The Lingering - Interativa
4 The gates of Hell
Notas iniciais
Botas de couro preto esmagavam as folhas ressecadas e gravetos por onde passavam, produzindo um som rítmico em conjunto com os coturnos de cano longo, marcados pela insígnia do exército americano, que as acompanhavam.
A melodia cantada pelos pássaros que habitavam as árvores ao redor criava uma atmosfera pacífica, quase que zombando da situação em que o mundo se encontrava. Mesmo entre o caos, a natureza continuava, ironicamente, majestosa.
– A ponte está logo ali. — uma voz grossa falou, apontando com o indicador para dita estrutura, alguns metros à frente.
– Acha melhor atravessarmos pela água? — outra voz, também masculina, se pronunciou, ao perceber a presença de alguns deles no caminho.
Os primeiro rapaz, alto, com a barba falha e curtos cabelos pretos, mantinha seu olhar no cenário à sua frente, enquanto o outro, alguns anos mais novo, permanecia com os olhos verde-claros fixados em seu companheiro de viajem.
– Não sei. — o mais velho respondeu, pensativo. — Talvez seja melhor, apesar de não ter certeza se eles podem se locomover na água. — disse, dessa vez encarando o rapaz ao seu lado, que assentiu e tratou de se mover na direção da margem do rio, rifle em mãos. — Miller... — chamou o moreno que o acompanhava, parando ao seu lado e apontando com a boca de seu fuzil para além da ponte, por onde mais alguns walkers– em números menores — vagavam, e Miller apenas assentiu, entendendo a mensagem silenciosa para não fazer muito barulho.
Com isso, deu o primeiro passo, afundando a bota nas águas geladas do rio, sendo seguido pelo homem de cabelos pretos. Depois de alguns minutos, chegaram à outra margem, o nível do rio estando alto o bastante para submergi-los dos pés à cabeça enquanto nadavam.
Do outro lado, uma rua interminável se estendia em meio a grandes árvores, e entre elas, algumas das infernais criaturas, castigadas àquele destino tão cruel, perambulavam sem rumo.
Silenciosamente, a dupla esgueirou-se, caminhando em passos largos e firmes, suas cabeças abaixadas para diminuir a chance de serem detectados. Mais à frente, três walkers caminhavam lentamente, obstruindo a passagem pela rodovia, obrigando ambos os rapazes a sacarem suas facas e prepararem-se para atacar. Afinal, quanto menos barulho fizessem, melhor.
Miller e seu companheiro trocaram olhares significativos, o moreno mais novo fazendo sinal com o queixo na direção de uma das criaturas, como se quisesse dizer algo parecido com "deixe aquele comigo."
Com um aceno de cabeça, o mais velho deles partiu em direção aos outros dois walkers, uma mulher desfigurada que parecia atenta a alguns pombos que ciscavam o chão, e um homem, com uma barriga proeminente e os dentes apodrecidos. Concentrou-se na mulher primeiro, caminhando furtivamente até onde estava, de costas para ele, e agilmente se levantando. Segurando-a pelo ombro, posicionou a faca em sua jugular, e em um instante, sua cabeça havia sido cortada fora, o líquido amarelado característico presente em suas veias sendo derramado à medida que seu corpo caia no chão, inerte e sem vida. A essa altura, o outro walker já o havia notado, e em um movimento rápido, o ex-militar virou-se para trás, sua faca acertando em cheio o abdômen da criatura, fazendo um corte transversal. O walker caiu no chão, seus gritos silenciados pelo coturno do homem em contato com sua boca enquanto os restos de outros corpos, assim como o que sobrou de seus próprios órgãos, era despejado no asfalto. Olhando por uma última vez para a criatura se debatendo aos seus pés, levantou a bota, apenas para enterra-la mais uma vez na cabeça do walker, que cedeu com um 'crack' audível.
