The Last Rebel
13 What’s Your Name
Notas iniciais
Chester entrou em casa, nervoso. Foi ao quarto de Mary Ann e conversou com ela:
- Venha comigo, acho que temos uma solução para parte de seus problemas...
- Mas, Chester...
O homem pegou Mary Ann pelo braço e a puxou.
- Não discute! Você precisa ver uma coisa...
- Chester!
E ele a levou em direção à porta. No entanto, quando chegou à sala, foi tomado por um grande susto. Na sala, de costas para a entrada do corredor dos quartos, estava um homem alto, relativamente magro, de cabelos longos. Havia esquecido a porta destrancada. E ele havia entrado. Quando se virou, reconheceu a visita:
- Você...
Tom fitou Mary Ann. E ela retribuiu o olhar, assustada.
- Eu vim para conversarmos, Mary Ann... – Tom falou.
- E... E quem é você? – Ela perguntou, indignada.
- Mary Ann... – Chester tomou a palavra – Esse é Tom Keifer...
A garota o observou. Não parecia reconhecê-lo.
- Ele veio... – Chester continuou – Ele veio conversar com você...
- Mas o que eu tenho pra conversar com ele? – Mary Ann perguntou, intrigada.
- Ah... Muita coisa... – Chester disse e se retirou.
Os dois ficaram sozinhos na sala.
- Bem... Primeiramente... Prazer em... Prazer... Prazer em conhecê-la – Tom disse, hesitante – Eu vim pra te oferecer meu auxílio...
- Não tem necessi...
- Não, espera! – O vocalista a interrompeu – Tem sim... Se eu for testemunha, posso provar o quanto Burns é pilantra...
- Não precisa... Agradeço mas... Não tem necessidade...
- Bom... Se você não quer minha ajuda desse jeito... Posso te ajudar de outra forma... Você... Já tem um novo empresário?
- Vai querer morder minha grana também? – Ela foi irônica – Sinto muito... Não tenho mais nada...
- Não, não é isso! – Ele sorriu – Mas conheço pessoas bem mais honestas que Burns para te empresariar... Também tenho umas cinco músicas compostas, mas sem ter quem cantar... Eu me proponho a te dar essas músicas... Não precisa me pagar por elas...
- Obrigada... Não posso aceitar...
Tom respirou fundo, fechou os olhos e disse:
- Você não me negou um presente que eu já te dei... Por que negaria isso agora?
Mary Ann não entendeu. Fitou o vocalista, desconfiada. Tom prosseguiu:
- Quantos anos você tinha em 1992?
Mary Ann revirou os olhos e respondeu:
- Sei lá... Uns oito anos... Sou de 84, é... Isso mesmo... Oito anos... Por...
E se interrompeu. Sentiu um arrepio correr sua espinha. Arregalou os olhos verdes.
- Eu me lembro bem desse ano... Foi o ano da minha reabilitação... – Tom falou, abrindo um sorriso.
A jovem sentiu seus joelhos fraquejarem. Tom continuou:
- Encontrei uma pessoa que tocou meu coração. Eu estava perdido na fazenda... Não sabia voltar... Aí encontrei uma garota de oito anos tocando violão sentada numa pedra. Conversei com ela... Ela me ajudou a encontrar o caminho de volta... Depois disso o pai dela me ameaçou. Ela sumiu por um tempo, depois eu a encontrei novamente, com vários ferimentos no rosto... Ela me contou que seu pai a espancava... E, depois, cortou meu coração saber que ela havia tido seu violão destruído pela pessoa que deveria protegê-la, e não agredi-la.
Mary Ann não piscava. Seus olhos se encheram de lágrimas. Tom prosseguiu com seu relato:
- Então, em agradecimento por ter me ajudado nas duas vezes que me perdi, e com o coração partido devido ao que havia acontecido com a pequena garotinha que cantava como um rouxinol, eu decidi dar um presente a ela... E dei meu violão... Escondi numa árvore. E hoje descobri que aquela garotinha, que é uma mulher linda e talentosa, ainda tem aquele violão... Fiquei feliz de saber que fui importante na vida de Mary Ann Collins...
E, numa fração de segundo, Mary Ann correu em direção a Tom e o abraçou. Ele riu e correspondeu o abraço, afagando-a com carinho e enxugando suas lágrimas.
Chester apareceu na porta e sorriu, emocionado. Tom o fitou e sorriu também.
- Você me deu o violão... Você que foi o responsável por tudo! – Ela disse chorando.
- Calma... Eu quero te ajudar mais, Mary Ann... Me deixa te ajudar! Eu vim aqui pra isso!
