– Hey Bryan, sabe o que ouvi dizer? — Um garoto de cabelos ruivos e sardinhas marrons que cobriam quase todo o pedaço de pele branco leite visível no corpo dele chamado Edgar disse em tom zombeteiro quando eu e Bryan passamos por ele à caminho da aula.

– Não enche Ed. — Um Bryan irritado de quatorze anos respondeu, ainda um garoto de voz fina e infantil e músculos em formação.

– Bem, andam dizendo por aí que você e o veadinho do Gabe andam se pegando escondidos depois da aula e que você só anda com a Lia para encobrir. Pobre Lia, como é seu namorado ter outro namorado? — E Edgar riu loucamente acompanhado dos outros garotos no pátio.

Gabe era um menino retraído e um tanto afeminado que havia acabado de chegar, as professoras diziam que ele foi criado apenas pela mãe e que isso não é culpa dele, ela havia morrido meses antes em um dos ataques dos Draccos aos Corvos. Bem, nunca acreditei que ser criado apenas por mulheres te tornasse bicha, mas era a explicação usada na época. Para mim Gabe era só um garoto tímido que sentia falta de casa, Bryan e eu éramos os únicos que tentavam fazê-lo se sentir melhor e então comentários maldosos começaram a surgir.

– O Gabe também não tem nada com ele! Vocês são uns idiotas! — Eu respondi vermelha, entre a irritação e o constrangimento por terem dito que eu era a namorada do Bryan.

– Já pode parar de fingir Lia, nós já sabemos que o namorado de verdade do Bryan é o Gabe. — O sorrido daquele garoto era irritante, revirei os olhos e comecei a puxar Bryan para longe, as risadas aumentaram e senti quando ele parou bruscamente me segurando pelo braço.

Não era a primeira vez que ele ouvia esse tipo de provocação, estávamos ignorando na medida do possível, mas Bryan era novo nisso de adolescência, eu sabia o quão insuportável isso era para ele. Quando me virei os olhos dele tinham uma expressão de dúvida que me paralisou, eu sabia que todos estavam me observando.

– Bryan? — Eu chamei baixinho querendo qualquer resposta para aquela expressão.

– Desculpe...

Os outros gritavam ofensas e riam atrás, mas eu estava presa aos olhos do Bryan, aqueles olhos verdes e isso não era qualquer coisa. Não percebi o quão próximos estávamos até que os lábios dele tocaram os meus em um beijo desajeitado de criança, os braços dele passaram pela minha cintura em um abraço que senti milhões de vezes, mas foi a primeira vez em que tive consciência dele como um menino prestes a se tornar um homem, um homem que não era meu irmão. Quando finalmente nos separamos eu estava vermelha e só pude sair correndo dali.

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– Desde aquela época você está sempre fugindo de mim de algum jeito. — O riso dele encheu o velho galpão. Estremeci com aquele som, mas fui levada direto para outra lembrança antes de qualquer reação.

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– Ainda acordado?

– Eu estava esperando você, foi uma péssima ideia te deixar ir sozinha até a cidade.

– Você ainda não tem condições de ir... Precisava ver, os corvos estão por toda a parte. No armazém disseram que os Draccos tiveram de deixar a cidade, os corvos estão mais fortes.

Bryan deu um longo suspiro e estendeu a mão em um convite para que eu a pegasse, quando eu estava próxima o bastante ele me puxou para mais perto, ele tentava disfarçar, mas o seu tom de preocupação era evidente.

– Algum deles te viu?

– Eu sou indetectável, lembra? — Sorri para ele me sentando ao seu lado no parapeito da janela.

– Ninguém fez perguntas no armazém? — Ele continuava cauteloso.

– Não. Sem perguntas, também não fui seguida. Verifiquei se é mesmo o que quer saber. Agora vamos, me deixe ver isso... — Eu abri a mochila para mostrar os itens que tinha conseguido roubar no armazém de Antarinae. Bryan abriu a camisa e me deixou ver a mais recente das feridas conquistada dias atrás quando conseguimos deixar o orfanato e despistar os vigias, mas é claro, não sem que ele conseguisse rasgar as costas ao passar pelas grades da tubulação de esgoto.

– Você fez um bom trabalho em conseguir essas coisas Lia, me desculpe...

– E você não queria que eu viesse junto, não é? Eu deveria ter te deixado vir sozinho, ia voltar 10minutos depois me pedindo perdão de joelhos. — Eu pisquei para ele e ele riu distraído enquanto eu olhava o ferimento. A pele de Bryan ainda estava quente, febril e o corte parecia mais inflamado do que dois dias atrás, mas a febre ter baixado já era alguma coisa.

Bryan geralmente tinha uma resposta para tudo, mas dessa vez ficou calado enquanto eu trabalhava para limpar o corte, mais alguns dias e provavelmente iria gangrenar,podia sentir os olhos dele em mim, mas me recusei a me distrair, ele não reclamou quando eu joguei álcool nas costas dele e nem quando comecei a fazer a sutura do ferimento.

– Mais alguns desses e você vai parecer uma colcha de retalhos. — Eu disse sorrindo quando terminei, mas também não houve resposta, o que vindo dele era no mínimo preocupante. — Bry?

Ele segurou meu rosto entre as mãos, a expressão dele era suave e parecia olhar diretamente dentro de mim, com muito cuidado ele colocou o rosto próximo ao meu. Pela primeira vez na vida ele parecia me pedir autorização, Bryan nunca pedia autorização para nada, quando não me movi ele encostou a testa na minha.

– Não. Não se você for me pedir desculpas depois. — Eu o interrompi e ele pareceu tenso por um minuto e então seu riso solto encheu o ar.

– Sem desculpas. — Ele disse finalmente trazendo os lábios aos meus, a mão direita dele escorregou até minha nuca, a esquerda me prendeu junto a ele pela cintura, eu deixei que aquela sensação me levasse retribuindo o beijo com a intensidade de que eu era capaz. Senti as mãos dele se soltarem do ancoradouro que era meu corpo e não deixei que ele se desvencilhasse de mim, a boca dele começou a percorrer meu pescoço com lentidão e senti o peso do corpo dele sobre o meu, fiz com que minhas pernas se fechassem em torno da cintura dele o prendi a mim, naquela noite aconteceu o que esperávamos desde sempre, deixamos que o amor que primeiro foi como o de irmãos, de amigos, de cúmplice fizesse de nós amantes.

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– Viu? Você ainda se lembra. — A voz dele soou baixa no meu ouvido. — Você precisa vir comigo Lia... É perigoso aqui fora.

– Como... Bryan? — Eu ainda parecia estar em um sonho, minha pele queimava com as lembranças e a realidade se desfazia de volta ao sonho. — Como você colocou todas essas imagens na minha cabeça?

– Vem comigo Lia...

– Sai da minha cabeça Bryan!

– Lia, agora eles sabem que você está aqui... Os Corvos vão chegar logo, vem comigo enquanto você pode escolher.

– S-A-I-D-A-M-I-N-H-A-C-A-B-E-Ç-A!!!

Como uma explosão as palavras saíram de mim e pareceram ganhar forma, invadiram o ambiente em um turbilhão, as portas e as janelas foram abertas com a força delas e então eu estava na escuridão novamente.