The Last Rebel
8 The way
Notas iniciais
Aquela semana foi cheia. Mary Ann foi entrevistada por inúmeros apresentadores de televisão, cantou em programas, foi chamada para um show. A experiência adquirida durante o American Idol ajudou a garota a ficar um pouco mais solta no palco, embora ela ainda fosse tímida. O fato era que ela, apesar do acanhamento, a cada dia conquistava mais a mídia e, principalmente, os fãs.
Sua agenda lotou de uma forma que seria impossível ela ir a Nashville com Charlie.
- Mas você vai pra lá pra que?
- Vou conversar com um compositor, e depois volto. Se der tudo certo, ele vai compor músicas para você gravar. Temos que ter músicas logo!
- Tá... Mas eu queria ir junto...
Charlie revirou os olhos:
- Mary Ann... Quantas vezes vou ter que te falar que temos que ter músicas logo? Seu contrato com a gravadora não pode ficar eternamente na gaveta. Eles descartam facinho...
- Tá, mas como o cara vai compor músicas que têm a ver comigo sem nem ao menos ter me conhecido?
- Mary Ann! O cara é profissional! Vai por mim! Pesquisa sobre ele na internet!
- Eu nem sei ligar esse troço! – Apontou para um notebook que estava sobre a mesa – Acha que eu vou saber pesquisar na internet?
- Bom... Tudo bem... Quando eu voltar eu te mostro tudo.
Charlie saiu do hotel, deixando Mary Ann sozinha. Pela tarde ela participaria de outro talk show. Tomou um táxi e foi para o aeroporto.
Enquanto ele aguardava o chamado para o voo, encontrou-se com o advogado, Oscar Neville:
- E aí, parceiro! Como está a moça? – O advogado perguntou.
- Um inferno de chata! Parece que a fama já lhe subiu à cabeça!
- É... Essas criaturas que alcançam o estrelato com tanta facilidade são realmente insuportáveis!
- Mas eu passei um aperto, viu... – Charlie comentou.
- O que foi?
- O ex-patrão dela, lá de Birmingham... Quis ler o contrato...
- E você deu a cópia que eu te passei?
- Sim... O contrato falso. – Charlie disse, em tom de cochicho.
- E ele?
- Ah, tava tudo OK né... Ele disse que tudo bem... Mas que se eu aprontasse para o lado dela, ele me mataria...
- Se ele tentar fazer alguma coisa com você, ele vai pra cadeia. Ela assinou o contato porque quis!
- É, eu sei... Mas ele falou isso olhando nos meus olhos... Deu medo.
- Que isso! Charlie! Pelo amor de Deus né... Agora você tem medo de dono de bar?
- Ah... Ele me pareceu sincero...
- Sinceridade é para os fracos! – Oscar tomou um gole de água em uma garrafinha – E agora, você tá indo pra onde?
- Para Nashville... Vou ver se contrato o Tom Keifer pra compor pra ela...
- Bom... O cara tá no obscuro... Vai parecer que as músicas são dela...
- E o cara é bom né...
- É sim... Insuportável... Mas é bom... – Oscar tomou mais um gole.
E chamaram o voo de Charlie, que se despediu de Oscar com um aperto de mão e partiu.
* * *
Tom observou o relógio. Três e meia da tarde. Bufou, olhando pela janela e tomando uma dose de whisky em seguida. Estava irritado com o atraso da reunião. Caroline havia saído, e o vocalista se encontrava sozinho em casa.
“Ah, que saco isso”, Tom pensou, irritado com o atraso de Charlie.
Em dois minutos a campainha tocou. Andou até a porta e a abriu.
- Desculpe o atraso...
- Porra, Charlie! Eu tenho mais o que fazer, não é?
- Ei, calma, Keifer! Reclame com a Delta Airlines!
Tom revirou os olhos e deixou sua visita entrar. Charlie caminhou para dentro, retirando a mochila das costas.
- Entra à esquerda, no meu escritório... Primeira porta... – O vocalista indicou.
O empresário de Mary Ann obedeceu. Sentou-se numa cadeira. Tom se sentou em outra.
- Bem, Tom... Essa menina vai ser um sucesso... Você já a viu cantar?
- Eu só ouvi a final do American Idol... Não tenho paciência para essas idiotices...
- Eu não acho uma idiotice não... Muito pelo contrário... Me renderá uns bons dólares.
- Você, como sempre, só pensando no dinheiro... – Tom serviu whisky a Charlie.
- E você? Você não pensa? Não sai mais de dentro dessa casa desde que sua banda acabou! Só fica aqui, compondo...
