The Last Rebel
11 Same Old Blues
Notas iniciais
O tempo passava rápido. Mary Ann estava, a cada mês, mais rica. Mas quem administrava a sua fortuna era seu marido e empresário, Charlie. No entanto, cerca de seis meses depois do casamento, a relação, que sempre fora morna, gelou.
Charlie tratava Mary Ann relativamente bem, exceto quando bebia. E beber estava se tornando algo frequente. A cantora já havia sido agredida mais de uma vez, e mesmo assim não procurava ajuda. Eram agressões menores, não deixavam marcas, mas doíam no coração de Mary Ann. Por mais que ela não amasse Charlie como deveria, a agressão era ofensiva demais. Fugira da casa de seu pai, pois conviver com violência estava insuportável, e, por uma brincadeira de mau gosto do destino acabara por se casar com um homem violento.
Já era o ano de 2004. Mês de junho. O show que Mary Ann iria fazer era em Nashville. Charlie pegou seu telefone e fez uma ligação:
- Oi, Keifer... Estamos em Nashville já... Você vai vir ao show?
- Vou, vou poder ficar escondido nos backstages né?
- Vai... Claro que vai...
- Então ótimo. Vou mais cedo, para a passagem de som.
Charlie procurou Mary Ann, que se arrumava no camarim.
- O cara vai vir! – Disse, empolgado.
Mary Ann não ligou. Somente falou:
- Duvido...
- Ele vai vir sim... Pra passagem de som...
- Tá... Tudo bem...
Duas horas depois, Charlie foi chamado. Queriam falar com ele. O jovem empresário caminhou por um corredor, chegando a uma sala. Encontrou-se com Tom Keifer.
- Que legal que você finalmente veio...
Mas antes que pudesse terminar sua frase, foi surpreendido por um golpe que quase o levou a nocaute.
- Isso, seu filho da puta, é pelos direitos autorais que eu não estou recebendo.
Charlie, no chão, segurando o queixo com a mão, sentindo uma das maiores dores que já sentira na vida, fitou Tom e falou:
- Você é louco? Nós estamos pagando!
- Só se estiverem pagando para puta que pariu, porque na minha conta bancária não chega! Você é um pilantra, Burns!
Nesse instante, Mary Ann foi procurar Charlie, antes de entrar na sala onde estavam, ouviu a discussão. Não entrou, ficou a escutar, escondida, sem vê-los, ao lado da porta.
Tom continuava a falar, dedo em riste:
- Eu vou meter um processo em você e nessa menina! Quero o que é meu! Meus direitos autorais! Foi o combinado!
- Você vai receber!
- Eu já deveria ter recebido logo depois do início das vendas do álbum! A gravadora deveria ter repassado para mim!
- Eles não repassaram porque eu fiquei de repassar! Esse é meu contrato com eles!
- Não me interessa quem vai pagar ou não! Não componho nem mais um compasso pra essa menina! Mesmo que você me dê o dinheiro agora, entendeu?
- Keifer...
- Chega! Você tem uma semana pra me pagar! Se não pagar, processo você!
Tom saiu da sala, bufando. Mary Ann, quando percebeu sua aproximação, deu três passos para trás. O compositor saiu e fez uma curva para o lado contrário de onde estava a cantora. E ela o viu caminhando para longe, apenas de costas.
Entrou na sala e observou Charlie ainda massageando o queixo, já em pé.
- Charlie... Você não está pagando esse cara? – Ela questionou.
- Não paguei ainda... Mas vou pagar...
- Por isso que ele tá um nojo! Ele faz o trabalho e não recebe! Qualquer um fica um nojo!
- Não... Ele É um nojo. – Charlie contestou, enfatizando o verbo.
- Me dá o telefone desse cara!
- Ah, Mary Ann... Pra que?
- Eu mesma vou pagar! E pra poder falar pra ele que eu não vou mais querer músicas dele! Ele que enfie as músicas onde ele quiser!
Mary Ann deu as costas e saiu da sala, revoltada.
Após o show, foram para o hotel. Charlie já havia bebido bastante, e isso garantiu que ele caísse duro sobre a cama do quarto do casal. Mary Ann se aproveitou disso e pegou seu telefone celular. Escondeu-se no banheiro e discou para Tom. Tocou quatro vezes e uma voz sonolenta atendeu:
- Que é, Burns? Espero que você tenha me acordado pra me avisar que vai me pagar...
- Boa noite... – Mary Ann falou – Não, aqui não é o Charlie, e sim, eu mesma faço questão te de pagar. Quanto te devemos?
