The New Girl in the House
36 A Verdade
Notas iniciais
– Você tem certeza disso? – Louis perguntou.
Respirei fundo, tentando parecer firme em minha decisão. Louis deu um pequeno sorriso, tocando com o dedo indicador esquerdo a ponta do meu nariz. Um pequeno pedaço de papel caiu no chão assim que ele fez aquilo, malditos confetes.
– Sabe o que isso significa, certo? – ele perguntou – Muita gente envolvida, algumas lágrimas, talvez morte...
Ele deixou a voz morrer, engoli em seco. Louis sorriu levemente ao ver minha reação, ele sabia como me assustar. Pisquei, tentando me concentrar no jogo outra vez. O meu avatar virtual permanecia intacto, os outros jogadores esperavam impacientemente por minha lenta decisão.
– Uma granada me parece a melhor solução – falei, tensa – Nossa munição está acabando, e essa multidão de infectados não vai sair da nossa frente por vontade própria.
– Mas nossos aliados em batalha podem se ferir, você sabe – disse Louis, olhando-me intensamente.
Tentei não deixar meus pelos se eriçarem por conta daquele olhar, mas é claro que eles não me obedeciam. Se Louis os estava solicitando, por que eles atenderiam as ordens de sua dona? Ele era um imã de pelos, não era?
– Os aliados vão ficar bem, eles vão sair da frente assim que jogarmos a granada – falei – Isso é, se eles forem espertos.
Olhei em volta, analisando nossos aliados. O homem de meia idade e óculos quadrados permanecia firme, apertando os botões do controle como se sua vida dependesse disso. A mulher grávida e a velhinha estavam na mesma situação, até mesmo o garotinho estava mais seguro do que eu. Eu sabia que eles veriam no grande monitor minha granada sendo lançada, mas será que eles conseguiriam recuar a tempo?
– Eu não sei se aquela senhora será rápida o bastante, ela me parece bem sonolenta – disse Louis, sussurrando as palavras na minha orelha – Aquele senhor também não me parece muito familiarizado com o controle de um Xbox, e aquela moça parece quase enojada com os infectados do jogo. O único mais lúcido aqui é o garotinho, mas eu tenho medo que ele chore caso perca o personagem.
Bufei, engolindo em seco. Droga, pelos. Fiquem no lugar.
– Ele não vai chorar, não subestime as crianças de hoje em dia – falei – Eles vão conseguir, não é possível que eles não vejam uma granada enorme no meio do campo.
Louis deu uma risadinha, lançando-me um olhar divertido.
– E se eles não puderem ver? Acha mesmo que todos estão acostumados com granadas sendo arremessadas por uma garota com um lindo rosto angelical? – ele disse.
Pelos, eu estou falando sério. FIQUEM QUIETOS!
– É só um jogo – falei, tentando não enrubescer.
Louis sorriu, lançando-me um olhar terno. Ele acariciou levemente minha bochecha, rindo baixinho ao ver minha reação ao seu toque: Eu tremi.
– Muito bem, jogue a granada – ele disse.
Olhei-o, incerta. Louis ampliou aquele sorriso contente, talvez feliz por ver que eu buscava a resposta em seus olhos cor de malva. A essa altura ele já devia saber que ele era meu Google particular, para onde mais eu iria para buscar respostas?
– Tem certeza? – perguntei, mordendo o lábio de leve.
O olhar de Louis fixou-se em meu lábio mordido, soltei os dentes para que minha boca ficasse normal outra vez. Ele continuou olhando para o mesmo lugar, seu sorriso contente deu lugar a um sorriso quase...
Desejoso.
– Está indecisa com alguma das suas decisões recentes? – ele perguntou.
Pelos, vou raspá-los assim que chegar em casa. Ele não dissera exatamente o que eu achara que ele tinha dito, mas eu podia ler nas entrelinhas muito bem. Sabia bem de qual decisão ele estava questionando, e ele sabia bem que deixara aquilo bem na minha cara. Esse era meu Louis, gentil até para indagar se eu estava confiante para chutar a bunda do meu namorado.
Desviei o olhar, tentando não engolir em seco. Sem hesitar, ou sem pensar, apertei o botão certo e lancei a granada. O objeto voou pelo cenário, ouvi o garotinho gritar ao obrigar seu personagem a voltar para a área segura. Lancei um olhar firme ao meu irmão, ele parecia pressentir minha resposta.
– Não costumo mudar de ideia, senhor Asahina – falei.
A granada explodiu, fazendo a velhinha largar o controle, assustada. O homem de meia idade arregalou os olhos, a mulher grávida quase vomitou o filho ao ver os pedaços de cadáveres explodirem na tela. Louis abriu um grande sorriso, seus olhos brilharam.
– Então, fico ainda mais certo de que tudo em você é feito para surpreender – ele disse.
Franzi o cenho, ele desviou o olhar até os outros jogadores.
– O que quis dizer? – perguntei.
Louis abriu um sorriso quase misterioso, ainda sem me olhar diretamente. Fiz um bico, cutucando-o com meu dedo indicador de leve.
– Louis, eu te fiz uma pergunta – falei.
Ele sorriu ainda mais, lançando-me um olhar divertido. Meu coração parou por um momento, tentei não engolir em seco. Louis escolhera prender seus cabelos em um rabo de cavalo desajeitado hoje, deixando seu lindo rosto em evidência. Usava roupas casuais, como sempre. Ele não passara nenhum perfume diferente, nem mudara muito seu estilo. O olhar terno era o mesmo de sempre, até sua forma de sorrir era a mesma. Aquilo não era algo anormal, mas eu tinha a leve sensação de que Louis estava diferente. Ele estava ainda mais lindo do que de costume, mas ainda parecia diferente.
– Eu ouvi, mas prefiro guardar essa resposta para outra ocasião – ele disse, quase rindo.
Franzi o cenho de novo, bufando um pouco.
– O que é engraçado? Fugir da minha pergunta? – perguntei.
Louis riu baixinho, sacudindo a cabeça. Esperei, ele arquejou alegremente.
– Minha criança, eu ainda não consigo entender como você consegue ser tão maravilhosa – ele disse, lançando-me um olhar terno – Talvez você devesse olhar as consequências da sua escolha antes de perguntar o que eu quis dizer com aquela frase.
Era humanamente possível ser lindo daquele jeito? Não, o universo devia estar brincando comigo. Eu morava com dez homens lindos, estudava com três garotos lindos, namorava um garoto lindo...
Mas nada me deixava mais embasbacada do que o sorriso de Louis, e se não fosse ele desviar o olhar, eu teria passado o resto da minha vida observando seu rosto. Ainda embasbacada, desviei o olhar. Os outros jogadores conversavam com os administradores do local, alguns deles lançavam-me olhares de censura. O garotinho estava mesmo chorando, abraçado ao corpo de seu pai. A velhinha tapava os ouvidos, arregalando os olhos para dizer que a tela fez “Caboom”. Ri pelo nariz, deixando a boca entreaberta. Louis riu da minha reação, chamando minha atenção de volta ao seu rosto. Ele sorriu para mim, seus olhos brilhavam.
– Está vendo? Eu disse que ele choraria – ele disse.
Bufei, desviando o olhar até encarar o garotinho outra vez.
– Não se fazem mais crianças como as de antigamente – resmunguei.
Louis riu, senti sua mão afagar gentilmente a minha.
– Não diga isso, você é uma criança moderna – ele disse.
Encarei-o, cética.
– Eu sou uma criança? – perguntei, amarga.
Louis assentiu, sorrindo carinhosamente. Bufei, revirando os olhos.
– Você precisa de óculos, senhor Asahina – falei.
Ele riu, sua mão envolveu a minha por completo. Senti meu braço ser puxado delicadamente, em questão de segundos, eu já tinha sido abraçada por ele. Louis riu baixinho, cutucando minha testa com a ponta do nariz.
– Você é uma criança, Nina – ele disse.
Seus lábios depositaram um beijo em minha testa, mas não se demoraram muito no local. Como que de brincadeira, a boca de Louis escorregou até encostar-se a minha orelha esquerda. Meus pelos se eriçaram, ele deu uma risadinha suave.
– Você é uma criança – ele disse – A minha criança.
Louis depositou um beijo em minha orelha, apertando-me contra seu corpo com carinho. Nem pude tentar manter minha pose séria, ele tinha o poder de destruir qualquer escudo meu. Derreti-me em seus braços, soltando um muxoxo. Louis riu daquilo, afastando o rosto para que nosso olhar se encontrasse. Pisquei três vezes, fazendo um bico.
– Se eu sou sua criança, eu vou ganhar sorvete quando chegarmos em casa? – perguntei.
Ele riu, depositando um beijinho rápido na ponta do meu nariz.
– Claro que vai, minha doce criança – ele disse.
Ri, Louis afastou seu rosto do meu outra vez. Nosso olhar se encontrou, ele parecia estar diante de uma pilha de ouro, tamanho era o brilho de seus lindos olhos cor de malva.
