Lembre-se.

Era uma ordem direta e incontestável, uma ordem a qual eu não tinha a menor vontade de desobedecer e vinha de Dayon, cada vez que a voz dele invadia minha cabeça a escuridão era afastada. Lembre-se de quem você é.

Fogo. Dor. Desespero. Mas nada disso me fez gritar, o fogo irradiava de dentro para fora e eu sabia que não podia e nem devia lutar contra. Entregue-se. Sim, entregue-se.

Sabia que não precisava abrir os olhos para enxergar, primeiro a energia de Dayon se fez presente, depois sua imagem. O fogo que me consumia já não machucava, o calor era parte de mim, Dayon podia ouvir cada pensamento e sorriu com este em particular. Sim, porque toda vez que a Fênix morre ela deve queimar.

Agora eu era capaz de ver com clareza, eu estava livre do corpo e por tanto da cegueira que o acompanhava. As paredes que me cercavam eram de um azul claro e frio, o piso era de um azulejo tão branco como eu nunca tinha visto, meu corpo estava impassível em uma cama com lenções tão brancos quanto o piso, o lençol aderia aos contornos do meu corpo deixando evidente que não havia nada me vestindo, fios estavam conectados em meu peito, cabeça e braços, apenas uma agulha perfurava meu braço levando um liquido transparente de uma embalagem plástica até minha veia, meus cabelos haviam sido cuidadosamente penteados e caiam como cascatas douradas pelo travesseiro. As maquinas ao lado da cama estavam conectadas a mim pelos fios e disparavam em sinal de alerta, não demorou para Devy entrar correndo pela porta, por um minuto ela fitou o nada em que a presença de Dayon estava, depois olhou em minha direção e podia jurar que ela havia nos visto, mas Dayon balançou a cabeça suavemente indicando que não e como para provar o que ele dizia, ela voltou a atenção aos aparelhos e tentou aplicar alguma coisa em minhas veias, algo que deveria supostamente acalmar o corpo.

– Aumente a dose! – Um homem que eu desconhecia falou passando outra injeção para Devy.

– Não podemos, ela vai ter uma overdose! – Foi a resposta dela.

– O corpo dela não vai resistir! Precisamos fazer parar...

Olhei para Dayon questionando a veracidade daquelas palavras, ele apenas sorriu tranquilamente. Você não tem muito tempo, lembre-se Felícia. Ignorei a movimentação dos médicos pelo quarto e olhei além de Dayon, uma mulher estava parada atrás dele, tão branca como eu, com longos fios de cabelo platinado caindo até as costas em ondas suaves, o rosto dela era calmo como se esculpido em gesso. Dayon segurou a mão dela e estendeu a mão livre para mim, a peguei ciente de que meu tempo estava acabando, na cama ao lado meu corpo entrava em colapso. Dayon uniu a mão da mulher à minha e beijou ambas, quando os olhos de um azul frio e metálico me fitaram percebi que eram os meus olhos.

Então tudo acabou em fogo, assim como começou.

– Então, estou morta? – A pergunta parecia horrível, ainda assim minha voz era confiante.

– Não é a primeira vez que morremos. – Eu ainda estava parada ao lado da cama e nós duas observávamos o corpo novamente imóvel e tão pálido quanto o lençol. Por um momento as chamas tinham sido intensas, mas quando a dor se foi e o frio veio, eu ainda estava lá e a mulher com os meus olhos também.

– Você...

– Nós Felícia, quantas vezes vou ter que repetir? – Ela me olhou com advertência. – Mesmo morta, não têm muito tempo, então cale a boca e me escute. Precisa me deixar voltar.

Dayon tinha desaparecido durante o fogo intenso que o contato de nossas mãos provocou, mas mesmo sem ele eu sabia o que deveria ser feito, então atravessei a distância que me separava da garota a minha frente, ao fazer isso passei pelo meu corpo e senti o frio e a escuridão que vinham de dentro dele tentando tomar conta de mim, mas me forcei a resistir. Ela sorriu e então a beijei, senti que ela me envolvia e fiz o mesmo, mas era muito mais que isso, ela tornava-se parte de mim a cada toque, a energia dela se misturava a minha e se entrelaçava a cada partícula. Sim, nós.

O ar invadiu meus pulmões em rajadas que eu aceitava avidamente como as brasas de uma fogueira que precisam ser reavivadas, meu corpo todo estremeceu e me agarrei aos lençóis tentando fazer parar e um rugido rouco escapou de meus lábios, vindo do fundo de minha garganta, eu sentia muito frio, mas sabia que o fogo ainda queimava em mim. Agora cada vez mais forte. Eu estou mais forte. Eu sou o fogo.

Dévy entrou correndo no quarto seguida por Bryan, Dayon permaneceu parado a porta com um sorriso torto nos lábios e era o único que não parecia surpreso. Todos os fios que me conectavam as maquinas haviam sido desligados e me senti grata pelo silêncio, a agulha também havia sido retirada da minha veia e então entendi o porquê quando os pensamentos de Dévy invadiram minha cabeça. Ela estava morta, mais de uma hora sem batimentos cardíacos... tentamos de tudo... pouco depois a voz de Bryan se juntou a dela Lia voltou para mim, como da primeira vez, ela voltou. E o fluxo de pensamento deles seguiu ainda mais forte e um coro de vozes desconhecidas se juntou a eles, era como uma comporta de represa sendo aberta. A voz de Dayon se elevou ao fluxo Feche a mente se te incomoda, só precisa de foco Felícia. Então empurrei toda aquela tagarelice para um canto remoto e construí uma barreira em volta dela, não foi a coisa mais fácil do mundo, mas o silêncio voltou a reinar e senti alívio. Nesse meio tempo perdi os movimentos de Bryan e se tivesse mantido as portas abertas, provavelmente não teria sido pega de surpresa.

Bryan afastou Dévy e puxou meu corpo para perto do seu, quase me tirando da cama ao fazer isso, estremeci quando seus lábios tocaram os meus, ele não deu tempo para que eu o afastasse, apenas me segurou ainda mais perto e todo o ar que eu julguei que tinha recuperado foi roubado por ele em um beijo intenso e que queimava como as chamas do próprio sol, um beijo faminto e que retribuí sem saber que também tinha fome.