The Last Rebel
17 Take Your Time
Notas iniciais
Desculpem a demora. Fiquei sem computador. Então, pra compensar, eu fundi dois capítulos em um... espero que gostem...
Os dias que se seguiram foram de
muito trabalho para Tom. Procurou bateristas, guitarristas, baixistas,
tecladistas, enfim, todos os músicos necessários para montar uma banda para
Mary Ann. Fez teste com vários instrumentistas, e ficou satisfeito com alguns,
não gostou de outros. Esgotou sua lista de contatos.
Até que, após três semanas, já
tinha uma line-up quase completa. No entanto, não conseguira um baixista.
Irritado por não conseguir um músico responsável por dar força e poder às
músicas de Mary Ann, acabou por passar a mão em seu celular e discar para Eric.
- Cara, preciso da sua ajuda...
- Nossa... Precisa?
- É... Preciso... Eu tô compondo
umas músicas para a Mary Ann Collins aqui...
- Ô loco... Tá levando isso bem a sério mesmo né...
- É... Estou... Meio que já tenho
line-up pra tocar com ela... Mas tá difícil... Tá difícil de arrumar um
baixista...
- Sei... – Eric riu.
- Conhece alguém?
- Tom... Você conhece mais gente que eu...
- É... Mas esgotei meus contatos
já... E nada!
-Pensou em Dhino Reeb?
- Não... Nada a ver!
- Bom... Vou pensar aqui... Se eu lembrar de alguém... Eu te aviso!
- Obrigado.
Desligou. Mas continuou com o aparelho
em mãos. Respirou fundo e discou para Birmingham.
- Alô? – A voz doce de Mary Ann atendeu. Desde que voltara para
Nashville, era a primeira vez que ouvia a voz da garota. Só haviam trocado
alguns e-mails aparentemente frios.
- Sou eu... Tudo bem?
- Ah... Oi... Tudo... E você?
- Bem... Tenho novidades...
- Ah é?
- É... Eu... Já estou com a banda
praticamente montada...
- Tom... Melhor não...
- Por que não? Tenho músicas
feitas já! E tenho uma aqui que eu queria que você ouvisse... Tem o Guitar Pro
instalado no seu computador?
- Tenho...
- Vou te enviar por e-mail...
Escuta... É de coração... A letra vai junto...
- Tudo bem... Já já eu ligo meu computador e vejo... É só isso? – A
jovem pareceu ríspida.
- Claro que não... Eu... Eu tô
com saudades de você... – Tom não acreditou quando essas palavras saíram da sua
boca.
Um silêncio tomou a linha. E ele
mesmo respondeu.
- Mesmo sabendo que você não...
- E quem disse que eu não estou com saudades? – Mary Ann o
interrompeu.
O coração de Tom disparou. Não
conseguia crer no que ouvira.
- Não sei... Você parece evasiva.
- Eu só prefiro não externar meus sentimentos...
- Tudo bem... Vou te manter
informada... Assim que eu tiver com tudo OK aqui, aviso você e Chester...
- Tá... E... Eu vou ter que ir praí?
Tom sentiu um frio na espinha.
- Melhor né...
- O problema é pegar avião sozinha!
E o vocalista riu. A preocupação
da moça, realmente, era voar.
- É rápido! Nem quarenta minutos
de voo...
- Tempo suficiente pra ser uma tortura. Bem... Boa noite...
- Pra você também... Tô com
saudades... Não se esqueça disso...
- Abraço...
Tom desligou o telefone.
Sentia-se como um adolescente. Quando deu por si, estava sorrindo sozinho.
Entrou no seu editor de e-mail, copiou em uma nova mensagem a letra da música,
anexou o arquivo do editor de tablaturas e enviou para a garota.
Já eram mais de onze e meia da
noite. Levantou-se, foi à cozinha, pegou uma maçã na geladeira, comeu a fruta
rapidamente, e foi se deitar.
* * *
Mary Ann já estava quase indo
dormir. Acabou por pegar seu notebook para ver seus e-mails. Deitou-se na cama
com o computador no colo e o ligou. Aguardou até que ele se conectasse na
internet e entrou no seu editor de mensagens eletrônicas. Tivera que aprender,
com muito custo, a lidar com computadores.