– Senhorita, teria um minuto? – perguntou uma voz.
Nosso transe quase não foi cortado, já que Louis não me soltara para encarar quem me chamara. Ele segurou em minha cintura com a mão direita, colando nossos corpos ao postar-me ao seu lado. Sorri, tentando não corar com aquele gesto tão... “Namorástico”. Um senhor com uniforme de uma companhia de televisão que eu não conhecia aproximava-se de nós, trazia nos braços uma prancheta de aparência pesada. Dei um sorrisinho afetado, ele parou diante de mim.
– Poderia me contar o que achou da experiência? – ele perguntou.
Assenti, sorrindo mais um pouco. O senhor sorriu de volta, esperando. Pensei um pouco, sentindo o olhar de Louis pesar em meu rosto. Meu sorriso se alargou com aquilo, ele sorriu também.
– Bom, eu achei divertido – falei – Nada como parar no meio de uma praça para jogar vídeo game com um monte de estranhos no meio do caminho de casa.
O senhor riu, marcando um “X” em sua prancheta. Louis sorriu para mim, seus dedos afagaram minha cintura. Eu estava vestido o uniforme da escola, mas o tecido da blusa parecia inexistente diante do toque de Louis. Sorri com o pensamento, o senhor da prancheta ergueu o olhar até meu rosto.
– Como você descreveria seu modo de jogar? – ele perguntou.
Fiz um biquinho, pensando um pouco. Pude ver Louis morder o lábio de leve ao encarar meu bico, senti meu rosto esquentar um pouco. Tentando não rir, fixei minha atenção na prancheta do senhor.
– Eu procurei jogar de forma mais individual, já que os outros jogadores não pareciam ter muita experiência com esse tipo de jogo – respondi – Matei a maior quantidade de infectados que consegui, sempre usando armas manuais, só para tentar economizar munição. Deixei minhas balas para enfrentar aquela horda, mas infelizmente tive que recorrer àquela granada.
– E acabou matando metade do seu time – cantarolou Louis, fingindo prestar atenção no lindo céu de Tókio.
O senhor da prancheta riu, sacudindo um pouco a cabeça. Franzi o cenho, encarando Louis com aquele mesmo bico nos lábios. Seu olhar faiscou na minha direção, seu sorriso enigmático parecia esconder um livro cheio de segredos.
– Você me disse para jogar a granada – protestei.
Louis ampliou aquele sorriso, tocando a ponta do meu nariz com a ponta de seu dedo indicador esquerdo.
– Eu apenas questionei sua própria decisão, você jogou a granada por escolha própria – ele disse.
Ergui uma sobrancelha, ele sorria como se visse um bebê andar pela primeira vez.
– Você me induziu, isso não é justo – falei.
Louis riu baixinho, sua mão esquerda acomodou-se em meu ombro direito. Estávamos quase abraçados agora, ele me olhava como se estivéssemos sozinhos em um lugar privado. Quase deixei que o conforto que eu sentia abafasse a sensação de estar sendo observada, mas foi por pouco. Desviei o olhar, encarando novamente o senhor da prancheta.
– Não me arrependo de ter jogado a granada. Só acho que devíamos ter agido como um time, combinando os ataques – falei.
O senhor sorriu, assentindo.
– Boa resposta – ele disse, riscando algo em sua prancheta – Mais uma coisa: Como a senhorita procuraria agir se um apocalipse zumbi realmente acontecesse?
Mordi a língua, fazendo uma careta. Louis virou um pouco a cabeça, encarando meu rosto. Ele parecia curioso, e até mesmo eu estava. Eu já debatera aquilo com Akira várias vezes, nossos planos sempre envolviam: transformar o orfanato em uma fortaleza; usar os quadros e mesas como barricadas; estocar a comida e dar a chave do armário à apenas uma pessoa; sair em grupos pequenos em busca de armamento e suprimentos; transformar o telhado em uma zona de observação externa; usar Bruce como isca...
Sacudi a cabeça, tentando não rir ou ficar triste. Eu teria que rever aqueles planos, já que não morava mais no orfanato. Talvez minhas prioridades fossem as mesmas: Manter-me segura e protegida em um abrigo forte e resistente. Mas agora eu também tinha outras pessoas para proteger, será que eu saberia agir agora que não tinha mais Akira comigo? E Akira, o que faria se tudo aquilo virasse realidade? Ele iria atrás de mim? Seguiria nosso antigo plano?
Mordi o lábio, indecisa. Louis e o senhor ainda me encaravam, ambos esperando por minha resposta. Tentei olhar em volta, esperando que a resposta caísse do céu. Como esperado, não tinha uma bandeira gigante tremulando no céu com os dizeres “Aqui, sua idiota. A resposta é...”. Quase ri com minha idiotice, revirando os olhos. Sorri, sentindo Louis sorrir ao meu lado.
– Eu procuraria um abrigo temporário se estivesse longe de casa, mas minha prioridade seria transformar minha própria casa em uma fortaleza – comecei, sacudindo um pouco os ombros – Eu faria um estoque de suprimentos médicos e alimentares assim que pudesse, e também iria atrás de armamento e munição. Mas, antes de mais nada, eu me certificaria de que minha família estava, no mínimo, viva.
– Certo – disse o senhor, anotando alguma coisa em sua prancheta – E, se pudesse escolher apenas uma pessoa para ter ao seu lado, quem você escolheria?
Senti um aperto em minha cintura, nem precisei olhar para saber o que era, ou melhor, quem era o causador daquilo. Mordi meu lábio, sentindo os olhares de ambos os homens em meu rosto. Tentei refletir um pouco, mas apenas uma pessoa vinha à minha mente. Mas aquilo não era justo, a decisão era óbvia demais. Eu não podia deixar minhas emoções mandarem no meu racional, não era esse o objetivo do jogo, era?
Eu não conseguia pensar em quem eu mais queria ter comigo. Na verdade, eu até conseguia, mas não era justo. Eu deveria tentar ver o que me ajudaria mais, porem tudo que eu conseguia era pensar nas coisas que eu mais sentiria falta.
Eu sentiria falta da proteção que Masaomi me trazia. Sentiria falta de ter um irmão mais velho, o mais velho de todos. Sentiria falta de seu jeito meigo. Sentiria falta de sua maneira gentil de falar e tratar todos, até mesmo os adultos, como se fossem apenas crianças. Sentiria falta de seu zelo, de seu cuidado, de seu carinho com todos. Ele era um homem com quem todos podiam contar, e todos tinham certeza de que seriam amados e protegidos por ele. Talvez seu temperamento não fosse o ideal para um cenário apocalíptico, mas eu não conseguia me imaginar dormindo ao lado de outra pessoa.
Eu sentiria falta da comida do Ukyo. De toda a segurança que ele me passava. Ele era um homem sério e focado, aquilo seria um verdadeiro tesouro em meio a um apocalipse zumbi. Tudo que Ukyo tinha a oferecer era perfeito, mas eu só conseguia pensar naqueles lindos olhos. Eu me sentia mais calma só de olhar para aqueles olhos, e uma coisa que eu precisaria em meio a um caos seria algo para me acalmar. Eu podia imaginar Ukyo como um sobrevivente, mas, por mais estranho que pareça, eu não podia me imaginar sobrevivendo sem Ukyo.
Eu sentiria falta da safadeza de Kaname. Do modo como ele me fazia sorrir com alguma cantada. Kaname era um homem sensual, provocante, quente. Era do tipo que corromperia até mesmo uma velhinha com apenas um sorriso. Ele tinha aquele olhar, o tipo que faz você fazer qualquer coisa que ele queira. No mundo atual, aquele poder de persuasão podia ser perigoso. Mas em uma situação como a que me foi proposta, Kaname se sairia muito bem. Se topássemos com um grupo de sobreviventes, ele podia usar seus atributos para nos manter seguros. Ainda que fosse um pensamento maluco, Kaname seria o diplomata mais sexy que o mundo já teve um dia.
Eu sentiria falta da personalidade de Hikaru. Da maluquice que aquele homem escondia por trás de duas faces. Aí está alguém completamente impossível de desvendar, era um verdadeiro desafio saber o que ele estava pensando. Mas, além dessa habilidade toda, ele era alguém confiável. Mesmo tendo treze irmãos perfeitos para qualquer coisa, o único para quem eu diria até mesmo meu pior segredo seria Hikaru. Ele podia me zoar pelo resto da vida, mas ainda seria alguém completamente confiável. Eu podia imaginá-lo escondido em algum lugar, observando. Ele sabia ser furtivo, e se tem uma habilidade que seria útil, seria essa.
