The Legacy Of Kidan
6 Capitulo 5 - Uma Nova Oportunidade
A manhã em que os antigos guerreiros de Kidan e os jovens Yokaidas partiriam de Anick finalmente chegara, por um longo tempo Osora e Shana despediram-se de Hyou, afinal aquela era a primeira vez que ficariam tanto tempo longe do avô:
— Por favor, vovô, cuide de sua saúde e não trabalhe tanto.
Recomendou a neta mais nova ainda abraçada nele:
— Não se preocupe minha querida eu irei ficar bem, tome conta de Osora e Toy e não deixe eles se matarem pelo caminho.
— Ei!
Disse Osora ofendida, estava próxima esperando para abraçá-lo:
— Eu é que terei que cuidar de todos, afinal sou a mais velha.
— Claro, claro Osora.
A garota também o abraçou e as duas foram até os cavalos destinados a elas, enquanto isso Sagafaya e Kadec se aproximaram:
— Mais uma vez, agradeço profundamente por tudo senhor Hyou.
— Foi uma honra Sagafaya.
Apertou sua mão de maneira firme:
— Não se preocupe, cuidaremos bem de suas netas e de Toy.
— Eu realmente espero que sim, são o que tenho de mais valioso nessa vida.
— Eu não duvido disso senhor, prometo que ficarão seguros enquanto estiverem ao meu lado.
— Acreditarei em suas palavras lorde Sagafaya, espero que realize seus objetivos e traga paz ao nosso reino, é tudo que peço aos deuses.
— Não se engane senhor, não buscamos a paz ao seu reino, o que buscamos é apenas a vingança e a guerra.
Hyou o observou em silencio pensando naquelas palavras obscuras, Sagafaya fez um sinal com a cabeça e se afastou, Kadec também apertou a mão de Hyou, porém não disse nada e apenas agradeceu com um gesto.
Enquanto os dois montavam seus cavalos Toy já estava à frente pronto para demonstrar o caminho:
— Até mais vovô! Tome conta da minha mãe!
Gritou já na estrada enquanto Hyou ainda abanava no portão de sua casa, sentiu uma leve emoção ao pensar que pelos próximos seis meses não os teria por perto:
— Por favor, os protejam...
Sussurrou aos deuses do fundo do coração:
— E a todos nós também, afinal creio que aqueles dois detêm o destino de nosso reino em suas mãos.
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Os primeiros dias de viagens do grupo transcorreram bem, afinal ainda estavam em uma região bem conhecida, o clima chuvoso já havia parado há algum tempo e quanto mais avançavam mais o solo se tornava seco facilitando o deslocamento dos cavalos pelo terreno plano.
A rota pela qual haviam optado levava-os para o leste, depois ao norte e após cruzarem a floresta que se estendia por toda aquela região rumariam para o oeste, contornando assim o lago Vitae e finalmente indo em direção a capital Hully, não haviam muitas cidades e povoados pelo caminho a maioria deles se concentravam no litoral ou na orla do lago e a rota que seguiriam passaria entre os dois.
Logo que a noite do 5º dia chegou, mais uma vez arrumaram um local para acamparem, afinal além de não terem tantas cidades por perto, não possuíam uma grande quantidade de dinheiro assim, para todas as noites ficarem em pousadas.
Toy arrumou uma fogueira, enquanto Shana retirava os utensílios para preparar o jantar.
Sagafaya e Kadec arrumavam as barracas e um pouco mais afastada dali Osora terminava de verificar os cavalos.
Na hora do jantar todos se sentaram em volta da fogueira, mais uma vez Kadec havia recusado a comida de Shana e isso a deixou profundamente preocupada:
— Mas, desde que saímos de Anick você não comeu nenhuma vez, nem no almoço de hoje, você não come nada!
Disse ela indignada com a comida que havia preparado pra ele em uma das mãos:
— Já disse que não estou com fome.
Rebateu Kadec, não dando muita atenção aos apelos da cozinheira:
— Talvez você não tenha gostado do que preparei, quem sabe se você me disser do que gosta de comer eu possa preparar para você.
— Não quero comer nada.
— Mas... Já sei! O que você comia na academia? Talvez eu possa repetir.
Kadec começava a ficar sem jeito com aquilo e irritado, cada vez mais Shana se aproximava dele movimentando o prato de comida no ar conforme ele virava o rosto:
— Você é surda garota?
— Mas...
