The Legacy Of Kidan
5 Capitulo 4 - Seguindo em Frente
[...] “A joia do vale” não haveria outra descrição melhor para a cidade de Kidan, assim chamada entre os pequenos vilarejos devido a toda sua beleza e poder.
Entre as planícies e morros que formavam a região coberta pela grande floresta ela estendi-se de forma magnifica, a estrada que levava a ela era ampla e bem delineada, um pouco antes da entrada principal estava a ponte com bandeiras de ambos os lados nas quais tremulavam suas cores, um dos afluentes do grande rio Lyrus passava por baixo dela com suas águas límpidas e ricas em pesca.
O portão de acesso era fortemente guardado por guerreiros com armaduras pesadas e lanças afiadas, mais a frente era possível observar o arco de entrada, uma construção magnifica feita de mármore branco e ordenada com ouro e pedras preciosas, algumas palavras de uma língua antiga estavam talhadas, nunca soube o que significavam.
A cidade era de ruas limpas e bem cuidadas, as casas pareciam todas iguais e nenhuma construção tinha mais do que três andares na cidade com exceção do castelo é claro, nunca o vi de perto afinal era um forasteiro, apesar de Kidan ser uma cidade de todos em certos aspectos ainda se mantém fechada.
Ao leste na parte em que o relevo se elevava até formar altos morros cobertos pela floresta e onde estavam as nascentes, distinguia-se uma construção peculiar, lá estava o monastério da cidade, onde homens sabios decifram segredos antigos das primeiras eras.
As ruas próximas ao centro eram calçadas com pedras brancas e estranhas, nunca soube que tipo de mineral era aquele, vários canteiros com flores coloridas destacavam-se pela cidade, afinal ela é conhecida por seu festival da primavera, dizem que o castelo também é tomado por flores de incrível beleza com rosas vermelhas e brancas assim como a bandeiras que tremulam por toda a parte.
As feiras são um local á parte, muitos forasteiros fazem negócios por aqui, se pode achar de tudo nesses locais, especiarias de todos os cantos do continente, Kidan de fato é uma cidade linda e próspera, tive receio á primeira vez que vim até aqui afinal seus guerreiros são temidos por todos, apesar de habitantes simpáticos os guerreiros da cidade são um pouco diferentes, é bem fácil identificá-los mesmo sem qualquer armadura.
Soube que desde crianças são separados dos cidadãos comuns, todos eles dos jovens aos de patente mais alta moram na ala oeste da cidade e lá não é permitida a entrada de ninguém que não esteja ligado ao exercito.
A arena no centro da cidade é palco de grandes batalhas, nunca tive tempo porém para acompanhar nenhuma delas, soube que a partir dos 12 anos seus guerreiros já tem autorização para frequentá-la.
Apesar do castelo ser sem dúvida alguma a mais bela e magnifica construção da cidade há uma outra que chama a atenção de quem quer que vá até lá, o mais estranho é que ninguém sabe ao certo seu significado, cada cidadão de Kidan tem uma versão diferente para a história do monumento, a noite ele parece ainda mais instigante... Bem ao centro da cidade onde muitas ruas convergem para um só ponto, esta em meio á um enorme espelho d’agua retangular a estatua de um guerreiro, a água cobre-o na altura da cintura, não é possível distinguir seu olhos por causa do elmo, parece que ele emerge das águas com uma das mãos voltadas para o céu a empunhar uma espada, muitos dizem que sua expressão refere-se ao êxtase da batalha como quando se obtém uma importante vitória, entretanto na minha concepção sempre me pareceu que na verdade aquele guerreiro esta a desafiar os deuses[...]
Documento anônimo/ Data desconhecida
Havia passado três semanas desde que Sagafaya e Kadec tinham iniciado seu treinamento na academia de Anick, durante esse tempo eles não saíram de lá nenhuma vez, não aparecendo na casa de Hyou, Toy havia sido o único que os tinha visto já que Osora se recusava e ir lá e Shana não iria se não fosse acompanhada de sua prima, afinal, não era muito fã dos treinamentos.
Naquele dia o tempo estava um pouco mais úmido do que o normal, anunciando que talvez logo uma chuva chegaria a região, Osora levantou passado das nove da manhã, era muito preguiçosa e se não fosse para treinar se recusava a levantar cedo, ainda de pijama desceu as escadas e foi até a cozinha:
— Bom dia Osora.
