Notas iniciais
Desculpem a demora... dia a dia cada vez mais lotado! bj bj

Tom chegou para a visita e Mary Ann já havia sido transferida para um quarto comum. Como ela havia pedido, ele se perfumara bastante. Bateu à porta e girou a maçaneta. Ela estava na cama, com o encosto levantado, televisão ligada. Quando ela o viu, abriu um belo sorriso.

- Oi, garota... – Ele falou, retribuindo o sorriso.

E se aproximou dela, beijando-a em seus lábios. O sorriso dela se intensificou:

- Eu não falei que era pra você se perfumar?

Tom mudou sua expressão no mesmo instante.

- O que foi? – Ela perguntou – Por que você...

- Eu me perfumei, Mary Ann... E muito... Nem eu mesmo tô aguentando meu perfume.

Ela cerrou os lábios, preocupada.

- Vem cá... – Ela pediu.

Tom obedeceu e sentou-se na beirada da cama, a abraçando em seguida. Ela sorveu o ar, próximo ao pescoço dele.

- E aí?

Ela meneou a cabeça negativamente e respirou fundo:

- Nada... Não sinto nada...

Nesse instante o médico entrou no quarto.

- Bom dia... – E cheirou o ar, estranhando o perfume de Tom – Como se sente, Sra. Collins?

- Eu me sinto bem, mas... Não sinto cheiro nenhum...

O médico fez uma careta.

- Nem esse perfume forte?

Tom ficou vermelho.

- Não... – Ela esclareceu – Não consigo sentir nada...

- É... A última tomo realizada deu conta de que há uma lesão na região do cérebro responsável pelo olfato. Seu nariz funciona perfeitamente bem, no entanto a senhora não consegue identificar que odor é e qual sua intensidade.

- Mas, doutor, isso vai ser pra sempre? – Tom indagou.

- Ainda não sabemos. O cérebro, apesar de muito estudado, é um grande mistério. Neurônios perdidos jamais se regeneram, mas pode haver hiperfunção dos que restaram. Pode ser que com o tempo eles compensem a falta dos outros. A pancada na cabeça dela foi muito forte. Ela teve sorte de só ter perdido o olfato. Teremos que aguardar a evolução, há como fazer fisioterapia para tentar recuperar nem que seja um pouco da função... E temos que torcer para que isso não influencie sua vida.

Mary Ann permaneceu estática, a fitar o médico. Tom olhou para a jovem e viu tristeza em seu olhar.

- Bom... – Ela finalmente falou – Se tinha que ser assim, então vamos encarar... Fazer o que?

- Acredito que a senhora terá alta amanhã. Nada mais a prenderá aqui... E o tratamento poderá continuar onde a senhora achar melhor...

- Algum neurologista em Nashville para indicar? – Tom pediu – Porque ela vai morar comigo lá...

A jovem fitou Tom, surpresa.

- Doutor Danes, é um bom neuroclínico. Acho que ele saberá conduzir o caso brilhantemente. – E o médico se afastou – Com licença.

Após sua saída, Tom pegou as mãos de Mary Ann e falou:

- Acho que... Bem... Já que vamos ter que dar uma pausa na turnê... O que você acha de...

Ela o fitou, desconfiada. Tom continuou, gaguejando:

- Eh... Então... Eu tava pensando... Se você não toparia...

- Arre... Fala logo! – Ela ficou tensa.

- Ah, Mary Ann... Quer se casar comigo?

A jovem ficou estática. Sem um sorriso no rosto, sem nenhuma manifestação de alegria. Tom a fitava, assustado, e ao mesmo tempo pressentindo algo.

- To... Tom... Eu... Ah... Eu... Eu...

Ele respirou fundo e disse:

- Você não quer... É isso?

- Nã... Não é que eu não quero... É que... Eu... Eu não sei se quero me casar outra vez... Eu acho que... A gente ficar junto é o que basta... Não precisa de um documento...

