The Last Rebel
15 Trust
Notas iniciais
Tá bem novela mexicana...
Mary Ann abriu a porta do quarto. Tom entrou impetuosamente, descalço, vestido apenas com camiseta e shorts, e a abraçou:
- Não chora, garota, por favor.
A jovem não entendeu nada.
- Mas...
- Não quero mais te ver chorar, OK? – Ele disse, pegando o rosto da moça entre suas mãos.
Sua vontade era beijá-la. Mas se controlou perante os olhos assustados da garota. Ele sentiu as mãos delicadas da moça pegarem as suas. Estavam geladas. Os lábios dela tremiam. Eram lábios médios, pouco carnudos, mas aparentemente eram... Deliciosos. Não se controlou mais. Fechou seus olhos, puxou o rosto da jovem contra si e, ardendo em chamas, deu um estrondoso beijo... Em sua testa.
- Não chora mais... Eu vou ficar ao seu lado porque não quero mais ver você chorar, Mary Ann, você não merece passar por isso!
E a abraçou. Ela correspondeu ao abraço, completamente trêmula. Respirou fundo nos braços de Tom, enquanto ele a apertava para sentir um pouco do seu corpo.
- OK... Não vou chorar mais... E... Eu tô com falta de ar...
Tom começou a rir descontroladamente. E, juntamente com ele, Mary Ann também gargalhou.
- Essa foi ótima... “Tá bom, não choro, mas me larga que você tá me sufocando!” – Tom debochou da situação que os fez dar boas risadas.
- Agora... Vamos dormir, não é mesmo? Boa noite...
- Mary Ann... Você se importa se eu... Se eu dormir de novo no sofá?
- Mas você tem seu quarto... Tá lá... Confortável... Por que vai dormir no sofá? – Ela não entendeu.
- Pra fazer companhia a você... E te proteger... – Tom a fitou com olhar de cachorro que pede por carinho.
Mary Ann sorriu. Pegou a mão do vocalista e a puxou em direção ao seu rosto, beijando-a delicadamente.
- Tudo bem... Fique à vontade...
Ela se voltou para a cama e deitou-se, cobrindo-se com o edredom. Tom sentou-se no sofá e ficou a observá-la, iluminada somente pelo clarão da lua. E, quando percebeu que ela dormia, levantou-se, se aproximou da cama e sentou-se próximo à cabeceira. Ficou a velar o sono da jovem. Quando deu por si, estava a acariciá-la.
“Ela parece um anjo”, pensou. Respirou fundo, levantou-se e voltou para o sofá. Deitou-se, mas não dormiu a noite inteira.
Amanheceu e Mary Ann acordou com a claridade que adentrava o quarto.
- Bom dia... – Ele disse, observando-a espreguiçar-se.
- Oi... – A moça disse, bocejando em seguida.
- Conseguiu dormir bem?
- É... Parece que após todos esses dias eu finalmente relaxei. – Mary Ann coçou um olho.
- Que maravilha! Se... Se você quiser usar o banheiro, fique à vontade... Eu já usei... – Tom falou – Só que eu tô com um problema...
- Que foi?
- Não dá pra sair andando pelo hotel com essa camiseta e esses shorts a essa hora da manhã... – O vocalista riu.
Mary Ann acompanhou sua risada.
- Ah... Fique tranquilo... Eu dou um jeito nisso!
Levantou-se, deixando o lençol sair de cima do seu corpo e revelando sua beleza coberta pelo pijama de motivos infantis. Tom ficou a observá-la, admirado. A cantora caminhou até o banheiro, entrou e cerrou a porta. Mas na sequência a abriu novamente, saiu, abriu a porta do armário, pegou roupas e voltou para o banheiro.
