The Last Tear

19 Capítulo 17 - Meu anjo e meu demônio


A paisagem e os dois, eu havia visto algo parecido, mas onde?
Passei a mão sobre o quadro, pregado na parede, com a imagem dos anjos caindo e se acolhendo, querendo um ao outro, ao mesmo tempo tristes, sentindo um a dor do outro. O que era aquilo? Eu conseguia sentir seus sentimentos e ao mesmo tempo não compreendia.
O céu grandioso, com o lago e a floresta. Os dois estavam fugindo ou caindo? O anjo olhava para ela, querendo puxá-la, enquanto ela caia? Estava confuso. Os dois tinham asas e estavam caindo?! Porra, mas nem em um milhão de anos isso seria possível!
–Isso é um inferno de estranho, senhor kdfdsjnkanf.... — Olhei o nome todo borrado do pintor, no canto do quadro. — Vai se fuder amigo, cherou muita cola no primário para desenhar isso heim. — E mostrei meu belíssimo dedo do meio para a pintura dourada.
–O que você está fazendo? – Levei um susto quando a mão do Keith pousou em minha barriga, puxando-me para perto dele, enquanto sussurrava em meu ouvido. – Então, com quem você estava falando? – Refez a pergunta, olhando do quadro para mim.
–Não te interessa e eu adoro falar sozinha. — Olhei a mão que estava pendurada na minha barriga e dei um meio sorriso. — Desencosta, Elfo. – Ele se afastou e eu fiquei encarando-o com as mãos na cintura, esperando alguma reação do capeta em preto com seus brinquedos de tortura bem na minha frente. Dois arcos, duas adagas e um punhado de flechas. – Aonde vamos?
–Caçar. – Estendeu um dos arcos para que eu pegasse e me arrastou até os fundos da garagem. — Será que eu vou precisar domar um leão com isso? — Levantei uma das sobrancelhas e inclinei o arco ao Keith, ele sorriu.
–Só se você quiser. — Eu o chutei. Esse cara tinha cada resposta absurda...
Nós entramos na floresta de novo, pelo portal que ficava nos fundos do prédio, a fucking shit in hell do buraco sem fim no escuro... Foi muito rápido, de um passo para o outro nós já estávamos no matagal com bilhões de insetos nas árvores, terra e no cu do céu, voando até mim.
–E agora? – Perguntei ao Keith, aquele ser parado e prestando atenção em sei lá o que, olhando para as nuvens.
–Agora nós esperamos. – Ele sentou, deixou o arco perto de si, encostou-se em uma pedra e fechou os olhos.
–Ótimo, porque eu adorooooooooo esperar. – Bufei e continuei em pé, querendo que um meteoro caísse agora mesmo. Seria bem mais interessante do que esperar o nada. – Meu Deus, cadê a porra dos coelhos para eu caçar?! — O elfo estava sorrindo, ainda com os olhos fechados e sabendo muito bem que a minha paciência foi pro saco quando nasci. – Merda! – Sentei sem saber o que fazer e comecei a fazer um buraco na terra.
Passaram-se meia hora e nada, ele continuava parado e meditando, para piorar. Levantei, andei de um lado para o outro, sentei, brinquei com uma galho, joguei fora e bufei, olhando para ele, encarando cinicamente seu rosto calmo e amaldiçoando essa prega até o meu cérebro abrir um inferno com as minhas palavras. Esse Elfo estava me tirando do sério.
Certo, eu não tinha nada para fazer e dormir seria uma boa escolha. Deitei e eu estava olhando o céu claro, esperando a porra de um nada. Um pássaro, não, uma águia. Ela estava voando em círculos, foi embora e depois de um tempo voltou, se aproximando cada vez mais, mais, mais, descendo e parecia vir em minha direção, cacete! Levantei em um pulo, me aproximando do Keith como se ele fosse fazer alguma coisa...
Não era só impressão minha, a águia apareceu do nada e foi direto para o braço do meu companheiro de meditação aqui.
–Como se não bastasse o leão, ele criou uma águia também. Que ótimo. – Meu olhar mortal foi direto para os dois animais.
–A humana e sua paciência, como se não bastasse a língua. – Ele deu de ombros se levantando e me carregando tão rápido que não tive tempo de argumentar. – Vamos á caça! – Mostrou as suas duas covinhas de menino, parecendo uma criança com aquele sorriso.