Havia um e-mail de Tom. Ela, de
fato, não acreditara que ele fosse mandar a música naquele instante. Abriu a
mensagem. O nome da música era “Star”. Começou a ler a letra com calma. Era
muito intensa, carregada de paixão. Arrepiava-se mais a cada verso que lia.
Clicou no arquivo anexado e
começou a ouvir a melodia ser tocada pelo editor de tablaturas. E isso a fez
arrepiar-se mais ainda.
- Realmente... Nisso o babaca do
Charlie tinha razão... O cara é um gênio...
E ficou a ouvir aquela melodia.
Até que adormeceu. E quando despertou, somente pela manhã, com o notebook
ligado implorando por bateria, lembrou-se do sonho que tivera: beijos. Muitos
beijos. Com aquele gênio.
- Eu devo estar louca... Só pode!
– Censurou-se após sentir suas bochechas ficarem quentes de tanto rubor.
Desligou o notebook, colocou o
aparelho no chão, virou-se e dormiu novamente, cobrindo-se com o edredom, e
pensando no que sonhara. Ainda era muito cedo para voltar para a realidade.
* * *
Mais duas semanas se passaram.
Tom se sentia muito sozinho, como há muito tempo não se sentia. E não conseguia
arrumar um baixista para a banda de Mary Ann. Era impossível. Havia falado com
ela mais duas vezes e mal podia esperar pelo primeiro dia do inverno. Seria o
dia em que ela desembarcaria em Nashville. Faltavam apenas três dias. Ele lhe
dera certeza de que a banda estaria montada, mas ainda não gravariam nada, só
ensaiariam, enquanto ele ainda compunha músicas. Já tinha cerca de oito faixas
compostas, mas queria mais. No entanto, falhara em conseguir um baixista. E não
podia sequer imaginar em falhar com ela. Não admitiria nenhum erro. Por sorte,
não lhe dera nenhuma posição por telefone. Pois teria que decidir entre mostrar
que havia falhado ou mentir, dizendo que havia conseguido alguém para o baixo.
Pela manhã, um vento frio de
final de outono soprava em Nashville. Tom teve a impressão de que sua casa
estava mais fria que de costume. Decidira ligar a calefação, mas mesmo assim
sentia um imenso vazio. O sentimento pela garota se abrandara, isso o
preocupava. Seria aquilo somente uma paixão de momento e que, com a distância,
se dissipara? Tom nunca fora um homem de se iludir. E não queria isso pra si. Por
que ela fora tão evasiva quando ele disse que sentia saudades? Medo? Sentiria o
mesmo e não teria coragem de dizer? Ou dissera que sentia saudades somente para
não decepcioná-lo?
Tom pegou-se deitado na cama,
divagando sobre o que ela poderia estar a sentir, pensar ou querer. E sobre o
que sentia. Por uma questão de respeito, não pensava nela sexualmente. Ou pelo
menos não tentava pensar. Mas as noites em que demorava a dormir o deixavam
nervoso. Pensava no sonho que tivera no avião. Excitava-se com aquilo. E por
alguns momentos desejou que fosse, na verdade, somente um desejo sexual. Não
podia sequer imaginar-se convivendo na mesma casa com outra mulher, nem ao
menos namorando uma garota como Mary Ann. Não queria aquilo para si. Estava bem
sozinho. Ou pelo menos achava que estava.
Quando deu por si, já eram duas
da tarde. Levantou-se, pois tinha que entrevistar um baixista. Vestiu-se, foi à
cozinha, comeu algo. Já era hora do músico chegar e estava atrasado. Sentou-se
no sofá da sala e ficou a aguardar, olhando para o televisor desligado. Vinte
minutos, quarenta minutos, cinquenta minutos se passaram e nada do baixista
chegar.
- Odeio gente sem compromisso!
A campainha tocou assim que ele
terminou seu resmungo. Foi à porta, e a abriu:
- Pra mim idiotas como você, que
não cumprem horário, já são recusados quando atrasam mais de uma hora.
- Descul...
E bateu a porta na cara do
músico, sem nem ao menos escutar o que ele tinha a dizer. Foi ao seu carrinho
de bebidas que ficava na sala e tomou em sua mão a garrafa de Jack Daniel’s.
