RON CONHECIA ROBERT HÁ alguns anos, e além de amigo, era admirador do trabalho de Langdon, conhecia apenas superficialmente as aventuras mais famosas do professor, mas nunca poderia ter imaginado algo como o que o seu, agora cliente, estava lhe contando.

— Eu realmente não sei o que dizer, Robert — disse Ron, e sua expressão significava exatamente isso. Robert deu um sorriso discreto.

— Foi exatamente o que eu pensei. Mas o que você acha que pode fazer?

— Bem, como advogado eu aconselho você a pedir um teste de paternidade antes de tomar qualquer decisão.

— Ela não parece ter dúvidas...

— Eu sei, Robert, mas é a coisa certa a fazer, eu entendo que você não queira magoar os sentimentos da garota, mas, considerando que ela é estrangeira, menor de idade, e a mãe está morta, é a melhor maneira.

— Você tem razão.

— Em caso do teste ser positivo, não haverá problemas, nosso país matem boas relações diplomáticas com a Inglaterra.

— Acho que ela vai gostar de saber disso. — Robert sorriu, algo muito semelhante ao sorriso de uma criança encantado com algum novo brinquedo.

— Robert, você já gosta dessa menina, não é? Eu quero dizer, independente do que aponte o teste, você já sente algo por ela.

— A solidão nunca me incomodou, Ron, mas, pensar que eu poderia ter alguém para fazer parte da minha vida, alguém com quem se preocupar, eu não sei, acho que isso me tocou, eu devo estar ficando velho mesmo. — Robert sorriu novamente, como se aquela conclusão resumisse bem o que estava sentindo.

— Eu vou preparar a petição para o juiz, enquanto isso, eu sugiro que você fale com a, ahm, sua filha.

Uma sensação que poderia facilmente ser entendida como alegria invadiu o coração do Robert Langdon, ele mesmo não saberia explicar por que sentia-se daquela forma, mas estava ansioso para falar com Mary. Quando voltou para casa naquele dia ficou um instante sentado no escritório lendo textos e preparando as aulas do dia seguinte, mas uma ideia insistente rondava em sua cabeça.

Foi até a cozinha e preparou uma xícara de café, encostou-se na pia enquanto bebia, ficou pensando na garota inglesa com rosto quase infantil, tentando imaginá-la quando criança, como tinha sido os primeiros passos, as primeiras passadas, aquela fase da adolescência, os primeiros garotos. Robert sorriu consigo mesmo, aquilo deveria ser o mesmo que as pessoas que tinham filhos que conhecia sentiam.

Ainda com a xícara de café na mão ele subiu as escadas e foi ao quarto de hóspede de sua casa, há quanto tempo não havia hóspede nenhum ali Robert nem sequer lembrava; abriu a porta, não estava bagunçado, Robert era uma pessoa organizada. No quarto tinha apenas a cama com lençóis brancos, um armário vazio e uma mesa de cabeceira com um abajur. Imaginou aquelas paredes pintadas de lilás, estantes de livros, pôsteres de bandas de rock, roupas espalhadas pelo chão.

Uma batida na porta tirou Robert desses pensamentos, e ele desceu as escadas, tomou um gole do café antes de abrir a porta, e quase se engasgou pela surpresa de ver Mary Kate parada ali.

— Mary Kate?

— Desculpe aparecer assim, Robert, mas... — Mary Kate olhou para trás, e Robert percebeu que ela estava um pouco nervosa. — Eu precisava falar com você — completou ainda olhando em volta como se para verificar alguma coisa.

— Claro, entra, por favor. — Robert abriu passagem para a garota, e ainda olhou um pouco ao redor antes de voltar a entrar. — Você parece nervosa, aconteceu alguma coisa?

— Eu não sei.

— Mary Kate, sente-se aqui, eu vou pegar um copo de água pra você. — Mary Kate sentou, com a ligeira impressão que desmaiaria se não o fizesse. Robert saiu e voltou pouco depois trazendo a água que ofereceu a garota. — Obrigada, Robert. Desculpe por ter vindo aqui, mas, eu não conhecia outra pessoa.

— O que aconteceu?

— Eu saí com as garotas da fraternidade, bom a Scarlet insistiu tanto, nós fomos a um barzinho perto da universidade, mas eu quis vir embora mais cedo, estava no quarteirão da minha casa quando eles aparecerão.

— Eles quem?

— Eu não sei, dois caras estão me seguindo há dias, eu pensei que pudesse ser os seguranças do meu avô...

— Por que o seu avô colocaria seguranças para lhe seguir?

— Foi o que ele disse, professor Langdon, acontece que aqueles homens não trabalham para o meu avô, eu não sei quem eles são, mas estão atrás de mim por algum motivo.

— Há quanto tempo? — Mary Kate deu de ombros.

— Duas semanas, eu acho.

— Por que você não me falou antes?

— Eu... não, sei, acho que não quis preocupá-lo. — Langdon passou a mão nos cabelos de Mary Kate, a garota estava assustada como um cachorrinho e pareceu gostar daquele gesto de carinho, se era difícil para ele, imagina como ela estava se sentindo.

