The Last Tear

18 Capítulo 16 - Lembranças


O céu estava escuro, o som da cachoeira me acalmava ao mesmo tempo em que me perturbava, enquanto que a chuva caía drasticamente sobre meu corpo, lentamente me deixando molhada e com muito frio. Meus pés estavam descalços e a energia da terra percorria meus dedos por cada passo que eu dava, procurando-o. Ele não estava ali, eu não o via. Mas, quem?! Quem eu estava procurando, desesperadamente?!

–Keith! — Gritei, começando a chorar. — Keith, onde você está?! — Debrucei-me até o chão, sentindo uma dor devastadora. Eu não estava ferida, mas doía, meu coração doía tremendamente e meu estômago embrulhava mais e mais a cada soluçada.

–Kate! — Eu olhei para cima e ele estava ali, todo molhado e com uma expressão de culpa, como se ele tivesse feito algo errado, muito errado. — Você está bem? O que aconteceu? Por que me chamou? — Fez uma pergunta atrás da outra, enquanto delicadamente me levantava e me abraçava com cuidado.
–Eles não aceitam, Keith. — A minha resposta me doeu profundamente. — Os anjos, meus irmãos... Principalmente Haziel, ele te odeia! — Apertei-o contra meu peito, muito forte para que ele não escapasse dos meus braços. Ele era muito importante para mim, sim, muito.
–Kate, meu amor, eu não vou te deixar. — Disse com uma paz absurda e passou a mão em meus cabelos, erguendo meu rosto gentilmente e fazendo com que eu o encarasse. — Você acha que EU não consigo te roubar dos seus anjos? — Sorriu travesso e nesse momento eu percebi, em seus olhos, que ele me queria e me amava muito. Não era apenas um dos muitos sorrisos do Keith, este, era muito importante para ele e para mim.
–Claro, "Rei dos Elfos", eu não duvido que você não me roube dos meus próprios irmãos. Como se você já não tivesse feito isso, certo? — Beijei seu nariz, provocando-o. Ele com certeza podia fazer qualquer coisa. O Keith tinha autoconfiança ao extremo e sempre conseguia o que queria. — Posso pedir algo? — Minha voz saiu fraca.
–Qualquer coisa. — Sussurrou em meu ouvido e limpou minhas lágrimas.
–Posso ficar com você até o amanhecer? — Seu sorriso me arrepiou totalmente e depois me pegou no colo, carregando-me até a cachoeira e dizendo um encanto, fazendo a caverna aparecer. Era o nosso lugar secreto, nosso esconderijo.
–Mas, só até o amanhecer senhorita. — Avisou e me beijou no rosto, me pondo na cama de madeira, antiga e aconchegante que tinha ali dentro, depois se deitou ao meu lado.
Estava quente e alguém me abraçava. Fui abrindo os olhos, sonolenta e cansada. Ele ainda dormia, tranquilo, sedutor e...Sem roupas?!
–Mas que diabos você está fazendo aqui?! — Perguntei enquanto ele dormia e...Nenhuma resposta, claro. — Que inferno! Onde estou?! — Sentei e fiquei em silêncio, tentando me lembrar da noite passada. Nada. Eu não estava me lembrando de nada. Minha memória estava branca, sem nenhum fragmento de ontem e nem do elfo.
Olhei ao redor e o quarto não era meu, era do Keith. Minhas roupas estavam no chão e as dele também. Eu só vestia um sutiã e a calcinha, e... O elfo também, ele estava sem roupa, só com a cueca. Jesus! Minha cabeça doeu e eu fiquei tonta, quase caindo quando senti uma mão em meu braço, puxando-me para deitar.
–Você está fraca, não devia se levantar! — Falou bravo e meio dormindo. Eu o empurrei quando tentou me abraçar. — Fique quieta! — Ele me segurou mais forte, enquanto eu esperneava, querendo sair dali. Merda!
–Você ficou louco?! Por que eu deveria dormir aqui com você?! — Falei inconformada com o corpo próximo ao meu, quente e sexy, segurando-me tão forte que era difícil mover um só dedo. — Não tenho privacidade nem para dormir?! — Bufei e ouvi ele rindo.
–Deus, essa menina só me dá trabalho! — Ele finalmente me soltou e depois levantou, sentando-se na beira da cama e me encarando sorridente. — Você não se lembra, não é? — Eu o encarei sem expressão alguma por alguns segundos, não entendendo nada, mas uma coisa me veio à cabeça rapidamente. Puta merda do caralho!
–Lembro, claro, nós fizemos sexo e... Foi bom?- Foi isso, eu tive que falar e ele começou a rir, bagunçando os cabelos com a mão. — O quê?! — Se não era sexo, era o quê? Eu estava sem roupa e ele também... Não tinha outra explicação, certo?
–Humana, você é muito engraçada. — Ele disse, parando de rir. Olhei seu corpo se levantando para pegar as roupas e reparei nos músculos que ele tinha, em todo lugar. Foda-se! Tudo era definido e bem proporcional, esse elfo era atraente como o inferno ao avesso! Deus, por que ele tinha que ter boca?! Essa criatura era perfeita, até abrir a boca e booooom...! "Eu sou o melhor, sou rei e vocês são meus escravos e blá blá blá", era o que normalmente saia da boca dele.
Tive um flashback enquanto o olhava de costas. Ele parecia estar com os cabelos compridos e usando um tecido na cintura, como aquele elfo...?
–Quantos anos você tem? — Foi uma pergunta aleatória e o Keith se virou, surpreso.
–Dezenove. — Respondeu frio, enquanto eu o observava se vestir.
–Há quanto tempo tem dezenove anos? — Bom, eu tinha quase certeza que elfos podiam viver por muitos séculos então era uma pergunta lógica. Não era? E, eu jurava que o conheci há muito tempo atrás. Não era por acaso que eu tive todos aqueles sonhos; provavelmente eram lembranças.
–Há muito tempo. — Ele sorriu e me olhou triste. — É melhor você dormir, seu corpo ainda está fraco. — Tentou mudar de assunto.
–Nós já nos conhecemos? — O ignorei e continuei com as perguntas. Ele sorriu, não entendendo o que eu estava tentando dizer com isso.
–É claro que nos conhecemos, você tem estado um bom tempo aqui, no meu quarto. Meu amor. — Levantou uma sobrancelha, sorrindo, e encarou o meu corpo, coberto até a cintura.
–Elfo, você entendeu muito errado. Tire esse sorriso dos lábios, seu idiota. — Revirei os olhos e cobri os seios. — Vou refazer a minha pergunta, nós já nos conhecíamos, antes do acidente? Há muito tempo atrás? Tipo, muito tempo mesmo, uns quinhentos anos atrás? — Os sonhos, eu tinha que confirmar se os sonhos eram reais e não apenas sonhos, mas lembranças... As minhas lembranças.
–Não. Nós não nos conhecíamos, humana. O acidente na floresta foi nosso primeiro encontro. — Respondeu sério e mesmo assim eu desconfiava dele, porque só podia ser ele. Tinha que ser.
Mentira. Você está mentindo. Pensei. Não podia ser outro elfo além dele, só se ele tivesse uma cópia, um irmão gêmeo.
–Eu não estou mentindo. — Respondeu como se tivesse lendo a minha mente e eu fiquei chocada. — Eu não minto e odeio mentiras. — Disse claro e firme para que eu soubesse que ele tinha lido a minha mente e não era apenas a minha imaginação. — E eu não tenho irmão, meu amor. — A exatidão quebrou o meu queixo.
–M-Mas, como você fez isso?! — Gaguejei pasma. Ele podia ler minha mente?! Isso era sério?! — Você lê a minha mente?! — Levantei em um pulo, nem ligando, expondo-me da cintura para cima.
–Não, minha querida, é você quem fala comigo. — Ele revirou os olhos e parecia entediado, enquanto que eu continuava chocada, em silêncio, tentando entender o que ele disse. — Ou seja, seus pensamentos chegam até mim, não sou eu quem lê sua mente. Você fala comigo por pensamento. Mas, isso só acontece às vezes. — Explicou quando meu queixo caiu mais um pouco e eu não sabia o que fazer.
–Ah claro, sou eu quem falo com você, às vezes? — Bufei inconformada e ele deu de ombros, me ignorando. — Eu só faço isso com você?! — E ele sorriu, se divertindo.