Silêncio no outro lado da linha. Após alguns segundos, Tom, surpreendido pela jovem cantora, falou:
- Se não me engano são doze mil dólares... Mas se você quiser envio por e-mail a planilha de custos.
- Não precisa me enviar nada, eu confio em você. Só confirme para ver se não é mais... Preciso do número de sua conta bancária para depositar.
Mais silêncio na linha. Tom respirou fundo e falou:
- Já conferi... É isso mesmo...
E passou o número da conta bancária para a cantora, que anotou. Ela desligou e, na sequência, ligou para o serviço 24 horas do banco. Fez a transferência. Voltou a ligar para Tom. E, dessa vez, ele atendeu mais educadamente. Mary Ann falou:
- Pronto, já está depositado... Por favor, se não estiver OK, me avise. Peço desculpas pelo transtorno que meu marido te causou...
- Ótimo... Irei conferir amanhã... Obrigado...
- Você não tem que agradecer nada, Sr. Keifer... Eu que devo desculpas... E não precisa se preocupar, encontraremos outro compositor.
- É... Melhor assim... Embora a senhora tenha me dado um exemplo de dignidade, eu não confio mais no seu marido.
- Então muito obrigada e, mais uma vez, peço desculpas pelo atraso.
Quando já ia desligar, escutou a voz do outro lado da linha:
- Espera, garota...
- O que é? – Ela perguntou, sem conseguir disfarçar a curiosidade.
- Olha, eu não deveria falar isso pra você... Mal te conheço, nem sei que voz você tem, muito menos conheço sua cara... Mas percebi que pelo menos dignidade você tem... Não deveria me meter na sua vida, nem te dar conselhos... Mas... Livre-se do Burns. Ele não vale a bosta que caga...
- Sr Keifer... Agradeço o conselho, mas... Quem sabe da minha vida sou eu...
E desligou. Conversar com Tom fizera Mary Ann sentir um ódio sem precedentes. A arrogância do compositor ao telefone a irritou profundamente.
Horas depois, Charlie acordou. Mary Ann já estava acordada, olhando a vista pela janela.
- Eu falei com o tal Keifer ontem... – Ela falou, percebendo que seu marido acordava.
- Como assim falou com ele?
- A dívida já tá saldada...
Charlie levantou seu tronco e disse, aparentando indignação:
- Como assim?
- Paguei a ele o que devíamos. Fiz um depósito na conta corrente dele... Não tô a fim de responder processo por tão pouco...
- Você é louca?
Mary Ann virou-se e fitou Charlie:
- Louco é você de contratar um serviço e não pagar... Eu tenho uma fortuna que daria para pagar pelo menos dez vezes o valor do serviço dele. Por que eu não pagaria?
- Porque eu iria negociar isso!
- Ah, Charlie! Tenha santa paciência! Pra que chorar miséria? Tem que pagar o que o homem tem de direito.
- Aprenda uma coisa! Tudo o que você puder economizar, Mary Ann, é importante! Entendeu?
- Não quero dever pra ninguém! E também não quero mais os serviços desse cara!
- Ele é um gênio!
- Mas eu já dispensei os serviços do “gênio”! – Mary Ann disse, fazendo uma careta em tom de ironia.
- VOCÊ O QUE? – Charlie ficou uma fera.
- EU DISPENSEI SIM OS SERVIÇOS DELE! VAMOS CONTRATAR OUTRO COMPOSITOR!
- Você é uma ridícula mesmo! – O jovem empresário perdeu o rumo – Como você pôde fazer uma idiotice dessas?
- Charlie, eu fiz! Se foi idiotice ou não, não me interessa! O que importa foi que eu fiz!
O rapaz se levantou, vestiu uma roupa e saiu do quarto.
Meia hora depois estava na casa de Tom Keifer. O vocalista abriu a porta e Charlie invadiu sua residência:
- Por favor, ignore o que a Mary Ann falou...
- E o que ela falou que eu devo ignorar? As desculpas pelos atrasos no pagamento?
- Não! Sobre não escrever mais para ela!
- Ah, Charlie... Como você é filho da puta! A menina é honesta! Pagou o que vocês me deviam, pediu desculpas e tem vergonha de continuar trabalhando comigo! Você deveria aprender com ela!
- Não tenho que aprender nada com aquela... – Charlie se conteve.
- Com aquela o que, Charlie? Com aquela caipira? Com aquela idiota? Com aquela coisa? Do que você vai chamar sua própria mulher?
Charlie nada respondeu. Dirigiu-se à porta e saiu. Tom riu sozinho.