Reclamou desanimada, realmente se sentia mal por não preparar nada que o agradasse, antes que tomasse coragem para insistir mais uma vez, Sagafaya se intrometeu dizendo a ele:
— Kadec pare de agir como criança e coma logo, ela vai achar que você não gosta da comida dela.
Ele bufou levemente e então aceitou o prato finalmente:
— Você deveria comer mais Kadec, esta muito magrinho, se você não se alimentar direito nunca vai ficar forte como eu e o Saga.
Falou Toy fazendo posse com o braço ao lado de Sagafaya que nem deu atenção a ele e prosseguiu comendo tranquilamente:
— Você não deveria chamar ele assim Toy, ele era um lorde.
Disse Shana tomando seu lugar próximo ao fogo:
— Não me importo que me chamem de Saga se assim desejarem.
Respondeu ele e prosseguiu comendo:
— Viu só Shana nós já somos íntimos, temos muitas coisas em comum começando pelo físico.
—Hump, só porque tem alguns músculos não fique se achando Toy.
Disse Osora comendo seu jantar do outro lado da fogueira:
— Você apenas esta com inveja dos nossos músculos, quer tentar a sorte é?
— Você é um imbecil mesmo, eu não me cansaria essa noite apenas para dar uma surra em você, já tive o bastante viajando por hoje.
Toy bocejou uma vez e depois anunciou:
— Bem acho que hoje eu já posso dormir na barraca das garotas.
— Até parece que eu vou dormir com você! Irá roncar a noite inteira!
Reclamou Osora e Saga foi o próximo a falar:
— Você dormira na mesma barraca que eu Toy, como todos os outros dias, Kadec fará a vigia esta noite, amanhã serei eu, depois você Toy, Kadec já esta de guarda desde que saímos de Anick, e enquanto as meninas creio que poderiam ficar fora dessa já que são elas que preparam nossa comida.
— É justo.
Completou Toy, depois levantou esticando o corpo:
— Concordo que Shana não precise, mas eu não ajudo de fato a cozinhar, poderíamos dividir o turno.
— Isso não é necessário, posso cuidar de tudo sozinho.
Osora o encarou com um olhar nada amistoso e levantou logo em seguida:
— Quer ser apenas você para depois dizer que somos inúteis? Não preciso que fique me protegendo, posso fazer isso sozinha.
— Você fazer algo sozinha?
Disse ele com desdém o que a deixou ainda mais irritada:
— Você se acha o máximo não é? Pensa que me impressiona com suas histórias de glória, ou por ter batido no infeliz do Sato? Só porque aprendeu uma ou duas técnicas mágicas acha que já pode se considerar invencível, pois ouça bem! Eu não tenho medo de você!
Kadec se levantou também aceitando o desafio, mas Saga foi mais rápido e se colocou entre os dois os afastando:
— Escutem bem...
Começou dizendo, segurou o braço de cada um e os aproximou de si:
— Creio que já basta dessas discussões, vocês não são mais crianças, nem você garota, nem você Kadec. Isso não é uma viagem a passeio, temos um objetivo e uma missão a cumprir, esquecem que a cada minuto que perdemos com coisas idiotas como essas, mais e mais soldados e pessoas inocentes morrem na guerra?
Kadec e Osora se encararam em silencio e Saga completou:
— Parece que vocês dois tem algumas diferenças a resolver, ficarão esta noite na vigia talvez devam passar um tempo juntos para se acertarem.
A conversa se encerrou por ali, Saga ordenou que Toy e Shana fossem para as suas camas logo e Osora e Kadec ficaram por ali para passarem aquela noite juntos na guarda.
Ela sentia o rosto quente de raiva em relação á Kadec, queria pular nele e o espancar até que desmaiasse, pensava sobre essa possibilidade quando ele se aproximou e apagou o resto da fogueira à frente.
Rapidamente ela voltou a sua atenção para ele, que nem sequer se deu ao trabalho de esperar ela dizer alguma coisa e saltou em uma das arvores próximas sumindo na noite:
— Desgraçado...
Sussurrou ela apertando os punhos, puxou a capa ao lado e colocou sobre as costas, uma leve fumaça saia do local onde antes ardia a fogueira, foi então que ela ouviu um ruído atrás de si, voltou-se rapidamente e viu Shana a lhe fazer sinal para que ficasse em silencio, Osora se aproximou até a entrada da barraca onde sua prima estava.
— Por que não foi dormir?
Disse baixinho, se certificando que Kadec não estava mais ali:
— Queria falar com você antes de deitar... Osora, por favor mantenha mais a calma.
