Notas iniciais
[Silver Frog] Em alguns capítulos haverá notas em negrito no começo, todos são documentos pertencentes a biblioteca real de Hully reunidos ao longo dos séculos, a leitura deles é importante para conhecer a história do antigo reino de Kidan e seu povo, além de conterem algumas informações sobre os guerreiros Sagafaya e Kadec.

[...] Aquela cena sempre ficará gravada em meu coração, com os olhos cheios de lágrimas nossa amada rainha não segurou a emoção e começou a chorar. Olhando para o céu com uma suave brisa a abalançar-lhe os longos cabelos, segurava os objetos fortemente sobre o peito dados a ela pelo único soldado que havia retornado.

— Kadec... Saga... Por que me deixaram? Por que logo agora quando eu mais preciso de vocês... Só o que me resta é seguir em frente... Reerguerei novamente o nosso clã e não permitirei que seus nomes sejam esquecidos, farei com que sejam lembrados por várias gerações de novos e valentes guerreiros, que seguiram seus passos e farão desse novo lar uma dádiva herdada do nosso grande clã Kidan, adeus meus queridos amigos, espero que um dia possa ver seus rostos novamente.

Disse aos céus enquanto todos à observavam em silêncio, o grande rio Lyrus ficava para trás e uma terra desconhecida se estendia a frente, uma das crianças que corria empolgada com a beleza do lugar perguntou a rainha pouco depois de retomarmos a marcha:

— Vossa Majestade como se chamará nosso novo lar?

Algumas pessoas em volta a encararam, ela ainda segurava firmemente o medalhão e o anel em sua mão direita, depois de um breve instante de silencio respondeu desviando o olhar para os objetos e com um sorriso melancólico lhe preenchendo o rosto:

—Nosso novo lar se chamará... Anick"[...]

***********

O sibilar da espada misturava-se ao barulho dos pássaros, o metal de um prateado límpido reluzia sob o sol forte daquela tarde de primavera em Anick, o clima quente da estação fazia as gotas de suor escorrer por seu pescoço, colando alguns fios do cabelo dourado á pele:

— Osora!

Ouviu uma voz ao longe gritar, olhou em direção á varanda daquela casa que era seu lar por anos enquanto baixava a lâmina da espada:

— Estou aqui Shana!

Disse num tom mais alto, levantando uma das mãos:

— Venha comer logo! Seu almoço irá esfriar!

Osora respirou fundo uma vez limpando o suor da testa, caminhou até uma árvore próxima e pegou a bainha da espada, depois disso foi na direção em que a outra garota se encontrava a sua espera:

— Você só pensa em treino Osora, a vida não é feita apenas disso sabia?

Disse sua prima, Shana, assim que ela aproximou-se:

— Eu preciso me acostumar com o balanço da espada, e também não há nada de mais em algumas horinhas de treinamento.

— Horinhas? Você esta lá há pelo menos 3 horas, nem ao menos tomou o desjejum direito.

— Tudo bem, tudo bem, sem drama...

Falou com desdém enquanto ia em direção ao interior da casa:

— Nem pense em comer antes de lavar-se e, por favor, sem armas em cima da mesa.

A garota revirou os olhos e subiu as escadas, entrou no quarto que ambas dividiam, a janela aberta deixava uma pequena brisa refrescar o lugar, tirou a camiseta suada e prendeu ainda mais os longos cabelos em um coque na parte alta da cabeça, sob o peito um medalhão pendia, com detalhes em prata e uma pedra azulada ao centro, era como se tivesse vida própria devido a beleza que exaltava, por um momento o observou depois foi em direção ao banho antes que sua prima voltasse a gritar novamente.

Depois da água revigorante, desceu as escadas até a sala de jantar, um senhor de idade avançada sentava em uma das cadeiras da mesa:

— Olá vovô! Chegou tarde hoje, como passou a manhã?

Deu um beijo no rosto do velho, um homem já por volta de 65 anos de cabelos e barba curtos e brancos, ele sorriu em retribuição ao gesto e respondeu:

— Olá Osora, bem sabe como é, estive apenas pesquisando uns pergaminhos antigos como sempre, o que já ocupa grande parte de meu dia de trabalho.

A garota tomou um lugar à mesa, a direita do ancião:

— Claro vovô, sei como é, e por falar nisso, o senhor obteve mais informações sobre a minha espada? Lembra-se que lhe pedi há algum tempo?