Eu sentiria falta dos gêmeos, e por mais que tentasse, eu nunca conseguiria pensar neles de forma separada. Era quase impossível lembrar de Tsubaki sem lembrar de Azusa, e era quase impossível olhar para Natsume e não procurar características que o deixavam muito parecido -ou muito diferente — dos outros dois. Viver sem as gracinhas de Tsubaki era algo que eu deixaria completamente fora de cogitação, assim como viver sem a calma de Azusa. Pelo que eu sabia dos gêmeos, eles faziam um time perfeito para qualquer coisa. Enquanto eles estivessem juntos, seria impossível machucá-los de qualquer forma. Tsubaki era a tormenta e Azusa a calmaria, um não vivia sem o outro, e um completava o outro. Nunca acreditei na historia de que gêmeos partilham uma mesma alma, mas era impossível olhar os gêmeos e não cogitar essa hipótese. Ainda assim, quem me deixa com o estômago apertado era o terceiro irmão. Imaginar Natsume suado, vestido com roupas desgastadas, segurando uma arma qualquer e com o rosto sujo de fuligem era o bastante para explodir qualquer útero. Era uma visão incrível, porém, por mais atrativa que a ideia me parecesse, não era só por isso que Natsume seria um parceiro ideal. Ele tinha o poder de me deixar segura e de me assustar ao mesmo tempo, e por mais tempo que eu passasse ao seu lado, eu nunca conseguiria desvendá-lo por completo. Por mais que a situação apocalíptica fosse terrível, eu ficava até ansiosa de vivê-la ao lado de Natsume. Talvez essa seja a maior idiotice que eu já pensei, mas também era a melhor fantasia que eu podia criar.
Viver sem Louis era impossível. Eu sentiria falta de tudo naquele homem. Sentiria falta da sua mania de proteção. Sentiria falta de sua serenidade. Sentiria falta de seu cheiro, de seu sorriso, de seus lindos olhos. Louis trazia uma sensação de serenidade que, se ausente, destruiria minha sanidade. Eu não imaginava uma vida sem aquele homem, e nem achava palavras para descrever o quão terrível seria ter que lidar com sua perda. Era um pensamento muito egoísta, mas ele era o único que eu nunca imaginei longe de mim de alguma maneira.
Viver sem Subaru seria estranho. Eu sempre procuraria por ele quando fosse soltar alguma piadinha de duplo sentido. Sempre esperaria ver seu rosto corado quando abrisse um sorriso para ele. Sempre esperaria ouvir seu gaguejar bruto toda vez que eu o tratasse com carinho. Somando tudo, eu sentiria falta de cada detalhe de Subaru que o deixava diferente dos demais, e talvez isso fosse tão ruim quanto perder Louis.
Sentiria muita, muita falta do sorriso de Iori. Aquele sorriso que aparecia em seu rosto quando ele me olhava de perto. Sentiria falta de sua serenidade, de sua forma calma de falar sempre que eu lhe perguntava alguma coisa. Sentiria falta de seu modo de me explicar as coisas, sempre me contando a história por trás de cada planta. Eu sentiria falta de seu silêncio, da forma como ele pronunciava cada palavra, do jeito como ele andava. Tudo naquele homem deixaria muita saudade, e assim como cada irmão, eu não estava pronta para perder meu príncipe.
Eu sentiria muita falta da meiguice de Ema. Da maneira como ela falava as coisas, com sua voz aguda e sua timidez. Sentiria falta da capacidade que ela tinha de fazer todo mundo ao redor dela sorrir, se sentir mais leve, ou simplesmente se sentir amado. Sentiria falta daquele senso de proteção, daquela mania maravilhosa que ela tinha que dizer sempre “por favor” no fim da maioria de suas frases. Mas vendo tudo isso, a coisa que eu mais sentiria falta nela era sua presença feminina.
Eu sentiria falta do jeito irritado de Yusuke. Das piadinhas que ele soltava para me provocar, tentando de alguma forma me envergonhar. Nós não éramos muito próximos, mas eu sentia que isso não importava muito. Nós não passávamos muito tempo juntos, nem mesmo costumávamos conversar com frequência. Mesmo assim, toda vez que nos falávamos, agíamos como se nos conhecêssemos há anos. Eu sentiria falta disso, era fácil ficar perto de Yusuke.
Eu não sentiria falta da bipolaridade de Fuuto. Não sentiria falta de todas as nossas brigas, discussões e provocações. Orgulhar-me-ia por nem pensar nele, por nem sentir sua falta em cada pequena coisa que eu fosse fazer. Eu jamais lembraria de seu sorriso presunçoso, daquela pose superior que ele fazia por qualquer motivo. Nunca lembraria daquele humor idiota, da vez que ele me trancou na biblioteca, nem dos pequenos e raros sorrisos sinceros que eu já o vira dar. Não pensaria naquela curvinha fofa que ele tinha na boca, detalhe que o deixava com cara de gatinho sempre que ele se concentrava em alguma coisa. Não pensaria no tom amendoado de seus olhos, naquele olhar irritantemente doce que ele exibia sempre que sorria para alguma câmera ou fingia ser um ídolo perfeito. Não pensaria na forma como nós nos encaixávamos e nos saiamos bem em qualquer situação, na escola e no vídeo game, contanto que estivéssemos juntos. Não lembraria nem pouco de sua voz, seu cheiro, aquele perfume de canela que ele usava quando estava em casa...
Droga, eu morreria de saudade de Fuuto.
Não consigo achar nada em Wataru que fosse me fazer mais falta, já que tudo nele me deixaria louca de saudade. Sentiria falta de cada abraço, cada sorriso, cada carinho que trocávamos. Sentiria falta de colocá-lo na cama todas as noites, recebendo um beijinho sonolento como agradecimento. Sentiria falta de seu temperamento explosivo e amável ao mesmo tempo. De seu ciúme excessivo. Morreria de saudade de sua voz doce, de sua carinha de sono, de seu abraço apertado sempre que ele me via depois de um prazo enorme de separação (Dez minutos já era tempo mais do que suficiente). Talvez Wataru não fosse tão habilidoso quando os outros, mas a ideia de deixá-lo, ou ficar sem saber notícias dele, me deixava maluca.
Respirei fundo, tentando não entrar em desespero. Louis e o velho da prancheta ainda me olhavam, esperando por minha resposta. Eu devia estar demorando demais para formular uma resposta, mas a verdade era que eu não conseguia pensar em ninguém. Depois disso, até mesmo minha resposta óbvia já não me parecia tão certa.
Forcei um sorriso, respirando fundo mais uma vez.
– Acho que não posso responder a essa pergunta – falei.
Louis piscou, franzindo um pouco o cenho. O senhor da prancheta virou um pouco a cabeça, seus olhos obtiveram um brilho curioso.
– Por que a senhorita diz isso? – ele perguntou.
Meu irmão soltou uma respiração curta ao meu lado, como se enfatizasse a pergunta do homem. Sorri, dando de ombros um pouco.
– Não sei, só acho – respondi – Não me parece certo e nem justo escolher apenas uma pessoa. Ainda que eu não tivesse garantia nenhuma de que eu sobreviveria, só o fato de ter escolhido apenas uma pessoa já me parece uma coisa injusta. Eu tenho catorze irmãos, seria impossível escolher apenas um.
Louis fez uma ligeira careta, lançando-me um olhar estranho. Encarei-o, tentando entender aquele ato. Ele não me parecia indagador ou curioso, e fazendo uma análise rápida, era quase como se ele estivesse surpreso com minha resposta.
– Fascinante – disse o velho, anotando loucamente algo em sua prancheta – A maioria das pessoas respondeu que escolheria um dos pais ou o parceiro, mas nunca ninguém cogitou escolher um irmão. Por isso eu amo as pesquisas sociais, sempre aparece alguém fora do comum!
Ele riu entusiasmadamente, sacudindo a cabeça. Pisquei, franzindo um pouco o cenho.
– Isso é ruim? – perguntei, confusa.
– Pelo contrário, jovenzinha – ele disse, lançando-me um olhar divertido – Foi a primeira resposta sincera que eu já recebi.
O senhor sorriu, acenando em despedida. Observei-o ir embora, ele parecia muito contente com alguma coisa. Ri pelo nariz, sacudindo a cabeça em incredulidade.
– Acredita nisso? – falei, ainda rindo – Eu não disse nada de extraordinário, será que ele...
Minha voz morreu assim que uma gargalhada deliciosa encheu o ar, fazendo-me dar um leve pulinho de susto. Louis apertou minha cintura enquanto ria, meu olhar vagou direto até seu rosto. Seus olhos estavam ligeiramente fechados, espremidos por suas bochechas. Seus dentes reluziam naquele sorriso, fazendo-o parecer mais um anjo do que um ser humano.
Meu Deus, eu amo esse homem.
– Oh, minha Nina – ele disse, ainda rindo.
Louis sacou-me em seus braços, me abraçando com força antes que eu pudesse recuperar o fôlego que tinha perdido ao ver sua expressão. Rindo mais baixo agora, ele apertou-me contra seu corpo, talvez tentando juntar nossos corpos em um só. Ofeguei, engolindo em seco. Ele suspirou, depositando um beijo quase violento em minha testa. Tremi de leve, arregalando os olhos. Ergui o olhar, incerta. Sem dúvida era meu lindo Louis, mas por que ele me parecia tão diferente?
