The Last Rebel
12 Backstreet crawler
Notas iniciais
ATENÇÃO QUE ESSE VAI SER DE ARREPIAR OS CABELOS DA NEGA DO SUBACO CABELUDO KKKKKKK
FORTES EMOÇÕES!
O advogado de Mary Ann entrou com um processo na justiça pedindo a revisão do contrato. Mas, enquanto nada acontecia, todos os bens de Mary Ann foram bloqueados. Isso se tornou notícia, e todos tomaram conhecimento. A banda de Mary Ann se desfez, os shows foram cancelados – e ela teve que arcar com a multa – além de que toda a imprensa estava ao lado de Charlie. A menina sofria, não conversava com mais ninguém, não saía mais de casa.
Uma tarde, seu celular tocou. Ela atendeu, hesitante, pois não reconhecera o número.
- Boa tarde... É Mary Ann? – Uma voz masculina do outro lado da linha.
- Olha, se você quer que eu me pronuncie sobre tudo o que está acontecendo...
- Não, não... Aqui é Tom Keifer... Desculpe... Não quero te incomodar... Só quero saber se... Você tá precisando de alguma coisa...
Mary Ann respirou fundo. Não esperava que o compositor pudesse procurá-la. Ele sempre era de uma arrogância sem tamanho.
- Não, Sr. Keifer... Não preciso de nada... Estou bem...
- Olha, garota... É muito difícil eu fazer isso... Porque na verdade quero distância das pessoas... Mas é impossível não ficar sabendo do que aconteceu... E eu sei bem quem é o Burns... Um desgraçado, bandido... Então, se você mudar de ideia... Se precisar de qualquer coisa...
- Obrigada... Agradeço mesmo... Acho que é a primeira palavra de apoio que eu recebo.
* * *
Tom desligou o telefone. Foi dormir cedo, irritado. Algo fez com que ele se revoltasse. Não sabia o que era. Pegou um jornal e observou a foto da cantora. Ficou a olhá-la. Teve a impressão de que ela não era estranha a seus olhos. Passou horas na cama, fitando o teto e pensando o que poderia fazer. Acabou por adormecer.
No dia seguinte, ligou a televisão somente após o almoço. Logo após o noticiário, um programa sobre celebridades começou. E, nele, uma cobertura gigante sobre o caso Mary Ann. E uma nova entrevista, ao vivo, com Charlie.
Na entrevista, o jovem empresário disse que Mary Ann o estava fazendo de bobo, que estava praticamente passando fome. E conforme o mentiroso ia contando suas histórias distorcidas, Tom ia se revoltando cada vez mais. Foi quando ele decidiu fazer algo.
Pegou o aparelho de telefone e ligou para a rede de televisão que estava entrevistando Charlie.
- Boa tarde, aqui é Tom Keifer... Eu compus todas as músicas de Mary Ann Collins... Gostaria de entrar ao vivo. Tem algo que sei e que nunca foi contado.
Cinco minutos depois, Tom Keifer estava no ar. O apresentador começou:
- Temos uma ligação de Nashville. É Tom Keifer, ex-vocalista do Cinderella, banda de rock dos anos oitenta, e atualmente compositor de uma gama de artistas, incluindo Mary Ann Collins. Boa tarde, Keifer...
- Boa tarde... Eu decidi ligar, pois há algo que ainda não foi divulgado...
Charlie foi filmado. Estava pálido. Tom segurou uma risada.
- Pois bem, Keifer, conte-nos o que aconteceu... – O apresentador continuou.
- Bom, uma coisa que ainda não foi contada foi justamente que o Sr. Burns não me pagou os direitos autorais no prazo correto. Quem me pagou foi a senhora Collins, sendo que ela não sabia do atraso. Ela foi digna, pagou tudo o que me devia, sendo que ele pretendia enrolar o máximo. Talvez ele não seja esse cordeirinho todo que pintam...
- Mas o senhor recebeu os direitos, não recebeu? – Charlie tomou a palavra.
- Sim, eu recebi, da sua esposa... Não do senhor... Se dependesse do senhor, eu estaria até agora sem receber.
- Então, se o senhor recebeu, por que ligou aqui? Para me difamar? – O jovem empresário o desafiou.
- Claro que não... Não estou difamando ninguém... Até porque tenho como provar que ela me transferiu o dinheiro... Estou apenas contando que quem arcou com o meu pagamento foi ela, sendo que eu estava cobrando o senhor...
Charlie ficou sem ação. O apresentador continuou:
- Keifer, então a dívida foi saldada... O senhor pretende continuar a escrever as canções para Mary Ann se a carreira dela continuar?
