The New Girl in the House
37 Emergência
Notas iniciais
–... O garoto está passando por um exame de corpo de delito no momento, não temos informações sobre o estado de saúde da vítima – disse o repórter mais próximo – A professora está prestando depoimento agora, e ficará detida até o jovem prestar depoimento. Se for comprovado o crime, ela será transferida para o presídio feminino e aguardará julgamento. Voltaremos mais tarde com mais informações, Kazunari Mukami para a central.
Trinquei os dentes, fechando os olhos com força. Senti a mão de Louis afagar minhas costas com um pouco mais de força, talvez tentando me acalmar. Ele fazia isso há quase uma hora, mas eu não conseguia ficar calma de jeito nenhum.
– Corta – disse o cinegrafista.
O repórter respirou fundo, desvencilhando-se do fio em sua orelha. Espiei, ele não parecia notar minha presença ali.
– Você quer beber alguma coisa? – Louis perguntou.
Assenti, ainda espiando o repórter. Meu irmão soltou um suspiro pesado, sua mão apertou meu ombro de leve. Reprimi um suspiro, não podia dar sinais de fraqueza agora. Eu insistira para irmos até ali, não podia parecer arrependida.
– Volto em um minuto – ele disse.
Assenti de novo, Louis soltou outro suspiro pesado. Senti seu corpo levantar do banco onde estávamos sentados, aos poucos, o som de seus passos foi desaparecendo. Agora eu estava sozinha, apenas eu e o som característico de um hospital. Eu lembrava perfeitamente da última vez que tinha frequentado um, e não era uma lembrança boa.
– Não temos nenhuma novidade ainda? – ouvi o repórter perguntar para um de seus ajudantes.
Meus pelos se eriçaram, parei de respirar para ouvir melhor. O ajudante apenas negou com a cabeça, desviando o olhar até seus equipamentos. O repórter suspirou, olhando em volta. Seu olhar faiscou na minha direção durante um segundo, mas ele logo desviou a atenção até algo realmente importante: o relógio de parede.
– Pobre rapaz – ele disse, tão baixo que quase não pude ouvir.
Soltei um suspiro pesado, baixando a cabeça. O chão parecia muito interessante no momento, principalmente aquela mancha estranha perto do meu pé esquerdo. O cinegrafista arrastou a grande câmera para tirá-la do meio do corredor, o barulho das rodinhas do equipamento quase fez minha cabeça explodir. Fechei os olhos, fazendo uma ligeira careta. Senti uma mão tocar meu ombro, resolvi não abrir os olhos.
– Você está bem, mocinha? – disse a voz do repórter.
Assenti, ainda de olhos fechados. A mão dele continuou segurando meu ombro, esperei que ele fosse embora, mas ele não o fez.
– Você tem algum envolvimento com aquele garoto? – ele perguntou.
Ergui levemente o rosto, tentando vê-lo sem olhar diretamente para seu rosto. Os sapatos do homem brilhavam, alguém devia ter gasto umas boas horas limpando aquilo.
– Ele é meu namorado – falei.
Eu devia estar tentando convencer a mim mais do que convencê-lo, mas, de alguma forma, minha resposta parecia ter surtido efeito. Com um suspiro, o repórter tirou a mão do meu ombro.
– Você gostaria de dar entrevista? – ele perguntou – Como ele não tem nenhum parente, você podia...
– Ache outra – disse uma voz terrivelmente familiar – Essa daqui já passou por tormentas demais.
Pisquei, levemente incrédula. Não ergui o rosto, tinha escutado aquela voz durante dois anos, reconheceria minha antiga diretora em qualquer lugar. Ouvi o repórter suspirar, seu corpo se afastou. Encarei seus sapatos até eles sumirem em algum lugar no corredor, algo mais vermelho chamou minha atenção. Encarei as unhas estendidas diante de mim, um pouco indecisa. Ergui o olhar, deparando-me com os olhos da diretora. Annelise parecia a mesma, talvez ainda mais severa do que de hábito. Ela continuou estendendo a mão para mim, engoli em seco. Estiquei o braço, entregando-lhe o copo vazio que Louis me dera com água horas atrás. Ela pegou o copo e jogou-o na lixeira ao meu lado, eu nem reparara naquele objeto. Ergui o olhar de novo, ela ainda me encarava.
– Parece que sua visita teve um final inusitado – ela disse.
Suspirei, desviando o olhar.
– Essa palavra é fraca, senhora – falei.
Ela não disse nada, nem mesmo parecia ter respirado. Às vezes eu tinha inveja da seriedade dela, era difícil controlar o choro quando não se sabe nada do que está acontecendo. A diretora girou nos calcanhares, deixando-se cair no banco com uma postura impecável. Se fosse em outro caso, eu ficaria completamente tensa por estar ao lado daquela mulher. Mas tudo que me roubava a atenção era a porta a cinco passos de onde eu estava, ou melhor, o que me roubava a atenção era a pessoa que entrara lá mais cedo e ainda não saíra.
– O que ia fazer no orfanato hoje? – disse Annelise, desviando minha atenção por um segundo.
Suspirei, engolindo em seco. A diretora cruzou os passos, deixando-me com a certeza de que eu nunca ia conseguir desviar daquela pergunta.
– Eu precisava falar com Akira, tínhamos um assunto importante para resolver – respondi.
A mulher parecia pensar por um tempo, fixei meu olhar nos meus sapatos.
– Você ia mesmo terminar com o garoto, não ia? – ela disse.
Arregalei os olhos, virando o rosto para vê-la com tanta rapidez que quase quebrei meu pescoço. A diretora permanecia impassível, apenas olhava para a frente como se visse algo muito interessante na parede.
– A senhora... Como...? – murmurei, chocada.
Ela girou um pouco o pescoço, ainda encarando a parede. Eu podia ver seu rosto agora, cada linha de sua expressão transbordava seriedade.
– Vocês achavam mesmo que eu não sabia de nada do que acontecia no meu orfanato? – ela disse – Talvez eu deva contratar alguns atores para dar aulas aos residentes, nenhum de vocês sabe como fingir inocência.
Arquejei, engolindo em seco. Virei para a frente, contemplando a bela pintura daquela magnífica parede. Mishima continuava do mesmo jeito, sua postura parecia a de uma estátua severa e fria.
– Se a senhora sabia de tudo, por que nunca fez nada? – perguntei num fio de voz.
– Você tem uma família adotiva agora, tudo do que você faz é de responsabilidade deles – ela disse – Minha obrigação é manter as garotas do orfanato sem nenhum outro corpo dentro do seu, se você engravidasse, eu não teria que mandar meu melhor aluno e residente para outra instituição.
Gaguejei alguma coisa, ainda um pouco chocada. Ela continuou encarando a parede, ela devia mesmo gostar da cor branca.
– Mas, se a senhora sabia, por que nunca nos puniu? – perguntei, chocada.
Ela deu um pequeno sorriso, lançando-me um olhar de canto de olho. Meus pelos se eriçaram, engoli em seco.
– Mas eu puni, Kazama – ela disse – Vocês nunca descobriram como, mas eu puni...
A porta a cinco passos da minha posição de abrira, e foi como se todo o resto do mundo tivesse virado fumaça. Uma pessoa saiu da sala, levando todo o ar que eu mantinha nos pulmões para outra dimensão. Dei um pulo do banco, apenas para sentir a maior dose de desespero e frustração que eu já havia sentido. Mishima levantou também, caminhando até o homem como se eu não passasse de uma parte do cenário. Senti meus lábios tremerem, deixei a cabeça tombar em direção ao chão. Com um suspiro desesperado, permiti que meu corpo caísse no banco outra vez. Senti o olhar do médico sobre mim, mas tudo que eu conseguia fazer era respirar para tentar conter as lágrimas.
– Como está o garoto? – disse a voz de Mishima.
O médico continuou me observando, seu olhar era quase preocupado.
– Está estável – o homem respondeu – O laudo preliminar indicou uma costela quebrada, uma luxação no dedo da mão direita e vários hematomas. Os exames mostram um forte indício de que ele estava ingerindo analgésicos, e quando perguntamos, ele disse que sentia dor nas costas e procurava a enfermaria do orfanato diariamente.
– Tudo isso foi causado durante as violações? – Mishima perguntou.
O médico suspirou antes de responder, esperei.
– Ele contou que a professora costumava amarrá-lo ou algemá-lo, a luxação ocorreu quando ele tentava se soltar, e ela tentou quebrar seu dedo – ele disse – A fratura na costela parece ter acontecido durante uma das sessões de tortura, pelo que sabemos, ela tinha o hábito de castigá-lo quando ele fazia algo que não a agradava.
Comprimi os lábios, fechando os olhos com força. Era inútil, eu já sentia as lágrimas começando a sair.
– Testaram para alguma doença sexualmente transmissível? – a diretora perguntou.
– Testamos, como de praxe em casos como esse – respondeu o médico – Todos os resultados deram negativos, podemos dizer que ele teve muita sorte.
Mishima assentiu, funguei para tentar controlar o choro. Se Louis me visse daquele jeito, ele me levaria para casa. Mas eu não podia ir sem vê-lo, eu precisava saber como ele estava.
– Quando ele será liberado? – Mishima perguntou.
O médico lançou-me um olhar antes de responder, como se quisesse minha permissão. Funguei de novo, encarando o chão.
– Como ele já prestou depoimento aqui mesmo, ele será liberado assim que fizermos mais alguns exames, receitarmos alguns remédios e tratarmos dos cortes superficiais causados pelos chicotes – ele disse – Ele ficará em observação por mais algumas horas, sugerimos que ele tenha acompanhamento psicológico durante um tempo.
– Ele já estava visitando nosso psicólogo, mas vamos acatar sua sugestão – disse Mishima, soltando o que parecia um suspiro de preocupação – Obrigada, doutor.
O médico assentiu, lançando-me um rápido olhar de pena antes de virar-se e seguir seu caminho. A porta do quarto foi aberta outra vez, duas enfermeiras saíram juntas. Uma delas olhou diretamente para mim, ainda que parecesse dirigir-se à Mishima quando disse:
– Ele pode receber visitas agora.
Meu corpo parecia tão entorpecido que eu nem consegui digerir aquela informação. Continuei encarando pontos aleatórios, lutando contra as lágrimas teimosas. As mais antigas já alcançavam meu queixo, deixando meu rosto frio e úmido. Senti alguém se aproximar, encarei a parede como se minha vida dependesse disso.
– Não ouviu? Pode ver Yushima agora – disse Mishima.
Engoli em seco, piscando três vezes seguidas. A quarta lágrima a alcançar meu queixo pareceu ter molhado minha blusa, senti minha clavícula ficar um pouco mais fria.
– Eu posso não ter nenhuma autoridade para deixá-la em detenção, mas ignorar alguém, além de não ser educado, também não é nada sensato – ela disse.
Bufei, desde quando ela sabia usar sarcasmo? Mordi o lábio, desistindo de impedir que as lágrimas saíssem. Mishima expirou audivelmente, senti seu corpo cair no banco ao meu lado. Agora éramos duas encarando a parede, acho que a pessoa que construiu aquilo ficaria orgulhosa.
– Qual é seu problema agora? Tem medo do que pode encontrar lá dentro? – minha companhia disse.
Sua voz soava quase tranquila, estremeci. Decidi não responder, não tinha presença de espírito suficiente para lidar com aquele comportamento dela agora. Tudo que minha mente conseguia fazer era repassar aquela cena em minha cabeça, a cena que eu não conseguia processar até agora. Aquilo não podia ser real, eu devia acordar daquele pesadelo a qualquer minuto. Abracei meu próprio corpo, minha cabeça tombou para baixo. Chorei, agradecendo aos deuses do desespero por ter sido abençoada com um choro silencioso.
– Eu não quero vê-lo assim – consegui grunhir, fungando – Isso não pode ser verdade, Akira não pode estar daquele jeito.
Minha boca se fechou, mas minhas palavras trêmulas ainda pareciam vibrar naquele corredor. Eu não tinha certeza do que tinha me feito dizer aquilo, mas assim que disse, percebi que aquela era a mais pura verdade. Talvez eu tivesse entrado sem pensar duas vezes dez minutos atrás, mas o que o médico dissera parecia ter acabado com minha força. Meu namorado, meu melhor amigo, meu Akira estava machucado. E, por mais que eu quisesse vê-lo, eu não conseguia suportar a ideia de que eu não podia fazer nada para ajudá-lo.
– Nina? – chamou-me uma voz assustada.
Chorei com mais força, como se aquela voz tivesse acabado de vez com o que restava da minha sanidade. Eu queria me esconder, chorar debaixo da cama da minha mãe. Eu nunca sentira tanto medo, e nunca sentira tanta necessidade de fugir. Fechei os olhos, sentindo os braços aconchegantes do meu irmão cercando meu corpo trêmulo. Escondi-me em seu abraço, enterrando-me nele como se aquilo fosse remediar alguma coisa. Respirei fundo, tentando me acalmar de alguma forma.
Mas, daquela vez, o cheiro de Louis não foi capaz de me acalmar, e aquilo me deixou ainda mais apavorada.
Afastei-me dele, forçando meus braços a se moverem. Segurei seus ombros, abrindo os olhos para encarar os seus. Os orbes cor de malva esquadrilhavam meu rosto, seu rosto parecia quase desesperado. Os braços dele permaneciam abraçando-me, ainda que eu recusasse seu abraço no momento. Nosso olhar se encontrou, ele prendeu a respiração.
– Me acorda, Louis – pedi – Isso é um pesadelo. Me acorda, por favor.
Minha voz saiu fraquinha, como se eu tivesse seis anos de novo. De alguma forma, minhas palavras fracas pareciam ser socado a cara do homem diante de mim. Ele ofegou, suas pálpebras tremeram.
– Nina, o que você está dizendo? – ele disse, sua voz tremulou um pouco – Venha aqui.
Ele me abraçou de novo, enterrando-me nele. Continuei apertando seus ombros, mas ele não permitiu que eu o afastasse dessa vez. Seu corpo parecia mais firme do que de costume, como se ele estivesse me forçando a ficar ali. Abri a boca para protestar, mas um soluço cortou minhas palavras. Louis apertou-me mais um pouco, seus lábios colaram-se em minha orelha.
– Fique comigo, minha criança – ele disse – Me deixa cuidar de você.
Meus dedos tremeram, como se meu corpo estivesse agindo sem minha permissão. Parei de lutar contra, apenas deixei que meu ser fizesse o que queria fazer. Louis parecia ter sentido minha desistência, já que afrouxou minimamente a força de seu abraço. Afundei-me em seu peito, permitindo que seu calor me abrigasse. Os braços dele puxaram-me para si de forma carinhosa, ele deitou minha cabeça em seu ombro. Sua mão direita embrenhou-se em meus cabelos, iniciando um cafuné carinhoso e lento. Sua mão esquerda posicionou-se no meio das minhas costas, seus dedos começaram a afagar a área de leve. Respirei fundo, tentando reprimir as lágrimas. Os lábios de Louis beijaram minha bochecha, interrompendo o fluxo de lágrimas que faziam o mesmo percurso. Fechei os olhos, fungando.
De todas as vezes que eu chorei, aquela era, sem dúvida, a que eu estava mais segura.