Disse Shana logo que a viu entrar pela porta de acesso:
— Bom dia.
Respondeu ela enquanto procurava um copo para beber água:
— Bom dia Osorinha! Você fica tão bo-
Antes que Toy terminasse de falar Shana tapou sua boca e advertiu baixinho:
— Shiiuu Toy, não provoque Osora pela manhã, sabe como ela é mal humorada nesse horário.
— Mas eu nem disse nada! Eu iria só fazer um elogio.
— Sei...
Nisso Osora finalmente percebeu a presença de seu primo e já foi reclamando:
— O que você esta fazendo aqui tão cedo Toy?
— Eu ajudei a Shana com as compras da manhã e ela me convidou para tomar café, por quê? Esta feliz em me ver?
Disse ele contente, ela terminou de beber a água e respondeu sem ao menos o encarar:
— Hump, até parece, por mim você deveria aparecer aqui uma vez ao ano e não todos os dias como sempre faz.
— Como você é insensível e cruel Osora.
Ela não deu ouvidos aos lamentos de Toy e voltou novamente para o quarto a fim de banhar-se e trocar de roupa.
Após alguns minutos, enquanto sentava na cama para colocar os calçados notou o medalhão na mesinha ao lado, o admirou por uns instantes e lembrou-se do dia em que havia vencido o tornei de Anick e o ganhado posteriormente, depois lembrou de quando encontrou Kadec pela primeira vez e também de como ele havia vencido facilmente os monitores da academia:
— Hump... Aquele idiota!
Disse a si mesma sussurrando de modo agressivo, levantou-se e foi até o espelho do lado direito da cama, o objeto era quase do tamanho dela, se admirou por alguns instantes satisfeita com a roupa que havia escolhido para aquele dia, passou a mão nos longos cabelos loiros e os levantou até o alto da nuca, pensou em atá-los mas então desistiu, depois saiu pela porta em direção ao primeiro andar.
Qual não foi a surpresa dela em descer as escadas e encontrar na sala Sagafaya e Kadec sentados:
— Vocês dois?! O que querem aqui?!
Sagafaya notou a presença dela e respondeu ainda sentado:
— Terminamos o treinamento na academia, então regressamos para a casa de seu avô.
— O que?! Co-como assim? Não voltariam daqui á um mês?
Surpreendeu-se ela indignada:
— Felizmente conseguimos aprender tudo o que seu mestre tinha para nos ensinar nestas três semanas, segundo ele a partir de agora devemos desenvolver magias mais elaboradas e nos fortalecer com a prática, para isso não é necessário ficar por lá já que afinal Kadec e eu temos pressa e seu mestre é um homem ocupado.
Osora não soube o que dizer depois aquilo, ainda não acreditava no que havia ouvido, só então notou que Toy estava sentado no outro sofá:
— Isso é realmente incrível Saga, vocês dois foram muito bem, saibam que para a maioria de nós levou dois anos para aprender as técnicas elementares não foi algo fácil, Osora que o diga afinal ela levou três anos, não é Osora?
Ela novamente sentiu vontade de espancar seu primo até a morte, porém outra pessoa havia chamado a sua atenção, Kadec estava no sofá da esquerda ao lado de Sagafaya, ela o encarou, entretanto a atenção do garoto não estava voltada para ela, um instante depois virou-se e foi em direção a cozinha sem dizer mais nada.
**********
O cheiro de café fresco impregnava o ar, Shana terminava de colocar as xícaras na bandeja, nesse instante alguém passou rapidamente pelas suas costas e saiu pela porta da cozinha, ela virou-se e ainda pode ver cabelos dourados esvoaçantes antes da porta se fechar novamente:
— Oso...
Não pode terminar a frase, pois Osora já havia saído, por um momento pensou naquela atitude e ao lembrar que Kadec e Sagafaya estavam na casa já imaginou o porquê daquilo tudo, deu um longo suspiro e levou a bandeja até a sala:
— Ha! Café quentinho!
Comemorou Toy assim que a garota chegou:
— Isso não era necessário, mas eu agradeço.
Falou Sagafaya enquanto recebia dela uma das xícaras:
— Você dois tiveram um duro treinamento e devem estar cansados, aproveitem o café e depois podem deitar no quarto de hóspedes se quiserem, também tem algumas roupas lá, vovô que arrumou.