— Osora, o vovô já tem muito trabalho e você o perturba mais ainda.

Disse Shana enquanto chegava ao local, com uma travessa de legumes cozidos exalando um aroma delicioso:

— Não se preocupe Shana, isso não me perturba, ainda não encontrei Osora, mas continuarei procurando.

A garota sorriu e os olhos azuis encheram-se de esperança:

— Certo vovô eu vou esperar, tenho certeza que irá encontrar algo sobre ela, afinal o senhor é o melhor historiador do reino!

O velho riu, enquanto sua outra neta servia-lhe uma porção generosa de legumes:

— Ora, ora não é preciso me bajular minha querida, faria isso por você de qualquer maneira.

— Não é bajulação vovô, a Osora tem razão, o senhor é o grande Hyou Yokaida, trabalhou por 20 anos á serviço direto de Vossa Majestade, deve se orgulhar.

Disse dessa vez Shana, com um sorriso gentil no rosto dando a ela um ar ainda mais gracioso do que já tinha, os longos cabelos negros desenhavam-se alinhados sobre suas costas, a aparência delicada de pele clara e olhos azuis, garantiam a ela o título de mais bela jovem da cidade, na opinião de muitos jovens solteiros de Anick:

— E me orgulho, apenas meus queridos netos me dão maior honra do que ter trabalhado ao lado do rei.

Osora riu dessa vez, enquanto fazia um gesto de desdém com as mãos:

— Certamente o mais jovem não.

— Osora!

Repreendeu a outra garota:

— O que foi? Não disse nada de mais!

Respondeu dando de ombros, Hyou apenas balançou a cabeça e apreciou a refeição preparada há pouco. Depois de degustar um almoço agradável, sentou-se na sala chamando ambas as netas para uma conversa:

— Meninas, estarei muito ocupado esta semana e se possível eu gostaria de um favor.

— E o que seria vovô?

Indagou Osora enquanto atirava-se em um dos sofás:

—Tenho um amigo do vilarejo de Yona, que ficou de me conseguir algumas relíquias adquiridas recentemente para um estudo, recebi uma correspondência dele hoje pela manhã, porém não posso me ausentar da cidade por alguns dias.

— Não será problema algum vovô, Osora e eu podemos buscá-las amanhã mesmo.

— Obrigado por aceitarem meninas, serão de grande ajuda, só peço que tomem cuidado, vocês sabem que algumas vezes na estrada tem pessoas perigosas.

— Sem problema vovô, não esqueça que já estamos formadas, não é qualquer um que me vence num duelo de espadas agora.

Hyou sorriu enquanto Osora fazia posse e apenas concordou:

— Tem razão Osora, tem razão.

***************

Quando o dia amanheceu e os primeiros raios do sol cruzaram o horizonte, as duas jovens de Anick já cavalgavam em direção até a cidade próxima, depois de algumas horas de cavalgada elas finalmente chegaram.

Yona era um vilarejo não muito grande, que servia principalmente como um ponto de parada entre viajantes, o que logo era percebido pelo grande número de hospedarias, depois de vagarem pela cidade e de uma parada para um rápido almoço, as duas logo foram para o endereço localizado no pedaço de papel, tratava-se de uma loja de antiguidades, lá foram recebidas por uma mulher alta de cabelo e pele escuros, que as levou até a parte interna da loja.

Havia muitas peças exóticas e antigas pelas salas que se seguiam, algumas caixas de variados tamanhos, assim como diversos documentos:

— E como esta o senhor Hyou?

Indagou a mulher que caminhava á alguns passos, logo a frente de Shana:

— Esta ótimo, obrigada.

Respondeu ela, ainda admirando os diversos objetos pelos quais passavam:

— Lembro que o conheci em nosso casamento, meu marido e ele são amigos há muito tempo, é uma pena que o trabalho o impediu de ter vindo.

— Tem razão, mas tenho certeza que logo ele lhe poderá fazer uma visita.

Pararam próximas a uma escada que levava ao segundo andar, em uma sala mais ampla e iluminada:

— Ele esta no escritório lá em cima, eu irei chamá-lo, esperem aqui, por favor.

A mulher subiu as escadas desaparecendo logo em seguida, na sala que ambas esperavam havia mais três portas, além do corredor que tinham vindo, todas elas fechadas:

— O que foi Osora?

