Notas iniciais
Heey! Tudo bem com vocês? Espero que sim. Bom chegamos ao capítulo número 13 e começa aqui a contagem regressiva para o fim (pelo menos dessa temporada) de The Last Soul On Fire. Espero que as coisas tenham começado a ficar mais claras e queria muito muito agradecer a companhia de vocês até aqui e estou certa que a Felícia também. Antes de começar a contagem, queria dizer que os capítulos estão programados diariamente e em 10 dias me despedirei de vocês por um tempo, a aventura da Felícia continua sem mim e talvez eu volte para conta-la, mas dia 10/07 embarco para minhas próprias aventuras em um mochilão pela América do Sul com parada para trabalho voluntário em um orfanato da Bolívia, como não sei como será o acesso à internet, deixo vocês com a história concluída. Obrigada por deixar que eu e a Felícia tivéssemos alguns minutos do seu dia x.o.x.o. Até a próxima

Estava quase anoitecendo quando me esgueirei pela janela da estalagem abandonada, a tranca enferrujada reclamou, mas cedeu com facilidade. Era um lugar aparentemente abandonado por fora, mas limpo de mais por dentro para estar vazio. Do piso de baixo veio um barulho que podia muito bem ter sido feito por uma ratazana, mas também podia não ter sido, procurei o alçapão de entrada com cautela e ele se abriu sem ruído, as dobradiças haviam sido lubrificadas recentemente. Quando o alçapão se abriu por completo uma flecha cortou o ar a centímetros do meu rosto, havia um fio preso na porta que acionava o gatilho de uma besta, no escuro rostos inexpressivos esperavam por mim, o frio do lugar penetrava meus ossos e mais que nunca eu sabia que estava sozinha. Vozes cantavam baixo meu nome, doces e quase angelicais, ainda assim atingiam meus ouvidos como o eco distante de uma promessa perdida. Todos aqueles rostos e ainda assim nenhum conforto, mas não eram rostos desconhecidos, eram rostos que cruzaram meu caminho ao longo dos anos, rostos dos mortes que eu deixei em um rastro sangrando do caminho que percorri. As vidas que eu tirei e que até pouco tempo não podia me recordar. Sou tão assassina quanto ela. Não havia mais vozes em minha cabeça, mas as consequências de estar inteira novamente me fizeram estremecer.

– Eu estou com você, Lia... As coisas serão diferentes agora. – Bryan sussurrou em meu ouvido, afastando o frio e a escuridão do sonho, mas eu ainda não conseguia parar de tremer. – Foi só um sonho, só um sonho.

Os braços dele me envolveram em um abraço de laço, sua pele estava quente contra a minha.

– Era assim que você se sentia? – Abri os olhos fixando o olhar em coisas palpáveis, reais. A cama de casal em meu novo quarto (um quarto de verdade), os lençóis amarelos claros, o lustre de cristais bem trabalhados que refletiam a luz da lâmpada... Só não pude olhar para Bryan, ele ainda não parecia real o bastante e podia desaparecer assim como os rostos nos sonhos.

– Eu não sabia o que era. Era como ter um batalhão inteiro gritando dentro da minha cabeça, a cada momento gritavam mais alto e a cada batalha travada era menos como eu mesmo... Só que quando você para de lutar, se torna mais forte, quando aceita...

– A maior parte do tempo eu não sabia que tinha outra pessoa aqui, eu apagava e acordava em lugares desconhecidos como se tivesse acabado de tomar duas garrafas de whisky sozinha. Não me lembrava de como foi aquela noite... Quer dizer, só lembrava até a parte em que você... – Mas não me atrevi a falar, a dor nos olhos de Bryan me conteve.

– Lia... Eu não sabia o que estava fazendo, se soubesse nunca teria feito. O Dom do Despertar é negro e anseia por destruição, foi criado para isso e é necessária muita força para controla-lo. É por isso que eu queria que viesse comigo, aqui você pode aprender tudo o que precisa e vou te ajudar a não sucumbir a ele como aconteceu comigo.