Encheu um copo e bebeu um gole. Havia voltado a ser o que era: um estúpido,
ríspido com as pessoas que não faziam o que ele queria. Mesmo que dependesse
demais de alguém não daria seu braço a torcer. Nem mesmo se recordar dos olhos
de Mary Ann diminuíam sua irritação. Foi para seu escritório e lá se infurnou,
compondo algumas coisas.
À noite foi dormir. Tomou um
banho para tentar relaxar, depois se deitou, se cobriu com o cobertor e abraçou
o travesseiro. O sono era intenso. Queria dormir e só acordar no dia seguinte.
Mas, incrivelmente, sonhou mais uma vez com Mary Ann. Dessa vez não foi um sonho
erótico, mas sim um pesadelo no qual ela o questionava por não ter conseguido
um baixista. E não gostava das músicas que ele havia escrito. Acordou irritado,
três horas da manhã, e ficou imaginando se o cara que dispensara à tarde não
seria o baixista perfeito. Não, perfeito não era. No mínimo deveria ter avisado
que ia se atrasar. E tudo tinha que ser perfeito para Mary Ann. Não conseguiu
dormir mais até as sete horas.
Levantou-se e foi para a cozinha.
Olhou para a parede e viu um calendário pendurado. Dois dias.
- Desde quando eu faço contagens
regressivas? – Censurou-se.
Preparou seu café e comeu sem
vontade.
Por volta de nove e meia da
manhã, teve uma ideia. Poderia não ser a ideia mais brilhante do mundo. Mas era
uma ideia. Pegou seu telefone e discou.
- Eric?
- Fala, fantasma...
- Queria conversar com você... Dá
pra você vir aqui?
- Tom... Se é você que quer falar comigo, por que eu tenho que ir até
aí?
- Você sabe que eu não quero
ficar saindo de casa...
- E o que eu tenho a ver com isso... Fala por telefone então!
Desistiu da sua ideia na hora.
- Deixa pra lá então...
E desligou o telefone sem se
despedir. Cinco minutos depois escutou a campainha.
- Eu tava passando por aqui... Só
por isso que eu vim... O que você quer? – Eric entrou batendo as botas caubói,
irritado – Espero que seja importante!
- Depende da sua visão sobre
importância...
- Fala logo que eu tenho o que
fazer... Não fico o dia inteiro em casa escrevendo...
- Bom... O negócio é o
seguinte... Eu não consegui arrumar um baixista...
- Tá...
- Você toparia tocar em estúdio
com ela?
Eric ficou atônito. Não esperava
que Tom pudesse pedir isso a ele.
- Eu ouvi bem? – Perguntou,
desconfiado.
- Ouviu sim... Isso mesmo... O
que você acha de gravar as linhas de baixo no álbum novo dela?
- Olha, Tom... Por mim tudo bem,
mas... Não vai rolar turnê depois?
- Sinceramente não sei... Não sei
como a mídia vai receber o novo álbum dela... O filme dela tá meio queimado por
culpa do Burns... Mas sabe como é fã... Tem muita gente que tá a favor dela...
Depende mais de ela ter requisição para shows do que qualquer outra coisa...
- Tá... E você já parou pra
pensar que o Cinderella tá voltando? Não tem como eu excursionar com as duas
bandas ao mesmo tempo...
Os olhos de Tom brilharam. Eric
percebeu o olhar diferente do vocalista.
- Ou tem? – O baixista perguntou,
já preocupado com a resposta.
- Tem... Claro que tem... Vou
levar essa proposta pros nossos produtores... Mas... O que você acha de ter
Mary Ann como show de abertura?
- Ah, não... Acho arriscado! Primeiro
que são públicos diferentes...
- Não são! Ela faz southern
rock... Cinderella faz hard rock... Tá um perto do outro…
- Mas não sei o que os nossos fãs
acham dela...
- Não achariam ruim se tiverem o
baixista da banda principal no palco com ela...
- AÍ VOCÊ TÁ QUERENDO ME MATAR! –
Eric exclamou, franzindo o cenho – Vou ter que fazer dois shows por noite
enquanto você, o Jeff e o Fred fazem só um! Que legal! Trabalho dobrado...
