The Last Rebel
14 Tuesday’s Gone
Notas iniciais
O avião decolou com alguns minutos de atraso. Tom notou que Mary Ann, sentada ao seu lado, na janelinha, não ousava olhar para fora. Estava trêmula, ofegante, com suas pupilas dilatadas de tanto medo.
- Você tem medo de avião? – Perguntou.
- Pavor! Desespero... Enquanto essa joça não estabilizar no ar e estiver subindo, eu não consigo me mexer.
Foram surpreendidos por um chacoalho. Mary Ann fechou suas pálpebras fortemente e travou seus lábios. Tom olhou para ela e sorriu, achando engraçado a menina ter aquelas reações.
- Calma... Só um pouco de turbulência...
E outra vez o avião balançou. E mais uma vez. E outra. Mary Ann derramou duas lágrimas e Tom ria em silêncio.
- Mary Ann, nada vai acontecer! Fique tranquila!
- Não consigo ficar tranquila aqui!
O comandante abriu o microfone e falou aos passageiros.
- Senhores passageiros, aqui é o comandante Summers, estamos passando por uma zona de turbulência. Peço que mantenham os cintos atados e os encostos dos bancos elevados até passarmos por essa região.
Mary Ann começou a rezar em silêncio, e Tom segurou uma risada, para não ser desrespeitoso. Subitamente, Mary Ann começou a apresentar sinais de enjoo. Tom, prontamente, pegou um saquinho que estava no porta-papel do banco da frente e deu a ela. E a jovem passou muito mal. Depois que seu enjoo melhorou, ela fechou o saquinho e continuou a respirar fundo. As turbulências finalmente cessaram e os avisos de atar cinto de segurança se apagaram. Mary Ann aproveitou-se disso para ir ao banheiro.
Tom chamou a aeromoça, que em alguns segundos apareceu. Deu a ela o saquinho contendo o vômito de Mary Ann e aproveitou para perguntar:
- Tem algum problema usar mp3 player agora?
- Não, senhor, pode usar sim. Esses equipamentos não interferem nos sistemas do avião.
O vocalista agradeceu. Retirou sua mochila do bagageiro acima do banco e de dentro dela tirou um iPod. Aguardou, distraidamente olhando para o visor do aparelho, que Mary Ann voltasse. Mas ela não voltava. Decidiu ver se estava tudo bem. Levantou-se de seu assento e foi em busca dela. Quando chegou ao banheiro da aeronave, ela já estava saindo.
- Tudo bem?
- Sim... Tudo bem agora... Parece que essa porcaria está estável...
Tom aproximou-se da garota, escondeu sua boca com a mão e, em tom de cochicho, falou:
- Tá... Eu também acho o avião uma porcaria, mas não deixa ele saber disso agora! Ainda estamos dentro dele!
E riu. Mary Ann sorriu e depois acabou dando uma risada.
- Vamos... – Ele disse, voltando para o assento. Ela o seguiu.
Ele deixou que ela entrasse se acomodasse no assento antes, depois se sentou e retirou o iPod do bolso.
- Escuta um pouco de rock... Vai te ajudar...
Mary Ann colocou os fones de ouvido. Apertou o play do touch screen e ficou a escutar músicas aleatoriamente. Acabou por adormecer. Tom ficou lendo uma revista durante o voo.
Quando Mary Ann acordou, já haviam aterrissado em Los Angeles.
- Já chegamos? – Ela disse, sem notar que haviam descido.
- Sim... O bom foi que você não viu o pouso! Iria ter enchido mais uns três saquinhos daquele. – Tom respondeu, rindo.
- Foi tão ruim assim?
- Brincadeira! Não foi! Foi super tranquilo! Parecia uma pena descendo!
Levantaram-se e seguiram para fora da aeronave. Saíram pelo finger, depois chegando à sala de desembarque, até o saguão do aeroporto. Foram até a esteira de bagagem. Tom pegou a mala da jovem, e depois sua pequena valise.
Depois saíram e tomaram um táxi. O motorista reconheceu Mary Ann na mesma hora. Mas dessa vez, nada de insultos.
- Eu vou querer um autógrafo da senhora...