E ao mesmo tempo, eu nunca estivera tão mentalmente insegura.
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Ficamos daquele jeito durante algum tempo, os dedos de Louis iam e vinham suavemente em minhas costas e cabelos. Seu corpo aquecia o meu, fazendo-me contar as vezes em que ficáramos abraçados daquele jeito. Louis cantarolava baixinho, as vibrações de seu corpo praticamente me ninavam. Suspirei, erguendo o dedo para tocar o detalhe do bolso de seu casaco. Ele deu uma suave risadinha, seus lábios tocaram minha têmpora direita. Suspirei outra vez, fechando os olhos por um segundo.
– Está mais calma agora? – Louis perguntou.
Sua voz estava serena, mas eu podia sentir sua preocupação de antes. Suspirei, dando um leve peteleco em sua roupa. Assenti, inflando um pouco os ombros para inspirar um pouco de ar. Louis sorriu contra minha pele, senti seus lábios se repuxarem. Franzi o cenho, erguendo o olhar. Ele afastou-se do meu rosto, nosso olhar se encontrou. Seus olhos brilhavam um pouco, ele sorria de leve ao encarar meus olhos.
– Por que todo esse bom humor? Por acaso, hospitais te deixam animado? – perguntei.
Louis riu, sacudindo um pouco a cabeça. Suas bochechas coraram de leve, ergui uma sobrancelha.
– Não, hospitais me deixam um pouco deprimido – ele disse.
Franzi o cenho, ele lançou-me um olhar divertido.
– Então, por que você está sorrindo agora? – perguntei.
Ele sorriu mais um pouco, desviando o olhar até meu pescoço. Esperei, suas bochechas ficaram um pouco mais coradas.
– Porque dessa vez eu tenho você comigo, nos meus braços – ele disse.
Fiz uma careta, antes de dar uma risada baixa. Afastei-me dele, ainda rindo. Louis ria junto comigo, olhando em meus olhos. Minhas risadas foram ficando mais lentas, engoli em seco. Algo me dizia que o que Louis tinha dito não era uma piada, e ficava um pouco difícil disfarçar meu constrangimento com ele me olhando daquela forma. Suspirei, desviando o olhar. Senti Louis segurar minhas mãos, não ergui o olhar. Ele estava ajoelhado diante de mim desde quando aparecera, eu invejava seu preparo físico.
– Você riu um pouco, isso é bom – Louis disse, sorrindo de leve – Você está mesmo melhor? Se sente bem agora?
Sorri minimamente, erguendo o olhar até nossas mãos juntas. Os dedos de Louis eram tão longos que faziam os meus parecerem palitos de dente perto de baquetas, minhas mãos ficavam pequenas nas dele.
– Estou melhor, obrigada – respondi, suspirando – Acho que estou pronta para vê-lo agora.
Louis piscou, suas mãos apertaram as minhas. Ergui o olhar, surpreendendo-me com sua expressão surpresa.
– Vê-lo? Como assim? – ele disse.
Pisquei, franzindo o cenho por um segundo.
– Ver Akira, claro – falei.
Louis arquejou, olhando-me como se eu tivesse acabado de adquirir um terceiro olho bem no meio da testa.
– Você quer vê-lo? – ele perguntou.
Assenti, piscando uma vez. O homem diante de mim engoliu em seco, ele inclinou-se em minha direção. Nosso olhar se encontrou, seu ligeiro bom humor parecia nunca ter existido.
– Nina, escute – ele disse – Você não pode fazer isso.
Pisquei, confusa. Afastei-me um pouco, ainda que não tivesse desviando o olhar.
– Como é? – falei.
Louis respirou fundo, seu olhar ficou mais firme.
– Se você vê-lo agora, vai ficar ainda mais nervosa – ele disse – Se você vê-lo tão machucado, vai começar a chorar de novo.
– E se ela não vê-lo, vai viver com essa culpa para o resto da vida dela – disse alguém.
Olhei para o lado, confusa. A diretora do orfanato estava parada ao lado do meu irmão, olhando para mim. Ela estava com os braços cruzados, sua expressão era quase cansada. Louis franziu o cenho, girando a cabeça para encarar a diretora. Mishima nem pareceu se importar por ter interrompido uma conversa, e nem pareceu se importar com o olhar indagador que Louis lançava a ela.
– Com licença, quem é a senhora? – meu irmão perguntou.
A mulher não sorriu, o que eu já esperava. Ela esquadrilhou Louis com o olhar, analisando-o como se ele fosse uma criança sínica.
– Annelise Mishima, diretora do orfanato onde essa moça costumava morar – ela respondeu – E o senhor seria?
– Louis, Louis Asahina – disse Louis, erguendo-se para cumprimentar a diretora – Sou irmão da Nina.
Ele estendeu a mão na direção da diretora, eles trocaram um aperto de mão firme. Louis não parecia muito acostumado com aquele tipo de cumprimento, e eu não o culpava. Aperto de mão era algo universal, mas aquela mulher fazia aquele gesto ser mais sinistro do que um pacto com o diabo.
– Sei quem é você, eu seria uma péssima diretora se entregasse uma órfã a uma família sem antes pesquisar sobre ela – disse Mishima.
Louis parecia ter levado um soco, mordi o lábio para não rir.
– Claro, é compreensível – ele disse, respirando fundo – Não quero faltar com respeito, mas estávamos no meio de uma conversa importante...
– Eu ouvi, e você faltou com respeito no exato momento em que tentou impedi-la de ver o namorado – disse Mishima, cruzando os braços outra vez.
Louis arquejou, seu rosto foi tomado por uma expressão séria. Pisquei, afagando meu próprio braço para me sentir mais quente diante daquela briga de geladeiras.
– Desculpe, mas eu não vejo onde faltei com respeito à senhora – meu irmão disse.
Mishima deu um sorriso mínimo, minha boca se abriu.
– Você não me faltou com respeito, e sim, com sua irmã e com o senhor Yushima – ela disse.
– E como eu fiz isso? Poderia me explicar? – perguntou Louis, cruzando os braços.
Deus, acho que até um encontro de geleiras seria mais quente. Mishima não parecia nem um pouco receosa em continuar aquela discussão, encarava meu irmão com aqueles olhos duros. Louis não parecia querer fraqueja também, mas eu podia sentir o ligeiro receio que emanava dele. E aquela era Annelise Mishima, metendo medo até em um homem feito.
– Você acha que sabe o que é melhor para ela, mas quer impedi-la de ver alguém que ama e que precisa dela nesse exato momento – ela disse – E isso, senhor Asahina, se não for uma falta de respeito, eu sinceramente não sei mais o que é.
Ai, aquela doeu em mim. Louis franziu o cenho, lançando-me um rápido olhar a mim, antes de encarar Mishima de novo.
– Desculpe, mas eu sou irmão dela, e sei bem que ver aquele rapaz não vai fazer bem a ela agora – ele disse – Não sei se a senhora sempre foi assim tão intolerante, mas talvez a senhora apenas deva pensar com alguém que tem sentimentos e perceber que expor uma garota de dezesseis anos a algo tão desesperador é a coisa mais negligente que existe.
Ui, senti a dor por Mishima. Mesmo depois daquilo, ela ainda parecia indiferente aos argumentos de Louis. E ele? parecia ainda mais sério e nervoso.
– Não sei se o senhor sabe, mas ela viu os próprios pais serem assassinados – a diretora disse.
Louis parecia ter sofrido mais com aquilo do que eu. Ele piscou duas vezes, suas mãos fecharam-se em seus próprios braços. Olhei timidamente para a mulher presente, ela continuava encarando meu irmão como se não tivesse dito nada demais.
– A senhora acha que eu não sei disso? A senhora acha que eu não faria tudo para mudar isso? Para ter vivido isso no lugar dela? Para evitar que ela sofresse? – Louis disse.
A voz dele saíra firme, porém eu podia sentir certo nível de dor no que ele disse. Era quase como se ele sofresse por aquilo, era quase como se... Ele quisesse mudar alguma coisa, de verdade. Todas as vezes que alguém me disse que sentia muito pelo que tinha acontecido com meus pais, eu sentia que, por mais que a pessoa sentisse mesmo, ela talvez nunca tivesse coragem de mudar alguma coisa se tivesse a chance. No entanto, Louis parecia sincero. Ele parecia mesmo sofrer com minha dor, e perceber aquilo quase me fez fechar os olhos e esperar pelo momento em que ele correria até minha antiga casa e traria meus pais de volta para mim.
Engoli em seco, mordendo o lábio. Louis olhou na minha direção, nosso olhar se encontrou. Soltei um leve suspiro, piscando os olhos uma vez. Ele soltou um suspiro, olhando-me como se eu fosse a coisa mais desafortunada do mundo, mas ele me amasse mesmo assim.
– A questão não é o que o senhor faria para evitar que ela sofresse, e sim o que é o melhor a se fazer para evitar que ela sofra ainda mais – disse Mishima.
A voz dela estava um pouco mais branda, como se até ela estivesse sensibilizada no momento. Louis voltou a encará-la, desviei o olhar até minhas pernas.
– Eu não sei se a senhora percebeu, mas o melhor para ela é deixá-la longe dele por um tempo, só assim ela não vai sofrer – Louis disse.
Mishima sorriu minimamente de novo, talvez estivesse adorando o desafio.
– E eu não sei se o senhor percebeu que eu cuidei dessa garota durante dois anos, e cuidei de muitas outras durante outros dez anos – ela disse – Eu estou acostumada a ver crianças e adolescente sofrendo, e sei que a única coisa que pode abrandar essa dor é estar com alguém que realmente a conforte. Eu conheci sua irmã no pior momento da vida dela, então eu sei exatamente o efeito que Akira causa nela, e sei que ele é uma das únicas pessoas que podem fazê-la sentir-se segura. E também sei que o senhor, não importa quem seja, não tem o mínimo direito de impedi-la de ver a pessoa que foi a única família que essa garota teve em dois anos de solidão.
Louis abriu a boca para responder, mas as palavras pareciam tê-lo abandonado. Ele arquejou, abrindo e fechando a boca durante quase um minuto, até desistir e desviar o olhar. Aparentemente, estar sob a mira da Sniper imaginária da diretora era pressão demais para ele suportar. Então eu não era a única, que alívio.
– Não estou tentando impedi-la de fazer qualquer coisa, eu só... – Louis hesitou, mordendo o lábio – Eu só não quero que ela o veja nesse momento.
– Essa decisão não é sua – disse Mishima.
Acho que se ela tivesse dito “Xeque mate”, teria menos impacto. Louis engoliu em seco, respirando fundo. Seus ombros pareciam ter caído um pouco, suas sobrancelhas estavam franzidas. Ele estava tão tenso que podia estar tentando desarmar uma bomba. Annelise parecia alheia ao estado em que deixara meu irmão mais sereno, apenas olhou para mim. Vi compreensão no olhar dela, era quase como se ela realmente se importasse comigo. Mesmo com toda diferença do mundo, aquele olhar me lembrava o olhar da minha mãe.
– Tive a oportunidade de ver meu marido uma última vez, mas tive medo de vê-lo sofrer – ela disse – Os médicos disseram que ele morreu chamando por mim, e eu vou ter que viver com essa culpa pelo resto da minha vida. Tem tanta coisa que eu queria ter dito, mas é tarde demais para isso. Mas não é tarde demais para você, você não precisa dessa culpa.
Minha boca se abriu, senti como se meu coração estivesse sendo esmagado por uma mão invisível. Mishima piscou, e por um milésimo de segundo, eu pude ver a dor que aquela mulher mascarava tão bem. Ela sorriu para mim, e por menor que fosse aquele sorriso, eu senti que aquele era o primeiro sorriso sinceramente afetado que aquela mulher já dera em anos de luto.
– Vá ver seu namorado – ela disse – Não deixe que nada nem ninguém tire esse direito de você.
– Isso não é justo – Louis disse.
A voz dele estava quase embargada, ele encarava a parede. Ainda estava de braços cruzados, mordia o lábio com tanta força que podia até feri-lo. Meu coração se apertou de novo, Louis engoliu em seco. Mishima suspirou, lançando-lhe um olhar quase maternal.
– Se a vida fosse justa, a única preocupação desses garotos seria seus boletins e o que iriam usar no dia de suas formaturas – ela disse – O que é justiça para uns é um pesadelo para outros, é assim que o mundo permanece girando.
Engoli em seco, Louis fez o mesmo. Mishima continuou encarando meu irmão, talvez pudesse ver sua alma. Ele respirou fundo, girando o corpo. Eu só podia ver suas costas agora, mas sabia que ele estava mordendo o lábio e encarando a parede. A diretora suspirou, voltando seu olhar até meu rosto. Ela estendeu a mão para mim, olhando-me como se qualquer escolha que eu tomasse fosse magoar alguém. Eu sabia que aquilo era verdade, e por mais cruel que aquilo fosse, a única escolha que eu tinha era decidir quem sairia magoado.
E naquele momento, apenas um deles precisava de mim da mesma maneira que eu precisava dele.
Sem respirar, aceitei a ajuda de Mishima e levantei do banco.
O corpo de Louis se retesou por completo assim que eu dei o primeiro passo em direção ao quarto onde estava Akira, pude sentir aquela sua reação chutar o muro de coragem recém construído que eu lutara para erguer. Não olhei para ele, se o fizesse, talvez nunca mais conseguisse ouvir a parte de mim que ainda não tinha sido completamente arrebatada por Louis. Inclinei-me na direção certa, engolindo em seco.
– Então você vai escolhê-lo? – perguntou Louis.
Engoli em seco, sentindo meu corpo congelar. Abri a boca para responder, mas tudo que minha língua queria fazer era dizer a Louis que, se ele quisesse, ele podia me carregar, me enfiar em um carro e fugir comigo para Vênus. Meu muro de coragem só tinha alguns centímetros agora, ele podia pulá-lo sem esforço algum. Uma parte mim, a princesa em perigo, chamava-o para dentro. Mas também tinha outra parte, a vilã que jogava-lhe os destroços do frágil muro na tentativa desesperada de mantê-lo longe.
Felizmente, a vilã era mais poderosa que a princesa.
Engoli em seco de novo, tentando estabilizar minha respiração. Não lhe encarei, apenas respirei fundo.
– Não, Louis – respondi, firme – Estou escolhendo a mim mesma.
Não fiquei parada para esperar por sua reação, e pude sentir a princesa sendo calada por um grande berro de fúria da vilã. Dei um passo em direção à porta, sentindo a presença de Mishima ao meu lado. Talvez ela não fosse minha pessoa preferida no mundo, mas sua presença era o que eu precisava para não voltar correndo e chorando para os braços do homem que eu escolhera magoar.
– Ele te ama – ela disse.
Engoli em seco, ela era esperta, devia saber que não estava me ajudando.
– Eu sei – murmurei.
Ela me encarou enquanto andávamos, parei diante da porta. Mishima parou ao meu lado, quase tapando a visão do homem parado no meio do corredor. Ele também parecia fascinado por aquela parede branca, a coitada coraria se pudesse. Engoli em seco, encarando a maçaneta por um segundo.
– Quer mesmo fazer isso? – Mishima perguntou.
Droga, será que ela não via que aquilo não estava me ajudando?
