The Last Tear

8 Capítulo 6 - Acordada - Revisado


Eu não estava no hospital, era um quarto simples com uma cômoda, um armário, uma escrivaninha e a cama, no qual eu estava sentada. As paredes eram brancas e uma delas estava com um símbolo e uma frase, que eu desconhecia. Eu levantei, reparando em cada detalhe do quarto. Era bonito. As mobílias pareciam ser antigas, que davam a impressão de ser algo antigo e chique.

Sobre a escrivaninha eu vi um livro, com a capa velha, toda ferrada, formando fungos e provavelmente iria virar pó se eu o tocasse. Nele tinha um símbolo com a forma de infinito. Eu o abri, folheando as páginas todas amareladas e em um estado crítico de precisar ser redigido novamente. As folhas estavam meio queimadas, algumas faltavam partes ou estavam rasgadas e a maioria mostrava símbolos com o mesmo tipo de escrita da parede, que eu desconhecia por completo.

Andei até a parede, de frente para a cama, desenhado com um símbolo bem grande e uma frase. Eu ainda segurava o livro e fui folheando até encontrar um, igual ao da parede e que estava com a mesma frase "Nihil est quod Deus efficere non possit.". Sinceramente não entendi nada, até a porta abrir e o Keith entrar.

–A chorona acordou? — Ele sorriu brevemente, olhando como um provocador.

–E o palhaço apareceu? – Retribuí o sorriso.

–Sinto-me lisonjeado com o elogio — Respondeu e apontou para o livro na minha mão. — O que você está fazendo?

–Decifrando a frase. – Mostrei o livro para ele, depois passei a mão sobre o símbolo na parede.

–Você entende latim? – Ele me olhou surpreso, bem perto de mim.

–Não, por quê? – E foi uma resposta errada, porque ele sorriu.

–Eu estava duvidando mesmo. — Pegou o livro da minha mão e virou-se. — Você não vai conseguir decifrar nada, muito menos entender a frase.

–Não sou tão estúpida assim. – Resmunguei e ele levantou uma sobrancelha. — O que está escrito então? – Cruzei os braços e o encarei firme.

–Que humanos não devem mexer nas coisas dos outros. – Respondeu com aquele sorriso cínico e colocou o livro dentro de uma das gavetas da escrivaninha, trancando com uma chave que tirou do pescoço. Ela era pequena e dourada.

–Você se acha um palhaço muito engraçado, não?- Fui até ele, aproximando-me de seu pescoço e sussurrei. — O que está escrito?

Ele enrijeceu e antes de falar pensou um pouco, encarando a imagem na parede.

–Diz que "a Deus nada é impossível".

–E o que significa? — Ele olhou para mim e eu diria que não foi um olhar muito apreciativo, pelo que eu vi nos olhos dele, eu não tinha esperança alguma em sobreviver no mundo dos elfos e fadas e Harry Potter.

–Eu tinha certeza de que você não ia entender. — Ele pôs a mão nos cabelos e eu vi novamente a pequena lua em sua testa. — É a frase que faz com que este lugar não seja visto pelos humanos e nem invadido por demônios e filhos das trevas. "Nihil est quod Deus efficere non possit".

–O símbolo, o que significa? – O desenho era estranho, era uma coisa bem diferente e eu não tinha conhecimento do que representava.

–É a forma de mostrar a frase. Os dois se completam, o símbolo e a frase. O símbolo mostra o Mjolnir, o martelo de Thor, por ser feito de um material forte, indestrutível, só Deus pode derrubar, ou seja, este lugar não pode ser invadido e nem destruído por filhos das trevas e demônios, só Deus pode derrubá-lo.

–Onde exatamente eu estou? – Dei meia volta no quarto e nada, nunca tinha estado neste lugar.

–No seu mundo é um terreno vazio ainda em Nova Iorque.

–Como assim um terreno vazio? – Ele estava brincando?

–Para humanos normais é um terreno vazio que não pode ser usado, porém para quem consegue enxergar pode-se dizer que é um prédio sagrado, protegido por Deus.

–Há, isso foi hilário. Vocês são protegidos? — Duvidei. — E por Deus ainda? – Levantei uma sobrancelha. Era um sonho e eu me belisquei só para provar que eu ainda estava dormindo, na cama do hospital para variar.

