The Last Soul On Fire
4 Confronto
Naquela noite, nem todo o Whisky do mundo me impediu de sonhar com ele. Aqueles olhos não deixavam minha mente e forma alguma, mas diferente do homem que ele é hoje, quem invadiu meus sonhos foi o garoto perdido que um dia foi meu melhor amigo e um pouco mais tarde um amante.
- Hey bry, volte aqui!
- Cala a boca, Bry é nome de menina. Meu nome é B-R-Y-A-N!
- Se você ficar mesmo agindo como uma menininha, é assim que vou te chamar. Agora volta aqui!
Eu sabia que depois daquelas palavras ele se renderia, vi Bryan sair com a roupa toda esfarrapada e suja de dentro dos túneis, veio até mim com carinha de cão sem dono, mas com um bico de criança birrenta.
- O que eles fizeram com você? – Perguntei quando ele chegou perto o bastante para ouvir.
- Não é da sua conta.
- Estou tentando ajudar, ok? Agora vem cá, deixa eu ver esses machucados.
- Não é nada, só um cortezinho. – Ele disse erguendo a camisa, havia na barriga um risco vermelho quase fundo o bastante para expor as vísceras, dei-lhe um tapa de deixar a orelha vermelha.
- Você chama isso de cortezinho? Quase dá pra ver seu estômago! Mas vem, vamos cuidar disso na Toca.
Toca era como chamávamos nosso esconderijo. Bryan e eu crescemos em um orfanato de Antarinea, uma das cidades satélites de Methropolian, desde cedo cuidamos um do outro, porque ninguém mais o faria. Em segurança na Toca limpei o machucado e dei alguns pontos com o material de primeiros socorros que conseguimos surrupiar da enfermaria do orfanato, não era muito sofisticado, mas era tudo o que tínhamos. Ele reclamou durante todo o processo e eu lhe dei mais alguns tapas.
Acordei no meio da noite com passos no corredor, sono leve é um dos brindes quando se vive muito tempo neste lugar. Um estrondo me fez levar a mão até barra da calça e pegar meu punhal em um movimento automático, só me acalmei ao ouvir a voz do Daryl, aparentemente eram apenas dois bêbados causando confusão no corredor. Levei tempo para conseguir dormir novamente, mas foi bom, a noite em claro me deu tempo para pensar em plano, precisava sair da cidade sem encontrar Bryan.
No outro dia pela manhã sai cedo e tentei interrogar Daryl sobre Bryan e dei alguns detalhes, mas Daryl não costumava falar sobre seus clientes e se limitou a dizer que ele frequentava a casa havia alguns anos e que costumava desaparecer por dias. Uma garçonete ruiva chamada Nina me deu mais detalhes depois de ganhar um dos relógios que peguei dos Corvos.
- Ele não costuma falar muito, mas está sempre aqui. Leila – Nina disse apontando para uma garota loira que limpava o balcão, era baixinha e parecia extremamente quebrável. – É a única com quem ele dorme, mas ela disse que ele não é do tipo que fala muito, mas tem a marca dos Dragões nas costas. Imagine só! Deve ser por isso que desaparece sem dizer nada e as vezes retorna mancando ou coisa do tipo.
- Sabe se ontem ele fez alguma coisa fora do habitual? Ou perguntou por alguém?
- Ontem... Óh! Você está mesmo interessada nele, não é? Vou avisando que é perda de tempo, como eu disse, ele só olha para a Leila, se não fosse um Dracco, aposto que a pediria em casamento.
- Ele fez ou não algo diferente?
- Não que eu saiba, na verdade... Sim, sim, agora me lembro. Ontem ele pediu cerveja e quase não tomou nada, sentou-se no bar e ficou apenas observando os clientes... Também não procurou a Leila. Foi tudo.
- Está certo, se o vir novamente me avise e por favor, não diga nada sobre mim. – Eu disse lhe entregando o relógio e saindo do bar.
Aparentemente ele procurava alguma coisa, ou alguém, não havia nenhum sinal e que era eu, mas não custava ser cuidadosa. Escondi meu cabelo sob o capuz do casaco e evitei todos os lugares mais movimentados, fui em busca do que precisava, sair de Methropolian era a prioridade. Aparentemente o mapa dos Corvos era bem atualizado e tinha algum valor, eu já tinha uma cópia comigo e por isso consegui trocá-los por calças e camisas novas, também consegui um solado novo para que minhas botas durassem mais. Pelo canivete consegui comida o bastante para encher minha mochila e alguns cigarros, linha e agulha para consertar as roupas antigas, botões, sabonete e itens básicos de higiene.
Voltei para a hospedaria ao fim do dia, fui cuidadosa, mas aparentemente não o bastante. A fita que eu havia deixado na porta estava rompida, trabalho de amador, tirei meu punhal da barra da calça e empurrei a porta, o intruso nem tinha se dado ao trabalho de trancar a porta novamente, mas não foi surpresa alguma ver que os olhos que me encaravam eram verdes.
- Achei que eles ensinavam melhor os filhotinhos de Dragão. – Eu disse secamente.
- Feche a porta, vim apenas conversar. – O tom de voz dele era autoritário e completamente diferente do Bryan que eu conhecia. Dei um passo para trás e chutei a porta sem me virar. – Boa menina, agora guarde a faca, se eu quisesse mata-la já o teria feito.
- Bem querido, você de fato o fez algum tempo atrás. – Eu ri sem fazer qualquer movimento para guardar o punhal.
- Seria mais fácil se você não fosse tão teimosa!
- Eu não quero virar um soldadinho de chumbo, não vou ser controlada por esses idiotas!
- Você se escondeu muito bem, realmente achei que estivesse morta. Mas matar aqueles Corvos? Quase achei que estivesse me mandando um sinal.
- O-oo-oque?
- Matar os... Oh, espere... Você realmente não sabe, não é? Deixou sua marca neles e nem notou! É por isso que deve se juntar a academia Lia, para...
- CALE A BOCA! VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME CHAMAR ASSIM!
- Tudo bem. Tudo bem. Felícia.
Ele se levantou estendendo a mão para me tocar, me vi atirando o punhal contra ele e aparentemente o peguei de surpresa, a lamina perfurou o braço dele e tive tempo de agarrar minha mochila em cima da cama e me atirar pela janela, os cacos de vidro perfuraram minha pele, mas ignorei a dor, eu precisava desaparece.
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