Assenti, incapaz de abrir a boca. Mesmo tendo certeza do que devia fazer, tudo que eu conseguia fazer no momento era encarar a maçaneta. Mishima suspirou, e antes que eu pudesse me mexer, ela pôs uma mão em meu ombro e segurou a maçaneta com a outra.
– Ele é lindo, mas precisa aprender que cada um tem o direito de fazer suas próprias escolhas, seja ela qual for – ela disse.
Seus dedos forçaram a maçaneta para baixo, fazendo a porta se abrir com um clique discreto. Sem hesitar, ela empurrou a porta até ter espaço suficiente para que eu pudesse passar. Sua mão apertou um pouco meu ombro, ela estudou meu rosto.
– Estou bem atrás de você – ela disse.
Assenti, dirigindo-lhe um sorriso mínimo. Trêmula, dei o primeiro passo. Entrei no quarto, prendendo a respiração. Pude ouvir a porta sendo fechada atrás de mim, mas a única figura que prendia minha atenção agora era o adolescente adormecido na cama de hospital do meu lado esquerdo. Engoli em seco, sentindo meus olhos esquentarem de imediato.
Ele estava visivelmente abatido, embora estivesse mais limpo e “remendado” agora. Suas roupas de antes foram substituídas por uma daquelas roupas de hospital, mas seus cabelos continuavam despenteados. O corte em seu lábio tinha sido limpo e coberto com alguma pomada, já que brilhava um pouco. Sua mão direita estava conectada a alguns cabos e a um soro cheio, enquanto sua irmã tinha seu dedo médio preso e seguro em uma tala. Embora ele estivesse dormindo, seu rosto parecia exausto. Engoli em seco, soltando um suspiro pesado. Mishima suspirou também, guiando-me até mais perto da cama. Ela me soltou quando me posicionou do lado esquerdo da cama, depois, ela foi até o lado oposto e fez exatamente o que uma mãe preocupada faria.
Ela deu um peteleco na testa de Akira.
– Abra os olhos, você não engana ninguém – ela disse.
Prendi a respiração, e teria atirado um caminhão nela se Akira não tivesse aberto os olhos. Ele piscou um pouco, olhando em volta cautelosamente. Ele viu Mishima ao seu lado e fez uma careta, e só depois olhou na minha direção. Seus olhos se arregalaram um pouco, talvez ele não esperasse me ver. Engoli em seco, mordendo o lábio.
– Surpresa – disse Mishima.
Humor, exatamente o que eu precisava agora. Dei um pequeno sorriso, tentando não encarar demais os hematomas no rosto de Akira. Nós dois encaramos a mulher presente, talvez estivéssemos sentindo exatamente a mesma coisa. Ela riu, sacudindo a cabeça. Akira arregalou os olhos, eu mesma fiquei um pouco surpresa.
– Vou estar lá fora – ela disse, olhando-me – Não faça nada que eu não faria.
Pisquei, ela fizeram uma piada ou eu estava maluca?
– Er... Eu não sei exatamente o que você não faria, senhora – respondi.
Ela sorriu, lançando-me uma piscadela.
– Tem futuro nos tribunais, Kazama – ela disse – Tente não apertá-lo demais, a costela dele ainda está quebrada.
Foi minha vez de rir, embora fosse apenas uma risada nervosa. Akira e eu observamos a saída da mulher, tão silenciosa e rígida quanto um soldado. Engoli em seco, quase relutando ao desviar o olhar até o rosto de Akira. Ele encarava a porta, seus olhos ainda estavam arregalados.
– Ela riu? – perguntou, pasmo.
Mordi o lábio, ele esperou.
– Aparentemente, ela ainda sabe fazer isso – respondi.
Akira piscou, ainda embasbacado.
– Eu passei as últimas seis semanas em algo arrepiante, mas essa foi a primeira vez que eu cogitei estar sonhando – ele disse.
Sorri de leve, ele suspirou para tentar fazer seus olhos ficarem do tamanho normal.
– É a diretora, ela sempre vai ser nosso pior pesadelo – brinquei.
Akira lançou-me um olhar indeciso, mas desviou sua atenção assim que nosso olhar se encontrou. Então ele não conseguia me encarar, perfeito.
– Acho que minha concepção de “pesadelo” virou algo bem diferente da sua – ele disse.
Agora eu tinha meu próprio hematoma, já que aquilo me acertara como um soco. Claro, Kazama. O garoto está em um hospital, é claro que ele quer ouvir suas tentativas idiotas de não pirar geral.
Sua grande idiota.
– Que tal me contar exatamente qual é sua nova concepção? Talvez assim eu sinta que ainda existe algum elo entre nós – falei.
Inesperadamente, Akira riu. Pisquei, confusa. Ele mordeu o lábio, mas fez uma careta ao sentir a dor que aquilo devia ter causado em seu corte. Fiz uma careta, tentando não pular nele para assegurar-me de que aquele era o único corte em seu corpo.
– Viu só? Consegui magoar você – ele disse, soltando um suspiro pesado – Eu me ferro e venho parar em um hospital, mas ainda assim eu consigo ser um idiota e te fazer sofrer.
Abri a boca para responder, mas o silêncio parecia a melhor resposta. Akira parou de rir, respirando fundo. Sua cabeça tombou no travesseiro, ele encarou o teto. Engoli em seco, tentando achar alguma coisa minimante interessante para encarar.
– Você não me magoou – falei, engolindo em seco – Eu só queria saber a verdade.
Baixei a cabeça, decidindo que meus sapatos eram perfeitos para se encarar. Akira não respondeu, apenas continuou encarando o teto com um olhar vazio. Evitei olhar em sua direção, mesmo sabendo que eu devia ter maturidade e pelo menos fingir que tinha coragem o bastante para levar aquela conversa adiante. Eu só conseguia pensar no que Akira tinha dito minutos atrás. Nunca pensei que nossas realidades ficariam tão diferentes e tão distantes uma da outra. Meses haviam se passado desde que nossas vidas começaram a seguir caminhos separados, mas, de alguma forma, eu nunca senti que estivéssemos nos separando de fato. Bom, não no começo. Não quando meus irmãos ainda eram meus irmãos, e meu namorado ainda era meu namorado.
Franzi o cenho, sacudindo a cabeça. Certo, pensamentos complexos não iam me ajudar agora. Ergui o olhar outra vez, reparando no dedo machucado de Akira. Fiz uma ligeira careta, engolindo em seco. Eu nunca vira um dedo luxado antes, e só aquilo já era um pensamento desagradável. Era terrível pensar que o dono daquele dedo era meu Akira, e mais terrível ainda era pensar que, talvez, aquele fosse o machucado de menor importância no momento.
Soltei um suspiro, mordendo a língua para conter um gemido de desespero. Meus dedos se agitaram um pouco, assustando-me de leve com o espasmo involuntário. Engoli em seco, mordendo o lábio inferior com uma força desnecessária. Akira continuava encarando o teto, sua respiração estava pesada e entrecortada, como se ele estivesse fazendo um grande esforço para se manter calmo. Mas ele não devia realmente acreditar que podia me enganar com aquilo. Eu o conhecia como ninguém, sabia exatamente o que ele estava sentindo.
Mas como eu não sentira isso antes?
(Música)
Mordi o lábio, engolindo em seco para não soluçar. Algumas lágrimas desciam em meu rosto, agradeci mentalmente mais uma vez por meu choro ser silencioso. Ergui a mão, sentindo meus dedos se sacudirem um pouco. Toquei a mão de Akira, sentindo sua pele fria e levemente áspera. Funguei, engolindo em seco. Aproximei-me mais um passo, deixando meus dedos envolverem os de Akira de forma fraca. Tentei parecer suave, mas a verdade era que eu não tinha forças para encarar a realidade. Funguei de novo, afagando suavemente o dedo machucado do garoto. Ele fez uma ligeira careta, mordi o lábio.
– Dói? – perguntei.
Ele negou com a cabeça, engolindo em seco. Respirei fundo, assentindo de leve. Seus dedos continuavam imóveis, decidi desistir de afagar sua mão. Retraí meu braço, desviando o olhar até meus sapatos outra vez. Akira suspirou, mordendo o lábio por um segundo.
– Não dói – ele disse, baixinho – Eu só não estou mais acostumado a ser tocado com carinho.
Meu peito se apertou, soltei um arquejo baixo. Engoli em seco, tentando não me afogar em minhas próprias lágrimas. Desviei o olhar até a porta, esticando a mão sem olhar diretamente para Akira. Entrelacei nossos dedos, apertando se leve sua mão machucada. Ele apertou fracamente minha mão, fungando. Inclinei a cabeça para a direita, encarando o rosto dele. Akira me olhou também, mordi o lábio.
– Mas o que foi que aconteceu? – murmurei, soluçando um pouco.
A calma forçada de Akira derreteu-se assim que terminei de dizer aquilo, seu rosto contorceu-se de uma forma que eu pensei que nunca veria. Algumas lágrimas brotaram em seus olhos, ele mordeu o lábio. Avancei mais, fazendo meus joelhos baterem na cama. Aquilo doera, forcei meus nervos a ficarem quietos. Estiquei minha outra mão na direção de Akira, tocando seu lábio machucado com meus dedos trêmulos. Ele soluçou relativamente alto, meu estômago parecia estar sendo triturado.
– Por favor, não me pergunte isso – ele disse.
– Por quê?! – guinchei, aproximando-me mais.
Meu corpo inclinou-se na direção dele, Akira mordeu com força o lábio ferido. Arquejei, puxando sua boca para baixo com meu dedão. Ele ergueu o olhar, encarando-me de uma forma que me fazia tremer.
– Eu não aguento mais, Nina – ele disse – Por favor, não me faça repetir tudo outra vez.
Arquejei, incrédula. Akira continuou me encarando, suas lágrimas desciam com mais força agora. Encarei seus olhos, tentando entender alguma coisa.
– Akira, eu não consigo entender nada – admiti – Por favor, só me conta. Eu prometo que essa vai ser a última vez que você repete isso, só me conta.
Ele abriu a boca, mas apenas arquejou antes de fechá-la de novo. Segurei a lateral de seu rosto, apertando sua mão. Ele fechou os olhos, deixando a cabeça tombar em minha mão. Meu coração doía tanto que parecia estar inchado, meus olhos não conseguiam acreditar no que eu estava vendo. Quem era aquela pessoa? Onde estava o garoto que eu costumava conhecer?
Apoiei meu joelho esquerdo ao lado de Akira, afundando um pouco o colchão. Ignorei a regra do “Não sente na cama do paciente” que todo hospital devia ter e sentei ao lado do meu namorado, inclinando-me em sua direção. Ele mordeu o lábio de novo, um pequeno filete de sangue escorreu do ferimento. Limpei-o com meu dedão esquerdo, afagando a bochecha de Akira como um carinho desesperado.
– Eu nunca te vi assim, isso está me matando – murmurei, fungando – Me conta o que aconteceu, me ajuda.
Akira negou com a cabeça, seu corpo foi sacudido por um soluço. Engoli em seco, desviando o olhar. Concentrei-me em secar suas lágrimas, tentando conter as minhas próprias.
– Me ajuda aqui, amor – falei – Me ajuda a ajudar você. Por favor, só me conta.
– Você vai me odiar – ele grunhiu.
Ofeguei, negando com a cabeça. Akira apertou minha mão, inclinando a cabeça na direção dos meus carinhos. Desisti de tentar ser forte, e mesmo sabendo que aquilo podia machucá-lo, não pude lutar contra o impulso de abraçá-lo. Puxei-o até mim, forçando seu rosto a deitar-se em meu ombro. Ele não relutou, apenas soltou seu peso em mim. Suas lágrimas molharam minha pele, mordi o lábio. Respirei fundo, encostando minha cabeça na dele. Meus dedos se embrenharam em seus cabelos, pude senti-lo respirar fundo com aquele carinho.
– Eu nunca vou odiar você – falei, fechando os olhos.
– Vai sim – insistiu, enterrando seu rosto em meu ombro – Você vai me odiar, vai me deixar.
Trinquei os dentes, soltando um muxoxo. Akira abraçou-me de volta fracamente, algo me dizia que aquele simples esforço fazia seu corpo doer. Tentei não deixar aquilo me desesperar, lidar com ele já estava sendo difícil o suficiente.
– Akira, escuta – pedi.
Afastei-me dele um pouco, desenterrando seu rosto do meu ombro. Ele baixou a cabeça, chorando baixinho. Soltei sua mão, ele nem tentou me impedir. Segurei seu rosto com as duas mãos, inclinando minha cabeça para tentar nivelar nossos olhares.
– Eu nunca vou odiar você, entendeu? – falei, tentando fixar nossos olhares – Eu não vou deixar você, para de dizer isso.
Ele soluçou de novo, encarando fixamente o próprio lençol. Ergui seu rosto, olhando em seus olhos. Ele continuou encarando o lençol, suas lágrimas saiam aos montes, lavando seu rosto machucado. Mordi a língua, tentando conter minhas náuseas.
– Ei, você está me ignorando? – perguntei, aflita – Eu não vou odiar você, Akira. Eu não vou deixar você.
Ele comprimiu os lábios, erguendo o olhar. Tremi, encolhendo-me um pouco. Akira encarou meus lábios por um segundo, até reunir força suficiente para encarar meus olhos.
– Então, o que você pretendia fazer hoje no orfanato? – ele perguntou.
Parei de respirar, meu coração pulou uma batida. Akira continuou me encarando, acalmando seu choro desesperado em algumas lágrimas de tristeza. Mordi o lábio, piscando para tentar tirar as lágrimas do caminho da minha visão. Solucei, desistindo. Baixei a cabeça, soltando o rosto de Akira. Minhas mãos caíram na cama em cima das pernas de Akira, flácidas como os braços de um boneco inflável velho. Fechei os olhos, deixando que o choro viesse com força. Akira suspirou, inclinando-se na minha direção. Ele colou sua testa na minha, amparando minha cabeça. Funguei, erguendo o olhar. Ele sorriu fracamente para mim, fechando os olhos.
– Não chora – ele disse – Está tudo bem.
Funguei, mordendo o lábio. Akira continuou sorrindo fracamente, embora seus lábios tremessem por conta de seu choro. Ergui o olhar, sem desgrudar nossas testas. As lágrimas desciam em seu rosto um pouco mais lentamente agora, ele parecia segurar o choro. Mordi o lábio de novo, fechando os olhos. Inclinei-me em sua direção, buscando mais contato. Ele estava sofrendo. Estava machucado. Sabia que eu terminaria com ele. Mesmo estando destruído e desesperado, ele continuava ali, tentando parecer forte por mim. Akira sempre tentaria me curar, ainda que estivesse muito mais machucado do que eu.
Funguei, procurando sua mão de olhos fechados. Seus dedos me acharam primeiro, entrelaçando-me nos meus como se eu fosse a machucada ali. Evitei seu dedo machucado, mas apertei sua mão com o que restava da minha força.
– Desculpa – murmurei.
Akira bufou, apertando um pouco minha mão.
– Não peça desculpas, a culpa foi toda minha – ele disse.
Franzi o cenho, abrindo os olhos. Ele ainda estava de olhos fechados, seu sorriso morrera e fora substituído por uma careta quase dolorosa.
– O que? – perguntei.