- De fato eu havia falado para eles que não comporia mais para ela. Mas como percebi que ela é honesta, sim... Eu comporia para ela... Desde que, claro, o empresário dela não fosse Burns...
- Obrigado pela sua participação, senhor Keifer...
E a ligação foi encerrada. Novamente a câmera filmou Charlie, que estava mais pálido ainda. Tom riu da situação.
* * *
- Mary Ann, corre aqui! – Chester chamou.
A moça apareceu, desanimada, na sala. Já estava no final da participação de Tom Keifer no programa. Ela conseguiu ouvir as últimas frases dele.
- Gostei desse cara. Tentou te preservar.
- Desculpe, Chester... Mas não confio em mais ninguém...
- É, Mary Ann, eu no seu lugar também não confiaria. Mas pra ser sincero ele me surpreendeu...
- É... Realmente... Foi surpreendente... Até porque esse cara é um nojo...
- Mary Ann... Já te passou pela mente que de repente ele pode ter sido um nojo porque não estava recebendo?
- Sim... Já... Mas, sinceramente, acho que não...
- Bom... Você tem o telefone dele?
- Tenho...
- Ligue e agradeça...
- É... Vou fazer isso!
Seguiu para seu quarto. Pegou seu celular e discou, hesitante. Após três toques, Tom atendeu:
- Alô...
- Olá... É Tom Keifer?
- Sim, sou eu... – A voz ríspida ecoou pelo telefone.
- Aqui é Mary Ann Collins...
Um silêncio na linha. Mary Ann continuou:
- Eu... Bem... Eu... Gostaria de agradecer o que o senhor fez na televisão...
- Ah, claro... Não fiz por você não... Vale tudo pra mostrar pra imprensa quem é o idiota do Burns...
- Sim... Eu agradeço... Pelo menos alguém foi ao meu favor...
- Fiz minha parte... Espero que dê tudo certo para você... E vou mais além... Vá na imprensa e conte como está a sua situação...
- Não vou fazer isso. É um problema particular meu... A imprensa não precisa saber...
- Mas as pessoas estão indo do lado dele... Não é justo!
- O que é justo quem vai decidir é a justiça...
- Claro... Bom... Se precisar de ajuda... Estou aqui... Mas não posso fazer muito mais do que já fiz...
- Bom... Mais uma vez eu agradeço...
E desligou após se despedir. Saiu do quarto e foi à sala.
- Chester eu... Eu falei com ele...
- Agradeceu?
- Sim... Mas... Estranho... Eu senti um negócio estranho no telefone...
Chester a fitou e coçou o cavanhaque. Perguntou:
- E o que você sentiu?
- Sabe quando você tem a impressão de que já conhece uma pessoa?
- Sim.
- Eu tive essa impressão...
- Mas você já não o viu?
Mary Ann meneou negativamente a cabeça. Fitou Chester e falou:
- Não... Só de costas... Nunca vi nada... Nem foto...
- Bom... Então acho que você deve procurar fotos dele para ver se o conhece...
- Não é possível...
- Por que não seria? O cara tem uma certa fama...
Chester se levantou de sua cadeira e foi até o escritório. Ligou o computador e chamou por Mary Ann. A jovem entrou no aposento. Várias fotos estavam na tela do computador. Chester foi clicando, em uma por uma, e Mary Ann permanecia calada.
- Não? Não se lembra de onde o conhece?
- Não... Mas eu o conheço... Tenho certeza de que conheço esse homem...
- Vamos ouvir uma música dele... Quem sabe... Assim... Você não o reconhece...
Chester entrou no site do Youtube e buscou por vídeos do Cinderella. Clicou sobre a miniatura do vídeo Heartbreak Station e deixou carregar. Apertou play. Mary Ann observava, tentando se lembrar de onde conhecia aquele homem. E a música foi entrando em seus ouvidos.
- Que música linda... – Ela balbuciou.
- É... Muito bonita mesmo... Fez muito sucesso no começo dos anos noventa...
- Não deve ser daí, Chester... Eu era muito criança...
- Isso mesmo... Mas... De repente... Nesses eventos...
- Não, Chester... Certeza que não...
Chester fechou a janela do navegador.
- Então deixa pra lá...
Mary Ann voltou para seu quarto. Sentou-se na cama e pegou seu violão. Ficou abraçada a ele, sem se recordar quem era o compositor.
* * *
Vinte dias depois, a imprensa descobriu detalhes sobre o processo que Mary Ann havia movido contra Charlie. E isso ocupou os programas de fofoca e as páginas de tabloides.