— Não me peça pra manter a calma, aquele garoto me tira do sério, não suporto aquele jeito arrogante dele.
— Ele é assim mesmo, você tem que se acostumar, tente ser mais compreensiva e ignore o que ele diz.
— Mas...
— Sem "mas", se vocês dois não se acertarem provavelmente Saga irá mandá-la de volta e também foi você mesma que me prometeu que iria ajudá-los.
Osora refletiu por uns instantes, aborrecida, depois disse suspirando:
— Tudo bem, tudo bem... Vou tentar fazer isso.
— Tentar não, é uma promessa entendeu, se comporte.
Advertiu sua prima de maneira séria:
— Ok, irei me comportar.
— Ótimo, agora irei deitar, se cubra bem com a capa, boa noite.
— Boa noite.
Shana entrou novamente na barraca e Osora foi para o lugar onde estava sentada antes, ficou lá enquanto as horas passavam, a noite avançou e logo chegou a madrugada.
Parecia que o tempo demorava mais a passar durante a noite, a escuridão era intensa e a única luz que tinha era o brilho da lua que passava entre as folhas das altas árvores, não havia muitos ruídos naquela floresta a não ser os bichos noturnos, Osora arrumou um pouco mais a capa e se encolheu ainda mais, não gostou nada de ficar sozinha ali, suspirou fundo e olhou para o céu, devido as arvores não conseguiu ver muitas estrelas:
"Espero que essa viagem não seja mais longa do que parece "
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A garota sentiu algo a tocar-lhe o ombro e num susto se levantou rapidamente:
— Shiiiuu!
Disse Kadec colocando a mão na boca dela para que não gritasse:
— Sou eu, você acabou dormindo, pretendia fazer a vigia assim? E se fosse outra pessoa?
Osora se arrumou e sentou-se mais uma vez, depois disse sonolenta demais para falar mais do que aquilo:
— E você? Onde estava? Me deixou aqui sozinha.
— Apenas dei uma volta pela redondeza.
Ela bocejou e depois estremeceu um pouco, a temperatura havia baixado, Kadec sentou-se ao seu lado, porém um pouco mais afastado, por um longo tempo os dois permaneceram daquele jeito sentados, sem olhar um para o outro e sem falar nada, Osora estava caindo de sono, realmente se sentia cansada, porém não quis perder para ele e se mantinha firme.
Já deveria ser passado das quatro horas da manhã quando ela finalmente olhou para o lado e o encarou, ele por sua vez não fez o mesmo, estava compenetrado olhando para a escuridão à frente.
Osora notou que os olhos dele refletiam a luz noturna, como algum tipo de animal selvagem, ao observá-los por alguns segundo sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, nessa hora notou que agora eles estavam voltados para ela:
— O que foi?
— Nada...
Rebateu ela rapidamente, Kadec então voltou novamente a atenção para frente, os olhos dela encontraram a espada nas costas dele e então lembrou do que havia dito a alguns dias atrás na varanda de sua casa.
Com certeza ainda teria sua espada de volta, mas por hora havia feito uma promessa á Shana, e Saga também já estava de olho nas atitudes dela, por mais que também não gostasse dele de certa forma aquele garoto conseguia impor sua vontade e respeito em qualquer um, não conseguia argumentar quando ele a ordenava a fazer algo.
“Afinal, ele era um lorde... Porém parece que ele impõe respeito naturalmente, aqueles olhos frios e ameaçadores realmente me assustam..."
Refletiu enquanto olhava para o chão a frente, pensou então em puxar algum assunto com Kadec, mas nada que passasse em sua cabeça parecia possível e realmente não queria ter qualquer tipo de conversa que fosse com ele:
— Por que ainda esta me olhando? Se quiser me dizer alguma coisa diga logo garota!
Disse ele rudemente, porém num tom baixo para que os outros não acordassem, ela se assustou um pouco com a atitude inesperada, estava tentando pensar em algo para dizer e não percebeu que o encarava de novo:
— Bem...
Demorou um momento para continuar, enquanto isso ele a encarava com o cenho um pouco franzido:
— Desde que nos conhecemos não temos nos dado muito bem.
— Eu não disse em nenhum momento que queria manter algum tipo de relação boa com qualquer um de vocês três.
Osora sentiu o sangue ferver, como cabia tanta arrogância naquele corpo?
— Argh! Cala a boca! Me deixa terminar de falar! Você é extremamente irritante!