* * *
Mais cinco meses se passaram. Mary Ann continuava extremamente requisitada. E sua relação com Charlie só degringolava. Logo sua vida pessoal se tornou fofoca nos tabloides, todos os dias havia uma nova notícia sobre o casamento da cantora com seu empresário. Charlie, bêbado, fotografado em casas noturnas com outras mulheres. Mary Ann flagrada sozinha nos lugares. Tudo se tornou um grande circo.
Um dia, Charlie surpreendeu um paparazzo a fotografá-lo. E partiu para cima do indivíduo, quebrando-lhe a mandíbula. Foi preso. Suas fotos foram divulgadas na internet e na imprensa escrita. Charlie passou quatro dias na cadeia e depois foi condenado a prestar serviços comunitários, além de pagar uma indenização ao homem. Quem pagou foi Mary Ann.
Quando saiu da cadeia, foi direto para sua casa. Ao chegar, encontrou Mary Ann sentada no sofá, na sala de estar. Entrou no aposento, tímido, sem graça. A jovem o fitou e aguardou que ele se pronunciasse. No entanto, ele não disse absolutamente nada. Ficou olhando para o próprio pé.
- Você não vai falar nada, Charlie? – Ela perguntou.
Ele continuou mudo.
- Então, já que não vai falar nada, eu falo... Eu cansei dessa situação. Cansei de ser motivo de chacota na imprensa, de fazer o papel de esposa traída. Cansei de passar por ridícula, de ser tratada como lixo!
- Mary Ann...
- Eu vou falar, Charlie – Ela o interrompeu – Pra mim chega dessa palhaçada! Vou me divorciar de você! Nunca te amei, casei com você por falta de opção, praticamente obrigada...
Ele a fitou, finalmente, com um olhar torto, e disparou contra ela:
- Obrigada? Não sabia que tinha sido “obrigada”...
- Mas fui! Eu não queria...
- E por que então você se casou comigo? Por que eu sou seu empresário?
- Não!
- Então pede o maldito divórcio!
- Vou pedir... E já estou com minhas malas prontas, voltando pra minha terra. Quero distância de você.
A jovem se levantou do sofá, foi para o quarto, pegou duas malas e saiu sem dizer adeus. Charlie, assim que a porta bateu, abriu um sorriso. Pegou seu celular e fez uma ligação:
- Neville... Tudo deu certo... Ela vai pedir o divórcio.
- Você é um dos caras mais inteligentes que eu já vi na minha vida, Burns... Então vamos lá... Vão-se os anéis, ficam os dedos...
- E dedos que valem ouro...
* * *
Chester abriu a porta e mal pôde acreditar. Mary Ann entrou, chorando, e abraçou o homem.
- Que houve, Mary Ann?
- Vou pedir o divórcio, não aguento mais aquele desgraçado!
- O que ele fez com você?
- Chester... Ele... Comigo não fez nada... Mas quebrou a cara de um fotógrafo e pra mim isso foi a gota d’água!
- Eu te falei pra não casar com ele... – Chester disse, afagando os cabelos da garota.
Após algumas horas, Mary Ann já estava mais tranquila. Contou a Chester sobre a dívida com Tom Keifer e as agressões sofridas durante o casamento, notou que o rosto do homem ficou vermelho, mas ele não demonstrou a raiva. No final de todos os relatos, Chester acabou por dizer:
- Bom, Mary Ann... Melhor assim... Você deveria ter procurado a polícia, não procurou, agora paciência. Pede o divórcio e rescinde o contrato com ele... Conseguiremos outro empresário e aí você continua sem ele!
- É... É o melhor a fazer... – A jovem disse – Preciso comer alguma coisa...
* * *
Dois dias depois, o telefone tocou na casa de Chester. Era Oscar Neville, advogado de Charlie.
- Olá, senhor Chester, será que eu poderia falar com Mary Ann?
- Não, senhor, ela não está... Sobre o que seria?
- É sobre o processo de divórcio... Ela já deu entrada, não foi?
- Sim... Um advogado dela em Los Angeles já fez isso...
- Bom... Então aguardaremos a justiça se pronunciar...
- OK...
E desligaram o telefone. Mary Ann apareceu na sala:
- Quem era?
- O advogado do seu marido... Perguntando sobre o divórcio...
Mary Ann bufou, dando uma pequena risada em tom de ironia.
- Eles não perdem tempo...
- Claro que não – Disse Chester – Escuta, Mary Ann... Qual foi o regime do casamento de vocês?
Ela fez uma cara de dúvida e perguntou:
- Regime? Como assim “regime”?