Indagou a garota ao ver a expressão nada contente da prima:

— Eu poderia estar em casa treinando, essa cidade pequena ao menos tem uma arena para podermos nos divertir um pouco.

Shana apenas revirou os olhos e permaneceu em silêncio, alguns minutos que pareceram uma eternidade passaram e nada da dona da loja aparecer novamente, foi quando a garota notou Osora abrindo uma das portas que estava fechada:

— O que esta fazendo Osora?! Não pode ir entrando nos lugares sem permissão!

— Relaxa, eu só vou dar uma olhada, já estou entediada de ficar aqui esperando.

Osora entrou num amplo depósito, lá havia vários objetos, armamentos, estátuas, artefatos de decoração e outras coisas que nem ao menos saberia dizer o que era:

— Olha só Shana, aqui tem várias coisas que nos poderíamos levar.

Disse á sua prima que também entrava pela porta cautelosamente, enquanto analisava uma espécie de cinturão ordenado com joias:

— Não sabemos o que o vovô pediu e vamos sair logo, ela pode voltar a qualquer instante!

— Acalme-se, não estamos fazendo nada de errado.

Ambas prosseguiram observando os artefatos, até que um deles chamou a atenção da mais velha, uma estátua feita de mármore representava um guerreiro com sua espada cravada em um orbe, encrustado com uma pedra dourada e cintilante, enquanto na lâmina da espada havia várias inscrições em baixo relevo:

— Olha só Shana, esta estátua é impressionante... E esta escrito algo aqui, eu não entendo... Você pode ler?

Ela aproximou-se, desde pequena acompanhava os estudos de seu avô e era fluente na leitura de muitos idiomas antigos, observou a estátua atentamente por algum tempo:

— Tem razão ela é impressionante... Humn... Deixe me ver isso... Nossa! Não é outra língua, isto é um selo mágico!

— Um selo? Por que colocariam algo importante assim em uma estátua?

— Eu realmente não sei.

— Consegue ao menos saber para que ele serve?

— Não, nunca vi algo do tipo, parece ser de um tipo antigo.

Osora deu uma volta ao redor da estátua enquanto a examinava, acabou encontrando uma etiqueta de identificação:

— Barramuty... Parece que ela veio desse lugar.

Sua prima aproximou-se e também leu o pedaço de papel que ela segurava:

— Barramuty, este templo foi destruído há muito tempo, lembro que já li alguma coisa sobre ele.

— É? E onde ficava?

— Na ilha do lago Vitae, soube que desapareceu sob as águas na última erupção provocada pelo vulcão.

— Nossa! Isso é realmente legal, talvez tenham conseguido recuperar a estátua do fundo d’agua, parece estar bastante deteriorada.

Disse Osora enquanto observava a face irreconhecível do guerreiro:

— Tem razão, mas já exploramos bastante, agora vamos sair logo.

Shana a empurrou em direção á porta, contudo antes de sair teve um pressentimento estranho e olhou novamente para trás na direção da estátua e sua pedra cintilante:

— O que foi Shana?

Ela voltou à realidade com a voz de sua prima e começou a empurra-lá novamente:

— Não foi nada, apenas tive uma sensação estranha, mas acho que foi impressão minha.

— Pare com essas histórias, até parece que aqui é assombrado ou coisa do tipo.

Shana fechou novamente a porta enquanto ambas saíam da sala, não percebeu a estranha magia que fluía no teto, em um instante aquele fenômeno foi em direção ao orbe fazendo a pedra dourada começar a brilhar ainda mais.

*************

Lentamente as duas cavalgavam de volta a Anick, naquele ritmo a cidade estava um pouco mais de 3 horas de distância, afinal, não tinham pressa alguma em viajar, enquanto isso conversavam sobre diversos assuntos, entretanto Osora notou que sua prima parecia distante e distraída:

— O que foi afinal Shana?

Disse depois de ter relembrado uma história antiga que a fez rir por algum tempo:

— Não é nada.

— Desde que saímos de Yona você esta estranha.

— Como assim estranha?

— Sei lá, você não esta me dando atenção, parece perdida em seus pensamentos... Por acaso esta apaixonada?