– Você não percebe o quanto você é incrível, não é? – ele disse, radiante – Nina, você precisa aprender a controlar seu charme, de verdade.
Minha boca se abriu, mas tudo que eu consegui foi gaguejar alguma coisa sem a mínima quantidade de sentido. Louis riu dessa minha reação, dando um beijinho carinhoso e terno no meio das minhas sobrancelhas.
– E você ainda não entende por que eu te chamo de criança – ele disse – Nina, não importa o que você pense de si mesma, você é a garota mais pura que eu já conheci. Isso é tão lindo que às vezes eu nem consigo me conter, e eu não sou o único a me envolver no seu encanto.
Ele me deu outro beijo, na ponta do nariz dessa vez. Por mais curiosa que eu estivesse, a única coisa que eu consegui fazer foi soltar um muxoxo. Louis sorriu, afastando seu rosto do meu. Sorri de volta, contagiada por sua perfeição.
– Aliás, ignorando tudo aquilo que você disse – começou, olhando nos meus olhos – Quem você escolheria? Conhecendo-te como eu te conheço, você deve ter pensado em pelo menos uma pessoa antes de pensar naquela resposta.
Soltei um arquejo, rindo sem pensar. Louis piscou, curioso. Sorri, mordendo o lábio.
– Eu não vou dizer, pra ninguém – falei.
Louis abriu um sorriso levemente incrédulo, franzindo o cenho por um segundo. Ri, aproveitando sua confusão para afastar-me dele. Girei nos calcanhares, dando as costas ao meu cabeleireiro favorito. Pude senti-lo me seguindo, assim como pude ouvir sua risada deliciosa ecoar atrás de mim. Sorri, empinando um pouco o nariz.
Eu tinha uma escolha óbvia, mas não contaria a ninguém.
Aquela resposta morreria comigo.
**~**~**~**~**~**
Prendi o grampo no lugar certo, soltando um grande suspiro de alívio. Eu tinha levado quase uma hora para fazer aquele penteado, estava na hora de ver o resultado. Saltitei alegremente até meu espelho, armando um grande sorriso de presunção.
– Droga – resmunguei, desfazendo aquele sorriso.
Encarei mais um pouco a criatura no espelho, fazendo uma careta de desgosto. Uma mecha de cabelo caiu do lado esquerdo do penteado, deixando tudo ainda pior. Sorri debochadamente para meu reflexo, encarando o tufo de cabelos que mais parecia um guaxinim morto acima da minha testa.
– Você está linda – falei, cética – Está treinando o penteado do halloween ou só está dando uma carona pro Juli na sua cabeça?
– Nina, você ainda está lúcida? – disse a voz de Louis, abafada pela porta que nos separava.
Bufei, ainda encarando o espelho.
– Cale a boca, Louis Asahina – falei, expirando com força – Eu posso fazer isso, penteei meus cabelos durante anos!
Pude ouvi-lo rindo do lado de fora do quarto, e por mais frustrada que eu estivesse, não consegui conter um sorriso. Coloquei o pente na cômoda, soltando um suspiro pesado. Deixei que meus pés me guiassem até onde eles queriam ir, minha mão abriu a porta antes que eu percebesse o que estava fazendo. Louis abriu um grande sorriso quando me viu, arrasando o que restara do meu orgulho. Abri um sorriso desesperado, baixando a cabeça com força. Meu “coque” se desarmou na mesma hora, meus cabelos caíram bem na minha face. Cuspi alguns fios, tentando respirar em meio àquele caos.
– Eu te amo – falei, minha voz saiu terrivelmente fina – Agora entre e me ajude, por Deus!
– Oh, minha criança – disse Louis, rindo.
Deixei que ele gargalhasse, recolhendo os cacos da minha moral quebrada e guardando-os em um cantinho bem escuro da minha mente. Recuei alguns passos para que Louis pudesse entrar, pude ouvir a porta sendo encostada suavemente em seu lugar certo. Senti meus ombros serem envolvidos pelas mãos suaves do meu irmão mais velho, ele ria tanto que seu corpo vibrava.
– Eu pedi para ajudá-la, por que você não me ouviu? – ele disse, mordendo o lábio para tentar parar de rir.
Bufei, sacudindo violentamente a cabeça. Isso afastou a moita rebelde do meu rosto, mas acabou de vez com a calma de Louis. Fechando os olhos, ele começou a gargalhar outra vez. Suspirei, desvencilhando-me de suas mãos. Joguei-me pesadamente em minha cama, deixando-me cair nos travesseiros. Meus cabelos se espalharam, fazendo-me ficar mais descabelada do que um poodle que acabou de tomar banho.
– É isso que acontece quando eu tento me virar sem você. Está vendo só porque eu digo que você me mima demais? – resmunguei, fechando os olhos.
Ouvi Louis rir mais um pouco, soltando um suspiro terno. Ouvi o som de alguns passos, sentindo um peso na cama logo depois. Abri meus olhos, fazendo um bico ao ver que Louis me encarava. Ele tinha um sorriso lindo nos lábios, olhando-me como se eu fosse um recém-nascido muito fofo.
– Eu ainda não acho que eu mime demais você, mas tenho que concordar com você em um ponto – ele disse, soltando um suspiro – Você realmente não é muito boa com penteados, por mais simples que ele seja.
Bufei, virando-me para o lado direito. Aquele movimento fez com que eu não visse mais Louis, embora eu soubesse que ele ainda podia me ver.
– Eu não consigo fazer nem mesmo um coque frouxo, meu grau de inutilidade acaba de se igualar ao de Ashley Graham do Resident Evil – grunhi.
Louis riu baixinho, dei um pequeno sorriso. Senti seu peso aproximar-se, não precisei esperar muito para que meu corpo fosse carinhosamente puxado. Deixei que Louis me aninhasse em seu corpo, soltando um muxoxo assim que minha cabeça apoiou-se em seu ombro direito. Sorri preguiçosamente, esticando meu braço para envolver seu corpo. Minha perna enfiou-se entre as dele, senti seu braço envolver minha cintura. Sua mão direita começou a acariciar meus cabelos, sua respiração começou a aquecer meu rosto.
– Fazer um coque frouxo tem lá sua complexidade, você não se torna uma inútil por ser ruim nisso – ele disse.
A voz de Louis soava calma, assim como sua respiração. Meus dedos começaram a explorar sua camisa, sentindo o tecido macio em minha pele. Suspirei, tentando não ceder ao sono que as carícias que Louis fazia em minha cabeça me proporcionavam.
– Eu até conseguia fazer alguma coisa antes de ter um cabeleireiro na família, a culpa da minha falta de habilidade repentina é toda sua – acusei, cutucando-o com meu dedo.
Louis riu de leve, sua mão esquerda começou a afagar o meio da minha costa.
– Me desculpe por ser bom no que faço, senhorita Kazama – ele disse.
Franzi o cenho, tentando parecer crítica, embora meu sorriso entregasse meu jogo.
– Desde quando você é tão presunçoso, senhor Asahina? – perguntei.
Ele me abraçou com um pouco mais de firmeza, esperei.
– Desde quando recebi a confirmação de posso ter uma chance com a garota que amo – soprou.
Fiz um biquinho, sentindo sua respiração parar por um segundo. Ele apertou minhas costas com um certo nível de força, pude senti-lo engolindo em seco. Senti um leve arrepio me tomar, desfiz o bico antes que algo mais grave acontecesse.
– E quando foi isso? Você está estranho ultimamente, é por causa dessa tal garota? – perguntei.
Minha voz estava um pouco embargada, sacudi-me um pouco para espantar o sono. Louis riu baixinho, encostando a ponta de seu nariz em minha testa.
– Tem relação com ela, mas não foi exatamente por causa disso – ele disse.
Sorri, me aninhado nele mais um pouco. Louis intensificou suavemente seus afagos em minha costa, seus dedos dançavam por entre meus cabelos. Meus dedos traçavam algumas formas abstratas em sua camisa, brincando com o tecido. Eu podia sentir o calor de sua pele através da vestimenta, e por mais que eu não me orgulhasse, aquele contato superficial fazia meu corpo esquentar.
– Essa garota deve ser muito metida, afinal ela tem o amor do melhor cabeleireiro do mundo – brinquei, soltando um bocejo tímido – Aposto que ela também não sabe fazer um coque frouxo.
Louis riu, senti seus lábios depositarem um suave beijo em minha testa.
– Ela não é metida, pelo contrário – ele disse, suave – É a garota mais especial que eu já conheci, eu tenho muita sorte por tê-la em minha vida.
– Ela é bonita? – perguntei.
Eu arrastara um pouco a última palavra, e isso só podia significar uma coisa. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam pesadas demais. Franzi minha testa levemente, tentando me manter ativa de algum modo.