- Não quero mais me expor... Quero uma vida sossegada... Tô de saco cheio dessa merda toda. Não posso botar o nariz para fora de casa que vêm me encher o saco... A bosta da imprensa me pergunta quando vamos voltar a fazer turnê!
- Ah, na boa, cara... Você é o único hard rocker fodido dos anos oitenta que reclama da fama!
- Isso mesmo... Eu sou fodido... Mas aposto que você não veio aqui para discutir a minha situação... Porque se veio, eu peço que você saia por aquela porta e nunca mais venha... Você está atrás de dinheiro, não é mesmo?
- É... Nisso você tá certo...
- Então tá... Já tenho umas três músicas que meio que selecionei pra essa menina aí cantar...
- Sabe ao menos o nome dela?
- É Mary qualquer coisa né?
- Mary Ann...
- Isso aí... – Tom entortou a boca.
- Então... Você vai me passar essas músicas...
Tom mexeu em um calhamaço de papéis. Retirou algumas folhas manuscritas e as bateu, em pé, sobre a mesa, a fim de ajeitar.
- São essas aqui... Raining in the Dark, Fallen from Heaven e I’m Yours... Dá pra manter uma levada tanto southern como country… As duas primeiras são agitadas... A outra é balada. Acho que vai dar tudo certo com ela...
- Tá... Então me dê aqui...
Tom esticou o braço, segurando as folhas nas mãos.
- Vou te dar...
E quando Charlie fez menção de pegá-las, Tom as retirou:
- Com uma condição!
Charlie revirou os olhos.
- Direitos autorais nas minhas mãos, ok? – Tom esticou um dedo para o alto.
- E alguma vez eu te passei pra trás?
- Não passou... Mas demorou a pagar! – Tom entregou as folhas ao rapaz – Tenho vários anos de vida na sua frente... Não subestime minha inteligência...
- Não subestimo... Se subestimasse sua capacidade não o teria procurado...
- Eu falei inteligência, não capacidade...
- Keifer, capacidade engloba inteligência...
- Burns! NÃO SEJA EVASIVO! ISSO ME IRRITA! – Tom bateu sua mão na mesa – Você já passou muita gente pra trás. Espero que não faça isso com essa menina... Porque comigo não vai fazer.
- O ex-patrão dela desconfiou de mim... E me ameaçou.
- Você é tão sacana que deixa isso na cara! É óbvio que você vai fazer de um tudo com ela!
Charlie riu.
- Essa é ótima, Keifer! Então quer dizer que eu passo todo mundo para trás...
- Todo mundo não. Você não me engana. Essas músicas já estão registradas. Vou compor mais músicas para essa moça, e vou registrar todas. Só depois eu te entrego isso!
O rapaz bufou, fitou o nada e disse:
- OK... Então eu aguardo as outras músicas... Consegue me mandar pelo e-mail?
- Mando sim... Mas não me pressione quanto a prazo.
- Preciso disso logo! Os caras da gravadora vão botar ela contra a parede!
- Ah tá... Vão botar a menina contra a parede... Você só participa da carreira da garota na hora de lucrar né... Na hora de defender a moça... Tchau!
- Que seja!
- Então tá ótimo... Mas quero que você saiba que não temos um contrato oficial... Então não exija prazo – Tom o fitou, sério – Faço e vou mandando.
- Mas, Keifer...
- Não tem “mas”! Nosso trato é você mandar os direitos autorais para mim. Se for para eu cumprir o prazo, vou querer os 20% das vendas. E vai sair de você, não dela!
Charlie bufou:
- OK, Keifer... Você venceu... Mas pense que é um talento da música que está sob pressão...
Tom bebericou seu whisky e disse:
- Não estou preocupado com ela... Quero só o meu dinheiro, o que é meu por direito. Que saco, Charlie! Quantas vezes vou ter que te falar que não me apego às pessoas!
- Tudo bem... Então vou nessa... Vamos ver também se ela vai curtir essas músicas...
- Ah, então ela tem que escolher... Ah, vai se foder! – Tom esbravejou – Se não gostar, que se foda!
Charlie se levantou e se dirigiu à porta. Tom o seguiu. O empresário abriu a porta e dirigiu-se para fora.
- Tchau, Keifer... Tenha uma boa tarde...
Tom bateu a porta, irritado.
“Se essa caipirinha metida não gostar das minhas músicas, que vá para o inferno” – Pensou, tomando seu whisky.
* * *
Mary Ann despertou ao som de batidas na porta. Levantou-se e vestiu um roupão. Abriu a porta do quarto do hotel. Era Charlie:
- A reunião com o compositor foi um sucesso! Ele já tinha separado três músicas para você! Está empolgadíssimo!
