The New Girl in the House
26 Beijo
Notas iniciais
Sentei na cama, sentindo a cabeça girar um pouco. Eu havia dormido mesmo, ainda que tivesse sido por cerca de trinta minutos. Fazer amor me deixara cansada, por mais que eu já tivesse feito isso antes, eu ainda me sentia como uma “iniciante”.
Um grunhido sonolento ao meu lado me fez perceber que eu não era a única que estava acordando, dei um sorrisinho.
– Nina? – disse Akira, abrindo os olhos parcialmente.
Revirei os olhos, dando uma risadinha.
– Quem mais seria? – perguntei.
Ele não respondeu, meu sorriso morreu. Encarei-o, séria. Akira piscou os olhos, soltando um bocejo. Parecia quase angelical daquele jeito, mas aquilo não derrotara minha desconfiança.
– Por que você está me olhando assim? – perguntou, ligeiramente confuso – Eu fiz alguma coisa errada?
Não respondi, apenas encarei-o. Akira sentou na cama, ainda mais confuso. Ele tocou o bico de irritação que eu fazia, não deixei aquilo me abalar.
– Ei, o que aconteceu? – ele perguntou, franzindo o cenho – O que foi que eu disse?
Bufei, sacudindo a cabeça. Girei meu corpo, pondo os pés no chão.
– Nina, fala comigo – disse Akira.
Ele segurou meu braço, impedindo-me de levantar. Senti sua aproximação, meu corpo se retesou. Akira envolveu-me em seus braços, sua boca roçou a pele do meu pescoço.
– Fala comigo, amor – ele disse, dando uma leve chupada em minha pele.
Sua voz saiu como um ronronar de gatinho, meu corpo todo tremeu. Ele deve ter sentido, senti seus lábios repuxaram-se em um sorriso, transformando sua chupada em um beijo molhado e demorado. Ofeguei baixinho, Akira puxou-me para si, fazendo-me cair na cama outra vez. Ele deitou-se sobre mim, depositando suaves beijos em minha clavícula. Trinquei os dentes, sentindo minha irritação se dissolver por completo.
– Quer parar de fazer isso? – falei.
Akira grunhiu negativamente, sua boca beijava agora minha garganta. Soltei um gemidinho indiscreto, ele sorriu.
– Você não quer que eu pare, quer? – perguntou.
Senti seu hálito quente em minha pele, ah.
– Não mesmo – respondi.
Ele riu, pondo certo espaço entre nós. Akira apoiou-se em suas mãos, ladeando meu pescoço com seus braços fortes. Mordi o lábio, ele encarava minha boca fixamente.
– Vamos fazer de novo? – perguntou.
Ri, um pouco incrédula.
– Nós já fizemos duas vezes, só hoje! – falei, arquejando em meio a frase – Eu fico cansada, como você tem tanto fôlego?
Ele riu, dando de ombros. Posicionei minhas mãos em suas costas, queria sentir seus músculos, ter certeza de que aquele ser perfeito era real.
– Você ainda não pegou prática, é só uma questão de tempo – ele disse.
Franzi o cenho, ele sorriu calmamente.
– Como você tem tanta prática então, senhor “Bom de cama”? – perguntei, bufando – Eu só fiz sexo umas seis vezes em toda minha vida, como você pode estar melhor do que eu?
Akira riu, sacudindo a cabeça. Franzi o cenho, mordendo a língua.
– Simples, eu malho nas horas vagas – ele disse – Passo boa parte do dia carregando livros e ajudando os professores, fora que carrego mais crianças do que uma babá. Você fazia isso antes, mas agora que virou burguesinha não deve nem carregar a própria mochila.
Arregalei os olhos, socando-lhe de leve. Ele ofegou, mordendo o lábio.
– Eu não sou burguesinha! – falei.
Ele negou com a cabeça, depositando um rápido selinho em meus lábios e erguendo a cabeça outra vez.
– É sim, não tente negar – zombou – Eu namoro uma patricinha metida, eu namoro uma burguesinha de primeira.
Trinquei os dentes, cravando minhas unhas em suas costas.
– Não me chama assim – falei.
Ele riu, dando outro selinho em meus lábios. Antes que eu pudesse fechar os olhos, ele já tinha erguido o rosto de novo.
– Burguesinha, e das mais metidas – ele disse.
Arquejei, descendo minhas unhas em sua pele. Ele ofegou de dor, fazendo uma careta deliciosa.
– Ai, não faz assim, minha burguesinha linda – miou.
Eu não queria, mas ri. Akira riu junto comigo, parei de arranha-lo.
– Não me chama de burguesinha, eu não sou assim – falei.
Akira fez um biquinho, soltando um muxoxo. Fiz um bico em resposta, ele depositou seus lábios sobre os meus. Mordi seu lábio inferior, esticando-o um pouco. Akira riu, dando-me mais um selinho antes de encerrar o beijo. Ele ergueu o rosto, seus olhos brilhavam como safiras.
– É sim uma burguesinha, mas é a minha burguesinha – ele disse.
Revirei os olhos, cedendo-lhe uma risadinha. Akira beijou-me outra vez, demorando-se em seus movimentos agora. Correspondi ao beijo, inclinando um pouco minha cabeça para cima. Ele usou sua língua para abrir uma brecha entre meus lábios, aproveitando para escorregar sua língua para dentro da minha boca. Minha língua encontrou-se com a dele, elas abraçaram-se como velhas amigas.
– Burguesinha boa de cama – gemeu Akira, ainda beijando-me – Vamos fazer de novo, por favor?
Ri, partindo o beijo. Empurrei-o para cima, fincando minhas unhas em seus ombros.
– Eu preciso ir para casa, o horário termina em uns vinte minutos e eu ainda preciso tentar dar um jeito no meu cabelo – falei, suspirando antes de continuar – Queria poder fazer isso aqui durar para sempre, mas sempre temos que acordar dos sonhos, não é mesmo?
Akira ouviu tudo que eu disse atentamente, olhando-me nos olhos. Exibia um sorrisinho calmo nos lábios, sua respiração estava bem lenta. Fechei minha boca, respirando fundo.
– Você é linda – ele disse.
Dei um sorrisinho, desviando o olhar. Akira suspirou, mordendo o lábio de leve.
– Eu amo quando você diz essas coisas tão maduras e reflexivas, sinto como se namorasse uma enciclopédia – ele disse, rindo um pouco – Às vezes você me parece alguém tão distante da minha realidade, mas quando eu a tenho em meus braços como agora, eu me sinto outra pessoa.
Não consegui dizer nada, as palavras de Akira me entorpeceram. Ele deu um sorriso carinhoso, correndo os dedos por entre meus cabelos. Suspirei, ele beijou uma mecha dos meus cabelos.
– Eu te amo – falei.
Akira sorriu, soltando meus cabelos.
– Eu também te amo, minha Nina – ele disse.
Sua voz saiu bem suave, era como se ele cantasse para mim. Sorri, encarando seu rosto perfeito.
– Esse sonho vai virar realidade, eu prometo – disse Akira.
Suspirei, ele mordeu o lábio, inclinando-se em minha direção. Nossos lábios se tocaram, formando um beijo doce, cheio de sentimentos. Abri parcialmente minha boca, convidando a língua de Akira a entrar. Ele obedeceu-me sem questionar, enlaçando minha língua com a sua. Desci minhas mãos por entre seus braços, sentindo os músculos de suas costas com meus dedos. Akira aprofundou o beijo, sua mão direita posicionou-se debaixo do meu seio esquerdo. Retesei-me minimamente, quase partindo o beijo com um gemidinho. Akira riu baixinho, mexendo em meu mamilo com seu polegar direito. Apertei suas costas com meus dedos, ele soltou um arquejo discreto. Sorri em meio ao beijo, puxando minha língua devagar. Parti o beijo, afastando-o com um impulso forte. Akira franziu o cenho, confuso. Ri, jogando-o para o lado com toda a força que consegui reunir. Ele desabou ao meu lado, ajoelhei-me na cama.
– Nina, o que você está fazendo? – perguntou Akira.
Ri de novo, posicionando-me da forma que queria.
– Espere e verá – falei.
Ele piscou, ainda confuso. Ri outra vez, subindo em seu corpo. Engatinhei devagar, posicionando meu ventre acima do seu. Akira ofegou quando percebeu onde eu queria chegar, mordi o lábio.
– Quero tentar uma coisa – falei – Eu li sobre isso, e gostei do que aprendi.
– Nina, você é doida – disse Akira.
