando um suspiro pesado – Eu gostaria de pelo menos parecer forte, mas eu não consigo. Estou morrendo com isso, amor. Eu quero você, preciso de você.
Ofeguei, mordendo o lábio com força.
– Eu te amo, Akira – falei, minha voz quase não saiu – Eu te amo, mas não posso pensar nisso agora. Eu estou tentando, tendo muito. Não sei direito o que estou sentindo, preciso de mais um tempo.
Ele prendeu a respiração por um segundo, mas logo soltou um suspiro pesado.
– Eu te amo – ele disse – Eu te amo mais do que amo minha própria vida, então vou tentar aguentar isso, por você.
Suspirei, ele respirou fundo.
– Certo, chega de conversa triste – ele disse – Como você está?
Sorri, abrindo os olhos. Nem percebi que tinha deixado algumas lágrimas escaparem, sequei-as sem pressa.
– Estou bem, ficar de férias faz muito bem à saúde – falei, antes de rir um pouco – Aliás, meu último dia de aulas foi muito divertido. Juntei uns amigos e pregamos uma peça no Fuuto, ele nunca mais vai poder dizer que nunca sentou em um pênis.
Akira riu, surpreso. Sorri, aliviada por ouvir sua linda risada.
– Como vocês fizeram isso? – ele perguntou, ainda rindo.
Dei de ombros, mordendo o lábio.
– Meu amigo Liu é muito bom com o lápis, ele desenhou um pênis muito realístico – contei, rindo um pouco – Ken, o irmão de Liu, roubou massinha de modelar das crianças menores e fez um modelo em 3D, aqueles dois nasceram para trabalhar juntos. Para completar, eu cortei um pouco dos meus cabelos e meu amigo Yelisei colou-os no pênis falso, e colamos o trabalho todo na cadeira que o Fuuto sentaria na hora da foto. Fingimos estar passando mal na hora, ele nem percebeu o tinha na cadeira até sentir.
Akira riu de novo, acompanhei-o dessa vez. Tive que controlar minhas risadas, ou Subaru pensaria que eu estava enlouquecendo.
– Nina, você é uma figura – Akira disse, rindo – Se Bruce ainda estivesse aqui, eu faria isso.
Ri, ele soltou um suspiro alegre.
– E o Bruce? Sabe o que aconteceu com ele? – perguntei.
– Parece que ele tinha um avô em coma, por isso morou no orfanato – contou Akira – O velho morreu um dia antes do aniversário de Bruce, parece que o fedelho herdou uma fortuna. Ele ficou triste até descobrir que estava rico, depois saiu pulando pelos corredores. Ele beijou aquela garota ruiva, Yoko, de entusiasmo, até hoje eu me lembro do ruído do cruzado que ela deu na cara dele.
Bufei, rindo um pouco.
– Isso é bem a cara do Bruce – comentei – Só não espero que ele gaste o dinheiro todo em besteiras e depois caia na desgraça.
Akira riu pelo nariz, como se concordasse. Ouvi um barulho abafado do outro lado da linha, como batidas duras em algo igualmente duro. Akira grunhiu um pouco, bufando de forma frustrada.
– Amor, eu tenho que ir – ele disse – Tá na hora do meu turno, o outro patrulheiro acabou de espancar a minha porta pra avisar.
Ri, sentindo-me aquecida pela forma como Akira me chamara.
– Muito bem, boa patrulha pra você – falei, mordendo o lábio – Ah! Feliz Natal.
Akira suspirou, um suspiro pesado.
– Eu te amo, Nina – ele disse, engolindo em seco – Feliz Natal.
Suspirei, ele encerrou a chamada antes que eu perguntasse o motivo daquela sua tristeza repentina. Baixei o celular, respirando fundo.
– Er... Nina? – alguém bateu na porta – Está pronto.
Sorri, sentindo-me ligeiramente aliviada por ouvir a voz de Subaru. Ergui-me do sanitário, puxando a descarga só para fingir que estava mesmo usando o banheiro. Abri a porta, deparando-me com a figura enorme do meu jogador de basquete favorito. Sorri, olhando-o de cima à baixo. Ele corou, sem entender onde eu queria chegar.
– Você está bloqueando a saída – falei, mordendo o lábio.
Ele arquejou, corando. Ri, Subaru deu alguns passos para trás. Saí do banheiro, deixando a porta aberta. Procurei o resultado do trabalho de Subaru, abrindo um grande sorriso assim o vi.
– Ficou perfeito, você é demais – falei.
Ele corou, encarando o chão.
– Eu só coloquei os cabos no lugar certo, não foi nada demais – ele disse, um pouco baixo demais.
Ri, sacudindo a cabeça.
– É incrível para mim, não sei montar um negócio desses – falei – Aliás, só comprei porque a mamãe me convenceu, e pagou boa parte. O que eu fiz realmente foi isso.
Sacudi um pequeno pen drive em forma de granada na mão, eu simplesmente adorara aquilo quando estava escolhendo algo para comprar para Yusuke. Decidi comprar um console portátil para o ruivo, ele até mesmo me abraçara na entrega. Para o presente de Louis, Miwa e eu tínhamos unido forças. Ela pagara aquele novo home theater e eu fizera aquela vídeo no computador de Rintarou, já que não tinha um computador próprio na época (Como eu amo aqueles gêmeos). Simplesmente não achei nada que pudesse comprar para Louis, conhecendo-o como eu conheço, eu sei que ele preferiria um gesto carinhoso do que um relógio ou um perfume caro.
– O que você tem aí? – perguntou Subaru, erguendo o olhar até meu rosto.
Ele não estava mais corado, o que era um alívio. Mordi o lábio, apertando o pen drive entre os dedos.
– Nada demais, só selecionei algumas fotos e gravei um vídeo em homenagem ao Louis – falei – Pretendo mostrar tudo a ele, nossa mãe me garantiu que ele até choraria de felicidade.
Subaru sorriu, um sorriso pequeno, que parecia uma gargalhada naquele rosto sempre sério.
– Você gosta muito dele – ele disse, não era uma pergunta.
Assenti, soltando um suspiro terno.
– Louis é um caso engraçado, sinto como se ele fosse parte de mim – confessei – Eu amo todos vocês igualmente, mas quando penso no Louis, sinto que ele alguém além do amor.
Subaru suspirou, leve.
– Sei como é – ele disse, num sussurro quase inaudível.
Eu disse quase.
Arregalei os olhos, escancarando a boca.
– Você está apaixonado?! – perguntei – Deus, como eu amo essa vida, mais ainda!
Ele arregalou os olhos, olhando-me como se eu estivesse virando um crocodilo albino. Ri, dando três pulinhos.
– Como ela é? Ela é bonita? Ela estuda com você? Ela é bonita? Ela parece com alguma atriz famosa? Ela é bonita? – disparei, tremendo como um esquilo desesperado – Eu conheço ela? Vou conhecer um dia? Você tem uma foto dela no celular? Ela é bonita?
– N-não é i-isso... – gaguejou Subaru, vermelho – E-eu n-não...!
Explodi em uma risada escandalosa, sem dar a mínima pro sigilo. Subaru respirava pesadamente, como se seu peito estivesse cheio de ácido. Arquejei, quase engasgando-me com minhas risadas. Respirei fundo, tentando ficar séria.