— Ok, tem certeza que não imaginou esses caras te seguindo? — Mary lembrou do dia que voltava do shopping com Blair, aquilo não era imaginação com certeza.

— Absoluta. Eu não sei o que isso significa, professor, mas, acho que tem algo relacionado a isso aqui. — Mary Kate tirou o cordão com o medalhão do pescoço e colocou na mão de Robert. — Eles estavam atrás desse medalhão.

Langdon pegou a joia, e observou os desenhos em alto relevo por alguns instantes, a estrela de três pontas de um lado e a espiral da outra, claro, eram símbolos celta, objeto de estudo de Megg Dashwood, mas aparentemente o medalhão não tinha nenhum valor. Langdon ergueu a cabeça, encontrou os olhos azuis de Mary Kate, aqueles olhos tão semelhantes aos seus próprios, brilhando de expectativa, dada a sua vasta experiência com símbolos, sociedades secretas e amuletos, era natural que a garota esperasse que ele soubesse o que aquele medalhão significava.

— Eu não sei o que significa. Nem consigo imaginar por que teria alguma relação com pessoas te seguindo.

— Robert Langdon, e se eu disser que aqueles homens estão me seguindo desde Londres? — Robert fitou a garota, esperando que ela continuasse. — Na hora eu não me importei, pensei que estava sendo paranoica, ou, que era realmente algum dos seguranças do meu avô, mas quando os vi aqui em Harvard. Eu tenho certeza que eram os mesmos.

O que poderia dizer naquele instante? Robert colocou a mão no queixo, tentando pensar, andou de um lado para o outro, enquanto Mary Kate bebia a água, ainda com a expressão assustada no rosto.

— Seria melhor avisar a polícia. — Mary deu um sorriso forçado e levantou-se do sofá, deixando o copo d’água em cima da mesa de centro.

— Eles não acreditariam. Como você também não acredita — disse, com a voz entrecortada, como se a qualquer momento lágrimas fossem romper.

— Eu não disse isso, Mary Kate.

— Mas não acredita, não é? — De repente Mary sentiu como se fosse uma criança de seis anos tentando explicar a mãe que tinha perdido o ônibus da escola por que ficou amarrando o cadarço do tênis e quando levantou a cabeça ele já tinha passado. — Me desculpe, eu só, fiquei assustada.

— Está tudo bem, Mary, eu acredito eu você — disse Langdon, pegando na mão da garota, Mary sentou novamente, deixando que a calma voltasse aos poucos. Langdon pensou ter encontrado uma explicação plausível. — Você é uma garota rica, Mary Kate, seu avô é importante na Inglaterra, isso pode atrair sequestradores. Por isso nós precisamos falar com a polícia.

— Sequestradores? Você acha... Mas por que eles perguntariam sobre o medalhão? — Isso Robert não saberia mesmo como explicar. — Eu acho melhor voltar para o campus, desculpe por ter vindo.

— Por que você não fica aqui, talvez seja mais seguro — disse Robert, imaginando o que poderia fazer se bandidos resolvessem entrar em sua casa e sequestrar Mary Kate.

—Não quero incomodá-lo ainda mais.

— Não é nenhum incomodo.

Robert voltou a imaginar aquele quarto de hóspedes do andar de cima pintado de lilás e decorado com pôsteres do Coldplay. Tinha pensando em falar com Mary Kate sobre o teste de paternidade e os trâmites legais para que ele a reconhecesse como filha, mas, embora acreditasse que isso a deixaria contente, preferiu deixar essa conversa para um momento que ela estivesse mais calma.

— Espera só um instante, que eu vou arrumar o quarto de hóspedes, já volto.

Robert saiu, e só depois de acompanhá-lo com os olhos enquanto ele subia a escada, Mary Kate reparou na peculiaridade da casa do simbologista; móveis antigos, objetos parecidos com artigos ritualísticos e até uma carranca africana, nada realmente surpreendente para um amante de história e símbolos, mas havia algo mais, era como se em cada centímetro daquela casa houvesse um pedaço do professor. Mary sentiu-se confortável, apesar da aparência de museu, a sala era aconchegante, era uma sensação que ela raramente tinha na mansão dos Dashwood em Picaddily.

Langdon voltou, e chamou a garota para acompanhá-lo ao quarto de hóspedes, onde ela encontrou toalhas, e um pijama do professor. Ela riu e reparou que ele sorria também.

— Deve ficar um pouco grande, mas é apenas por uma noite. Eu também pensei que você fosse gostar de um banho, para relaxar. — Mary assentiu, talvez sem palavras para dizer o quanto aquele simples gesto significava, principalmente por perceber todo o embaraço que Robert estava sentindo, com certeza não era algo normal para o professor ter garotas de dezessete anos como hóspede. — Bom, eu vou deixá-la à vontade, se precisar de qualquer coisa, eu estarei na biblioteca.

— Obrigada, Robert — Mary agradeceu. — Boa noite. — E na sua mente, acrescentou “papai”.

Quando Langdon voltou ao trabalho de preparar as aulas do dia seguinte, sentia-se de certa forma mais tranquilo por saber que a garota estava segura; mais tarde, antes de ir ao seu próprio quarto, empurrou a porta do quarto de hospedes e percebeu que Mary Kate dormia profundamente.