Disse brava, porém também num tom baixo e depois continuou:
— Shana me disse algumas coisas e eu acho que ela esta certa... Então eu quero propor a você, para pararmos com essas discussões idiotas.
Kadec permaneceu em silencio a encarando e ela prosseguiu:
— A não ser pelo fato de você ter roubado a minha espada e ser muito, muito arrogante, praticamente in-su-por-tá-vel... Eu não tenho nada contra você, então tirando esses motivos e você ser de Kayamanaky...
— Acho que Saga já deixou claro que não somos do mesmo sangue que aqueles desgraçados do reino, não nos compare á eles.
— É talvez... Bem, como eu disse antes... Vamos fazer uma trégua então, o que você acha?
— Não me importo com o que você queira fazer, desde que fique fora do meu caminho e mantenha essa sua boca fechada.
Osora sentiu mais uma vez o sangue quente subindo pelo rosto, porém lembrou-se de Shana e respirou fundo:
— Ok... Vindo de alguém imbecil como você, eu vou considerar isso como um “sim”.
Kadec não disse mais nada e voltou-se para o outro lado, Osora também ficou de costas para ele e assim ficaram até o dia amanhecer e retomarem a viagem.
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Eram um pouco mais que quatro horas da tarde quando o grupo chegou a Ravid, uma das raras cidades que eles deveriam encontrar pelo caminho, assim que chegaram ao local foram até uma das tavernas do centro para dar água aos cavalos e fazer uma breve parada para comerem:
— Eu já havia passado por esta cidade em outras vezes que fui a capital, muitos viajantes param por aqui.
Comentou Toy enquanto comia uma porção do pão que estava no centro da mesa:
— Segundo os mapas não há muitas cidades nesta região, essa é uma das poucas não é mesmo?
— Sim tem razão Saga, a maioria fica no litoral e perto do lago, a rota pela qual vamos não é uma rota de muitas cidades afinal.
— Bem, não importa desde que cheguemos a capital.
— Ah! Vocês irão adorar Hully é a cidade mais bonita que existe, com casas ricas e luxuosas e o castelo do rei então, nossa! Com toda certeza é a construção mais linda feita pelos homens desse continente.
— Pelo seu entusiasmo realmente parece.
Saga então notou as meninas mais caladas sentadas logo a frente:
— E vocês duas, já tinham ido alguma vez a capital?
— Bem, eu realmente nunca fui, Osora já foi uma vez quando era criança, mas creio que já não se lembre mais não é Osora?
— Humn...
Resmungou ela como resposta, sem prestar muita atenção, Shana apenas deu um leve sorriso e Saga então observou dessa vez Kadec ao seu lado, depois de um instante disse:
— Bem já que terminamos é melhor irmos indo.
Todos levantaram, Saga deixou duas moedas de prata sobre a mesa e se retirou, lá fora a cidade não estava muito movimentada e apenas alguns feirantes se encontravam pelas ruas:
— Vocês três estão livres para dar uma volta pela cidade eu e Kadec vamos resolver alguns assuntos, nos encontrem na saída norte daqui à uma hora.
O rapaz foi até onde estava seu cavalo e subiu:
— Não esqueçam, daqui á uma hora nos encontramos lá, não se atrasem.
Kadec também montou e foi atrás dele, logo os dois já sumiam por uma das esquinas:
— Resolver alguns assuntos? Mas o que é que aqueles dois teriam para resolver aqui se nem ao menos conhecem esse lugar?
Reclamou Toy sem entender a atitude de seus companheiros:
— Deixa pra lá Toy, eles que façam o que quiserem.
Resmungou Osora, virando de costas para a rua e cruzando os braços:
— Bem, temos um tempinho para andar por ai pelo menos.
Disse Shana sorrindo para os outros dois:
— Eu recuso, vou voltar lá dentro e comer um pouco mais, adorei a comida daqui.
— Você só pensa em comida Toy!
Ele apenas sorriu e entrou novamente na taverna:
— Bem eu também não estou com vontade de andar por ai então acho que vou ficar lá dentro também, vai que o Toy gaste todo o dinheiro dele.
— Humn... Tudo bem.
— Se você quiser que eu a acompanhe pela cidade eu posso ir, se estiver mesmo á fim disso, mas não acho que tenha algo interessante para se ver nessa cidade pequena.
— Bem, na verdade eu gostaria de procurar algumas ervas, apenas por precaução, caso um de nós precise, mas tudo bem, fique com o Toy, não é algo em que eu vá me demorar muito e você com certeza não irá gostar.