Os dois vestiam o uniforme da academia, afinal realmente não tinham outras roupas a não serem aquelas, o modelo consistia basicamente em uma calça de linho escuro até a altura dos joelhos e uma camiseta de mangas curtas de algodão cru:
— Seu avô esta fazendo muito por nós, realmente ele é uma pessoa bondosa, à poucos como ele por ai, eu fico imensamente agradecido e á vocês também, afinal desde que chegamos estamos dando muito trabalho á todos.
— Não, não é trabalho algum e eu tenho certeza que o vovô esta muito feliz por conhecer vocês dois, como ele disse somos descendentes, creio que também façam parte de nossa família.
Disse a garota finalizando com um sorriso, Sagafaya fez um gesto de agradecimento com a cabeça e depois tomou um gole do café que ela havia lhe entregado á pouco. Shana terminou de distribuir as xícaras e sentou-se no outro sofá ao lado de Toy, que já foi indagando á Sagafaya:
— Bem e então, já que vocês dois aprenderam as técnicas elementares o que pretendem fazer agora?
Sagafaya tomou um gole da bebida e então respondeu:
— Como eu disse antes, primeiramente devemos recuperar nossas armas, sem elas não há muito que se possa fazer contra o grande exército de Kayamanaky.
— Humn... E vocês já sabem onde devem começar a procurar?
— Esse será o problema, se estiverem em poder de Kayamanaky será muito difícil reavê-las... Teremos que buscar informações e descobrir em documentos dos sobreviventes do nosso povo o que aconteceu com ambas, isso se na verdade houver alguma pista sobre elas.
— O vovô é um dos grandes historiadores de Hully, ele sabe muita coisa e até já trabalhou na capital do reino tenho certeza que ele deve saber onde devem procurar estas informações.
Falou dessa vez a garota e Toy foi logo concordando:
— A Shana esta certa e também o vovô esteve muito ocupado nestes dias que vocês ficaram na academia, tenho certeza que ele já deve ter encontrado algo que possa ajudá-los.
— Isso seria realmente ótimo.
Por alguns instantes se fez um breve silencio, todos ali não eram muito acostumados a conversar tanto, apenas Toy que não aguentava ficar calado já foi puxando assunto novamente:
— Eu soube que o seu elemento é água Saga, isso é verdade?
— Sim, é verdade.
— Nossa isso é incrível, não acha Shana?
O garoto deu um empurrãozinho nela com o cotovelo:
— Sim é impressionante, não se vê muitos dominadores com o elemento água é algo bem raro.
— Takezo me informou sobre isso, também me disse que este elemento faz a base para muitas magias de cura e proteção, é algo bem interessante.
— Pois é infelizmente a Shana não nasceu com o elemento água, afinal isso seria muito bom para ela já que será uma médica no futuro.
— Não fale assim Toy, eu gosto do meu elemento, apesar de que a água ajudaria nos encantamentos eu não tenho do que reclamar.
Falou a garota de forma ofendida:
— Sim, sim me desculpe não quis ofender seu elemento... Mas sabe Saga o meu elemento é mais ligado a força física, achei que você seria terra também, no fim foi uma grande surpresa.
— Parece que você não foi o único, seu mestre também me disse isso.
Concordou Sagafaya enquanto largava a xícara vazia sobre a mesa entre os dois sofás:
— Humn e você Kadec, é regido pelo vento, faz sentido já que você é extremante rápido, nossa eu mal pude ver o que você fez com o Sato e os outros, foi impressionante!
— Aquilo não foi nada.
Disse ele com desdém, e Toy falou novamente:
— Saiba que a Osora ficou muito brava, pois ela perdeu dois anos seguidos no torneio para o Sato, só venceu ano passado por que ele se formou.
— Hump, não me compare com aquela garota.
— A Osora também é muito forte Kadec, e também ela é do elemento fogo, por isso é meio violenta e explosiva daquele jeito, mas acima de tudo as pessoas do elemento fogo tendem a ser ambiciosas e se fortalecem a cada batalha.