Minha voz saiu fraquinha, Akira engoliu em seco como se sentisse dor no estômago.
– Eu não fui o suficiente, não fui homem o bastante para te fazer feliz e você acabou encontrando outra pessoa – ele disse, engolindo em seco – Eu que preciso pedir desculpas, tudo que aconteceu foi por minha causa.
Abri a boca para responder, porém nada do que eu conseguia pensar formaria uma frase concreta. Akira expirou pesadamente, desviando o olhar até o apoio de seu soro.
– Que droga é essa que você está dizendo? – balbuciei, quase exasperada – Akira, você não está fazendo o menor sentido.
– Nina, eu não posso contar – ele disse, fechando os olhos – Eu não posso perder você, não quero nem arriscar.
Grunhi, irritada. Ergui o olhar, encarando de perto aqueles olhos azuis. Fechei a expressão, forçando minhas lágrimas a desistirem e voltarem ao seu lugar nos dutos lacrimais. Akira sustentou meu olhar, estudando meus olhos como se tentasse ler meus pensamentos. Resisti, lançando-lhe o olhar mais intenso que eu já lhe lançara. Ele piscou primeiro, expirando pesadamente e desviando o olhar logo em seguida, rendendo-se. Reprimi um sorriso presunçoso, às vezes era complicado lembrar que estávamos em um momento tenso. Uma parte minha sempre tentaria competir com Akira de algum modo, e algo me dizia que era essa parte que me fazia amá-lo tanto.
– Certo, você venceu – disse Akira, suspirando – Mas antes, por favor, tente entender que tudo que eu fiz ou deixei de fazer foi porque eu amo você. E não importa o que me aconteça, não importa a sua reação, não importa quanto tempo passe, eu vou continuar te amando até o fim dos meus dias.
Respirei fundo, olhando para o rosto de Akira como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento. Ele hesitou por um segundo, encarando o lençol como se tentasse decidir por onde começar. Mordi o lábio, apertando sua mão. Ele olhou nossas mãos juntas por um segundo, antes de suspirar e lançar um olhar aflito à janela do quarto.
– O que você ganhou de presente de Natal? – ele perguntou.
Pisquei, franzindo o cenho. Akira esperou por minha resposta, ainda encarando a janela. Segui seu olhar, deparando-me com uma longa cortina branca. Hoje era o dia de observação à cor branca, deve ser isso.
– No que isso importa agora, Akira? – indaguei, arquejando um pouco – Você tá me deixando maluca, de verdade.
Ele não respondeu, apenas continuou encarando a cortina. Expirei pesadamente, levemente indignada. Esperei, mas Akira continuou calado. Soltei um suspiro pesado, dando um impulso para levantar da cama.
– Quando estiver com vontade de contar à sua namorada como diabos você veio parar em um hospital, me liga – falei.
Desvencilhei minha mão da dele, erguendo meu corpo da cama. Meus pés não conseguiram alcançar o chão, pois Akira não permitiu que eu fosse mais além. Sua mão machucada agarrou a minha com força, talvez ele não tivesse pensado muito nas consequências desse ato. Tão rápido quanto me segurara, ele me soltou e grunhiu de dor. Franzi o cenho, voltando-me na direção de seu rosto. A expressão de Akira estava contorcida em dor, ele parecia morder a língua para não gritar. Soltei um muxoxo, pegando sua mão com cuidado. Beijei seu dedo machucado, massageando gentilmente os arredores do mesmo para tentar aliviar a dor. Aos poucos, os finos gemidos de Akira foram sumindo. Ele ergueu o olhar, seus olhos lagrimavam um pouco por conta da dor. Sacudi a cabeça, colocando sua mão cuidadosamente em um lugar seguro: O apoio da cama. Nós dois encaramos o dedo luxado, soltei um suspiro pesado.
– Seu idiota – resmunguei, olhando-o com as sobrancelhas franzidas – Era só me dizer para esperar.
Ele fungou, tentando normalizar sua expressão.
– Desculpe, eu não pensei em nada na hora – disse.
Expirei com força, sacudindo a cabeça. Encarei-o durante um tempo, Akira desviou o olhar. Analisei-o melhor, fazendo uma careta de desgosto ao notar que ele parecia ter perdido pelo menos cinco quilos que ele não podia perder.
– Vai me contar ou eu vou precisar luxar outro dedo seu? – indaguei.
– Vou, eu só... – ele começou, arquejando em meio à frase.
Ele parou, engolindo em seco como se as palavras estivessem emboladas em sua garganta. Respirei fundo, contando de um até vinte em espanhol. Meu Deus, nem Wataru era assim tão cabeça-dura. Esperei durante algum tempo, Akira hesitou até suspirar, derrotado. Ele olhou para mim por um segundo, um brilho de tristeza tomava conta de seus lindos olhos. Meu coração se apertou, minha impaciência parecia ter virado fumaça. Esperei, Akira desviou o olhar.
– Eu tentei não mostrar a ninguém, mas fiquei destruído quando você foi morar com sua nova família – ele começou, encarando o lençol – Sei que isso é muito egoísta, mas eu nem conseguia dormir direito por saber que você estava longe de mim. Como eu saberia se você estava bem? Se você não tinha sido adotada por um casal de mafiosos ou traficantes de pessoas? Eu fiquei louco, de verdade.
Ele deu uma pequena pausa, dando-me tempo para processar a informação. Engoli em seco, refreando ao impulso de pular naquele garoto e beijá-lo até ficar sem ar. Pus minha mão em seu joelho, apertando-o gentilmente para indicar que queria ouvir mais. Nosso olhar se encontrou por um segundo, Akira suspirou.
– Demorou um tempo até você dar notícias, confesso que quase entrei em pânico depois do terceiro dia sem te ver – ele disse, baixando o tom de voz – Contei cada segundo desde sua ligação até o dia da visita externa, você não faz ideia de quantas vezes eu vesti, tirei e vesti outra vez meu uniforme, tentando achar uma roupa que ficasse melhor. Eu fiquei ridículo, agindo como um completo bobo apaixonado. Acho que a maioria dos homens nunca confessaria coisas desse tipo a ninguém, mas eu simplesmente não consigo me sentir em paz comigo mesmo se eu não for completamente honesto com você.
Apertei sua perna, abrindo um pequeno sorriso. Akira sorriu de volta, um sorriso triste e levemente envergonhado.
– Meu coração quase parou quando eu te vi de novo – ele disse, ainda com aquele sorriso – Você sempre foi a garota mais linda que eu já vira, mas, a partir daquele momento, você passou a dominar meus pensamentos com ainda mais força. Seu rosto, seu cabelo, seus olhos... Era tudo exatamente como eu me lembrava, porém, de certa forma, me parecia uma pessoa diferente. Passamos algumas horas juntos, e quanto mais eu tinha a minha Nina, mais eu sentia que ela tinha virado alguém diferente.
Um tom de tristeza surgiu na voz de Akira, seu olhar ficou um pouco nebuloso. Esperei, ele respirou fundo antes de continuar.
– Você estava tão feliz que quase brilhava. Falava deles como se fossem príncipes encantados – ele disse, dando uma curta pausa antes de continuar – Sabe como eu me senti quando descobri que minha namorada tinha treze homens novos na vida dela? Homens tão bons que podiam fazê-la sorrir só com lembranças? Você nunca se entregou a ninguém logo de cara, Nina. Levei quase dois anos para te fazer aceitar que o que eu sinto por você é verdadeiro, e mesmo assim, você nunca pareceu tão orgulhosa e feliz ao meu lado como parece ser com eles. Eu sempre lutei pela sua afeição, e aí treze homens aparecem com suas qualidades infinitas e te ganham em menos de um mês? Como acha que eu me senti?
Abri a boca para responder, mas não consegui emitir nenhum som. Cadê meu poder de convencimento naquela hora? Cadê minha típica conversa de “Pare com isso, eles são meus irmãos”? Como eu ia me explicar? Como faria isso depois de me entregar a três dos irmãos e ainda fazer outros dois nutrirem sentimentos por mim? Se meus cálculos estiverem certos, eu traí Akira com cinco dos meus irmãos, de diferentes maneiras. E ainda tinha Hikaru. Eu não sabia dizer que tipo de relacionamento nós tínhamos, mas sabia que éramos íntimos o bastante para trocarmos provocações e presentes ousados.
Baixei a cabeça, expirando pela boca. Akira me observou, evitei seu olhar. Ele não sabia nem da metade, eu me sentia uma verdadeira vadia. Ele deve ter sentido que seria melhor continuar a falar, já que soltou um leve suspiro e desviou o olhar até minha mão por um segundo, antes de me encarar de novo.
– Eu sempre tive muita autoconfiança, mas me senti como um garotinho medroso quando te vi com Louis pela primeira vez – disse Akira – O modo como ele te olhava, desde a primeira vez que eu os vi, era o modo como um homem apaixonado olha para a garota que gosta. Eu sei exatamente como é, eu costumava te olhar assim, te observar em silêncio antes de conseguir uma conversa real com você. E sabe qual é a pior parte? Você relutou durante anos para retribuir meu carinho, mas praticamente se derretia toda vez que olhava ou falava sobre Louis.
Arquejei, mordendo o lábio. Akira continuou encarando-me, avaliando-me um pouco. Fechei os olhos, seria tão mais fácil se ele apenas gritasse comigo.
– Tentei relevar tudo aquilo e ignorar o que eu sentia, mas era impossível não sentir nada quando eu via você ir embora com ele enquanto tudo que eu podia fazer era ficar preso naquele orfanato e esperar loucamente pelas tardes de sexta-feira – ele disse, dando uma risada sem humor – Eu achava que ia passar logo, mas ele vinha com você em todas as visitas, era quase como se ele tentasse passar a mensagem de que você era dele. Você era dele, deles, e eu não podia fazer nada além de assistir e descontar minha frustração ao carregar pilhas e mais pilhas de livros todos os dias.
Funguei, piscando os olhos para afastar as lágrimas. Akira desviou o olhar do meu rosto até minha mão em seu joelho, meus dedos se encolheram instintivamente. Ele pôs a mão boa ao lado da minha, mas não tocou-me de fato.
– Toda vez que você aparecia, você estava diferente – ele disse – Usando sapatos caros, joias brilhantes e perfumes importados. Com o passar do tempo, até seu sorriso mudou. Seu modo de falar, vestir, comer... Tudo estava diferente. Eu tentava me convencer de que era a minha Nina bem lá no fundo, mas toda vez que eu olhava, era a Nina deles que eu via.
– Akira... – murmurei, arquejando.
Minha voz saíra tão fraca que tudo que eu conseguira dizer foi seu nome. Engoli em seco, desviando o olhar até sua mão. Os dedos dele estavam parados, como se esperassem por mim. Tentei me mexer, mas meus dedos não queriam sair do lugar. Ele não se mexeu, apenas respirou um pouco fundo.
– Eu sabia que não podia ficar triste, afinal, você estava sendo tratada como merecia, estava feliz de verdade – ele disse, encarando minha mão – Se nada disso tivesse acontecido, se seus pais estivessem vivos, talvez você fosse ser assim para sempre. Eu nunca teria minha Nina, mas você não teria que sofrer.
Mordi o lábio, engolindo em seco. Estiquei os dedos, tocando os dele de forma quase desesperada. Akira entrelaçou os dedos nos meus, soltando um suspiro.
– Até seu toque está diferente agora, está bem mais suave. Tão suave que eu quase não consigo sentir, como se um anjo estivesse me tocando – ele disse.
Solucei, erguendo o olhar. Akira encarou meus olhos, deixando que eu visse o quanto eu tinha destruído-lhe. Funguei, desviando o olhar de súbito. Agora era eu quem não conseguia encará-lo, eu sentia como se tivesse tomado a poção da vergonha logo após de tomar o ensopado do desespero.
– Eu ainda sou eu, Akira – falei, fungando um pouco – Eu ainda estou aqui, ainda estou com você.
– Se você está dizendo – ele disse, dando de ombros rapidamente – Mas, até quando vai ser assim, Nina?
Arquejei, passando a mão direita no rosto para secar as lágrimas que conseguiram sair. Akira estudou meu rosto, observando uma lágrima guerreira que escapara de mim, e agora descia até meu queixo. Ele suspirou, inclinando-se na minha direção. Seus lábios tocaram meu queixo delicadamente, senti seu corte em minha pele. Ele afastou-se depois de cinco segundos, levando aquela lágrima consigo. Ergui meu olhar, contemplando aquelas esferas azuis que eu tanto adorava. Akira me encarou de volta, sua expressão era quase igual a minha: Pesarosa.
– Depois de um tempo, eu desisti de tentar ser melhor do que eles – ele disse – Você me amou como eu era, então a única coisa que eu podia fazer era tentar ser seu Akira de sempre. Era seu ombro amigo todas as noites, te consolava e te ajudava a dormir quando você estava sem sono. Fui seu Akira de sempre, e sabe o que eu consegui com isso? Nada. Mas sabe o que eu perdi com isso? Você, e a sombra do amor que um dia você já teve por mim. Eu te enchia de beijos e carinhos sempre que podíamos ficar juntos, era apenas isso que eu podia te dar, não era? Mas a felicidade que você demonstrava com isso era quase massacrada quando você passava um dia com um dos seus irmãos, até mesmo suas brigas com o tal ídolo se tornaram mais importantes do que tudo que eu representava para você.
Desviei o olhar, sentindo-me repentinamente nauseada. Akira continuou me encarando, seus dedos começaram a afagar carinhosamente minha mão trêmula. Ele me deu dois minutos para digerir tudo que dissera, mas eu sentia que não conseguiria aceitar aquilo nem em um milhão de anos.
– E então chegou o único dia no mês em que eu poderia sair daquele orfanato, e como eu resolvi gastá-lo? Tentando ir até a sua casa – ele disse, rindo sem humor outra vez – Só me dei conta de que não sabia onde você morava depois de me perder em algum lugar da cidade, achei que se seguisse as pessoas mais bem vestidas, chegaria ao Paraíso Asahina sem fazer muito esforço. Só fui perceber que estava perdido depois de uma hora, e só fui perceber que estava em uma rua cheia de lojas quando dei de cara com algo que me fez pensar no seu sorriso na mesma hora.
Ele sorriu com a memória, pude ver um lampejo nostálgico em seus olhos. Akira respirou fundo, lançando-me um rápido olhar antes de encarar nossas mãos outra vez.
– O Natal estava chegando, achei que se te desse aquele anel, você lembraria do quanto eu te amava e de como costumávamos ser inseparáveis – contou – Namorei aquele anel por quase uma hora, até o dono da joalheria me expulsar com uma arma de verdade. Ele achou que eu fosse roubar aquela porcaria, e eu juro que por um momento, só um segundinho, eu pensei mesmo nisso. Lembra que éramos parceiros de crime? Achei que você acharia engraçado se eu aparecesse com a polícia a um anel roubado na sua casa e gritasse seu nome enquanto tentava fugir pelo seu telhado.
Ri, sacudindo a cabeça. Akira riu comigo, mordendo o lábio logo em seguida. Suspirei, afagando seus dedos. Talvez eu realmente achasse aquilo engraçado, não dava pra saber o que eu faria se aquilo realmente acontecesse. Akira sorriu para mim, antes de suspirar e encarar a cortina outra vez. Meu sorriso morreu ao perceber que sua expressão ficara um pouco sombria, engoli em seco.
