Mary Kate apressou o passo, primeiro pensou que estava ficando paranoica, transformando sua antipatia pelos modos americanos em insegurança, mas agora era óbvio, aqueles caras a estavam seguindo, e não era a primeira vez, eles já estavam rondando o dormitório, e embora não tivesse certeza, a garota pensava reconhecer um dos grandões desde o aeroporto de Londres. Por que eles estão me seguindo?, perguntava-se, imaginando se seu avô teria sido capaz de mandar alguém para vigiá-la, ao mesmo tempo descartou a possibilidade, Lorde Dashwood não fazia o tipo.

Mary voltou a se sentir segura quando pisou na calçada da universidade, ali, dentro dos portões de Harvard nenhum fortão iria fazer qualquer coisa que fosse com ela; ainda assustada, ela não resistiu à tentação de olhar para trás, eram dois, tinham a aparência daqueles caras de filmes sobre a máfia italiana, altos, fortes, usando ternos pretos aparentemente bem alinhados.

— O que você está olhando, Mary? — Mary Kate assustou-se, virou a cabeça e encontrou os grandes olhos castanhos emoldurados por espessos cabelos ruivos da sua colega de classe. — Conhece aqueles caras?

— Oi, Blair, não, não sei quem são, quer dizer, pensei que conhecia, mas, deixa pra lá.

— Temos aula com o professor Langdon agora. — Blair praticamente agarrou Mary Kate pelo braço e as duas seguiram para a sala de aula. — Ah, você não acha que ele tem algo de sexy?

— Quem?

— O professor Langdon, é claro.

— Não, definitivamente não.

— Eu acho, e mais, se ele me desse bola.

— Blair!

— O que? Ele é homem, eu sou mulher, qual o problema?

— Só que ele tem cinquenta anos, e é seu professor.

— Que caretice, Mary Kate.

— Eu tenho certeza que o professor Langdon não é do tipo que se envolveria com uma aluna.

— Ai, Mary, eu acho lindo esse seu jeitinho de princesinha de contos de fadas, você pode acreditar em cavaleiros, mas eu acho que há mais por baixo daquele terno de tweed. — Mary não evitou dar uma boa risada. Quem via Blair falar daquele jeito, poderia jurar que era sério, mas Mary sabia que não, além disso, era engraçado imaginar a cara de Blair se soubesse que Robert era seu pai.

Assim como Scarlet, sua companheira de fraternidade, Blair também insistia para Mary Kate ir a alguma festa com a galera, ou fazer alguma coisa além de estudar, afinal as duas eram amigas, não eram? Perguntava Blair fazendo uma cara de ofendida que a deixava engraçada. Depois da aula, as duas saíram juntas, e Mary Kate topou ir ao shopping.

Mary tinha alguma dificuldade para se comportar como a maioria das garotas de sua idade, não apenas por ser estrangeira, mas toda sua vida foi diferente, enquanto suas colegas da escola pensavam em namorados e primeiro beijo, ela só ficava pensando em conhecer o pai, devorando todos aqueles livros de simbologia, porque também era isso que a ligava a mãe.

Como sempre acontecia quando lembrava de Margareth, os olhos de Mary encheram-se d’água, como era difícil acreditar que sua mãe estava morta, para sempre, e era inevitável não se sentir culpada, se ela não tivesse pedido para a mãe buscá-la naquele dia no aeroporto, talvez ela ainda estivesse viva, mas só talvez, porque aquilo poderia ser o destino, e Margareth acreditava em destino.

— Mary! — Blair gritou, sacudindo a camiseta rosa na frente da garota.

— Qual o problema?

— Qual o seu problema, Mary, você parece completamente fora do ar, o que está acontecendo?

— Ahm, só estava aqui pensando na minha mãe, desculpe. Você ainda vai demorar para escolher qual blusa vai comprar?

— Afinal, de que planeta você veio, porque na terra, garotas adoram fazer compras.

— Eu nunca tive muita paciência para fazer compras.

— Você é mesmo uma garota estranha — Blair disse naturalmente, e continuou escolhendo blusas, embora não fosse comprar nem a metade das que separou.

Mary Kate ficou pensando que não era a primeira vez que alguém a chamava de garota estranha, desde o tempo da escola. Scarlet também vivia lhe dizendo isso, mas afinal, no que consistia essa estranheza, Mary não sabia. Quando finalmente Blair terminou de estourar o cartão de crédito do pai, porque afinal essa era a única coisa boa que ele fazia para a filha, as duas saíram do shopping com as mãos cheias de sacolas e mais uma vez Mary Kate os viu, os dois grandões com cara de Schwarzerneger em O exterminador do futuro, seguindo as duas pela calçada, só que desta vez ela não foi a única que percebeu.

— É impressão minha ou aqueles caras estão nos seguindo?