Disse Toy, como se tivesse um grande conhecimento sobre o assunto:
—-Assim como Urish--
Sussurrou Sagafaya enquanto pensava no que o garoto dizia, Toy e Shana se entreolharam por um momento:
— Você disse que Osora perdeu 2 anos consecutivos para Sato não é? Então Kay estava com ele antes? Ela seria o prêmio do torneio?
Toy ficou em silencio um segundo antes de responder:
— Não, na verdade o prêmio do torneio é somente o reconhecimento e tal, porém ano passado Osora além de vencer também conseguiu o medalhão, ele é dado aos que mais se destacam e se esforçam durante a academia, já fazia muitos anos que ele não era dado a ninguém, assim como o anel da Shana, ela o ganhou pelos mesmos motivos.
— Diziam que os primeiros donos desses objetos eram pessoas muito honradas e que deram tudo de si para o bem de seu povo e que aqueles que os recebem devem seguir seus passos.
Completou a garota sorrindo enquanto olhava para o objeto azulado em seu polegar:
— É verdade, todos da cidade conhecem estes objetos e na verdade eles são de vocês dois, isso não é incrível?! Os sobreviventes do clã Kidan continuaram a honrá-los mesmo depois que vocês haviam morrido.
Sagafaya não disse nada e apenas permaneceu em silêncio, quem falou então foi Kadec:
— Bem, você ainda não disse como aquela garota conseguiu Kay, se ela não estava como prêmio da academia com quem ela estava?
— Na verdade, eu não sei... Nunca havia ouvido falar dela antes.
Respondeu Toy e Shana completou assim que Kadec a encarou também:
— Eu também não... Foi de repente que Osora apareceu toda contente com aquela espada, apenas disse que era merecedora dela, eu nunca entendi direito.
— Eu também me lembro, Osora nunca a levou nos treinamentos na academia, mas gostava de treinar com ela na floresta.
Toy e Shana ficaram pensativos e Sagafaya voltou a falar:
— É estranho que alguém que não possa vencer um adversário como aquele garoto tenha conseguido empunhar Kay, apesar de Kadec ter drenado muito de seu poder, ela ainda tem sua vontade própria e Kadec ainda é seu mestre, ela não o trocaria facilmente assim, mesmo depois de morto... Seria necessário um pacto ou algo do tipo...
Enquanto ele ainda falava sobre aquilo a porta da entrada principal da casa se abriu, Osora apareceu acompanhada de seu avô:
— Olá garotos, parece que retornaram, creio que tenham obtidos bons resultados com o treinamento.
Disse o ancião assim que os viu, Sagafaya levantou-se e apertou a mão de Hyou:
— Excelentes eu diria, senhor.
O velho retribuiu o aperto com um sorriso e depois sentou-se em sua poltrona de honra na casa:
— Mas vamos lá me contem como foi, gostaria muito de saber como o coitado do Takezo se desdobrou em dois para ensiná-los.
********
Durante o resto daquela manhã Sagafaya contou a Hyou sobre o treinamento na academia e depois do almoço a chuva finalmente chegou à região, deixando o dia escuro e um pouco frio para a estação.
Hyou logo após almoçar foi para um merecido sono da tarde, enquanto a Sagafaya depois de certa insistência por parte de Shana foi descansar no quarto destinado aos hospedes, ela porem não teve a mesma sorte com Kadec, que apenas aceitou tomar um banho e foi para a varanda observar a chuva.
Ele observava pensativo o horizonte quando sentiu a presença de alguém em suas costas, virou o rosto e observou, era Osora.
Em sua mão direita a garota trazia Kay na bainha, aproximou-se e a dois passou dele disse:
— Vovô pediu que eu a entregasse á você, no tempo que ficou na academia ele tomou conta dela.
Kadec estava sentado na pequena divisória de madeira pintada que separava a varanda do terreno, levantou-se e ficou de frente para a garota, ela deveria ser cerca de dez centímetros mais baixa do que ele.
Osora esticou a espada na horizontal e a entregou, Kadec a recebeu com as duas mãos, mas ao tentar aproximá-la de si sentiu uma leve resistência, Osora ainda segurava a arma admirando a bela espada que recebera há cerca de um ano.
A bainha era de um couro resistente e escuro adornado com botões de prata, a arma porém estava longe de ser uma objeto tão comum, mais curta que a maioria das espadas e certamente bem mais leve e equilibrada, a lâmina era de um prateado límpido e sem riscos, mas o que mais lhe chamava a atenção era os adornos na guarda acima da empunhadura, no qual destacava-se uma pedra redonda de um vermelho vivo como o sangue:
— Não vai soltar?