— Esta certo, mas tome cuidado por ai.
Shana concordou e então saiu pela rua, Osora por sua vez, voltou novamente para dentro da taverna.
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Saga e Kadec esperavam no local combinado, já estava passando cerca de dez minutos do horário que ele havia estipulado à todos e Kadec esbravejava de forma impaciente:
— Francamente, nem ao mesmo um horário aqueles três inúteis são capazes de cumprir, não passam de um bando de indisciplinados!
— Fique calmo Kadec, são apenas crianças, não são soldados logo eles estarão aqui.
— Aposto que ainda estão na taverna comendo e perderam a hora, só irão nos atrasar!
Saga suspirou, Kadec estava muito irritado, como sempre ficava por qualquer situação:
— Ok, vamos à taverna atrás deles, se isso for deixá-lo menos nervoso.
Próximo a rua onde estava localizada a taverna, havia um certo burburinho, Saga desceu do cavalo e o amarrou, foi até a frente do local onde estava concentrado um grupo maior de pessoas:
— O que esta acontecendo?
Perguntou a uma senhora a frente:
— Parece que é uma briga na taverna.
Saga chegou mais próximo, notou alguns vidros quebrados e dois homens desmaiados do lado de fora, enquanto do lado de dentro conseguia ouvir o barulho de uma certa confusão:
— Fique aqui Kadec, eu resolvo isso.
Antes que Saga pudesse dar mais um passo, a porta abriu e um homem alto e robusto apareceu, vestia um avental marrom e desbotado:
— Seus encrenqueiros!
Disse enquanto trazia Osora e Toy pelos braços para fora:
— Me solta! Eu vou matar aqueles imbecis!
Gritava Osora, Toy apenas sorria sem jeito, o dono da taverna os empurrou e depois advertiu:
— E não me apareçam mais por aqui!
Os dois caíram perto de Saga, Osora o ignorou por completo e voltou-se novamente para entrar no estabelecimento e dar uma lição no sujeito, mas Toy a segurou pela cintura:
— Calminha, calminha Osora.
— Me solta Toy eu vou matar aqueles velhotes! E você também tem culpa nisso idiota!
Com o cotovelo acertou o nariz do garoto que a largou na mesma hora, enquanto colocava as duas mãos no rosto, porém antes que ela pudesse andar mais Saga a segurou pelo braço:
— O que pensa que esta fazendo garota?
— Isso não tem nada a ver com você!
Saga não disse mais nada e a colocou de bruços em seu ombro:
— Onde esta Shana?
Disse encarando a Toy que estava no chão ainda com a mão sobre o nariz:
— Haa... Bem, ela disse que daria uma volta na cidade.
Respondeu com uma voz fanha:
— Creio que havia ficado claro o horário de encontro á todos vocês.
— Sim, mas sabe como é... Humn, aconteceu um imprevisto e daí começou a briga...
Saga suspirou mais uma vez, enquanto isso Osora batia em suas costas, esperneava gritando e ameaçando Saga de morte.
Kadec se aproximou e pegou o outro garoto pela roupa na altura da nuca o levantando do chão:
— Droga! Vocês não passam de encrenqueiros mesmo!
— Bem vamos sair daqui logo, acabaram chamando a atenção de todos, voltaremos para a entrada da cidade talvez ela esteja lá á nossa espera.
Saga então foi até seu cavalo e antes de subir soltou Osora no chão dizendo:
— Nós dois conversaremos depois garota, apenas eu e você.
Ela ficou em silencio, aquele jeito sério de Saga lhe dava um certo medo ou respeito, não disse nada e subiu no seu cavalo também, para logo ir atrás dos outros três.
************
— Estamos quase chegando.
Disse o garoto que ia a frente de Shana, era um menino que devia ter um pouco mais do que 12 anos, magro e com a roupa em estado deplorável, não vestia nenhum tipo de calçado. O havia encontrado há em uma das tendas que comprara ervas, ele implorava a ajuda das pessoas do mercado, pedindo dinheiro para comprar remédios para sua mãe doente, Shana não ficou indiferente aquilo e se ofereceu para fazer um tratamento na pobre mulher.
— É ali.
Disse ele apontando para um pobre casebre a frente, uma fumaça saia de uma chaminé de pedra já deteriorada pelo tempo:
— Vamos, me acompanhe moça.
Segurou sua mão e deu um sorriso gentil, a levou até a entrada da porta, a região era um pouco afastada da cidade em uma mata próxima.
