The Last Rebel
9 All Funked Up
Notas iniciais
Quatro dias se passaram e o telefone tocou na casa de Tom Keifer. Ele atendeu. Caroline havia saído pela manhã. Já eram mais de quatro horas da tarde e ela não havia voltado. Tom não tinha almoçado. Não havia nada para comer. A cada dia que passava, Caroline era mais ausente. Tom não se importava. Quanto menos contato tivesse com a esposa, melhor seria. Já não suportava mais ouvir sua voz.
Atendeu ao telefone irritado, como sempre:
- Alô...
- Sou eu, Burns...
- Que você quer agora? A caipira não gravou as músicas porque uma é em lá menor, a outra em mi maior e a outra...
- Não, Keifer... – Charlie o interrompeu – Ela gravou... Mandei as três em .mp3 para você por e-mail... Pra você ver o resultado...
- Ah tá... Depois eu escuto...
- Ficou excelente! – Charlie parecia animado – E aí... Tem mais alguma coisa?
- Tô terminando uma agora... Mas se você ficar me enchendo o saco, vai demorar né...
- Tudo bem... Me mande ainda hoje por e-mail...
- Amanhã eu mando, Charlie... A-MA-NHÃ! – Tom bufou.
- Que seja...
Tom desligou o telefone sem se despedir e foi para seu escritório. Fluffy dormia sobre o papel que continha a canção, manuscrita. Tom havia terminado a letra e escrevia a música. Espantou a gata e sentou-se em sua cadeira. Pegou um violão, que era o último instrumento que faltava escrever. E começou a tocar, cantando. Em menos de uma hora já havia escrito tudo.
Ligou seu notebook e esperou, sem paciência, que ele iniciasse. Abriu um programa de edição de tablaturas e começou a transcrever tudo. Em duas horas já havia terminado. Salvou o trabalho e entrou em seu e-mail para enviar. Fez tudo como tinha que fazer. Quando ia abrir um dos arquivos em MP3 que Charlie havia enviado, Caroline chegou.
- Tá muito frio lá fora...
Tom desistiu de abrir o arquivo. Fechou o notebook e fitou a sua mulher:
- E pelo visto você tá tentando virar um picolé, não é mesmo? Não sai da rua...
Caroline fez uma careta.
- Vou preparar o jantar... – Disse, dando as costas para o marido.
- Não tem nada na geladeira... Você deveria ter feito compras...
Caroline voltou ao escritório e fitou Tom, indignada. Respirou fundo e falou:
- E por que infernos você não levanta esse seu traseiro gordo ridículo dessa maldita cadeira e vai você fazer as compras? Por que eu tenho que fazer tudo?
- Você sabe que eu não saio de casa, Carol... – Tom disse, em um suspiro – Sabe que eu quero evitar sair... Nem na casa dos meus amigos eu vou...
- Burrice isso... Ou então você se acha demais... Acha que todo mundo tá atrás de você o tempo todo... Você não é tudo isso não, Tom... Você já era! As pessoas já esqueceram quem você foi um dia...
- Carol...
- Isso não te impede de ir até o supermercado e abastecer a despensa! Não faz isso porque é vagabundo mesmo! Preguiçoso!
- CAROL, E QUE RAIOS VOCÊ FICOU FAZENDO O DIA INTEIRO NA RUA? CUSTAVA PASSAR NO SUPERMERCADO E TRAZER NEM QUE FOSSE UMA PIZZA CONGELADA PARA NÓS, EU DISSE “NÓS”, JANTARMOS? – Tom gritou, levantando-se da cadeira – VOCÊ NÃO TRABALHA, NÃO BOTA DINHEIRO NESSA MERDA DESSA CASA! TEM TUDO! TEM UM CARTÃO DE CRÉDITO QUE EU PAGO TODOS OS MESES! FATURAS DE VALORES EXORBITANTES EM ROUPAS, PERFUMES, CABELEIREIRO! E SE ARRUMA TANTO, MAS NÃO É PRA MIM! QUEM BOTA A MERDA DO DINHEIRO AQUI SOU EU, COM O QUE EU COMPONHO E COM O QUE EU FUI UM DIA!
- VOCÊ TÁ ME DESRESPEITANDO! – Caroline o enfrentou.
- Ah, Caroline Keifer, quem é você pra falar em desrespeito? Você me desrespeita há anos! Não se interessa em saber se eu estou bem! É assim que se trata um marido?
- Você tem o tratamento que merece, Tom... Desculpe, mas é a verdade...
E deu as costas para o marido. Tom deu um soco sobre a mesa, irritado.
“Ela tem outro... Certeza... Eu vou descobrir isso!” – Pensou. Nervoso.