Disse ele seriamente, a garota levantou o olhar e encarou a seus estranhos olhos:
— Irei recuperar ela um dia, custe o que custar.
Os olhos de Osora estavam firmes e convictos, Kadec também não demonstrava qualquer tipo de hesitação, por um instante ela sentiu um arrepio ao encará-lo por tanto tempo e de tão perto:
— Se quiser ela de volta, terá que me tomá-la de mim, acha realmente que pode me vencer?
Houve uma breve pausa em que os dois se mantiveram sérios, então ela finalmente respondeu:
— Farei o que for preciso e derrotarei você, pode ter certeza disso.
Osora soltou a espada e saiu pelo mesmo lugar que havia chegado, por um instante Kadec observou Kay e depois voltou ao mesmo lugar que estava antes.
**********
Sagafaya teve um merecido descanso naquela tarde, durante as três últimas semanas eles realmente haviam dado tudo de si no treinamento de Takezo, que exigiu o máximo que pode dos dois, e como resultado haviam conseguindo aprender as técnicas que ele planejava.
O quarto que ele estava era bem simples havia mais uma cama além da sua com uma pequena mesa entre elas, mais ao fundo ao lado da porta um armário com a metade de sua altura, dentro dele algumas toalhas, roupas de cama e as vestimentas que Hyou fornecera para ele e Kadec.
Sentou-se e colocou os dois pés no chão, por um breve momento refletiu depois se levantou, vestiu-se e saiu pela porta, o quarto de hospedes ficava no primeiro andar, um corredor levava até a sala, não havia ninguém lá, ele imaginou que com aquele tempo todos na casa deveriam estar descansando:
"Passam das cinco..."
Pensou enquanto verificava as horas no enorme relógio da sala, foi até a varanda e encontrou Kadec sentado no mesmo local:
— Esta com Kay de volta.
Disse logo que chegou, reparando na espada em sua mão:
— Sim...
Respondeu Kadec, ele caminhou até o seu lado e também ficou observando a chuva:
— Decidirei hoje para onde devemos seguir, e assim que esta chuva passar devemos iniciar nossa viagem.
Kadec fez uma breve pausa e depois disse:
— Acha que elas estão em Kayamanaky?
— Realmente não sei, não posso dizer se outras pessoas poderiam empunhá-las assim como essa garota fez, se isso aconteceu, talvez Tartarus e Sey tenham outros mestres agora.
— Se isso for verdade será muito difícil recuperá-las, porém algo me diz que elas ainda estão esperando por nós dois.
— Kay lhe disse isso?
— Talvez, não sei ao certo, é apenas uma intuição.
Sagafaya suspirou e apoiou as mãos na divisória, admirou a chuva e a paisagem ao longe, uma brisa úmida soprava refrescante:
— Esta cidade me lembra um pouco Kidan e as pessoas daqui também, é um bom lugar para se viver, espero que possa se manter assim por mais tempo.
Kadec também estava refletindo, fechou os olhos por uns instantes e depois os abriu dizendo:
— Segundo o que Takezo nos contou, Hully já perdeu um grande território na fronteira com Kayamanaky.
— Sim, sabemos como as legiões de Kayamanaky são, esmagam seus inimigos sem piedade, mas temos que admitir que Hully não deva ser um reino tão fraco assim para poder manter por 200 anos resistência contra aquele império.
— Tem razão, deve haver pessoas poderosas nesse reino ou ele já teria sido conquistado.
Sagafaya cruzou os braços a frente do corpo e depois prosseguiu:
— Agora que conseguimos as magias elementares devemos desenvolver nossas habilidades ainda mais, porém durante o treinamento podemos notar que esses corpos não são como os nossos verdadeiros, não têm tanta força nem tanta resistência, devemos treiná-los mais ou isso acabará se tornando um problema no futuro.
Um barulho chamou a atenção dele, alguém estava na sala, a luz de lá clareou um pouco a varanda e logo Shana apareceu na porta de acesso:
— Olá, me desculpem... Bem o vovô esta chamando vocês.
Disse encarando-os:
— Logo estaremos lá.