Enquanto isso, alguns metros atrás, Miller usava sua arma como taco, acertando repetidas vezes a cabeça de uma mulher gorda, com braços e pernas inchados e que mal conseguia se locomover. Não demorou muito para que tombasse, e o rapaz viu ali a chance de acabar logo com aquilo. Assim como seu companheiro havia feito, enfiou a faca na garganta da criatura, a torcendo até que sua cabeça se separasse do corpo, e o líquido que tinha como sangue formasse uma poça no chão ao seu redor.
Os dois, então, foram ao encontro um do outro, prontos para continuar sua jornada.
– Bom trabalho, Matt. — disse Miller, um tom divertido em sua voz ao dar dois tapinhas no ombro do mais velho. — Mas ainda está exibido demais para o meu gosto. — o rapaz falou, fazendo graça da situação, e Matt apenas deu de ombros. Ambos sabiam que nunca fora muito de rir.
Retomaram o ritmo da caminhada, o sol das 8 da manhã esquentando suas jaquetas de couro, que haviam os protegido durante a noite e ainda os mantinha aquecidos durante o dia.
Bastaram alguns minutos de caminhada para que finalmente pudessem enxergar a pequena cidade de Vicksburg, suas casas vitorianas podendo ser vistas da pequena colina em que se encontravam. Mais alguns passos, e enfim estariam saindo do estado de Louisiana e cruzando a fronteira.
Atrás de si, as árvores balançavam com a brisa fria de dezembro, descartando suas folhas para aguentar o rigoroso inverno que estava por vir. Mais embaixo, o asfalto desgastado era quase invadido pela vegetação, composta por pequenos arbustos e plantas variadas. Ali, logo ao lado, um tanto escondida por trás de alguns galhos recém-formados, havia uma pequena placa desbotada, em que podia-se ler, com um pouco de dificuldade, a frase:
"Welcome to Mississippi."
...
– Ouch!– Joy exclamou, socando o braço de Connor com força e fazendo com que o esparadrapo que segurava voasse de suas mãos. O rapaz a olhou estupefato, como se a mulher tivesse acabado de desperdiçar sua última gota de água num deserto.
– Você ficou louca?! — aquela frase estava começando a se tornar recorrente em seu vocabulário, Connor percebeu — Sabe como é difícil achar um desses dando sopa por aí? — a repreendeu, e a garota bufou.
Connor revirou os olhos pela terceira vez em um intervalo de apenas alguns segundos. O dia havia chegado, enfim. Acordara com as costas doídas, efeito do duro concreto em que havia tomado como cama. Sua barriga roncava como o negro ainda adormecido ao seu lado, e culpava a mulher já de pé ao seu lado por sua fome. Se não fosse tão teimosa e não tivesse se recusado a escutar seus avisos, talvez não estivessem presos ali, no topo daquele prédio, em meio a uma multidão de walkers, que certamente estavam famintos também.
E falando em teimosia... Tinha certeza de que a mulher era uma expert nesse quesito.
Não bastou o episódio da noite anterior, a loira ainda insistia em dificultar consideravelmente seu trabalho em limpar sua ferida, que por pouco não havia sido aberta. Ainda...
Connor pegou o rolo do esparadrapo, puxando outro pedaço de fita o mínimo possível com o intuito de aproveitar cada centímetro restante. Esse era o último rolo, e isso não era nada bom... Havia conseguido pegar apenas dois do estoque do hospital quando as coisas começaram a desmoronar, e certamente não sabia, àquela altura, que teria mais duas pessoas para cuidar em um futuro tão próximo.
– Aliás, onde aprendeu a fazer isso? — a mulher perguntou, ignorando o olhar de fúria que recebeu ao cutucar novamente seu machucado.
– Fiz dois anos de enfermagem na UMS. — respondeu, e a loira lembrou-se vagamente de ter se deparado com diversos cartazes divulgando a grandiosa Universidade do Mississippi em sua viajem rumo ao leste.
– Porque veio parar em Jackson, então? A UMS não fica em Oxford? Que eu saiba, fica bem mais ao norte. — Connor ouviu uma voz atrás de si, e olhou por cima do ombro para ver Marcos, que havia acabado de acordar.
