The Last Soul On Fire
8 Escuridão
Minha cabeça voltou a doer, é só uma pontada leve, insistente, irritante... Mas é assim que os apagões começam, depois de algum tempo comecei a reconhecer os sinais. Tudo bem, vai passar. agora por favor, foque no que é importante, o que você descobriu? Eu precisava organizar minha mente, afastar aquela maldita pontada, então continuei em voz baixa. Você é Felícia, nunca recebeu um sobrenome, você é órfã, tem 21 anos. Fugiu da convocação. Respirei fundo, isso. Você é Felícia. Eu sou Felícia, nunca recebi um sobrenome, sou órfã, tenho 21 anos e fugi da convocação. Ótimo, ainda sou capaz de me lembrar do básico, passei as mãos pelos fios de cabelo loiro e o prendi em um rabo de cavalo, prático. O homem sem roupas amarrado no chão se chama Bryan, foram irmãos, mais tarde amantes. Ele te traiu, ele tentou te matar. Não pode confiar nele. Muito bom, a dor de cabeça começou a se afastar. O que mais eu sei? Não pode confiar em Bryan, nunca é demais repetir. Você leu a mente dele. O que mais? Os corvos não sabem sobre você, mas te procuram. Os Dragões não sabem sobre você, Bryan encobriu seus rastros. Os Dragões não virão atrás de você. Até aí tudo bem, minhas mãos tremiam um pouco, mas a dor aparentemente sumiu. Mas virão atrás dele. Está segura... Se ele estiver morto.
Andei até as janelas do depósito, é claro que eu sabia que não havia ninguém do lado de fora, mas a brisa fresca ajudaria. A qualidade do ar indicava que estava longe da cidade, eu podia ver o céu nos minutos que antecedem o amanhecer e embora aquela visão me agradasse, era desesperador não saber como cheguei até ali. Então aquela voz fria e distante, que eu costumava acreditar ser outra pessoa, falou novamente, dizia que Bryan saberia a resposta disso também, mas que inevitavelmente ele deveria morrer.
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– FELÍCIA! — A voz de Bryan soou distante, perdida na escuridão e senti meus pés darem um passo em falso. Droga, nem mesmo pareciam meus pés! — Felícia!? Felícia, olha pra mim... Sou eu, Bryan... Você se lembra, eu sei que sim...
Não é o Bryan, não o seu Bryan garota estúpida! Lembre-se das regras, elas são mais importantes.
Confusão.
Era a voz do Bryan e era a minha voz, ao menos muito parecido com isso, a voz que eu ouvia quando achei que estava enlouquecendo, levei a mão até a cabeça, eu estava tão tonta.
– Bryan? — Tentei fixar meus olhos na figura à minha frente, a pele branca coberta de cicatrizes, os cabelos castanhos na altura do ombro, desgrenhado, os olhos verdes transbordando de mágoa. A noite passada, era isso o que feria ele? Ele realmente achava que a traidora era eu? Irônico.
Ele não tem mais nada do garoto que você conheceu, sabe que ele precisa morrer! Não precisa fazer isso, é só se afastar, eu faço.
– Por que ainda está tentando me confundir Bryan? — Fechei os olhos com força tentando afastar a voz. — Saia da minha cabeça!
– Olhe para mim Felícia! Acha mesmo que estou na sua cabeça? — A resposta dele foi seca, mas continha um fio de esperança.
O rosto dele estava inchado e havia mais algumas marcas pelo corpo branco, Bryan havia sido espancado, mas só haviam duas pessoas naquele galpão e ele não teria feito isso com ele mesmo, ainda mais amarrado... Então...
Se ainda estamos vivas, é porque eu nos salvei, só precisa confiar em mim mais uma vez e tudo vai acabar bem.
A dor de cabeça, aquela voz, caí de joelhos. Meu corpo tremia e a escuridão ameaçava voltar. Quem é você e o que faz dentro da minha cabeça?
Idiota. E-u-s-o-u-v-o-cê! Ela falou pausadamente, eu falei... Ah! A Dor... Não lute, sabemos quem vence. Não farei nada contra você, contra mim. Apenas confie.
A escuridão voltou a se fechar a minha volta e me encolhi no chão, era frio, um frio que alcançava os ossos e no meio de tudo pude ouvir minha própria voz e a de Bryan, gritos que pareciam em outra lingua e então... Nada.
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