Respondeu Sagafaya, para logo depois ela se retirar:
— Vai ficar contando historinhas com o velho de novo?
Resmungou Kadec de mau humor:
— Ele esta nos ajudando muito, acabou nos recebendo e cuidando de nossa estadia aqui, o mínimo que devo fazer é lhe dar atenção.
— Hump, eu não confio muito naquele velho, creio que ele sabe bem mais do que falou a nós, tenho a sensação de que esta nos escondendo algo.
Sagafaya não respondeu, mas na verdade havia pensado a mesma coisa, logo os dois apareceram na sala de jantar, Hyou estava acompanhado de Toy, que por sinal estava mais contente do que nunca.
Na mesa havia alguns pergaminhos e um deles estava aberto à frente do anfitrião que se sentava na cabeceira da mesa.
— Boa tarde garotos, espero que tenham tido um bom descanso, esta um ótimo dia para tal.
— Sim senhor, tivemos um ótimo descanso.
Sagafaya sentou-se do lado direito de Hyou, Kadec sentou ao seu lado, Toy por sua vez estava do outro lado da mesa:
— Há algum assunto que devêssemos tratar?
Indagou Sagafaya do mesmo jeito sério de sempre:
— Na verdade sim, algo muito importante por sinal... Bem, segundo o que haviam me dito antes, pretendem ir atrás das espadas demônios Tartarus e Sey.
— Sim, este será nosso passo seguinte.
— Pois bem, tomei a liberdade de enquanto vocês estavam sob treinamento, buscar informações e através de meus contados, creio que encontrei algo que pode ajudá-los...
Sagafaya estava muito concentrado escutando o que Hyou dizia e notou que o que se estendi na mesa era um mapa:
— Duzentos anos não é pouco tempo como bem sabem, e o fato de Hully estar em guerra contra Kayamanaky dificulta ainda mais qualquer troca de informações com aquele lado do continente.
— Sabemos disso, a nossa esperança é que haja alguma informação sobre nossas espadas nos documentos posteriores a vinda dos sobreviventes de nosso clã para cá.
— Sim, também pensei nisso, tenho alguns conhecimentos relacionados ao clã Kidan e infelizmente não há nada nos registros que diga algo sobre tal, porém sou apenas um homem e nem em toda a minha vida poderia ter lido tudo o que se refere a Kidan e Kayamanaky, Anick também é apenas uma cidade pequena, esta distante da zona de guerra e dos grandes centros urbanos, nem todas as informações chegam por aqui.
— Entendo... E então o que nos sugere?
— Como eu disse a real informação não chega até aqui, mas há um local onde tenho certeza que vocês poderão encontrá-la...
Hyou girou o documento na mesa e o demonstrou a ele, era um mapa das terras do reino de Hully, abrangia todo a parte sul do continente.
— Esta é a capital do nosso reino, ela recebe o mesmo nome, Hully, lá esta concentrada toda a informação sobre Kayamanaky e também foi pelo norte da capital que nossos antepassados vieram, atravessando o rio Lyrus e então migrando ao sul, depois de conseguirem um acordo com o rei de Hully, estabeleceram-se onde hoje se encontra Anick.
Sagafaya observava os pontos sendo indicados no mapa a frente:
— Creio que nesse sentido você tenha razão, as principais informações estão sempre na capital do reino.
— Não é apenas isso Saga, na capital fica o castelo do rei e a biblioteca real, lá é um lugar enorme, você nem vai acreditar o quão grande ele é!
Disse Toy gesticulando e Hyou prosseguiu:
— Isso mesmo Toy, a biblioteca real é o maior acervo histórico do reino de Hully, muito se encontra naquele local, inclusive documentos sobre Kidan e tudo o que se sabe até hoje sobre Kayamanaky.
— Talvez tenhamos sorte, nesse local.
— Com certeza terão, tenho fé nisso.
Completou o velho sorrindo, o garoto fez um gesto de agradecimento com a cabeça e quem falou foi Kadec:
— Bem creio que como seja uma biblioteca sobre o domínio do rei, não seja tão simples de acessá-la.
— Sobre isso você tem razão, como eu trabalhei algum tempo na capital tive acesso a ela, mas é obvio que algo assim não se concede a qualquer um.
— É para isso que vocês dois tem a mim!
