ROBERT LANGDON levou Mary Kate até a Starbucks; eles sentaram, e ele pediu dois cafés. A garota agora parecia olhar fixamente para a logomarca da cafeteria desenhada na toalha da mesa, a determinação e altivez que ela demonstrara até então pareciam ter desaparecido completamente, e Langdon não via nada mais que uma adolescente confusa. E talvez não fosse mais que isso, Roberto imaginou como ela estaria se sentindo, num país estrangeiro sentada numa cafeteria, de frente a um homem que acabara de conhecer e acreditava ser seu pai.

O café foi ser servido, Mary Kate segurou a xícara e tomou um gole; levantou a cabeça e a franja caiu sobre a testa, ela passou a mão pelos cabelos, colocando-os atrás da orelha, tomou outro gole de café e sorriu.

— Ela me contou há uns seis anos, depois que nós o vimos na TV, o senhor estava na Itália, alguma coisa a ver com o Vaticano, conclave, enfim. — Robert lembrou rapidamente do dia inacreditável que viveu na cidade do Vaticano, aquilo parecia mesmo ter acontecido em outra vida. — Eu disse a ela que tinha a impressão de conhecê-lo de algum lugar, e ela ficou nervosa, e bom, a minha mãe não era do tipo que ficava nervosa sem motivo. Continuamos vendo o noticiário, e o seu rosto voltou a aparecer, estavam falando de alguma coisa como atentado terrorista, papas, mas eu estava mesmo era tentando lembrar onde já tinha visto aquele rosto. Então eu lembrei, eu sou muito chata com isso às vezes, sabe quando coloco uma coisa na cabeça não sossego até resolver. Me levantei, fui até a biblioteca, procurei uma caixa onde ela guardava fotos antigas, a mamãe adorava fotos, e tinha um monte. Eu fiquei lá procurando, até encontrar. — Mary Kate tomou um gole de café, depois colocou a xícara na mesa e abriu a bolsa, procurou alguma coisa e tirou uma fotografia que entregou a Langdon. — Essa aqui. Eu nunca esqueço um rosto, é uma habilidade um pouco chata às vezes. — Voltou a pegar a xícara, enquanto Robert olhava a foto.

Era estranho se ver 18 anos mais jovem, tinha mais cabelo, e eles eram mais castanhos, e não havia aquelas rugas no rosto, estava bem mais magro, usava terno de tweed, o seu preferido desde sempre, e sobretudo preto. Estava ao lado de uma mulher de aparentemente 30 anos, tinha o braço em volta dos ombros dela. Megg tinha os longos cabelos castanhos soltos, e usava um casaco branco; ambos sorriam. Langdon observou que no pano de fundo da fotografia tinha um painel onde se lia “SIMBOLISMO NA ARTE CELTA, POR MARGARET DASHWOOD”. Esse tinha sido o tema da palestra de Megg naquela noite e o assunto que o tinha levado a convidá-la para jantar, queria ouvir mais sobre o tema e também se sentiu atraído pela palestrante. Em algum recanto da sua mente, Langdon parecia inclinado a aceitar a história que a menina lhe contava.

— Quando eu voltei para a sala com a foto mostrei a minha mãe, ela ficou meio confusa — Mary Kate continuou. — Eu comecei a fazer perguntas sobre o cara americano da foto, quem ele era, por que ele estava na TV, como ela o conhecia, eu perguntei se eles tinham namorado, e estava brincando, mas ela ficou séria de repente, depois disse que estava na hora de me contar sobre o meu pai, e olha, desde que eu me entendia por gente ficava perguntando sobre o meu pai para ela, mas ela sempre dizia que contaria quando chegasse o momento. Ela resolveu falar depois de ver o tal Robert Langdon na TV, e bom, eu gostei dele só por isso. — Mary Kate sorriu timidamente. — Então ela contou sobre o lance de vocês em Oxford; foi estranho, eu fiquei um pouco chateada com a minha mãe e queria vir para o EUA e encontrá-lo no mesmo dia; depois a raiva foi passando, e a gente ia conversando, eu acabei entendendo a minha mãe, quer dizer, ela não queria correr o risco de a filha ser rejeitada pelo pai, embora sempre tenha falado muito bem do senhor e até dizia que tinha quase certeza que esse não seria o caso. Eu queria muito conhecê-lo, muito mesmo, e a mamãe me prometeu que eu iria, mas nós precisávamos ter um pouco de cuidado e tal, então combinamos que faríamos isso quando eu entrasse na faculdade, porque nessa idade eu já teria maturidade suficiente para aguentar qualquer situação. Enquanto eu aguardava ansiosamente o momento de conhecê-lo pessoalmente, ia conhecendo através dos livros, entrevistas, website; eu devo ter mandado alguns e-mails elogiando o seu trabalho, escondida da mamãe, claro, porque ela não queria que eu fizesse nenhum contato precipitado, bem, ela queria encontrá-lo antes e explicar por que não contou quando descobriu que estava grávida. Só que os planos saíram errados, e ela morreu antes de poder cumprir a promessa de apresentar meu pai. Então, eu estava sozinha, e, desculpe, eu não encontrei uma maneira melhor de encontrá-lo e contar tudo isso.