– Quer bancar o desentendido? Beleza – falei – Você não vai conseguir se livrar de mim. Eu vou descobrir de quem você gosta, e vou fazer vocês dois casarem em um jardim lindo.
Subaru arregalou os olhos, mas não disse nada. Ri, ele devia estar considerando a ideia.
– Muito obrigada pela ajuda, valeu à pena ter chamado você até aqui – falei, mudando de assunto – É melhor nós irmos, não quero que nos peguem aqui.
Ele assentiu, ainda muito corado. Ri pelo nariz, sacudindo a cabeça. Dirigi-me à porta, sentindo Subaru em meus calcanhares. Saí para o corredor, trancando a porta do quarto de Louis assim que meu irmão vermelhão passou por ela. Caminhamos lado a lado no corredor, ele evitava me olhar. Sorri com aquilo, mas não fiz nada.
– E-espera! – disse Subaru.
Estanquei, arregalando os olhos. Ele não gritara, mas sua voz forte fora surpreendente o bastante para que eu me assustasse. Engoli em seco, encarando aquele gigante do basquete. Subaru não me encarava, sua cara estava vermelha de novo.
– Espera aqui – ele disse.
Assenti, ele respirou fundo. Sua mão girou a maçaneta da porta que eu só reparei estar ali naquele segundo, ele entrou no quarto como um vulto alto e musculoso. Respirei fundo, pondo a mão no peito para tentar acalmar meu coração. Contei duzentas respirações até resolver parar, estava ansiosa sem saber o motivo. Barulhos estranhos vinham de dentro do quarto, Subaru parecia estar revirando os móveis e perguntando “Cadê?” de segundo em segundo. Esperei mais um pouco, olhando em volta. O corredor estava vazio, reconheci o quarto de Ema bem no fim. Sorri de lado, percebendo que nunca tinha reparado o suficiente nas portas. Não sabia onde ficava o quarto da maioria dos irmãos, aquele corredor era quase desconhecido para mim. Pensei em verificar todas as portas do corredor, mas um arrastar brusco me trouxe de volta à realidade. Dei um pulo de susto, virando o rosto com força na direção do som. Subaru praguejou, e logo depois disso, e meteu a cara através de uma fresta na porta.
– Q-qual é seu número? – ele perguntou, brusco.
Pisquei, confusa.
– Número? Que número? – perguntei – O que você está fazendo aí dentro? Matando um boi?
Ele abriu a boca para responder, mas não disse nada. Ele encolheu a cabeça e bateu a porta de novo, não antes de me mandar ficar no mesmo lugar. Engoli em seco, nervosa. Tudo bem que ele não parecia ter muita experiência com garotas, mas ele já estava me assustando. Subaru saiu do quarto dois minutos depois de entrar, segurava alguma coisa embolada nas mãos. Ele esticou os braços, engolindo em seco.
– T-toma – ele disse.
Pisquei, encarando o monte de tecido em suas mãos. Peguei, minhas mãos tremiam. Quando abri o monte, arregalei os olhos.
– Essa é sua camisa do time? – perguntei, surpresa.
Ele assentiu, engolindo em seco.
– E-eu não comprei nada para você, não sabia o que escolher – ele disse, quase atropelando as palavras – Você me deu um iPod maravilhoso, eu não podia te deixar sem presente. Não sabia mais o que dar, me desculpe. Aceite a camisa, por favor!
Ele praticamente berrou aquela última parte, fazendo-me uma reverência desajeitada e torta. Eu ainda estava tremendo, minhas entranhas retorciam-se com força. Subaru ergueu o rosto em minha direção, estava tão vermelho que parecia estar entrando em combustão.
– S-sério? – perguntei, gaguejando um pouco também – Obrigada, Subaru.
Ele arquejou, endireitando o corpo de forma apressada.
– Que bom que gostou – ele disse, quase como um robô – Feliz natal.
Sorri, abraçando a camisa de Subaru com carinho.
– Feliz natal, Subaru – respondi, soltando um suspiro.
Ele encarou meu rosto fixamente, depois sacudiu a cabeça. Seu rosto ficou vermelho de novo, dei uma risadinha.
– Pode ir agora, eu vou ficar no meu quarto – ele disse, ereto.
Assenti, inclinando-me em sua direção. Abracei-o com o máximo de carinho que se posse abraçar uma estátua, já que ele ficou tão duro que parecia ser feito de mármore. Ouvi seu ofegar, mas não me importei. Fiquei ali durante quase um minuto, respirando calmamente. Minha orelha direita estava colada em seu peito forte, eu podia ouvir o ritmo frenético de seu coração. Subaru se retesou bruscamente, colocando os braços ao redor do meu corpo como se estivesse tentando amarrar-me nele. Arfei, abraçando-o com mais força. Ele abraçou-me de volta, ainda um pouco duro. Sorri, soltando um suspiro.
– Boa noite, Subaru – falei, suave.
Ele me apertou um pouquinho mais, seu coração acelerou-se assim que minha voz soou.
– Boa noite – ele respondeu.
Sorri, soltando-o devagar. Ele estava corado, mas estava sorrindo de leve. Afastei-me dele, vestindo a camisa que ele me dera. Ela tinha um cheiro incrível, um pouco amadeirado. A camisa ficou grande em mim, caia até o meio das minhas nádegas. Ela não tinha mangas, então não ficou larga no busto. Eu fora abençoada com seios grandes, que prendiam a blusa no lugar certo. Sorri, lançando um olhar travesso a Subaru. Ele sorriu, dando de ombros desajeitadamente. Ri, sacudindo a cabeça. Acenei, ele acenou de volta. Passei por ele, sorrindo em sua direção. Ele sorriu de volta, virando um pouco o rosto para me ver ir embora. Sorri com aquilo, tentando ignorar o fato de que eu estava vestindo uma camisa de time de basquete por cima de um vestido caro. Mas isso não era nem de longe o que mais me alarmava. Eu estava quente, aquecida pelo calor e pelo cheiro de Subaru. Acho que ele finalmente me aceitara, eu estava tão feliz que poderia estar brilhando.
Só fui perceber que já tinha descido as escadas quando quase caí no último degrau, agarrando o corrimão. Engoli em seco, rindo logo em seguida. Olhei em volta, percebendo que não estava sozinha. Wataru estava praticamente desmaiada sobre a caixa do Xbox One que eu comprara para ele de presente, Miwa me ajudou a pagar aquilo também. Na verdade, ela só não me ajudara a comprar o presente de Fuuto, já que ninguém sabia o que eu comprara para ele. Talvez fosse muita audácia da minha parte, mas Fuuto merecia mesmo um pênis de chocolate como aquele.
Caminhei tranquilamente até onde estava meu irmãozinho, feliz por ter me livrado dos saltos antes. Ele ressonava, parecia estar sonhando. Ri baixinho, agachando-me diante dele. Peguei o pequeno no colo, ele grunhiu baixinho.
– Onee-chan – suspirou, enterrando o rostinho em meus cabelos.
Ri, afagando suas costas.
– Durma, minha hiena – falei, dando um beijinho em seu pescoço.
