The Last Soul On Fire
3 O caminho que conduz aos erros.
Antes de continuar com este capítulo, você precisa saber que não sou a pessoa mais sociável do mundo e o fato da maioria das outras pessoas que ainda vagam pelo mundo serem perigosas, não me dá animo algum para querer encontra-las. Outra coisa importante é que “livefast, die young” é algo que as pessoas por aqui levam ao pé da letra e dificilmente nossa expectativa de vida passa dos 50 anos. E é por isso que eu tenho regras:
Nem minha própria sombra é confiável, quanto mais outras pessoas.
Mantenha-se em movimento e nunca olhe para trás.
Nunca entre em uma grande cidade se puder evitar.
Essas três coisas me ajudam a permanecer invisível, é claro que isso só funciona para me manter viva, já que meu talento para encrencas sempre dá um jeito de burlar as regras. Quando cheguei ao vilarejo perto da casa em ruínas em que havia me instalado, ficou claro o motivo pelo qual permanecer tanto tempo nela foi burrice. Fui recepcionada por dois corpos na entrada do armazém abandonado onde eu resgatava meus mantimentos, eles haviam me encontrado e isso justificava o sangue em meu cabelo e em minhas roupas mais cedo. Merda. Eu tive sorte por só dois Corvos terem me encontrado. Revistei os corpos para ter certeza de que o encontro foi ocasional, até onde eu sei, eles pensam que estou morta há 3 anos e quero que permaneçam pensando assim. Não encontrei nada que provasse que estavam a minha procura e peguei um canivete, uma bússola, um mapa e outros itens que encontrei com os Corvos, entenda que dinheiro já não tem valor algum, mas sempre existem coisas que podem ser trocadas. Deixar os corpos lá era perigoso, eles podiam ser encontrados por outros Corvos e eu não podia deixar que chegassem a mim, por tanto os arrastei para a mercearia, fui até o porão e resgatei algumas latas de comida, carne seca e uma garrafa de whisky, com tudo que eu queria acomodado em minha bolsa ateei fogo ao lugar com os Corvos dentro, não os ocultaria para sempre, mas apagaria minha ligação com as mortes.
Senti vontade de olhar para trás, ver o vilarejo e a estrada que levava até a casa em ruínas pela ultima vez, mas não o fiz. Infelizmente, a próxima cidade no mapa era Methropolian, uma das maiores cidades que ainda existem e eu tinha conseguido evita-la nos últimos 3 anos, mas considerando o estado atual das minhas poucas posses, eu não tinha outra escolha.
Levei quase uma semana até encontrar outras pessoas (por sorte, nenhuma delas me causou problemas) e cerca de 15 dias para chegar até Methropolian, o que foi bom, já meu estoque de comida estava acabando. A cidade estava pior do que eu me lembrava e as ruas estavam absolutamente desertas, nem mesmo nas grandes cidades era comum encontrar pessoas em espaços abertos, mas era possível sentir seus olhares enquanto eu passava. Procurei um prédio ou uma casa em que eu pudesse ficar, mas não encontrei nada seguro o bastante, a única solução foi ficar em uma estalagem perto de mais do centro para o meu gosto, mas a única disponível.
– Vou logo avisando, não gosto de problemas por aqui. O bar fica aberto durante a maior parte do tempo, mas se eu fosse uma garota viajando sozinha, evitaria dar as caras por lá. — O dono da estalagem era um cara alto e tinha o porte físico de quem um dia já lidou com trabalho pesado, mas estava perdendo massa corporal pela idade, devia estar perto dos 40 anos e começava a ganhar barriga de cerveja, seu nome era Daryl.
– Não estou procurando confusão e pretendo ficar pouco tempo, não se preocupe.
– Boa garota. — Ele me deu um sorriso cansado e saiu logo após me entregar as chaves do meu aposento.
Minha primeira providencia foi verificar se as trancas da janela funcionavam, para minha surpresa, Daryl mantinha tudo em ordem e as instalações eram razoavelmente limpas e tinham água quente. A segunda providencia foi um banho com a água fervendo a ponto de deixar minha pele vermelha. Dormi durante o resto dia para me livrar do cansaço da estrada e resolvi tomar alguma coisa no bar quando a lua já estava alta. Daryl não ficou feliz em me ver no bar, mas não fez questão de me mandar embora, por tanto escolhi uma mesa afastada e pedi uma cerva com um bife mal passado para acompanhar.
O bar também surpreendentemente limpo e as garçonetes não pareciam ter mais de 25 anos e havia um pianista perto do balcão de bebidas, ele tocava consideravelmente bem, mas os clientes não eram de apreciar mais a música que a cerveja.
Eu já estava quase terminando de comer quando ele entrou e eu soube que reconheceria aqueles olhos mesmo dez anos depois, embora só houvessem se passado três, ele parecia mais alto e com certeza estava mais forte, o cabelo castanho claro estava queimado pelo sol e os olhos verdes eram duros e inexpressivos. Cerrei o capuz do meu casaco, não podia correr o risco de ser reconhecida, desisti de terminar meu bife e esperei o momento mais oportuno para me retirar sem ser vista. Não era possível que depois de tanto tempo sendo cuidadosa logo ele aparecesse para estragar tudo. Não podia ser.
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