Shana tomou um pequeno susto com a pergunta e levou uma das mãos ao rosto vermelho, constrangida, enquanto sua prima estampava um sorriso malicioso no rosto:

—Não! Não é nada disso Osora!

Osora começou a rir novamente:

— Eu só estou pensando naquela estranha sensação que tive, é apenas isso.

— Bem, eu não senti nada.

Respondeu a outra, dessa vez mais calma:

— Você não tem tanta afinidade com a magia como eu, qualquer leve vibração de energia mágica eu posso sentir, e também por algum motivo a energia que eu sentia desde anel desapareceu, isso esta me preocupando há algum tempo.

Disse ela observando a joia de um metal azulado que levava no polegar:

—Você esta se preocupando demais, e também á toa, isso é só um anel Shana e talvez a energia que você sentiu tenha vindo do selo daquela estátua, não é mesmo?

Ela refletiu por alguns instantes enquanto o cavalo prosseguia num trote lento, depois sorriu quanto voltou a encarar a outra garota:

— Acho que você esta certa... Bem, vamos nos apressar, eu ainda preciso comprar algumas coisas para o jantar dessa noite.

— E eu mal posso esperar para comer da sua comida, vamos!

*************

A luz da pedra dourada no orbe brilhava com mais intensidade, uma energia de cor vermelha translúcida, semelhante á uma névoa, começou a formar-se e fazer círculos em volta da sala, enquanto as inscrições da espada começavam a brilhar.

No lado de fora da loja em Yona, nuvens cinzentas e carregadas cobriram o céu do vilarejo e seus pacatos cidadãos se assustaram com o leve tremor que começou na terra.

O estranho fenômeno mágico agora pairava no ar e lentamente se dividiu em duas porções iguais, aos poucos foi descendo lentamente para o chão.

O tremor de terra aumentou e a luz da pedra já estava tão forte que não se distinguia mais nada naquela sala, as pessoas começaram a entrar em pânico nos arredores da loja, então as nuvens se intensificaram e dois grandes raios desceram do céu com um estrondo ensurdecedor, caíram exatamente sobre a sala onde estava a estátua, porém surpreendentemente sem danificar nada da construção, após isso tudo se silenciou, o chão parou de tremer, as nuvens se dispersaram e o céu voltou ao pacífico azul da primavera.

Estava tudo calmo como antes.

O orbe dourado extinguiu sua luminosidade aos poucos até perder totalmente sua cor, agora havia tornado-se escuro como se toda a vida que houvesse nela tivesse sido dissipada.

Pelo chão, vários objetos caídos e quebrados jaziam esparramados como se uma tormente tivesse varrido o lugar, mas, além disso, havia algo muito mais surpreendente entre os entulhos do que um dia fora a loja de antiguidades, Sagafaya e Kadec Kidan.

Os dois eram os grandes guerreiros do antigo clã Kidan, que há 200 anos havia sido destruído ao norte do continente, uma guerra tão longinqua que poucos conheciam a seu respeito.

De seus corpos saia uma fumaça quente enquanto aos poucos recuperavam os sentidos, Sagafaya foi o primeiro a acordar, observou o local entre a fina fumaça que emanava de seu corpo e surpreso reconheceu Kadec no chão perto de onde estava, se aproximou e ajudou-o a levantar:

— Kadec você esta bem?

Ele demorou um pouco para responder, ainda parecia perdido e confuso:

— Sim... O que... O que esta acontecendo?

Sagafaya olhou em volta, ainda sentia a magia que estava envolvendo todo aquele lugar, reparou nos objetos quebrados e então viu a grande estátua mais ao lado, levantou ainda um pouco tonto e aproximou-se do monumento sentindo as pernas trêmulas.

A pedra do orbe agora era escura como a noite, mas as inscrições na espada ainda estavam brilhando, Kadec também levantou-se e foi até ele, com uma das mãos na cabeça parou ao seu lado e analisou a escultura:

— O que é isso?

Indagou, enquanto olhava para as inscrições sem entender nada:

— Acho que isso é um tipo de pedra de ressuscitação.

Respondeu Sagafaya, no mesmo instante que levou uma das mãos sobre os sulcos que formavão os símbolos:

— O que?

— É isso o que esta escrito Kadec, veja... Uma dádiva dada pelos céus aos homens, capaz de devolver a vida a quem já se foi, mas deve ser usada com sabedoria ou a ira dos deuses não nos poupará.