– “Bonita” seria uma palavra fraca para descrevê-la – disse Louis, soltando um longo suspiro – Talvez ela seja a garota mais linda do mundo, e eu tenho plena certeza de que ela é a garota mais linda que eu já vi em toda minha vida.
Senti meus lábios se repuxarem de leve, o corpo de Louis tremeu de leve em uma suave risadinha silenciosa.
– Ela não deve ser tão bonita assim, não se confia na palavra de um homem apaixonado – zombei.
Os dedos de Louis seguraram minha costa com firmeza, sua respiração bateu levemente em meus lábios. Senti um arrepio leve me tomar, sacudi um pouco as sobrancelhas para não cair no sono. Os dedos de Louis relaxaram, pude ouvir seu leve suspiro.
– Você diz isso porque nunca viu como ela fica linda quando está tentando se manter acordada – ele disse.
Franzi mais um pouco minha testa, sacudindo os ombros para afastar a sensação de estar sendo embalada que eu sempre sentia antes de hibernar durante doze horas seguidas. Louis soltou outro suspiro, seus dedos voltaram a fazer carícias em minhas costas.
– Estou ficando com ciúme – comentei.
Ele soltou uma risadinha calma, fazendo meus lábios se repuxarem de leve. Senti seus lábios roçarem em minha testa, a ponta se seu nariz enterrou-se na raiz dos meus cabelos. Meus dedos agarraram de vez sua camisa, cansados demais para continuar desenhando qualquer coisa. Louis suspirou, abraçando-me mais um pouco, puxando-me para ele. Abracei-o de volta, colando nossos corpos. Já deitáramos assim antes, porém, por mais familiar que aquilo fosse para mim, eu não conseguia fazer meu coração diminuir a frequência de seus batimentos.
– Acho que é exatamente por isso que eu amo tanto você, minha criança – sua voz disse, distante.
Minha respiração ficou mais profunda assim que seus lábios finalmente sacramentaram o beijo que ele ainda não tinha dado em minha testa. Meus dedos relaxaram seu aperto em sua camisa, mas minha mão permaneceu no mesmo lugar. Soltei um muxoxo do fundo da garganta, fazendo uma careta. As carícias de Louis ficaram mais lentas, intensas. Eu sentia meu corpo ficar cada vez mais pesado, como se todas as minhas células tivessem deitado para dormir. Meus ouvidos quase não captavam mais a suave melodia que Louis cantarolava para mim, meus sentidos ficaram tão distorcidos que eu pensei estar voando.
Tão rápido quanto apareceu, a sensação de um voo longo e livre de peso desapareceu. Foi como se eu estivesse flutuando em uma piscina de leite, e alguém tivesse acabado de puxar o tampão do ralo. Abri os olhos, tendo um leve sobressalto. Olhei em volta, confusa. Franzi o cenho de leve, sentindo um frio estranho me atingir.
– Nina? – disse uma voz calma.
Ergui o olhar, deparando-me com um ar de olhos cor de malva. Ele sorriu de leve, beijando rapidamente a ruguinha de confusão que se formara entre minhas sobrancelhas.
– O que aconteceu? – perguntei.
Louis me olhou durante um tempo, parecia tão suave quanto a sensação de voo que eu sentira momentos atrás.
– Você dormiu – ele disse.
Pisquei, franzindo o cenho de novo. Ele sorriu, beijando novamente a ruguinha.
– Por quanto tempo? – perguntei.
– Uns quarenta minutos – ele respondeu, desenhando algo em minha testa usando beijos suaves – Acho que exagerei nas canções de ninar, desculpe.
Bufei de leve, piscando os olhos para tentar espantar o sono. Os lábios de Louis continuaram a traçar formas desconhecidas em minha testa, a sensação era tão boa...
Sacudi a cabeça, tentando espantar o sono que já ameaçava voltar. Ele riu baixinho, descolando seus lábios de minha testa. Nosso olhar se encontrou, Louis sorriu de leve.
– Acho que eu preciso de um banho frio – comentei.
Ele riu mais uma vez, afastando-se de mim um pouco. Fiz uma careta, e lá se vai o leite da minha piscina. Maldito seja aquele que destampou o ralo.
– Não acho que seja necessário – ele disse – Mas, se quiser acordar, eu conheço um bom método.
Encarei o rosto dele, levemente intrigada. Um sorriso contente nasceu em seu rosto, os olhos dele faiscaram na minha direção. Sem deliberar nem um pouco, Louis afastou nossos corpos. Soltei um muxoxo, fazendo com que ele risse baixinho. O rapaz ergueu o pouco seu tórax da cama, inclinando-se na minha direção. Pisquei, sentindo um leve arrepio me tomar. Como se tivesse sentido minha reação, Louis abriu um grande sorriso. Com um movimento calmo e rápido ao mesmo tempo, ele cobriu meu corpo com o seu. Suas mãos ladearam minha cintura, posicionando-me melhor debaixo dele. Seu corpo posicionou-se entre minhas pernas, fazendo-me prender a respiração. Devagar, Louis foi se inclinando para frente, até nossos rostos estarem quase colados. O ar praticamente tremulava a minha volta, meu peito subia a descia com mais força do que o normal. Meus lábios se entreabriram, pisquei três vezes. Ele sorriu, pressionando minha cintura com mais um pouco de força.
– Eu respiraria bem fundo, se fosse você – ele disse.
Franzi o cenho, lançando-lhe um olhar indagador. Louis apenas sorriu mais um pouco, encarando meu rosto como se sua vida dependesse disso.
– Por que eu faria isso? – perguntei, cautelosa.
Ele deu de ombros, aproximando mais nossos corpos. Meus pelos se eriçaram, senti meu estômago de revirar. Eu podia senti-lo, podia sentir ele.
– Você vai precisar de ar – ele disse, simplesmente.
Pisquei, abrindo a boca para protestar. Porém, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Louis arrumou um jeito de me fazer esquecer o mundo e todos que viviam nele.
Ele fez cócegas em minha barriga.
Explodi em uma gargalhada, sendo atingida por um tremor violento. Minha barriga era atacada pelos dedos longos e ágeis de Louis, fazendo cada pequeno pedaço do meu corpo sofrer espasmos violentos. Espalmei as mãos em seu peito, tentando desesperadamente tirar seu corpo de cima do meu. Mas nada do que eu fizesse era forte o bastante, já que minhas risadas e espasmos sugavam toda a minha força. Louis ria junto comigo, pressionando-me com seu corpo, sufocando-me com suas cócegas. Comecei a gritar, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
– P-para, Louis! – berrei, rindo tanto que gaguejava – SOCORRO!
Ele gargalhou por conta da minha súplica, intensificando seus movimentos ao invés de pará-los como eu pedira. Senti minhas entranhas se revirarem, expulsando o ar em meus pulmões nas risadas estranguladas e agudas. Berrei de novo, chorando. Meu corpo se debatia com tanta força que eu podia sentir meus músculos queimando, fazendo com que cada golfada de ar que eu expelisse fosse terrivelmente dolorida. Gemi em meio às risadas, contraindo o abdômen. Os dedos de Louis pareciam sugar todo fio de força que me restava, suas risadas só não eram mais altas do que meus gritos histéricos. Berrei mais, empurrando-o com toda força que ainda me restava.
– Louis, chega! – supliquei, chorando de rir – Eu não consigo respirar, CHEGA!
Minhas súplicas desesperadamente sôfregas finalmente pareciam ter surtido o efeito desejado, já que os dedos de Louis pararam de cutucar. Engoli a maior quantidade ar que consegui, sofrendo espasmos pelas últimas risadas violentas. Ele também ria, erguendo as mãos para tocar meu rosto. Seus dedos secaram as lágrimas que eu soltara durante o ataque brutal que ele me proporcionara, seu toque era tão suave que meu corpo retraiu-se em outro espasmo involuntário. Soltei um expiro pesado, dando as últimas risadas. Minha barriga doía, fazendo com que meus músculos parecessem ser feitos de cimento. Engoli em seco, rindo mais um pouco. Louis deu uma risada, soltando um longo suspiro logo em seguida.
– Por essa eu não esperava – confessei, rindo.
Ele riu também, seus dedos ainda afagavam meu rosto, ainda que minhas lágrimas já tivessem sido enxutas.
– Continua com sono? – ele perguntou, sorrindo quase marotamente – Eu posso fazer isso o dia inteiro.
Bufei, empurrando carinhosamente seu corpo. Minhas mãos ainda estavam espalmadas em seu peito, eu simplesmente não conseguia tirá-las dali.
– Acho que eu nunca mais vou sentir sono depois disso – respondi, lançando-lhe um olhar acusador – Aliás, se eu não conseguir dormir essa noite, vou migrar para seu quarto e passar a noite toda pulando em você para não te deixar dormir.
Seus olhos brilharam, e se eu não estiver ficando maluca, foi quase um brilho malicioso.