– Eu senti que ela começou a me observar desde um pouco antes daquele dia, mas depois daquilo, foi impossível evitá-la – ele disse – Ela me seguia aonde quer que eu fosse. Me fazia ficar até tarde organizando tarefas absurdas, me deixava de castigo por qualquer coisa e sempre aparecia em alguma parte do orfanato quando eu estava fazendo a ronda. Ela era como um fantasma, sempre me perseguindo. Não sei como ninguém nunca percebeu nada, mas também não achei que aquilo fosse um problema até ela fazer aquela maldita proposta.
Akira engoliu em seco, apertando minha mão com força. Fiz o mesmo, aprumando-me melhor. Ele fechou os olhos, baixando a cabeça como se estivesse prestes a confessar um crime terrível.
– Ela me ofereceu dinheiro em troca do meu corpo – ele disse.
Às vezes eu sentia como se estivesse flutuando. Como se cada célula do meu corpo estivesse tão leve a ponto de me deixar à deriva no ambiente. Eu costumava me sentir assim durante os momentos em que ficava perto de algo que me lembrava o som dos disparos que mataram meus pais, e embora fizesse tempo que eu não sentia assim, eu ainda estava acostumada com a sensação. Eu podia fechar os olhos e esperar que a vertigem passasse, ou podia inclinar o corpo em uma direção qualquer e deixar que a gravidade me deitasse em alguma superfície qualquer. Minha outra opção era me encolher em algum lugar escuro e quieto para deixar que aquela sensação me carregasse para onde queria, e embora fosse o pior cenário que eu já tinha visto, ainda me trazia alívio apenas pelo fato de ser familiar para mim.
Mas aquilo não era familiar, e aquela vertigem era tão densa que poderia ser cortada com uma faca afiada.
Só lembrei que minha boca ficava escancarada nesse tipo de situação quando um pequeno fio de saliva escorreu em meu queijo, misturando-se com a torrente de lágrimas que eu não sentira começar. Minha respiração estava parada, eu sentia meus pulmões arderem, mas não conseguia sugar o ar. Meus olhos estavam fixos em um ponto qualquer, eu não sabia nem distinguir o que eu estava vendo. Eu sentia como se cada músculo do meu corpo estivesse sendo picado por abelhas gigantes, deixando os ferrões em minha pele de forma tão profunda que, se eu me mexesse, eles perfurariam meus órgãos e me mataria em questão de segundos. Meu sangue parecia ter congelado, era quase como se estivesse tomando sorvete diretamente pelas veias. Eu ainda não conseguia respirar, mesmo que sentisse minha cabeça girar pela ausência do ar, eu não conseguia fazer nada para fazer meus pulmões funcionarem. Forcei meu pescoço para a frente, fazendo minha cabeça tombar no ombro de Akira. Estava tão perdida dentro de mim mesma que perdi o momento em que ele me abraçou, mas, estranhamente, eu conseguia sentir seu calor. Minhas mãos agarraram a roupa que ele vestia, quase rasgando o tecido fino. Puxei-o para mim na tentativa de enterrá-lo em meu peito, talvez ali ninguém conseguisse tocá-lo. Soltei um soluço agudo, engolindo um pouco de ar no processo. Meus pulmões agradeceram, forçando-me a sugar mais daquele combustível precioso. Arquejei, soluçando e respirando ao mesmo tempo. Akira soltou um suspiro doloroso, sua mão boa apertou o centro das minhas costas.
– Respira, amor – ele disse, sua voz estava embargada – Só respira.
Arfei, obedecendo-o. Enterrei meu rosto nele, puxando-o para mim com força. Ele soltou um pequeno muxoxo de dor, mas nem aquilo foi o suficiente para fazer com que eu me afastasse.
Eu já lidara com crianças com aquele tipo de trauma antes. Sabia como era a sensação de tentar evitar o mínimo contato com alguém só para tentar não machucá-lo. Mas dessa vez era diferente, se eu não tocasse Akira, eu não o sentiria ali. Não sentiria que ele estava vivo, quente e quebrado em meus braços. Se eu me afastasse o mínimo possível, ele desapareceria. Meu primeiro amor estava completamente quebrado, e tudo que eu queria fazer era abraçá-lo e tentar roubar sua dor.
Afastei-me dele, erguendo o olhar até seu rosto. Ele chorava outra vez, seus olhos, os meus favoritos, espelhavam uma alma sofrendo muito mais do que merecia. Subi minhas mãos em seu corpo, apertando cada pedacinho até chegar a seu rosto. Acariciei com os dedos os machucados que existiam ali, olhando-o nos olhos. Akira sustentou meu olhar como se estivesse sendo sugado por meus olhos, eu sentia meu corpo tremer com os soluços que ambos soltávamos. Encostei minha testa na dele, sem desviar o olhar. Meu polegar direito desenhava pequenos círculos na bochecha dele, meu outro polegar tocou delicadamente o corte em seu lábio. Engoli em seco, respirando pela boca. Akira fazia o mesmo, seu nariz devia estar congestionado de tanto chorar.
– O que diabos você estava pensando? – perguntei, quase engasgando no meio da frase – O que deu em você?
Ele arquejou, fiz o mesmo. Akira fechou os olhos e inclinou a cabeça para baixo, mas eu não deixei que ele a baixasse. Segurei seu rosto, mantendo-o diante de mim. Encarei seus olhos, endurecendo a expressão.
– Não fuja de mim, Yushima – mandei, firme – O que diabos você estava pensando? O que deu em você para não chamar a polícia ou coisa parecida?
– E-eu não sei – ele disse, gaguejando nervosamente.
Akira tentou desviar o olhar, mas eu era teimosa. Segurei seu rosto, forçando-o a ficar no lugar. Seu olhar fixou-se em meu pescoço, inclinei o rosto até conseguir focar em seus olhos.
– Aquela mulher é um monstro – cuspi, indignada – Ela usou você, enganou você. Por que você não pediu ajuda? Por que não me contou nada? Por que cedeu? Olha só pra você, olha como ela te deixou. Ela destruiu você, Akira! O que você estava querendo? Por que você fez isso?
– Eu não sei, eu... – ele disse, sua voz falhava muito, eu quase não conseguia entender – Ela disse que podia me ajudar. Eu queria que você me amasse de novo, eu queria... Eu não sei. Não sei o que deu em mim, não sei o que aconteceu, não sei nem como eu aguentei... Eu... Eu só queria... Eu não sei, Nina.
Ele enterrou o rosto nas mãos, sem se importar com seu dedo machucado. Aquilo fez com que eu me afastasse, meu coração parecia ter levado uma ferroada ao perceber que ele não queria meu abraço. Engoli em seco, sentindo meu peito se apertar.
– Eu não aguento mais ser só um empecilho na sua vida, ser um fardo, um peso que te puxa para baixo – ele disse, chorando audivelmente – Eu não tenho nada pra te oferecer, nada do que eu sou é bom o bastante para você. Eu só queria uma chance de te dar algo que você realmente fosse gostar. Eu vejo você usar tantos anéis diferentes, eu só queria te dar uma coisa com valor suficiente para parar no seu dedo e não sair nunca mais.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ele retraiu as pernas, enterrando o rosto nos joelhos como um garotinho assustado. Ofeguei, arregalando um pouco os olhos. Eu não conhecia aquele garoto. Meu Akira não era assim, ele não era assim tão... Quebrado.
Deixei um soluço escapar, mas o som foi abafado pelo choro desesperado do garoto diante de mim. Ele apertava as próprias pernas com força, como se aquilo fosse fazê-lo desaparecer. Seu corpo tremia por conta dos soluços que ele soltava, e pelos gemidos de dor que ele deixava escapar de vez em quando, eu sabia que chorar daquele jeito estava acabando com o que restava de sua saúde. Soltei um ofego desesperado, aproximando-me dele. Abracei seu corpo, tentando diminuir os tremores que ele dava. Akira não soltou suas pernas, ele parecia se encolher mais a cada segundo em que eu o abraçava. Funguei, encostando minha testa em seu ombro.
– Por que você está fugindo de mim? – perguntei, magoada – Por que você não me deixa cuidar de você?
Ele se encolheu ainda mais, recuando até não ter mais para onde ir. Soltei-o, derrotada. Nem tentei controlar meu choro, estava impotente demais para controlar qualquer coisa. Akira continuou chorando, apertando as pernas e gemendo de dor.
– Não toca em mim, Nina – ele disse – Eu sou um lixo, eu não mereço ser cuidado por você. Eu tenho nojo de mim mesmo, não suje suas mãos tocando em mim.
Meu coração doía tanto que eu podia estar tento uma parada cardíaca, mas, para ser sincera, eu nem ligaria se estivesse mesmo tendo uma. Meus olhos não conseguiam mudar de direção, a única coisa que eu conseguia fazer era encarar o corpo trêmulo e machucado do garoto que eu amava.
– Eu sinto as unhas dela em mim o tempo todo, é como se cortasse minha carne – ele disse, encolhendo-se ainda mais – Aquele perfume nojento não sai de mim, não importa o quanto eu tente tirá-lo. Eu não consigo comer, ainda tenho medo de que ela apareça e me algeme em algum lugar. Eu tenho medo de falar com você, tenho medo de que ela me castigue de novo.
Mordi o lábio com força, ferindo-o. Senti o gosto do meu próprio sangue em minha boca, mas aquilo nem mesmo aliviou o gosto terrível que eu estava sentindo. Nem em um milhão de anos eu ia esquecer aquilo, eu nunca me curaria dos cortes que a dor de Akira me fazia. Fechei os olhos, implorando para que alguma coisa acontecesse e mudasse o passado.
– Akira, para com isso – pedi, chorando – Por favor.
Ele não me escutou, ou não quis me escutar. Abri os olhos, deparando-me com aquela figura doentia. Meu peito sangrava por dentro, meu coração implorava para parar de bater. Inclinei-me sobre ele de novo, abraçando-o com tudo amor que eu conseguia.
– Já acabou – falei, enterrando-o em mim – Eu estou aqui com você, já acabou.
– Eu tenho medo de te perder de novo – ele disse, fraco – Eu tenho medo, tenho muito medo.
Puxei-o para mim, fazendo com que ele soltasse as pernas e desenterrasse o rosto dos joelhos. Deitei sua cabeça em meu ombro, ajeitando-me na cama. Encostei-me na cabeceira, puxando Akira para que ele deitasse onde eu queria. Ele me obedeceu, deitando a cabeça em meu ombro. Envolvi-o com o braço direito, segurando sua cabeça com a mão esquerda. Akira pôs a mão sobre a minha, apertando meus dedos. Afaguei tudo que meus dedos conseguiam sentir, enterrando meu nariz em seus cabelos. Era o cheiro de Akira, e por mais difícil que fosse aceitar isso, eu sabia que ainda era meu Akira dentro daquela casca maltratada e ferida.
Beijei sua cabeça, respirando fundo seu cheiro. Ele fungou, enterrando-se em mim mais um pouco. Afaguei seu rosto, soltando um suspiro doloroso.
– Já acabou, Akira – repeti – Estamos salvos agora, você está comigo.
Ele engoliu em seco, tentando controlar seu choro. Seus dedos afagavam minha mão, como se ele sentisse a confusão que estava em meu interior agora. Sorri minimamente, fechando meus olhos.
Ele era meu apoio até quando eu era o apoio dele, e eu acho que era por isso que continuávamos firmes.
Éramos a força um do outro.
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Senti alguma coisa cutucar meu ombro, fazendo-me abrir os olhos. Olhei em volta, confusa. Eu estava em uma sala branca e limpa, deitada em alguma coisa quente e levemente desconfortável. Não era a minha cama, disso eu tinha certeza.
– Mocinha? – chamou-me uma voz.
Pisquei, focando meu olhar na pessoa que me acordara. O médico deu um meio sorriso, lançando-me um olhar ternamente admirado.
– Sinto muito, mas essa posição vai deixá-lo dolorido – ele disse.
Franzi o cenho, olhando para o garoto em meus braços. Akira adormecera da mesma forma que eu o colocara, seu rosto estava escondido em meus cabelos. Eu sentia sua respiração quente e fraca em meu pescoço, eu teria me excitado com aquilo, se ele não estivesse tão frágil naquele momento. Suspirei, mexendo meu braço para encontrar minha mão. Ela estava sobre a barriga de Akira, segurando a dele. Deixei um suspiro escapar, como eu ia me desvencilhar dele?
– Precisa de ajuda? – o médico perguntou.
Olhei-o, ele ainda sorria daquela maneira. Forcei um sorriso, sonolenta demais para falar alguma coisa. Meus olhos estavam inchados, eu mal conseguia abrir minhas pálpebras. Sacudi a cabeça, afastando o sono e negando a ajuda do médico ao mesmo tempo. Com cuidado, fui arrastando-me para fora da cama. Deitei a cabeça de Akira no travesseiro, ajeitando-o como julguei ser adequado. Ele soltou um leve muxoxo quando tentei ajeitar sua posição, então desisti de virá-lo. Afastei-me um pouco, coçando o olho direito com minha mão. Akira continuou dormindo, seu rosto estava inchado também.
– Está na hora do jantar dele – disse o Médico, encarando meu namorado – Trocamos o soro enquanto ele dormia, mas vai ser difícil alimentá-lo com ele assim.
Sorri, cruzando os braços. O médico sorriu para mim, apontando para uma bandeja de comida ao meu lado.
– Notamos que você parece ser cuidadosa com ele, se importa? – ele perguntou.
Neguei com a cabeça, suspirando. O médico assentiu, sorrindo um pouco.
– Obrigado – ele disse – Com licença.
Ele virou-se em direção à porta, caminhando a passos largos. Observei-o sair, relaxando minha postura assim que fiquei sozinha com Akira. Virei meu rosto para vê-lo, tomando um leve susto ao deparar-me com um par de olhos azuis me encarando.
– Akira? – chamei.
– Da última vez que eu chequei, esse ainda era meu nome – ele disse.
Bufei, revirando os olhos. Ele riu baixinho, revirando-se um pouco na cama. Seu rosto contorceu-se em uma careta quando ele tentou sentar, soltei um suspiro pesado. Segurei seu braço, impulsionando-o para cima. Sentei-o, afastando-me um pouco logo em seguida. Akira me estudou com o olhar, seu rosto estava livre de qualquer expressão.
– O que? – perguntei.
Ele suspirou, piscando duas vezes.
– Você é linda – disse.
Pisquei, ele não parecia estar brincando. Bufei, sacudindo a cabeça.
– Seu sendo de humor voltou ao normal, que maravilha – ironizei – Chega de piadas, meu comediante barato. O médico disse que está na hora do seu jantar.
Ele fez uma careta, tentei conter um sorriso. Peguei a bandeja, apoiando-a nas pernas de Akira. Tentei ignorar a careta que ele fez para o prato principal, Akira odiava sopa. Peguei a colher e estendi para ele, encarando-o com firmeza. Ele me olhou, sem se mexer. Franzi o cenho, ele continuou daquele jeito.
– Você precisa comer, quer pegar a colher? – falei.