Assenti, mordendo o lábio. Sentei-me sobre seu ventre, sentindo forte arrepio me tomar de imediato. Akira ofegou, mordendo o lábio com força. Aquela posição me deixava bem entregue, mas também me deixava no controle. Eu podia sentir sua ereção quente em minha vulva, a pontinha de seu pênis tocava meu clitóris, ah. Não tínhamos vestido roupa alguma antes de dormir, talvez tivéssemos exatamente essa finalidade: Acordar e repetir a dose. Ergui um pouco meu corpo, dando espaço para que Akira pudesse entrar. Ele mordeu o lábio, dirigindo-me um sorriso safado. Senti-o esfregar seu pênis em minha vulva, mordi o lábio.
– Akira, você está aí? – perguntou uma voz familiar.
Duas batidas vieram logo em seguida, lavando nossa excitação como um balde de água fria. Akira bufou, trinquei os dentes.
– Akira, responde! – disse a mesma voz – Eu preciso de ajuda, são livros demais para carregar.
– Peça a outro, Sarah! – resmungou Akira, irritado – Estou no meio de algo importante, você está atrapalhando.
Ri, achando humor até mesmo naquela tragédia.
– Você pode se masturbar em outro momento, eu preciso de ajuda – disse Sarah, batendo na porta com um pouco mais de impaciência – Anda logo, você sabe que eu não posso pedir a outro para me ajudar com as tarefas do conselho estudantil, você é o vice-líder.
Ri alto, sacudindo a cabeça. Sarah sempre fora daquele jeito, eu sentira falta dela mais do que pensava. Akira bufou, quase arrancando os próprios cabelos de tanta irritação.
– Eu não vou, vamos continuar – ele disse, retomando seu carinho peniano em minha vulva.
Mordi o lábio, tentada a aceitar. Mas já estava tarde, e se continuássemos com aquilo, eu provavelmente ficaria tão cansada que nem conseguiria voltar para casa.
– Você vai, eu também preciso ir para casa – falei.
Saí de cima dele, rolando na cama. Botei meus pés no chão, olhando em volta para tentar localizar minhas roupas.
– Akira! – berrou Sarah, esmurrando a porta.
– Ah! – gritou Akira, dando um pulo na cama – Eu já vou, cala a boca!
Ouvi Sarah bufar bem alto, ela não disse mais nada. Ri ainda mais, ajoelhando-me para catar minha calcinha do chão. Vesti minhas roupas com rapidez, lançando olhares ao relógio de vez em quando. O horário de visitas terminaria em cinco minutos, Sarah fizera bem em aparecer.
– Seus preservativos – disse Akira.
Ele entendia o pacote que eu comprar as escondidas no dia anterior, a careta que ele fazia era tão engraçada que eu não pude deixar de rir.
– Guarde aqui, eu não quero ser pega com preservativos no bolso da calça – falei – E, além do mais, onde mais eu usaria?
Akira bufou, fechei meu sutiã.
– Nem cogite essa hipótese, me faz querer matar alguém sem ter motivo – disse Akira – Eu vou guarda-los, mas pretendo usa-los na sua próxima visita.
Revirei os olhos, ele não me encarava, mas sorria maliciosamente. Eram seis preservativos no pacote, acho que criei um monstro muito sexy.
– Temos que ir devagar, o que acha que minha mãe vai pensar quando vir a fatura do meu cartão de crédito? – falei, arrepiando-me antes de continuar – Ou pior, o que acha que Ukyo vai pensar quando vir a fatura do meu cartão de crédito? Miwa provavelmente acharia isso maravilhoso.
Akira riu, permiti-me sorrir de leve.
– Seu irmão advogado? Por que ele abriria a fatura do seu cartão de crédito? – perguntou Akira.
Dei de ombros, sentando-me na cama dele para poder calçar meus tênis.
– Ele é o responsável pelas dívidas, acho que ele abriria a fatura do meu cartão de crédito – respondi.
Akira bufou, terminei de colocar minhas meias.
– Ele já tem mais de trinta anos, não é isso? – perguntou – Ele deve fazer sexo também, por que você não pode?
Bufei, erguendo-me da cama.
– Porque eu sou menor de idade? Espera, você também é – falei, rindo pelo nariz – Ele é meu irmão, Akira. Ukyo pode ser daquele jeito, mas eu tenho certeza de que ele é protetor. Fora que, se ele visse com o que eu ando gastando dinheiro, ele iria dizer a todos os outros.
Akira terminou de abotoar sua camisa de mangas, ele devia morrer de calor com aquele uniforme, mas não deixava de ficar lindo ao usa-lo.
– Todos são marmanjos que já devem ter feito sexo mais vezes do que podem lembrar, nenhum deles tem direito de cobrar sua virgindade – disse, sentando-se em sua cama para calçar os sapatos.
Suspirei, não queria ter aquela conversa com Akira. Eu ainda não contara aos meus irmãos sobre meu namoro, mesmo sabendo que era o certo a se fazer. Não sabia como reagiriam, mas sabia que muitos deles nem olhariam na minha cara. Por mais que eu quisesse assumir isso logo, eu tinha medo de que eles nunca me perdoassem.
– Depois a gente conversa sobre isso, vou dar um “oi” à Sarah – falei.
Akira assentiu, calçando sua bota esquerda. Suspirei de novo, odiava brigar, ainda mais com ele. Sacudi a cabeça, indo em direção à porta. Sarah nem percebeu quando saí, pigarreei.
– Finalmente, achei que você nunca ia terminar de “descascar a banana”, que bom que eu não sou homem e... – disse Sarah, antes de me ver – NINA!
Ri, ela deu um pulo para trás. Sua surpresa tinha sido tanta que ela gritara meu nome bem alto, todos os garotos do andar meteram a cabeça para fora de seus quartos.
– Eu ouvi “Nina”? – disse um.
– A Nina voltou? – disse outro.
– A Sarah está vendo coisas? – disse um terceiro.
Ri, sacudindo a cabeça. Sarah ainda não se recuperara do susto, ri da cara dela.
– Ai meu Deus! Eu nunca iria imaginar – ela disse, pasma – Me desculpe! Vocês estavam fazendo as pazes? Eu sou uma vadia.
– Ei, calma – falei – Respira.
Segurei-a pelos ombros, impedindo que ela rodopiasse de tanto nervosismo. Ela continuava a mesma, talvez um pouco mais magra, mas era a mesma Sarah de sempre.
– Akira e eu não estávamos fazendo as pazes, nós nem brigamos – falei – Só estávamos matando a saudade um do outro, não se preocupe, você não interrompeu nada.
– Fale só por você – disse a voz de Akira.
Dei um pulinho, senti uma mão agarrar minha cintura. Sarah arregalou os olhos, mordi o lábio.
– Vocês estavam transando? Usaram camisinha? – ela disse, exasperada – Sabem muito bem que ter bebês é um risco muito grande, vocês nem são maiores de idade e...
– Cala a boca, Sarah – dissemos Akira e eu ao mesmo tempo.
A garota parou de falar, engolindo em seco. Ri, Akira apertou um pouco minha cintura.
– Não estávamos fazendo nada que seja da conta de vocês todos, mas você interrompeu sim algo muito importante – ele disse – O que eu tenho que fazer, diz logo o que você quer.
Sarah aprumou-se, todo o nervosismo que ela aparentava parecia ter virado fumaça. Ri, modo profissional ativado.
– Preciso entregar cinquenta livros de biologia na sala F até às duas e meia, mas não tenho força para fazer isso nem em 24 horas – ela disse – Eu queria sua ajuda, mas já percebi que você não tá com muita vontade de ajudar, então eu posso chamar outro.
Prendi o riso, Akira fez uma careta exasperada.
– Você disse que não podia chamar outro! – ele disse.
Sarah soltou um muxoxo, mordi o lábio para não rir.
– Eu não sabia que você estava com a Nina, eu juro que nunca quis interromper nada – ela disse, sacudindo-se um pouco.
Akira fechou a cara, algo me disse que ele devia estar se controlando para não bater em alguma coisa.
– Está tudo bem, Sarah? – perguntei, tentando desviar o assunto – Você está estranha, ainda mais do que de hábito.
Ela riu, dando-me uma tapinha leve.
– Senti falta do seu sarcasmo, e você está linda – ela disse, antes de suspirar – Tomei uns energéticos contrabandeados para poder ficar acordada a noite toda ontem, mas eles não caíram muito bem.
Suspirei, fazendo uma cara séria.