- Sim... Amigo... Eu te darei... – Ela respondeu, educadamente.
- Eu fiquei sabendo dos rolos... Mas quero deixar claro que não confio naquele homem... Ele não me engana!
Tom fitou Mary Ann e sorriu. Ela retribuiu o sorriso, contente por saber que havia poucos que estavam ao seu lado.
Chegaram ao hotel. Ela deu o autógrafo ao sorridente homem. Desceram do táxi e foram fazer o check in no balcão. Mas algo provocou uma situação constrangedora:
- Só temos um quarto vago... – Disse a balconista.
- Mas eu reservei dois! – Tom discutiu.
- Sim senhor... Mas não pude segurar... O gerente pediu para que eu liberasse... A ordem veio de cima...
- OK, vamos procurar outro hotel então...
- Tom... – Mary Ann falou – Tudo bem... Eu não me incomodo.
- Não, não vou deixar você constrangida...
- Não tem problema! Não vou me incomodar de dividir quarto com você... Sério mesmo...
Tom olhou de canto de olho, desconfiado. Mas acabou cedendo, pois o cansaço era visível em ambos. Fizeram o check in e seguiram para o quarto. Quando chegaram, ele não deu a tradicional gorjeta ao carregador de malas, por raiva do hotel.
- Eu preciso tomar um banho... – Ela falou, timidamente.
- Tudo bem... Fique à vontade...
Mary Ann se trancou no banheiro com a sua mala. Tom olhou pelo quarto. Somente uma cama de solteiro e um pequeno sofá.
“Vou dormir no sofá” – Pensou. Interfonou na recepção e pediu um novo jogo de lençóis. Preparou uma cama improvisada quando o lençol chegou. Foi o tempo de Mary Ann sair do banheiro, levemente envergonhada por estar vestindo um pijama.
- Bom... Agora quem vai tomar um banho sou eu... – Tom sorriu, pegou sua maleta e entrou no banheiro.
Tomou banho sem pressa. Depois que se secou e se vestiu, escovou os dentes e fez a barba. Vestiu uma camiseta e um short, ao sair do banheiro, encontrou Mary Ann deitada no sofá.
- Ah, não senhora! Você vai se deitar na cama! O sofá é meu!
- De jeito nenhum!
- Ah, Mary Ann, não faz isso! Por favor! Não vou me sentir bem se você dormir no sofá! Deixa que eu acordo torto!
- Mas tá confortável aqui!
- Tá nada! Vai pra cama!
- Não!
- Sim!
- Não!
- Eu sou mais velho! Eu mando aqui! Vai, senão eu ligo pro Chester e conto...
- Você não vai falar pro Chester que estamos no mesmo quarto!
Tom riu.
- O que é que tem demais?
- Não! Não faça isso!
- Oras, não estamos fazendo nada de errado!
- Ah, mas eu tenho vergonha!
Tom riu. E se aproveitou do medo da garota.
- Então melhor a senhora sair desse sofá e ir pra cama, senão eu ligo.
- Tá... Tá bom... – Ela se convenceu e obedeceu ao vocalista.
E levantou-se. Deitou na cama. Tom deitou-se no sofá. Mary Ann apagou a luz e desejou boa noite.
Tom respirou e sentiu o perfume da garota impregnado no travesseiro. Sorriu e, na sequência, adormeceu.
A manhã nasceu e Mary Ann já não dormia mais. Já havia perdido o sono e estava preocupada com a reunião que teria com o advogado. Ela se levantou e foi para a varanda. Ficou a observar os primeiros raios de sol que iluminavam o dia.
Era uma segunda-feira. Apesar de ter morado em Los Angeles, ela não gostava da cidade, pois não lembrava em nada seu território.
Pensou em tudo o que estava passando: desde quando era uma criança, até o que passava naquele momento. Deixou algumas lágrimas caírem por seu rosto.
- Tudo bem? – Ela escutou uma voz grave atrás de si.
- É... Na verdade não... – Respondeu chorosa.
- Imagino que realmente não esteja... Mas fique tranquila que você não está sozinha.