- Ah, é? – Mary Ann bocejou – E onde estão as músicas?
- Na minha mochila... – Charlie falou, retirando sua inseparável mochila das costas. Retirou a pasta de dentro e entregou os papéis à moça.
Mary Ann pegou as folhas em suas mãos e começou a ler. Nada falou.
- E aí? O que achou? – Charlie disse, sorrindo.
- Nada...
- Como assim “nada”?
- Não achei nada, arre! Preciso ver isso pra cantar...
- Então vamos ao estúdio que é pra gente ver isso com a banda como fica... Os músicos já devem estar te esperando!
- Mas nem me troquei ainda!
- Você tem cinco minutos, Mary Ann...
E saiu do quarto, deixando a garota sozinha. Mary Ann foi ao banheiro, tomou um banho, escovou os dentes e se vestiu. Demorou muito mais que cinco minutos. E saiu de seu quarto. Charlie a aguardava na porta.
- Está atrasada!
- Não estou... Nunca que eu iria me arrumar em cinco minutos...
Seguiram para um táxi. Foram quinze minutos até o estúdio. A banda, de fato, já os aguardava. Charlie já havia enviado as músicas para os membros da banda. Mary Ann entrou com eles no estúdio e Charlie ficou do lado de fora, na sala de controle de som, com um gerente do estúdio. O homem tomou um gole de café e falou:
- Vocês atrasaram...
- Culpa dela... Sabe como são essas mulheres... Demoram a se arrumar...
Dentro da sala de gravação, Mary Ann ouvia as músicas, interpretadas pela banda. Ao final, eles se comunicaram com ela pelo interfone:
- O que achou, Mary Ann? – Charlie falou.
- Não gostei... – A menina disse.
Todos ficaram em silêncio. Após alguns minutos de tensão, Charlie falou:
- O que é que tem de errado?
- Ah, sei lá... Achei as músicas chatas!
Mais alguns minutos de silêncio. O guitarrista olhou para o baixista e ambos deram uma risadinha.
- Mas... Será que não seria a falta da sua interpretação?
- Não sei...
- Então canta!
Mary Ann respirou fundo. Fez a contagem e passou a cantar quando chegou a sua hora. Terminada a terceira música, Charlie abriu a comunicação novamente:
- E agora?
- Continuo não gostando... – Mary Ann respondeu.
- OK, galera... Vamos dar um intervalo...
Todos saíram do estúdio, menos Mary Ann. Charlie entrou e foi falar com ela:
- Mary Ann... O que tem de errado?
- Essas músicas são muito... Muito... MUITO PRA BAIXO, CHARLIE!
- Mas o que é que tem demais?
- Muito tristes, muito depressivas! – Não tem como o cara compor algo mais animado não?
Charlie bufou. Respirou fundo duas vezes e pegou o rosto de Mary Ann em suas mãos:
- Menina, escuta: esse cara é um dos principais nomes do rock nos EUA! Você tem que entender que não temos tempo de ficar escolhendo outra pessoa...
- Charlie, fala com ele! Quem sabe ele não pode mandar outras coisas...
- OK... – Charlie se deu por vencido – Grave essas músicas com eles... Eles vão gravar a bateria e as linhas de baixo hoje... Amanhã vão ser teclado e guitarra... Você só vai entrar com a voz na segunda-feira!
- Eles vão trabalhar no domingo?
- Claro que vão... E você vai descansar!
- Não, Charlie... Vou ficar aqui com eles!
- Mary Ann... Bota uma coisa na sua cabeça, meu amor...
A garota revirou os olhos quando Charlie disse “meu amor”. Ele continuou:
- Você é a estrela. Estrelas não trabalham aos domingos...
* * *
O telefone tocou e Tom foi atender. Caroline já havia saído, novamente.
- Alô...
- Oi, Keifer... Sou eu, Burns...
- Ah tá... Que foi?
- Estamos com um problema...
Tom bufou.
- Fala.
- Daria para compor algo mais animadinho? Ela achou as tuas músicas muito tristes...
- Ah, vai se foder, Burns... É isso que eu tenho, e chega... Não gostou, procura outro otário.
- Ela vai gravar essas três... Mas quando for compor mais coisas, faça algo mais animado...
- Mais alguma coisa, senhor? – Tom respondeu, ironizando.
- Não, só isso! As músicas são ótimas... Mas realmente muito depressivas...
Tom desligou, irritado. Seu casamento estava uma droga. Caroline saía todos os dias, pois, se ficasse em casa, haveria briga. E Tom já não suportava mais sua vida. Como iria compor algo animado?
Foi para o escritório, resmungando.
Notas finais
Aguardo reviews!
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