– Sarah, você vai acabar se matando – falei, sacudindo a cabeça – Você não é a única que fica na patrulha, troque de turno com o Jesse ou o Kira, mas durma uma noite inteira.
Ela respirou fundo, olhando-me como se tivéssemos discutido aquilo antes. Era verdade, eu sempre tentava convencê-la a tirar uma noite de folga, mas ela nunca me escutara.
– Não adianta, ninguém consegue fazer a cabeça de Sarah Kato – disse Akira, soltando um suspiro pesado – Eu cuido dos livros, vá tirar um cochilo ou algo assim.
Sarah abriu um sorriso aliviado, quase desesperado. Suspirei, ela nunca dormia de noite, só cochilava pelos cantos da biblioteca ou da sala dos arquivos.
– Te devo uma, foi bom te ver de novo, Nina – ela disse.
Sorri, acenando. Sarah disparou pelo corredor, seus passos trôpegos lembravam os passos de um bêbado. Sacudi a cabeça, Akira expirou.
– Ela não tem jeito – falei.
Akira assentiu, encarei seu rosto.
– Eu tenho que ir, se eu não carregar aqueles livros, ela pode acabar desmaiando no caminho – ele disse.
– Tudo bem – respondi – Nos vemos na semana que vem.
Ele assentiu, estiquei meu pescoço em sua direção. Ele imitou meu movimento, trazendo seus lábios para mim. Beijei-o, segurando o lado direito de seu rosto.
– Namoros são proibidos! – disse uma voz enérgica.
Separei-me de Akira como se tivesse levado um choque, ele parecia tão confuso quanto eu estava. Parada no meio do corredor, estava uma mulher alta e ruiva. Seus olhos eram incrivelmente negros, ela usava uniforme de professora, mas eu nunca tinha visto ela antes.
– Sra. Yokoyama – disse Akira.
Pisquei, ainda confusa. A mulher aproximou-se de nós, seus olhos brilhavam com perversidade.
– Os dois vai ser punidos, os namoros são completamente proibidos em todo o terreno do orfanato – ela disse, dando um sorriso quase cruel – De acordo com o artigo de número 4 das regras de conduta, os dois vão ter detenção, terão suas fichas anotadas e irão ser direcionados a outro orfanato.
Engoli em seco, aquela mulher me dava medo. Akira parecia não ligar, ele apenas revirou os olhos.
– Yokoyama, ela não é aluna – disse uma voz.
Subindo as escadas com sua costumeira expressão severa, vinha Annelise Mishima. Ela continuava do mesmo jeito, a única coisa fora do comum era o sorrisinho mínimo que ela exibia. Pisquei, ela nunca sorria.
– Boa tarde, Srta. Kazama – ela disse.
Sorri, afastando-me de Akira. Andei até ela devagar, parando a uns três passos de distância.
– Boa tarde, Sra. Mishima – falei.
Ela deu outro sorrisinho mínimo, bati continência.
– O horário de visitas acabou há exatos sete minutos, a senhorita quer ser expulsa ou vai sair por bem? – ela perguntou.
Arregalei os olhos, ela quase riu.
– Já estou indo, senhora – falei.
Mishima assentiu, encarando-me quase suavemente. Ela nunca tinha sorrido assim para mim, ou me olhado daquela maneira. Acho que minha saída deve ter tirado um peso enorme dos ombros dela, ou talvez a saída de Bruce tivesse trazido-lhe o bom humor que ela perdera anos atrás.
– Estou esperando – ela disse.
Dei um pulinho, recobrando meus sentidos. Ela quase riu da minha reação, apressei-me a desgrudar meus pés do chão.
– Foi um prazer revê-la, senhora – falei.
Ela assentiu, bati continência outra vez. Senti alguém tocar meu braço, o cheiro da pessoa me trouxe de volta a realidade.
– Vamos, Nina – disse Akira.
Assenti, lançando um último olhar à diretora. Akira conduziu-me pelo corredor, não pude deixar de olhar para trás.
Mishima e aquela mulher estranha nos encaravam, juntamente com alguém que eu nunca vira antes. Era uma garota, na faixa dos quinze. Usava um gorro verde que lhe cobria boa parte do rosto e dos cabelos, a única coisa que me fazia saber que se tratava de uma garota era o ursinho vermelho que ela segurava.
– Nina, preste atenção nas escadas – disse Akira.
Dei outro pulinho, percebendo que estava quase caindo. Meu namorado segurou-me com força, mas se eu não prestasse atenção, iria beijar o chão.
– Quem é aquela? – perguntei.
Akira não olhou para trás, apenas puxou-me com mais firmeza. Parecia estar com pressa para sair dali, resolvi não discutir.
– Mia Yokoyama, nova professora de química – ele disse, sua voz saiu como se ele estivesse dizendo algo sigiloso.
Pisquei, confusa.
– O que houve com o antigo professor de química? – perguntei.
Akira não me olhou, apenas conduziu-me a saída.
– Aceitou emprego em uma faculdade no mês passado, estamos com essa bruxa desde então – respondeu – Você não sabe a sorte que teve, ela é ainda mais severa que a Mishima, se é que é humanamente possível.
Ri pelo nariz, Akira cedeu-me um sorriso.
– E a garota? – perguntei.
Ele deu de ombros, saímos para o jardim.
– Deve ser uma nova residente, eu nunca a vi antes – respondeu – Ah, você tem visita.
Ele apontou para o portão, segui a direção de seu dedo. Abri um sorriso surpreso quando vi quem era, ele abriu um sorriso ensolarado ao ver minha reação.
– Ele é muito apegado a você, não é? – disse Akira.
Assenti, lançando-lhe um olhar de esguelha. Meu namorado sorria de modo quase frio, se eu não o conhecesse, acharia que ele estava apenas sendo simpático.
– Ei, é o Louis, ele é território neutro – falei – Sem ciúmes, lembre-se de que apenas você vê minhas lingeries.
Akira sorriu, dessa vez foi um sorriso sincero. Ri, sacudindo a cabeça.
– Sua mãe tem um ótimo gosto, eu adoro as lingeries que ela comprou, principalmente quando eu estou tirando elas de você – ele disse.
Ri de novo, Akira exibiu um sorriso vitorioso.
– Eu até gosto, mas tem uns espartilhos que fazem meus seios ficarem gigantes – bufei.
Akira riu, lançando-me um olhar malicioso.
– Eu gosto dos seus peitos – ele disse.
Ri, ele depositou um beijo ruidoso em minha testa.
– Eu ouvi direito? – disse Louis.
Estávamos muito perto dele agora, pude ver sua expressão calma virar algo mais vítreo.
– Eu não sei, o que você ouviu? – disse Akira.
Ser sínico é arte? Eu namoro um artista.
– Algo sobre os seios da minha irmã, talvez? – disse Louis.
Seu tom era brincalhão, mas eu conhecia-o o bastante para saber que Louis estava falando muito sério. Akira deu de ombros, parecia não ter percebido.
– Pode ser, e não é a primeira vez, acredite – disse.
Louis riu, uma risada quase fria. Akira sorriu, apertando-me mais junto ao seu corpo.
– É bom vê-lo outra vez, Akira – disse Louis.
Meu namorado sorriu, eles trocaram um aperto de mãos.
– Bom te ver, cara – disse Akira.
Louis sorriu, fixando seu olhar em mim.
– Já está na hora? – perguntou.
Ai, sua voz saiu tão terna... Tenho certeza de que Akira percebeu, já que seu corpo se retesou de leve.
– Já passou da hora, se quer saber – respondeu Akira – Já vou devolver sua irmã, só preciso de mais um beijo.
Louis assentiu, encarando-me fixamente. Desviei o olhar, completamente ciente de que meu irmão ainda me encarava. Akira segurou meu queixo, nosso olhar se encontrou. Ele deu um sorrisinho, aproximando sua boca da minha. Meu pescoço se retesou, mesmo não querendo, saber que Louis me observava daquele jeito quase me fez corar. Meu namorado puxou levemente meu queixo, tomando meus lábios nos seus. Retribuí seu beijo, tentando puxa-lo para a minha frente. Ele não deixou que eu me movesse, apenas abraçou-me com força, prendendo meus braços. Quase pude sentir o olhar de Louis queimando meu rosto, meus lábios se enrijeceram. Akira partiu o beijo, afastando seu rosto do meu. Seu olhar vagueou na direção de Louis, tentei não encarar nenhum dos dois.
– Cara, você pode nos dar licença? – perguntou Akira.