Até que a reação da jovem surpreendeu Tom. Ele sorriu:

- É... Eu tinha medo de te pedir em casamento porque talvez você pudesse desistir de mim, mas eu tô percebendo que na verdade você tá com medo por causa de seu outro relacionamento... O que é bobeira, só que eu respeito isso... Só o fato de você querer ficar comigo já me deixa feliz... Por um lado achei legal esse não, porque as mulheres têm sempre esse desespero de casar né...

- Nunca tive! – Mary Ann o interrompeu – Nunca tive essa vontade... Acabei casando por pressão externa... E não queria ter casado...

- É... Embora eu não concorde com sua atitude... Eu te entendo... E fico feliz que você tenha dito “não quero casar, ficarmos juntos é o que basta” e não apenas “não quero casar”.

Beijaram-se por um pequeno espaço de tempo.

- Eu tô com uma dorzinha de cabeça chata... – Ela falou.

- Descansa um pouco... Eu tenho que dar um pulo no hotel... Mas depois eu volto e passo a noite aqui com você.

Tom se levantou e beijou o topo da cabeça da cantora, deixando o quarto. Saiu do hospital e caminhou pela rua até encontrar um táxi. Algo atormentava seus pensamentos. Tinha que resolver aquilo o mais rápido possível.

Tomou o táxi e foi para o hotel. Jeff e Eric, com sua perna engessada, haviam voltado para Nashville, e Fred para Los Angeles. As duas jovens caroneiras foram para Nashville com Eric, e Tom não entendera nada, porque não queria entender. Da banda, só restara Tom na Flórida. Ao entrar em seu quarto, não hesitou em pegar seu celular e discar. O número chamou um pouco, e depois a ligação foi encaminhada para a caixa postal. Tentou mais duas vezes, e nas duas vezes aconteceu o mesmo. Irritado, jogou o celular sobre a cama.

* * *

O celular brilhara três vezes sobre a mesinha. E a cada toque Charlie suava mais frio.

“O que esse filho da puta quer?”, o empresário pensava. Mas não era o seu aparelho que tocava. Era o aparelho de Robert. Ele sabia que Tom procurava o guitarrista, já que o nome do vocalista aparecia no visor do celular. Decerto ele já havia descoberto o que ocorrera, e procurava Robert para tirar satisfações. Por um instante, veio à mente de Charles que Robert tinha uma família, tinha amigos e inimigos, e todos dariam falta dele. E seu desespero aumentava ao saber que a policia estaria em breve procurando Robert, tanto por ter contratado dois homens para provocar o acidente com o ônibus do Cinderella, como para tentar encontrá-lo. E se ele tivesse contado a alguém sobre a proposta de Charlie? E se tivesse deixado rastros? A cada segundo Charlie se sentia mais desesperado. Não era um assassino, não estava acostumado com os riscos do crime. Tinha que dar um fim naquele aparelho celular. A pessoa que se encarregara da morte de Robert trouxera o celular do guitarrista para si, mas ele não poderia manter aquele aparelho. Era a prova de que havia estado com o jovem.

Em um impulso, pegou o aparelho, desligou, retirou a bateria. Correu até o jardim da casa onde vivia, e que era de Mary Ann. Estava sozinho, mas olhou umas treze vezes ao redor para ter certeza de que ninguém testemunhava o que estava a fazer, enquanto cavava um pequeno e profundo buraco em um canteiro. Colocou o celular dentro, junto com a bateria, e cobriu o aparelho com a terra, compactando-a depois.

Respirou fundo e sentiu que aquele problema estava resolvido. O algoz de Robert, Charlie o havia calado com dinheiro. E ninguém mais saberia daquilo, exceto o executor, ele e Neville. Voltou para a casa, para conviver com seus fantasmas.

* * *

- Fala, Tom...

- Eric, eu tô com uma suspeita que tá me matando... – Tom dizia ao telefone.

- E qual é a suspeita?

- Você já parou pra pensar que o Robert pediu pra sair logo antes do acidente? Que no mesmo dia conversou com pessoas estranhas, o Fred viu e me contou, e depois deu uma desculpa esfarrapada de que a avó estava doente...

- E o que que tem?

- Você não imagina?

- Não! – Eric exclamou, achando tudo aquilo sem sentindo.

