The Lingering - Interativa
5 Dead inside
Notas iniciais
Marcos deu o primeiro passo para dentro da loja, suas botas esmagando alguns cacos de vidro provindos da vitrine da padaria. Apertava fortemente as mangas de sua blusa, olhando ao redor com medo de encontrar algo, mas ao mesmo tempo sabendo que, querendo ou não, teria de enfrentar aquilo uma hora ou outra.
Se movia de maneira robótica, seus movimentos calculados e seus passos lentos e curtos. Permanecia com os ombros tensos e o maxilar travado, e tinha certeza de que Connor, que ainda o seguia, podia sentir sua tensão.
O moreno, no entanto, tinha outros pensamentos em mente. Permanecera calado desde que havia se afastado de Joy, possesso de raiva. Em sua cabeça, seus pensamentos estavam bagunçados. Teria sido duro demais com a mulher? Não, sua própria consciência o respondia, ela teve o que mereceu. Estava completamente dividido, sem saber o que fazer, e perdido em seus pensamentos, tão concentrado que nem percebeu Marcos sumir de vista, suas botas ecoando por um pequeno corredor que levava a um corredor nos fundos e desaparecendo por trás de uma das portas.
Connor sentou-se em um dos bancos posicionados em frente ao balcão da pequena loja, e escondeu o rosto entre as mãos, algo que sempre fazia quando as coisas não iam a seu favor.
Permaneceu lá por alguns momentos, apenas tentando controlar sua respiração, decidindo escutar a voz da razão, que dizia, claramente, esqueça o ocorrido, e, se ela quisesse, viria se desculpar.
Disso, ele não tinha tanta certeza.
Connor estava prestes a se levantar quando ouviu passos na entrada do local, os cacos de vidro novamente sendo esmagado por outros pés, e não precisava se virar para que soubesse quem se aproximava.
Joy tentava ser o mais delicada possível ao chegar mais perto da figura solitária de Connor, o que não era muito comum de sua parte. Sempre fora a durona, a mulher de aço. Tinha um passado do qual não se orgulhava, mas sabia que não poderia mudar. Ela era quem era por causa dele, e tentar passar-se por uma pessoa diferente jamais fora uma opção plausível em sua mente.
Agora, porém, ser ela mesma parecia, definitivamente, a pior escolha.
– Connor. — falou, a voz rouca e fraca, com medo da reação do rapaz.
– O que é? – ele respondeu, sem sequer se virar para encara-la, e Joy sentiu o resto de suas esperanças afundarem com a rejeição. No lugar dela, a raiva começou a reaparecer, embora vagarosamente, fazendo com que passasse a questionar suas intenções.
Connor não estava muito diferente. Mentalmente, se repreendia por ter sido tão grosso, mas bem no fundo, uma faísca da raiva que estivera sentindo o fazia manter sua postura rígida.
– Eu... — Joy se interrompeu, procurando as palavras que lhe faltavam. O que exatamente queria dizer, afinal? E porque era tão difícil se expressar, principalmente para ele, de todas as pessoas? A resposta agressiva do rapaz havia a deixado nervosa, por algum motivo. Estava pondo todo seu orgulho de lado, e ele ainda a tratava de tal forma. Tudo isso por algo idiota que havia deixado escapar. Devo realmente ser uma pessoa desprezível, pensou, e franziu a testa. Sendo assim, havia apenas uma coisa que poderia fazer... — Estou indo embora.– falou, já decidida, sua voz completamente desprovida de qualquer emoção.
Connor girou no banco em que estava sentado, o choque por ter ouvido aquelas palavras quase o fazendo cair da cadeira. Seus olhos castanhos estavam arregalados, uma veia em uma de suas têmporas saliente, como se estivesse à beira de enlouquecer com o stress. Abriu a boca algumas vezes, mas a fechou logo depois, sem saber o que responder.
Uma parte de si dizia "é melhor assim", enquanto outra relutava, tentando convencê-lo a todo custo de tentar manter seu trio unido, como tinha tentado fazer até agora.
– Não precisa dizer nada. — Joy falou, percebendo a falta de algo para dizer pela parte do rapaz. — Afinal, você não liga, certo? — repetiu as próprias palavras do jovem médico, e sem mais nenhuma palavra, girou em seus calcanhares e deixou-o ali.
Connor permaneceu alguns instantes paralisado, e quando finalmente voltou a si, já estava correndo em direção à porta da padaria. Chegou até a rua e olhou para todos os lados, mas não havia mais ninguém ali. Ela já não estava mais lá.