— Acho que não é impressão sua, e não é a primeira vez que eles me seguem.

— E por que eles estão te seguindo? Quem são eles?

— Se eu soubesse! Não faço ideia. — Os dois homens estavam ficando mais pertos, e as garotas começaram a apertar o passo, quase involuntariamente entraram numa rua que dava num beco estreito. — Não tem saída, Blair, a gente tá num beco sem saída, e isso não é uma metáfora.

— E tem dois caras enormes atrás de nós, é, parece algo com que se preocupar, mas também parece uma cena de filme. Eu fiz aulas de defesa pessoal. — Blair fez gestos com a mão, que Mary Kate entendeu como sendo a imitação mais bizarra que já tinha visto de um ninja. — A gente grita — disse ela, com aparente despreocupação, e deu de ombros; talvez elas pudessem relaxar mesmo.

Mary virou-se para voltar pelo beco, mas esbarrou em algo muito semelhante a um armário, só que usando terno e gravata pretos.

— Desculp... Pe. — gaguejou, e suas pernas tremeram quando o homem enorme a agarrou pelos ombros. — Me solta. — Mary olhou de lado e viu Blair se encolher no canto da parede. — O que vocês querem? — a garota falou, quase sem acreditar que era mesmo sua voz funcionando.

— Onde está o medalhão? — disse o homem com uma voz que mais pareceu um grasnado.

— Meda...??? — Mary Kate controlou a impulso repentino de olhar para o próprio pescoço, porque de repente, aquele presente idiota que sua mãe lhe deu parecia apitar como um sinal de alerta. — Não sei de que medalhão você está falando, sinto muito — disse ela, com firmeza, admirada da própria coragem, enquanto Blair estava branca e muda no cantinho.

— Me dê o medalhão e vocês podem ir embora vivas. — Blair quase gemeu, mas Mary encontrou uma coragem que ela nem imaginava ter, e encarou o grandão.

— Eu não sei de medalhão nenhum, agora se você me dá licença... — Mary deu um pisão no pé do homem, e ao mesmo tempo puxou a amiga pelo braço. Surpreendidos pela atitude da garota, os dois homens não conseguiram reagir a tempo de impedir que elas corressem, e quase esbarraram um no outro quando tentaram alcançar as garotas.

— Sua mãe também foi teimosa — gritou o homem que tinha a voz parecida com um grasnado, e por um instante, Mary Kate se voltou, olhou para trás, mas Blair a puxou pelo braço e as duas continuaram correndo. — Você deixou a garota fugir.

— Não, você deixou a garota fugir.

Blair e Mary Kate correram até ter certeza de que os caras grandões estavam suficientemente longe; só depois de mais de quinhentos metros, as garotas se sentiram seguras para parar e olhar para trás, não havia sombra dos homens, mas o rosto de Mary estava branco.

— Uau! O que foi isso, Mary Kate? — Blair perguntou, colocando as mãos nos joelhos e respirando, puxando o ar dos pulmões e soltando a seguir.

Mas Mary estava com o pensamento distante, no que o homem falara: “sua mãe também foi teimosa”. O que ele quis dizer com isso? Mary não sabia, mas algo dentro de si dizia que tinha a ver com o medalhão que ela tirou do pescoço e ficou observando. Não havia nada demais naquela joia, nem sequer tinha valor, além do valor sentimental, se havia algum significado, sua mãe nunca teve tempo de lhe explicar.

— O meda...da...lhão?? — Blair gaguejou com os olhos saltados, fixos na joia que Mary observava atentamente. — Você disse que não sabia de medalhão nenhum...

— E não sei, eu não sei, Blair, não sei quem são aqueles caras, não sei de que porcaria de medalhão eles estavam falando, eu só estou com um mau pressentimento. E quando eu tenho um pressentimento... — ele costuma acontecer, acrescentou em pensamento, lembrando-se exatamente da sensação que teve na noite que sua mãe morreu.

As duas tinham discutido mais uma vez por causa do pai misterioso de Mary, de quem a mãe nunca falava direito; Mary saiu de casa após a discussão, ameaçando ir até os Estados Unidos e procurar o pai, mas quando estava no aeroporto, se arrependeu de tudo que tinha dito, se deu conta de que estava sendo completamente injusta com a mãe, telefonou para Margareth e pediu desculpas, desculpas sinceras, e desistiu de viajar, preferindo esperar pelo combinado, afinal, Margareth prometera levá-la e apresentá-la ao pai quando fosse o momento certo, e ela teria cumprido a promessa, se naquele mesmo dia, quando foi buscá-la no aeroporto, o carro que ela dirigia não tivesse batido.

— Mary, você tá legal? — Blair perguntou, reparando como a colega parecia distante.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tenho, estou bem, Blair.