Louis deu uma risadinha, aquele som me arrepiou por inteira.
– Fique a vontade – respondeu Louis.
Akira assentiu, meu irmão continuou do jeito que estava. Arrisquei um olhar de soslaio em sua direção, arrependendo-me miseravelmente. Ele sorria de maneira quase robótica, como uma boneca de porcelana antiga e grotesca. Akira puxou meu queixo em sua direção, selando nossos lábios sem esperar nem mais um minuto. Tentei esquecer que Louis estava ali, entregando-me ao beijo. Akira soltou um muxoxo de alívio, seu abraço sufocante virou algo mais carinhoso. Abracei-o de volta, ele mordeu meu lábio. Sorri em meio ao beijo, abrindo espaço para que sua língua macia entrasse. Akira entrelaçou nossas línguas, soltei um suspiro. Suas mãos apertaram minhas costas, ele soltou um gemido rouco de prazer. Ah, ele soltava gemidos como aquele quando estávamos em seu quarto, sempre que ele me penetrava lentamente...
Agarrei-o com força, transformando aquele beijo tímido em algo selvagem. Akira correspondeu ao meu beijo, apertando-me com força. Puxei a gola de sua camisa, chupando sua língua com vontade. Ele gemeu daquele jeito de novo, colando meu ventre ao dele. Ele parecia estar ficando ereto, e era por mim, era pelo meu beijo. Eu já estava sem ar, Akira partiu o beijo. Ele estava tão ofegante quanto eu, suas pupilas estavam completamente dilatadas.
– Wow – ri pelo nariz.
Akira riu, dando-me um leve selinho. Afastei-me dele antes que aquilo virasse outro beijo ardente, ainda tínhamos plateia.
– Eu ligo mais tarde – disse Akira.
Assenti, soltando-me dele. Meu namorado me soltou, afastando-se de mim. Virei parcialmente meu rosto, deparando-me com a figura de meu irmão. Ele ainda encarava-me, seu rosto estava levemente inexpressivo, embora um sorriso sem emoção repousasse em seus lábios.
– Vamos? – ele perguntou.
Sua voz soara um pouco desprovida de emoção, não parecia nada com o Louis que eu conhecia e amava. Assenti, ele deu um sorriso mínimo. Virei para Akira, meu namorado sorriu para mim.
– Tchau – falei.
Ele sorriu, inclinando-se para depositar um leve selinho em meus lábios. Quando ele se afastou de mim, pude ver um brilho quase perverso em seu olhar.
– Pense em mim, você sabe como – ele disse.
Ri, mordendo o lábio. Akira lançou-me uma piscadela, dando um empurrãozinho leve e brincalhão em meu ombro. Louis riu daquilo, uma risada quase gélida. Sorri para o chão, tentando não encarar nenhum dos dois diretamente. Saí do orfanato, lançando um olhar na direção de Akira. Meu namorado sorriu para mim, balançando as sobrancelhas como se estivesse maliciando alguma coisa. Ri, sacudindo a cabeça. Senti uma mão segurar a minha, conduzindo-me em direção à saída da rua. Nem precisei olhar em volta para saber que era Louis, não tinha mais ninguém ali. Caminhamos lado a lado em silêncio, Louis parecia estar perdido em pensamentos. Um sorrisinho divertido repousava em seus lábios, seu olhar estava distante.
– Qual é a graça? – perguntei, tentando quebrar o silêncio.
O sorriso de Louis cresceu, ele não olhou para mim.
– Nada que venha ao caso agora, minha criança – ele disse, dando uma risadinha suave.
Franzi o cenho, ele parecia ansioso para continuar aquela conversa, mas devia estar tentando se controlar.
– Por que você me chama assim? – perguntei.
Seu sorriso divertido morreu, mas ele logo fora substituído um sorriso carinhoso.
– Me parece apropriado – respondeu.
Expirei, ele parecia estar me evitando. Mordi o lábio, tentando achar algo decente para falar.
– Por que você veio me buscar? – perguntei.
Olha, o sorriso de divertimento estava de volta. Louis ainda não me encarou, viramos a esquina na direção da estação do metrô.
– Um irmão tem o direito de se preocupar com a irmã, não vejo motivos que me impeçam de vir até aqui te buscar – respondeu – Mais alguma pergunta ou eu posso fazer as minhas?
Pisquei, Louis parecia estar se divertindo muito com aquela conversa.
– Pode perguntar, eu não tenho nada a esconder – falei.
Louis sorriu ainda mais, ele quase ria. As pessoas que passavam por nós ficavam um pouco atordoadas pela beleza dele, uma garota tropeçou em alguma coisa.
– Por que você beija o Akira? – Louis perguntou.
Pisquei, confusa. Ele ainda evitava contato visual comigo, parecia estar curtindo com a minha cara.
– Bom, ele é meu namorado, namorados se beijam – respondi, dando de ombros – Por que a pergunta?
Louis riu, sacudindo a cabeça. Franzi o cenho, se ele estava me zoando, eu devia estar contribuindo de alguma maneira desconhecida.
– Você gosta de beija-lo? – perguntou Louis.
Ele ainda não me encarava, parecia fazer força para não rir. Suspirei, mordendo o lábio.
– Adoro – respondi – Ele beija muito bem, eu fico sem ar quando ele me beija.
Louis explodiu em uma risada, assustando todas as pessoas que passavam pela rua, inclusive eu. Sua mão apertava a minha gentilmente, ele devia estar tentando me passar conforto enquanto ria de mim.
– Deus, Nina – ele disse, rindo – Você tem cada uma, aquele rapaz beija como uma criança afoita, eu vi.
Franzi o cenho, Louis ainda ria.
– Eu gosto dos beijos dele, não tem nada de infantil ali – protestei.
Louis riu ainda mais, bufei.
– Cada um vê o que quer, minha criança – ele disse – Mas você ainda é jovem, ainda vai viver muita coisa para descobrir que eu estou certo.
Bufei de novo, Louis aquietou suas risadas em um suspiro alegre.
– Eu me divirto muito com você, obrigado por isso – ele disse.
Ele devia ter dito aquilo para amolecer meu coração, e quase funcionou, quase.
– Se o Akira beija como uma criança, como é que eu beijo? – perguntei.
Louis refletiu durante um segundo, soltando um leve suspiro alegre. Seu rosto voltou-se em direção ao meu, um meio sorriso lindo repousava em seus lábios.
– Como uma menina inocente, alguém tão pura que jamais veria a maldade por trás dos beijos do namorado, e nem de mais ninguém – ele disse.
Ri, não me controlei. Eu? Inocente? Conta essa história para outra.
– Do que está rindo? – perguntou Louis.
Ele parecia ligeiramente confuso, talvez não esperasse por aquela reação. Ri ainda mais, sacudindo a cabeça.
– Eu sou inocente? – perguntei, tentando controlar meu riso.
Louis assentiu, franzindo as sobrancelhas. Ri de novo, evitando seu olhar.
– Cada um vê o que quer, não é mesmo? – zombei, dando um sorriso malandro.
Ri da minha própria piada, mesmo sabendo que talvez aquilo não fosse muito apropriado. Ele não respondeu, apenas fixou seu olhar na estação de metrô diante de nós dois. Assim que chegamos, Louis dirigiu-se ao guichê e comprou nossos bilhetes. Esperei ao lado de uma senhora adormecida, os roncos dela enchiam o ar, mesmo sendo um dia movimentado. Meu irmão estendeu-me meu bilhete, ainda calado. Sorri para agradecer, nos dirigimos às catracas e ele me deixou passar na frente, como sempre fazia.
Já estávamos quase na metade da viajem de metrô quando Louis finalmente me encarou, seu rosto estava congelado em uma expressão problemática.
– Por favor, me explique o que você quis dizer com aquilo – pediu, não era uma pergunta, era uma súplica quase desesperada.
Engoli em seco, não imaginava que Louis reagiria daquele jeito. Ele sempre me parecera tão calmo e suave, mas naquele momento, ele parecia ser uma pessoa insegura e assustada.
– Ele roubou sua inocência? O roubo parou por aí? – perguntou Louis, engolindo em seco.
Abri a boca para responder, mas não consegui dizer nada. Louis arquejou, fixando seu olhar no chão do metrô. Seus olhos piscaram várias vezes, seu rosto contorcia-se de leve, como se ele estivesse tentando imitar todas as caretas possíveis em um só momento.
– Louis, olha para mim? – pedi.