Tom ficou esperando pela moça, ansioso. Não conseguia identificar seu sentimento. O que seria aquilo? Foi arrebatado por um carinho sem fim. Sentia-se como se houvesse se descongelado depois de tantos anos. O ano de 1992 fora especialmente difícil para ele. A única coisa boa de que se recordava naquele ano foi ter conhecido a criança que tocava violão e apanhava do pai. E, mesmo assim, a lembrança era de um sabor doce com uma sensação diferente, talvez um amargor capaz de estragar o mais delicioso dos chocolates. De repente, se sentiu responsável por toda a vida da garota. Um simples presente que havia sido dado muitos anos antes era capaz de transformar a vida de um homem triste e ríspido, tornando-a mais densa, mais colorida. Sentiu-se mais jovem, mais tranquilo, e com esperança de que tudo pode melhorar para qualquer um. Porém, tinha uma grande dúvida: seria esse sentimento pela menina que se tornara mulher ainda um sentimento de carinho e proteção? Ou haveria, realmente, algo mais forte? Seu coração disparava quando sentia o cheiro da jovem. Seu corpo estremecia quando a garota sorria para ele. Sentiu um choque quando ela o abraçou. Sua pele era macia como a mais nobre das sedas. E Tom ansiava por saber como seria tê-la em seus braços de outra forma. De um jeito que doze anos antes seria impossível.
Tentou afastar os pensamentos da sua mente. Uma conta matemática vinha a todo o momento em sua cabeça. E o resultado era sempre o mesmo: vinte e três. Não que diferença de idade fosse um problema para um relacionamento entre um homem e uma mulher, desde que os dois fossem adultos. O que deixava Tom constrangido era justamente o fato de ter conhecido Mary Ann quando ela era apenas uma menina de oito anos. Além de que ela estava na flor da idade, merecia um homem que a fizesse feliz, que tivesse dentro de seu coração a alegria de viver. Algo que Tom desconhecia havia muitos anos.
A porta do banheiro se abriu. Mary Ann saiu vestida com um belíssimo vestido azul, comprido até a linha acima do joelho, meias-calças pretas, sapato de salto, e um xale de lã. Os cabelos longos e negros caíam pelos ombros, cobrindo os seios, morrendo em sua cintura. Uma maquiagem leve a deixava ainda mais linda.
- Vou em busca de algo para você se vestir... Me dê o cartão do seu quarto!
Tom obedeceu à menina. Quem era ele para negar algo àquele anjo? Pegou o cartão que estava sobre uma mesinha, se aproximou e deu a ela. Ela sorriu e saiu do quarto, deixando um rastro de um perfume inebriante.
- Mary Ann! – Tom a chamou.
- Oi… — Ela respondeu, jogando os cabelos ao virar.
- É... Se não se importa...
- Quer que eu já traga tudo? Tá quase na hora do check out...
- Isso que eu ia te pedir... – Tom não evitou um sorriso.
- Vou fazer isso... Já volto...
- Tudo está no banheiro ou no armário... Não desfiz a mala... Não tem bagunça lá...
- Tudo bem...
A jovem se foi. E Tom ficou farejando o ar, como um sabujo que procura sua caça.
- Eu devo estar ficando louco... – Falou sozinho.
Mary Ann abriu a porta do quarto de Tom e entrou. Realmente, a bagunça era pouca, até porque ele pouco ficou lá. Encontrou a valise no armário e nenhuma roupa fora, exceto uma cueca jogada no chão do banheiro. Abaixou-se e pegou a peça, rindo sozinha. Enrolou em um pedaço de papel higiênico sem analisar muito a peça, ainda rindo, e colocou dentro de um compartimento na maleta. Depois se dirigiu à pia e recolheu escova e pasta de dentes, escova de cabelos, creme e lâmina de barbear e um frasco de perfume. Havia um nécessaire sobre o toucador, abriu o zíper e foi introduzindo item por item. O último foi o perfume. A tampa estava mal fechada e, ao tentar fechá-la, o spray do frasco se acionou, molhando a pele da mão de Mary Ann. Ela esfregou o líquido imediatamente, girou a tampa e colocou o frasco na pequena bolsa. Fechou o zíper e foi para o quarto, guardando-a na mala.
Mas, quando estava para sair, sentiu o perfume de Tom subir até suas narinas. Como por reflexo, ela levou a mão ao nariz, e sorveu o odor com sua respiração.
- Que delícia... – Exclamou, sozinha – Mas combina mais com a pele dele...