– Vai pular a noite toda? Tem certeza de que seu corpo aguenta tanto? – ele disse.
Sua voz estava ligeiramente mais rouca do que o normal ou eu estava ficando maluca? Era mesmo malícia aquilo em seu olhar?
Pisquei, erguendo uma sobrancelha. Louis me olhava de forma que fazia meu rosto esquentar, e aquele sorriso maroto não ajudava nada na hora de afastar a sensação de que ele estava muito estranho.
– Louis, você está bem? – perguntei.
– Estou ótimo – ele respondeu, mal me deixando terminar a pergunta – Um pouco quente, mas perfeitamente bem.
Minha boca se abriu, meus olhos se arregalaram. Ele riu da minha cara, soltando um pouco mais de peso em cima de mim. Talvez aquilo fosse proposital, mas eu preferia pensar que ele não fizera por mal.
– Você está estranho, muito estranho – falei, desconfiada – O que aconteceu?
– Então você percebeu, isso é uma verdadeira honra – ele disse, cortando-me de novo – Bom, eu não sei como será sua reação, mas vou dizer a verdade.
Louis soltou meu rosto, apoiando as mãos dos dois lados da minha cabeça. Aquilo fez seu corpo comprimir o meu com mais força, engoli em seco. Ele sorriu, olhando-me diretamente nos olhos. Seu nariz não roçava no meu por questão de milímetros, eu tinha certeza de que estava vesga.
– Eu tive um sonho interessante esta noite, e você estava nele – disse Louis.
Seu nariz roçou-se no meu, arrancando um arrepio de meu pobre ser. Tremi de leve, ele deu um sorrisinho.
– Que tipo de sonho? – perguntei.
Louis abriu um grande sorriso, afastando-se do meu rosto por um segundo. Prendi um suspiro de alívio, minhas mãos agora estavam apertando seus ombros com um pouco de força.
– Um sonho interessante – ele disse, olhando-me nos olhos – Do tipo que seria melhor explicado com ações do que com palavras.
Prendi a respiração, sentindo meus pelos se eriçarem com tanta força que pareciam estar sendo arrancados com cera quente. Louis riu baixinho da minha reação, soltando mais um pouco de seu peso sobre mim. Sim, ele estava fazendo aquilo de propósito. Afastei mais minhas pernas para ceder-lhe espaço, porem tudo que eu consegui com aquilo foi sentir algo que eu não queria sentir. Pelo menos, não tanto, e não tão grande. Eu já sentira aquilo uma vez, quando dormimos juntos pela primeira vez. Mas não tinha sido em meu ponto crítico, e não parecia estar tão grande. Um calafrio me tomou, engoli em seco. Louis não parecia ter percebido, já que tudo que fazia era olhar em meus olhos, sorrindo tranquilamente. Remexi-me um pouco, tentando livrar-me daquela sensação. Tudo que consegui com aquilo foi causar mais fricção, arfei.
– Louis, você está... – deixei escapar, mordendo o lábio para não falar mais nada.
Infelizmente, eu me mexera de novo. Sem querer, minhas pernas se apertaram em volta do corpo de Louis, pressionando-o contra mim mais um pouco. Talvez aquele tenha sido meu erro. Mas, vendo de outro ângulo, aquilo pode ter sido a coisa mais certa que eu já fiz na vida.
Louis parecia ler levado um choque, tamanha era sua surpresa. Encarando aqueles olhos, eu só podia ter certeza de duas coisas:
A) – Eu estava encrencada.
B) – Eu estava muito encrencada.
– Oh, e lá se vai o meu controle – ele disse, parecia ter deixado escapar aquela frase.
Em questão de segundos, o Louis surpreso cedeu espaço ao Louis maroto. O espaço que ele me dera agora parecia nunca ter existido, já que seu nariz estava colado ao meu outra vez. Senti sua respiração esquentar meus lábios, ele deu uma risadinha.
– Devo mostrar exatamente como foi meu sonho? – perguntou, arrastando a voz.
Obviamente era uma pergunta retórica, já que ele não me dera nem tempo de pensar em responder. Seu rosto aproximou-se mais, fazendo com que o inevitável acontecesse.
Eu corei.
Ele parou antes que nossos lábios se chocassem, talvez devesse ter sentido meu leve tremor. Devagar, Louis foi descendo o roçar de seu nariz. Parei de respirar por um segundo, sentindo a ponta do nariz dele encontrar meu queixo. Quase imperceptivelmente, ele apoiou o peso do corpo na mão esquerda. Sua mão direita tocou a base do meu queixo, perto de onde estava seu nariz. Ele respirou fundo uma vez, deixando a boca entreaberta.
– Eu te beijava aqui – ele disse, dando uma leve cutucada em meu queixo – Desse jeito.
Seus lábios tocaram minha pele, e eu pude sentir o que ele queria dizer com aquela frase. Seu beijo praticamente encapsulou meu queixo, esquentando-o com seus lábios. A boca dele estava muito quente, assim como sua saliva. Devagar, ele puxou a boca para acabar com o contato.
– Suas mãos estavam exatamente onde elas estão agora – ele disse – E você ofegava.
Aquele sonho foi muito realista, já que eu estava mesmo ofegando. Engoli em seco, ouvindo sua suave risada encher o ar. Devagar, Louis posicionou seu rosto abaixo do meu. Seu nariz começou a roçar na pele do meu pescoço, bem debaixo da linha do meu maxilar. Ofeguei, apertando seus ombros. Senti seus lábios tocarem minha pele, mas não em um beijo. Devagar, Louis depositou uma leve, porém intensa chupada em minha pele. Minha boca se abriu, meus olhos se fecharam como por instinto. Ele foi descendo a boca até chegar ao centro do meu pescoço, bem onde ficava minha traqueia. Engoli em seco, mesmo sabendo que ele sentiria aquilo. Sem se intimidar, Louis depositou uma chupada ali também. Apertei seus ombros, respirando fundo para não ofegar. Devo ter soltado algum som comprometedor, já que Louis apertou intensamente meu ombro com sua mão direita.
– Eu beijava seu pescoço como estou fazendo agora – ele disse, sua voz saiu abafada por ter soado contra minha pele, já que ele não encerrara seu beijo para dizer aquilo – Enquanto te tocava bem aqui.
Seus dedos tocaram minha cintura, erguendo um pouco a blusa que eu vestia. Senti sua pele entrar em contato com a minha no que mais parecia uma queimadura do que uma carícia, já que aquele toque quente me lembrava da vez em eu enfiei a mão dentro de uma panela com água fervente quando era pequena. Eu não ofegara na época, o toque de Louis era de longe muito mais prazeroso do que aquela experiência. Os lábios dele continuaram traçando sua trilha de beijos em meu corpo, parando apenas quando estava beijando minha clavícula. Minha boca se abriu, ele deu uma leve sugada no local.
– Eu beijava aqui – ele disse, levemente ofegante – Depois beijava bem aqui.
Ele tocou um pedaço de pele exposto pela camisa com seu dedo, acima do meu seio direito. Sua boca foi escorregando bem devagar até chegar ao local indicando, onde ele deu uma suave mordidinha. Arqueei um pouco meu corpo, soltando um som ligeiramente agudo do fundo da garganta. Louis beijou minha pele, seus dedos subiam devagar através de minha cintura. Pude sentir o momento em que eles esbarraram na lateral do meu sutiã, pode ter sido impressão minha, mas eles pareciam ter tremido um pouco. Ofeguei, sentindo meus dedos apertarem os ombros de Louis com mais força.
Antes que eu pudesse processar, a boca de Louis deixou minha pele. Pisquei, soltando um ofego rápido. Abri os olhos, erguendo a cabeça para tentar entender o que acontecera.
Não precisei fazer muito esforço, já que a criatura que invadira meu quarto fez questão de explicar tudo.
– Que merda é essa aqui?! – berrou Fuuto, atirando alguma coisa no chão.
Dei um pulo, empurrando Louis com uma força surreal. Ele ofegou, sentando-se na cama. Fiz o mesmo, puxando minha camisa para baixo com força. Engoli em seco, olhando em volta para procurar o que tinha ido ao chão. Era uma mochila, infelizmente era a minha. Ergui o olhar, deparando-me com meu irmão famoso. Ele estava completamente boquiaberto, seu olhar vagava de mim a Louis como se ele estivesse tentando acreditar no que estava acontecendo ali. Eu podia ajudá-lo, se eu mesma não estivesse muito confusa. Sem querer, lancei um olhar na direção do mais velho presente. Infelizmente, isso também fez Fuuto notar como Louis estava perto de mim.
– Seu filho da mãe! Vadia dos pentes! – Fuuto berrou, lançando um olhar enojado ao irmão – Eu vou te matar, eu acabo contigo!
Pulei da cama, metendo-me na frente de Fuuto. Ele esbarrou no meu corpo, o olhar enojado que ele lançava a Louis agora era direcionado a mim. Tremi, mas só depois disso fui perceber algo muito importante.