Mary Ann virou-se e fitou Tom. De repente, um arrepio tomou conta de si. Sentiu um tremor invadir seus membros. Seu coração disparou quando ele sorriu.
- A que horas vai ser a reunião com seu advogado? – Ele perguntou. Não conseguia olhar para ela e não sorrir.
- Oito e meia...
- Então é melhor nos arrumarmos, tomarmos café da manhã logo... Senão nos atrasaremos.
- Tem razão... – Ela tentou desviar o olhar para tentar disfarçar o nervosismo.
- Tá tudo bem, Mary Ann? – Tom se aproximou da jovem, sem tocá-la. E sentir o perfume dele a fez se arrepiar.
- Não... Acho que eu tô nervosa por causa da reunião...
- Mas você tá arrepiada... – Tom apontou para seu braço.
- É... Acho que foi o vento...
- Que vento? – Tom perguntou.
Por sorte, a natureza mandou uma suave brisa gelada. E ele sorriu, dizendo:
- Tá... Esse... Deixa pra lá...
Mary Ann desviou o olhar mais uma vez e falou:
- Vou me trocar...
Entrou, deixando Tom sozinho na varanda, pegou sua mala e se trancou no banheiro. Saiu já vestida. Tom aguardava sua vez de usar o banheiro. Quando ela saiu, ele entrou. E saiu vestido. Mary Ann usava um espelho do quarto para se maquiar. Tom a observou pintar seus olhos e ficou hipnotizado.
- Vamos? – Ela se virou, fitando-o com os imensos olhos verdes.
- Vamos... – Ele disse, tonto com o olhar penetrante dela.
E seguiram para o corredor. Tomaram o elevador e desceram ao andar do restaurante. Comeram, conversando durante todo o tempo, e depois deixaram o hotel. Tomaram um táxi e foram ao escritório do advogado da jovem.
A reunião durou muito, cerca de seis horas. Foram passados todos os detalhes do processo a Mary Ann.
- Sra. Collins... A audiência é amanhã... – O profissional esclareceu.
- Sim... Eu sei...
- Então temos que ter muita certeza de que tudo está correto, a defesa consiste em...
E explicou, minuciosamente, tudo o que falaria. Depois foi a vez de ele escutar o que Tom tinha a contar.
- Sim... O senhor vai ser citado como testemunha... Mas provavelmente será chamado para uma nova audiência...
- Tudo bem... Quantas vezes forem necessárias... – Tom falou.
Após a reunião, Tom e Mary Ann saíram do escritório. Entraram no Starbucks e pediram, cada um, um café expresso.
- Você tem que relaxar um pouco... Não adianta você ficar tensa agora... Deixa para ficar amanhã...
- Eu quero voltar a Birmingham... Odeio Los Angeles...
- É... É difícil ficar num lugar que você odeia... Quer ir ao aeroporto e já comprar as passagens de volta?
- Não... Melhor amanhã... Pode ser que depois da audiência haja uma nova reunião... Melhor deixarmos para marcar amanhã mesmo...
Após tomarem o café, saíram do local e chamaram um táxi. O veículo parou e ambos se dirigiram à porta. Tom atingiu a maçaneta, primeiro, com sua mão, mas Mary Ann também tentou abrir a porta. E suas mãos se tocaram. Tom sentiu a pele delicada, suave e macia de Mary Ann. E ela sentiu um arrepio que nunca havia sentido em toda sua vida. Eles se fitaram. Mas não sorriram. Ficaram alguns segundos a se olhar, os olhos de ambos estavam ilegíveis. Um não conseguia saber o que o outro pensava. Até que uma buzina os acordou do transe em que se encontravam. Era o taxista. Ela tirou a mão e ele abriu a porta para que ela entrasse. Não falaram nada até voltarem para o hotel.
Ao chegarem ao hotel, foram chamados pelo balconista. E este os informou de que havia mais um quarto vago. Tom então se transferiu para outro aposento no segundo andar, enquanto Mary Ann continuou no quarto 445, no quarto pavimento.