Ele bufou de sono, dormindo outra vez. Abracei-o, prendendo-o em meu corpo como se ele fosse um filhote de macaco. Wataru estava crescendo mais rápido do que eu podia registrar, eu quase não conseguia mais carregá-lo direito. Fiz um esforço extra, já que ele comera como um búfalo na ceia de natal. Sorri com o pensamento, ele nunca comera tanto. Encaminhei-me às escadas, precisava deixá-lo na cama.
– Deixa que eu faço isso – disse alguém.
Olhei para o lado, reparando na presença do mais velho dos Asahina. Abri um sorriso aliviado, estava com dor nas costas apenas ao imaginar como seria ter que subir aquilo tudo com aquela hiena gorda no colo. Passei o caçula da família a Masaomi, soltando um suspiro de alívio.
– Obrigada – falei – Devíamos obrigá-lo a fazer uma dieta.
Masaomi riu, abrigando o pequeno em seus braços sem fazer esforça. Wataru se remexeu, gemendo. Ele fez um biquinho, pisquei.
– Ele está sentindo sua falta – disse Masaomi, afagando as costas do irmão.
Wataru tremeu aquele bico, como se enfatizasse as palavras de Masaomi. Ri, olhando-os carinhosamente.
– Eu posso deixá-lo no quarto dele, fui eu que acostumei ele a dormir com a onee-chan mesmo – falei.
Masaomi negou com a cabeça, sorrindo.
– Não precisa, eu faço isso há doze anos – ele disse – Fique despreocupada, curta o resto da noite.
– E você? Vai deixar de curtir o resto da noite por ser o mais velho? – perguntei – Não precisa levar tudo nas costas, pode dividir um pouco comigo.
Masaomi me encarou, um pouco surpreso. Sorri da forma mais convincente que pude, ele soltou um suspiro contente.
– Obrigado, Nina – ele disse – Mesmo assim, pode deixar Wataru comigo essa noite.
Assenti, sorrindo. Masaomi aproximou-se de mim, depositando um beijo carinhoso em minha testa. Suspirei, o mais velho dos Asahina sorriu para mim.
– Boa noite – ele disse.
– Boa noite – respondi.
Ele sorriu, afastando-se com Wataru no colo. O pequeno grunhiu meu nome uma vez, Masaomi riu. Eles subiram as escadas, desaparecendo. Suspirei, sacudindo a cabeça. Uma risada histérica eriçou os pelos do meu corpo, ela logo foi seguida por outras risadas mais controladas. Ri pelo nariz, reconhecendo a linda risada de Louis no meio daquele coro. Como se estivesse sendo atraída por aquele som, segui na direção da sala de jantar. Uma nova onda de risadas encheu o ar, sorri.
– A culpa não foi minha, eu não sou acostumado a ter mulheres sentadas no meu colo – disse a voz de Louis, divertido.
Alguém bufou, parei de andar.
– E a Nina é mesmo linda, não temos como negar isso – disse a voz de Azusa.
Alguém riu, esperei.
– Mas isso não justifica a árvore de natal que cresceu no meio das pernas do Louis – disse a voz de Tsubaki – Eu já vi ela pelada, mas não fiquei duro daquele jeito.
Aquela risada aguda soou de novo, alguém exclamou.
– Ei, não me olhem com essas caras, foi um acidente – disse Tsubaki, rindo pelo nariz – Eu também estava nu, então foi justo.
Alguém bufou.
– Justo, ver nossa irmã nua – resmungou Kaname – Isso não é justiça, é um privilégio.
– Privilégio mesmo é vê-la dormir – disse Louis, entre suspiros – Ela é tão linda.
Alguém deu uma risada debochada.
– Você bebeu demais, Louis – disse a voz serena de Iori.
– E isso esta cheirando à carência – zombou Tsubaki.
A risada aguda voltou para me assombrar.
– Verdade, Luluzinho – disse a voz embriagada de Hikaru – Você está sem sexo há quanto tempo? Um ano?
– Dois – respondeu Louis, soltando um suspiro engraçado.
Umas três pessoas riram, Louis não disse nada.
– Como está sua mão? Esfolada? – zombou Hikaru – Você ainda assina aqueles canais adultos ou se masturba só pensando na nossa irmãzinha?
– Hikaru! – censurou alguém, parecia ser a voz de Ukyo.
O ruivo riu, sendo acompanhado por Tsubaki e Kaname.
– Minhas mãos estão bem, elas já estão acostumadas – disse Louis, bufando – Eu assino aqueles canais horrorosos, mas prefiro nem assistir aquele teatro exagerado.
Tsubaki riu.
– Prefere o sexo real, não é? – zombou o mais velho dos gêmeos – Talvez eu te deixe assistir minha próxima transa.
Kaname e Hikaru riram, Louis bufou.
– Tsubaki, se ache menos – disse uma voz grave – Você se orgulha tanto de transar com qualquer uma, mas não tem nenhuma mulher de verdade na conta, apenas garotas bêbadas.
Cobri a boca com a mão, os outros riram do comentário de Natsume.
– E você? Aposto que só cata mulher gostosa – ironizou Tsubaki, desgostoso.
Natsume riu, arregalei os olhos.
– Eu não fico com mulheres, eu as domino – disse o mais novo dos gêmeos – Se tem uma coisa que eu aprendi na vida foi que mulher nenhum gosta de mandar o tempo todo, na cama elas preferem alguém que inverta o jogo.
– Uau, nosso Natt tá falando que nem rapazinho – zombou Hikaru, rindo – Vocês enchem a boca para falar, mas nenhum de vocês já transou com uma mulher da realeza.
Kaname riu.
– Você pode até ter transado com aquela duquesa, mas não é você que recebe gracejos até mesmo de garotinhas – disse o monge – Eu sou o melhor com as mulheres, todos vocês já sabem disso.
Alguém bufou.
– É tão bom que está solteiro até hoje – disse a voz de Yusuke – Deve ter alguma coisa mole entre as pernas, ou então um rato morto.
Me controlei para rir, mas fui a única. Os outros explodiram em risadas histéricas, até mesmo Iori rira daquilo. Meu corpo tremia violentamente, eu tentava abafar minhas risadas com a mão. Não devo ter tido muito sucesso, já Tsubaki gritou:
– Junte-se a nós, maninha!
Praguejei em espanhol, mas não consegui parar de rir. Adentrei na sala de jantar, sendo recebida pelas palmas desajeitadas de Hikaru.
– Como ela está linda! Arrasando nessa vibe grife-quadra de basquete – disse o ruivo – Tirou a camisa do Subaru pra vestir? Eu queria ter visto essa.
Ukyo lançou um olhar repreensivo ao irmão, só fui perceber que Hikaru tinha as pernas no colo do loiro naquele momento. Revirei os olhos, dirigindo-me a Louis. Ele abriu um grande sorriso quando viu meu gesto, esticando a mão em minha direção. Sorri, aceitando seu carinho. Abracei-o por trás, enterrando minha cara em seu pescoço. Louis soltou um muxoxo, suspirando alto.
– Oh, minha criança – ele disse, quase gemendo.
Hikaru riu, quase derramando o vinho de sua taça na mesa.
– Seu pervertido! Fica chamando a garota de “criança” enquanto fica ereto quando ela senta em seu colo – disse o ruivo, apontando acusadoramente para Louis.