Foi para o quarto e de lá não saiu até o dia seguinte.
* * *
Mary Ann continuava sua maratona de programas de televisão. No entanto, não podia, por ordem da gravadora, cantar em público as músicas que já estavam gravadas. Aguardava o envio de novas canções.
Charlie checou seu e-mail pela manhã e viu que a canção havia sido enviada por Tom. Tinha o editor de tablaturas em seu notebook abriu o arquivo. A canção se chamava “In The Name of Love”, e além de ser mais animada, era muito bonita. Levou o notebook até o quarto de Mary Ann.
A moça despertou com as batidas na porta. Levantou-se, pediu que esperassem e se trocou. Abriu a porta. Charlie entrou sem pedir licença.
- Olha isso aqui... Ele acabou de mandar outra... Genial...
E executou o arquivo. Mary Ann escutou com atenção. Ao final, Charlie perguntou:
- E aí... O que achou?
- Ah... Melhor que as outras... Mas ainda acho que falta alguma coisa...
Charlie respirou fundo. Tinha vontade de quebrar a cabeça de Mary Ann. Mas manteve-se controlado.
- Vou enviar para os caras do estúdio. A banda vai ensaiar e você vai ver amanhã... Se der tudo certo, já gravaremos... Seu álbum já tem quatro músicas!
- É... Tô vendo.
A apatia de Mary Ann irritou ainda mais o jovem empresário.
- Então aproveite seu dia de folga... Vamos almoçar juntos...
- Vamos?
- É... Vamos... E depois precisamos ver o quanto de dinheiro você já tem para que a gente saia desse hotel...
- Como assim, Charlie?
Mary Ann já estava acumulando uma pequena fortuna, que, obviamente, era controlada por Charlie. Além do prêmio em dinheiro do American Idol, havia também os cachês de shows e de participação em alguns programas. Charlie presumia que Mary Ann já poderia estar com dinheiro suficiente para adquirir um imóvel.
- Pensei que talvez você pudesse comprar uma casa...
A jovem arregalou os olhos, estupefata. Não gostava desse controle exagerado de sua vida.
- Mas, Charlie... Eu não quero comprar um imóvel... Vou comprar uma casa aqui em Los Angeles pra que? Não vou viver aqui a minha vida toda!
- Não vai?
- Não... Não vou! Quero voltar para o Alabama! Isso aqui é muito estranho pra mim! Quero voltar para minha terra!
Charlie deu uma sonora gargalhada.
- Ah, Mary Ann... Você não sabe nada da vida! Por favor, deixa de ser teimosa! Los Angeles é a cidade dos rockers!
- Mas não gosto daqui!
- OK, então se você não gosta daqui, eu até entendo... Mas poderíamos mudar para outro lugar... Nashville, por exemplo! Talvez lá você se sinta mais em casa...
- Eu quero ir para o Alabama, Charlie! Nem aqui, nem Nashville!
- Mas no Alabama não tem como você progredir, menina!
- E outra, que história é essa de nós, Charlie? Eu vou voltar para o Alabama e pronto... Se você quiser ficar aqui, ir para Nashville, pra onde você tiver vontade, problema seu. Nosso contrato é profissional e...
Nesse segundo, Charlie puxou Mary Ann e a beijou com fúria. A menina tentou afastá-lo, sem sucesso, acabou por se render ao beijo. Quando separou seus lábios dos dela, continuou a segurar seus braços:
- Nós, Mary Ann... Isso mesmo! Eu tô falando de nós!
- Me solta, Charlie!
- Eu quero ter uma vida com você!
E a beijou de novo, forçadamente. Mary Ann não sabia como reagir, como se defender. Ele terminou o beijo novamente e a fitou em seus olhos:
- Vou te dar todo o tempo do mundo para te mostrar que eu sou uma boa escolha... Você vai ver!
E, finalmente, ele a soltou, pegou seu notebook, que estava sobre a cama, a fitou mais uma vez e saiu do quarto, batendo a porta. Mary Ann continuou estática no mesmo lugar, assustada.
* * *
Caroline já estava pronta para sair novamente. Pegou sua bolsa e saiu. Seu perfume ficou pela casa. Não procurou saber onde estava seu marido. Não lhe interessava.
Entrou em seu carro e deu a partida. Acelerou, ganhando a rua. Menos de dois minutos depois, Tom ligava o motor de seu carro e iniciava a perseguição, tomando muito cuidado em manter distância do carro de Caroline para evitar ser reconhecido.