Disse enquanto terminava de tocar os símbolos da estátua:

— É isso que está escrito?

— Sim... Já havia ouvido falar de relíquias que prometiam a imortalidade ou invencibilidade antes, mas nunca algo que trouxesse de volta os mortos á vida.

Por um momento ambos ficaram em silencio, reflexivos. Kadec olhou em volta por um instante e depois falou:

—Humn... Agora eu me lembro...

Colocou uma das mãos sobre o peito enquanto parecia perdido em um mundo de memórias:

— Eu realmente, havia morrido... O maldito Kensha... Foi você que me trouxe de volta Saga?

O outro rapaz ainda estava um pouco introspectivo observando o objeto:

— Não Kadec, após a sua morte nós atacamos Kayamanaky, vencemos os soldados que cruzaram nosso caminho e chegamos até a capital, mas... Também acabei morrendo pelas mãos do rei.

Kadec surpreendeu-se um instante, porém sem demonstrar muita reação, depois olhou para as próprias mãos enquanto fechava e abria os punhos:

— Bem, mas ao que parece, nossos irmãos nos devolveram a vida.

— Acho que você esta errado.

Falou dessa vez Sagafaya voltando à atenção para seu companheiro:

— Por quê?

— Olhe em volta, não há ninguém nesta sala, ela se parece mais com um depósito do que com uma sala de rituais.

Kadec olhou e reparou no lugar e nos objetos, percebeu que Sagafaya tinha razão, quando reparou novamente nele notou algo que o surpreendeu:

— Saga... Você me parece um pouco mais jovem.

Sagafaya olhou para si por um momento e depois disse:

— Sim... E não sou o único, você também esta mais jovem do que antes, nos parecemos quando tínhamos 18 e 19 anos... Acho que deve ter havido algum erro no encantamento... Ou talvez eles tenham feito de propósito... Quem sabe...

— Então... Quem você acha que nos ressuscitou?

— Não sei, mas teremos que descobrir.

— Bem não me parece que tenha sido alguém de Kayamanaky.

— Realmente, mas também não podemos supor que estamos em terras aliadas, afinal todas as casas estão a favor do reino, só estaremos seguros se estivermos em Kidan ou com membros do nosso povo.

— Você esta certo.

Sagafaya voltou-se indo em direção ao fundo da sala onde algumas estantes de objetos jaziam no chão:

— Bem, vamos arrumar umas roupas e obter informações de onde exatamente estamos, ficarmos parados aqui fazendo suposições não nos ajudará em nada.

*************

Em Anick já passava um pouco das oito horas da noite, Shana e Osora estavam com muitas sacolas indo em direção a casa de seu avô.

Hyou estava na varanda aproveitando a brisa do anoitecer quando avistou ambas as netas, elas logo entraram e depois de cumprimentá-lo foram tomar um banho e preparar o jantar, mais tarde todos sentaram na sala para a entrega das encomendas:

— Estão todas aí vovô.

Disse a mais nova enquanto o ancião conferia o interior das sacolas e embalagens:

— Obrigada Shana e á você também Osora, tenho certeza que foi um sacrifício pra você ter que ficar uma tarde sem treinamento.

— É foi chato mesmo vovô, eu não sei como o senhor se interessa nessas coisas velhas.

Falou a outra garota que estava em pé próxima a porta de acesso:

— Sempre se tem muito que aprender com o passado minha jovem.

— É verdade Osora, você deveria dar mais valor a isso.

— Eu dou... Eu dou.

Disse ela sem muito interesse:

— Bem, e você Shana, viu alguma coisa que lhe interessasse?

Indagou Hyou, voltando à atenção a mais nova de suas netas novamente:

— Ha sim, muitas vovô, aquele lugar era realmente bonito.

— Bonito? Não minta, lá não havia nada de interessante ou bonito.

Reclamou Osora enquanto mastigava um biscoito feito um dia antes por sua prima:

— Não fale de boca cheia Osora, e é você que esta mentindo, porque ela ficou bem interessada em uma estatua vovó.

—Oh! É verdade?!

— Isso foi porque era uma escultura diferente, com aquela espada bem trabalhada, com todas aquelas coisas escritas e também a pedra do orbe se parecia com a que tem na minha espada, apenas por isso eu gostei.

— Humn... Que estatua era? Algum deus ou herói?