– Isso é pedofilia, pobre garotinha – zombou Yusuke.
– Quer ajuda espiritual, minha bonequinha? – perguntou Kaname, piscando para mim – Posso fazer uma oração em você, beijando seu corpo para limpá-lo da sujeira desse criminoso.
Bufei, encarando o monge com um olhar venenoso.
– Quem você está querendo enganar? Ouvi dizer que você tem um rato morto nas calças – zombei.
A reação foi geral, todos explodiram em gargalhadas histéricas. Louis ria tanto que seu corpo se sacudia, Hikaru batia a cara na mesa com certa força. Tsubaki praticamente cuspia na cara de Azusa, gargalhando com o gêmeo. Natsume e Iori riam, mas não tento. Yusuke apontava para Kaname, socando a mesa e fazendo barulho. Ukyo ria tanto que seu rosto estava vermelho, ele também parecia bêbado.
– Engole essa, seu monge pervertido! – berrou Tsubaki, quase sem voz de tanto rir.
– Meu Deus, como eu amo essa maninha! – disse Hikaru, sua cara estava muito vermelha – diz de novo, por favor!
Neguei com a cabeça, rindo pelo nariz. Kaname deu de ombros, lançando-me um olhar sensual.
– Ele podia até estar morto, mas ressuscitou assim que nos vimos pela primeira vez – ele disse – Desde então, ele fica pulsando só de pensar em você.
Bufei, soltando Louis.
– História de pescador – resmunguei, encaminha-me à saída.
Louis segurou-me pelo braço, fazendo uma careta.
– Esse pescador que tanto pescar uma sereia espanhola – disse Kaname, mordendo o lábio com força.
Bufei, Louis não me soltou.
– Fique comigo, Nina – ele disse, manhoso – Não me prive de sua companhia, por favor.
Neguei com a cabeça, lançando um olhar acusar ao monge lindo.
– Aqui tá cheio demais de pervertidos, prefiro ficar sozinha – falei.
Louis soltou um muxoxo, seu rosto estava mais corado do que de hábito.
– Fica, a gente de dá vinho – disse Tsubaki, piscando para mim.
Neguei com a cabeça, tentando desvencilhar-me do aperto de Louis.
– Toma, Nina – disse Yusuke, estendendo-me uma taça de vinho.
Franzi o cenho, bufando.
– O que deu em vocês? Querem me embebedar? – acusei.
O ruivo riu, dando de ombros. Peguei a taça, virando o vinho na boca de uma vez só. Esse era mais forte do que o outro, estremeci um pouco. Mesmo assim, tomei o mais rápido que pude. Entreguei a taça a Yusuke, desvencilhando-me de Louis.
– Valeu, to saindo – falei.
Ouvi murmúrios em protesto, mas ignorei todos eles. Caminhei pela sala, suspirando. Aquele vinho era bom, mas eu não queria ficar bêbada. Meu celular tremeu, nem precisei pegá-lo para descobrir o que era. Corri para a sacada, meus pés descalços davam tapinhas no chão da sala. Saí, sentindo o frio da noite me atingir. Corri até o ponto onde a árvore estava mais visível, analisando a situação.
Ela estava como antes, sem tirar nem pôr. Talvez estivesse um pouco mais coberta de neve, mas ainda me parecia a mesma árvore. Franzi o cenho, confusa. Peguei meu celular, confirmando que faltava apenas um minuto para a meia noite. Se a surpresa de Fuuto fosse mesmo algo ligado à árvore, eu já devia ter visto algo.
– Aquele idiota – resmunguei – Tá tão frio!
Abracei meu próprio corpo, ainda com o celular na mão. Olhei para a árvore outra vez, decidindo dar uma segunda chance. Esperei pelo que pareceu ser dez minutos, mas nada aconteceu. A neve caía com mais força agora, será que era essa a tal surpresa?
Bufei, o frio devia ter congelado meus miolos. Estremeci, resistindo ao impulso de sair correndo até estar em minha cama. Esperei mais um pouco, mas nada aconteceu. Já estava quase voltando para dentro quando aconteceu, deixando-me completamente boquiaberta.
Era realmente na direção da árvore, mas estava a quilômetros de distância. Devia vir da direção do píer, em uma parte mais espaçosa da cidade. Eram vários, de várias cores. Explodindo, fazendo meu corpo tremer de susto. Era lindo, clareando o céu da noite de natal. Mais ao longe, carros paravam no meio da rua. As pessoas deviam estar parando para contemplar, mas eu sabia que era a dona daquilo. Ri, segurando o parapeito com força. Já nem ligava para o frio, só conseguia encarar o céu. Aquilo durou minutos, talvez horas, eu não saberia dizer. Era o céu quem explodia, mas era meu coração quem estava em chamas. Os últimos quatro fogos de artifício explodiram em azul e vermelho, como se representassem duas pessoas distintas. Como gelo e fogo, consumindo-se juntas no céu estrelado. Queimaram o céu, explodindo-se entre as estrelas. A essa altura eu já estava chorando, mas não conseguia parar de rir. Os fogos podiam ter acabado, mas eles só estavam começando a queimar meu coração.
Não pensei, apenas fiz meus dedos trêmulos procurarem o número de Fuuto no meio dos outros em minha agenda. Colei o celular contra a orelha, surpreendendo-me por ser atendida tão rápido.
– Não aguentou mais a saudade de mim, niña? – disse a voz mais linda do Japão.
Ri, sem conseguir encontrar palavras para expressar o quanto eu amava aquele garoto.
– Podia ter sido melhor, mas os idiotas que eu contratei acabaram se atrasando – disse Fuuto, estalando a língua – Pode dizer, eu sei que foi o melhor presente da sua vida.
Arquejei, sem ar.
– Seu idiota, eu te odeio tanto! – resmunguei, chorando – Como você ousa fazer isso comigo? Essa foi a coisa mais linda que alguém já fez por mim.
Fuuto riu, uma risada quase amorosa.
– Eu sabia que você ia gostar, que garota não amaria receber uma chuva de fogos de Fuuto Asakura? – ele disse, zombando de mim sem pena – Pare de chorar, não vá pensando que eu gosto de você por causa disso.
Bufei, engolindo um soluço.
– Eu não estou chorando – menti – Foram seus fogos ridículos que me deixaram quase cega, eu devia te processar.
Fuuto riu, fiz o mesmo.
– Pois é, foi pra provar que eu também te odeio – ele disse – Aliás, achei seu presente idiota.
Ri, ele deu uma risadinha.
– O que achou? Estava gostoso? – perguntei, zombando.
Ele gemeu falsamente, ri.
– Foi o melhor pênis de chocolate que eu já comi, aliás, eu só comi a cabecinha – ele disse – Guardei o resto para dividirmos, eu deixo você saborear meu pênis.
Ri muito, jogando a cabeça para o alto. Ele riu baixinho, uma risada quase serena.
– Obrigada pela consideração, mas eu não sou gay o bastante para querer um pinto de chocolate – falei, rindo – Pode ficar com ele para você, e coma tudinho.
Fuuto bufou, ri.
– O que esperar de uma niña idiota? Pelo menos o chocolate era dos bons – ele disse – Aliás, como você conseguiu esse pênis?
Ri da forma como ele disse, Fuuto esperou.
