The Last Soul On Fire
9 Fragmentos
Notas iniciais
Azul. Bip. Amargo. Frio. Devy.
Cinco primeiras impressões em um mundo desacelerado, minha mente estava pesada, mas uma sensação agradável percorria todo o meu corpo, o azul enchia meus olhos. Azul como o céu de um dia de verão. Azul como os olhos da desconhecida que há algum tempo me encarava do espelho. Um azul tão agradável como a sensação que percorria meu corpo.
Azul. Bip.Amargo.Frio.Devy.
Em algum lugar perto de mim um ruído que aparentemente era a única coisa capaz de quebrar a tranquilidade do momento. Só posso descrevê-lo como um bip irritante, já que não me lembro de ter ouvido nada parecido antes, parecia fluir de acordo com o meu coração. Uma parte de mim queria se levantar e desligar aquilo, mas a maior parte ainda preferia continuar flutuando para sempre.
Azul. Bip. Amargo. Frio. Devy.
Minha língua parecia pastosa, aos poucos aquelas sensações que começaram misturadas passaram a ser individuais, um gosto amargo enchia minha boca e aos poucos ficava cada vez mais incômodo, quase tanto quanto o bip. Disso eu me lembrava vagamente, como a vez em que precisei tomar analgésicos por causa de uma ferimento na perna, mas aqueles remédios estavam vencidos e nem de longe eram tão fortes, provavelmente Bryan deveria ter me dado algo parecido e aquela dormência no corpo era resultado disso. Bryan? Por que o nome dele veio a tona? Não nos vemos há...
Azul. Bip. Amargo. Frio. Devy.
Aquelas cinco sensações eram as únicas coisas das quais eu tinha ciência... Por que? Tentar me lembrar do que veio antes disso, mas foi como vagar pela escuridão. Meu corpo estremeceu de frio e senti lágrimas tentando escapar dos meus olhos, por que estava tão frio?
Azul. Bip. Amargo. Frio. Devy.
– Não tente se levantar, se fizer isso vai ficar tonta. Provavelmente vai perder a consciência de novo.
– Devy...
– Também não tente falar, precisa se manter calma.
– Então estou com os Dragões agora? Eu vi você na mente do Bryan... Eu...
Escuro. Frio.Dor de cabeça.
– Eu disse para você se manter calma Felícia. Já tivemos essa conversa antes e você não me ouviu, vai ser aquela menina que fugiu do orfanato para sempre?
As mãos de Devy tocaram meu pulso, minha visão ainda estava nublada. Azul. A presença dela era quase palpável, provavelmente porque não era a primeira vez em que ela ficava próxima de mim.
– Muito bom, vou diminuir o ar, você está gelada.
Pensei em dizer obrigada, mas ela me disse para manter a calma, para nem me mexer em nem falar e além de mais, era Devy... Agradecer a Devy? Não.
Uma luz brilhante confundiu o azul por um momento.
– Você consegue focar na luz? Apenas aperte minha mão uma vez se conseguir e duas caso não consiga. — senti os dedos dela na minha mão, era a primeira vez que eu tomava consciência de uma parte isolada do meu corpo.
Vi a luz passar diante do azul mais uma vez, mas não consegui acompanhá-la, apertei duas vezes a mão de Devy.
– Você sofreu uma pancada muito forte na cabeça, por isso precisa ser cuidadosa. Tente dormir um pouco e eu voltarei mais tarde.
Ouvi os passos de Devy se afastando, uma porta abrindo e batendo enquanto ela se afastava. Ficar sem a visão aguçou ao menos a audição, já que os outros sentidos estavam entorpecidos.
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A escuridão cedia aos poucos, eu estava sozinha em uma antiga fabrica, diversas maquinas enferrujadas eram as únicas testemunhas dos passos que ecoavam pelo corredor atrás de mim. Não! de todas as lembranças... Por que essa? Tudo o que consegui ao tentar acordar foi vagar de volta à escuridão.
– CORRA! LIA! — Os gritos de Bryan me arrastavam de volta aquele dia maldito.
– Não vou deixar você... Deve ter uma saída pelos túneis.
– Eu não consigo chegar lá, mas você pode Lia... — Ele puxou meu rosto para perto dele e senti seus lábios tocarem os meus. Interrompi o beijo.
– Não! Sem despedidas. Você não pode se despedir de mim Bryan.
Passei o braço dele pelos meus ombros e o puxei pela cintura, os passos atrás de nós estavam mais altos, ele pareceu entender que se ele não tentasse, morreríamos os dois.
Um antigo cano estourou e o pouco de água suja de ferrugem que restava se acumulou em uma poça no chão,ao meu lado o corpo de Bryan tremia pelo esforço que ele fazia para continuar. As maquinas ao nosso redor começaram a rugir, como se voltassem à vida, naquele momento eu pensei que era algum artifício dos Dragões, alguma das armas dos antigos que sobreviveram, mas a medida que a respiração de Bryan ficava mais pesada pelo esforço, as máquinas rosnavam e estalavam mais forte.
– Bryan?
A resposta dele veio fraca e mais parecida com uma tosse, estávamos perto dos túneis de esgoto, então pensei que fazê-lo falar fosse um esforço desnecessário.