– O que você está fazendo aqui? Como você entra no quarto de uma garota sem bater na porta antes? – cuspi, socando-lhe os ombros com minhas duas mãos.
Fuuto nem mesmo se abalou por minha reação violenta, apenas lançou-me aquele olhar enojado outra vez.
– Bater na porta? Para te dar tempo de esconder ele debaixo da cama? – ele disse, inflando as narinas de tanta raiva.
Rosnei, Fuuto rosnou de volta para mim.
– Eu sou uma garota, ga-ro-ta! – falei, empurrando seus ombros – E se eu estivesse nua? E se eu estivesse me vestindo? E se eu estivesse...
– Transando com ele?! – Fuuto sugeriu, debochado – Sinceramente, eu achei que você fosse um pouco menos vadia.
Louis deu um pulo da cama, fazendo-me dar um leve pulinho de susto. Virei o rosto na sua direção, surpreendendo-me com sua expressão irritada.
– Nunca. Mais. Fale. Assim. Dela – ele disse, soprando cada palavra com uma frieza assustadora.
Fuuto deu um passo a frente, desviando de mim para ficar cara a cara com o irmão.
– Nunca. Mais. Fale. Comigo. Nesse. Tom – rosnou, tão frio quando Louis – Você não tem moral nenhuma pra me repreender, foi você quem estava praticamente estuprando a minha irmã.
Soltei uma risada cheia de escárnio, atraindo a atenção de ambos os homens. Eles encararam meu rosto, precisei de toda minha força de vontade para esquecer que eu devia estar corada.
– Vai bancar o irmão protetor agora? Até parece que você nunca fez nada errado – falei.
Louis franziu o cenho, lançando-me um olhar quase inseguro.
– Acha que estávamos cometendo um erro? – ele perguntou.
Abri a boca para responder, mas Fuuto foi mais rápido do que eu. Ele lançou-me um olhar de repulsa, sua irritação era tanta que suas orelhas estavam vermelhas.
– Como se a senhorita fosse muito correta – zombou, debochado – Eu vejo como você se joga para cima dos garotos que vivem te rodeando, e esses idiotas nem percebem que vão morrer na friendzone.
Louis me encarou, incerto.
– Existe um bando de garotos que rodeia você? – ele perguntou.
– Você não faz ideia – Fuuto resmungou.
Os dois me encararam, me senti a pior das criminosas. Engraçado, parece que o ciúme podia tanto separar quando juntar os homens. Revirei os olhos, grunhindo de irritação.
– O que você está fazendo aqui, afinal? – indaguei.
Ele lançou-me outro olhar debochado, afastando-se de Louis como se ele tivesse uma doença nojenta e contagiosa.
– Eu vim pegar a droga da folha de exercícios que você disse que tinha trazido para mim, e também espero encontrá-la respondida – ele disse.
Bufei, sacudindo a cabeça.
– Você falta aula, invade meu quarto, me chama de vadia e ainda quer que eu faça os exercícios no seu lugar? – perguntei, rindo de escárnio – Você já deve ter sua cadeira reservada no inferno, como consegue ser tão idiota?
– Não sou mais idiota do que você, pode ter certeza – retrucou, irritado.
Bufei, sacudindo a cabeça de novo. Marchei pelo quarto até chegar à minha cômoda, abrindo a primeira gaveta. Puxei de dentro a primeira folha de papel que encontrei, girei nos calcanhares e marchei de volta até Fuuto em apenas uma série de movimentos. Joguei a folha em seu peito, empurrando seu ombro direito.
– Acho bom você entender alguma coisa de números complexos, pois eu não entendi nada sobre nada do que caiu nesses exercícios – falei.
Ele bufou, estendendo a folha de exercícios diante de si. Ele fez uma careta tão enojada que eu até pensei em espiar para ver se não tinha fezes naquele papel, mas eu sabia bem como ele estava se sentindo.
– Eu vou comprar a diretora, vai ser impossível tirar mais do que um ponto nessa porcaria – ele disse.
Ri, lançando-lhe um olhar infame.
– Use a cabeça para algo que não seja guardar esse tufo de cabelos que você tanto adora, querido – zombei.
Ele lançou-me um olhar ainda mais infame do que o meu, rindo.
– Olha só quem fala, pelo menos não sou eu quem está com o esquilo da Ema na cabeça — zombou.
Bufei, empurrando seu ombro outra vez. Fuuto decidiu colaborar dessa vez, encaminhando-se à porta com o andar mais superior que eu já vi na vida. Tentei não me sentir mal, às vezes eu não conseguia acreditar que aquele idiota era filho da minha mãe.
– Vai pra escola amanha? Vai ter uma reunião para decidir o tema da nossa feira cultural – falei.
Fuuto bufou, abrindo a porta com um puxão rude.
– Estamos no começo do ano, a escola consegue ser tão irritante – ele disse.
Bufei, concordando com a cabeça. Ele saiu do quarto, lançando um olhar irritado a Louis por um segundo, antes de fixar sua atenção em mim outra vez.
– Se eu ver isso de novo, vou ter motivos para ir pra cadeia – ameaçou.
Sorri, lançando-lhe um olhar duro.
– Se você se meter na minha vida de novo, eu vou ter motivos para pegar a pena de morte – ameacei.
Ele abriu um sorriso debochado, olhando-me de cima a baixo como se eu fosse um grande pedaço de fezes de jumento.
– Como se você fosse ter força para fazer alguma coisa – zombou – Fora que é tão idiota que acabaria se matando ao tentar encostar um mísero dedo em mim.
Bufei, dando-lhe um soco no ombro. Ele aparou minha mão, apertando meus dedos por um segundo. Fiz o mesmo com os dedos dele, pude senti-lo tentando esconder um sorriso mínimo.
– Não passa gonorreia pra ela – Fuuto disse, olhando para Louis antes de me olhar de novo – Tente manter sua sífilis só para você.
– Só se você prometer que não vai passar seus herpes para ninguém – falei.
Fuuto bufou, soltando meus dedos como se eles fossem algo muito nojento. Observei-o sumir pelo corredor, o desgraçado mostrou-me o dedo médio assim que dobou a esquerda em direção às escadas. Ri, sacudindo a cabeça. Fechei a porta do quarto, virando-me para encarar Louis no mesmo movimento. Abri um sorriso amarelo, mordendo o lábio.
– Não acredite em nado do que ele disse, é a famosa “intriga da oposição” – falei.
Louis fez uma ligeira careta, mas assentiu. Soltei um suspiro forte, deixando meu olhar em um ponto seguro: o chão.
– Sobre antes – comecei, engolindo em seco antes de continuar – Eu não acho que foi um erro. Só...
– Imprudente? – ele disse, suspirando – Eu sei, me desculpe.
Abri a boca para dizer algo, mas as palavras pareciam ter me abandonado por completo. Suspirei, ainda encarando o chão do quarto. Louis continuava parado no mesmo lugar, eu podia sentir seu olhar fixo em meu rosto. Mesmo sem motivo, aquele olhar fez meu rosto esquentar um pouco. Sacudi a cabeça, tentando livrar-me do rubor sem sentido. Ouvi uma suave risadinha, fazendo-me erguer o olhar. Louis sorria de forma terna para mim, tentei entender por que aquele sorriso fez meu coração pular uma batida.
– Acho que eu nunca vi você corar tanto em um espaço de tempo tão pequeno – ele disse.
Dei um meio sorriso, desviando o olhar de novo.
– É culpa sua, senhor – falei – Eu odeio ficar corada, é como se meu corpo não me deixasse esconder coisas que precisam ficar escondidas.
– Exemplo? – ele pediu.
Respirei fundo, prendendo um sorriso. Neguei com a cabeça, erguendo o olhar. Louis sorriu ao ver minha expressão, dando um passo na minha direção. Tentei não corar por aquilo, embora sentisse meu rosto esquentar a cada centímetro de distância que perdíamos.
– Se são coisas que precisam ficar escondidas, por que motivo eu te contaria? – perguntei.
O sorriso de Louis ficou maior, ele parou diante de mim. Ergui um pouco o olhar para poder ver seu rosto com clareza, era um pouco irritante ser menor do que ele.
– É realmente uma bela teoria, mas eu discordo com uma coisa – ele disse – Sei como você se sente, então tenho um conselho.
Esperei, piscando um pouco. Ele sorriu calmamente, olhando-me no fundo dos olhos.
– Não tente esconder essas coisas – ele disse – Eu fiz isso durante muito tempo, mas as consequências são maiores do que eu imaginava. Chega um momento em que tudo se acumula, então você fica a ponto de explodir. E quando explode, você perde o controle de uma forma que nunca mais pode recuperar.
Louis aproximou-se de mim, meu corpo reagiu por conta própria. Arqueei-me um pouco para trás, como se estivesse tentando fugir dele. Louis não reagiu diante daquilo, apenas estendeu a mão. Seus dedos tocaram minha bochecha, ele soltou um suspiro.