Ele fez uma careta, erguendo a mão esquerda para que eu visse seu dedo luxado. Dei de ombros, colocando a mão livre na minha cintura. Akira revirou os olhos de leve, lançando-me o tipo de olhar que lançamos a uma criança pequena quando estamos tentando ensiná-la de onde vêm os bebês.
– Minha mão favorita está machucada, eu não consigo segurar a colher – ele disse.
Revirei os olhos, respirando fundo. Aproximei-me da cama, enfiando a colher no prato de sopa. Akira franziu o nariz, refreei um sorriso. Toquei seu ombro, ele afastou-se um pouco para me dar espaço. Sentei-me ao seu lado, fingindo que não via seu sorriso bobo. Peguei o prato de sopa e preparei uma colherada, constatando que ela não estava quente demais. Ergui a colher cheia, gesticulando para que Akira abrisse a boca.
– Olha o aviãozinho – falei, sarcástica.
Ele riu, mas abriu a boca. Enfiei a colher a colher em sua boca, tomando cuidado para não bater com ela em seus dentes. Akira sugou a sopa, fazendo uma ligeira careta. Mordi o lábio para não rir, retraindo o braço. Direcionei minha atenção outra vez ao prato, sentindo que seu olhar seguia cada movimento meu.
– Você podia usar a direita, sabia? – falei.
Enchi a colher, levando-a até a boca de Akira logo em seguida. Ele sorveu o líquido, retraí meu braço.
– Eu sei, mas não teria a mínima graça – ele disse – E além disso, você disse ao médico que me ajudaria a comer.
Franzi o cenho, enfiando outra colherada em sua boca.
– Como sabe? Você estava dormindo – perguntei.
Akira fez uma leve careta enquanto eu enchia a colher outra vez, esperei.
– Eu acordei quando ele entrou aqui, mas preferi continuar “Inerte”- ele disse.
Franzi o cenho, alimentando-o mais um pouco. Uma gota de sopa escorreu pelo canto da sua boca, usei a colher para secá-la.
– Mishima também sentiu que você estava fingindo quando entramos aqui, por que fez isso? – perguntei.
Akira deu de ombros, fazendo uma careta. Ele parecia pensar em alguma coisa, esperei que ele falasse antes de enfiar a colher em sua boca outra vez.
– Eu só não aguento mais os olhares de pena que eles me lançam – ele disse, encarando a sopa.
Bufei, levando-lhe a colher aos lábios. Ele fugiu do meu olhar, tentei ser mais gentil ao recarregar a colher.
– Seu orgulho não permite que você seja tratado como alguém que passou por algo ruim? – questionei.
Foi sua vez de bufar, ele segurou minha mão. Quase derramei a colherada de sopa, franzi o cenho. Akira me encarou, tinha amargura em seu olhar.
– Quer mesmo falar sobre orgulho com alguém que aceitou se prostituir com a professora só para comprar um anel para a garota que ama? – ele disse.
Aquela foi direto no coração, agora eu sabia como era a sensação de ser perfurado. Abri a boca para responder, mas nada do que eu pensava em dizer seria certo. Desviei o olhar, esquecendo por um minuto da colher em minha mão. Engoli em seco, estapeando-me mentalmente para tentar sair daquele transe.
Como ele conseguia falar daquele jeito? Como ele conseguia ser tão frio? Onde estava aquele garoto assustado que chorara no meu colo um pouco mais cedo?
Sacudi a cabeça, forçando um sorriso. Recarreguei a colher, levando-a aos lábios de Akira. Ele sorveu o líquido, nosso olhar não se encontrou em nenhum momento sequer.
– Vamos focar na sopa, está bem? – murmurei, pigarreando um pouco.
Akira fez uma careta, encarando minha mão.
– Eu odeio sopa – disse.
Sorri de leve, evitando seu olhar. Enchi a colher de sopa outra vez, demorando-me um pouco nos movimentos.
– Eu sei – falei – Mas é melhor tomar antes que esfrie, o gosto fica ainda pior quando está fria.
Ele estremeceu, franzindo o nariz. Ri comigo mesma, tocando seus lábios com a colher.
Permanecemos daquele jeito durante algum tempo. Akira e eu evitávamos contato visual, mas trocávamos carinhos discretos vez ou outra. A sopa acabou depois de várias colheradas, fazendo Akira partir para as torradas com uma expressão bem ansiosa. Ele devorou o pão com algumas dentadas, devia estar desesperado para tirar o gosto da sopa da boca. Não estava tão ruim, eu tinha provado um pouco para tentar convencê-lo a tomar tudo. Eu nunca precisei alimentar ninguém daquela maneira, nem mesmo meu irmãozinho. Para falar a verdade, eu era a que sempre era alimentada por alguém. Pela primeira vez, eu senti como era a sensação de poder cuidar de alguém da mesma maneira que era cuidada.
Descansei o braço direito em minha perna, soltando um suspiro. Akira engoliu o último pedaço da última torrada, soltando um longo suspiro. Catei um guardanapo limpo na bandeja, ajudando-o a limpar as mãos. Nós dois evitamos tocar seu dedo machucado, e mesmo sem trocar uma única palavra, conseguimos arrumar e limpar tudo que sujamos durante seu jantar. Não tínhamos conversado desde meu comentário sobre a sopa fria, de certa forma, era mais confortável desse jeito.
Coloquei a bandeja na cômoda ao lado da cama, sem dar muita importância à mobília do quarto. Era um quarto duplo, mas não tinha ninguém na outra cama. Eu já estivera em alguns hospitais durante minha vida, então não perdia muito tempo com os pequenos detalhes. Pelo que eu sabia, estávamos em um hospital particular. Eu imaginava que isso era obra da diretora, já que o orfanato não tinha nenhum tipo de convênio com aquele tipo de hospital. Eu nunca passara mal na minha época como residente, não a ponto de precisar de um hospital, mas sabia que, por mais “generosa” que a nossa gestão fosse, eles nunca liberariam um hospital como aquele para um simples órfão machucado.
Akira pigarreou, tentando soar sutil. Olhei-o, erguendo uma sobrancelha. Ele encarava o dedo machucado, engolindo em seco como se tivesse alguma coisa presa em sua garganta. Toquei sua mão, preocupada.
– Está com sede? Quer que eu pegue um pouco d’água? – perguntei.
– Não, não é isso – apressou-se a dizer, fazendo uma ligeira careta – Eu só queria... Você estava distraída.
Franzi o cenho, inclinando a cabeça para o lado.
– Quer me dizer alguma coisa? – perguntei.
Ele assentiu, engolindo em seco. Esperei, afagando gentilmente sua mão. Akira ergueu o olhar, encarando-me por um segundo. Ele parecia cansado, como se tivesse sofrido muito para por os pensamentos em ordem.
(Música)
– Eu quero pedir desculpas – ele disse.
Sua voz soara mais rouca do que já estava, reconheci sentimentos conflitantes em sua voz. Eu o conhecia muito bem para saber que Akira era um rapaz orgulhoso, mas naquele momento, ele estava vulnerável. Apertei sua mão, mordendo o interior da minha boca.
– Eu sei que o que eu fiz não deve ser perdoado, mas eu sinto que preciso ao menos tentar – ele disse, suspirando em meio à frase – Eu sei que te magoei de formas tão ruins que nem deviam existir, e sei que a última coisa que eu mereço agora é o seu perdão. Eu sei que eu não tenho valor algum, mas eu também sei que você é uma pessoa boa o bastante para não se enojar com o verme que está bem diante de você. Não faz nenhum sentido pedir isso depois do que eu fiz, mas eu realmente sinto muito. Me desculpe, Nina.
Ele disse tudo aquilo olhando nos meus olhos, e eu pude ver a dor que ele sentia. Akira não desviou o olhar, mesmo depois de ter dito aquelas palavras. Mordi o lábio, tentando achar alguma coisa descente para falar. Ele tinha errado, mas eu também tinha. Ele tinha me traído, assim como eu o traíra. Ele tinha sido atraído pelo dinheiro, assim como eu. Se eu pensasse bem, eu não tinha motivos para perdoá-lo, já que nossa conta estava praticamente igualada.
Mas meu corpo continuava sendo apenas “meu”.
Engoli em seco, desviando o olhar. Os dedos de Akira se agitaram um pouco, tentando envolver os meus sem machucar ainda mais seu dedo luxado. Dei um sorrisinho triste, fechando os olhos por um segundo.
– Não – respondi.
Ele estancou, parando de respirar. Ergui o olhar, deparando-me com o completo choque em sua expressão. Seus olhos tremeram ao encontrarem os meus, tentando desesperadamente digerir minha resposta. Dei outro sorriso triste, soltando sua mão. Afastei-me um pouco, fixando meu olhar no dele. Akira ainda não respirava, sua boca estava ligeiramente aberta. Eu podia ver algumas lágrimas se preparando para serem libertadas, seus olhos brilhavam por conta delas.
– Quem precisa pedir perdão sou eu – falei.
Ele ofegou, incrédulo. Engoli em seco, respirando fundo.
– Eu me afastei, mesmo tendo meios para manter contato – falei, engolindo em seco de novo – Eu escondi coisas de você, fiz com que você se sentisse inseguro. Dei liberdade demais às outras pessoas e esqueci do compromisso que tinha com você. Eu deixei nosso amor escapar por entre meus dedos, e transformei você em uma pessoa quebrada. Sou quem precisa pedir perdão, não você. Foram as minhas escolhas que fizeram tudo isso acontecer, você não teve culpa de nada do que aconteceu.
– E nem você – ele disse, abismado – Por Deus, Nina. Ouça a si mesma, você não está fazendo o menor sentido.
Ele inclinou-se na minha direção, segurando minha mão direita com suas duas mãos. Engoli em seco, encarando nossos dedos juntos.
– Você se deixou levar pela liberdade que sempre quis ter, ninguém pode julgá-la ou culpá-la por isso – ele disse, arquejando – Eu sei que você exagerou em certos relacionamentos, mas você não tem culpa do que me aconteceu. As coisas que eu fiz, as escolhas que eu tomei, isso é apenas culpa minha. Eu sou aquele que devia curar você, mas tudo que eu fiz foi deixá-la ainda mais quebrada. Você não precisa me perdoar, e muito menos precisa pedir perdão. Tudo que eu fiz foi para tentar salvar o amor que eu deixei escapar, você não teve culpa de nada.
– Eu tive, Akira! – falei, erguendo o olhar para que ele visse minha aflição – Talvez eu não tenha culpa de tudo, mas sim, eu tenho culpa.
Ele soltou minha mão, apenas para segurar meu rosto e puxar-me para si. Tombei a cabeça para frente, encostando minha testa na dele. Akira respirou fundo, fechando os olhos com força. Fiz o mesmo, engolindo em seco.
– Eu não estou quebrado por sua culpa – ele disse – Eu já era assim antes, desapontar as pessoas já está no meu sangue.
– E ferir as pessoas que eu amo já está no meu – retruquei.
Ele arquejou, impulsionando-se em minha direção. Seus braços envolveram meu corpo, Akira usou a cabeça para deitar a minha em seu ombro. Nossas bochechas se tocaram, respirei fundo.
– Não diga isso, Nina – ele disse – Você não tem culpa de nada do que aconteceu, não diga que teve.
Funguei, sentindo novas lágrimas se formarem. Eu estava chorando muito hoje, devia estar batendo o recorde do bebê mais chorão do mundo. Akira afagou minhas costas, apertando-me um pouco mais em seu abraço.
– Você não feriu ninguém, é você quem está ferida – ele disse, suspirando – Eu falhei em curar você, me desculpe.
Abracei-o com força, enterrando meu rosto em seu ombro. Akira respirou fundo, fechei os olhos.
– Eu também falhei com você, desculpe – pedi.
– Ah, Nina – ele disse – Eu sinto tanto, tanto.
Funguei, apertando-o com mais força. Ele tentou disfarçar a dor, mas eu pude sentir que meu abraço estava machucando-o. Rocei meu nariz em seu pescoço, sentindo o cheiro daquela pele tão acolhedora e quente.
– Eu fui lá hoje para terminar com você – confessei, engolindo em seco – Sei que fui para fazer isso, mas eu ainda te amo.
Ele ofegou, apertando-me com tanta força que eu senti dor.
– Eu te amo, minha Nina – ele disse – Eu sempre vou amar você.
Arfei, sua voz estava embargada. Beijei seu pescoço, apertando os olhos. Akira beijou minha cabeça, seu corpo tremia um pouco por conta do esforço. Eu não queria quebrar o abraço, mas tinha algo muito importante que eu queria fazer. Afastei-me dele, direcionando minhas mãos até seu rosto. Segurei-o, colando nossas testas. Akira olhou nos meus olhos, fungando para tentar deter o choro. Fechei os olhos, dando um sorriso mínimo.
– Eu não consigo te expulsar do meu coração, não importa quem me peça para entrar – falei – Você ainda me aceita de volta no seu?
Ele riu, segurando meu rosto logo em seguida. Sorri, entregando-a aos seus toques.
– Se eu aceito? – ele disse, rindo de novo – Eu nunca te expulsei, e nunca vou expulsar.
Abri os olhos, encarando-o. Aqueles orbes azuis estavam tão próximos, e podia ver meu reflexo neles.
– Você promete? – perguntei, esperançosa – Promete que nunca vai me deixar?
Ele sorriu, dando de ombros.
– Eu prometo, com uma condição – respondeu.
Esperei, olhando-lhe nos olhos. Sua expressão ainda estava feliz, mas pude sentir aflição verdadeira em seu olhar.
– Você promete que nunca vai se apaixonar por um dos seus irmãos? – ele disse – Você sabe que não é certo, não é saudável. Me promete isso, Nina?
Pisquei, um pouco chocada. Akira continuou me encarando, esperando por minha resposta. Engoli em seco, tentando não desviar o olhar.
Eu estava disposta a prometer aquilo? Estava disposta a me livrar do que sentia por Louis? Estava disposta a esquecer Natsume? Estava disposta a deixar Iori? Estava disposta a fingir que Tsubaki não era especial para mim?
A resposta para aquelas perguntas estava bem diante de mim, me olhando com aquela expressão aflita. Ele era minha família, meu passado, presente... E futuro. Ele me amava, jogava fora seu orgulho e se sacrificava por mim de uma forma que nenhum outro faria. Era errado, mas era sua forma de se importar. Era meu primeiro amor, e era nossa primeira crise. Podia ser chamado “amor” aquilo que se acaba com a distância? Podia ser chamado “amor” aquilo que estava morrendo quando merecia estar vivo? Podíamos realmente deixar aquilo acabar? Ficaríamos bem se deixássemos?
Respirei fundo, engolindo em seco. Era uma decisão difícil, e aquela não era a melhor hora para fazê-la. Eu realmente amava Akira, mas não sabia se era realmente capaz de desistir de coisas que nem mesmo tinha tentado. Podia dar certo com qualquer um deles, valeria a pena deixar futuros promissores para continuar vivendo um passado turbulento? Era tudo tão mais fácil quando éramos só Akira e eu, quando eu não estava numa espécie de hexágono amoroso com homens que deviam ser meus irmãos.
– Eu não sei – respondi – Por favor, me peça outra coisa. Não os envolva nisso, Akira.