Tom foi ao quarto 445 para pegar suas coisas. Ambos estavam cansados. Mary Ann tinha uma forte dor de cabeça e decidiu não jantar. Tom recolheu algumas roupas que estavam sobre o sofá e colocou na sua valise. E se dirigiu à saída. Mary Ann lhe abriu a porta. Eles se olharam.
- Eu vou ligar para o Chester e contar tudo... – O vocalista falou, ajeitando os cabelos longos na altura dos ombros.
- Por favor... Se puder... Eu não tenho como... Pagar a ligação... – Mary Ann entortou a boca e abaixou o olhar, envergonhada.
Tom levantou o queixo dela com o dedo indicador, delicadamente, fazendo-a fitá-lo. Mais uma vez sentiu a pele macia da jovem.
- Quero que você levante essa cabeça e se anime... Vai dar tudo certo!
Ela o olhava assustada. Tom despediu-se:
- Boa noite... Amanhã cedo eu venho te chamar para tomarmos café... Durma, descanse, temos um dia complicado amanhã... Eu vou pedir alguma coisa pra comer no quarto mesmo... E também já vou dormir... Temos que estar bem amanhã!
E virou-se, seguindo para o elevador. Mary Ann fechou a porta.
Tom foi para seu novo quarto e, depois de entrar, fez uma chamada para Birmingham. Chester atendeu. O vocalista contou tudo ao protetor de Mary Ann, que deu opiniões e ficou satisfeito em saber o que o advogado falaria. Após conversarem, Tom desligou, interfonou para o restaurante e pediu um sanduíche e um refrigerante. Quando o lanche chegou, comeu com gosto, pois estava morto de fome. Depois, entrou no banheiro, se despiu e tomou um banho demorado. Pensou muito em Mary Ann durante o tempo todo.
No dia seguinte, ele foi para o quarto dela. Ela já estava pronta. Desceram e foram tomar café. Mas a jovem não conseguiu comer. Depois de uma hora e meia, já estavam no fórum. Tom ficou isolado num local, enquanto Mary Ann aguardava com seu advogado.
Entraram na sala de audiência. Charlie estava com Neville. A cantora e o empresário mal se fitaram.
O juiz anunciou o processo que Mary Ann havia movido contra Charlie. A acusação foi ouvida, depois a defesa. Novamente o advogado de Mary Ann falou, mostrando a cópia que havia sido dada a Chester e a que havia sido assinada por ela. O juiz analisou as duas cópias e indagou a Oscar Neville, que disse se tratar de uma mentira. Até que, depois de um tempo, uma testemunha de Charlie depôs. Não parecia muito consistente. E, por fim, o advogado de Mary Ann tomou a palavra:
- Há uma testemunha que não foi citada no processo, mas eu gostaria de incluir... Já fiz a inclusão dela ontem, mas tenho que pedir autorização do senhor para que ela deponha...
- Eu me recuso a escutar isso – Neville falou – Meu cliente se sentirá...
- Senhor Neville, por favor... Contenha-se – O juiz falou – Pode autorizar a testemunha a entrar.
E, após um minuto, Tom apareceu por uma porta. Fitou Charlie, que ficou atônito. Durante uma hora Tom contou ao juiz sobre coisas erradas que Charlie havia feito a ele: calote na ocasião dos pagamentos de direitos autorais, não só no caso Mary Ann, mas também de músicas compostas para outros cantores e bandas. Até que, ao final, o juiz se pronunciou, pedindo uma conciliação entre as partes. Oscar Neville não aceitou a proposta pedida pelo advogado de Mary Ann, que propôs que fosse obedecido o contrato não assinado, sem necessidade de processar Charlie pela má fé. Ao fim, o juiz disse:
- Bom, como não houve conciliação, marcaremos uma nova audiência, agora de julgamento, para daqui um mês...
Ao fim da sessão, Mary Ann e seu advogado saíram por uma porta. Tom os esperava do lado de fora. Charlie passou por eles. Fitou Tom, com raiva, e disparou:
- Você realmente quer se envolver nessa guerra?
Tom também o fitou irritado, enfrentando-o. Apenas meneou a cabeça afirmativamente. E Charlie concluiu:
- Então se prepara, porque dessa guerra eu serei o vencedor...