– Ela era uma parte de mim Bryan, era eu. Eu matei aquelas pessoas! – As palavras me fizeram estremecer novamente e Bryan me abraçou mais forte.

– Podemos parar essa guerra, podemos reconstruir o mundo antigo e dar paz a ele Lia. Isso só vai ser possível com você ao nosso lado, entende? Por mais mal que tenha feito, fará um bem ainda maior.

Dizendo isso ele não me deixou tempo para resposta. Bryan eliminou o espaço que ainda restava entre nossos corpos, os lábios dele beijaram suavemente meu pescoço, meu queixo, minha orelha e por fim minha boca calando qualquer pensamento coerente que eu ainda pudesse ter. As mãos dele tocaram meu corpo desfazendo toda a tensão dos músculos, entrelacei meus dedos em seu cabelo enquanto o beijava da mesma forma que entrelacei nossos corpos passando as pernas pela cintura dele. Estávamos juntos e éramos um só novamente. Não importava que o sol já tivesse se levantado, não importava que a guerra rugisse ao lado de fora, Dragões e Corvos eram nada, eu era nada. Bryan era tudo o que existia.

Meus cabelos antes de um dourado radiante e ondas suaves se perderam no fogo, agora eram de um prateado liso e impecável, a morte parecia ter deixado marcas permanentes em mim, minha pele era agora mais pálida que eu julgava que fosse possível para alguém com batimentos cardíacos – pelo menos os batimentos segundo Dévy estavam normais — meus olhos eram a única coisa que continuava igual, destacavam-se fantasgoricamente em contraste com a pele e o cabelo. Toquei o espelho a minha frente, me perguntando se a parte sombria da fênix seria tão evidente quanto as transformações físicas. Eu havia acabado de sair do banho e a vermelhidão da pele onde a água quente tocara já havia desaparecido completamente, percorri com as pontas dos dedos a tatuagem de fênix que agora marcava minha pele, começando na barriga muito perto da virilha do lado esquerdo e se estendia até pouco a cima do joelho, as curvas da ave acompanhavam as do meu corpo, dourada e vermelha com traços pretos formando um relevo suave na pele, apenas perceptível pelo toque dos dedos. Dévy havia dito que vinha de dentro, nenhum dos Dragões jamais se marcaram com agulhas ou algo do tipo, nascíamos com elas e durante a plenitude (o momento em que o Dom do Despertar se revela) as tatuagens se tornavam visíveis. Eu só não entendia porque tinha uma fênix ao contrário de um dragão como todos os outros.

– Vai se acostumar com ela. – Bryan sorriu me olhando de cima a baixo. Ele já estava vestido e deixou roupas destinadas a mim dobradas em uma pilha sobre a pia. – Vou esperar lá em baixo antes que eu mude de ideia. – Ele disse piscando para mim e deixando o quarto com um sorriso travesso, era tão parecido como o Bryan que eu conhecia.

Quando a porta se fechou atrás dele caminhei até minhas novas roupas, era uma calça de algodão resistente e de fios fortes, a túnica era mais delicada e feita de seda dourada e com um dragão bordado em fios de prata. A roupa íntima parecia confortável e prática, uma calcinha boxe e sutiã de algodão que mais parecia com um top, ambos brancos. Os sapatos combinavam com a túnica, uma sapatilha flexível e resistente. Depois de colocar as peças amarrei o cabelo com um elástico dourado em um rabo de cavalo platinado. Daria até para pensar que sempre fui uma deles.

