The Lingering - Interativa
2 Of doctors and thieves
Notas iniciais
Os poucos pingos de chuva que caíam do céu começaram a engrossar, escorrendo por sua jaqueta de couro e molhando seus curtos cabelos castanhos. Apesar de seus esforços, seus pés faziam um inevitável barulho ao ir de encontro com as poças de água espalhadas pelo asfalto.
Nas ruas, o cheiro de carnificina e decomposição era de se revirar o estômago, e se não pelo fato de que estava usando uma máscara para tapar-lhe o nariz e a boca, provavelmente já teria desmaiado.
A cidade de Jackson, capital do Mississipi, havia se tornado um gigantesco e grotesco abatedouro.
Virou a esquina, e caminhando mais à frente, encontrou um poste com as luzes piscando, lançando feixes de luz que refletiam na insígnia dourada da sua mochila, que mostrava as iniciais C.M.
O rapaz, tendo recém completado seus 20 anos, caminhava sorrateiramente pela Ellis Avenue, atento a qualquer sinal de vida.
– Tá tudo bem, Connor... Tá tudo bem. — Murmurava para si mesmo, tentando ao máximo manter a calma, e ignorar o fato de que estava completamente sozinho, coisa que mais odiava. Havia sido obrigado a se separar do grupo a que antes pertencia quando dezenas deles cercaram o local em que estavam. Desde então, tem vagado na direção leste, procurando abrigo e um novo grupo disposto a aceita-lo.
Virou outra esquina, cuidadosamente passando por cima de dois corpos na calçada. Tudo havia acontecido tão rápido... Em um segundo, tudo estava normal, e no outro, o caos havia se instalado. Em apenas 48 horas, tudo o que conhecia tinha sumido, e...
Balançou a cabeça. Pensamentos assim não o ajudariam a chegar a lugar algum. Precisava se concentrar em encontrar abrigo o quanto antes, ou não sobreviveria tempo o bastante para ver o dia amanhecer.
Connor passou por mais algumas lojas, já sentindo sua mochila pesar em suas costas, quando algo chamou sua atenção. Havia um beco alguns metros à frente, sem iluminação nenhuma exceto a da lua, como quase todo o resto da cidade. Ali, encostada na parede, havia uma silhueta, que parecia tremer enquanto sentada no chão sujo.
Sorrateiramente, Connor apertou a faca que segurava com mais força, se aproximando da criatura o mais devagar possível. Estava a um braço de distancia do ser quando pisou em uma poça, revelando a sua presença.
Em menos de um segundo, sua mão estava erguida, a ponta de sua faca reluzente sob a luz da lua assim como o metal de uma pistola calibre 39, cujo cano estava direcionado à sua cabeça.
– Dê mais um passo, e faço um buraco na sua cabeça. — Para sua surpresa, uma voz feminina falou, e Connor cambaleou levemente para trás com a surpresa. Até onde sabia, eles não conseguiam falar.
Sua faca ainda estava apontada na direção da estranha, e podia ver que a arma tremia na mão da mulher. Agora de perto, tinha certeza de que ela não podia ser um deles. Tinha os cabelos loiros e a pele branca, ao contrário daquelas criaturas, que tinham aparência esverdeada e os cabelos esbranquiçados e envelhecidos. Percebeu também que ela, com a outra mão, apertava com força a parte inferior do abdômen, e sua blusa uma vez branca estava avermelhada, principalmente em torno da região que ela segurava.
– Vou ter que falar de novo, garoto? — ela tentou erguer a voz, mas parecia rouca e sem energia para o fazer. — Se manda, ou eu vou... — Ela tentou se levantar, mas acabou soltando um grunhido de dor e voltando à posição original.
– Está tudo bem? Olha, eu não vou te... — Connor tentou.
– Já disse para me deixar em paz! — Ela o interrompeu, cobrindo a boca enquanto tossia.
Connor suspirou, levantando as mãos em sinal de rendição enquanto andava para trás. A mulher parecia estar usando o resto de sua forca para manter o braço levantado, e assim que ele chegou a uma distância razoável, ela finalmente o tirou de sua mira.
O rapaz se virou, pronto para ir embora, mas não conseguiu fazer com que seus pés se movessem. Dar meia volta e ir embora representaria tudo o que sempre jurou que não seria. Havia prometido a si mesmo que faria o possível para garantir o bem estar dos outros, e era isso mesmo que iria fazer. Determinado, virou novamente na direção da mulher.
– Olha, eu sei que você não quer ajuda, mas... — As palavras sumiram de sua boca assim que viu a figura desmaiada da mulher, suas mechas loiras caindo sobre seus olhos e tampando seu rosto, e seus braços e pernas caídos desajeitadamente. Com um suspiro cansado, Connor passou as mãos pelo rosto. — Ah, merda...