E virou a cara, partindo, irritado, sendo seguido por Oscar Neville.
- Não liga... Lógico que ele vai tentar colocar medo em vocês... – Disse o advogado de Mary Ann.
Seguiram para o escritório dele. Fizeram mais uma reunião. Depois de tanto tempo conversando, Mary Ann e Tom se dirigiam ao hotel. Tom foi até uma lan house que havia lá e checou se ainda havia passagens para Birmingham naquela noite. Não houve muito o que fazer: só haveria voo para Birmingham no dia seguinte. Marcou as passagens via internet.
Saíram da lan house do hotel. Mary Ann não havia comido nada o dia inteiro, estava pálida e se sentia fraca.
- Não é melhor jantarmos? – Tom propôs.
- Não sei se consigo comer... Prefiro ficar fechada no quarto...
Conversavam no saguão do hotel quando, de repente, um exército de repórteres e fotógrafos adentrou o recinto. Perguntas surgiam de todas as partes, e fotos eram tiradas sem parar. Tom abraçou Mary Ann, protegendo-a, e correu com ela dali. Os seguranças do hotel tentaram conter os jornalistas.
Entraram no elevador vazio, que por sorte estava no térreo. Tom apertou o botão do quarto andar e a porta se fechou. E assim que o elevador começou a subir, Mary Ann explodiu em um pranto fortíssimo, a ponto de não conseguir falar. Tom a abraçou, consolando-a.
- Calma... Tudo isso vai acabar!
- Minha vida virou circo agora – Ela respondeu, soluçando – e vão aproveitar até quando não puderem mais... Só que eu não aguento!
- Eu também não aguentaria... Mas você tem que ser forte. É a única coisa que tenho para te dizer!
E a jovem abraçava o vocalista, apavorada, chorando desesperadamente. A porta do elevador se abriu e ambos desceram. Entraram no quarto da jovem. Ela se sentou no chão, encostando o rosto na cama, ainda chorando muito. E Tom, consternado, se sentou na cama. Ficou fitá-la, sem coragem de falar nada. Quando deu por si, estava acariciando os cabelos da jovem.
“Meu Deus, o que eu estou fazendo?”, Tom se perguntou, em pensamento, sem entender o que seu coração comandava. Mas sentia vontade de abraçar Mary Ann. Mais que isso, teve que se segurar muito para não pegá-la em seus braços e beijá-la com carinho. Cerrou as pálpebras e balançou a cabeça rapidamente, afastando os pensamentos que estava tendo. “Não posso... Não posso... Vinte e três anos... Não posso fazer isso!”, censurou-se.
Mary Ann levantou-se, enxugando as lágrimas com a manga da blusa e dirigiu-se ao banheiro. Fechou a porta. Tom ficou nervoso. O que ela havia ido fazer dentro do banheiro? Escutou o pranto da menina e ficou, a cada minuto, mais apavorado. A porta se abriu e Mary Ann saiu, olhos e rosto vermelhos, pálpebras inchadas. Sentou-se na cama e fitou o vocalista.
- Quer comer alguma coisa? Quer que eu peça algo pra gente comer aqui? – Tom sugeriu.
- Tudo bem... Pede um sanduíche pra mim... Um hambúrguer simples...
Tom pegou o telefone do quarto e ligou para o restaurante. Pediu um lanche para si, uma para a moça e dois refrigerantes, além de uma porção de fritas. Ao terminar o pedido, desligou. E ficou a fitar Mary Ann. Foi quando se deu conta do que sentia. Queria abraçá-la, e assim ficar, colado ao corpo dela, consolando sua dor. Queria poder experimentar o sabor de suas lágrimas quando elas morriam em seus lábios. Tom estava completamente apaixonado por Mary Ann.
- Tom... Tom? – Ela disse, acordando-o de seus devaneios.
- Ah, oi... Diga... – Ele a fitou, e sorriu. Sentia-se como um menino de quinze anos.
- Tá tudo bem?
- Tá sim... Você melhorou?
- Eu precisava chorar um pouco...
- É... Eu sei... Muita tensão...