Ai! Doeu pra caralho, como abelhas me picando. Sou alérgica, então é uma desgraça para mim. Abelhas não prestam, elas não fazem merda nenhuma a não ser me matarem. O elfo estava me olhando.

–Não, continua porque você é uma graça quando se belisca. – O sarcasmo era divertimento para ele e para mim. Agora não foi divertido, pelo menos não para mim. — O lugar é protegido por Deus. – Indicou ao redor. — E se Deus existe ou não eu não sei, nunca o vi e nem pretendo ver. Eu me protejo, Deus protege o resto, nós estamos felizes. Entendeu?

–Não entendi e não me importo. Por que você não quer ver Deus?

–Quando pessoas bonitas, inteligentes e respeitadas conhecem outras do mesmo nível, nós simplesmente não nos importamos. Eu não me sentiria bem vendo alguém mais bonito que eu, que no caso não existe. — Ele deu de ombros. Ótimo, isso já estava sendo comum. O ego dele superava o infinito, cem vezes mais. Isso me irritava.

–Um dia eu vou fazer você enxergar Deus na sua vida. — Falei amarga.

–Quando esse dia chegar, eu te levo junto para ver ele. — Ele riu e foi até a porta.

–Posso sair daqui? — Eu estava ansiosa para conhecer o lugar.

–Pode, mas não acho que os outros vão gostar. – Eu simplesmente sabia que ele não estava se importando com os outros, por que se importaria agora?

–Tem mais gente aqui? – Essa hipótese não passou pela minha cabeça.

–Lógico que tem. Você acha que só um elfo no mundo conseguiria matar um bilhão de demônios e filhos das trevas? — Ele riu.

–Sim. — Retruquei. — Não era você que se denominava o incrível-inteligente elfo?

–Sim, eu sou. — Ele deu de ombros — E também consigo ser mais e matar mais, para falar a verdade. Mas aí seria entediante, não acha? — Ele sorriu.

Deus do céu, esse elfo me dava raiva, ele chegava a ser irritante toda vez que abria a boca. Se toda vez ele não dissesse nada e a sua boca estivesse na minha, isso seria uma maravilha. Deus fez uma grande bosta dando o dom da palavra para ele.

–Como consegue viver consigo mesmo? — Perguntei incrédula.

–Eu consigo, às vezes é difícil. Principalmente quando olho para o espelho e vejo que sou tão lindo que dói. Não consigo resistir, eu choro. – Ele tentou imitar um choro e eu revirei os olhos. Ele estava me testando, sério.

–Por acaso, você já amou alguém? — Eu tinha que perguntar para confirmar uma coisa e ver se ele não era totalmente estúpido.

–Sim. — Ele respondeu.

–Quem? — Eu estava duvidando. Quem tinha a coragem de amar ele? Senhor, que dó da menina.

–Eu me amo. — Pelo ego dele era óbvio e eu perguntei, eu fui burra de ter esperança. Bom, ele salvou menos um coração partido nesse mundo. — Tem horas que eu me sinto traído, só para deixar as coisas mais interessantes.

–Keith, seu amor é muito grande. — Revirei os olhos e ele riu.

–Como está se sentindo?

–Bem, por quê? — Na verdade, eu estava ótima. Não me sentia nem um pouco cansada e a minha perna estava bem melhor, como se estivesse novinha em folha de um dia para o outro. Minha barriga roncou. — Estou com fome. – Falei meio envergonhada, olhando para os lados.

–Eu sei, eu ouvi. — Ele riu. — Vamos comer.

–Ótimo. Estou morrendo de fome. — Sorri.

Nós saímos do quarto e eu olhei ao redor. Era só um corredor, com um tapete longo, alguns quadros e vários quartos. Quando digo vários, são muitos, mais do que vinte. Segui o Keith até um elevador.

–Quantos andares tem esse prédio? — Perguntei enquanto esperávamos o elevador.

–Quatro.

–Quantas pessoas vivem aqui? – Eram muitos quartos, devia ser bastante gente.