– Ah, meu amor. Por você eu vou atrás até de um pênis de chocolate, pena que ele não vem com os testículos inclusos – zombei.
Ele bufou, ri.
– Idiota – ele disse.
Ri mais um pouco, ele esperou.
– Idiota – retruquei.
Ele riu, mas não disse mais nada. Suspirei, ouvindo-o imitar meu gesto do outro lado da linha. Olhei para o céu, contemplando a fumaça branca que os fogos de artifício haviam deixado. Um sorriso lento espalhou-se em meus lábios, soltei um suspiro cheio de alegria. Aquilo era realmente a coisa mais linda que alguém já fizera por mim. Eu não esperava aquilo de Fuuto, mas, de certa forma, aquilo era a cara dele. Por mais idiota que ele fosse, eu sabia que ele fazia tanta palhaçada comigo apenas para aparecer diante de mim. Era lindo, fofo e romântico ao seu modo. Mesmo sem querer, eu sentia que tinha semeado a semente “F” no meu coração.
– Niño? – chamei, ligeiramente nervosa.
Ele grunhiu em resposta, sorri com aquele som.
– Eu te amo – confessei.
Ele não disse nada, apenas escutou. Fechei a boca, soltando um suspiro longo. Ficamos em silêncio durante algum tempo, a neve caindo apagara por completo o rastro de fumaça do meu presente favorito. A respiração de Fuuto estava serena, por um momento eu achei que ele estivesse dormindo.
– Niña? – chamou.
Grunhi em resposta, ele respirou fundo.
– Eu te amo – ele disse.
Sorri, fechando os olhos por um segundo. Ficamos ouvindo as nossas próprias respirações durante minutos, nenhum de nós parecia ansioso para desligar. Eu teria ficado ali durante minha vida toda, mas a neve estava começando a grudar em minha pele. Suspirei, amaldiçoando os flocos brancos por ter sido retirada de meu conto de fadas de modo tão frio.
– Vou desligar, tenho coisa melhor pra fazer – disse Fuuto.
Lindo, o sarcasmo voltara. Sacudi a cabeça, rindo.
– Boa noite – falei.
Ele grunhiu positivamente, desligando sem me dar uma resposta. Ri, era querer demais esperar que ele fosse gentil comigo. Ele era Fuuto Asahina, o garoto mais idiota e irritante que eu tinha o azar de amar. Guardei o celular no vestido, virando meu rosto na direção dos fogos extintos. Por alguma razão, eu apenas esperava vê-lo ali. Pela primeira vez na vida, eu senti vontade de beijar um garoto sem ser Akira, e me odiei por isso.
– Gatinha? – chamou-me uma voz grave.
Meu rosto procurou o dono da voz, meu coração vacilou de esperança. Natsume estava parado na porta da sacada, soltei um suspiro triste. Tentei sorrir, agitando meu corpo para produzir algum calor.
– Oi, Natt – respondi.
Natsume me encarou, como se pudesse ver através da minha alma. Ele era uma combinação estranha de executivo com gato selvagem, ainda mais agora que usava o presente que eu dera para ele. A gravata de gatinhos era perfeita para ele, e combinava com as orelhinhas falsas que eu insistira em colocar em sua cabeça. Ele rira muito, embora relutasse na hora de vestir aquilo. Ele só foi parar de rir quando eu disse que aquilo era apenas uma brincadeira, e que o som automotivo novo que Miwa e eu compráramos estava esperando em seu carro. Ele dissera que não usaria as orelhas, mas continuava com elas na cabeça desde aquela hora.
– Posso te fazer companhia? – ele perguntou.
Abri meus braços em resposta, sorrindo verdadeiramente. Ele sorriu de volta, vindo até mim a passos largos. Assim que estávamos perto bastante um do outro, pude afundar-me no corpo forte do gato-humano mais quente que eu já vira. Ele abraçou-me de volta, dando uma risadinha grave. Soltei um muxoxo, colando meu rosto em sua camisa.
– Meu gatinho – soltei, gemendo preguiçosamente – Você está cheirando a vinho.
Ele riu baixinho, e era mesmo verdade. Ele não parecia estar muito bêbado, mas tinha mesmo cheiro de vinho. Eu amava aquele cheiro em Louis, mas quando era em Natsume, eu sentia como se ele estivesse ateando fogo em meu corpo.
– Eu não bebi muito, mas Tsubaki derramou vinho na minha outra gravata, deve ter molhado a camisa também – ele disse – E você está com cheiro de neve, e algo doce também. Seu perfume é de que?
– Jasmim – respondi, arrastando minha voz – É meu cheiro preferido desde sempre, eu apenas amo esse perfume.
Natsume sorriu, afagando carinhosamente minhas costas. Fechei meus olhos, sentindo-me completamente perdida naqueles braços.
– Você gostou do seu natal? – ele perguntou.
Também parecia preguiçoso, mas podia ser por causa do vinho. Sorri, abraçando-o com um pouco mais de força.
– Eu adorei, nunca comi tanto – confessei – E os presentes também foram ótimos, eu adorei a noite.
Ele se retesou um pouco, provavelmente lembrando-se do que tinha me dado de presente. Sorri, ainda que tivesse corado na frente de todos na hora que abri a caixa. A maioria dos irmãos pulou em Natsume, enquanto Yusuke, Kaname e Hikaru riram como se suas vidas dependessem disso.
– Você não está com raiva daquilo, está? – perguntou Natsume, ligeiramente nervoso.
Ri, ele esperou.
– Eu adorei, não se preocupe tanto com isso – falei – Foi bem surpreendente, admito. Eu não esperava ganhar uma lingerie de você, mas é um conjunto lindo.
Ele corou um pouco, talvez não esperasse que eu dissesse aquela palavra com “l” em voz alta.
– Mesmo assim, me desculpe pelo constrangimento – disse Natsume – Eu devia ter entregado em um momento mais oportuno, não na frente de toda nossa família.
Ri de novo, negando com a cabeça.
– Seria surpreendente em qualquer caso, desencana – falei – Além do mais, aquilo não foi nada perto do que Hikaru me deu.
Natsume bufou, encarando o céu por um segundo.
– Isso é bem a cara dele, Hikaru está falando do seu corpo desde o momento que você saiu da sala de estar – ele disse, trincando os dentes – Isso não é assunto para discutir com tantos homens por perto, você não é uma qualquer para estar na boca de um bêbado.
Fiz uma careta, lembrando-me de súbito que já estive na boca de um bêbado. Ou melhor, que a boca de um bêbado já esteve em... Mim.
– Ele costumar beber daquele jeito? – perguntei.
Natsume deu de ombros, olhando-me por um segundo.
– Às vezes, ele não costuma aparecer muito por aqui – ele disse – Hoje ele bateu o próprio recorde, deve ter tomado mais de duas garrafas de vinho sozinho.
Ri, ofegando de surpresa. Natsume sorriu, encarando meu rosto.
– E eu achando que era a alcoólatra da família, pelo menos tem um cara pior do que eu – falei.
Natsume bufou, suspirei.
– Você não tem bebido ultimamente, tem? – ele perguntou.