Saiu como uma pergunta, eu estava tão desesperada que não pude fazer minha voz soar direito. Louis deu um sorriso mínimo, fechando os olhos por um segundo.
– Eu sabia – sussurrou, mais para si mesmo do que para mim – Tem andado muito contente, não quer minha companhia, sai sozinha para a farmácia em intervalos regulares...
Sua voz morreu, Louis respirou fundo. Minha mão tocou sua perna de leve, ele abriu os olhos.
– Você está com raiva de mim? – perguntei.
Devo ter soado como uma garotinha assustada, já que aquela pergunta fez Louis dar um sorriso terno e olhar para mim de forma doce. A verdade era que eu morria de medo de deixa-lo decepcionado, devo ter percebido tarde demais que tudo que mais queria era que ele se orgulhasse de mim.
– Nunca, minha criança – ele disse, suspirando – Só me dói um pouco saber que você não é a mesma de antes, e me dói muito mais saber que ele te machucou assim.
Pisquei, engolindo em seco. De fato, eu havia sangrado um pouco e sentira dor na nossa primeira vez. Akira e eu até brincáramos sobre o sangue no lençol, e eu nunca pensaria naquilo como um modo de me machucar, já que tudo que ele fez foi me dar a maior dose de amor que eu já recebera na vida.
– Não doeu muito, passou depois de um tempo – confessei – Eu sangrei, claro, mas ele não me machucou, eu quis tanto quanto ele.
A expressão de Louis congelou, seu rosto ficou petrificado naquela expressão de angústia e um leve desespero.
– Perdão? – disse.
Engoli em seco, nunca imaginei que diria coisas tão intimas a um irmão. Mas era Louis, eu confiaria minha vida a ele, não via problema algum em dividir aquilo com ele.
– Isso mesmo, você ouviu muito bem – falei, encarando minha mão em sua perna – Eu provoquei tudo, acho que não podia mais esperar, eu meio que precisava daquele amor, e Akira estava lá para dar.
Suspirei, era meio que verdade. Eu sempre quis fazer amor com Akira, só esperara tanto tempo por estar presa naquele orfanato. De uma maneira estranha, nunca sonhei com nosso casamento, apenas com nossa primeira vez.
Pensar naquilo me fez sorrir, nada do que minha mente imbecil criara chegara aos pés da realidade. Meu Akira imaginário não era metade do que meu Akira verdadeiro era, e eu não sentira nada parecido com aquilo em meus sonhos.
Louis suspirou, engolindo em seco por um segundo. Seus lábios tremeram por um segundo, ele piscou duas vezes.
– Está tudo bem? – perguntei, levemente nervosa.
Ele respirou fundo, tentando raciocinar direito. Ele parecia verdadeiramente perdido, seu olhar não encontrava o meu de forma alguma.
– Eu não sei – respondeu – Não sei o que dizer, não sei o que fazer, nem sei o que sentir. Eu sabia que isso aconteceria, mas nunca me preparei de verdade. Eu não sei o que está acontecendo comigo, mas não consigo me livrar da sensação de que estou perdendo meu bem mais precioso.
Pisquei, Louis respirou fundo outra vez. Ele ficara tão arrasado que pensava que estava me perdendo? Eu era seu “bem mais precioso”?
– Está falando de mim? Louis, você nunca vai me perder – falei, exasperada – Akira pode ser meu namorado, mas você é meu irmão. São dois tipos de amores muito diferentes, mas nada nunca vai apagar você do meu coração.
Aquilo pareceu alegrar Louis um pouco, ele ergueu levemente o rosto.
– Você me ama como ama ele? – perguntou.
Ah, droga. Aquela expressão devia ser proibida por lei, era completamente injusto existir algo tão lindo que podia mudar o mundo. Tentei não tremer, Louis me encarava de forma quase desesperadamente terna.
– São amores diferentes, dois modos de amar – respondi – Eu te amo com todas as minhas forças, assim como amo Akira. Você é meu irmão e ele é meu namorado, mas eu acho que amo vocês dois da mesma forma, ainda que de modos diferentes.
Assim que terminei de pronunciar aquelas palavras, fui tomada por seu poder de verdade absoluto. Era mesmo verdade, eu amava Louis desesperadamente.
– Você é meu irmão, a parte da família que mais me ama – falei, desviando o olhar – Eu amo você, Louis.
Minha boca fechou-se sozinha, não havia mais nada a ser dito agora. Aquilo me deixara mexida, eu realmente não sabia a extensão dos meus sentimentos por Louis até dizê-los em voz alta. Fechei os olhos por um segundo, não sabia exatamente como devia reagir ao fato de que meu irmão me encarava com tanta firmeza que parecia ler minha alma.
Senti meu corpo ser abraçado com força, tanta força que parecia que meus ossos estavam sendo esmagados. Meu rosto enterrou-se no peito de Louis, meu nariz encheu-se com seu cheiro divino. Ele arquejou de leve, continuei inerte.
– Oh, minha criança – ele disse – Eu também amo você, Nina.
Senti meu coração pular uma batida, enquanto meu corpo inteiro parecia estar sendo cozido em uma fogueira. Aquelas chamas eram tão quentes e tão aconchegantes ao mesmo tempo, talvez a fogueira fosse apenas uma lareira.
Louis moldou seus lábios contra a pele de minha testa, depositando ali o beijo mais suave e carinhoso que alguém já tinha me dado. Ele afagou suavemente minhas costas, prolongando aquele beijo durante quase dois minutos. Não abri meus olhos, apenas deixei-me ser abraçada por Louis, ignorando o fato de que todos no vagão do metrô olhavam para nós.
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– Obrigada por ir me buscar – falei.
Louis sorriu, apertando um pouco minha mão esquerda. Entrelacei nossos dedos com um pouco mais de força, aquilo pareceu agrada-lo.
– Não precisa agradecer, eu adoro cuidar de você – ele disse.
Sorri, encarando o chão.
– E eu adoro quando você cuida de mim – admiti.
Ele deu uma risadinha, dando um suave aperto em minha mão.
– Parece que somos compatíveis – ele disse.
Suspirei, sentindo a veracidade daquelas palavras. Ergui meu olhar, Louis observava meu rosto calmamente. Sua boca exibia um sorriso feliz, realizado. Seus olhos cor de malva brilhavam como as estrelas solitárias que acompanhavam a lua naquela noite, ele nunca me parecera tão suave.
– Você não faz ideia do quanto isso me alegra, Louis – confessei.
Seu sorriso cresceu ainda mais, seus olhos pareciam transbordar alegria. Sorri de volta, contagiada por sua magia.
– Você é a garota mais incrível que eu já conheci – ele disse – Eu tenho sorte por te ter.
Sorri, desviando o olhar. Louis aproximou-se de mim, envolvendo minha cintura com seus braços. Eles eram muito mais musculosos do que pareciam, aquela blusa não fazia justiça ao maravilhoso corpo de Louis.
– Sou mais incrível do que a Yui? – perguntei, falando baixinho.
Louis franziu o cenho, esperei. Estávamos sozinhos ali, contemplando a noite linda de Tókio através da sacada da mansão em que morávamos. Minhas mãos seguravam a gola da camisa de Louis, eu só conseguia encarar seu pomo-de-adão como se minha vida dependesse disso.
– Por que quer falar dela agora? – Louis perguntou, falando baixo.
Dei de ombros, engolindo em seco de leve.
– Só curiosidade – falei – Eu queria saber mais sobre sua namorada.
Louis franziu o cenho de novo, soltando um suspiro pesado.
– Yui não é minha namorada, Nina – ele disse – Ela foi, há anos atrás, mas agora não passa de uma lembrança.
Tentei segurar um suspiro de alívio, lembrando que eu não podia relaxar ainda.
– Ela agiu como sua namorada naquela festa, e você nem tentou evitar – acusei, lançando um olhar duro ao seu pescoço.
Louis suspirou, seus braços me apertaram com mais força.
– Eu estava bêbado, fiz coisas de que não me orgulho – ele disse.
– Exemplo? – pedi.
Ele evitou me olhar nos olhos, aquilo era a resposta que eu precisava. Fechei a cara, encarando-o com uma expressão tão furiosa e crítica que Louis tremeu de leve.
– Foi só uma vez, eu estava tão bêbado que nem me lembro direito, e estava tão ocupado pensando em você que não passamos das preliminares – ele disse.
Trinquei os dentes, respirando fundo para não mata-lo ali mesmo.