A adrenalina subiu tanto que segurei forte no Keith. Tudo estava borrado, tanto que não dava para saber o que era e o que não era uma árvore. Nós estávamos, não, o Keith estava em uma velocidade absurda.
–Elfo, eu vou vomitar se você não diminuir a velocidade! – Comecei a resmungar em seu ouvido, porque eu realmente iria se ele não parasse. – Eu estou falando sério, aquele lanche não me caiu bem! – E o agarrei forte, querendo esmaga-lo com meu abraço. Puxei seus cabelos e a camisa com força e finalmente consegui, ele parou. Não por mim, óbvio. Ele estava com o arco em posição e atirou em alguma coisa, que depois gritou igual a uma besta.
– Um filho das trevas? — Não sabia se era, mas pelo berro parecia que sim e era agonizante.
–Lindo. – Sorriu. Ele estava ficando louco. – Que som lindo, um grito da morte. Curioso não, por que eles gritam quando morrem? – E me olhou como se eu fosse responder. – Eles escolheram. Os Tenebris viraram o que são porque escolheram. – Sorriu satisfeito, como se eu estivesse entendendo as besteiras que ele falava.
–Primeiro, de quem você está falando? – Ele sabia que eu não tinha a menor idéia das asneiras que saía de sua boca em nenhum momento, então por que recebi um sorriso de descontentamento? — Você está falando com a pessoa errada se acha que vou te entender, elfo. – Apontei meu dedo para o seu peito e o encarei firme. Ele me olhou sério.
–Vamos desde o início, meu anjo. – Passou as mãos pelo meu braço e me puxou para perto, sussurrando em meu ouvido, enquanto meu rosto estava em seu ombro, quase beijando seu pescoço suado e quente, envolvido de veias grossas que apareciam a cada palavra que dizia, meu corpo estava tenso. – Você já viu um Tenebris. O “lobo”, uivando, sua amiga no chão, morta, sem nenhuma reação, sem o calor da vida, nenhuma lembrança ou palavra. Lembra-se? – Sussurrava gentil, arrepiando minha alma, fazendo cada pelo da minha nuca se levantar e o meu coração a disparar lentamente, o medo estava nas palavras e percorria o meu corpo como uma víbora, apertando cada ponto fraco e fazendo a dor prolongar. Eu não queria reviver aquela cena, era horrível. A Laura fria, morta, esparramada pelo chão, com seus cabelos encharcados de sangue... Eu o empurrei, acabando no chão.
–Eu não quero mais ouvir. Eu não quero mais lembrar. Eu entendi. – As palavras saíram fracas, quase se perdendo no silêncio. Olhei friamente para o rosto do Keith e ele estava se sentindo culpado, estendendo uma mão para me pegar do chão. Não o impedi, eu precisava daquilo. Passei os braços por cima do ombro dele, abraçando-o, querendo sentir algo. Eu queria ser acolhida, segurada e protegida, como os dois anjos. Eu queria algo, mas o quê? E então, as imagens vieram, fazendo meu humor mudar completamente. – Eu vou te matar, seu idiota! – Empurrei o Keith para longe, novamente.
–O que foi agora? – Disse frustrado, olhando para o céu e passando as mãos pelos cabelos, mostrando a marca em sua testa.
–A gente não fez sexo ontem á noite. Você cuidou de mim! – Ele me deu um olhar muito divertido, sorrindo e dando de ombros. – Por que não disse nada quando perguntei?! – Cheguei perto dele e levantei minha mão, preparada para bater nele. – Keith, seu idiota! É melhor você me soltar agora! – Ele paralisou o meu braço de bater contra o seu rosto e continuou com o sorriso.
–Se eu te soltar, você vai tentar me bater de novo? — Disse sedutoramente.
–Mas é claro, seu retardado. Mil vezes, até você se tocar e admitir que é um doente-fudido-mental. Entendeu? — Eu estava pronta para mordê-lo se ele não me soltasse.
–Ok, meu amor. Vou precisar de uma jaula então. – Evitei o sorriso sedutor dele, desviando o olhar para o mato e os arcos no chão, junto ás flechas. – Sem planos. — Ele me avisou, sussurrando em meu ouvido. — Já disse que é uma humana engraçada? – Voltei o meu olhar para os olhos cinza, brilhando de alegria. Ele se divertia com tudo... Sorri, perdoando-o.
