The Last Soul On Fire
7 Proximidade
– Já imaginou se pudéssemos ter uma vida normal?
– Nossa vida é normal Bryan.
– Não... Quer dizer, nós achamos que é... Mas algum dia já existiu algo mais...
– Antes da guerra, é o que quer dizer? — Parei de andar e abri a garrafa com água que trazia pendurada na mochila, tomei apenas o necessário, Bryan fez o mesmo. — Se algum dia chegamos perto de uma vida normal, deve ser agora... Longe da academia, longe do orfanato, do Estado...
– Não é normal viver fugindo, ou com medo Lia.
Eu entendia o que ele queria dizer, estávamos nessa juntos e eu pagaria tão caro quanto ele se fossemos pegos, mas mesmo assim eu sorri balançando a cabeça em negativa, como se o que ele estivesse dizendo fosse bobagem.
– Bryan, olhe em volta! — Estávamos em um clareira coberta de grama verde, verde de verdade, não aquele verde desbotado e doentio das paredes da cozinha do orfanato, ou do vomito dos banheiros (o tipo mais comum da nossa antiga vida), algumas flores silvestres crescendo humildes entre a grama e mais a frente árvores de todos os tamanhos, agora era quase fim do outono e o chão estava coberto de folhas, eu nunca tinha visto folhas assim antes. Isso só era possível porque estávamos muito distantes dos grandes pólos, Bryan tinha dito que antigamente isso era a fronteira de outro país.- Eu sei que estamos fugindo Bryan e sei o que acontece se formos pegos, mas olhe em volta! — Eu sorri e vi que dessa vez ele não rejeitava a ideia, joguei minha mochila na grama e corri alguns metros me deixando cair na folhagem macia, Bryan me seguiu alguns segundos depois. — Não é como a vida que nossos antepassados tiveram, mas é nossa vida, é a chance de termos que lutar nessa guerra estúpida, é a chance criamos uma vida que seja normal... Entende?
A neblina criada pela sensação de sonho foi se dissipando com as últimas palavras e as imagens do galpão em que eu e Bryan nos encontrávamos ficava cada vez mais forte, essa mudança deixava a sensação de embriagues enquanto o vento ainda agitava as portas. Então senti que estava prestes a cair em outro sonho, me obriguei a me prender a ele. Eu precisava fazê-lo parar.
– Como você pode entrar na minha cabeça? Como pode trazer essas memórias de volta?
– A academia pode ensinar coisas que você não imagina, Lia... Precisa me ouvir.
– Comece você me ouvindo e pare de me chamar de Lia! Você não tem esse direito. E pode também me dizer o que quer de mim.
– Precisamos de você, Felícia. Precisamos que se junte a nós. — Então ele abriu a jaqueta de couro preta e tirou um cartão de dentro, estava um pouco amassado da viagem, mas ainda era legível, impressionante que gastassem papel para isso.
– É a minha convocação... Isso não deveria existir.
– Quando apareceu pela primeira vez no sistema, meses atrás... Pensei que fosse algum defeito, mas então os sinais começaram a aparecer e o fato de nunca terem encontrado seu corpo no local do acidente...
– Acidente? É ótimo saber que você se lembre disso como um acidente!
– Quando vier comigo, vai entender... Vai entender tudo! Os Dragões não são como pensávamos Felícia, a história não é como pensávamos, existe muito mais!
– É por isso que você anda trazendo essas memórias de volta? Quer que eu me lembre do quanto você significou para mim e vá com você? Não vai funcionar, o Bryan que eu conheço não me manipularia dessa forma.
– Felícia... minha menina, minha lia... — A voz baixa dele soava dolorosa aos meus ouvidos, rouca, por um minuto quase pensei que ele estivesse realmente sentindo dor, sentindo minha falta... Mas eu precisava me lembrar que aquele não era o mesmo Bryan que amei desde que me lembro. Ele colocou delicadamente as mãos em volta do meu rosto, como costumava fazer e aproximou o bastante o rosto do meu para que eu ficasse ciente da presença dele ali, do toque na minha pele e de tudo que essas mesmas sensações já significaram.