– Se você estava tão bêbado a ponto de não lembrar direito, como sabe que vocês pararam nas preliminares? – perguntei.
Inesperadamente, Louis deu uma risadinha. Esperei, meu rosto fixo em uma expressão dura.
– Você é esperta, eu gosto disso em você – ele disse, antes de soltar um suspiro – Eu lembro de estarmos a ponto de nos despirmos, mas ela acabou vomitando por cima dos próprios sapatos. Eu acabei saindo do quarto enquanto ela tomava banho, não me orgulho disso, mas me senti tão enojado que quase vomitei também.
Eu não queria rir, mas a careta que Louis fazia era simplesmente cômica demais. Encarei a gola de sua camisa, aquietando minhas risadas em um suspiro alegre.
– Eu procurei Natsume depois daquilo, precisava de uma carona – ele disse, franzindo o cenho – O resto fica confuso, eu só lembro-me de ver a limusine de Fuuto sendo estacionada na frente de casa.
Guardei aquilo na memória, tentando visualizar a imagem em minha mente.
– Vocês três estavam dormindo, foi uma cena comovente e linda, Hikaru e Ema tiraram muitas fotos – ele disse, rindo um pouco – Pelo menos eu acho que aquilo eram fotos, foram tantos flashes que eu quase caí no chão.
Ri, ele me acompanhou. Uma brisa suave soprou, agitando um pouco nossos cabelos. Louis depositou sua mão em meu ombro, pegando uma mecha rebelde dos meus cabelos entre os dedos.
– Quero pentea-los outra vez em breve, talvez no dia de natal – ele disse, suspirando – Masaomi carregou Wataru para fora, enquanto os outros praticamente brigaram para decidir quem carregaria você. No meio da confusão, acabei desviando de Tsubaki e Natsume e peguei você no colo.
Ele riu baixinho, divertindo-se com a lembrança. Sorri, erguendo o olhar até sua boca perfeita.
– Você se agitou um pouco, eu acabei alertando os outros enquanto tentava te fazer dormir outra vez – contou, dando um meio sorriso divertido – Teve outra briga, claro. Mas eu ignorei todos eles e te levei para a cama, de certa forma, me parecia a coisa adequada a se fazer.
Nosso olhar se encontrou, seu sorriso divertido aquietou-se em algo terno e suave, amoroso.
– Foi a primeira vez que eu te vi dormindo de verdade, foi como se eu estivesse vendo um anjo – disse, encarando-me fixamente – Foi naquele momento que eu percebi uma coisa, algo que eu já sabia, mas não tinha sentido a extensão até o momento.
Esperei, Louis suspirou. Sua boca abrigou um sorriso amoroso, quase... Apaixonado.
– Você é a garota mais especial desse mundo, e eu não tenho palavras suficientes para descrever o quanto eu amo você – ele disse.
Meus lábios repuxaram-se lentamente, formando um sorriso involuntário. Louis suspirou, seus dedos tocaram meu queixo.
– Eu já pensei muito sobre isso, mas nunca te disse – ele disse – Seus lábios são a imagem da perdição, Nina Kazama. Eu sei que não é certo, mas quando estamos perto como agora, a única coisa que eu quero é beija-la.
Meu corpo inteiro tremeu de leve, meus pelos se eriçaram com força. O sorriso de Louis murchou um pouco, ele acariciou levemente meu lábio inferior com seu dedão.
– Fico imaginando se é isso que ele pensa quando te beija – disse – Eu sei que não é da minha conta, mas eu preciso saber de uma coisa.
Esperei, incapaz de dizer alguma coisa. Louis suspirou, engolindo em seco.
– Ele foi gentil? – perguntou.
Seu tom de voz saiu tão doloroso, quase como se ele estivesse tentando engolir uma navalha afiada. Pisquei, sem saber exatamente como reagir. Louis me encarou, decidi que seria melhor contar a verdade.
– Foi – respondi – Ele foi exatamente o que eu sempre soube que ele era: perfeito. Eu sei que eu posso não saber nada sobre isso, mas Akira me deu a maior sensação de felicidade do mundo, ele me fez sentir verdadeiramente amada.
Temi estar expondo demais, mas percebi naquele exato segundo que precisava falar sobre aquilo com alguém. Confiava minha vida a Louis, ele era a pessoa mais indicada.
– Você o ama – ele disse.
– Amo – respondi.
Não tinha sido exatamente uma pergunta, mas eu precisava dizer aquilo. Louis fechou os olhos por um momento, recebendo a informação com uma expressão ligeiramente frigida.
– E você gostou de fazer... Sexo com ele – disse, quase engasgou-se para pronunciar aquela palavrinha com “S”.
Suspirei, ele esperou. Parecia estar sofrendo com aquilo, mas continuava ali, firme.
– Nós fizemos amor, e foi a melhor coisa que eu já fiz – falei, tentando soar calma – Louis, chega desse assunto.
Ele me ignorou, ainda de olhos fechados.
– Foi só uma vez? – perguntou, antes de rir pelo nariz sem humor algum – Quero dizer, é claro que não foi só uma vez, mas...
Ele deixou a voz morrer, engolindo em seco. Suspirei, doía em mim também continuar aquela conversa. Eu amava pensar em Akira, mas detestava fazer Louis sofrer.
– Foram várias vezes, nem sei o número exato – falei – A ultima vez foi hoje, e acho que também foi a mais...
– Chega – disse Louis.
Ele apertou os olhos, sacando-me para seu peito. Deixei que ele me abraçasse, soltando um suspiro.
– Eu já entendi, você está certa, chega de falar sobre isso – ele disse, forçando uma risadinha – Meus parabéns, eu acho.
Mordi o lábio para não rir, acho que descobri o que era mais engraçado que Louis bêbado: Louis desesperado. Sei que as circunstâncias eram terríveis, mas eu não deixei de me divertir com aquilo.
– Não precisa disso, Louis – falei, abraçando-o também – Por favor, não me faça rir enquanto estou tentando ter pena de você.
Ele riu baixinho com aquilo, sorri de forma culpada.
– Me desculpe, é minha reação natural tentar fazê-la sorrir – ele disse – Vamos tentar fazer um pouco de silêncio agora? Preciso assimilar o fato de que minha... Irmãzinha não é mais virgem.
Engoli em seco, era estranho ouvir aquilo, mas era a verdade. Assenti de leve, Louis soltou um suspiro de alívio. Deixei minha boca fechada, respeitando o desejo de meu irmão. Ele afagou minhas costas com seus dedos, respirei fundo. Apertei-o com mais força, Louis fez o mesmo comigo. Nosso silêncio durou vários minutos, assim como nosso abraço incansável. Eu sentia como se abraçar Louis fosse tão normal, tão natural, que talvez meu corpo tivesse sido feito apenas para aquele propósito.
– Pelo menos foi com um cara legal, e ele ama você – disse Louis, engolindo em seco antes de continuar – E agora você é uma mulher, não é mesmo? Isso é bom, não é? Fico feliz por você.
Ri pelo nariz, ele me acompanhou. Louis parecia estar falando as coisas sem pensar antes, sua voz estava engraçada.
– Por favor, usem camisinha – ele disse, repentinamente sério – Sei que não é da minha conta, mas eu sempre vou proteger você, de tudo.
Assenti, mordendo o lábio. Louis afastou-se de mim um pouco, seus olhos não conseguiam achar um pouco fixo em meu rosto para se basearem.
– Eu volto em um segundo, tudo bem? – ele disse, dando um meio sorriso.
Assenti, retribuindo seu sorriso. Louis abriu a boca, como se quisesse dizer mais alguma coisa para mim. Esperei, ele levou dois segundos para sacudir a cabeça e botar aquele sorriso no rosto outra vez.
– Tá – ele disse.
Ri pelo nariz, ele fez o mesmo. Nossos corpos se despregaram por completo, Louis virou de costas e seguiu para a porta da sacada. Seus ombros pareciam feitos de chumbo, ele andava quase como um robô. Tentei rir daquilo, embora soubesse que ele estava apenas tentando se manter firme. Não era difícil perceber o quanto ele me amava, e deve ser mesmo chocante para um irmão descobrir algo assim sobre sua irmã, ainda que ele fosse um homem calmo.
Um leve tremor em meu bolso direito me despertou, fazendo um sorriso enorme abrir-se em meu rosto. Tirei o celular do bolso, atendendo a chamada sem nem ver quem estava ligando, era a nossa hora mesmo.
– Oi, amor da minha vida – falei, mordendo o lábio.