A noite definitivamente não estava indo como o esperado.
....
Connor suspirou ao colocar a agulha e o alicate, ambos esterilizados com pressa, no chão ao seu lado, e voltou a admirar seu trabalho. Havia retirado a bala e costurado a ferida com pressa, tendo utilizado seu último pedaço de linha no processo, mas apesar de tudo, não tinha arrependimentos.
A mulher misteriosa que havia encontrado na rua dormia tranquilamente em sua frente, e parecia uma pessoa completamente diferente da figura autoritária que havia ameaçado explodir seus miolos algumas horas atrás.
Depois do incidente, havia a carregado — com grande dificuldade, vale acrescentar — até o prédio mais próximo, uma padaria completamente abandonada no coração da cidade, e dado um jeito na ferida da mulher. Nesse meio tempo, ela havia acordado diversas vezes, desorientada demais para sequer entender a situação, mas seus urros de dor demonstravam que seus sentidos permaneciam intactos.
Connor estava prestes a cochilar sentado quando a mulher se levantou subitamente, mãos voando para sua cintura, onde guardava sua arma. Connor deu graças à deus por ter retirado a pistola dali, ou suspeitava que já teria sido alvo do desespero de sua mais nova paciente.
– Ei, calma! — O garoto se levantou também, as mãos para o ar para tentar provar que era inocente, apesar da situação apontar o contrario.
O problema era que Miss Mistério– era assim que ele vinha a chamando em sua cabeça, já que não fazia ideia de seu nome — estava apenas com suas roupas de baixo, e por algum motivo, Connor não fazia ideia de como explicar que tivera que cortar sua regata para conseguir tratar seu ferimento.
– Você de novo! — Ela acusou, olhando em volta e em seguida para si mesma. — Mas que porra é essa? — Gritou ao sentir falta de algo a cobrindo, e em seguida o lançou um olhar flamejante.
– Não! Não é o que você está pensando, eu juro! — Connor se afastou o máximo possível, suas mãos em frente ao seu corpo como se aquilo fosse o proteger de alguma coisa.
– Você está morto! — Miss Mistério urrou, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, teve de se sentar de novo, tamanha era a dor que estava sentindo.
– Cuidado! Se ficar se mexendo demais vai abrir os pontos. Tem ideia de quantas horas fiquei costurando isso? — Connor a pegou pelos ombros e a forçou a se deitar novamente.
– Era só o que me faltava... — a mulher murmurou, mas não fez moção de se levantar de novo, e Connor considerou a situação segura o bastante para se sentar ao lado da maca improvisada no chão. — Por que só não me deixou lá? — Miss Mistério reclamou.
– Acha mesmo que vou deixar alguém sofrendo sozinho na chuva? Ainda por cima com aquelas... Aquelas coisas andando lá fora? — Connor perguntou irritado. — Arrisquei minha própria vida por uma estranha, e é assim que ela me agradece. — o rapaz riu sozinho, balançando a cabeça como quem não acredita no que vê, e a mulher cruzou os braços, olhando para qualquer lugar menos ele.
– Eu consigo me virar sozinha. — Murmurou infantilmente, orgulhosa demais para admitir que ele havia realmente salvado sua vida.
– Não foi o que pareceu. — Connor retrucou, e virou de costas para procurar mais fita para segurar o pano que cobria o machucado da mulher.
– Quem é você, afinal? — Miss Mistério mudou de assunto, e dessa vez olhou para Connor enquanto o rapaz tirava o pano banhado em sangue e posicionava outro em cima da ferida.
– Connor. — respondeu sem retribuir o olhar. — Connor McCormick. — o rapaz certificou-se de que tudo estava certo para prevenir infecções, e em seguida ofereceu sua mão ensanguentada para um aperto.
– Uh... Não, obrigada. — A mulher respondeu com desgosto, empurrando a mão oferecida e ouvindo-o falar um 'foi mal' baixinho enquanto coçava a parte de trás da cabeça. Com isso, ambos caíram em um silêncio profundo, tentando evitar o olhar um do outro enquanto ouviam a chuva despencar do lado de fora.
Foram o que pareceram horas depois que Connor voltou seu olhar para a estranha novamente, a testa franzida enquanto perguntava:
– Ei, Miss... Quer dizer... Você nunca me disse o seu nome. — Falou meio desajeitado, dessa vez a encarando, o que deixava a situação toda ainda mais estranha. Nunca, jamais teria imaginado que estaria em uma padaria abandonada, com as mãos ensanguentadas, dividindo espaço com uma completa estranha, que por acaso não usava nada além de um sutiã vermelho surrado e um par de jeans skinny.
Ela finalmente o olhou, os braços ainda cruzados sobre o busto como quem está desconfortável — o que ela provavelmente estava — e disse, baixinho:
– Kiev... Joy Kiev.
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