–Eu já entendi, não vou te morder. Pode me soltar. – Ele o fez, mas levei três segundos para o chutei bem forte entre as bolas e eu acho que o elfo caiu...Ele estava deitado no chão e era muito engraçado.
Ops, desculpa Keith. Sorri diabolicamente para ele quando me olhou com a cara do diabo.
Eu estava começando a entender essa habilidade de telepatia e poderia ser bem útil com o Keith.


–Cansei! Eu só acertei um! – Meus braços estavam quase prontos para cair.
Eu estava suando igual a uma porca, correndo atrás de alces e coelhos, enquanto o Keith ficou sentado e me observando boa parte do tempo, descascando uma maçã e comendo lentamente, vidrado em me observar de longe.
–Você precisa acertar pelo menos quatro para ir embora. – E pior que ele estava falando sério.
–E você vai ficar aí até eu acertar mais quatro? – Comecei a rir, deitando na grama, achando graça de nada. – Isso é perda de tempo, eu vou levar um século!
–Então vamos esperar um século. — Eu ri ainda mais, ironizando o que ele tinha acabado de falar; chegando perto e erguendo a mão para eu me levantar, de baixo ele parecia um ser sobrenatural, um anjo com asas pretas, não, um demônio muito bonito.
–Um demônio, isso sim... – Ignorei a mão erguida e levantei sozinha, pegando o arco e duas flechas. – Você vai se arrepender, Elfo. – Lá vamos nós de novo, caçar animaizinhos.
–Não se perca. – Avisou e fui andando, tentando encontrar alguma coisa para acertar e esfregar na cara dele.
–Elfo do inferno! – Gritei depois de vinte minutos correndo, sem encontrar nada. – Inferno, Keith, onde você está?! – Ele não respondia, nem ao menos um sinal de retardado à vista.
Idiota, não era ele quem estava de guarda, caso acontecesse alguma coisa? Onde infernos ele estava?!
Ouvi um barulho bem próximo de onde eu me encontrava .
–Keith? – Perguntei, achando que poderia ser ele, mas não. Era outra pessoa, alguém que me era familiar, que eu reconhecia de algum lugar só pela presença. Ele estava me observando, atrás de algumas árvores, sem que eu pudesse vê-lo. – Quem é você? – A pessoa não disse nada, mas continuava me observando, eu sentia seu olhar em mim. – Então não vai falar? Ótimo, se for o Keith melhor ainda. – Segurei o arco firme, com a flecha no lugar e posicionei para atirar. – Então, vai continuar mudo? – Nenhuma resposta. Se for o Keith ele vai conseguir desviar, então tudo bem.
Mirei na sombra atrás de algumas árvores e me concentrei, soltando a flecha em direção a esse alguém. Nada, eu não ouvi grito, nem a voz de alguém machucado ou caindo. Ele ainda estava me observando. Eu resolvi dar meia volta e correr, mas minhas pernas não se moviam.
–Keith, eu sei que é você, por favor aparece. – Estava tentando me convencer de que era ele, mas não sabia se era ou não e continuei parada. – Para de brincar, você está me deixando nervosa! – Gritei.
–Katherine. – Ele falou, nas sombras, se aproximando lentamente e expondo o corpo. Primeiro eu vi um braço, segurando a flecha que havia atirado e depois as pernas, musculosas igual os braços e o abdome, que estava á mostra, com somente uma vestimenta estranha. O que me chocou não foram as asas, mas o rosto. Era um rosto familiar, com os lábios, os olhos e os cabelos que eu reconhecia. – Katherine. – Repetiu gentilmente, me deixando hipnotizada com os lábios perfeitos e os olhos esverdeados, encarando-me profundamente. Seus cabelos eram dourados e um pouco cacheado.
–Haziel. – O nome veio por impulso como se eu soubesse quem era ele. – Não, espera... Quem é você?! – Fiquei confusa, totalmente confusa.
–Katherine, eu estava te procurando. – Ignorou a minha pergunta e andou até mim. Comecei a recuar pela aproximidade, a mais ou menos um metro de mim.
–Pare ou eu atiro! – Ergui o arco com a única flecha que restava, enquanto ele continuava andando e ficando cada vez mais próximo. – Eu estou falando sério!