Neguei com a cabeça, e era verdade. Eu prometera a Louis que só beberia em ocasiões especiais, sendo na presença de um adulto responsável. Ele me fizera prometer aquilo depois que eu passei um dia todo vomitando no quarto dele, logo depois de me render a Tsubaki no sofá da nossa sala.
– Louis me fez prometer que só beberia na presença dele ou de Masaomi, e eu geralmente cumpro minhas promessas – falei.
Natsume ergueu uma sobrancelha, encarando-me.
– Geralmente? – indagou.
Ri, ele cedeu-me um sorriso. Virei meu rosto para encarar o céu, soltando um suspiro. Era uma noite fria, mas também tinha seus encantos. A cidade estava linda, completamente absorta no clima natalino. Imaginei como estaria a decoração de natal daquele ano no orfanato, eu quase podia ver Sarah trepada numa escada para colocar a estrela na árvore de natal. Seu trabalho incansável na patrulha rendia esse prêmio a ela todos os anos, ela simplesmente adorava esfregar isso na cara de Akira.
Suspirei, meu Akira. Ele devia estar rodando pelos corredores do orfanato, empunhando uma lanterna como se fosse uma espada. Talvez ele estivesse morrendo de cansaço, mas faria aquilo pelo resto da semana se fosse garantir um pouco de sono à Sarah. Esse era o defeito de Akira, ele pensava demais nos outros. Eu já estava acostumada a vê-lo sacrificando-se pelo bem dos outros, doía em mim ver meu namorado daquele jeito. Embora fosse trabalho demais, ele sempre fazia com muito orgulho. Era algo nobre, até.
– O último beijo que eu dei nela foi exatamente aqui – disse Natsume.
Pisquei, ele encarava o céu. Seu maxilar estava travado, ele parecia perdido em sentimentos.
– Foi quando ela me rejeitou – ele disse – Eu não desanimei na hora, garanti que continuaria lutando por ela. Mas percebi que fora o único a ser chutado um tempo depois, pelo menos fiquei com a lembrança de um último beijo.
Ele respirou fundo, desviando o olhar até encarar meu rosto. Esperei, fitando-o. Natsume fechou os olhos, engolindo em seco.
– Achei que fosse doer menos depois de ter te contado tudo, mas continua sendo difícil – ele disse – Foi bem melhor do que das outras vezes, mas ainda me dilacera vê-la feliz com os outros.
Ele inclinou-se em minha direção, deitando sua testa em meu ombro esquerdo. Afaguei seus cabelos, soltando um suspiro pesado.
– Tem alguma coisa que eu possa fazer? – perguntei, falando bem baixo.
– Tem – respondeu Natsume.
Esperei, ele pensou um pouco, mas pareceu ter desistido.
– Esqueça – ele disse – Só fique comigo, é o suficiente.
Bufei, mas assenti. Abracei-o com mais força, Natsume enterrou o rosto na pele do meu pescoço. Sua respiração esquentava minha pele, seu corpo forte praticamente engolia o meu. Eu sentia como se estivesse amparando um garotinho carente, um garotinho lindo e carente. Contorci-me o melhor que pude, sem quebrar o abraço. Depositei um beijo em seu rosto, afagando seus cabelos macios. Ficamos daquele jeito durante alguns minutos, não parei de beijá-lo até que ele ergueu o rosto. Em vez de se afastar, Natsume colou sua testa na minha. Ele abriu os olhos, encarando-me fixamente. Sua boca se abriu, ele ofegou. Parecia estar querendo dizer algo, mas não tinha coragem. Esbocei um pequeno sorriso, roçando meu nariz no dele uma única vez. Ele engoliu em seco, esperei.
– Um beijo – ele disse, sua voz estava grave – É disso que eu preciso. Não é dela que eu espero isso, é de você. Por favor, beije-me.
Arregalei os olhos, afastando meu rosto dele. Natsume ainda me encarava, devorando minha expressão. Engoli em seco, tentando não parecer indelicada.
– Eu tenho um...
– Shiu, eu sei – ele disse, calando-me com um beijo na testa – Eu sei disso, Nina. Eu gostaria de respeitar isso, mas não tenho forças. Eu preciso de você, Nina. Eu preciso de um beijo seu.
Aquilo me desarmou, ele teria me rendido mesmo se não estivesse com aquela expressão dolorosa. Engoli em seco, Natsume aproximou-se de mim. Pus as mãos em seu peito, como se alguma parte minha quisesse realmente contê-lo.
– Eu não posso – ofeguei – Não posso, Natt. Não me obrigue, por favor.
Ele envolveu-me em seu braço esquerdo, enquanto sua mão direita brincava com meus lábios.
– Por favor, Nina – ele disse, fechando os olhos – Por favor.
Engoli em seco, sentindo meu coração a ponto de explodir. Natsume inclinou-se em minha direção, inebriando-me com seu cheiro. Sua respiração falha esquentou meu rosto, fechei os olhos. Não respondi, mas ele entendeu. Esperei, mas ele não o fez. Quando abri meus olhos de novo, percebi que estava destruindo o que restava do coração de Natsume. Ele encarava meu rosto, seu olhar era quase doloroso.
– Você o ama – ele disse – Você me rejeitou também.
Neguei com a cabeça, abraçando-o para mantê-lo comigo.
– Eu não rejeitei você, Natsume – respondi – Eu apenas não... Posso.
Ele apertou meu queixo, fechando os olhos por um momento. Natsume engoliu em seco, respirando fundo. Esperei, mas ele não fez o que eu pensei. Em vez de me afastar e me deixar sozinha, ele apenas abraçou-me com mais força.
– Me desculpe – ele disse, abrindo os olhos – Mas eu não ligo.
E colou seus lábios nos meus.
Foi como se eu estivesse sendo sugada por um buraco negro. Eu já não sentia minhas pernas, não sentia meus braços, já não sentia o frio. Tudo que eu sentia era meu coração batendo, martelando em minha cabeça como se fosse ali sua morada. Tudo aquilo que me era claro agora não passava de uma nuvem distante, afastando-se de mim enquanto uma tempestade de novas informações lavavam meu ser. Os braços de Natsume era a única coisa que me impediam de cair, segurando-me contra seu corpo com força. Seus lábios estavam parados sobre os meus, como se ele tivesse virado pedra. Meus olhos estavam abertos, então eu pude ver exatamente o que passava em seu rosto.
Ele estava tomado pela angústia, como se me beijar fosse ainda mais doloroso do que beijar Ema. Pisquei, sentindo-me internamente triste por aquilo. Quando pensei que ele ia finalmente de mexer, Natsume encerrou o beijo. Ele abriu os olhos, encarando-me com firmeza.
– Me deixe entrar, Nina – ele disse.