Conversaram um pouco, mas Tom parecia estar em alfa. Até que a comida chegou. Ele abriu a porta e pegou uma bandeja, colocando sobre uma mesinha. E ambos sentaram para jantar.
- Mary Ann... Eu... Eu queria te pedir uma coisa... – Tom falou.
A jovem se arrepiou inteira quando ele, discretamente, passou a língua em seus lábios. Que lábios eram aqueles? Que homem era aquele?
- Fale... – Mary Ann tentou esquecer seu pensamento confuso, mordendo o hambúrguer.
- Quando a gente voltar a Birmingham, terei que partir para Nashvillle... Eu gostaria de pedir a você que me deixasse procurar músicos para...
- Tom, por favor... Agora não quero isso...
- Mas a melhor forma de você se sentir bem é justamente trabalhando! Vai distrair sua cabeça! Já tenho algumas ideias na cabeça... Quero compor coisas para você... Aliás eu...
Mary Ann sorriu, amassou o guardanapo que segurava, após terminar seu lanche, e perguntou:
- Você?
- Tem uma folha de papel e uma caneta aí?
- Caneta eu tenho... Mas papel não...
- Não tem problema! Uso isso! – Tom pegou dois guardanapos de papel.
Mary Ann se levantou e pegou sua bolsa, abriu, retirou uma caneta e deu a Tom. E ele escreveu alguma coisa naqueles guardanapos. Mary Ann ficou observando o beicinho que ele fazia enquanto escrevia. Ele contava as sílabas, como se tentasse encaixar em uma música imaginária. Até que ele a fitou novamente, sorriu e entregou os guardanapos a ela. Mary Ann pegou os pedaços de papel. E leu o que estava escrito neles:
“Seu olhar cruzou o meu
Curou as feridas do meu coração
E fez eu me sentir melhor
A noite apenas começou
Senti o calor da sua mão
A maciez da sua pele
E o carinho dos seus braços
E agarrado a você
Quero ficar para sempre”
- O que achou? – Tom perguntou.
Ele notou que as mãos de Mary Ann começaram a tremer conforme ela lia os versos que ele havia escrito. Sentiria ela o mesmo que ele estava sentindo?
- Lindo... – Ela o fitou – Mas... Como você criou isso agora, nesse minuto?
Tom ajeitou o cabelo e respondeu, sem fitá-la, hesitante:
- Tem horas que a inspiração simplesmente surge... É inevitável.
E olhou para ela. Ela estava séria, os olhos verdes gigantes parados, lábios cerrados. Expressão de medo. Tom desviou o olhar. Já havia acabado de comer.
- Eu vou para meu quarto... Se precisar de alguma coisa, pode me chamar, OK?
- Tudo bem... – Mary Ann finalmente se manifestou – Preciso de um banho... Aí sim posso dizer que tenho dignidade...
Tom se levantou. A moça também se pôs de pé. Ficaram frente a frente. Tom se segurou muito para não tomar o rosto da menina em suas mãos. “Vinte e três anos”, pensou. Virou-se, dirigiu-se à porta, e a abriu. Saiu do quarto, voltando-se novamente à jovem, e disse:
- Boa noite... Descanse... Amanhã temos um voo pela frente... E você se estressa com isso.
Mary Ann abaixou o olhar timidamente e sorriu, sem graça. Tom finalmente sorriu. Foi até o elevador, apertou o botão e ficou a esperar. Nesse meio tempo, voltou a olhar para ela, e ela ficou a fitá-lo também. Nada falavam. Ficaram alguns segundos a se admirar, não tiravam os olhos dos olhos um do outro. Queriam, aparentemente, dizer algo. Mas acabaram por nada fazerem. Um ruído anunciou que o elevador havia chegado, e Tom entrou, sem acenar. Mary Ann entrou em seu quarto, trancou a porta, foi ao banheiro, se despiu e entrou no banho.
Tom desceu no segundo andar e foi para seu quarto. Abriu a porta, entrou, trancou a fechadura e respirou fundo. O que estava sentindo? Tinha ódio de si por sentir o que suspeitava que sentia. Havia jurado que nunca mais se apaixonaria por alguém. Mas foi se apaixonar pela pessoa errada. Uma menina, uma garota que tinha idade para ser sua filha. Não, isso era impossível!