Langdon deixou o pensamento vagar, repassando momentos da sua vida; a noite apavorante que passou dentro de um poço com água quase no pescoço, sozinho com seu próprio medo, era mesmo um milagre que tivesse continuado vivo depois daquilo. Pensou nas câmaras herméticas da biblioteca do Vaticano, a falta de ar, os pulmões vazios e mais uma vez a certeza da morte iminente, novamente salvo como que por milagre. A vida de Robert Langdon passava como se ele estivesse em algum tipo filme.

Ele deveria ser apenas um professor, levar uma vida tranquila entre livros e documentos históricos, mas tranquilo definitivamente não era uma palavra que se aplicava a vida de Langdon. Aos 50 anos de idade, e depois de enfrentar uma busca enlouquecida pelo Santo Graal, ele pensava que já tinha passado pelas maiores emoções a que tinha direito. Não estava apenas perplexo, estava assustado mesmo, a paternidade era algo muito além dos seus conhecimentos.

— Talvez não tenha sido mesmo uma boa ideia procurá-lo. — Langdon fitou Mary Kate, aqueles olhos azuis eram tão familiares, de uma forma que o deixava assustado. Podia ver que a garota estava decepcionada, ele desejou profundamente poder fazer alguma coisa para ajudá-la, mas não conseguia simplesmente acreditar realmente que era o pai de uma adolescente.

— Eu sinto muito, Mary Kate.

— Por favor, não sinta muito, Sr. Langdon. — Mary Kate balançou a cabeça e deu um sorriso triste. — Foi muita utopia da minha parte pensar que bastaria encontrá-lo e dizer “oi, sou sua filha” e então as coisas se resolveriam num passe de mágica. Desculpe, eu não deveria ter vindo, todo mundo estaria mais feliz. — Mary Kate pegou a bolsa e saiu sem olhar para Robert; ele ainda ficou sentado na Starbucks, segurava a fotografia que a garota lhe mostrava.

O relógio do Mickey Mouse marcava sete e meia, Langdon sabia que tinha alguma coisa para fazer. Textos para ler, aulas para preparar, mas não estava com cabeça para nada disso.

XXX

LANGDON ficou surpreso quando entrou na casa que servia de moradia para uma das várias fraternidades de Harvard: tudo estava arrumado, os móveis eram em estilo de época, em tons escuros. Aquilo se explicava talvez pelo fato de ali morarem apenas garotas. Langdon lembrou com certa nostalgia do seu próprio dormitório em Yale, como o tempo tinha passado, quanta coisa tinha acontecido desde que ele era apenas um estudante.

— Posso ajudá-lo? — Langdon levantou a cabeça e viu uma moça morena, muito bonita, de pé na escada; ela estava usando uma blusa muito curta que deixava à mostra a barriga bem definida, e um short igualmente curto. As pessoas costumam ficar à vontade, pensou Robert, meio sem jeito. — Olá!

— Desculpe, ahm, estou procurando uma garota. — A morena arqueou a sobrancelha.

— O senhor não é o professor Langdon?

— Sim.

— Eu adoro as suas teorias sobre a deusa. — Ela falou enquanto descia as escadas.

Langdon pensou em explicar que não era criador de nenhuma teoria sobre a deusa, mas que tinha feito um estudo sobre símbolos do sagrado feminino, como sugeria o título de um dos seus livros mais famosos, mas lembrou que não era para dar aula que estava ali.

— Mary Kate Dashwood mora aqui?

— Mary Kate, ah sim, a garota inglesa; ela está no quarto, pode ir até lá.

— Obrigado. — Langdon sentiu um pequeno desconforto com o jeito como a moça estava lhe encarando, ela indicou o quarto de Mary Kate na segunda porta à direita. Ele agradeceu mais uma vez e subiu as escadas.

A porta estava aberta e ele viu a garota deitada na cama, de bruços balançando as pernas entrançadas; Mary Kate estava lendo, e Robert deu duas batidinhas na porta; ela levantou a cabeça e não conseguiu esconder a surpresa por vê-lo.