Caroline chegou a um pequeno hotel no centro da cidade. Tom estacionou o carro, pegou uma câmera fotográfica e fotografou sua entrada no estabelecimento. Aguardou por duas horas e meia, até que ela saiu do hotel, acompanhada de um homem. Foram a pé até um restaurante, que tinha uma parte externa. Sentaram-se aí, a uma mesa, e permaneceram o tempo todo de mãos dadas. Tom, escondendo-se atrás de plantas, bateu algumas fotos, mantendo-se frio. Até que conseguiu flagrar um beijo dos dois. A fotografia ficou perfeita.
Depois que eles pagaram a conta, saíram do restaurante e voltaram ao hotel. Entraram novamente no estabelecimento, de mãos dadas. Somente no final da tarde Caroline saiu de lá, sozinha. Tom fotografou o momento e correu para seu carro. Deu partida e acelerou em direção à sua casa. Conseguiu chegar antes e Caroline. Estacionou o seu carro como estava antes, para não levantar suspeitas, e entrou em casa rapidamente. Sentou-se na sua cadeira do escritório e fingiu estar compondo. Caroline chegou e passou reto, pela porta do escritório de Tom.
* * *
Mary Ann não foi almoçar com Charlie. Disse que estava indisposta. E realmente estava. Sentia-se sozinha. A felicidade de ter ganhado o programa de televisão se transformara em tédio e tristeza. À noite, Charlie bateu à porta dela, novamente. A jovem cantora abriu:
- Você ficou o dia inteiro enfurnada aí.... O que tá acontecendo?
- Ah, Charlie... Me deixa em paz, por favor...
O rapaz se aproximou dela, e ela se afastou, colocando a mão espalmada em frente ao corpo dele.
- Não, por favor... Não quero...
- Mary Ann... Já falei que eu tô apaixonado por você... Por que não tentar?
- Porque eu não sinto o mesmo! Eu não quero isso pra mim! Pode ser?
Charlie se deu por vencido de novo, naquele momento.
- Tudo bem, Mary Ann... Tudo bem... Então eu vou lá pro meu quarto... Só vim te avisar que amanhã cedo temos que estar no estúdio...
- Só isso?
- É... Boa noite... – Charlie disse, saindo.
Mary Ann fechou a porta e voltou para a cama, pensativa.
* * *
No dia seguinte, Tom repetiu a investigação sobre o que Caroline fazia durante suas saídas. E, novamente, fotografou beijos, abraços, carícias entre sua mulher e o amante. No mesmo hotel, onde provavelmente deveriam manter relações sexuais, no mesmo restaurante onde almoçavam. E assim se seguiu por mais dois dias.
Na tarde do segundo dia, Tom foi a um estúdio fotográfico. Não queria imprimir as fotos em casa. Pediu para que revelassem tudo. As fotos estavam devidamente datadas. Pediu que fossem impressas em tamanhos maiores que os normalmente feitos. Em menos de uma hora já estava em casa, com todas as fotos. Olhou, uma a uma, e teve um plano.
À noite, a porta da rua se abriu na casa dos Keifer. Caroline entrou. Tudo estava escuro. Acendeu uma luz. Mas qual não foi sua surpresa quando viu, penduradas nas paredes, nos lugares dos quadros que normalmente ornavam a sala, fotos suas com seu amante. Assustou-se quando viu aquilo. Começou a tremer dos pés à cabeça, imaginando quem teria feito aquilo. E, conforme ia caminhando, os retratos das suas atividades dos últimos dias, datados, traziam à memória o que havia acontecido. E a cada minuto ela ficava mais pálida, mais nervosa, mais desesperada.
A última foto estava pendurada na porta de seu quarto. Teve medo de abrir a porta. Mas não precisou. O próprio Tom assim o fez.
- Você realmente acha que eu não saio de casa, Caroline?
A mulher não respondeu. Não conseguia fitar seu marido em seus olhos.
- EU FIZ UMA PERGUNTA, SUA VADIA! ACHOU QUE EU NUNCA FOSSE DESCOBRIR POR QUE NÃO SAIO DE CASA? HEIN?
- Tom, eu...
- ESPERO QUE VOCÊ TENHA UMA BOA EXPLICAÇÃO PARA ISSO! PORQUE ALMOÇAR JUNTO É ALGO QUE AMIGOS FAZEM... MAS BEIJO NA BOCA, CARINHO E MÃO NA MÃO NÃO SÃO COISAS DE AMIGOS!
- Tom, você não liga pra mim...