Aquelas palavras eram minhas. Engoli em seco, amolecendo por completo. Respirei fundo, assentindo quase imperceptivelmente. Natsume soltou um suspiro pesado, inclinando-me na minha direção como uma águia em caçada. Seus lábios tomaram os meus de novo, envolvendo-me por completo dessa vez. Deixei que ele deslizasse os lábios por entre os meus, transformando aquele encostar em um beijo. Ele soltou um suspiro de alívio, apertando-me com força. Seus lábios dançavam sobre os meus, envolvendo-os em sua dança perfeitamente regrada. Aquilo durou alguns segundos, até ele decidir que queria mais. Sua língua cutucou meus lábios, como se pedisse para entrar. Seus lábios estavam com gosto de vinho, talvez fosse pela situação, ou talvez fosse por aquele gosto, mas eu permiti que aquele beijo se transformasse. A língua de Natsume entrou em minha boca, procurando a minha com certa voracidade. Ofeguei, ele prendeu minha língua na sua. O gosto de vinho ficou mais forte, entorpecendo-me por completo. Abracei-o, movendo minha língua contra a sua. Ele ofegou quando sentiu que eu correspondi ao seu beijo, envolvendo minha língua com tanta força que eu pensei que ele fosse engoli-la. Arfei, entregando-me por completo. Natsume colou nossos corpos, inclinando-se sobre mim. Arqueei minhas costas, permitindo que ele me colasse contra o parapeito. Suas mãos encontraram-se em minhas costas, apertando-me com força. Entrelacei meus dedos em seus cabelos, puxando-os sem pena. Ele intensificou ainda mais aquele beijo, sugando minha língua, invadindo minha boca com sua saliva deliciosa. Mordisquei seu lábio inferior, ele pareceu se acender com aquilo. Natsume mordiscou meus lábios de volta, puxando-me para si através da minha cintura. Minha perna esquerda quase se ergueu, como se ele estivesse me deitando. Natsume desceu sua mão direita até apertar minha perna, forçando-me contra o parapeito. Arquejei, ele sugou minha língua com força. Puxei seus cabelos com força demais, ele soltou um muxoxo. Eu não queria partir aquele beijo, mas não pude lidar com a falta de ar. Separei nossos lábios, Natsume relutou, mas me deixou ir. Ofeguei alto, engolindo o máximo de ar que eu consegui. Ele estava tão ofegante quanto eu, colando nossas testas para que pudéssemos nos recuperar juntos. Respirei, tossindo um pouco. Ficamos daquele jeito durante um tempo. Minha respiração se acalmou, mas meu coração continuava acelerado. Natsume percebeu que eu já estava bem, descolando nossas testas para me dar algum espaço. Seu rosto estava vermelho, mas ele não estava tremendo como eu.
– Obrigado – ele disse.
Sua voz estava rouca, sua boca brilhava pela troca de saliva. Tentei sentir nojo daquilo, mas percebi que a minha estava no mesmo estado. Engoli em seco, assentindo como se fosse uma marionete velha. Encarei o chão, tentando não desmaiar. Fechei os olhos, respirando fundo. Minha boca ainda estava muito quente, meus lábios deviam estar inchados. Meu peito subia e descia com força, ainda que minha respiração estivesse calma. Esperei durante alguns segundos, talvez até minutos. Tudo girava na minha mente, minha boca estava com o gosto da combinação fascinante de vinho tinto e Natsume Asahina. Eu riria daquilo, se não estivesse ocupada demais deglutindo aquele gosto incrível. Engoli em seco, soltando um suspiro intenso. Ouvi Natsume suspirar também, mas continuei de olhos fechados. Senti seus braços me envolverem de novo, mas não senti mais nada por conta do que veio a seguir. Seus lábios tomaram os meus de novo, prendendo-me em um beijo voraz. Ele prensou-me contra o parapeito, invadindo minha boca sem pedir permissão dessa vez. Nossas línguas embolaram-se uma na outra, entrelacei meus dedos em seus cabelos outra vez. Natsume inclinou-se em minha direção, como se estivesse tentando fundir nossos corpos em um só. Sua língua explorou cada cantinho da minha boca, descobrindo-me. Soltei um muxoxo, ele apertou minha cintura com as mãos. Inclinei-me em sua direção, colando nossos corpos com certa ferocidade. Natsume retraiu sua língua, transformando aquele beijo em apenas um encostar. Aquilo permitiu que ambos pudéssemos respirar, sorri. Ele sorriu de volta, senti seus lábios de repuxarem sobre os meus.
– Esse foi ainda melhor que o outro – disse Natsume.
Ri, ele fez o mesmo. Natsume descolou nossos corpos, dando-me espaço para desgrudar meu corpo do parapeito. Cambaleei um pouco, ele me segurou antes que eu caísse. Ri um pouco, ele sorriu carinhosamente para mim.
– Eu fiquei tonta – reclamei, rindo – Você sugou minha coordenação motora, e quase engoliu minha língua.
Natsume arquejou, desviando o olhar. Seu rosto ficou vermelho, mas ele não conseguiu parar de sorrir bobamente. Sorri, mordendo o lábio.
– Foi um beijo delicioso – ele disse – Sua boca é tão doce, irresistível.
Dei uma risadinha, inclinando a cabeça para o lado.
– Estou lisonjeada – falei – Mas quem tem um gosto maravilhoso aqui é você, gatito.
Ele corou, erguendo o olhar. Encaramos-nos durante um tempo, quase nem vi a noite avançar sobre nós. Neve se acumulava nos ombros de Natsume, ri daquilo. Limpei-o com as mãos, aproximando nossos corpos. Ele aproximou-se de mim de volta, sorrindo carinhosamente. Sorri de volta, deixando-me ser envolvida em seus braços fortes. Aqueles beijos me consumiam lentamente, mas eu sentia que nunca seria suficiente. Eu sentia como se estivesse sendo arrebatada por alguma coisa, uma aura muito forte.
Eu não sabia o que era, mas era grandioso.
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– “Então... é isso”- falei, ou melhor, o vídeo falou – “Eu tirei a maioria dessas fotos sem você perceber, e essas foram as melhores. Eu nunca fui muito voltada à fotografia, mas acho que realmente consegui capturar sua alma em algumas delas. Espero que você tenha gostado, me deu um trabalho... Mas valeu a pena, eu me diverti muito tentando imaginar sua reação...”
Louis mordeu o lábio, encarando fixamente a tela. Estávamos daquele jeito a minutos, ele estava bêbado, mas conseguia assistir minha surpresa com uma expressão linda. Minha versão gravada não parava de falar, eu já tinha enjoado da minha própria cara.
– “...e lindo, você é muito lindo também”- confessei, dando de ombros – “Mas não é só por isso que eu te amo, meu irmão. Você é perfeito e imperfeito ao mesmo tempo. Você tem o dom de me fazer rir até mesmo quando eu estou com o coração chorando. Eu adoro sua risada, você é tão maravilhoso, Louis. Eu nem sei como descrever o que eu sinto por você, só sei que é forte.”
Minha eu gravada suspirou, secando algumas lágrimas. Minha eu real não estava muito melhor, e meu lindo Louis também não. Ele chorava. Baixinho, mas chorava.
– “Enfim, eu te amo” – falei – “Amava ontem, amo agora e vou continuar amando para sempre. Nunca que se esqueça disso, e eu prometo que nunca vou esquecer. Sabe o motivo? Porque eu sei disso tão profundamente quanto sei meu nome. Eu te amo, Louis. Você é especial, e eu sou sortuda por ter você. Feliz natal, agora desliga esse DVD e me dá um abraço apertado!”