A porta lentamente abriu enquanto as dobradiças rangiam, quando finalmente entrou no cômodo Shana notou surpresa a presença de três homens, com um baque a porta fechou atrás de si e depois se ouviu o barulho da chave girando:
— Quem é essa garota pirralho?
Disse um deles, estava perto do fogão a lenha, era baixo e lhe faltavam alguns dentes na boca, a barba por fazer e as roupas desleixadas, davam a ele um aspecto lamentável:
— Eu sou médica... Eu vim para ajudar a mãe deste garoto...
Disse ela calmamente dando um passo a frente, um dos outros homens começou a rir, estava sentado à direita onde empoleiravam-se algumas mochilas e sacos de dormir:
— Foi isso que você disse a ela pivete? Hahaha a cada dia você fica mais esperto.
O terceiro deles levantou-se e se aproximou:
— Esperto mesmo, olhe essas roupas e esse anel, tenho certeza que é filha de algum comerciante rico, creio que seu pai nos pagaria muito bem por você garotinha.
Pegou levemente uma das mechas de seu cabelo, ela deu um passo para trás assustada, depois virou bruscamente e encarou o garoto:
— Não leve para o lado pessoal moça, perder um pouco de dinheiro não irá lhe fazer mal, assim que nos der algo a deixaremos ir.
— Mas você me disse... E a sua mãe? Como... Era mentira?
— Sim era mentira, me desculpe mas dependo do dinheiro para sobreviver, apenas nos de seus pertences e poderá ir embora.
A garota ficou horrorizada com o que estava acontecendo:
— Como pode enganar as pessoas desse jeito? Elas apenas querem ajuda-lo e você as atrai para armadilhas! Isso é errado! Há outros meios para que você possa arranjar comida e um local para morar.
— Senhorita, nem todos nascem com pais que nem são os seus, esse pivete só aprendeu a se virar, o mundo é assim mesmo, quanto a nós somos criminosos é isso que fazemos para sobreviver.
Disse o que estava perto do fogão, ele aparentava ser o líder, Shana pela primeira vez notou a bainha que ele tinha na cintura juntamente com a faca, lembrou-se que a espada que Osora havia comprado para ela estava no cavalo na cidade:
— Você esta enganado, na verdade meus pais já morreram, não sou filha de comerciantes ricos nem nada, e este anel, foi um presente dado a mim. Há outros meio de ganhar a vida que não seja mentindo e enganando as pessoas.
— Isso é o que todos dizem, porém a maioria mente... Principalmente pessoas como você, não temos dinheiro e tal, mas depois de um certo tempo acabam cooperando, com o estimulo certo é claro...
Falou girando a faca na mão direita e prosseguiu enquanto caminhava na direção dela:
— Porém, como sou um homem muito compreensivo talvez possa acreditar no que me diz, se realmente for verdade e não tiver nada além deste anel para nos oferecer, talvez possa nos pagar de outra forma.
O homem deu um sorriso desprezível enquanto a olhava da cabeça aos pés:
— Espere, não precisamos machucá-la... Podemos pegar o anel e deixá-la ir.
O garoto posicionou-se a sua frente, parecia nervoso:
— Não faria uma indelicadeza dessas com uma dama tão bonita não é, deixá-la sozinha na floresta, seria um desperdício e tanto...
Quando ele deu mais um passo em sua direção um ruído o fez parar, eram cavalos do lado de fora.
**********
— Tem certeza disso Kadec?
Indagava Toy desconfiado, porém Kadec não o respondeu novamente:
— Como ele pode saber se a Shana venho para cá? Ele é um cachorro ou algo do tipo? E além do mais por que ela estaria num lugar como esse se o cavalo dela estava na feira?
Sussurrou baixinho á Osora que apenas mandou que ficasse em silencio, logo avistaram uma casa e Saga foi o próximo a falar:
— Ela esta lá Kadec?
— Sim.
— Há quantas pessoas na casa?
Antes que ele respondesse a da frente se abriu e um sujeito magro e alto saiu de lá:
— Boa noite, em que posso ajudá-los?
Era o que Shana havia visto perto dos sacos de dormir, Saga o encarou e depois disse seriamente:
— Você esta com algo que nos pertence, devolva a garota e o deixaremos viver.
Por um instante o homem ficou sem entender, depois começou a rir como se ele tivesse contado algum tipo de piada:
— Você esta falando sério garotinho? Hahahaha sinceramente, é a primeira vez que ouço algo do tipo hahahahahaha!