- Eu imaginei que... E se o acidente não foi um acidente? Se foi proposital... E o Robert sabia de tudo... Ou estava por trás de tudo...

- Ah, Tom... Você é um paranoico patético! Claro que não!

Tom ficou mudo ao telefone. Eric continuou:

- Foi uma puta coincidência... Calhou de acontecer no mesmo dia do acidente... Mas o desastre poderia ter acontecido na outra viagem... Não acho tão anormal assim...

- Ah, Eric... Sei lá... E, se foi algo normal, por que eu ligo pro Robert e ele não atende?

- Oras, tão óbvio... Ele queria pegar a Mary Ann, não queria? Por que ele iria atender a ligação?

- Mas o acidente foi notícia em todos os jornais! Ele deveria ter tentado ligar pra um de nós, não seria o mínimo?

- Olha, se tem uma mentira nessa história eu acredito que seja a doença da avó. Ele ficou puto com a revelação do romance de vocês e saiu por isso... E só! Acha que alguém com orgulho ferido iria ficar ligando pra ter notícias da pessoa que estava querendo pegar? Claro que não!

- Bom, tudo bem... Mas isso não me sai da cabeça...

- É... E eu tenho alguém me esperando pelada na cama... Posso? — Eric revelou, querendo dispensar o companheiro de banda.

- Tá, tudo bem... Não queria te incomodar... Vai lá comer sua baixista... – Tom respondeu, referindo-se a Jullie.

- Ela tá quase me matando, cara... Porra, a mina é foda! Incansável! Insaciável! E eu com essa perna engessada... Só ela trabalha... Ô beleza...

- Não era isso que você queria? – Tom riu ao telefone.

- Tudo o que eu sempre quis na minha vida! Mas, Tom, me diz... E Mary Ann? Ela tá melhor?

- Tá sim... Vai ter alta amanhã...

- Alguma sequela?

- Infelizmente... Parece que ela perdeu o olfato... – Tom lamentou.

- Poutz... Mas que merda...

- Tomei um banho de perfume hoje e fui visitá-la... Ela nem sentiu... Acho que isso ela perdeu mesmo...

- Bom... Eu lamento... Mas agora tenho que ir... Ela já tá me chamando! Tenho mais um round pela frente!

- Se cuida, cara...

- Pode deixar que faço questão! – Eric riu.

Tom desligou o telefone e continuou pensativo. Tentou ligar novamente para Robert, mas dessa vez a ligação caiu diretamente na caixa-postal.

- Mas que merda! O filho da mãe desligou o celular!

E foi tomar um novo banho, já que não suportava mais o próprio perfume.

Horas depois já estava no quarto de Mary Ann. Ela dormia quando ele chegou, e, portanto, não o viu entrar. Ele se sentou num sofá e ficou a observá-la dormir serenamente. Pensava na proposta que havia feito a ela, se deveria levar isso adiante, ou se deveriam continuar como estavam. Preferiria não correr o risco de perdê-la a insistir em um casamento que poderia não dar certo. Já tivera um que não dera. Ela também. A diferença era que sentia algo diferente por Mary Ann. Diferente do que sentira por Caroline.

A jovem acordou após um tempo, espreguiçando-se. Fitou Tom e sorriu:

- Oi...

Ele se aproximou de Mary Ann e beijou-lhe a testa e puxando uma cadeira que estava ao lado da cama.

- Oi... – Falou – Se você continuar dormindo, depois à noite não vai ter sono...

- O médico passou aqui e disse que eles vão mesmo me dar alta amanhã... Fiquei feliz por isso... Mas... E a gente?

- Vou comprar passagens para Nashville...

- Mas e a turnê?

- Não podemos tocar com o Eric engessado... E acho que você também deve ter alguns dias de repouso...

A jovem piscou forte e pediu:

- Vem cá...

Quando ele se sentou ao lado dela e a abraçou, ela sorveu o ar com o nariz encostado ao seu pescoço, provocando-lhe um sutil arrepio.

- Não sinto nada...

- Ah, eu tomei um banho e tirei aquele perfume todo... Não aguentava mais...