Louis riu, a Nina da gravação abraçou o próprio corpo. Louis apertou o botão do controle remoto do DVD, desligando o aparelho. Quando ele virou para mim, estava praticamente se desmanchando em lágrimas. Ri, a boca dele tremeu. Louis estava muito bêbado, mesmo depois de ter tomado um banho demorado. Estávamos em seu quarto, deitados em sua cama enorme. Ele subira apoiando-se em mim, rindo e falando coisas sobre meus cabelos estarem lindos com aquela cobertura de neve. Dera trabalho colocá-lo no banho, e ele ainda passara quase uma hora insistindo para que eu tomasse banho com ele. Depois de chamar ajuda de um sonolento Masaomi e me molhar toda, conseguimos deixar Louis decente o bastante para deitá-lo em sua cama. Eu tomei um banho depois disso, e vesti meu melhor pijama natalino. Louis me agarrara assim que eu deitara ao seu lado, mas eu consegui convencê-lo a assistir o vídeo que eu fizera. O resultado fora incrível: Ele chorou a partir do momento em que minha cara apareceu na TV.
– Oh, minha criança – disse Louis, fungando – Eu te amo tanto, minha criança.
Ri, ele atirou-se em minha direção. Deixei que ele me abraçasse, tentando não rir demais de sua careta. Louis enterrou a cara em meu pescoço, esmagando-me com seu corpo lindo.
– Obrigado, minha criança – ele disse, respirando fundo em minha pele – Eu te amo muito.
Ri baixinho, afagando seus cabelos completamente bagunçados.
– Eu te amo, Louis – falei – Durma, eu vou passar a noite aqui.
Ele assentiu, fechando os olhos. Louis dormiu depois de uns cinco minutos, fazendo-me rir bem baixinho para não acordá-lo. Ajeitei-o da melhor forma que pude, sem desfazer seu abraço. Agora estava comprovado, não existia nada mais lindo do que Louis dormindo. Fitei seu rosto, sorrindo. Angelical, era isso que ele parecia. Domando meu coração como um domador de leões profissional, o rosto de Louis foi o que me deu a certeza que eu procurei durante a noite inteira.
A aura é forte, quente, intensa. Ela queima e cura, esquenta e esfria ao mesmo tempo. Ela nos enche e nos esvazia, apenas para encher-nos de novo. Ela é boa, mas também é má. Ela cura, mas também machuca. Aquela aura não era exatamente uma aura, ela é nossa alma. Aquilo, aquele sentimento, não podia ser domado, e muito menos descrito em palavras. Aquela certeza matou minhas dúvidas e me fez perceber que eu já tinha aquela aura dentro de mim, só não sabia o que era.
Era o amor.
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POV Akira Yushima.
Abri meus olhos, sentindo a dor nas minhas costas lembrar-me de onde eu estava. Grunhi, tentando virar meu corpo para o lado. Não consegui chegar muito longe, pois as correntes que me prendiam ainda estavam muito esticadas. Engoli em seco, sentindo o vento frio que entrava da janela me lembrar do que eu viera fazer ali.
Atado naquela cama dura, tudo que eu conseguia pensar era na desculpa idiota que eu inventara para encerrar a ligação que eu aguardara durante duas semanas infernais. Eu odiava ter que mentir pra ela, mas não podia contar a verdade. Se ela soubesse do que eu ando fazendo, das merdas que eu aceito fazer por cem pratas, ela nunca mais olharia na minha cara. Eu não conseguira lidar tão bem com aquele tal “tempo” quanto ela, aparentemente. Sua voz continuava a mesma, talvez mais linda aos meus ouvidos saudosos, mas a mesma voz doce de sempre. Até hoje eu não conseguia entender direito o que eu vira naquela garota assustada, mas não conseguia me livrar da sensação de estar perdendo a pessoa que eu mais amo por pura estupidez.
– Finalmente – disse a voz que me rendia pesadelos terríveis – Achei que você só ia acordar no natal que vem, aí eu não poderia terminar de te dar o meu presente.
Grunhi, enojado. A ruiva riu, sacudindo os cabelos. Continuava coberta apenas por aquela lingerie preta medonha, segurando aquele maldito chicote. Ela devia ser achar muito sexy, mas eu preferia mil vezes minha namorada vestindo uma burca do que minha professora vestida daquele jeito. Eu tivera pouco tempo com ela, mas já a odiava tanto quanto odiava o cafetão da minha mãe.
– Me solta, eu já to cheio dessa sua doença – resmunguei, puxando meus braços.
As correntes fizeram um som terrível, Yokoyama bateu em minha barriga com aquele chicote. Gemi de dor, tentando não gritar. Ela acertara o hematoma que ela mesma fizera na semana passada, de novo. Era sempre assim, ela batia em mim por qualquer coisa que eu fizesse. Se ela não gostasse de como eu me comportava na aula ou até mesmo se eu ligasse para minha namorada, ela me batia.
– Não faça barulho, e pare de resmungar – ela disse, sacudindo o chicote em meu peito nu – Se eu ouvir mais uma palavra, eu te ponho de castigo no canto.
Tremi, engolindo em seco. Castigo no canto era quando ela pregava uma espécie de grampo em meus mamilos e os puxava até eu pedir perdão, isso quando ela não resolvia passar cera quente neles.
– Muito bem, é exatamente assim que eu gosto – disse a ruiva, abrindo um sorriso perverso – Abra as pernas, você tem trabalho a fazer.
Relutei, prendendo a língua entre os dentes para não mandá-la ao inferno. Eu poderia muito bem gritar por ajuda, mas se eu fizesse isso, nunca receberia meu pagamento. Eu já tinha quase duas mil pratas acumuladas, esperando para que ela resolvesse me pagar. Eu podia fazer muitas coisas com aquele dinheiro, mas só conseguia pensar em comprar as alianças que eu vira em uma loja no dia da última visita externa do ano. Eu precisava fazer aquilo, ou nunca poderia dar a Nina o que ela merece. Aquilo era uma boa coisa para se agarrar, eu podia fingir que era ela quem buscava prazer em meu corpo. Mas eu sabia que minha Nina nunca me machucaria, assim como eu nunca machucaria ela.
Mesmo não querendo, eu abri minhas pernas. Yokoyama sorriu, roçando seu chicote nojento em meu pênis.
– Isso mesmo, merece uma nota 10 – ela disse, rindo.
Engoli em seco, tentando na vomitar. Eu precisava aguentar, precisava daquele dinheiro. Sabia que aquilo era um crime, mas eu já era sujo o bastante para não me importar com aquilo. Deixei que ela fizesse o que bem pretendesse comigo, sentindo suas unhas enormes arranhando-me todo. Sabia que não tinha para onde correr, mas não pude refrear o impulso de implorar por ajuda em minha mente.
Mas ninguém veio me ajudar, como sempre.
IMAGEM ESPECIAL
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O Natal é uma época de paz. De amor e de harmonia. É tempo de compartilhar, de dar e de receber. Nós nem sempre agradecemos o bostante pela sorte que nós temos. Devíamos ser gratos, não apenas pelas festividades da data, mas pelo que ela significa de verdade. O Natal celebra o nascimento de Jesus, o filho de Deus. Mesmo que você não acredite nisso, nós não podemos deixar de agradecer o que a data também representa. O Natal nos une, nos envolve. Como uma mãe abraça os filhos, o espírito de Natal nos abraça e nos enche de amor. Mesmo que você seja sozinho, no Natal você se sente acolhido.
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