– Já perdi meu controle, então posso ter certeza do que eu disse – ele falou, olhando-me nos olhos – Outra coisa, eu me arrependo muito de ter escondido isso por tanto tempo. Uma recente experiência me fez ver que meu pior erro foi não ter dado a certas coisas o devido espaço, há forças que não devem ser controladas.
Pisquei, abrindo um sorriso nervoso. Afastei-me milimetricamente, mas a mão de Louis continuou afagando minha bochecha.
– Agora você falou como um cientista maluco prestes a fazer alguma besteira – falei, engolindo em seco – Por um acaso, você não está pensando em criar algum... Sei lá, super secador de cabelo capaz de gerar tornados, está?
Louis piscou, encarando-me curiosamente. Esperei, analisando sua expressão. Ficamos daquele jeito durante trinta segundos, até Louis finalmente suspirar e desviar o olhar.
– Promete que não vai contar a ninguém? Ainda é só um protótipo – ele disse, baixinho.
Arregalei os olhos, escancarando a boca. Dei um passo para trás, engolido uma grande quantidade de ar com a boca.
– O-o que? – gaguejei, incrédula.
Louis fechou os olhos, abrindo um sorriso contido. Inesperadamente, ele começou a rir como se não houvesse amanhã. Pisquei, confusa. As risadas de Louis ficaram ainda mais altas, seu corpo inclinou-se um pouco na minha direção. Antes que eu percebesse, ele já tinha me abraçado.
– Oh, minha criança – ele disse, rindo – Você não sabe o quanto eu te amo.
Ofeguei, ainda nervosa. As risadas de Louis faziam seu corpo tremer, tornando aquele abraço algo ainda mais intenso. Meus braços ainda estavam parados no mesmo lugar, presos entre os braços de Louis e meu próprio corpo. Agitei-me para retribuir seu abraço, mas Louis encerrou o contato antes que eu pudesse me mexer demais. Seus lábios depositaram um beijo rápido, porém forte, em minha testa. Depois disso ele se afastou, sorrindo de uma forma extremamente radiante.
– Vem, vou dar um jeito nesse seu cabelo – ele disse – Prometo não usar um secador.
Ri, ainda um pouco boquiaberta. Louis riu da minha reação, afastando-se de mim para ir até meu pente de cabelos. Observei seus movimentos, encantada como uma criança assistindo um desenho animado incrível.
Esse era Louis, fofo até para curtir com a minha cara. E essa era eu, confiando nele até quando parecia impossível.
Como foi que ficamos assim?
**~**~**~**~**~**
–... E pipoca – ele disse, sorrindo de lado – Aceita?
Mordi o lábio, tentando não rir. Louis apertou seus dedos em torno da minha mão, aquilo fez meu coração vibrar. Droga, não era a primeira vez que nós andávamos de mãos dadas na rua. Por que meu corpo ainda reagia como se eu fosse uma garotinha insegura no primeiro encontro?
– Eu não sei, não acho que ir ao cinema é muito a nossa cara – falei.
– Vamos lá, vai ser divertido – Louis disse, lançando-me um olhar divertido.
Sorri, desviando o olhar. Meus pés me guiavam corretamente sem que eu nem precisasse corrigir sua rota, eu já estivera naquela rua várias vezes mesmo.
– Não te parece um pouco clichê? – perguntei, fazendo uma ligeira careta.
Louis deu de ombros, apertei um pouco sua mão.
– Não acha que só vamos descobrir se é mesmo clichê se tentarmos? – ele perguntou – E eu acho que não tem problema nenhum em ser comum de vez em quando.
Ponderei, inclinando levemente a cabeça para o lado. Meu acompanhante sorriu, talvez pressentisse minha resposta.
– Se eu disser que aceito, você paga a pipoca? – perguntei, marota.
Louis abriu um grande sorriso, puxando delicadamente minha mão para si. Sorri, aceitando seu abraço desajeitado. Aquilo diminuiu a velocidade de nossos passos, mas eu não me importava.
– Um simples pacote de pipoca jamais vai pagar a felicidade que você me dá ao aceitar meu convite, mas se essa é sua condição, ficarei feliz em aceitá-la – ele disse.
Abri um grande sorriso, esticando-me um pouco. A sirene da viatura de polícia que passou na rua abafou o ruído do beijo que eu depositei na bochecha de Louis, mas o som não foi o bastante para quebrar nosso encanto. Pousei no chão outra vez, lançando-lhe o olhar mais carinhoso que consegui.
– E é exatamente por isso que eu amo você – falei.
Louis abriu um grande sorriso, esticando-se para depositar um beijo em minha testa. Sorri, ele firmou-se no chão outra vez.
– Eu também amo você, Nina – ele disse.
Trocamos um longo olhar, eu podia ver meu reflexo nos olhos de Louis. Sorrimos um para o outro, desviando o olhar ao mesmo tempo. Inclinei meu corpo para o lado, entrando na tão familiar rua do orfanato. Tudo continuava do mesmo jeito, tirando, é claro, a grande quantidade de pessoas amontoadas na frente do prédio que já foi minha casa. Cerca de três viaturas da polícia estavam estacionas na frente do orfanato, medindo forças com os carros da imprensa. Uma ambulância encontrava-se parada no meio da entrada do lugar, suas portas escancaradas me permitiam ver quem o carro abrigava. Senti meu sorriso se derreter na hora, assim como senti o choque que percorreu o corpo de Louis. Soltei sua mão sem pensar duas vezes, deixando que minhas pernas me guiassem até onde eu precisava ir. Desviei de alguns repórteres no caminho, mas não deixei que nada daquilo me impedisse. Num movimento brusco, afastei um paramédico e parei diante da garota que estava na ambulância. Seu corpo tremia violentamente, ela encarava um ponto fixo no chão. Minha alma parecia ter levado um jato de nitrogênio líquido, meu coração pulou uma batida.
– S-Sarah? O que houve?! – gaguejei.
Ela não reagiu quando eu chacoalhei seus ombros, insensível aos meus toques. Lentamente, ela ergueu o rosto. A garota não olhou para mim, mas para algum ponto atrás da minha cabeça. Sem respirar, girei nos calcanhares.
Dois policiais traziam uma mulher algemada, meu corpo tremeu a reconhecê-la. Era a tal professora nova, reconheci sua expressão ranzinza. Ela estava com a maquiagem completamente borrada, e vestia nada além de uma camisola de seda coberta apenas por um sobretudo preto. Arquejei, olhando em volta para tentar entender o que acontecia. Senti uma mão pequena apertar a minha, e essa foi a última coisa que eu consegui registrar antes de entrar em um profundo estado de choque.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Outros dois policiais traziam outra pessoa, e embora não estivesse algemado, o garoto estava tão perturbado quanto a professora. Vestia uma calça de moletom e uma camiseta preta, mas devia ter se vestido às pressas, já que as roupas pareciam estar do avesso. Seu rosto estava marcado por lágrimas de um choro que ainda não cessara, deixando seus olhos – os mais lindos que eu já vira – vermelhos e inchados. A boca dele estava ferida, como se ele tivesse levado uma mordida. Mas isso era nada perto do resto do seu corpo. Marcas grossas e irregulares cobriam seu corpo, marcando-o com uma tonalidade doentiamente vermelha. Alguns machucados pareciam ser mais velhos, estes cobriam seus ombros e uma parte do pescoço. Ele estava visivelmente mais magro do que eu me lembrava, os ossos de sua bochecha estavam tão pontudos quanto os da garota que segurava minha mão. Os repórteres estavam quase enlouquecidos, atirando-se no garoto, apontando-lhe microfones. Um dos policiais afastou duas repórteres, nem me importei em tentar entender o que eles diziam, pois foi nesse exato momento que ele olhou para mim.
Foi como se eu nunca o tivesse visto antes. Seu olhar assustado lembrava-me o olhar de uma criança que tinha acabado de presenciar algo terrível, eu reconhecia aquele olhar. Sua expressão era cansada, quase desesperada. Ele não desviou o olhar, e nem eu consegui. Meu corpo parecia ter sido congelado, eu já nem sentia o aperto da mão de Sarah na minha. Minha respiração estava congelada, eu não conseguia fazer nada além de encarar aquele fantasma.
O fantasma que eu jamais pensei que veria. Algo tão impossível de se acontecer que devia ser mentira. Aquilo não podia ser real, aquele não podia ser o garoto que eu conhecia.
Mas a realidade parecia brincar comigo, jogando a imagem daquele espírito destruído bem diante dos meus olhos. Aquilo era real, era realmente ele.
Era meu Akira.
IMAGEM ESPECIAL (TEM CLIMA PRA ISSO? SÉRIO QUE EU TÔ FAZENDO ISSO?)
Miwa Asahina (Só eu que falo "Sogrinha!" toda vez que vejo ela?)

Fale com o autor