- Existem vários regimes de casamento... Tem um em que quando você se casa tudo o que o casal ganha tem que ser dividido... O outro não...
- Não sei, Chester... Nem sabia que isso existia.
Chester coçou o cavanhaque, preocupado.
* * *
Mary Ann e Chester chegaram ao cartório para que ela pudesse assinar o divórcio. Não se encontraram, a princípio, com Charlie. O advogado de Mary Ann chegou.
- Senhora Collins, eu preciso dar uma notícia – Ele disse, preocupado.
- O que houve? – A jovem perguntou.
- Temos um problema... O regime de casamento de vocês...
- Diga...
- Tudo o que a senhora ganhou... Metade é dele...
Chester olhou para Mary Ann. A moça permaneceu serena.
- Não tem problema... O que eu quero é me livrar dele...
- O maior problema não é esse, Sra Collins... O maior problema é que o contrato que a senhora assinou com ele...
- O que tem?
- A senhora tem uma cópia do contrato?
- Eu tenho... Não tem nada de errado...
- Não é o que eu vi aqui...
E retirou uma fotocópia do contrato de dentro de uma pasta.
- Pelo que eu li... A porcentagem dele sobre seus ganhos é 80%...
- Como assim – Disse Chester, nervoso – Não é possível! Eu li esse contrato, era 20%.
- Leia o senhor mesmo! – O advogado estendeu os papéis para Chester.
Chester leu o contrato. E, quando chegou à cláusula citada pelo advogado, colocou a mão na cabeça.
- Não tinha isso aqui no contrato que eu li! Ele enganou todo mundo!
Mary Ann derramou uma lágrima. Não pelo que havia perdido, mas pelo fato de ter se sentido enganada.
- Então a Mary Ann vai ter que dar...
- Tudo a ele. Cinquenta por cento do que ganhou por conta do contrato de casamento, e 80% do que restar se rescindir o contrato de empresariado com o Sr. Burns.
- Não tem problema – Mary Ann falou – Eu quero me ver livre do Charlie... Mesmo que eu tenha que começar do zero...
- É, Sra. Collins... Só que tem mais um problema... Há uma cláusula do contrato que diz que a multa de rescisão é de um milhão de dólares... E, pelos meus cálculos, a senhora vai ficar devendo quarenta por cento desse valor para ele...
Chester ficou vermelho de ódio.
- Tem que haver uma solução...
- Podemos entrar na justiça alegando que ele agiu de má fé. Se vocês apresentarem a cópia falsa do contrato à justiça, pode ser que o juiz reconsidere... Mas o que a senhora perder por ocasião do divórcio, isso é irrecuperável...
- Como eu disse, não há problema... Confio na justiça. – Mary Ann disse, aparentando firmeza.
Um funcionário os chamou e os três entraram na sala. Mary Ann sentou-se de frente com Charlie. Ele mal a fitava, mas ela o encarava, séria, irritada. Após a assinatura do divórcio, o juiz ordenou que o valor que Mary Ann devia a ele fosse depositado. Charlie abriu um sorriso. Mary Ann nada falou.
Dois dias depois, Charlie deu uma entrevista bombástica. Nessa entrevista, contou a história toda distorcida sobre a separação. O dinheiro já estava na sua conta, mas ele contou ao entrevistador que ela ainda devia para ele. No dia seguinte, na porta da casa de Chester, havia cerca de cinquenta repórteres. Ela não conversou com nenhum deles. Manteve-se fechada em casa.
* * *
Tom ligou a televisão e viu a reportagem sobre a separação de Charlie e Mary Ann. Logo deduziu que a moça estava sendo difamada, pois conhecia bem a fama do empresário.
- Que grande filho da puta! – Exclamou.
Continuou a ver a entrevista de Charlie. Sentiu nojo, sentiu horror àquilo. Optara por não sair mais de casa e evitar contato com outras pessoas justamente por causa da ambição alheia.
Desligou a televisão e voltou ao seu escritório, para escrever as músicas que estava compondo. Foi quando bateu uma leve curiosidade. Lembrou-se de nunca ter ouvido suas músicas na voz de Mary Ann. Abriu seu computador e localizou as mensagens com as músicas anexadas em seu e-mail. Fez o download de todas e começou a ouvi-las. Escutou atentamente uma a uma. A cada uma delas Tom se arrepiava inteiramente.
- Não é possível que ele fez essa sacanagem com a menina! Que filho da puta! – Esmurrou a mesa. – Preciso fazer algo! Preciso contar ao mundo que ele não é o bonzinho da história!
Mas conteve-se. Afinal de contas, não era um problema seu.
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