Ele me estudou com o olhar, tentando entender aquela minha resposta. Desviei o olhar, ia acabar falando alguma besteira se continuássemos nos encarando daquela forma.
– Por quê? – ele perguntou – Do que você está tentando fugir?
Arquejei, engolindo em seco. Ponto para ele, Akira sabia me ler como ninguém.
– De nada, Akira – respondi, evitando seu olhar – Eu só não quero envolver meus irmãos em uma coisa que não tem relação alguma com eles, é isso.
Akira me encarou, analisando minha expressão. Ergui o olhar, tentando fingir que não tinha nada a esconder. Os olhos azuis do garoto estudaram-se meticulosamente, como se ele estivesse tentando avaliar uma obra muito importante para a sobrevivência mundial. Esperei, ele demorou quase um minuto em sua perícia. Por fim, ele suspirou, convencido. Akira cruzou os braços acima do peito, lançando-me um olhar falsamente inocente.
– Certo, se é assim que você quer – ele disse – Então, me prometa que nunca vai me deixar por um deles, seja lá como for?
Arquejei, lançando-lhe um olhar ligeiramente incrédulo.
– O que deu em você? Não confia mais em mim? – perguntei.
– Da última vez que eu confiei, fiquei sabendo por telefone que você ficou bêbada e fez sexo com seu irmão no sofá da sala de vocês – ele disse, não deu-me tempo nem de terminar minha frase.
Minha boca se abriu, arregalei os olhos. Akira continuou me encarando naquela pose defensiva, arquejei.
– Então é disso que tudo isso se trata? – indaguei, incrédula – Você não confia em mim, é isso?
– Você me traiu, Nina – ele disse – Como quer que eu confie cegamente em você?
Engoli em seco, olhando-o nos olhos. Akira sustentou meu olhar, como se esperasse alguma coisa. Ri, mesmo não tendo humor algum. Sacudi a cabeça, desviando o olhar até um ponto qualquer.
– Eu disse que nós íamos brigar de novo – falei, arquejando – Louis tinha razão, eu não devia ter vindo.
Dei um pulo da cama, tentando juntar os cacos do meu orgulho ferido. Afastei-me da cama, dando um passo em direção à saída. Parei, engolindo em seco.
– Sim, eu traí você – falei, encarando a porta – Mas, você se lembra porque estamos aqui?
Dei um passo em direção à saída, forçando meu pescoço a ficar na posição certa. Não podia encará-lo agora, não quando sabia que ele não confiava em mim. Eu não era a pessoa mais correta do mundo, mas tínhamos assinado um contrato quando pedimos o perdão um do outro. Confiança não vinha nele, mas ele não podia pedir que eu fosse completamente fiel se ele também não conseguia se manter assim.
Eu não fora a única que mudara, no fim das contas.
– Nina, espera – disse Akira.
Parei diante da porta, tocando a maçaneta com meu dedo indicador direito. Lancei um olhar à cortina, esperando. Ele arquejou, sacudindo a cabeça como se tentasse fazer o cérebro voltar a funcionar.
– Me desculpa – ele disse – Por favor, não vai embora.
Dei um pequeno sorriso, engolindo a risada maléfica que me subia pela garganta. Lancei-lhe um olhar firme, talvez estivesse aprendendo com Fuuto como tratar as pessoas.
– Eu tenho uma péssima memória, mas ainda me lembro de qual foi minha finalidade ao sair de casa hoje – falei – Essa é a terceira vez no dia que você joga na minha cara alguma coisa que eu fiz. Eu sei que eu não estou totalmente certa, mas não sou eu quem está numa cama de hospital por motivos ilícitos. Você tem todo direito de reclamar do que quiser, mas está muito enganado se está achando que eu vou aguentar tudo calada quando também tenho o que reclamar. E, se ser assim significa que eu mudei, então, muito prazer, eu me chamo Nina Kazama.
Akira piscou, engolindo em seco. Continuei encarando-o, exalando firmeza. Ele sustentou meu olhar durante dez segundos, até baixar a cabeça e encarar as mãos. Ele parecia quase envergonhado, eu podia sentir seu arrependimento me atingir daqui.
– Você tem razão – ele disse, engolindo em seco – Me desculpe.
Respirei fundo, largando a maçaneta. Girei nos calcanhares, arranhando um pouco o piso com meus saltos. Andei até ele, aplicando toda amargura que consegui reunir naquele simples ato. Parei diante dele, encarando-o de cima. Ele pareceu se encolher na cama quando sentiu que eu o encarava, ergui a mão. Segurei seu queixo, erguendo seu rosto. Ele relutou, mas obedeceu ao meu pedido mudo. Nosso olhar se encontrou, soltei um suspiro. Derreti minha expressão dura, lançando-lhe um olhar terno.
– Não peça desculpas, você estava certo – falei – Eu realmente mudei, agora eu aprendi a me defender. Isso aconteceu porque eu não tinha mais você ao meu lado para cuidar de mim, e mesmo que eu não estivesse sozinha, eu ainda me sentia vazia. Sofri com nossa separação tanto quando você, mas não duvidei nem por um segundo do amor que você sente por mim. Eu nunca deixei de confiar em você, e mesmo que eu tenha me desviado do caminho certo, eu nunca duvidei quando você disse que me amava. Eu nunca tive certeza sobre mim mesma, mas eu sempre tive certeza sobre você.
Ele piscou, olhando-me como uma criança perdida. Afaguei seu queixo, aproximando-me dele.
– Eu não mereço sua confiança, mas você devia ao menos confiar na minha palavra – falei – Você me conhece o suficiente para saber que eu geralmente cumpro minhas promessas, e eu prometi a você no nosso primeiro beijo que eu nunca esqueceria você.
– Eu confio na sua palavra, Nina – ele disse – É só esse “geralmente” que me mata de medo.
Ri, olhando-o de maneira terna durante um segundo.
– Já ouvi isso antes – falei, suspirando – Eu só quero meu Akira de volta, o Akira que sabe que eu não minto quando digo que amo alguém.
Akira mordeu o lábio, olhando em meus olhos como se estivesse prestes a implorar por sua vida.
– Então prometa – ele disse – Por favor, me faça sentir que o que você diz é verdade, me faça confiar em você.
Abri a boca para protestar, mas ele continuou me olhando daquela forma. Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo. Akira suspirou, sua mão tocou minha cintura.
– Do que você tem medo? – perguntou – Você quer que eu confie em você, mas reluta tanto em prometer uma coisa tão simples. Do que você está tentando fugir?
Arquejei, abrindo os olhos. Ele me encarou, fixando seu olhar no meu. Aquele olhar era tão familiar, eu confiava tanto naqueles olhos. Já até dormi olhando-os, mas, por que não conseguia fazer aquela promessa?
Fechei os olhos, soltando um suspiro pesado.
– Eu prometo – cedi.
Eu sentia meu interior se rebelando, agitando-se como se estivessem tentando me matar. Minhas células gritavam “Por quê?!” a plenos pulmões, exigindo-me uma explicação. Qual era o problema delas? Elas não reconheciam Akira? Não sentiam que ele precisava de mim? Minha garganta se fechou, apertando-se por dentro. Meu coração batia tão rápido que parecia estar tentando causar uma sobrecarga em si mesmo, suicidando-se ao seu modo. Engoli em seco, tentando fazer meu corpo ficar quieto.
– Olhe para mim, amor – disse a voz de Akira.
Até meus ouvidos pareciam estar tentando expulsar sua voz, mas eu ainda tinha controle sobre meu corpo. Abri os olhos, encarando-o. Ele sorria para mim, seus olhos brilhavam com uma felicidade que eu não sabia de onde tinha vindo.
– Obrigado – ele disse – Eu te amo.
Akira inclinou-se na minha direção, senti sua respiração tocar meus lábios. Engoli em seco, como se dizia aquilo em japonês mesmo?
– E-eu te amo – gaguejei, forçando minha língua a funcionar.
Ele sorriu, fechando os olhos. Sua boca acenava para mim, chamando-me. Uma parte de mim implorava para que eu o beijasse logo e acabasse com aquela espera, mas também tinha uma parte que gritava para que eu me afastasse. Fechei os olhos, decidindo dar à vilã o controle mais uma vez. Baixei meu rosto, tocando os lábios de Akira com os meus. Ele sorriu contra minha boca, tentei fazer o mesmo, mas eu não conseguia mover meus lábios. Os braços de Akira envolveram minha cintura, puxando-me para si. Sua língua tocou meus lábios, pedindo para entrar em seu local favorito. Abri espaço para que ele entrasse, mas minha língua não se mexeu. Ele não pareceu ver problema algum nisso, apenas explorou o interior da minha boca, chocando-se em minha língua em algum momento. Ele movimentou-se carinhosamente, como se dissesse “Vamos, não tenha medo. Venha brincar comigo”. Aos poucos, meu corpo foi envolvendo-se em sua magia. Movi minha língua contra a sua, correspondendo quase timidamente ao seu beijo. Ele parecia prestes a explodir de alegria, seus braços me apertaram com mais força. Segurei seus ombros, apertando sua carne. Uma sensação de familiaridade me tomou, eu estava presa em minha torre segura mais uma vez.
Mas alguma coisa não parecia se encaixar.
A boca dele era tão macia, ainda que estivesse machucada. Beijei suavemente o corte, mesmo que soubesse que minha saliva talvez fosse causar alguma infecção. Eu precisava cuidar dele, ele precisava de mim. Subi meus dedos em seu pescoço, arranhando-o carinhosamente com minhas unhas. Akira arrepiou-se com aquilo, soltando um leve muxoxo de prazer. Meus dedos se embrenharam em seus cabelos, puxando os de leve. Ele estava em meus braços, era meu Akira. Eu sentira tanta falta daqueles lábios, e mesmo que sentisse que tinha alguma coisa fora do lugar, pude deixar essa sensação ser suprimida pelo gosto do beijo do meu namorado.
Um pigarro sutilmente firme soou no quarto, fazendo-me dar um pulo de susto. Desgrudei minha boca da de Akira, sentindo meu coração se acelerar. Ele parecia tão sobressaltado quanto eu, embora a felicidade em seu olhar suprimisse facilmente esse sentimento.
– Será que agora o jovem casal pode se separar? Onde foi parar a educação de vocês – disse uma voz quase sarcástica.
Akira riu, estupefato.
– Eu ainda não me acostumei com seu sendo de humor, diretora – ele disse.
Mishima apenas cruzou os braço, aproximando-se da cama.
– E nem deve, Yushima – ela disse.
Akira riu de novo, a diretora deu um sorriso mínimo. Mordi o lábio, afastando-me de Akira o máximo que consegui. Ele não me soltara de seu abraço, apenas afrouxara-o o suficiente para que eu pudesse afastar-me dele alguns centímetros.
– A senhora tem alguma boa notícia? Agora seria o momento perfeito – disse Akira, sorridente.
A diretora ergueu uma sobrancelha, olhando-me com o canto do olho direito. Encolhi-me um pouco, ela desviou o olhar até meu namorado outra vez.
– O horário de visitas está acabando, e essa regra vocês deveriam respeitar – disse a diretora, encarando-nos sugestivamente.
Akira riu, abraçando-me um pouco mais. Olhei-o, ele parecia radiante.
– É uma verdadeira pena, eu adoraria ter minha namorada comigo por mais um tempo – ele disse, lançando-me um olhar cheio de ternura.
Dei um meio sorriso, tentando não me derreter com aquela expressão que ele fazia. Mishima não pareceu afetada, apenas gesticulou para algo atrás de mim.
– Não creio que o Sr. Asahina tenha gostado muito dessa ideia, já que ele passou um quarto do dia aqui – ela disse.
Pisquei, sentindo meu coração pular uma batida. Akira piscou, lançando um olhar curioso à direção que Mishima apontava. Ele abriu um sorriso, visivelmente satisfeito.
– Oh, Louis – ele disse – Eu não tinha te visto aí, foi mal.
– Boa tarde, Akira – disse a voz de Louis.
Engoli em seco, tentando me manter sã. A voz de Louis estava gentil como sempre, detectei um sorriso frio em seu rosto. Ele devia estar de braços cruzados, suas pernas deviam estar ligeiramente abertas e ele devia estar encarando minhas costas. Um homem completamente normal.
Se eu não o conhecesse tão bem.
Aquela voz gentil mais parecia a voz de alguém que tentava mascarar os piores e mais tristes sofrimentos do mundo. Aquele sorriso frio estaria a um passo de se tornar um rosnar irritado. Até aquela pose defensiva era a de alguém prestes a começar uma briga, ou então, prestes a terminar um relacionamento de uma maneira muito dolorosa para ambas as partes. Eu nem precisava olhar para ele para saber como ele estava.
– Você esteve lá fora esse tempo todo? Estou quase me sentindo culpado por ter monopolizado sua irmã por tanto tempo – disse Akira, rindo em meio à frase – Desculpa, cara. Eu só estava morrendo de saudades da minha namorada, é difícil ficar tanto tempo longe.
– Também conheço a sensação de estar distante da pessoa que eu amo, de todos os sentidos – disse Louis.
Akira sorriu, abraçando-me com mais força. Tentei me manter no lugar, mas foi impossível. Meu corpo girou na direção de Louis, fixei meu olhar no rosto de Akira.
– Então você também tem alguém especial? – meu namorado perguntou, sorrindo inocentemente para meu irmão.
Louis não respondeu de imediato, senti seu olhar em mim. A orelha direita de Akira me pareceu muito interessante no momento, meu coração batia com força em meus ouvidos.
– Eu realmente já não sei mais – meu irmão disse.
Senti uma ferroada fria e dolorosa no meu coração, fazendo minha cabeça girar. Pisquei, tentando me manter de pé. Os braços de Akira eram o que me impediam de cair, mas até mesmo eles não eram capazes de me fazer sentir viva. Meu corpo ficou frio, como se eu tivesse mergulhado em uma piscina cheia de gelo. As palavras de Louis giravam em minha mente, as letras pareciam dançar bem na minha frente. Tentei respirar fundo, saiu como um ornitorrinco com asma. Todos os presentes me olharam, engoli em seco. Akira deu um sorrisinho carinhoso, lançando um olhar amigável ao outro homem presente.
– Não se preocupe, há sempre outra garota, você só precisa continuar procurando – ele disse, apertando-me carinhosamente – Que bom que eu já tenho a minha, não é, amor?
Ele lançou-me um olhar terno, sorrindo bobamente. Dei um sorriso estranho, assentindo como uma boneca velha. Akira abriu um sorriso enorme, puxando-me para si. Sua cabeça deitou-se em meu peito, ele soltou um muxoxo. Louis baixou a cabeça, soltando um suspiro pesado.
– Você deve ter razão – ele disse – Há coisas que ficam melhores se mantermos distância.
Senti outra pontada em meu peito, fazendo com que eu ofegasse um pouco. Engoli em seco, desviando o olhar até os sapatos de Louis. Subi devagar, com medo do que eu poderia encontrar. Não precisei me preocupar por muito tempo, já que Louis desviou o olhar assim que cheguei perto o bastante de seus olhos. Ele continuou de braços cruzados, encarando o chão com uma expressão indecifrável. Engoli em seco, hoje era o dia do “Mude diante da Nina”? Onde estava meu Louis?