Mary Ann desfez o abraço e o fitou. Os olhos verdes da moça encontraram os olhos azuis de Tom. Ele era 23 anos mais velho que ela. Mas sentia-se jovem ao olhar para a garota.Sentia-se bem em frente a ela.
- Por favor, Mary Ann... Me aceite como testemunha no processo! Me deixe tentar fazer você voltar a cantar... Aceite minhas músicas... Me deixa procurar músicos para tocar contigo, formar uma nova banda para você... Me deixa ajudar você a limpar seu nome perante a opinião pública!
Tom não sabia por que pedia isso a ela. Sentia como se pudesse, de repente, mudar a vida de uma pessoa e, indiretamente, mudar sua própria vida. Era estranho, depois de tantos anos recluso, sem vontade de viver, em um casamento falido, com problemas de saúde, sentir-se tão vivo a ponto de dar esperança a uma estranha. Que não era tão estranha assim.
Mary Ann ajeitou seu cabelo. E fitou Tom seriamente.
- Você não vai se prejudicar com isso?
Tom riu e esclareceu:
- Não, garota! Por favor! Não seja ridícula!
Ela não gostou do comentário:
- Ei... Eu não sou ridícula!
- Desculpe, não foi isso que eu quis dizer! A minha vida tá uma merda faz tempo... Por que eu me prejudicaria ajudando você? Você não tá tão mal assim na fita... Vou te ajudar porque não acho justo o que estão fazendo com você.
- Mary Ann – Ela ouviu a voz de Chester – Aceite... Você não tem nada a perder!
- Muito menos eu... Um rockstar falido... O que eu vou perder?
E a jovem ficou pensativa. Respirou fundo e resolveu falar:
- OK... Aceito você como testemunha... Vou te passar o telefone do meu advogado... Tenho uma reunião com ele depois de amanhã... Vou para Los Angeles amanhã à noite...
- Sim... Se ele achar que sou útil... Irei com você... Se o Chester me permitir... – Tom fitou o grande amigo de Mary Ann.
O senhor coçou o cavanhaque e disse, entortando a boca:
- Por mim tudo bem... Acho que você é confiável... Pelo menos me sinto mais confortável com você do que me sentia com aquele babaca do Charlie. Aliás... Se quiser... Venha jantar hoje à noite aqui...
- É... Vou aceitar... – Tom fitou Mary Ann. Ela o olhava sem parar. E ele abriu um grande sorriso, involuntariamente.
Ela desviou o olhar, pegou seu celular, que estava no bolso, e procurou o telefone do advogado. Anotou num pedaço de papel e deu a Tom, que guardou no bolso da jaqueta.
- À noite eu volto... – Ele disse, acenando e partindo.
Mary Ann fitou Chester, que sorriu.
- Você sabia de tudo, seu trambiqueiro! – Ela riu, e o abraçou.
Chester retribuiu o abraço, rindo ainda mais.
***
A campainha soou e Mary Ann foi abrir a porta. Era Tom. Ela o admirou. Estava com a mesma roupa da manhã. Mas seu perfume estava mais forte.
- Estou com a mesma roupa, mas juro que tomei banho...
Mary Ann riu da observação do vocalista, que também gargalhou.
Ele entrou, fitando a garota. Ficou hipnotizado pela sua beleza. O sorriso era o mesmo da bonita criança que conhecera na fazenda. Mas o corpo não era de uma criança. Era de uma linda e estonteante mulher.
- Fica à vontade... Vou avisar o Chester que você chegou...
Tom ficou a observá-la sumir pela porta que levava ao corredor dos quartos.
“Como ela ficou linda...” – Pensou, sem tirar o sorriso do rosto. Mas se censurou, em pensamento, por ter tido aquela opinião. Não podia pensar assim.
Mary Ann voltou com Chester.
- Entre, Keifer... Já vou servir o jantar...
Tom respirou fundo e seguiu para a mesa da sala de jantar. Mary Ann pediu para que ele se sentasse. E ele o fez: em frente a ela.
Chester trouxe o jantar e os três comeram, conversando o tempo todo. Tom contou histórias de sua banda, e essas histórias acabaram por divertir – e distrair – Mary Ann. Ao final da noite, Chester decidiu ir dormir.
- Bom... Preciso descansar... Você conversa mais um pouco com nosso convidado, Mary Ann?
- Eu já vou também... Vocês devem estar cansados... Não é mesmo? – Disse o vocalista, levantando-se da mesa.