– Eu morava em Raymond. Fica algumas horas a oeste daqui. Estava passando férias na casa dos meus pais quando... Você sabe. — o moreno tratou de explicar enquanto finalizava seu trabalho no abdômen de Joy, sua voz privada de qualquer emoção. A mulher se afastou, aliviada, abaixando a camisa reserva que Connor a havia emprestado — ou melhor, que ela havia pegado da mochila do rapaz — uma vez que sua antiga regata branca fora rasgada duas noites atrás. Era larga demais, chegando até a metade de suas coxas, mas era definitivamente melhor do que ficar apenas de roupas de baixo...
Connor colocou suas coisas de volta na mochila, sentindo sua barriga roncar novamente. A última refeição que fizera fora na manhã de domingo, dois dias atrás, e consistia de meio sanduíche de pão francês e café, ambos provenientes do hospital em que fazia estágio.
– Precisamos sair daqui. — Marcos falou, como se tivesse lido seus pensamentos, e Connor assentiu. Joy apenas se levantou, sem dizer nada, e os dois rapazes a seguiram em direção à beirada do prédio.
Lá embaixo, a situação não era tão pacífica.
A multidão que havia os perseguido na noite anterior já havia se dispersado, mas os walkers continuavam ali, se locomovendo de um lado para o outro, como se tivessem a capacidade de entender que, por bem ou por mal, o trio teria que sair dali alguma hora.
Marcos examinou as possibilidades: ao redor da milagrosa escada pela qual haviam escapado na noite anterior, havia um grupo de walkers, posicionados estrategicamente, e pensou que talvez aquela não fosse a opção mais recomendada.
Fora isso, do outro lado, grudado a esse mesmo prédio, localizava-se outro edifício residencial, mas seu telhado era pelo menos quatro metros mais baixo do que o telhado em que se encontravam, e as chances de quebrarem uma perna no impacto eram grandes.
Outra possibilidade seria escapar por dentro do próprio prédio. O problema era que, para isso, teriam de dar um jeito de abrir a porta corta fogo, localizada em uma das extremidades do telhado, ou entrar por uma das janelas, e não tinham nenhuma garantia de que não haviam walkers ali dentro também.
Ponderou por mais alguns momentos, olhando ao redor até que seus olhos encontrassem um pequeno toldo vermelho, a escrita em dourado dizendo: "Parker's Place — hot beverages and baked goods".
Sentiu um aperto no coração ao lembrar-se de pintar aquele mesmo letreiro, quando a padaria havia acabado de ser inaugurada. Soltou um suspiro trêmulo, sem perceber que segurava com força a barra da blusa de manga comprida que usava.
– Connor. — chamou o moreno, a voz séria. — Acha que consegue sustentar meu peso por alguns segundos? — o negro perguntou, finalmente se virando na direção dos outros dois, que o encaravam confusos.
– Posso tentar... — o rapaz respondeu, ajeitando a jaqueta de couro nas costas e ficando de pé, jogando a mochila por cima de um dos ombros enquanto segurava sua alça. Estava prestes a questionar a pergunta do negro quando Marcos se pronunciou novamente.
– Joy, sua mira é boa, certo? — se dirigiu à mulher, que apenas deu de ombros em resposta. — Tenho um plano. — disse, e tratou de explicar que papel os outros dois teriam em sua execução. Assim que se calou novamente, viu ambos os seus companheiros assentirem e caminharem até suas posições.
Joy se dirigiu à parte de trás do prédio, deitando-se de bruços no chão de concreto e posicionando a pistola carregada em sua frente, alvo em mira. Levantou a mão e acenou, indicando que já estava em posição para Marcos, que permanecia de pé na borda do telhado, onde um edifício se encontrava com o outro. Olhando para baixo, podia ver Connor, que com sua ajuda, tinha sido rebaixado até que pudesse pular de uma distância segura até o telhado vizinho. O rapaz ergueu a mão também, o dedo polegar levantado para dizer que estava pronto.
Marcos assentiu e se virou de volta para Joy, fazendo o mesmo que Connor para avisar que tudo estava certo.
Podiam começar com o plano.