Revirou os olhos e se censurou pelo pensamento infame. Não, ele tinha idade para ser seu pai, não poderia sentir nada mais que um grande afeto.
Pegou a valise e saiu do quarto, voltando para o quarto andar.
Ao entrar, foi recebida com um sorriso. Tom, que estava sem camisa, pegou a valise e foi para o banheiro.
- Obrigado por me trazer uma pequena mala de dignidade! – Ele riu ao fechar a porta do banheiro.
Mary Ann cobriu os olhos com as mãos, durante um meneio cefálico em negação ao que havia pensado. “Lindo demais... Apesar da idade”, foi o que dissera a si mesma em silêncio. Respirou fundo e sentiu, novamente, o perfume.
Ele saiu do banheiro em poucos minutos, vestido com calça jeans, camiseta preta e botas de couro. E o perfume invadiu o quarto.
- Vamos tomar café. Depois a gente vem, pega as malas, paga a conta e vai pro aeroporto!
- Sim...
Saíram, dirigiram-se ao elevador e chamaram. A porta se abriu e ambos entraram, sozinhos. E assim continuaram até chegar ao andar do restaurante.
- Seu perfume é uma delícia – Ele disse – Deveria usar mais...
- Mas eu sempre uso... – Mary Ann enrubesceu ao se dar conta de que ele também reparara no perfume dela.
E Tom percebeu em qual momento ele havia começado a reparar em Mary Ann: o momento em que passou a vê-la como mulher, e não mais como criança.
- Mary Ann... Alguém já te falou que você é linda demais? – Arriscou, contrariando sua lógica e dando voz ao seu coração.
A menina ficou séria. Tom notou que tinha falado demais. Emburrou-se também.
- Sim... Charlie costumava falar que eu sou linda... Mas acho que na verdade o que ele achava lindo em mim era o meu dinheiro...
Tom cerrou o punho, em uma manifestação de ódio. A porta do elevador se abriu e ambos desceram. Foram ao restaurante sem nada falar. Pegaram algumas coisas para comer no bufê e se sentaram a uma mesa. Até que Tom resolveu desfazer o mal entendido e quebrar o silêncio. Pegou a mão de Mary Ann, que estava sobre a mesa, e segurou firmemente, dizendo:
- Eu realmente acho você lindíssima! E a única coisa mais linda que o seu sorriso são seus olhos! Não me interessa se você tem alguma coisa no banco. É linda desde que eu te conheci em 92!
Mary Ann continuou a encará-lo. Espantada. Tom continuou:
- Você é uma daquelas pessoas que iluminam o dia de qualquer um até nos momentos mais difíceis.
- Tom...
- Eu tenho certeza de que você é muito especial, porque tocou meu coração de uma forma... Linda...
- Tom... Obrigada mas...
E ele percebeu que quem falava era seu coração. Interrompeu-se:
- Desculpe... Mas eu tinha que falar isso...
Ela sorriu.
- Você é muito mais especial que eu... Você me tornou o que eu sou... Sem o seu apoio eu nunca iria ter conseguido tudo o que eu consegui... E sem a sua força eu estaria, hoje, quebrada.
- Eu me recuso a deixar uma mulher como você desamparada... Sério!
Mary Ann desviou o olhar. E voltou a fitar Tom. Que sorriu.
Terminaram o café e voltaram para o quarto. Pegaram a bagagem e seguiram para o balcão. Tom arcou com as despesas do hotel, mesmo sob protestos de Mary Ann. E seguiram para a saída. Tomaram um táxi, foram para o aeroporto.
Fizeram o check in e aguardaram a chamada para o voo. Permaneceram duas horas no aeroporto até que finalmente puderam embarcar. Novamente uma decolagem cheia de medo e estresse. Mas Mary Ann estranhamente se sentia mais à vontade no avião. Parecia que estava mais segura. Tanto que acabou por adormecer mais rápido. E, num dado momento, encostou sua cabeça sobre o ombro de Tom. Este inclinou-se levemente para a esquerda, fazendo com que ela se acomodasse. Encostou seu nariz sobre os cabelos dela, sentindo o perfume. E ficou a acariciar seu rosto até também adormecer.
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