– Bryan... — Dizer o nome dele daquela forma depois de tanto tempo, mas me forcei a continuar — Por que quer que eu vá com você? Por que simplesmente não me mata como tentou fazer anos atrás?
– Felícia, por favor! Você não sabe como é... No começo, você mal percebe os sinais do chamado, mas depois ele começa a te controlar... Está acontecendo com você, precisa vir comigo antes que perca o controle, antes que deixe de ser você.
– Quantos outros estão esperando por nós? Por que ainda não vieram nos procurar? — Eu disse colocando as mãos em volta das mãos dele, senti sua apreensão no primeiro momento e então fechei os olhos, deixando que ele percebesse que eu estava entregue a proximidade dos corpos.
– Venha comigo, por favor Lia...
– Quantos Bryan? O que acontece se eu escolher não ir? — Não ousei abrir os olhos, apenas venci os centímetros de distancia que separavam meus lábios dos dele. — Eu te amo, Bryan... — sussurrei sobre os lábios dele antes de finalmente beijá-lo, finalmente trazê-lo para perto de mim. — Eu senti sua falta Bryan...
A tensão foi abandonando o corpo dele aos poucos, ele me segurou pela cintura me prendendo junto ao corpo dele, eu voltei a beijá-lo como se fosse a única coisa realmente importante enquanto ele se colocava em cima de mim, sensações que eu conhecia desde sempre, que meu corpo parecia precisar desesperadamente e que estavam gravadas em cada célula do meu corpo apenas esperando que ele as despertasse.
Acordei abraçada a ele no meio da noite, fazia um pouco de frio, mas o corpo dele me aquecia, os braços dele estavam ao meu redor, me protegendo e me fazendo prisioneira ao mesmo tempo. Nossas roupas estavam espalhadas a nossa volta no cobertor rasgado que eu havia feito de cama, ao que agora parecia um século inteiro atrás. Estiquei meu pescoço com cuidado para ficar mais perto dele, senti seus braços se apertarem ao meu redor, mesmo adormecido ele ainda respondia aos instintos, então encostei os lábios na orelha dele o acordando com beijos lentos e deixando que ele tomasse consciência da minha presença ali e me correspondesse aos poucos, não demorou para que ele abrisse os olhos e precisasse disfarçar a sombra de um sorriso, as mãos dele voltaram a percorrer meu corpo, como se precisassem de uma prova de que eu estava realmente ali.
– Quantos Bryan? Quando virão atrás de nós? — Meu tom de voz deixa claro que a pergunta por trás das palavras era quando seremos interrompidos? Ele abraçou mais forte beijando meu pescoço.
– Não virão Lia, eles não sabem que estou aqui por você.. Ainda não.
Eu o beijei com mais força o envolvendo em meus braços e então finalmente me forcei a olhar nos olhos dele, ele não estava preparado, quase não acreditei que ele realmente havia baixado a guarda! Projetei então minha mente para dentro da dele, procurando a verdade, os Dragões ainda não sabiam que eu estava viva, ele havia roubado minha convocação assim que foi emitida por uma máquina que sobreviveu aos tempos antigos. Até onde ele sabia, os Corvos estavam em alerta, mas ainda não tinham identificado o responsável pelas mortes. Por que ele veio sozinho? Mas antes que eu pudesse obter essa resposta senti a mente dele lutar de volta, me empurrar para fora, agora ele sabia que nada nas últimas horas foi verdade, que eu o manipulei assim como ele havia tentado fazer comigo, que havia sobrado apenas ódio em mim, mas eu não podia permitir que ele visse mais que isso, então forcei a mente dele, empurrando de volta, era como brincar com um tecido elástico, ele manipulando de um lado e eu de outro, até que consegui empurrá-lo para a inconsciência.
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