Assim que se certificou de que ela havia entendido, se ajoelhou e pendurou-se na borda, esperando que Connor sussurrasse um 'ok' para que se soltasse, sendo pego — com um pouco de dificuldade — pelo moreno.
Foi aí que ouviram o barulho do tiro.
Na parte de trás do telhado, Joy mirava para além da vitrine de uma loja de roupas, até onde estava localizado, em uma das paredes e quase imperceptível, um controle de alarme, que quando atingido pela bala certeira da loira, foi acionado.
Ouviram-se os gritos da multidão lá em baixo, que, no momento, cambaleava na direção do novo barulho.
Essa foi a deixa da mulher, que se levantou apressadamente e correu até onde ambos os homens a esperavam.
Respirando fundo algumas vezes e tentando ignorar o teimoso palpitar acelerado de seu coração, fez o mesmo que Marcos, se soltando com um grito interno e fechando os olhos até que estivesse segura nos braços de Connor.
Os dois se separaram, e o trio foi em direção à escada de incêndio do prédio em que estavam agora, completamente desobstruída de qualquer criatura indesejada.
Desceram um por um, e quando finalmente chegaram na rua, Connor e Joy olharam na direção de Marcos.
– E agora? — Connor perguntou, atento a qualquer movimento em seus arredores.
– Agora nos concentramos em achar comida e abrigo. — Marcus falou, lançando olhares para o toldo vermelho atrás de si. Connor assentiu, e pôs-se a correr na outra direção, o que era apenas lógico considerando a horda que haviam encontrado na noite anterior.
– Me sinto na obrigação de te agradecer, Marcos. — o rapaz começou, e quando não obteve resposta, olhou para trás para ver que apenas Joy o seguia. O negro permanecia parado no mesmo lugar, olhando para frente e para trás, aparentemente indeciso. — Mas o que... Você não vem? — Connor questionou, desacelerando e andando na direção do negro novamente, enquanto Joy apenas parou de correr e se virou para ver o que estava acontecendo.
– Eu... — tentou falar, olhando novamente para trás. — Vocês podem ir na frente. Tem algo que preciso fazer. — disse por cima do ombro, já a caminho da padaria.
Connor apenas o olhava, incrédulo. Mas o que diabos esse idiota pensa que está fazendo?, pensou, e teria o seguido se não fosse pela mão de Joy o segurando pelo punho.
– Deixe-o ir.– falou, fria, e Connor, por um segundo, não soube o que responder. — Ele só vai nos atrasar. — ela completou, ainda o segurando pelo pulso, e o rapaz arregalou os olhos, tão estupefato que nem percebeu o fato da mulher ter se referido a ambos, com um 'nós'.
– Mas que porra você está falando? — pela primeira vez desde que conhecera o rapaz, o ouviu falar um palavrão, e talvez por isso tenha decidido permanecer calada. — Que tipo de pessoa simplesmente deixa os outros assim? — ele ergueu um pouco a voz, e embora Joy quisesse tapar-lhe a boca e exigir que a mantivesse fechada, ficou quieta. Tinha a impressão de que, pelo menos desta vez, o moreno não estava de brincadeira. — Quer saber, Kiev? Fique aqui, vá embora, eu não ligo.– arrancou o braço da mão da mulher, virando-se de costas para Joy enquanto voltava a seguir o negro. — Talvez seja mesmo melhor que você continue sozinha. — rosnou, e desapareceu para dentro da pequena loja, à procura de Marcos.
Joy podia apenas olhar na direção em que o moreno havia corrido, sentindo a mão que estivera apertando o braço de Connor formigar de raiva, assim como o resto de seu corpo.
Cerrou os punhos, sem se preocupar em controlar sua fúria. Talvez assim poderia mascarar a dor que havia se instalado em seu peito desde que aquelas palavras saíram da boca do rapaz.
Expirando o ar que nem percebera que segurava pelo nariz, olhou para cima, soltando uma risada cínica ante de murmurar, com os dentes cerrados: "Doutorzinho de merda...", e relutantemente seguir em direção à padaria em que os dois homens se encontravam.
Talvez nunca chegasse a admitir, mas no fundo sabia...
Ele estava certo.
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