Deus, Connor pensou, passando as mãos pelo rosto cansadamente, o que foi que eu fiz...?
...
– Chegamos. — uma voz feminina, carregada de um sotaque francês, suspirou, o cansaço presente em seu tom de voz tanto quanto em seu corpo. Seu suor era visível por trás dos curtos cabelos loiros — cortados por si mesma — e brilhava na pele abaixo de seu pescoço.
– Nada mal. — a outra disse, dando de ombros e caminhando até onde sua companheira estava, cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo frouxo e olhos azulados observando a vastidão campestre em sua frente. É o lugar perfeito, seria o que ela diria antigamente. Agora, não era mais uma garota de muitas palavras, e na maioria das vezes, preferia permanecer calada.
– Nada mal? Vai ser perfeito para acampar pela noite. — a primeira mulher disse, sorrindo triunfante enquanto secava o suor escorrendo por sua testa. — Helena, me passa a água. — disse, estendendo a mão ainda sem olhar para sua companheira, que retirou da mochila uma garrafa com água pela metade.
– Só não beba tudo. Não sei se está lembrada, mas tivemos que correr muito para pegar essa garrafa. — Helena murmurou, entregando a água à loira, que em um gole, já tinha reduzido o líquido restante pela metade. — Katrina!– a morena repreendeu, tomando a garrafa das mãos da loira no mesmo instante.
– Qual é, Hel. — Katrina falou em um tom casual, encostando seu ombro no de Helena de modo brincalhão. — Sabe que se continuar com esse pessimismo não vai chegar a lugar algum... — disse, dessa vez um pouco mais séria. Sabia que Helena tentava ver as coisas pelo melhor lado possível, na maioria das vezes. As duas eram sem dúvida muito semelhantes em termos de personalidade. Trabalhavam duro e eram, acima de tudo, caridosas e determinadas. Helena, no entanto, não permitia que esse seu lado dócil aparecesse com tanta frequência, mas Katrina tinha certeza de que, qualquer que fosse o motivo daquilo, era o que a mantinha de pé todos os dias, pronta para ajudar e ser prestativa.
Tentava não pensar muito nisso também. Fora um milagre encontrar a garota, que a alguns dias atrás, estivera à beira da morte. De canto de olho, Katrina podia ver sua companheira fazendo pressão na área ensanguentada de sua camisa branca frouxa, próxima da barriga.
Havia sido um corte feio e profundo, e um que Katrina não fazia ideia de como Helena tinha conseguido. Não havia sequer perguntado, tendo consciência de que, o que quer que houvesse o causado, ainda trazia muita dor — física e psicológica — à garota. A loira havia, no entanto, passado horas examinando a ferida. Precisava pelo menos se certificar de que ela não havia sido mordida, o que, felizmente, não era o caso. Era um corte transversal, na altura do estômago. Helena havia perdido muito sangue, e não ajudava o fato de ter sido encontrada desacordada, boiando nas frias águas de um rio que, por sorte, era caminho para Katrina, que estivera passando por suas margens quando avistou o corpo imóvel da morena.
Normalmente, não sairia acolhendo qualquer um por onde passava. Katrina prezava sua vida. Sabia o quanto este mundo havia mudado, e pensava duas vezes antes de confiar em alguém. Mas, por algum motivo, com Helena, sentia que podia se abrir mais.
As duas mulheres desceram a colina, seus passos sincronizados enquanto inspecionavam os arredores. Haviam batalhado muito para chegar ali após terem passado alguns dias perdidas na floresta vasta atrás de si. Era um lugar sombrio, tanto durante o dia quanto durante a noite, e apesar de estarem um tanto familiarizadas com o ambiente, a ideia de ficar longe dali era mais que convidativa.
Katrina tirou da mochila um saco de dormir, colocando-o no chão e em seguida voltando o olhar para o sol poente.
Sua temporada de caça nos Estados Unidos, embora tragicamente interrompida, havia sido útil para alguma coisa, afinal.
– Vamos alternar no saco de dormir. — a loira falou, agora observando sua companheira sentar-se no chão, tentando esconder a expressão de sofrimento que inevitavelmente aparecera em seu rosto por conta da dor que sentia. — Você pode ir primeiro. Deve estar cansada de andar o dia inteiro... Eu vou ficar de vigia. — disse, e Helena não conseguiu reunir forças dentro de si para protestar. Toda a caminhada havia a deixado exausta, sem falar na dor insuportável que a fazia ranger os dentes.
A verdade era que, sem Katrina, certamente estaria morta. A loira parecia saber o que estava fazendo. Além disso, servia como companhia, algo pelo que a morena definitivamente era muito grata, e fazia questão de deixar isso bem claro.