- E ISSO NÃO TE DÁ DIREITO DE IR PROCURAR OUTRO HOMEM, SUA VAGABUNDA! SE NÃO ME AMA MAIS, SE NÃO ME QUER, SE ACHA QUE EU NÃO TE DOU ATENÇÃO, PEGA SUAS COISAS E SOME DA MINHA CASA! MAS CLARO QUE NÃO! – Riu, ironizando – IRIA FICAR SEM CASA, SEM MAMATA, SEM CARTÃO DE CRÉDITO PAGO EM DIA, SEM PERFUMINHO, ROUPA, BRINCO, SAPATO, CABELEIREIRO! O BABACA AQUI PAGA TUDO PRA VOCÊ IR PRA CAMA COM OUTRO!
- Por favor, Tom, deixa eu falar...
- NÃO TEM EXPLICAÇÃO, CAROL! AGORA VOCÊ PEGUE SUAS COISAS, QUE EU NÃO DEVERIA DEIXAR VOCÊ PEGAR PORQUE FUI EU QUE PAGUEI TUDO, E SOME DESSA PORRA DESSA CASA PORQUE EU TENHO VONTADE DE VOMITAR QUANDO TE VEJO!
- NÃO GRITA COMIGO! – Caroline reagiu.
- GRITO! GRITO O QUANTO EU QUISER PORQUE PUTA TEM QUE OUVIR BERRO! NÃO QUERO MAIS VER ESSA SUA CARA DE PAU NA MINHA FRENTE! SOME DAQUI!
- VOCÊ NÃO ME DÁ O QUE ELE ME DÁ! DÁ DINHEIRO, MAS DINHEIRO NÃO É TUDO NESSA VIDA!
-AH, NÃO É? ENTÃO VAI VIVER DE AMOR! QUERO VER SE ESSE IDIOTA TEM CAPACIDADE DE TE SUSTENTAR! E COM ESSAS PROVAS QUE EU CONSEGUI, ME LIVRO FACILMENTE DE TE PAGAR PENSÃO!
- Você não pode...
- POSSO SIM!
- VOCÊ É UM BABACA! NÃO É MACHO SUFICIENTE NEM PRA ME COMER! – Caroline explodiu.
Tom se aproximou dela e levantou a mão. Mas se segurou: se agisse com violência, tudo poderia estar perdido.
- Eu devia era quebrar essa sua cara lavada. Só que não vou fazer isso. Você tem cinco minutos, tá ouvindo? Cinco minutos pra pegar essas suas roupas imundas e sumir da minha casa! Aí, puta nojenta, a gente se encontra no fórum.
E saiu do quarto, largando sua esposa chorando, sozinha.
* * *
Mary Ann terminou de gravar o vocal da música. Ficou excelente. Tudo o que a menina fazia era perfeito.
Charlie converteu o arquivo para MP3 e enviou a Tom. Ligou no celular dele, mas o compositor não atendeu.
- Mas que raios esse cara não atende ao telefone...
- Ele deve estar ocupado... – Mary Ann falou – Vai ver que tá compondo mais coisas.
O empresário só conseguiu conversar com Tom dois dias depois:
- Cara, você sumiu!
- Problemas particulares. Fala logo, o que você quer?
- Já compôs alguma coisa?
Ouviu o vocalista bufar do outro lado da linha antes de dizer:
- Não... Como eu falei, tive problemas particulares... Acabo de descobrir que sou o maior chifrudo de Nashville e botei minha esposa pra fora de casa...
- É... Complicado... Mulher não é um bicho confiável... Não dá pra confiar num ser que sangra durante sete dias seguidos e não morre...
- São todas iguais... Mas, enfim... Eu vou começar a escrever algo novo hoje...
- Ouviu os MP3?
- Quantas vezes vou ter que te dizer que eu tive problemas particulares? Não faço nada relativo a trabalho há três dias!
- Bom... Eu entendo... Enfim... Então eu aguardo...
Desligou o telefone. Virou-se para Mary Ann, que estava sentada ao seu lado, dentro do estúdio. A moça perguntou:
- E aí?
- Ele vai compor mais coisas... Teve um problema particular e atrasou. Mas não dou dois dias para ele mandar mais músicas...
- Demorado ele... Mas tudo bem... Problemas todo mundo tem...
Mary Ann levantou-se e saiu da sala. Charlie ficou sozinho, pensativo. A porta se abriu. Era Oscar Neville.
- A menina tá cantando lindamente...
- É, Oscar... Está... Mas tá foda de conseguir pegar ela...
- Mas você já tem o contrato... Praticamente 60% do que ela ganhar vai ser seu... Pra que pegar a menina?
Charlie sorriu, sarcasticamente, e disse:
- Pra ficar com 100%...
- Olha... Ambição demais pode fazer você se afogar no próprio veneno... Cuidado...
- Não precisa me dar conselhos, Oscar... Eu sei o que eu tô fazendo...
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