– Er... O-oi, Nina – disse a voz do outro lado da linha.
Arregalei os olhos, sentindo como se meu coração estivesse tentando sair pela boca.
– Natsume! – exclamei, desesperada.
– Sim, sou eu – respondeu.
Sua voz soara tímida, quase nervosa. Senti como se tivesse tomado um copo de nitrogênio líquido, engoli em seco.
– Desculpa, eu atendi sem olhar, pensei que era outra pessoa – falei, arquejando – Deus, eu não acredito que eu fiz isso.
Ouvi Natsume dar uma risadinha nervosa do outro lado da linha, tapei a boca com a mão livre.
– Não tem problema, não foi algo ruim – ele disse.
Engoli em seco outra vez, incapaz de falar. Natsume ficou tão calado quanto eu, o único som que eu ouvia era a sua respiração descompassada do outro lado da linha. Eu mesma estava um pouco ofegante, era de se esperar que ele reagisse daquela forma. Aos poucos, sua respiração foi voltando ao normal, e eu pude respirar de novo.
– Eu liguei em um mau momento? Você estava esperando outra ligação? – ele disse, pigarreando um pouco no fim da frase.
Sorri minimamente diante de sua voz, ele devia estar tão envergonhado quanto eu.
– Não, você ligou na hora certa – respondi.
Ele arquejou minimamente, parecia sem saber o que dizer. Eu estava igualmente nervosa, era de se esperar, levando em conta nosso último encontro.
Droga, não fora um encontro.
– Eu acabei de chegar em casa, ainda preciso dar comida aos gatos – ele disse.
Sorri, sentindo-me ligeiramente melhor com a mudança de assunto.
– Você tem gatos? Que lindo – falei.
Ele soltou um arquejo quase aliviado, sorri para o chão.
– Sim, eu tenho dois, e são muito espertos – ele disse.
Dei uma risadinha, tentando imaginar Natsume como dono de gatos. Ele fazia o tipo, mas ainda era difícil imagina-lo dando mimo a algum bicho.
– Eu nunca tive gatos, meu pai tinha alergia – falei – Eu já tentei um peixe, mas ele morreu uma semana depois de eu tê-lo comprado. Eu compraria um gato agora, mas tenho medo de mata-lo também.
Natsume riu, dei um sorrisinho.
– São criaturas incríveis, talvez você devesse tentar algum dia, quando se sentir pronta – ele disse.
– Farei isso – respondi.
Ele suspirou, senti o assunto morrer. Suspirei, ainda era difícil falar com ele.
– Como tem passado? Você dorme bem? – perguntou, tossindo um pouco.
Tentei não rir, foi difícil. Ele estava se esforçando, então era melhor eu me esforçar também.
– Estou ótima, obrigada – respondi – Minhas noites de sono tem sido incríveis, e as suas?
Falei aquilo no tom mais gentil que consegui, tentando deixa-lo confortável.
– Bom, eu tenho tido pouco tempo para dormir, mas me sinto bem – ele disse – Estamos desenvolvendo uma franquia de jogos nova, eu quase não tenho parado em casa. Na verdade, essa é a primeira ligação que eu faço essa semana onde eu não preciso ser extremamente profissional.
Sorri, contente com aquilo. Ele tivera um tempo livre, e era comigo que ele decidira gastá-lo, ainda que por telefone.
– Eu sou sua válvula de escape agora, Sr. Asahina? – brinquei.
Ele não respondeu, mas pude ouvir uma risadinha curta do outro lado da linha.
– Prefiro chamar de conforto, mas você pode chamar do que quiser – ele disse.
Abri um grande sorriso, sentindo meu coração se aquecer.
– Bom, é ótimo ser seu conforto – falei.
Ele não disse nada, mas pude sentir seu sorriso. Sorri também, soltando um suspiro contente.
– Meus gatos estão quase abrindo o armário sozinhos, eu acho melhor colocar logo algo para eles comerem – disse Natsume – Mas antes, você tem a tarde de domingo livre?
Pisquei, alegrando-me desesperadamente. Respirei fundo, tentando controlar meu entusiasmo.
– Tenho sim – respondi – Por quê?
Droga, devo ter soado presunçosa ou estranha demais. Fechei os olhos, amaldiçoando-me internamente com força.
– Você quer sair comigo? Sei de um lugar que deverá te agradar – ele disse.
Suspirei, aliviada. Ele não parecia ter se incomodado com minha arrogância, ou parecia não ter percebido.
– É sério? – perguntei.
Ele suspirou, incerto. Devi ter soado incrédula demais, e não sabia como seria sua reação.
– Você pediu para eu deixa-la entrar, estou tentando o caminho mais fácil – ele disse, respirando fundo – Fique a vontade para recusar, não quero ser um estorvo.
Não pude evitar, acabei rindo baixinho. Natsume escutou minha risada, parecia nem respirar, apenas escutava.
– Você não é um estorvo, está muito longe disse – falei, suspirando – Eu aceito seu convite, e fico realmente feliz por saber que você quer mesmo me deixar entrar.
– Entrar onde? – perguntou uma voz.
Ergui o olhar, deparando-me com a imagem de Louis. Ele dava um meio sorriso, olhando-me curiosamente.
– É o Natsume – cochichei, erguendo um pouco o tom de voz antes de continuar – Natt, você ainda está aí?
Louis piscou ao ouvir o apelido de Natsume, desviei o olhar para não perder o foco.
– Sim, eu ainda estou aqui, só estava ouvindo sua respiração – disse Natsume, suspirando – Estou com dor de cabeça, fixar minha atenção em algo suave sempre me ajuda.
Sorri, mordendo o lábio. Senti Louis me encarando, decidi ignorar.
– Eu tenho que ir, meus gatos estão fazendo uma bagunça – disse Natsume, pigarreando – Esteja pronta às quatro da tarde, tudo bem?
Assenti, depois revirei os olhos, ele não podia me ver.
– Perfeito – respondi.
Pude ouvi-lo dando uma suave risadinha, antes de encerrar a chamada. Mordi o lábio, guardando o celular no bolso outra vez.
– O que ele queria? – perguntou Louis.
Dei de ombros, tentando não sorrir demais.
– Me chamar para sair – respondi.
Louis não esboçou reação alguma, apenas veio até mim calmamente.
– Quando? – disse.
Sua voz soara quase fria, suspirei.
– Domingo – respondi.
Louis assentiu, parando ao meu lado. Seu olhar fixou-se na cidade, mil emoções passaram em seu lindo rosto. Sua boca estava retorcida em um traço de preocupação, suas sobrancelhas pareciam unificadas.
– Tenho que me preocupar com isso? – ele perguntou.
Pisquei, confusa. Ele esperou minha resposta, olhei em volta.
– Claro que não, Natsume jamais iria me deixar correr algum perigo ou algo do tipo – respondi – E, além disso, se você estiver dizendo o que eu acho que você está dizendo, não tem porque se preocupar. Eu tenho namorado, você sabe disso.
Louis suspirou, e, inexplicavelmente, abriu um sorriso divertido.
– É, eu sei – ele disse, rindo de leve – Só estou preocupado com uma coisa: Você ficaria tentada a experimentar um beijo de verdade com um homem ou continuaria presa aos beijos infantis do Akira?
Ri, sacudindo a cabeça. Louis riu junto comigo, sua risada calma e divertida só não era mais linda que sua expressão feliz. Suspirei, lançando meu braço em seu corpo. Ele sorriu, correspondendo ao meu abraço desajeitado. Seu braço direito envolveu minhas costas, sua mão repousou em minha cintura. Deitei minha cabeça em seu ombro, soltando um suspiro.
– O que você tem contra os beijos do meu namorado? – perguntei.
Louis deu uma risadinha, apertando-me contra si um pouco mais.
– Nada, só acho que você merece algo melhor – ele disse.
– Exemplo? – pedi.
Ele sorriu, suspirando. Esperei, Louis apertou um pouco minha cintura.
– Você merece um beijo lento, gentil. Algo que te faça sonhar com noites tranquilas em um lugar deserto, só seu – disse, suave como a luz da lua – Um beijo que te incendeie e que te esfrie ao mesmo tempo. Que mate todas as suas incertezas e que te faça ver a verdade por trás de um gesto. Um beijo que te faça sentir o que você é: Linda.
Prendi a respiração, meu coração batia como um louco. Louis suspirou, girando meu corpo até eu ser presa em seus braços. Pisquei, erguendo meu olhar até encontrar o seu. Ele sorria delicadamente, milhões de coisas escondidas por trás daquele sorriso. Seu olhar me dizia tudo que eu nunca ouvi, que sempre jurei que não existia.
