Os olhos que me encaravam no espelho eram de um azul acinzentado intenso e frio, olhos que zombavam de mim enquanto a garota por trás deles tentava desesperadamente dizer como parecíamos patéticas. Parecíamos. Ri desse pensamento, pensar nessa parte da minha mente como outra pessoa era só mais uma prova da proximidade do abismo. Eu estava enlouquecendo, mas não me permitiria cair na escuridão tão facilmente, então escutei finalmente a voz que me dizia para reagir. Pisquei encarando novamente a desconhecida no espelho, havia terra nos longos fios de cabelo louro e sangue coagulado em algumas partes, verifiquei cuidadosamente o resto do meu corpo, constatei que as roupas estavam rasgadas e imundas, minha pele tinha arranhões em alguns pontos, mas não havia nenhum corte que justificasse o sangue e para piorar, não conseguia me lembrar da noite anterior. Ri ao perceber que aquela imagem não tinha nada desconhecida e que era apenas uma consequência do meu pequeno talento para encrencas.

Depois de aceitar os fatos, achei que ficar pensando neles não ajudaria muito, por tanto desfiz cuidadosamente o emaranhado de fios que se transformara a trança que eu estava usando (e não me lembrava de ter feito), tirei as botas de couro, gastas, mas não danificadas, o que era bom porque botas como essa não eram fáceis de achar. Andei até o que um dia fora um banheiro, tive que usar um balde velho para encher a banheira, já que o encanamento estava podre há anos e o único recurso era trazer a água do poço até ali. A água estava fria o bastante para me fazer estremecer e alguns dos arranhões ardiam, mas ainda era melhor que o cheiro de suor e sangue seco, lavar o cabelo foi a parte mais demorada e enquanto tentava transformar o ninho de pássaros em algo apresentável olhei pela ultima vez o cômodo, os azulejos da parede estavam velhos e quebrados, era possível ver o mofo descendo do teto e a pia fora arrancada há muito tempo, as janelas já não tinham vidros e estavam emperradas, também havia um buraco no chão onde um dia um vaso sanitário esteve e por último o espelho sujo e trincado que eu usava quando necessário.

Depois do banho encontrei roupas limpas, mas que estavam tão velhas como as que usei no dia anterior. Recolhi meus pertences espalhados pela sala, provavelmente a sala de visitas, mas os cômodos da casa em ruinas eram apenas uma pálida sombra do que foram um dia. A verdade é que eu não queria partir, estava ali há quase seis meses e era o mais perto do que eu poderia chamar de lar, mas pensar assim não era bom, eu precisaria ir embora mais cedo ou mais tarde e isso só dificultava as coisas. Tudo o que eu tinha cabia em minha mochila e não demorei muito a recolher tudo, enchi meu cantil com água e calcei as botas como um ritual lento de despedida, calçar as botas e ir adiante mais uma vez, repetidas vezes, desde que me vi obrigada a cuidar de mim mesma, em um mundo quebrado.