— Professor Langdon?

— Oi, ahm, eu pensei em ver como você estava... E...

— Entra, e, senta, em algum lugar... — Mary Kate colocou os cabelos atrás da orelha, e puxou um pufe que ofereceu a Robert.

Ele sentou, sem jeito, e ficou olhando o quarto; nas paredes pintadas num tom claro de lilás tinha desenhos de borboletas, um pôster de uma banda inglesa, e um mural de fotos onde pôde reconhecer Mary Kate em vários lugares e com várias idades, a maioria na companhia da mãe. Tinha uma escrivaninha com um computador e algumas roupas estavam jogadas numa poltrona. Robert parou os olhos no livro que estava sobre a cama, o que Mary Kate estava lendo, era um dos seus, o texto base do curso de Simbologia, pelo menos ela não estava pensando em desistir da faculdade.

— Bom, eu queria me desculpar pela minha reação. Foi tudo muito repentino. Eu... nunca pensei em ser pai. Eu... não esperava por uma coisa desse tipo.

— Quer dizer que o senhor não me acha mais maluca? — A pergunta deixou Robert confuso, dizer que sim provavelmente ofenderia a moça, dizer que não era admitir que acreditava completamente no que ela dissera. Honestamente, Robert não sabia ao certo.

— Entenda, Srta. Dashwood, isso tudo me parece muito...

— Confuso? É confuso para mim também, professor Langdon, eu só queria uma chance, talvez se o senhor me conhecesse melhor, começasse a pensar nisso não como uma coisa ruim.

— Eu não acho que seja ruim, apenas, improvável.

— Não é tão improvável, o senhor passou a noite com a minha mãe.

— Bem, de todas as coisas estranhas que aconteceram na minha vida, essa foi a pior, eu quero dizer, a mais estranha. — Robert conseguiu sorrir sinceramente, e olhando atentamente para o rosto de Mary Kate assustou-se por ver que ela tinha os traços muito semelhantes aos seus, o formato dos lábios finos, as bochechas um pouco rosadas, e principalmente o azul dos olhos. — Não acredito que você seja maluca, Srta. Dashwood, mas ainda vou precisar de algum tempo para me acostumar com a ideia.

— O senhor pode começar por parar de me chamar de Srta. Dashwood.

— Hum, como você prefere ser chamada?

— Mary Kate, é assim que todos me chamam, pelo nome todo, eu tenho problemas com apelidos.

— Eu também não gosto muito.

— O senhor...

— Certo se eu vou te chamar de Mary Kate, eu prefiro que você não me chame de senhor... — Robert percebeu que a moça ficou vermelha, talvez estivesse pensando em chamá-lo de pai.

— Bem, Robert, você quer sair para jantar?

— Jantar?

— No sábado?

— No sábado, claro, acho uma ótima ideia, sim. — Langdon se sentiu bem quando viu o sorriso iluminar o belo rosto de Mary Kate. — Bom, eu acho que já vou... — Robert se levantou para sair.

— Muito obrigada por ter vindo, Robert. E obrigada por tentar entender, enfim...

— Ah, eu já estava esquecendo... — Enfiou a mão no bolso do paletó e pegou a foto dele e Megg. — Acho que isso te pertence. — Mary Kate pegou a foto, olhou para ela sorrindo, e depois pregou no mural junto com as outras; voltando-se para Langdon, a garota deu um abraço que o deixou sem ação; ele retribuiu o abraço batendo carinhosamente nas costas dela, depois saiu do quarto.

Poucos minutos depois que Robert saiu, a moça morena que o tinha recebido apareceu na porta do quarto de Mary Kate.

— Oi, Scarlet.

— Quem era aquele cara, Mary Kate?

— Hum, o professor Langdon, você sabe, o simbologista...

— Sei, mas desde quando os professores de Harvard visitam os alunos nos dormitórios?

Mary Kate sentiu toda a malícia do comentário da colega, bom, era mesmo suspeito que um professor do nível de Langdon se ocupasse em ir ao dormitório de uma caloura. Ela não sabia exatamente como as coisas funcionavam nos EUA, mas se fosse em Londres, certamente não seria bem visto. Ela mordeu o lábio, pensando em alguma coisa próxima da verdade para dizer, afinal, a última coisa que queria era que de repente a reputação do professor fosse posta em cheque por sua causa.

— Scarlet, o professor Langdon conhecia minha mãe, ele ficou sabendo da morte dela e veio me dar os pêsames.

— A sua mãe morreu? — Scarlet perguntou, visivelmente sensibilizada. — Poxa, Mary Kate, você não falou nada, eu sinto muito, mesmo.