- Trabalho dobrado ganha dobrado,
Eric...
- E dinheiro não é tudo nessa
vida...
- Até outro dia era... – Tom riu
do seu amigo – Vamos lá... Isso seria só em caso de emergência... A gente tenta
encontrar outro baixista pra banda dela!
- Ah, cara... Ah... Tá bom...
Beleza então... Eu gravo o álbum com ela... Mas com uma condição!
Foi a vez de Tom franzir o cenho.
Eric continuou:
- Duas, na verdade...
- Fala logo!
- A primeira é que você continue
procurando um baixista e, se encontrar, eu caia fora mesmo durante as gravações
do álbum...
- Condição aceita... – Tom
respondeu – E a outra...
Eric deu um sorriso malicioso e
continuou:
- Que você pegue essa menina de
jeito!
- Que isso! Não... Que absurdo! –
Tom protestou.
- Vai me dizer que não quer! Te
conheço faz tempo, cara!
Tom ia xingá-lo, mas desistiu
quando percebeu que ria.
- Ah, eu sabia! – Eric acompanhou
Tom em sua risada – Tá na cara que você quer comer ela...
- Ah, Eric... Sei lá... Tô
confuso...
- Vai me dizer que tá apaixonado!
Voltou a ser adolescente aos quarenta e poucos anos?
- Claro que não... Porra... Essa
menina realmente mexeu comigo... Mas não desse jeito que você tá pensando...
Sinto vontade de meio que...
- Que pegar ela de quatro, 69, o
que mais? – Eric fez piada.
- Não... De cuidar dela...
- É... Você tem bem dessas
mesmo... Cuidar... Cuidar do que ela tem no meio das pernas e na frente do
peito, isso sim...
- Respeita a moça, cara...
- Eu respeito... Quem deveria
deixar de respeitar é você!
- É... Talvez eu faça isso... Um
dia, quem sabe... No dia em que ela me quiser...
- Que isso! Nunca uma mulher
resistiu aos lábios de Tom Keifer... Quem disse que ela vai resistir?
- Simplesmente porque ela não é
como as outras...
Eric ficou sério.
- Então ela não é como as outras?
E o que você me diz de você ser o mesmo?
- Eu acho que não... Quando eu tô
com ela com ela eu me sinto diferente...
- Claro... Sua cueca aperta!
Tom riu. Não deixava de ser uma
verdade.
- É... Mas não tô falando disso! Sei lá... É estranho... Acho
que nem com Caroline eu senti isso!
- Até hoje eu não sei por que
você se casou com aquela idiota... Grossa pra caramba... Se bem que vocês eram
iguais...
- Falta de opção... Eu tinha
tanta opção que me faltava...
- Isso vira música...
- Ah, vira...
Após mais alguns minutos de
conversa, Eric partiu e Tom se sentiu mais aliviado, como se o peso de um
gorila tivesse deixado suas costas.
* * *
Dois dias se passaram. Tom não
dormira à noite, de ansiedade. Sentia algo estranho naquele momento. Tinha a
sensação de que algo daria errado, mas ao mesmo tempo queria tentar. E tinha
que sair de casa. Tortura total.
Cinco horas da tarde era o horário
previsto para a chegada do voo de Mary Ann. Uma hora antes Tom ensaiava sair de
casa. Enrolou o mais que pôde, pois só de pensar em botar um pé que fosse para
fora de casa o deixava nervoso. Mas teria que fazer o esforço. Dera a Chester
sua palavra de honra: não desampararia Mary Ann em nenhum momento. E não faria
nada que ela não quisesse.
Embora Chester fosse a favor de
um relacionamento entre os dois, tinha receio de que Mary Ann pudesse se
machucar. Mas não podia impedir a moça de seguir sua vida. Primeiramente, ela
já era maior de idade havia muito tempo. E, por fim, embora não fosse seu pai,
Chester só permitiu que Mary Ann viajasse a Nashville e ficasse hospedada na
casa de Tom pelo fato de ter sentido confiança no músico. Caso contrário, mesmo
sem ter vínculo paterno com Mary Ann e esta ser maior de idade, iria junto.
O vocalista olhava seu relógio de
pulso a cada minuto. Faltando apenas um terço de hora para o voo aterrissar,
pegou a chave de seu carro e partiu em direção ao aeroporto.