–Comigo cinco. – Eu fiquei de boca aberta. Um prédio com quatro andares e somente cinco pessoas viviam aqui. – Cinco pessoas?! Para que tantos quartos se só cinco vivem aqui?

–Esse prédio não é só nosso, ele é público. Ele pertence aos elfos que precisam de um lugar para ficar. Por exemplo, eu. Vivo aqui faz dez anos. — Ele disse. — É como uma casa para mim.

–E os seus pais? — Eu não tinha visto outro elfo além dele, então não sabia se os pais dele moravam aqui. — Eles vivem aqui com você?

–Não. – O rosto dele ficou sombrio como uma nuvem carregada de raios e trovões. Eu não sabia dizer o que era, porém ele falou encarando a porta do elevador. — Meus pais morreram.

–Desculpa. – Eu não sabia o que dizer e permaneci calada, me sentindo mal por perguntar, porque eu sabia como era responder a esse tipo de pergunta. Você não consegue imaginar que a pessoa se foi e sofre mais pensando nela. Como a Laura, eu não aceitava a morte dela ainda e isso me doía mais.

Nós ficamos em um clima tenso, até o elevador chegar. Ele não disse nada e percebi que nós estávamos no 2° andar e fomos para o 1°. Nós passamos pelo corredor, onde havia quadros, vasos e alguns quartos, quando fomos para a cozinha. Era enorme, devia dar o meu quarto, mais o banheiro e a sala junto. A decoração era em branco e dourado e os móveis eram bem detalhados com símbolos iguais os do livro.

–Por que símbolos?

–Provavelmente o marceneiro era elfo, não é? — Ele riu, abrindo a geladeira e pegando uma maçã. — Pega. — Ele jogou a maçã e eu peguei. Ela parecia ser suculenta, bem avermelhada. Fui até a pia e a lavei, depois dei uma mordida bem grande daquelas que você arranca metade dela. Não sei se era a fome ou sei lá, mas a maçã estava muito boa, muito mesmo. Bem madura e doce.

–O quê? – O Keith me olhava achando graça em como eu comia a maçã. Sério, não dava para ser delicada em uma hora dessas. Eu estava morrendo de fome e fazia horas que eu não comia nada. – Desculpa, vossa excelência, eu não sou delicada. – Sorri e devorei a maçã. Tipo, devorei mesmo, igual a um carnívoro arrancando as tripas de um animal. Tudo bem que era nojento, mas parecia ser a mesma coisa e eu não estava ligando se ele olhava ou não. — Eu estou com fome, tem mais alguma coisa para comer?

–Fora a maçã que você engoliu, deve ter mais algumas coisas na mesa. — Ele disse, indicando com o olhar a porta que estava atrás de mim. Não a que nós entramos, mas a que dava para outro cômodo.

–Podemos ir? — O olhei ansiosa, querendo correr para encontrar um monte de comida em cima da mesa, se tivesse. Não sei, a minha fome chegava a ser tremenda.

–Vamos. — Ele deu um sorriso.

Dá para acreditar que apesar de eu estar na frente dele, ele apareceu que nem um vulto perto da porta e antes de mim? Eu ainda não sabia como ele fazia essas coisas.

Nós entramos e eu vi que era uma sala de estar com uma mesa retangular grande e um lustre lindo, enorme, pendurado em cima da mesa. Tinha um menino e uma menina sentados na mesa. Eles pareciam ter a mesma idade que eu e o Keith, apesar de eu não saber a idade dele. Mas, o elfo devia ter em torno de 17 a 19 anos.

–Droga, Gabriel! — A menina gritava com o outro. Ela estava de frente para ele, com um pão e uma faca na mão. Se não fosse pelo pão, dava a impressão de que ela ia matar ele. Ela estava com as mesmas roupas que as do Keith e as do menino, só que as dela eram mais justas e mostravam o quão pequeno o corpo dela era. Bom, não tão pequeno quanto a Laura. Ela tinha os cabelos loiros, que lembrava a Laura.- Eu disse que ia matar ele! – A menina gritou.

–Por que tanta gritaria? — Keith interrompeu e pegou um pão na mesa, sentando-se ao lado do garoto.

–Por que você acha? O Gabriel matou um dark que EU estava caçando! — Ela apontou a faca para o menino.