–Pelo que vejo, sim. Só comigo. — Curvou-se e sussurrou em meu ouvido. — Pode-se dizer que é algo bom, pois só eu consigo te ouvir. — Eu o repreendi com um olhar de nojo e.... eca! Nosso, mas que vida de merda!
–Isso é horrível! — Senhor, eu literalmente não tenho mais liberdade de expressão?!! A merda já estava feita quando eu nasci?! P.Q.P!!! — Agora não tenho privacidade nem para pensar?! — Eu deitei na cama, frustrada com a verdade e cruzei os braços, franzindo o cenho.
–Ah, Que dó. — Ironizou meu comentário. — Que anjo triste, coitadinha. — Se aproximou e sentou ao meu lado, erguendo meu queixo. — Não pense que sofre só por isso. Outros não têm o mesmo privilégio que você, meu anjinho.

Pronto, era só o que me faltava... Ele estava tirando uma com a minha cara.
–Elfo, quem tem o privilégio de ser um anjo?! — Era o cúmulo do cúmulo.
–Ninguém, por isso que anjos não têm privilégio. Eles nascem com isso, como eu. Sou um elfo abençoado, com corpo e mente de um Deus, claro. — Sorriu orgulhoso, todo cheio de si, e de alguma forma eu estava tentando entender de onde que ele tirava todo esse orgulho mesquinho do bolso. O mundo está foda mesmo para ter que existir um cara assim... Bufei.
–Nem tudo que pensa pode ser seu, meu "Deus". — Eu fui irônica com cada palavra e certamente ele estava com os olhos fixos em mim, arrepiando-me em toda parte, pois o Keith me desejava, sim, eu sabia que sim e estava escrito em seus olhos enquanto me analisava, começando com a minha boca e descendo cada vez mais. Ele apertou os lábios, estreitando os olhos.
–Não se engane quanto aos filhos de Deus e aos mais próximos dele: os elfos. — Ele disse com a sua voz firme e confiante. O elfo deu meia volta, pegou o colete e a adaga e disse antes de sair: — Seu treinamento começa amanhã, mas como já se levantou, vá comer alguma coisa e depois me encontre na entrada. — E saiu, sem ao menos me olhar.
Quando mencionou a entrada eu logo me lembrei do quadro, dos dois anjos caindo, um segurando o outro. Aquilo era triste.