Pegou seu celular e discou para Nashville. Uma voz sonolenta atendeu:
- Que é?
- Oi Eric... Preciso conversar...
- Não dá pra ser amanhã não? Tô com sono...
- É rápido... Você tá sabendo né?
- Do que?
- Estou em LA...
- Fazendo?
- Vim depor no júri do caso Mary Ann...
Silêncio na linha. Após três segundos, uma risada.
- Ahahahahahahah essa foi ótima! Depor como?
- Contar sobre as putarias que o babaca do Charlie Burns faz!
- Nossa, como o advogado da garota te descobriu? Foi te procurar pra pedir pra você depor?
- Não... Eu que a procurei!
- Peraí... – Eric aparentemente raciocinava – O que aconteceu pra que você...
- Eric, vou te contar... Espera um pouco... Preciso desabafar!
- Tá, fala...
- Lembra quando eu fiz a minha reabilitação em Birmingham?
- Eu me lembro disso...
- Comentei com você sobre uma menina de oito anos que apanhava do pai... Dei meu violão Gibson pra ela... Lembra?
- Sim... Que que tem?
- Aquela menina era Mary Ann!
Mais silêncio. E Eric respirou antes de falar:
- Ah... E você não sabia disso, porque vivia falando mal dela... Eu presumo...
- Sim... Mas eu tinha a impressão de que a conhecia de algum lugar... Fui conversar com ela em Birmingham... Ela tinha deixado o violão sobre o sofá da sala. Tomei café com o cara que meio que a adotou, o tal Chester, e depois fui para a sala, esperá-la, porque ela tava dormindo... Tomei um susto quando vi o violão. Aí resolvi ajudar mesmo... Comprei a briga dela...
- É... Realmente... Pra você comprar a briga de alguém tinha que ter um bom motivo...
- Eu vim com ela pra Los Angeles e depus hoje na audiência... Vou ter que depor outras vezes... Mas tá acontecendo algo muito estranho...
- O que?
- Sei lá... Eu fico meio tonto quando estou com ela... Ela... Ela... Eric, sabe quando uma pessoa te faz bem?
Uma nova pausa. Tom continuou:
- Ela me dá alegria... Sei lá... Parece que eu...
- Você se apaixonou por ela, Tom... Só pode...
- Não... Não é isso! – O compositor negou seu sentimento.
- Ah, para de se negar! Te conheço há tanto tempo já... Pelo menos trinta anos...
- Não pode ser! Essa moça tem idade para ser minha filha... – Tom disse, embaraçado.
- Qual o problema? Não vejo nada de errado! Dois maiores de idade, por que não?
- Ela é muito inocente... Você tem que ver o que aquele filho da puta fez com ela! Ele batia nela...
- Sei... Bem a cara dele isso...
- Tenho que proteger essa menina!
- É... Esse parece ser outro lado do sentimento que você tem por ela... Querer proteger a garota também é um sinal de que você tá gostando dela...
- Não sei... Não quero... Não sei se ela quer o mesmo... Não deve querer... Ela nem me olha direito!
- Ah, Tom... Sei lá...
- Vou guardar isso pra mim... Se realmente for isso...
- Eu tenho quase certeza de que é... Tom... Preciso dormir...
- Tá, Eric... Obrigado por me ouvir... – Tom agradeceu.
- De nada... Acho legal que quando você tá gostando de alguém fica educado! HAHAHAHAHA!
- Falou, idiota... Boa noite pra você!
E desligou. Tomou um banho rápido e se deitou. Ficou pensando no que possivelmente sentia. E começou a ter um desejo irresistível. Pegou o telefone do quarto e interfonou para Mary Ann. A moça atendeu:
- Oi...
- Mary Ann? Tá tudo bem aí?
A menina puxou o ar, como quem está chorando. E falou:
- Tudo... Tudo bem...
- Você tá chorando?
- É... Eu tava... Não tô mais!
Tom sentiu um aperto no peito.
- Me espera! – Falou, desligando o telefone.
Levantou-se da cama e saiu, em direção ao quarto de Mary Ann.
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