Tom estava tomando um lanche quando abriu o jornal numa página em que detalhes do processo eram contados. E, ao ler que toda a fortuna de Mary Ann deveria ser passada a Charlie e a moça ficaria na miséria, se revoltou.
- Ah, mas que grande filho da puta! Então ele quer é o dinheiro dela?
Tom fechou o jornal, irritado. Após comer, decidiu fazer algo do qual talvez se arrependesse. Respirou fundo, foi ao seu quarto, calçou botas, pegou a chave do carro que estava pendurada em um porta-chaves da cozinha e saiu. Em quinze minutos estava no aeroporto de Nashville. Comprou uma passagem para Birmingham. Partiria para lá em algumas horas. Depois disso, tentou, sem sucesso, encontrar na internet, em uma lan house, o endereço de Mary Ann. Mas descobriu que ela havia começado na música em um bar, Birmingham’s Groove. Anotou o nome e guardou no bolso da jaqueta de couro. Voltou para o aeroporto, onde tomou o voo.
Quando o avião pousou em Birmingham, já eram mais de oito horas da noite. Tomou um táxi e pediu que o motorista o levasse para até o bar de Chester. Ao chegar, o estabelecimento estava lotado. Foi até o balcão e falou com o bar tender:
- Olá... Eu queria falar com o proprietário do bar... Seria possível?
- Sobre o que é?
- É um assunto particular, do interesse dele...
- E é da parte de quem?
- Pode falar que é o Tom Keifer...
- OK...
O bar tender foi até Melissa e pediu que ela chamasse Chester. O vocalista sentou-se a uma mesa e ficou esperando. Cinco minutos depois Chester se sentou à frente dele. Disse, coçando o cavanhaque:
- Então quer dizer que o senhor resolveu aparecer...
- É... Eu fiquei sabendo de detalhes do processo e isso é revoltante... Esse cara é um pilantra...
- E o que você veio fazer aqui?
- Vim me oferecer para ser testemunha no processo...
Charlie novamente coçou o cavanhaque, num gesto típico de que estava pensativo. Tom continuou:
- Acho que é uma maneira de ajudar.
- Acho estranho você ajudar assim, sem esperar nada em troca...
- É... Mas é o que quero... Odeio aquele babaca...
- Bom... Só que eu não poderei dizer se é possível isso ou não... Melhor você conversar com ela...
- E como faço pra falar com ela?
Chester pegou uma folha do porta-guardanapo e anotou, com uma caneta que tinha no bolso, o endereço.
- Passe lá amanhã pela manhã... E converse com ela...
- Tudo bem... Tem algum hotel em que eu possa ficar por aqui?
- Do outro lado da rua tem... Pelo menos dois...
- OK... Amanhã cedinho eu passarei lá...
Tom levantou-se e apertou a mão de Chester. Saiu. Chester ficou a coçar o cavanhaque.
Após fechar o Groove, Chester foi para sua residência. Foi conversar com Mary Ann, mas a cantora já estava dormindo.
* * *
Seis horas da manhã e Mary Ann já havia perdido o sono. Deitada em sua cama, pensava em tudo o que estava passando. Como esses pensamentos a deixavam repleta de borboletas no estômago, decidiu levantar-se. Pegou seu violão, presente do desconhecido, e foi para a sala com ele.
Sentou-se no sofá e ficou a tocar, aleatoriamente. E assim permaneceu por algumas horas. Voltou a sentir sono e acabou por deixar o violão sobre o sofá, voltando para seu quarto.
Chester acordou e foi preparar o café. Quando chegou à sala, viu o violão de Mary Ann, balançou a cabeça, negativamente, pensando no sofrimento da garota, que havia tido tudo, e agora não possuía mais nada. Sem o dinheiro do seu trabalho, enganada pelo empresário e marido, sem amor, sem a opinião pública ao seu lado.
Quando já estava prestes a comer, ouviu a campainha. Foi atender, era Tom.
- Bom dia, Sr. Chester...
- Entre... Tome café comigo... Mary Ann ainda está dormindo...
Tom aceitou o convite. Não era de reparar na casa dos outros. Na verdade, estar longe de seu território era um suplício.
Sentou-se com Chester à mesa e ficou a conversar com seu anfitrião. Após terminarem o café, Chester comentou:
- Vou chamá-la... Aguarde na sala, por favor... Ela ainda está dormindo... Mas já passou da hora de acordar...
- Tudo bem se ela não levantar... Eu espero...