Quando chegou, procurou o voo de
Mary Ann no painel. Já havia chegado. Vasculhou área por área do aeroporto, sem
conseguir encontrá-la. Porém, quando menos esperava, visualizou a jovem
encostada a uma parede. Sua mala aos seus pés, olhar perdido no horizonte. Sentiu
um forte arrepio correndo sua espinha, respirou fundo e foi em direção a ela.
- Oi... – Falou timidamente.
A jovem o fitou, assustada. Usava
um lindo vestido de lã verde escuro, botas de cano longo, e uma boina de lã
preta, que se camuflava em seus cabelos.
- Faz tempo que você desembarcou?
Teve que esperar muito?
- Não... – A jovem respondeu –
Mas esse aeroporto é muito grande... Achei que nunca fôssemos nos encontrar
aqui.
- Sim... É gigante... Bom...
Vamos?
Ela meneou a cabeça
positivamente. Tom pegou sua mala antes que ela o fizesse, e ela o seguiu em
direção à saída.
Entraram no estacionamento,
caminharam um pouco, em silêncio, até o carro de Tom, e este abriu a porta do
passageiro. Mary Ann entrou e aguardou enquanto ele colocava sua pesada bagagem
no porta-malas, desse a volta no veículo e entrasse, acomodando-se no banco do
motorista.
O músico deu a partida no
veículo, engatou a ré e saiu. Em vinte minutos chegou à sua casa. Não falaram
nada durante o percurso.
- Chegamos... Desculpe pela bagunça
de casa, mas... Homem morando sozinho é algo... Assustador – Tom quebrou o
silêncio.
Mary Ann abriu a porta e desceu
do carro, observando a frente da residência de Tom. Era uma casa aparentemente
pequena. Duas janelas grandes ladeavam uma porta. A parede, de tijolos
aparentes, era escura, tão sombria quanto o humor do proprietário. Uma árvore
sem folhas ornava a entrada, plantada em um jardim de grama seca devido à época
do ano.
Ele tomou a frente, com a mala de
Mary Ann em mãos, e aproximou-se da porta, destrancando-a, em seguida a
empurrou e deu passagem à jovem cantora, que entrou hesitante. Ao olhar a sala,
notou que a casa era pequena apenas aparentemente. Era a típica construção de
pouca largura e muito comprimento. A sala era ampla, com três ambientes: dois
jogos de sofá, separados por um aparador, ambos muito semelhantes em seu
estilo, mas discretamente diferentes nas estampas, e um piano de cauda em um
canto arredondado, cercado de janelas, protegidas por cortinas beges. Depois de
uma passagem, Mary Ann pôde observar uma mesa de jantar, mas não conseguiu
definir quantos lugares havia.
- Venha, tem um quarto lá no
fundo que eu reservei pra você! – Tom a chamou, caminhando por um corredor
falso.
Mary Ann o seguiu timidamente,
enquanto ele carregava sua mala. Enquanto caminhava, observava atentamente o
ambiente. Paredes ornadas com obras de arte estranhas, desconhecidas,
alternadas com discos de ouro e platina pendurados em quadros transparentes.
Passou por uma porta larga, e pôde observar a cozinha, toda em estilo country,
com uma mesa no centro, de madeira, e ao invés de cadeiras, dois bancos também
de madeira, longos, dando ao ambiente um aspecto de refeitório de fazenda. Mais
alguns passos e passou por duas portas fechadas, chegando a um cômodo que ficava
bem no final do corredor. Tom abriu a porta desse aposento, acendendo a luz.
- Esse aqui é o quarto onde você
vai dormir... – Disse – Eu não sou muito bom com decoração, como você pode
ver... Mas acho que vai ser bem aconchegante para você... É o quarto mais
quente da casa...
A jovem finalmente sorriu, pois
havia gostado do cômodo.
- Tem banheiro próprio, então
fique à vontade... Só que quando você for tomar um banho, deixe a água
esquentar por uns dez minutos, porque nessa época do ano demora pra chegar a água
quente no cano... – Tom explicou – Eu vou deixar você à vontade... Preciso ver
o que vamos comer...