Hyou agora sentava em sua poltrona preferida da sala:

— Na verdade nós não sabemos vovô, pois... Bem ela estava em uma área restrita.

Falou dessa vez Shana, já temendo o que estava por vir:

— Área restrita? E vocês entraram?

— Claro né vovô, tínhamos que ver tudo já que fomos numa missão oficial.

Disse Osora com um sorriso malicioso no rosto:

— O senhor sabe... A Osora não se aguenta não é.

Falou por sua vez Shana, com um olhar um pouco repreensivo, Hyou deu um longo suspiro e balançou a cabeça:

— Só espero que não tenham mexido em nada, saibam que aquele lugar contém peças muito raras, todas são um importante legado histórico do nosso continente.

— Claro que não.

Defendeu-se Shana e a outra logo completou:

— Não se preocupe, só demos uma olhadinha, Shana disse que havia um selo e fomos embora.

—Selo?

— É verdade havia um selo, era bem diferente dos que eu conheço e também aquela estatua vinha do templo de Barramuty, que já foi destruído há dezenas de anos.

O dono da casa refletiu por uns instantes, enquanto passava uma das mãos pela farta barba:

— Isso é muito interessante, vocês notaram mais alguma informação na estátua?

— Não, mas posso refazer os símbolos do selo para o senhor ver.

Respondeu Shana, enquanto oferecia um pouco do prato de biscoitos, que Osora já quase havia devorado por completo ao seu avô:

— Bem, refaça que amanhã eu irei dar uma olhada, mas agora me sirva também um pouco de café para acompanhar, por favor Shana.

— Claro vovô.

— Pra mim também!

Pediu a outra garota enquanto roubava mais um dos deliciosos biscoitos de milho de sua prima.

***************

A madrugada já avançava, as luzes da maioria das casas estavam apagadas e apenas o som dos animais noturnos predominavam no ambiente, em cima de um telhado de uma das casas duas pessoas estavam sentadas a olhar a praça central do vilarejo de Yona, eram Kadec e Sagafaya:

— Isso é difícil de acreditar...

Falou Kadec, observando alguns vagalumes na vegetação dos canteiros abaixo:

— Faz quase 200 anos que morremos...

Completou Sagafaya que estava sentado ao seu lado:

— Como isso é possível Saga?

— Foi o que eu disse á você, aquela era uma pedra de ressuscitação, uma magia muito antiga e há muito esquecida.

— Mesmo assim depois de tanto tempo... Voltarmos do nada, quer dizer... Deve ter sido alguém muito poderoso que nos invocou.

Sagafaya suspirou e deu dê ombros:

— Neste momento há mais dúvidas do que certezas, mas pelo que descobrimos essa pessoa, seja ela quem for, não se encontra por aqui.

— Tem razão, talvez estivesse de passagem por aquela loja apenas.

— Sim, talvez, contudo parece que há uma cidade ao lado bem maior do que essa, quem sabe tenhamos mais sorte indo até lá.

— Ah, é claro, e para completar ainda estamos em terras do sul, não há nada mais do que rebanho e camponeses por aqui.

Falou dessa vez Kadec visivelmente incomodado:

— Se Vossa Majestade veio para cá é por que não teve escolha, tudo indica que é um local seguro.

— Sim, talvez fosse a única alternativa possível.

— Em todo caso, deve haver descendentes de Kidan em algum lugar deste reino, devemos conseguir boas informações e se possível nos dirigirmos até eles.

— Por que não vamos agora à cidade ao lado?

— Esta tarde, o local é próximo, mas é melhor passarmos a noite aqui, não devemos chamar a atenção até obtivermos informações e recuperarmos nossas armas.

— Entendo.

— Bom eu irei dormir, acho que a floresta é um bom lugar para passar a noite e você trate de ficar perto e não sair por ai.

— Sim senhor, pode deixar.

**************

O sol da manhã já começava a esquertar e Shana preparava o café da manhã, seu avô havia saído mais cedo que o normal e Osora ainda dormia esparramada em sua cama:

— É estranho, o vovô geralmente toma café para sair... Bem que seja.