Mary Ann riu da observação de Tom.

- Mas sabe o que me incomoda? – Ela falou.

- Hum...

- Essa dor de cabeça que não passa... Eles me dão analgésicos e não passa! Melhora, mas não vai embora...

- Você perguntou ao médico?

- Perguntei...

- E ele?

- Falou que com o passar do tempo vai melhorar... Pode ser que conforme ela vá diminuindo eu possa recuperar o olfato...

- Ele tinha me dito isso... Vamos esperar então...

- Falou também que vai me receitar alguns remédios para tomar em casa...

- Além de descansar bastante, né... Você precisa muito!

Mary Ann pegou a mão de Tom e falou:

- Eu tô com saudades de ficar sozinha com você...

Tom abriu um imenso sorriso:

- Eu também... Mas claro que não é só disso... – E sorriu novamente, com feições maliciosas.

- É... Confesso que eu também tô com saudade disso aí... – Mary Ann foi enrubescendo.

E ficaram a conversar até muito tarde, quando ela adormeceu. Tom ajeitou-se no sofá e observou sua namorada por longos minutos, até dormir.

* * *

- Você é maluco, Burns! – Neville falou.

- E o que você queria que eu fizesse? Se aquele cara não tivesse morrido eu já estaria preso!

- Mas você tá com o celular dele!

- Não estou mais! Já me livrei daquela merda!

Neville tomou um gole de café rapidamente. Olhou para a porta do escritório da casa de Charlie, rapidamente, voltou a fitar seu cliente e falou:

- Ninguém sabe onde tá o cara?

- Não... Só quem desapareceu com ele...

- E quem foi?

- Não posso contar! Dei uma grana preta pra essa pessoa pra calar a boca muito bem calada, mas ninguém além de mim e dele saberão onde desovou.

- E se ele resolver voltar? Querer mais grana?

- Aí vou ter que apagar ele também!

Neville se levantou, meneando a cabeça negativamente, e deu o ultimato:

- Mata esse cara, e aí você não poderá mais contar comigo...

Charlie olhou Neville desconfiado.

- E pode ficar tranquilo que eu sumo e ninguém me verá, nunca mais! Ninguém vai ficar sabendo por mim tudo o que você aprontou.

E saiu do escritório. Charlie continuou sério.

Pegou seu telefone e fez uma ligação. Chamou três vezes antes de atender.

- Ainda quer se vingar? – Balbuciou, quando a ligação foi atendida.

* * *

Três dias depois, Mary Ann havia melhorado bastante das dores de cabeça, no entanto o olfato de fato se perdera. Haviam se passado sete dias desde o acidente.

Tom preparou a mesa do café da manhã. Deixou tudo sobre o pano de mesa. Mary Ann apareceu, desarrumada, e entrou na cozinha.

- Bom dia... – Ela cumprimentou.

- Oi... Vamos comer?

Ela se sentou e se serviu de um pouco de cereal. Pegou a caixa de leite longa vida e completou a tigela. Porém, ao colocar a embalagem novamente sobre a mesa e fitá-la com mais atenção, viu algo que a fez estranhar:

- Nossa!

Tom olhou para ela e perguntou:

- O que foi?

- Olha isso!

E virou a caixinha de leite. Havia uma foto de Robert, com nome completo, constando como desaparecido.

- Mas como... – Tom estranhou – Eu falei com ele a última vez no dia do acidente, depois do show... Depois tentei ligar pra ele no celular, mas... Não colocaram isso aí muito rápido na caixa de leite não?

- Sim... Parece que sim...

E Tom começou a ficar, a cada minuto, mais preocupado.

- Tom... Tom! – Mary Ann tentou chamar sua atenção.

Ele balançou a cabeça e a fitou:

- Que foi?

- Você ficou estranho!

- Não... Não é nada...

- Você tentou ligar pra ele... E?

- Ele não atendeu. Depois, só caixa postal.

O vocalista ficou nervoso, tentando disfarçar a situação. Entretanto, algo não cheirava muito bem.

Notas finais
hhhhhhhhhhhhhhhum com quem será que o Charlie falou?