- Não precisa se incomodar... –
Ela pediu.
- De jeito nenhum... Comprei um
daqueles pratos congelados prontos que vendem por aí... Até porque cozinho muito
mal... Melhor você não comer minha comida não... – Tom riu de seu próprio
comentário.
- Tudo bem...
Tom saiu do quarto, deixando a
jovem sozinha. Mary Ann abriu sua mala, que ele havia colocado sobre a cama,
retirando algumas peças de roupas. Abriu um armário, que estava obviamente
vazio, e foi acomodando suas vestimentas nas gavetas e cabides. Retirou uma
frasqueira, da mala e levou ao banheiro. Depois retirou seus pares de sapatos,
também os guardando no armário. E, por fim, ligou a torneira do chuveiro, se
despiu e escovou os dentes enquanto esperava a água esquentar. Tomou um banho
longo, lavando os cabelos longos e relaxando na água fervendo.
Secou-se com uma toalha que
estava pendurada, amarrando-a na cabeça. Foi ao quarto, vestiu-se e depois voltou
ao banheiro. Retirou a toalha da cabeça, passou um creme nas pontas dos
cabelos, os penteou cuidadosamente, retirando os fios que ficaram presos no
pente e jogando-os no lixo. Retirou seu secador de cabelos da frasqueira e
começou a secá-los. Em menos de quinze minutos já havia terminado de se
arrumar.
Saiu do quarto, com receio de se
perder na imensidão da casa. E encontrou a cozinha, seguindo o cheiro de comida
que aparentemente parecia ser deliciosa. Tom estava na pia e sofria para
preparar uma salada.
- Oi... – Ela disse, com cuidado
para não assustá-lo.
- Ah... Oi... Então... Vamos ter
uma companhia no jantar... O Eric vai vir...
- Eric?
- É... O baixista da minha
banda... Tá querendo conhecer você... E nós temos muito que conversar!
- Ah... Temos? – Mary Ann não
entendeu.
- Deixa que eu já te explique...
A banda tá montada... Mas tive sérios problemas pra encontrar um baixista...
Então eu fiz uma proposta a ele, de, de repente, ele tocar com você... Pelo
menos até você gravar o álbum... Enquanto a gente arruma outro cara...
- Ah... Pode ser... Se ele é
bom...
- Ele é sim... Pode ter certeza!
A campainha tocou.
- Quer que eu atenda? – Mary Ann
se ofereceu, ainda sem graça.
- Pode deixar – Tom desligou o
forno e seguiu até a porta.
Abriu. Ele e Eric se cumprimentaram
com um forte aperto de mão.
- Entra aí... – Tom falou.
Eric entrou. Mary Ann observava
escondida na cozinha.
- A moça chegou? – Eric
perguntou.
- Tá lá na cozinha.
Eric foi em direção à porta da
cozinha e encontrou-se com Mary Ann. Tom apareceu logo atrás.
- Bem... Esse é o Eric
Brittingham... – Tom o apresentou à cantora – E ela é a Mary Ann Collins!
- Muito prazer... – Ela
respondeu.
- O prazer é todo meu... Tom me
falou muito bem de você, – Eric começou a disparar seu arsenal de piadas e ironias
– mas não esperava que ele fosse te mandar pra cozinha tão cedo.
Mary Ann ficou com a face
completamente vermelha.
- Eric, menos, por favor! – Tom
riu.
- É só uma brincadeira... – O
baixista falou – Não precisa ficar com vergonha...
- Liga não, Mary Ann... Ele é
idiota assim o tempo inteiro... Mas tem um bom coração.
Finalmente a jovem sorriu. E Eric
ficou impressionado com o sorriso da menina.
- Belo sorriso, — disse – sorria
sempre!
- Bem... Vamos jantar né? – Tom
chamou os dois.
Aproximou-se do forno, calçou
luvas térmicas e retirou um assado do forno.
- Espero que vocês gostem... Se
não gostarem, tem um 800 na embalagem pra gente ligar amanhã e xingar até não
aguentar mais!
E levou a travessa com o assado
para a sala de jantar.
- Eric, pega o vinho que eu abri,
tá em cima da pia... Traz a salada também...