Ele pareceu não se incomodar com suas risados, desviou os olhos para Kadec e ordenou:
— Kadec, traga-a de volta.
O humor de Kadec estava péssimo como de costume, mas de algum modo ele havia conseguido ficar ainda mais irritado nauqele dia devido a toda aquela confusão:
— Espere! Tem certeza que a Shana esta lá?
Disse Osora aproximando seu cavalo perto de Saga, nisso os dois outros homens que estavam na casa apareceram, acompanhados do garoto e de Shana, um deles a trazia pelos cabelos com uma faca no pescoço.
Em um movimento rápido Osora desceu de seu cavalo, Toy também foi logo atrás dela e os dois se aproximaram do grupo a frente:
— A solte agora seu desgraçado!
Osora ameaçou, no mesmo momento que sacava a espada, uma arma comum que havia comprado em sua cidade natal:
— Calminha garotinha, não deveria brincar com uma coisa dessas pode acabar se machucando.
Os outros dois homens também estavam armados com punhais, até mesmo o garoto utilizava uma pequena faca, o que estava com Shana empurrou mais a lâmina prateada contra o pescoço da garota deixando escorrer uma fina linha de sangue:
— Por que vocês dois não largam isso crianças, hein?
**********
— Eu não avisei! Esses três só se metem em confusão! Perdemos metade do dia de viagem por causa desses imbecis!
Kadec esbravejou atrás deles antes de descer de seu cavalo, Saga não disse nada e apenas observou, Kadec se aproximou de Osora e Toy e os puxou com força fazendo os dois caírem sentados:
— Idiotas! Se não fosse por Saga eu mesmo mataria vocês dois!
Disse antes de se virar em direção aos homens e retirar Kay das costas com um ruído:
— Nem mais um passo!
Shana ouviu aquele que a segurava pelos cabelos ameaçar, porém antes que ele pudesse fazer algo mais, ela sentiu um líquido quente salpicar pelo seu rosto e um gosto horrível preencher seus lábios entreabertos.
O mais jovem dos bandidos soltou um grito de terror e o braço do homem caiu no chão ainda segurando a faca, antes que seu dono tivesse se dado conta do ocorrido a lâmina de Kay enterrou-se fundo em sua garganta saindo em sua nuca.
A garota caiu sentada no chão, não conseguiu em um primeiro momento assimilar aquela cena, a sua frente estava um braço decepado e mais ao seu lado caído o corpo de seu sequestrador.
Osora e Toy não conseguiram emitir nenhum tipo de som ou reação quando Kadec rapidamente desferiu mais um golpe fatal contra cada um dos outros homens:
— Não! Por favor! Por favor! Não me mate!
Implorou o menino enquanto estremecia e chorava no chão, assustado com tamanha brutalidade, apesar de estar com aqueles homens há tanto tempo era a primeira vez que via alguém morrer, afinal não participava de nada além de pequenos furtos.
Quando o choro do menino cessou e começou um gemido agonizante Shana moveu a cabeça para o lado e ainda pode ver Kadec retirando a lamina da espada do peito do garoto no chão, as lágrimas involuntariamente escorreram por sua face e seu corpo se moveu instintivamente:
— O que você esta fazendo?!
Disse se colocando de joelhos ao lado do corpo do garoto, que estremecia em uma poça de sangue:
— Ele é só um menino!
Gritou a Kadec em meio á lágrimas, enquanto rapidamente colocava as mãos sobre a ferida ensanguentada:
— Culpe a si mesma pela morte do garoto, menina idiota! Se você tivesse mais cuidado isso não teria acontecido.
Com um movimento Kadec retirou o sangue da espada e depois a colocou na bainha as costas.
Toy e Osora estavam de pé agora, assistiam à cena, atônitos e em silencio, Kadec parou a frente deles e disse mais calmo agora, porém não menos bravo:
— Se soubessem obedecer às ordens estaríamos bem longe deste lugar, espero que comecem a refletir mais sobre seus atos.
Nenhum deles respondeu, aqueles olhos negros com o rosto e o corpo manchados de sangue davam a ele um aspecto assustador.
Usando de todas as magias que lhe haviam sido ensinadas, Shana tentou curar o ferimento do menino, porém Kadec havia dado um golpe certeiro e ela apenas viu a vida se esvaindo de seu corpo a cada segundo que passava, então um silencio se fez, ele estava morto.