Disse Toy alegremente, levantando e interrompendo seu avô, Kadec, sério, perguntou sem entender o motivo daquela felicidade toda:
— Você? O que você tem a ver com isso?
— Ora, saiba que eu sou um grande amigo da princesa Nunaly, e ela não me negaria um pedido desses.
— Você realmente conhece a princesa deste reino Toy?
Indagou Sagafaya desconfiado, acreditando que apenas fosse mais uma das idiotices do garoto:
— Claro pode confiar em mim Saga!
— Toy esta falando a verdade, ele é muito amigo da princesa Nunaly, no último verão ele esteve na capital para visitá-la, os dois se conhecem há muito tempo, a princesa é uma menina muito amável e simpática tenho certeza que faria este favor a Toy.
Confirmou o avô do garoto:
— Eu e o vovô estabelecemos uma rota para vocês, olhem só.
Toy demonstrou o tracejado no mapa e depois disse:
— Nós poderíamos ir pelo lago Vitae, mas o vovô acha melhor irmos por terra, demorará um pouco mais, porém não é uma diferença tão grande assim.
— O lago Vitae nem sempre tem barcos disponíveis, e nessa época talvez vocês tivessem de esperar mais de um mês para conseguir lugar em alguma embarcação, se forem por terra seguirão sem interferências pelo caminho, talvez demorem um pouco, mas será mais segura a transcorrência da viagem.
Ambos analisaram o mapa, ao norte de Anick havia uma grande porção de água que se estendia sobre grande parte do sul do reino e desembocava a oeste no mar, a leste havia terra firme e ao norte um pouco distante estava a capital Hully.
— Quanto tempo acha que levaremos nesta viagem?
Perguntou Sagafaya a Toy:
— Creio que um pouco mais de três meses.
— Claro que pelo lago Vitae com sorte chegariam mais rápido, porém deveriam pagar um suborno muito caro para tal, afinal seriam 3 tripulantes extras e infelizmente não sou um homem de tantas posses assim.
Finalizou Hyou com um sorriso e Sagafaya o observando falou:
— Sim, não abusaríamos de maneira alguma de sua generosidade senhor Hyou, a rota que estabeleceram esta ótima, Kadec e eu ficamos muito gratos pela ajuda.
Ele levantou-se e cumprimentou o velho, depois também cumprimentou a Toy:
— Também agradeço a você Toy, que será nosso guia e contato com a princesa nessa viagem.
— Parece que partiremos em breve então.
Falou Kadec puxando o mapa para perto de si, Sagafaya ainda de pé voltou a atenção novamente para Hyou dizendo de maneira séria:
— Depois de tudo que fez por nós dois sem ao menos nos conhecer, fico realmente envergonhado por isso, mas antes de partimos tenho um pedido a lhe fazer senhor Hyou.
— Se estiver ao meu alcance, com certeza irei atendê-lo.
— Talvez a decisão não seja totalmente do senhor, porém mesmo assim gostaria do seu consentimento... Peço que uma de suas netas nos acompanhe nesta viagem...
— O que?!
Exclamou Toy surpreso com a proposta, tanto quanto seu avô:
— Soube que sua neta Shana é um prodígio em magias de cura, não creio que teremos problemas até a capital, mas seria muito bom estarmos prevenidos para eventuais... Acidentes, afinal Kadec e eu devemos estar na melhor forma possível quando recuperarmos nossas armas.
Por um instante Hyou pensou, tentando adivinhar onde realmente o jovem guerreiro queria chegar com aquela proposta, depois respondeu calmamente:
— Bem, como você disse a decisão não é totalmente minha, se Shana concordar creio que não haverá problemas quanto a isso.
**********
A pedido de Hyou, Toy buscou Shana e a levou até onde eles estavam, depois que seu avô explicou a situação à garota, Sagafaya disse a encarando:
— Essa é a minha proposta, gostaria que se juntasse a nós na viagem, como você deve saber realmente precisamos de alguém com seu dom em nossa equipe, é sempre bom ter um médico por perto.
Por um momento ela pareceu meio confusa, depois respondeu não muito segura:
— Eu-Eu entendo, mas... Eu não sou médica ainda, apenas acabaria atrapalhando.
— Não se preocupe você não nos atrapalharia, e além do mais é apenas uma medida de precaução do que algo específico, sei que se formou recentemente, mas confio no julgamento de seu mestre.