- Na verdade ainda não estou... Mas se quiser ir... Fique à vontade. – Tom notou, pelo que Mary Ann falara, que ela não queria que ele partisse. E ele acatou sua vontade. Sentou-se no sofá, ao lado dela.
Chester se despediu e foi descansar. Mary Ann e Tom permaneceram conversando na sala.
- Eu liguei para seu advogado... Ele pediu que eu fosse com você na reunião... Para falar tudo para ele...
- Será que vai dar certo?
- Acho que sim... Se não der, pelo menos vamos ter tentado.
Um silêncio estranho se estabeleceu entre os dois. E Tom resolveu perguntar:
- Desculpe perguntar isso... Mas... Quando você se casou com Charlie... Se casou por amor?
As bochechas da garota enrubesceram. Tom notou que ela ficou tímida:
- Ah, não responda, por favor... Não quis te deixar sem jeito...
- Não tem problema... Não... Não casei com ele por amor... Eu estava perdida, ele investia, me roubava beijos, dizia que estava apaixonado por mim... Acabei cedendo...
- É um filho da puta mesmo...
- Pois é... Mas nunca gostei dele... Nosso relacionamento era algo fadado ao fracasso... Nunca imaginei que na verdade o que ele queria era casar comigo pra pôr a mão na minha grana...
- Pois é... Mas veja pelo lado bom... Pelo menos você não sofreu por amor... Poderia ter sido pior... Só sofreu por ter sido enganada... – Tom ponderou.
- É... Pensando por esse lado...
- E de casamento falido eu entendo... – Tom riu.
- Ah é? – MaryAnn abriu um sorriso – Já passou por isso?
- Sim... Me divorciei recentemente. Peguei ela no flagra com outro...
- Santo Cristo! – Mary Ann exclamou – Mas assim... Na cara?
- Não... Na verdade ela estava se encontrando com um cara... Eu segui, fotografei tudo, depois pendurei todas as fotos pela casa, e quando ela chegou, tomou na cabeça... Pedi o divórcio e, pelas provas que eu tinha, ela perdeu o direito a ficar com meu dinheiro...
- É... Você teve sangue frio...
- Eu sempre tenho – Tom tomou um gole do seu refrigerante – A vida me ensinou a ser frio...
- E não pensa em ter outra pessoa?
- Premeditadamente? Não... Só se realmente bater o sentimento... Aliás... Se eu me lembrar de como é esse sentimento... Sinceramente, não sei o que é amor há muito tempo...
Mary Ann baixou a cabeça e disse:
- Eu nunca soube o que é amor... Nem de família... Quanto mais sentir amor por alguém...
- Um dia você vai encontrar alguém que valha a pena... Um dia aparece...
- Não quero esperar, pra ser sincera...
A campainha tocou. Tom havia chamado um táxi.
- Bom... Eu vou pro hotel... Dormir um pouco... Teremos bastante tempo para conversar no nosso voo para Los Angeles...
- Sim...
Tom se levantou e seguiu em direção à porta, sendo acompanhado pela jovem. Ela destrancou e abriu a porta. Ficaram frente a frente.
- Obrigada pela companhia... E por tudo...
- Eu que agradeço... Fazia tempo que eu não ria assim...
E ambos se fitaram. Até que Mary Ann o abraçou. Ele não esperava o carinho, e demorou a abraçá-la também.
- Obrigada!
E Tom deixou a casa de Chester. Antes de entrar no táxi que havia chamado, Tom a fitou novamente. E sorriu.
Mary Ann encostou a cabeça no batente da porta e ficou a observar o táxi ir embora. Suspirou, virou-se e entrou.
***
Tom deitou-se sobre a cama do seu quarto. Cobriu sua nudez – já que não havia levado roupa para dormir – com um edredom e ficou pensativo. Pensava em como o destino era algo imprevisível. Como poderia imaginar que seria o responsável por toda a carreira de Mary Ann? Aquela menina doce se transformara numa mulher maravilhosa, honesta, linda, sensual, coberta de mistérios, e... E se pegou sorrindo para o teto. Tentou se livrar do sorriso, não era possível que só enxergava Mary Ann dessa forma! Vinte e três anos mais nova que ele! Não!
Tom virou-se e adormeceu, nervoso por perceber que a achara mais bonita do que o permitido.
***
Pela manhã, Tom foi ao aeroporto e marcou uma passagem de avião para Los Angeles, no mesmo voo que Mary Ann, depois foi a um shopping e comprou uma mala um pouco maior e mais três trocas de roupa, já que não sabia quanto tempo demoraria a voltar a Nashville.