– Obrigada... — murmurou, mas Katrina a escutou do mesmo jeito, lhe mostrando os dentes esbranquiçados em um sorriso amigável.
A morena deitou-se no saco de dormir, suspirando ao encontrar uma posição um pouco menos dolorida e em seguida fechando os olhos, sem notar o olhar preocupado que Katrina lançava em sua direção.
Apesar de tentar ao máximo ser otimista, Katrina sabia muito bem que Helena não aguentaria muito mais com apenas o curativo improvisado que havia feito em seu machucado. Logo, a ferida iria infeccionar, e Katrina não tinha certeza se poderia ajudá-la quando isso acontecesse.
Sua única certeza era de que, se quisesse que Helena sobrevivesse, teriam de achar um médico...
E rápido.
...
Marcos ofegava.
Suas mãos tremiam enquanto revirava o segundo quarto da parte de trás da padaria. Não havia mais ninguém ali, o que era um alívio, e ao mesmo preocupante.
Inúmeras possibilidades passavam por sua cabeça. Aonde mais poderia ter ido? Por que não havia deixado nenhum bilhete? E acima de tudo, será que ainda estava vivo?
Balançou a cabeça. Pare com isso, Marcos, dizia a si mesmo, tentando bloquear todos os pensamentos que insistiam em atormentá-lo. A culpa, no entanto, sobrepunha todas as outras coisas que sentia. Sou um completo idiota, acusava a si próprio. Nunca deveria tê-lo deixado para ir para a faculdade. Estivera muito preocupado com suas próprias mágoas que não havia sequer considerado os sentimentos dos outros à sua volta. Depois que ela havia morrido, em sua cabeça nada mais importava além de afastar-se de tudo o que trazia à tona suas memórias.
Idiota, idiota...
Marcos bateu a porta do quarto com força, desesperado para entrar no último quarto, na esperança de encontrar um bilhete ou alguma mensagem que pudesse o ajudar a desvendar esse mistério.
Qualquer coisa...
Marcos girou a maçaneta do quarto mais ao fundo, deparando-se apenas com escuridão. Tentou acender as luzes, mas sabia que, pelo menos na cidade de Jackson, eletricidade não era mais acessível sem a ajuda de um gerador.
Foi até o outro quarto e pegou a lanterna que, a pouco, havia avistado em cima de uma estantes. Caminhou em direção à escuridão novamente, iluminando a entrada e seguindo o clarão com os olhos. O ar ali era denso, e não podia deixar de associar o cheiro do local com o de algo comestível que mofa dentro de um recipiente fechado. Passou o olho por uma estante caída no chão, e bateu levemente na lanterna para que sua luz parasse de tremer.
Não demorou muito para que encontrasse o que estava procurando.
Marcos sentiu um calafrio percorrer suas costas.
Ali, esmagado em baixo da estante, havia um par de botas de couro marrom, muito familiares ao negro.
Sua mão voltou a tremer, dessa vez com mais intensidade. Aproximou-se rapidamente, largando a lanterna no chão de modo que pudesse ver o que estava fazendo, e tratou de tentar levantar o pesado móvel de madeira.
Podia sentir as batidas de seu coração nos seus ouvidos, acompanhadas de uma dor inexplicável que passou a se instalar em seu peito enquanto tentava a todo o custo empurrar a estante.
Quando finalmente o fez, mais uma vez ofegante, Marcos ajoelhou-se ao lado da figura deitada no chão, iluminada apenas pela fraca luz da lanterna, e tratou de segurar a cabeça do homem ali deitado com ambas as mãos.
– Pai...? — perguntou baixo, e sentiu as mãos do velho senhor, seu pai adotivo — mas a quem aprendera a amar e respeitar como se realmente dividissem o mesmo sangue — apertarem as suas. — Pai!– Dessa vez gritou, procurando a lanterna atrás de si para poder iluminar o rosto do homem. — Pai, não se preocupe. — Falou, soluçando baixo e tateando o chão até encontrar a lanterna. — Tudo vai ficar bem. Eu prometo... – disse, e em um movimento rápido, iluminou o rosto do pai.
Mas ao invés da expressão serena do homem que — desde os seus sete anos — havia o chamado de filho, Marcos encontrou olhos esbranquiçados e pele esverdeada. Uma mistura aterrorizante de seu pai e uma criatura irreconhecível.
Marcos não pôde ter certeza de quem havia gritado mais alto.
Ele, ou o walker em seus braços.
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