–Então atire. – E fiz o que ele disse, mas nada aconteceu, a flecha não o tocou. Ele a segurou quando estava a centímetros do rosto. – Continua teimosa, não é Katherine? – E sorriu alegremente como um anjo, surgindo uma sensação familiar de carinho e amor em mim.
–Haziel ou seja lá qual for o seu nome, eu não me chamo Katherine. – Meu corpo estava petrificado e tenso, perdendo as forças quando ele me tocou, me olhando como se me amasse e acariciando o meu rosto.
–Eu te procurei por muito tempo. – E tudo virou um nó na minha cabeça. Calma, se acalme Kate. Um anjo brota do nada e diz que me procura, mas eu sei quem ele é e ao mesmo tempo não sei. – Quem é “Keith”? – Perguntou bravo e tudo estava virando o cúmulo.
–Não, quem é você?! – Dei um passo para trás, erguendo o arco para evitar o contato com ele. – De onde você surgiu e o que você quer comigo?! – Meu nervosismo e paciência não estavam em sincronia, muito menos a minha cabeça. Eu queria fugir e estava curiosa sobre o que ele estava falando.
–Se acalme, Katherine. – Disse agarrando o meu braço, tirando o arco da minha mão e me puxando para perto de si.
–Me largue! – O empurrei e quase tropecei.
–Você é muito teimosa, Katherine. – Haziel, esse anjo, não estava querendo me largar e me abraçou. – Finalmente a encontrei, minha Katherine. — Céus, e lá vai mais uma pedra no meu caminho que não sai do meu pé.
–Keith! – Gritei tanto alto quanto mentalmente. – Keith, Keith!
–Quem é o infeliz?! Você fica chamando e chamando esse tal de “Keith”! – Haziel parecia bravo a cada vez que eu chamava o elfo.
–E quem é você para ficar bravo?! – Minha paciência estava no limite. – Eu nem te conheço, mas parece que você me conhece e não quer me largar! Me solte! Keith, me ajuda! – Eu estava praticamente socando o anjo e ele não estava sentindo nada. – Droga! – E nisso uma flecha apareceu entre mim e o Haziel, fazendo-o se distanciar e eu conseguir sair de perto dele.
–Não dá nem dois minutos e você já está agarrada em alguém, humana. – O tom de voz eu reconhecia e me fez feliz, mesmo ele sendo um idiota. – Muito sábia, Kate, foi se encontrar justamente com um anjo. Certamente inteligente. – Olhou-me com desdém, encostado em uma árvore e segurando o arco e a adaga. Saí correndo até ele.
–Obrigada por estar sempre por perto, elfo. – Não foi um elogio, eu não estava nada feliz, mas ele me acalmou. Meu braço estava tremendo e ele percebeu, passando as mãos delicadamente sobre mim.
–Está tudo bem. – Sussurrou em meu ouvido, abraçando-me cuidadosamente. — Você está segura. — Ele estava ofegante, provavelmente tinha corrido.
–Então você é o tal Keith. – A voz de Haziel era medonha, ele provavelmente queria matar o Keith, mas eu não sabia o porquê, nem de onde ele surgiu. – Katherine é minha, você não tem permissão para tocá-la! – E do ruim estava indo para o pior. Ele veio com uma adaga em nossa direção e tentou acertar o Keith, mas isso não o atingiu. Fui jogada para o lado e os dois começaram a brigar. A rapidez dos dois era impressionante, eu não estava acompanhando direito, só os socos e os chutes eram impossíveis, ainda mais quando o Keith chutou o Haziel e lá se foi uma árvore, de erguida ela estava caída. A força era incomparável com a de um humano, aquilo estava ao alcance do anormal e do bizarro.
–Vai parar ou quer apanhar mais? – Keith sorriu, ao meu lado. Ele tinha alguns cortes nos braços e no rosto, mas ainda assim era um puta arrogante e que não queria soltar a minha mão. O Haziel nos olhava com raiva.
–Eu prometo que voltarei para buscá-la, Katherine. – Disse quando já estava de pé, erguendo as asas e indo embora.
–Covarde. – Ouvi o Keith murmurar e comecei a rir.
–Não se deve brigar com anjos, Keith.
–E menos ainda com os elfos. – Aquele sorriso virou meu amuleto da sorte, ele me protegia. O Keith me protegia, ele era meu anjo e meu demônio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.