– Eles vieram por aqui! — A voz de um dos dragões que nos perseguiam ecoou pele corredor.
Bryan se curvou em um esforço para não gritar de dor e caiu de joelhos me levando junto, segurei o rosto dele entre minhas mãos. O nariz dele sangrava e as batidas do coração eram tão altas que eu podia ouvir, tentei fazer com que ele olhasse para mim, mas os olhos dele estavam vagos e quase sem brilho, o corpo dele se contorceu violentamente e as máquinas atrás de nós explodiram em uma onda de fumaça, depois se soltaram das paredes e bloquearam o caminho. Fiz meu melhor para não gritar e abracei Bryan com a maior força que pude pedindo silenciosamente que ele voltasse para mim, de alguma forma eu sabia que ele podia me ouvir, ele podia ouvir os pensamentos ao redor já há alguns meses e foi naquele momento que percebi que as máquinas estavam funcionando por causa dele.
– Volte para mim Bry, obrigada pelo que fez... Você nos deu tempo, mas precisamos sair daqui... Volte para mim... — Sussurrei no ouvido dele e senti que aos poucos os espasmos paravam e a respiração dele normalizava, mas ele estava perto da inconsciência.
Precisei de toda a minha força para arrastá-lo até a grade dos túneis de esgoto, quebrar o cadeado enferrujado foi consideravelmente fácil, Bryan parecia não ter consciência alguma do que havia feito com as máquinas, o corpo dele estava febril e tive medo que ele não conseguisse descer a escada, peguei a corda que estava dentro da minha mochila e passei pelo peito e pelos braços dele, depois passei a corda por cano preso à parede, que embora fosse velho parecia sólido e então coloquei meu próprio corpo como contra peso para descê-lo em segurança. Quando chegamos ao subsolo a já havia afastado Bryan de qualquer sinal do mundo exterior e nada do que eu fizesse era capaz de trazê-lo de volta.
Haviam alguns cobertores enrolados dentro da mochila dele, forrei o chão frio com eles e coloquei Bryan em cima, levei a garrafa de água até a boca dele e cuidadosamente fiz com que bebesse um pouco. No andar de cima eu podia ouvir os Dragões removendo os escombros, então deixei Bryan nos túneis e subi a escada de volta à fábrica, recoloquei a grade no lugar e deixei algumas pedras em cima, para que os Dragões não vissem que o cadeado havia sido quebrado. Eu precisava afastá-los de Bryan.
Quando eles conseguiram passar pelos escombros eu estava na passarela de metal que atravessava as caldeiras desativadas, que graças a Bryan tremiam violentamente sem nada dentro, logo elas explodiriam também.
– Ela está sozinha! — O homem falou novamente
– Bryan, Rápido! Eles já estão aqui! — Eu gritei como se ele estivesse à minha frente e continuei correndo.
– Não deixem que fujam! — O homem gritou para os outros três companheiros, aparentemente acreditando em mim. A escuridão cobria tudo o que meus olhos eram capazes de alcançar e protegia minha mentira, o calor era quase insuportável, mas me proibi de parar.
As caldeiras explodiram quando dois deles ainda estavam na passarela e deixaram um terceiro ferido, um homem alto com os cabelos raspados apenas do lado direito, onde havia uma tatuagem de dragão se lançou sobre mim derrubando nós dois e minha cabeça bateu na parede com força o bastante para me deixar tonta.
– Tudo bem querida, é só você não resistir e eu prometo não machucar uma gracinha como você. Estamos combinados?
Eu cuspi no rosto dele e usei toda a minha força para deferir um chute no meio das pernas dele, mas eu estava desorientada e ele evitou o chute facilmente. Os lábios dele se curvaram em um sorriso e ele limpou a saliva do rosto. A próxima coisa que senti foi a palma da mão dele na lateral do meu rosto.
– Vou repetir e dessa vez espero que preste atenção: Se você não resistir, não vou machucar você. — Ele segurou com uma única mão meus pulsos acima da minha cabeça me mantendo presa à parede e com a mão livre acariciou meu rosto no mesmo local que tinha atingido antes, minha pele estava dormente e mal pude sentir o toque delicado. — Eu odiaria estragar esse rostinho lindo.
– Marcus? Marcus é você? — O homem ferido mancou alguns metros até onde estávamos.
– Tudo bem Dayon, ela vai se comportar, nós combinamos. — O homem chamado Marcus sorriu, depois me puxou da parede e me colocou de frente ao que se chamava Dayon. — Essa belezinha mandou o Coroman e o Amon pelos ares... Me empreste suas algemas Dayon, é melhor garantir que ela não fuja de novo.
Dayon pegou as algemas no sobretudo de couro vermelho e de corte fino, depois segurou meu rosto entre as mãos e olhou nos meus olhos.
– Onde ele está? Não sou paciente como Marcus e não vou perguntar de novo.
– Ele está a salvo e bem longe daqui! — Foi minha vez de sorrir, deixei que uma falsa imagem de Bryan correndo para o lado oposto da passagem bloqueada fluir da minha mente para a de Dayon, então senti uma pancada ao lado da cabeça que me mandou de volta à escuridão fria dos sonhos e para longe daquela lembrança.
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