Eric obedeceu ao anfitrião. Mary
Ann apenas os acompanhou. E pôde reparar que a mesa de jantar tinha lugar para
oito pessoas. Tom se acomodou. Mary Ann sentou-se em frente a ele e Eric entre
os dois.
- Quer vinho? – Tom ofereceu a
ela, enquanto servia uma taça a Eric.
- Sim... – a moça aceitou – Vou
servir a comida a vocês...
E antes que Tom pudesse reclamar,
ela já havia pegado seu prato e colocado algumas fatias do assado e algumas
unidades de batata assada. Pediu o prato de Eric, que lhe entregou, e fez o
mesmo. Depois se serviu também.
Comeram durante muito tempo,
conversando sobre várias coisas. Eric e Tom contaram fatos engraçados das
turnês do Cinderella, fazendo Mary Ann se divertir um bocado. Até que começaram
a conversar sobre a volta de Mary Ann aos palcos.
- Eu acho que você tem tudo pra
explodir de novo... – Eric deu sua opinião.
- Eu tenho certeza. – Tom falou.
- Eu não tenho tanta certeza
assim... Mas é a única coisa que sei fazer na vida...
- Bom... Eu até chamei o Eric
aqui em casa hoje pra jantar com a gente porque eu tenho uma notícia muito
legal pra te dar! – Tom disse, após limpar sua boca com um guardanapo.
Eric fitou Mary Ann com um
sorriso engraçado. E a moça fitou os dois músicos, curiosa.
- E o que é? – Perguntou.
- Bom... Eu tive uma ideia outro
dia, Eric aprovou... Aí eu levei isso pros nossos produtores e eles curtiram a
ideia também... Agora preciso saber se você topa...
- Eu acho melhor topar... – Eric adiu.
- Tá... Se vocês não me falarem o
que é, não vou ter como topar... – Mary Ann riu.
- Sim... Só que deixa eu pegar a
sobremesa antes...
Mary Ann se levantou, começou a
recolher os pratos. Tom pegou a travessa com o que havia sobrado do assado e
levou para a cozinha. Mary Ann, com os pratos empilhados, já se sentindo mais à
vontade, o seguiu. Colocou os pratos na pia.
Tom pegou um bolo de chocolate e
levou para a mesa de jantar. Os pratos e talheres de sobremesa já estavam lá.
A jovem pegou uma faca, cortou um
pedaço de bolo, colocou num prato e serviu Eric. Repetiu o ato para servir Tom
e, por último, se serviu.
- Bom... Mary Ann... O que você
acha de abrir shows para nossa banda?
A moça mordeu o bolo e ficou com
o garfo na boca, arregalando os olhos, fitando os dois músicos, que a
encaravam. Tirou o garfo, mastigou a sobremesa lentamente, engoliu, pegou um
guardanapo, limpou a boca e perguntou
- Isso é possível?
- Claro que é! – Eric riu.
- Mas... Não poderia ser um
problema pra vocês?
- Por que haveria de ser?
Mary Ann não sabia o que
responder. Até que, após uma pausa, acabou por falar:
- Por que não, uai?
Tom e Eric riram do jeito caipira
da moça. E assim ficaram mais um tempo a conversar sobre uma possível turnê
conjunta.
Já era mais de meia noite quando
Eric foi embora. Tom surpreendeu Mary Ann tentando lavar os pratos.
- Ei, pode parar! Amanhã fazemos
isso... Você pegou um avião, isso foi um estresse... Vai dormir que amanhã
vamos lavar os pratos... E vamos ter muita coisa pra fazer! Muito trabalho pela
frente! – Tom se impôs.
A moça sorriu e fitou o
vocalista.
- Tá... Eu vou dormir, mas...
Antes... Eu... Eu queria te agradecer por ter me dado tantas chances até
hoje...
- E vou continuar dando todas que
eu puder.
Tom se aproximou da jovem.
Retirou uma mecha de cabelo do rosto dela, acomodando-a atrás da orelha.
- Todas...
Antes que pudesse fazer qualquer
carícia, a jovem disse:
- Boa noite.
Deu as costas e foi para seu
quarto. Tom ficou impaciente, mas logo sorriu.
- Boa noite... – Respondeu.
Ela se virou, o fitou, acenou e
foi para seu quarto.
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