– Você merece o mundo, Nina – ele disse, sua voz suave estava grave – Um único beijo nunca seria o suficiente, você merece muito mais do que um simples carinho bobo como aquele.
Não consegui formular frase alguma, apenas encarava aqueles olhos brilhantes. Louis fixou seu olhar em minha boca, como se ela fosse a coisa mais linda do mundo.
– É amor, Nina – ele disse – Você só precisa de amor.
Meus pulmões pareciam incapazes de fazer o ar entrar, meu coração batia com tanta força que eu podia jurar que Louis o ouvia. Aquilo parecia tão certo, mas parecia tão errado ao mesmo tempo.
– Feche os olhos – ele disse, como um sussurro.
Minha reação natural era obedecê-lo, e eu estava tão envolvida em seu feitiço que nem dei atenção às vozes que berravam em minha mente, mandando-me afasta-lo. Fechei os olhos devagar, respirando em um ritmo entrecortado e afoito. Aquilo era o que meu corpo queria, mas não sabia se era o que eu realmente queria.
Estava tão perdida em pensamentos que quase não senti os lábios de Louis tocando os meus, quase tão leves quanto sua voz. Minha boca se retesou de leve, meu corpo inteiro parecia estar entorpecido. As únicas coisas firmes mesmo ali eram as mãos de Louis nas minhas costas, nem mesmo seu beijo não parecia tão confiante. O toque dos seus lábios era como o toque de uma pluma, eu quase não sentia, mas era tão prazeroso quanto os beijos que eu estava acostumada a dar e receber. Foi só um encostar que durou cerca de dez segundos, mas era como se aquilo estivesse durando mais do que o necessário. Eu sentia doçura em seus lábios, sentia carinho em sem abraço, sentia amor em seu gesto.
Mas não sentia nada que viesse de mim mesma, apenas uma vontade imensa de correr para os braços do garoto que eu amava.
Puxei minha boca de dele, encerrando o contato com um baixo estalido. Não abri os olhos, apenas respirei. Senti minha cabeça girar, como se eu estivesse em um carrossel desgovernado. Meu estômago parecia estar tentando digerir pedra, engoli em seco.
– Se afasta – grunhi.
Não abri os olhos, mas conhecia Louis o suficiente para saber que ele havia piscado. Suas mãos apertaram minha cintura, ele devia estar confuso.
– O que disse? – perguntou.
Ele soava como um garotinho assustado, sua respiração estava ligeiramente mais pesada. Eu devia estar quebrando seu coração, mas estava ocupada demais tentando me manter inteira para me preocupar com isso.
– Eu mandei se afastar – falei.
Minha voz saiu exatamente do jeito que eu queria: firme. Minhas pernas estavam bambas, Louis era o que me impedia de cair, mas eu não queria mais seu abraço.
De repente tudo fez sentido: O modo como ele me tratava; todos aqueles abraços apertados; os beijos demorados em meu rosto; a frieza que ele esbanjava quando me via com nossos outros irmãos; sua mania de ficar me mandando mensagens de texto até mesmo quando apenas algumas paredes nos separavam...
Louis me amava, e era amor carnal.
Obriguei minhas pernas a ficarem firmes, jogando meu corpo para trás. Aquilo encerrou seu abraço, abri os olhos.
– O que está acontecendo? – Louis perguntou, confuso – Nina, você está bem?
Ri, uma risada carregada de escárnio. Desviei o olhar, não queria ver seu rosto agora, era simplesmente insuportável.
Akira estava certo, eu me enganei durante todo esse tempo.
– Pra que você fez isso, Louis? – perguntei, arquejando – O que diabos você queria provar? O que há de errado com você?
Ergui meu olhar, encarando seu rosto.
– Você é a minha força, você não pode se perder, ou eu me perco – falei – De todos os homens dessa casa, você era o único que me fazia sentir em família, e você vem e faz isso?
Ele não disse nada, apenas escutava. Engoli em seco, sentindo meus olhos arderem.
– Você é meu irmão, Louis Asahina – falei – Você não tinha esse direito, você é o único aqui que sabe sobre meu namoro, e foi o único que fez isso comigo.
Parei de falar, engolindo em seco. Senti uma lágrima descer, sendo seguida de outras duas. Nem sabia o motivo do choro, só me parecia certo.
– Você não pensou nos meus sentimentos? Nem um pouco? – perguntei, fungando – Eu tenho um coração bem aqui, Louis. Ele está batendo, você não pensou nisso?
– Nina, você está me culpando? – perguntou Louis, quase tranquilo – Você aceitou, você nem tentou me impedir.
Engoli em seco, era verdade. Eu não lutara contra, então não fazia sentido algum repreender Louis agora.
– Você me perguntou o que eu estava tentando provar, foi mais fácil do que eu pensava – ele disse – Nina, você não tentou me impedir porque seu coração está vacilando.
Arquejei, recostando-me à grade de proteção da sacada. Senti Louis se aproximando de mim, ele parou para me deixar com pelo menos alguns centímetros de espaço.
– Eu estou tão bem, meu namoro está tão bom – ofeguei, tentando conter as lágrimas – Eu amo o Akira, eu já te disse isso várias vezes.
Louis tocou minha cintura, cruzei os braços.
– Você disse isso para mim, mas só conseguiu convencer a si mesma – ele disse – Tudo que você fala tem força, mas quando você diz que o ama, tudo que eu consigo ouvir é uma dúvida.
Funguei, mordendo a língua para reprimir um palavrão. Baixei o olhar, tentando respirar direito.
– Pense bem, ainda há tempo – disse Louis – Você realmente ama o Akira? É ele quem você realmente quer?
– Por que você está fazendo isso, Louis? – perguntei, reprimindo um soluço – Eu não estou confusa como você está dizendo, você está me machucando.
Louis se retesou, ouvi sua respiração parar por um segundo. Quando ele voltou a respirar, parecia estar forçando seus pulmões.
– Tudo que eu quero é te ver feliz, Nina – ele disse, sua voz era tão frágil quanto sua respiração – Eu não quero te ver machucada, só estou tentando evitar sua dor.
Engoli em seco, achando forças em mim que nem eu mesma sabia que tinha. Descruzei meus braços, dando um impulso para frente. Encarei Louis, fingindo que não me importava com o fato de ele ser mais alto do que eu.
– Você sabe que eu amo outro, e você me beija. Você sabe que eu amo outro, e você desafia meu amor. Você sabe que eu amo outro, e você diz que quer evitar minha dor – falei – Você diz que sou sua irmãzinha, e você me beija. Percebe o que está errado aqui? Eu posso te dizer com todas as letras, se você quiser.
Avancei mais um pouco, quase fazendo nossos corpos se tocarem. Louis encarava meu rosto como se eu estivesse ferindo-o com uma faca pontiaguda, seu olhar transbordava dor.
– Nina, eu te amo – ele disse – Eu só queria que você me visse.
Franzi o cenho, quase desistindo. Ele respirava pela boca, a entrada do ar em seus pulmões parecia ser dolorosa.
– Eu vejo você exatamente como você é: Meu irmão – falei – É o que você é, é o que você sempre vai ser. O meu irmão mais velho, o homem que diz que não quer me machucar enquanto duvida de mim, o homem que diz que quer me ver feliz, mas tenta me afastar da pessoa que eu amo.
– Nina, você está vendo distorcido, você não sabe o que diz – disse Louis, arquejando – Me deixa te proteger, eu sei como isso vai acabar, e não quero te perder.
Arquejei, Louis suspirou. Soltei um suspiro pesado, ele estendeu a mão para tocar meu rosto.
– Eu odeio vê-la chorando – ele disse, triste – Pare com isso, por favor.
Tirei meu rosto de seu alcance bem na hora em que seus dedos roçaram minha pele, mordi a língua com força.
– Eu vou parar, Louis – falei, expirando com força – Eu vou parar assim que estiver com quem eu amo.
Afastei-me dele, dando-lhe as costas. Rumei para a porta, tentando recompor minha expressão. Ele me chamou várias vezes, mais desesperado à medida que eu me afastava. Pensei em voltar, era o que meu corpo pedia. Mas eu precisava ficar sozinha, eu precisava de silêncio.
Pela primeira vez, eu resisti a Louis.
IMAGEM ESPECIAL
Louis Asahina (Preciso dizer que ele ficou gostoso?)

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