***********
As horas passaram e logo a noite finalmente chegou, porém diferente de antes Saga havia decidido que não haveria parada, tinham de recuperar as horas perdidas no incidente anterior, ninguém foi contra a sua ordem e durante boa parte da madrugada eles cavalgaram parando apenas depois que sentiram que os cavalos já estavam muito cansados.
Osora foi quem juntou mais lenha para o fogo, entretanto quando ela retornou com os pequenos pedaços de madeira apenas Saga permanecia acordado junto ao círculo de pedras acendendo a fogueira, o silencio predomiana no acampamento e os outros já estavam em suas barracas:
— Você irá vigiar hoje?
Indagou ela soltando o feixe ao seu lado:
— Sim...
Respondeu ele vagamente, ela ponderou por alguns instantes e depois deu de ombros:
— Bem acho que irei me deitar também.
— Espere... Esqueceu do que eu havia lhe dito mais cedo?
Com aquilo tudo realmente Osora havia esquecido da briga na taverna, afinal aquele tipo de coisa frequentemente acontecia:
— Tem razão... Queria conversar comigo.
— Isso mesmo.
— Creio que possa falar então, como você mesmo pediu estamos á sós.
— Serei bem direto, aquele tipo de atitude sua e de Toy não quero mais que se repita, sei que provavelmente quem começou a briga foi você, por um motivo certamente fútil, você é uma garota muito inconsequente e explosiva, porém Kadec e eu queremos manter o máximo de discrição possível enquanto estivermos por aqui, então showzinhos como aqueles são desnecessários... Talvez seja um pouco difícil para você e seus primos entenderem, afinal somos de mundos totalmente diferentes, porém eu gostaria que colaborassem comigo, façam o que eu os ordene para que o quanto antes possamos chegar a Hully ou situações como a que vimos hoje certamente se repetirão.
Osora escutou com atenção tudo o que Saga lhe disse e depois de um breve silencio falou:
— Ok, talvez eu faça isso por você, não que qualquer um de vocês dois mereça afinal...
Ela fez uma breve pausa e então prosseguiu falando:
— Quando aquele cara matou o garoto você não disse nada, nem o deteve, pensei que fosse um pouco diferente dele, mas parece que me enganei.
Saga a encarou, como sempre estava sério com uma expressão disciplinada no rosto:
— Esta enganada quando diz que não fiz nada, na verdade quem deu a ordem para buscá-la fui eu, ele apenas a executou... Kadec é um soldado, obedecerá a qualquer ordem que eu der, isso inclui matar ou manter a vida de alguém, essas são nossas obrigações, dar ordens e a executá-las.
Osora ficou incomodada com suas palavras, como ela pensava realmente não passavam de assassinos:
— Saiba que eu não confio em nenhum de vocês, desde o dia em que os conheci a minha perspectiva não mudou nem um pouco, só aceitei vir porque queria proteger Shana.
— Proteger... Eu percebi como você a protege...
A garota apertou os punhos sentindo o sangue ferver e ele continuou:
— Sei que nos acha assassinos, que só pensam em guerra e só querem ferir inocentes, já ouvi isso antes, você não é a primeira a nos chamar assim... Não vou negar que em certos aspectos você esteja correta, já matei realmente muitas pessoas e Kadec também, a morte delas trouxe paz e tranquilidade ao clã Kidan que por sinal foi o que deu origem ao seu.
Os dois se encararam com uma tensão crescente no ar e ela rebateu:
— Não fui eu quem pediu para que matassem pessoas! Vocês dois fazem isso porque querem, escolheram este caminho por conta própria!
Osora notou uma leve mudança no olhar de Saga e ele voltou a falar sem alterar-se:
— Talvez... Porém para quem se diz contra o assassinato você ficou muito feliz ao ver a sua prima salva, se Kadec não tivesse feito nada e aquele homem cortasse o pescoço dela me pergunto o que você e Toy teriam feito a seguir.
Dessa vez surpresa com as palavras dele Osora ficou em silencio, e por fim Saga encerrou a conversa:
— Já disse a você o que pretendia, vá deitar-se também.
Ela obedeceu e foi para a mesma barraca de Shana, Saga voltou a atenção para a pequena fogueira a frente, por alguns instantes lembrou-se da rainha de Kidan, Ayame e de sua maneira sempre gentil:
"Inconstante como fogo..."
Pensou fitando as tímidas labaredas, colocou mais alguns pedaços de lenha sobre elas e arrumou-se em seu lugar, amanhã seria um longo dia de viagem.
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