– Guardem a conversa desinteressante para depois, o hospital tem horários – disse Mishima, cortando o clima.
Agradeci aos deuses do orfanato por terem botado aquela mulher na minha vida, ela tinha acabado de me livrar de minutos de constrangimento e confusão mental. Suspirei, tentando não deixar meu alívio muito evidente. Engoli em seco, desviando o olhar até a porta do quarto. Akira soltou um muxoxo, apertando-me mais um pouco.
– Já? Que droga – ele disse, bufando como uma criança.
Ri internamente, mas não deixei nada além de um sorriso escapar. Meu namorado me encarou, fazendo um bico.
– Não podemos ter mais cinco ou dez minutos? – perguntou.
Ninguém respondeu de imediato, mas o olhar que Mishima nos lançou valeu por mais de mil respostas. Akira engoliu em seco, baixando o olhar. Sorri minimamente, ele ficava fofo daquele jeito, mas não combinava com ele. Louis pigarreou discretamente, meus pelos se eriçaram com aquele som.
– Está ficando tarde, não é muito seguro andar na rua quando anoitece – ele disse, encarando o chão.
Akira riu, soltando-me devagar.
– O que foi? Está com medo dos lobisomens? – ele zombou, rindo.
Louis franziu o cenho, erguendo o olhar. Minha alma quase deixou meu corpo, engoli em seco para fazê-la voltar ao seu lugar. Dei uma bofetada leve no ombro de Akira, ele arregalou os olhos diante daquilo.
– Não tem graça, se comporte – ralhei.
Ele fez uma careta, soltando um suspiro. Não ergui o olhar para comprovar, mas sabia que Louis ainda encarava meu namorado com aquele olhar frio.
E eu achava que Iori era o mais assustador dos Asahina.
– Posso ao menos ganhar um beijo de despedida? – Akira perguntou, desgostoso.
Suspirei, assentindo de leve. Ele sorriu, inclinando-se na minha direção. Baixei o rosto devagar, roçando meus lábios nos dele por um segundo, antes de depositar um suave beijo no local. Akira começou a retribuir, mas cortei o beijo antes que ele conseguisse. Ele fez uma careta, ignorei a sensação estranha de pena que me subiu pela garganta. Ouvi um leve pigarro, como se a pessoa estivesse tentando engolir uma navalha. Engoli em seco, baixando o olhar até o chão.
– Vamos – disse Louis, sem me encarar.
Assenti, engolindo em seco de novo. Akira sorriu para meu irmão, um sorriso amigável.
– Até mais, cara – ele disse.
Louis sorriu de volta, dirigindo-lhe um breve aceno com a cabeça. Akira não fez muito caso daquela falta de calor humano, apenas ergueu o rosto para me olhar.
– Me liga mais tarde, pode ser? – ele perguntou.
Sorri, dando um suave beijo em sua testa. Ele soltou um muxoxo, lançando-me um olhar apaixonado assim que me afastei.
– Claro – respondi – Até mais.
Ele sorriu, assentindo. Afastei-me da cama, lançando um olhar à diretora. Ela me encarava, seus braços estavam cruzados acima do peito. Sorri, tentando mostrar mais gratidão do que desespero naquele ato.
– Obrigada por tudo – falei, expirando – Vou embora agora, cuide dele por mim.
Ela expirou com certa força, ainda me encarando.
– Faço isso desde antes de você saber o que é sexo, senhorita Kazama – ela disse.
Ri, sacudindo a cabeça. Ela deu um sorriso mínimo, amolecendo um pouco a expressão.
– Fique tranquila, daqui esse garoto só sai quando estiver curado – ela disse.
Ri, assentindo. Ela sorriu para mim, Akira abriu a boca, surpreso. Bati continência, fazendo uma rápida reverência para a diretora. Ela acenou, um típico “descansar”. Sorri, acenando para os dois. Virei em direção à porta, reparando apenas naquele momento que Louis já tinha saído do quarto. Aquilo me deixou aliviada e nervosa ao mesmo tempo, seria tão mais fácil se eu fosse um garoto.
Caminhei até a saída, saindo assim que pude. Fechei a porta do quarto, soltando um grande suspiro. Eu ficara nervosa para entrar ali antes, porém, meu nervosismo era bem maior dessa vez. Ergui o olhar, procurando no corredor a pessoa que eu mais queria evitar no momento. Louis não olhou em meu rosto, seu olhar apenas vagou na minha direção, notando minha presença ali. Sem dizer nada, ele começou a caminhar pelo corredor. Engoli em seco, seguindo-o depois de hesitar durante dois segundos.
Eu não estava em posição para reclamar da frieza de Louis agora.
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(Música)
Encostei os cotovelos nos joelhos, apoiando a cabeça nas mãos. Expirei pesadamente, sentindo como se alguém estivesse sentando nas minhas costas, tamanho era o peso em meus ombros. Eu devia estar aliviada agora que tinha visto, cuidado, beijado e reatado com meu namorado. Cadê a felicidade que eu devia estar sentindo? Aonde tinham ido as borboletas que devia estar no meu estômago?
Bufei, fechando os olhos. A resposta para aquelas perguntas estava muito distante de mim no momento, eu podia morrer divagando que não ia entender o motivo daqueles sentimentos. Eu me sentia feliz por Akira estar bem, mas ainda tinha nojo do que fizeram com ele. Tinha raiva dele por ter aceitado fazer aquilo, mas ainda me sentia mexida com sua forma de dizer que me amava. Claro que eu nunca aceitaria o que ele fez, mas tinha que reconhecer que ele faria coisas drásticas por mim.
Coisas idiotamente drásticas.
Bufei de novo, soltando um muxoxo. Quem via de longe devia achar que eu estava com dor de barriga, mas eu não ligava. As pessoas do metrô sempre olhavam, mas nenhuma chegava perto para realmente saber o que estava acontecendo. Eu nem podia culpá-las, se nem a pessoa que estava ao meu lado se importava comigo.
Suspirei, engolindo em seco. Sentia um bolo preso na garganta desde a hora que Louis entrara no quarto, e por mais que eu quisesse falar com ele, eu não tinha nem de longe a coragem necessária para fazê-lo. Estávamos em silêncio desde quando saímos do quarto de hospital, Louis nem mesmo me encarava nos olhos. Aquilo estava me enlouquecendo. Eu precisava do meu irmão agora, precisava do meu melhor amigo.
Só Deus sabe o quanto eu precisava do abraço de Louis agora, só para sentir seu calor, só para me sentir viva.
Endireitei meu corpo, engolindo em seco. Meu irmão não me olhou, apenas continuou a fazer o que estava fazendo: encarar os sapatos de braços cruzados. Não tínhamos muita companhia no metrô, mas as pessoas presentes pareciam tão afetadas pelo silêncio estranho de Louis quanto eu. Engoli em seco de novo, fixando meu olhar em meus próprios sapatos.
– Você está... Bem? – perguntei num fio de voz.
Ele não respondeu de imediato, apenas fechou os olhos. Sua expressão era problemática, ele parecia estar com uma forte dor de cabeça.
– Não me pergunte isso agora, por favor – ele disse.
Engoli em seco, arrepiando-me por inteiro. Tentei relevar o fato de que ele tinha sido frio comigo, afinal, ele dissera “por favor”.
– Desculpe – falei, desistindo – Eu só queria conversar com você.
– Não há nada a ser dito ou explicado, você já deixou bem claro o que sente – ele disse, quase cortando-me.
Arquejei, sentindo uma pontada fria no peito. Louis continuou de olhos fechados, engoli em seco.
– Ei sei, mas eu queria saber como você está – falei.
– E isso importa? – Louis disse, rindo de forma quase dolorosa – Você está com seu namorado, vão ser felizes para sempre. Não foi isso que você escolheu? Meu estado mental importa mesmo agora?
Arquejei de novo, sentindo aquele bolo em minha garganta dobrar de tamanho. Meu irmão respirou fundo, mordi o lábio.
– Claro que importa, Louis – falei, ofegando em meio à frase – Eu te amo, não quero que você fique triste.
Ele arquejou, abrindo os olhos. Louis encarou meu rosto, tremi.
– Não quer que eu fique triste? Então por que você sempre faz isso? Por que você sempre me deixa em último plano na sua vida? – ele disse.
Ofeguei, engolindo em seco. O olhar dele estava tão torturado, era quase como se ele estivesse vendo algo terrível.
– Você sempre alimenta as minhas esperanças, Nina – ele disse, arquejando em meio à frase – Eu fui honesto com você. Você sabe o que eu sinto por você, sabe como eu me sinto com tudo isso, sabe o que você me prometeu, e mesmo assim, você sempre acaba me jogando fora como se eu não passasse de uma companhia descartável.
– Não diz isso – pedi, fungando – Por favor.
Ele ofegou, desviando o olhar. Engoli em seco, encarando os braços dele.
– Veja só o que ele fez com você, veja só o que ele te fez passar – Louis disse, grunhindo – Ele traiu você, cometeu um crime. Ele te fez sofrer, te fez chorar, te magoou. Mas você perdoou ele, você perdoou e esqueceu de si mesma. Esqueceu como você se sentia, esqueceu a decisão que você tinha tomado.
– O que queria que eu fizesse? O deixasse sozinho naquela situação? – perguntei, guinchando e arregalando os olhos – Ele é importante para mim, Louis. Eu jamais poderia fazer isso, eu jamais poderia magoá-lo.
– Mas a mim você magoa sem nem pensar duas vezes, eu não aguento mais! – ele disse.
Meu coração pulou uma batida, todos os meus sentidos congelaram. Louis baixou a cabeça, fungando. Senti um calafrio me tomar, como se minha alma tivesse sido deixada para morrer em um freezer. Meu irmão fechou os olhos, respirando em um ofego desesperador.
– Pra mim chega – ele disse – Eu não aguento mais sofrer.
Ofeguei, sentindo meus olhos arderem. Louis fungou, engolindo em seco. Inclinei-me em sua direção, mas congelei assim que vi uma pequena lágrima pingar de seu queixo. Abri a boca para falar alguma coisa, mas não consegui formular nenhuma palavra. Louis fechou os olhos por um segundo, engolindo em seco. Quando ele os abriu de novo, já não parecia o mesmo homem de antes. Louis me olhou nos olhos, tremi de novo.
– Espero que você seja feliz com sua decisão, pois eu vou tentar ser feliz com a minha – ele disse.
– Louis, o que... – comecei.
Ele não me esperou terminar, apenas respirou fundo e pegou impulso para levantar do banco. Pisquei, tentando raciocinar. Senti o metrô desacelerar, o famoso som de “Terceira Parada” soou dos confins da máquina. Ergui o olhar, deparando-me com o homem mais lindo do mundo diante de mim. Ele sustentou meu olhar, encarei aquelas esferas cor de malva que pareciam ter endurecido como cimento.
– Sinto muito – ele disse, respirando fundo – Mas eu cansei de correr atrás de você.
As portas do metrô de abriram, e Louis nem hesitou na hora de se dirigir a elas. Sem olhar para trás, ele saiu, deixando-me lá, tentando entender o que tinha acontecido.
Completamente sozinha.
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Fechei a porta bem devagar, tentando achar forças para não desmaiar ali mesmo. Já passara muito da hora de dormir, eu não tinha comido quase nada o dia inteiro. Tinha perdido as contas de quantas vezes meu celular tocou, resistindo até onde sua bateria conseguiu. Não me importei muito com aquilo, estava muito ocupada tentando juntar os meus pedaços.
Meus olhos ardiam por conta de todas as lágrimas que eu derramei, mas agora, eles pareciam poços secos. Eu não tinha mais o que chorar, já tinha perdido todo o líquido que meu corpo reservava para aquilo. Meus pés doíam, assim como meu corpo, como se eu tivesse sido pisoteada. Eu não me importava com aquilo, nem mesmo o frio que fazia era o bastante para me retirar do limbo em que eu entrara horas atrás.
Ouvi passos atrás de mim, e não demorou para que a luz do corredor fosse acesa. Continuei parada no mesmo lugar, não queria encarar ninguém.
– Você, sua grande idiota! – rosnou alguém, irado – O que eu te disse sobre sumir assim? Pra que serve a merda do seu celular?
Senti meu braço ser puxado com força, mas não liguei. Um forte cheiro de canela invadiu meu nariz, enchendo-me com um sentimento levemente familiar.
Mas não foi o bastante para me tirar do limbo.
– Que diabos...? – ele disse.
Engoli devagar, encarando um ponto aleatório no chão. Fuuto tentou erguer meu rosto, seus olhos castanhos me estudaram de forma quase desesperada.
– O que aconteceu com você? – ele perguntou.
Respirei, tentando achar minha língua. Ele esperou, segurando meu outro braço com a mão direita. Sua mão esquerda apertava meu queixo, mantendo meu rosto em sua linha de visão.
– Eu... Me perdi – falei.
Minha voz estava rouca, foi o melhor que eu pude fazer com minha garganta seca daquele jeito. Fuuto franziu o cenho, irritado e preocupado ao mesmo tempo.
– Alguém machucou você? – ele perguntou, sacudindo-me um pouco.
Funguei, sentindo novas lágrimas se formarem. Fuuto arregalou os olhos, um pouco chocado.
– Pra variar, fui eu quem machuquei alguém – respondi, derramando as primeiras lágrimas.
Fuuto ofegou, puxando-me para si. Meu corpo colidiu contra seu peito, seus braços se fecharam ao meu redor com força. Fechei os olhos, rendendo-me ao choro outra vez. Meu irmão engoliu em seco, me sacudindo outra vez.
– Ei, não chora – ele disse, um pouco atordoado – Eu odeio quando as mulheres choram.
Solucei, enterrando meu rosto em seu pescoço. Fuuto soltou um muxoxo, apertando-me com força. Afundei-me em seu abraço, deixando que o peso daquele dia terrível desabasse sobre mim com força total. Eu não tinha mais motivos para fingir.
– O que há de errado comigo? – perguntei, soluçando com força – Eu não posso simplesmente morrer e deixar vocês viverem em paz?
– O que? Que droga de morrer o que? Tá maluca? – Fuuto disse, arquejando – Sua niña idiota, não consegue falar nada que preste?
Funguei, soltando outro soluço. A mão de Fuuto segurou minha cabeça, mantendo-me agarrada ao seu corpo. Ele afagou minhas costas de forma quase hostil, como se odiasse ter que me apoiar.
– Eu vou te punir por chorar, vou punir de verdade – ele disse, bufando – Que droga, assim eu não consigo ter raiva de você.
Engoli em seco, aninhando-me nele. Fuuto soltou um suspiro pesado, abraçando-me de forma quase terna. Sua cabeça encostou na minha, ele depositou um beijo forte e rude em meu pescoço.
– Eu vou matar quem te fez isso, vou fazer picadinho desse desgraçado – ele disse, suspirando outra vez – Não chore, eu estou aqui com você.
Apertei-o com toda a minha força, Fuuto fez o mesmo comigo. Respirei fundo, tentando absorver seu cheiro, tentando desesperadamente me agarrar àquela corda e sair daquele limbo frio.
Tentando deixar que a canela suprimisse a overdose de mel que estava me empurrando para baixo.
IMAGEM ESPECIAL (ESSE FINAL ;-;)
Wataru Asahina (Mordi a foto)

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