E, por volta de cinco da tarde, Chester passou no seu hotel para pegá-lo, de carro. Tom já havia pagado a conta e dirigiu-se ao carro. Abriu a porta e entrou. Mary Ann estava sentada no banco do passageiro. Tom sentou atrás.
Conversaram pouco. Chegaram ao aeroporto em silêncio. Entraram, foram para o balcão da companhia aérea e fizeram o check-in. Depois ficaram a aguardar. Quando chegou a hora, Tom e Mary Ann se dirigiram à sala de embarque. Antes de entrar, a jovem deu um longo abraço em Chester. Depois, foi a vez de Tom se despedir do portador do cavanhaque.
- Rapaz... Cuide dessa menina! É mais valiosa que uma esmeralda!
- Pode ficar tranquilo! Ninguém vai fazer nada contra ela.
E entraram. Sentaram-se e ficaram em silêncio. Mary Ann parecia nervosa.
Subitamente, uma senhora se aproximou de Mary Ann e começou a ofendê-la:
- Onde já se viu, o rapaz na miséria e você fazendo tudo o que está fazendo com ele. Você é uma vagabunda, garota!
Mary Ann olhou para a mulher, mas nada respondeu. A mulher continuou:
- Você vai colher tudo o que está plantando!
- Minha senhora – Tom tomou a palavra – Já que a senhora está tão preocupada com o cordeirinho sofredor, que tal sustentá-lo?
- Quem deve dinheiro a ele é essa vagabunda!
- E ela não é vagabunda! Vai cuidar da sua vida! – Tom começou a se irritar – A senhora não tem mais o que fazer não? Vai se...
- Tom, por favor! – Mary Ann segurou seu braço.
Tom a fitou, interrompendo sua fala. Mary Ann pediu, apenas com o olhar, que ele não dissesse mais nada. E, com uma classe sem tamanho, dirigiu-se à mulher:
- Senhora, realmente... Como a senhora mesma disse, eu vou colher o que plantei. Vou ter o que mereço... Acompanhe meu caso nos noticiários que a senhora vai ver a verdade aparecer... Mais cedo ou mais tarde... Agora, por gentileza, deixe-me em paz... Faça uma boa viagem...
A mulher, desconsertada perante a calma e educação de Mary Ann, se retirou, indo para o portão A.
- Vontade de matar essa velha desgraçada! – Tom cochichou.
- Pra que? Não vale a pena ir pra cadeia por tão pouco... – Mary Ann respondeu.
Mas Tom percebeu que aquilo abalou a garota. E, após outro breve silêncio, resolveu perguntar:
- E você não se sente mal quando essas coisas acontecem?
- Claro que sim... – Mary Ann respondeu, sem fitá-lo – Até outro dia eu era parada para dar autógrafos e tirar fotos com meus fãs... Agora, eu sou parada para escutar ofensas. O que mais me chateia não é o partido que as pessoas tomam, mas sim a maneira como elas reagem... E como me julgam sem nem ao menos terem conhecimento do meu passado, de quem eu realmente sou, de tudo o que eu passei, desde que eu era criança até a época em que eu estava casada com Charlie... E que ele me... – E se interrompeu.
- Ele o que, Mary Ann? Não vai me dizer que o Charlie... – Tom arregalou os olhos azuis, já imaginando o que Mary Ann iria dizer.
Ela meneou a cabeça positivamente.
- Não acredito que ele teve coragem! Que filho da puta! – Tom falou, cerrando o punho. – Como ele ousou levantar a mão pra você!
- Mas ele me batia...
- E você nunca procurou a polícia?
Mary Ann abriu um sorriso, fitou Tom e respondeu:
- Não... Nunca... Quem cresce apanhando se acostuma tanto que a agressão acaba deixando de ser crime...
- Não, mas não pode...
- Eu sei que não pode, Tom... Mas por mais que ele fosse preso... A dor continuaria no meu coração... O que tiver que ser, será!
- Mas se isso tivesse vindo a público, pessoas como aquela velha idiota não te julgariam como estão te julgando...
- É, talvez realmente fosse verdade... Mas, quer saber? Pouco me interessa a opinião pública... O que interessa é o que está dentro do meu peito...
E sorriu. Tom não acreditava na serenidade da moça. Como era possível que uma pessoa que estava passando por tamanho problema pudesse se manter tão tranquila?
- Não sei como você consegue ficar calma perante tudo isso! Sinceramente!
- Ah... É o que falei... Aprendi a apanhar desde cedo...
Tom desviou o olhar, entristecido.
O voo foi anunciado e eles se dirigiram ao portão B.
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