–Bom, desculpa se eu te salvei. Você não ia conseguir sair de lá viva se eu não tivesse chego a tempo. — O menino falou, espreguiçando-se como um gato. Literalmente um gato.

–Será que eu posso comer? — Murmurei quando minha barriga roncou e eu não estava nem aí para a briga dos dois. Os dois me olharam atentos, a loira e o gato, só percebendo que eu estava ali depois que falei. O Keith riu, óbvio.

–Sirva-se. — Ele disse, indicando para eu sentar ao lado da loira resmunguenta.

–Uma humana? — O menino perguntou, olhando para o Keith. — Por que uma humana está aqui? – Ele olhou surpreso para mim.

–É interessante, não acha? — Keith disse, passando a manteiga no pão.

–Não sou objeto e nunca quis vir para cá. — Falei me defendendo. Peguei um pão e me sentei. A menina me olhou com um nojo de dar raiva enquanto eu colocava o presunto, o queijo, a mortadela e depois o requeijão no pão. — Kate Maureen. — Me apresentei, sorrindo para ela. Ela me ignorou, foda-se.

–Por que você trouxe uma humana? — Ela perguntou, olhando para o Keith com raiva. – Isso não é permitido.

–Por que não, quem disse que humanos não podiam entrar? — Ele deu um sorriso. — Ela precisa conversar com a Karen. – Ele apontou para mim. Ótimo, quem era Karen e desde quando eu precisava conversar com ela?

–Por que a Karen? — Ela perguntou.

–Porque só ela pode ajudar a humana. — Ele olhou para mim, piscando. E perguntou ao menino. — Ela já voltou?

–Não, ainda está em uma operação. — Ele respondeu.

–Vamos ter que esperar ela chegar. — Keith disse para ninguém em específico.

–Ela não é médica, é? – Perguntei e todos me olharam. Depois que ninguém respondeu, completei. – Senão ela não vai me ajudar muito, principalmente porque estou em uma fase de ver coisas que pessoas normais não veem. — Keith e o menino riram.

–Sou Gabriel Firefly. — Ele se apresentou, depois apontou para a garota ao meu lado. — E ela é a Camila kingsford. — Eu nem liguei para a garota que me ignorou, ela estava na minha lista negra.

–Sou Kate Maureen. – Apresentei-me ao menino.

–Kate, por que você está com esse elfo? — Gabriel perguntou apontando para o Keith.

–Eu o convenci a me ajudar a encontrar a minha amiga, mas nem sei o porquê dele me trazer aqui. – Firmei meus olhos no Keith. Ele nem me disse quem era Karen.

–Você o convenceu? — Camila perguntou rindo. — Só pode ser mentira.

–Se você acha que eu estou mentindo ou não é problema seu, eu estou respondendo o que me perguntaram. — Respondi indiferente, ela me irritava. Keith riu e senti Camila me olhar com rancor.

–Posso matá-la? — Ela perguntou para o Keith.

–Pode tentar, mas não sei se vai ser fácil. — Ele sorriu para mim. — Ela quase matou um demônio sugador e se não fosse pelo lápis e tivesse uma flecha, ela teria matado o demônio.

–O quê?! — Camila estava incrédula. — Não tem como uma humana matar um demônio e menos ainda tentar!

–Olha querida, você não estava lá para ver. – Direcionei o meu olhar para ela. Era genética ou eles odiavam os humanos por prazer? — Se você me ensinar a usar um arco eu posso até te matar um dia, linda. – Sorri e pisquei para ela. Certo, eu a deixei furiosamente com raiva.

–Menos, humana. — Keith falou, não conseguindo segurar o riso. Ele estava gostando muito da nossa briga. — Você não conseguiria nem segurar o arco, muito menos atirar. – E a Camila sorriu, sentindo-se vitoriosa por alguém concordar com ela.

–Quer apostar? – Falei. Eu odiava sentir-me inferior, por isso sempre dei o meu melhor em tudo e consegui ser boa em tudo.

–Claro, por que não? — Ele me olhou, gostando do meu desafio. — Nunca perco uma aposta. — Sorriu maliciosamente.

–Perdão, idiota, você vai perder hoje. — Dei um sorriso cínico.