Disse á si mesma enquanto arrumava a mesa do desjejum, a especialidade da garota era a cozinha, ela sabia fazer de tudo, suas comidas eram muito saborosas e elogiadas por todos, preparou um café fresquinho e panquecas, as preferidas de sua prima, quando terminou de arrumar tudo, dando um suspiro satisfeita de seu trabalho, Osora apareceu na porta ainda bocejando e de camisola:

— Wuaaah... Bom dia.

— Bom dia.

Respondeu com um simpático sorriso no rosto:

— Por que você não me acordou Shana?

— Não quis incomodá-la.

A garota sentou-se à mesa e tomou um gole do café:

— Você sabia que eu queria ir cedo pra academia.

— Você já esta formada Osora, não deve ficar indo lá toda hora.

— Eu sei, mas ainda tenho muito que aprender com o mestre.

— Tenho certeza que sim, por isso mesmo coma bastante, o vovô saiu e eu não gosto muito de panquecas mesmo.

Disse empurrando um prato com três delas para mais próximo da garota:

— Saiu? Pensei que ele trabalhasse mais tarde hoje.

— Parece que ele anda bem ocupado.

— Ele sempre anda.

— Pois é, o vovô é uma pessoa bem requisitada.

Osora terminou de mastigar um enorme pedaço de panqueca e tomou um gole do café:

— Bem, mas deixa ele, se voltar mais tarde também poderemos ficar na rua até mais tarde.

— Você quer dizer treinar até mais tarde.

— É isso mesmo! Vamos até a clareira na floresta, hoje você irá me ajudar no treinamento.

— Ué? Não disse que preferia a academia e o mestre?

— Não seja boba também gosto de treinar com você.

— Sei...

Shana começou a fazer um ar de chateada, Osora foi até ela e começou a lhe fazer cócegas.

— Haaa... Dá um sorrisinho pra sua priminha.

— Hahaha... Para Osora... Hahahaha

************

Sagafaya e Kadec estavam do lado de fora do portão de Anick junto com alguns viajantes e comerciantes que também chegavam logo que amanheceu, havia sido de um deles que ambos conseguiram uma carona em uma carroça abarrotada de caixa de legumes, afinal não dispunham de dinheiro algum para a compra de cavalos, ale´m de não conhecer o caminho:

— Quer dizer que é aqui...

Disse Kadec observando o fluxo de pessoas que entravam e saiam da cidade, seja a pé ou em carruagens e animais:

— Anick...

Completou Sagafaya reparando nas construções e ruas bem calçadas com pedras cinzentas:

— Não me parece grande coisa.

— Bem, seja como for, vamos em frente Kadec.

Os dois atravessaram o portão em direção à rua principal, por mais que caminhassem em silencio chamavam a atenção, Sagafaya pela cor excêntrica de seus cabelos e Kadec pelos olhos:

— Droga! Estes infelizes estão nos encarando por quê?

— Não fale assim Kadec, são apenas camponeses e talvez algum possa ser descendente de Kidan.

— Hump... Ao que me parece são só um bando de miseráveis.

— Você não toma jeito mesmo.

— Bem, aonde vamos primeiro?

— Acho que podemos começar pelo mercado e talvez na biblioteca, quem sabe conseguimos alguma informação.

— Esta certo, então vamos come...

Kadec parou de falar de repente, ficou em silencio por um momento com um olhar sério observando o horizonte:

— Esta tudo bem?

Indagou Sagafaya, ele olhou ao redor como se procurasse alguma coisa e então respondeu:

— Senti a presença de Kay.

Sagafaya também assumiu uma expressão séria, apesar de estar surpreso:

— Acho que viemos para o local certo então.

— A sensação é fraca, mas com certeza é ela, parece que esta... Em batalha.

O outro garoto encarou-o, com um olhar ainda mais firme:

— Quer dizer que alguém esta com ela...

Kadec pareceu voltar a realidade com o comentário e exaltou-se um pouco com as palavras:

— Não seja tolo Saga! Eu sou o mestre dela, uma espada demônio não pode ser manipulada por qualquer um!

Sagafaya estava totalmente calmo e sério, respondeu sem alterar-se:

— Então quer dizer que essa pessoa que esta com ela não é “qualquer um”, vamos encontrá-la logo.

Notas finais
Como será que os antigos guerreiros irão adaptar-se a esse mundo 200 anos depois? Espero que tenham aproveitado o capítulo. Lembre-se de deixar seu comentário ou crítica, qualquer incentivo já é bem gratificante. Até o próximo capítulo!