- Não, Keifer, que isso... Ela sempre foi de acordar cedo... Desde que veio da fazenda acordou cedo...
- Fazenda? – Tom perguntou.
- É... Ela não é aqui da cidade... Vivia com o pai numa fazenda há uns 30km daqui...
Tom fez uma careta.
- Era uma fazenda que tratava de viciados... Fazenda Birmingham... Conhece?
O vocalista permaneceu mudo.
- Vou chamá-la... – Chester anunciou. E se levantou – Espere lá na sala...
Tom se levantou, desconfiado, e foi até a sala. Foi quando, notou, ao sentar-se no sofá de três lugares, que havia um objeto no sofá de dois lugares. Levantou-se e se aproximou. E qual não foi a sua surpresa ao ver que, sobre o estofado, jazia um violão antigo, madeira levemente apodrecia, cordas visivelmente novas. E, como um filme, o passado voltou à sua mente. Ano de 1992, fazenda Birmingham. Perdido, na floresta, encontrou a pequena garotinha que chorava sobre uma pedra, triste por apanhar de seu pai, mas mais triste ainda por ter perdido o seu maior companheiro: seu violão.
“- Eu me chamo Tom... E você?
- Mary Ann...
- Bonito nome... Sabia que você canta muito bem, Mary Ann?”.
Sentiu uma tontura. Como poderia ser?
“- Meu pai... Ele me bate...
- E ele sempre te machuca assim?
- Sempre...
- E sua mãe?
- Minha mãe morreu...
- E seu violão? Você não está tocando por quê?
- Meu pai quebrou meu violão... Disse que se eu conversasse com você novamente, que me mataria... Eu não quero morrer...”.
Tom sentiu um forte aperto no peito. E continuou se lembrando:
“- Não se assuste. Há um presente pra você naquela árvore, de coração... Boa sorte, você ainda vai fazer muito sucesso...”.
- Meu Deus! É a menina da fazenda Birmingham! É ela! É aquela menina que apanhava do pai! Como pode?! – Tom colocou as duas mãos na cabeça, falando sozinho.
Sentiu-se desnorteado ao lembrar-se de tudo. E, num impulso, virou-se, dirigiu-se à porta e saiu.
* * *
- Mary Ann... Vá lá falar com ele... Ele quer te ajudar...
- Não preciso da ajuda dele, Chester! Diga que eu agradeço, mas não quero!
- Então vá você mesma dizer isso ao homem!
Mary Ann já estava vestida. Levantou-se da cama e saiu do quarto, indo para a sala. Ao chegar, não encontrou Tom.
- Mas ele estava aqui! Eu o deixei aqui... – Chester notou que a visita havia partido.
Olharam para a porta e viram que estava semicerrada. Ele devia estar esperando do lado de fora. Mary Ann foi até ela e a abriu. Não o viu em parte alguma.
- Ah, não falei... Esse cara é um arrogante, um cretino... Lógico que ele não ia me esperar...
E voltou, batendo os pés para seu quarto.
* * *
Tom entrou no quarto do hotel. Não havia levado bagagem, somente uma mochila com uma troca de roupa. Foi para o banheiro e lavou seu rosto, nervoso.
- Aquela menina nasceu pra sofrer! Não é possível... – Passou as mãos molhadas de cima para baixo nas suas bochechas, inconformado.
Secou seu rosto com uma toalha. Enquanto se fitava no espelho, pensou milhões de coisas. E ficou inconformado pelo fato de não ter reconhecido o rosto da menina. Era uma menina linda: olhos verdes enormes, sorriso belíssimo, cabelos longos e pretos, lisinhos, deviam ser mais macios que seda. E, naquela época que estava vivendo, Mary Ann havia se tornado uma mulher deslumbrante. Pelo menos pelo o que vira na televisão. Ainda não a vira ao vivo. Foi para o quarto e sentou-se sobre a cama, ainda atônito. Talentosa, com uma voz entoando cantos como o mais lindo rouxinol, delicada, bela. Seu peito se apertou novamente. Chester não era o pai dela. Ela havia saído da fazenda. Decerto por apanhar tanto daquele velho idiota. Imaginou tudo o que ela devia ter passado. Mas aquilo tudo não era problema seu. Tom deixara de se preocupar com os outros, por que estaria tão preocupado com ela?
Tentou afastar os pensamentos que tinha em sua mente, mas não conseguia. Lutava contra a vontade de fazer algo. Não queria se envolver. Decidiu voltar a Nashville. Pegou a roupa do dia anterior e colocou na mochila. Foi ao banheiro, pegou sua escova de dente, seu dentifrício e enfiou tudo na pequena mochila que levara.