A academia era um mundo à parte, uma volta de lua atrás eu nem imaginava que tecidos tão ricos pudessem existir, e água quente nos chuveiros? Era inimaginável. Meus aposentos eram um duplex pequeno, mas confortável, no andar de cima eu tinha um quarto com uma cama king size era a palavra que Bryan tinha usado, havia mais espelhos que qualquer um precisaria, uma estante com livros que ele escolheu, um telefone que realmente funcionava, um lustre de cristais caprichosamente trabalhados em formas de gotas de chuva que era preso ao teto por fios de aço polidos e resistentes que quase não se viam, também tinha mesas de cabeceira a cada lado da cama e abajures trabalhados no formato do lustre, uma pequena sacada com porta de vidro e a parede oposta a ela havia sido pintada de um dourado claro que iluminava o quarto todo quando refletia a luz do sol. Tinta até um quarto só para roupas que tinha tanto uma porta para o banheiro como para o quarto principal. O banheiro tinha uma parede inteira de espelhos e uma banheira para duas pessoas que soltava bolhas se eu assim desejasse, o boxe de vidro era completamente transparente e eu podia ver tudo refletido no espelho. A pia também era de vidro, tinha uma bacia no centro e várias prateleiras com produtos de higiene, escovas de cabelo e coisas que certamente eu não precisava. O andar de baixo dava para uma sala de estar com sofás, tapetes e uma TV, embora as transmissões fossem apenas internas e só falassem sobre a guerra ou qualquer notícia que os dragões achassem que devia ser divulgada, aparelhos de som, um computador, frigobar e toda a parafernália tecnológica que eu ainda estava aprendendo a usar. Quando finalmente desci Bryan estava no sofá assistindo a um comunicado dizendo que os Corvos haviam derrubado uma das colmeias (cidades de apoio que plantavam comida, criavam gado e produziam tudo o que se encontrava no ninho, estavam espalhadas pelo subsolo e contavam com tecnologia de ponta). Ele desligou a TV assim que me viu e forçou um sorriso, embora seus olhos não escondessem a preocupação.

– Dévy vai ficar uma fera se a fizermos esperar. – Ele estendeu a mão para mim e eu a peguei, percorremos juntos os corredores que levavam até as clinicas, eu tinha consultas regulares de reabilitação com Dévy, aparentemente nem o traumatismo craniano provocado pelo último confronto com Bryan (que Dévy havia descrito como apenas uma forte batida com a cabeça) e nem a morte recente haviam deixado sequelas, a menos que você conte as mudanças físicas, mas Bryan afirmava que gostava delas.

– Vão convocar você, não é? – Eu disse sem rodeios, ele tinha deixado o pensamento escapar e eu não era muito boa em bloquear a mente alheia, por isso andava evitando lugares cheios de gente.

– Vão. – Ele disse sério – Mas eu volto logo, enquanto isso você vai receber outro tutor e seus treinos não serão prejudicados.

– Não é com os treinos que estou preocupada. Eu poderia ir junto...

– Não! – O tom de voz de Bryan estava alarmado, mas era do tipo que não permitia discussão. – Sua segurança é mais importante que qualquer colmeia invadida e você precisa desenvolver completamente o Dom. você fica e treina.

Aquele tom de voz não tinha nada a ver com o Bryan que eu conhecia, era poucos os momentos em que ele deixava transparecer o quão endurecido seu coração se tornara e bem no fundo soava um alarme em minha mente, ele não é confiável, não é o garoto que cresceu com você. Eu evitava o máximo ouvir esse alarme, mas sabia que era idiotice, afinal só sobrevive tanto tempo por ouvir meus instintos. Ainda assim os momentos de descuido de Bryan eram tão poucos e tão raros que eu rapidamente me esquecia.

Preciso ter certeza, preciso ir até as profundezas do ninho dos dragões.

Então eu deixava que qualquer sentimento estranho em relação a Bryan fosse apagado por seu sorriso doce, deixava que ele me contasse histórias sobre os dragões, que me guiasse pelo ninho e pedia que ficasse comigo durante a noite.

Estamos de volta ao orfanato, mas perdi Bryan para sempre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.