A garota ainda não parecia muito certa do que deveria responder:
— Hã... Bem... Eu não sei... Como poderia deixar vovô e Osora aqui sozinhos?
— Que isso Shana vai ser divertido, o vovô pode se cuidar sozinho não é? Talvez ele possa ficar na casa da minha mãe até você voltar, e quanto a Osora...
Sagafaya esperava por aquela oportunidade e interrompeu Toy dizendo:
— Claro que se Osora quiser, ela também poderá nos acompanhar, tenho certeza que será uma experiência interessante, afinal é a capital do reino.
Kadec já começava a imaginar onde seu conterrâneo queria chegar com aquela proposta, então depois de alguns instantes a garota decidiu-se:
— Bem... Se Osora for eu vou, me sentiria segura apenas com ela por perto.
Disse meio sem jeito e Sagafaya concordou:
— Não vejo problema nenhum nisso, se Osora aceitar partiremos todos juntos.
Enquanto Toy dessa vez saia para buscar Osora que estava em seu quarto, Hyou pensava sobre aquela situação, sabia do risco que estaria correndo ao expor seus netos daquela maneira, mas talvez aquilo fosse até necessário, talvez pudesse tirar algum tipo de vantagem sobre isso. Logo Osora desceu e depois de certa insistência por parte de seus primos, ela finalmente aceitou ir, nunca deixaria Shana sozinha com Toy e aqueles dois idiotas, e acima de tudo queria recuperar sua espada e para isso teria de saber onde Kadec estaria:
— Ótimo, e quando partiremos?
Disse encarando Sagafaya:
— Em dois dias, creio que este tempo será suficiente para que os três possam resolver seus assuntos e arrumar mantimentos para a viagem.
— Sim, será o suficiente.
Respondeu Shana sorrindo e empolgada com a decisão de sua prima:
— Bem acho que estamos com tudo certo não é? Amanhã cedo irei encontrar alguns cavalos para nossa viagem, eu conheço um cara que me venderia alguns baratinhos com certeza.
— E eu e Osora iremos ao mercado para comprarmos mantimentos será uma viagem demorada afinal, não podemos esquecer nada.
Sagafaya apenas fez um leve gesto com a cabeça concordando com os dois e a atenção dele voltou-se para Hyou que até agora se mantinha em silencio:
— O que foi vovô? Esta tão quieto?
Perguntou Shana quando reparou que Sagafaya o estava o observando.
O velho se arrumou um pouco mais na cadeira e depois disse:
— Não é nada não Shana... Bem acho que podem acertar os detalhes da viagem depois, eu realmente estou faminto.
— Ah, claro vovô eu irei preparar algo para comer agora mesmo, você me ajuda Osora?
As duas se retiraram e Sagafaya anunciou também:
— Esperaremos na varanda, quando estiver pronto nos avise, por favor, Toy.
— Claro, pode deixar.
Kadec e ele se dirigiram para o mesmo local que estavam antes, a chuva já estava um pouco mais fraca do que há algumas horas e o céu ainda permanecia cheio de nuvens escuras:
— Não deveria ter convidado àquelas crianças Saga, irão acabar nos atrapalhando.
— Será necessário por hora.
Disse vagamente, Kadec se arrumou um pouco mais na mesma divisória de madeira:
— Hump, esta pensando em fazê-las de refém por acaso?
— Não faria isso com descendentes de nosso clã, pense nisso como um meio de assegurar que não seremos presos antes de obter a informação que necessitamos.
— Você esta achando que é algum tipo de armadilha?
— Não... Porém a atitude dele foi um pouco estranha.
— Também achei, mas se estivesse pensando em algo não mandaria aquele garoto junto.
— Sim, tem razão, mesmo assim é melhor termos certeza que atingiremos nosso objetivo, e também... Gostaria de conhecê-los melhor.
Kadec o encarou depois do último comentário:
— Aqueles garotos? O que você viu de interessante naqueles três inúteis?
— Talvez não sejam tão inúteis assim, afinal os três tem sangue Kidan.
— Hump, eu creio que a força que o clã Kidan tinha desapareceu quando acabaram por misturar seu sangue com esses clãs do sul.
— Eu não penso assim, as habilidades natas de nosso clã, tenho certeza que não se perderam, talvez apenas precisem do estimulo certo.
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