Desceu as escadas do pequeno hotel e foi fazer o check out no balcão. Foi quando ouviu uma voz, conhecida, atrás de si.
- Mas que raios você foi fazer na minha casa? Investigar a garota? Foi isso?
Tom se virou e fitou Chester. O homem estava vermelho de raiva. Havia se doído por ela.
- Desculpe, Chester, mas...
- Mas o que? Eu tenho dez anos a mais que você, e conheço muito bem o seu tipinho! Estou cansado de gente do seu tipo, que quer se aproximar de pessoas inocentes e boas como Mary Ann pra levar vantagem em alguma coisa!
- Não, não é isso!
- Pensa que eu não percebi o que você queria? Arrancou informações de mim e sumiu! Que ajudar Mary Ann o que? Você queria era morder a grana dela! Quando soube que ela...
- Escute, Chester! Eu já sabia que ela tinha perdido tudo antes de ir falar com você! Por que eu iria querer dinheiro dela?! Raciocina! Esse foi inclusive o motivo de eu ter procurado vocês!
- E o que você foi fazer lá? Ofereceu ajuda e sumiu? Pensou no quanto estava sendo ridículo...
Tom respirou fundo. Decidiu, naquele instante, se abrir com Chester.
- Suba comigo... Vou contar a você por que eu sumi...
Chester acompanhou Tom até seu quarto. Entraram. Tom largou a mochila sobre a cama. Puxou uma pequena cadeira e apontou para o móvel:
- Pode sentar aí...
O dono do Birmingham’s Groove se sentou na cadeira, fitou Tom, desconfiado, e perguntou:
- Fala... Por que você sumiu?
Tom se sentou em frente a Chester e começou a contar:
- Eu já conhecia a Mary Ann... Mas não sabia disso...
- Como assim? – Chester coçou o cavanhaque, confuso.
- Em 1992 eu fui fazer reabilitação contra vício de álcool e drogas na Fazenda Birmingham. Um dia, logo depois que eu cheguei, eu fui andar pela fazenda e me perdi. Fiquei um tempão andando de um lado pro outro, sem encontrar o caminho. Aí escutei um violão... Segui o som e encontrei Mary Ann tocando, sentada numa pedra... Ela tinha oito anos... Me lembro bem disso, perguntei a ela a idade...
- É... Faz sentido – Chester fez a conta mentalmente.
- Aí ela me levou de volta à sede da fazenda. Quando chegamos, o pai dela viu e a mandou pra casa. Me ameaçou, falou que cortaria minhas bolas fora caso eu conversasse com ela de novo...
- E por isso você fugiu da minha casa? – Chester falou, em tom de ironia.
- Não, Chester, por favor... Escuta!
Chester bufou e disse:
- Continue...
- Quando eu já tinha tido alta, eu me perdi de novo na fazenda. E a encontrei em outro lugar. Ela tava sentada sobre a pedra, triste. Eu fui falar com ela, ela ficou cheia de medo. Quando eu a olhei, ela tinha uma ferida no rosto. Acabou me contando que o pai dela batia nela, que ela não tinha mãe... E que ele tinha quebrado o violão dela... Fiquei transtornado de saber daquilo... Aí ela me explicou como fazer pra voltar e sumiu. Quando voltei, peguei meu violão e levei até a casa dela, escondi numa árvore e a avisei. Eu fiz algo por ela! E ela tem esse violão até hoje!
- Você... Você tá querendo me dizer que... Aquele violão dela... Foi você que deu?
- Sim, Chester... Fui eu... Alguma coisa do que eu te contei, sobre ela apanhar do pai, dele a ferir... Alguma coisa de tudo isso é mentira?
- Não...
- Em algum momento você me falou que o pai dela a espancava?
- Realmente não...
- Então... Eu já conhecia Mary Ann... Mas não havia me tocado disso!
Chester coçou mais uma vez o cavanhaque. E disse:
- Mas, por que você fugiu?
- Não sei... Me deu um aperto no coração, uma agonia... Senti que não ia ficar bem com aquilo... Minha reação foi fugir...
- Ela não faz ideia de que você... Peraí! – Chester se interrompeu – Outro dia ela viu o vídeo da sua banda no Youtube... E disse que tinha a impressão de te conhecer de algum lugar...
O coração de Tom disparou. Engoliu seco:
- E você acha que ela... Me reconheceria?
- Puta que pariu, Keifer... Tenho quase certeza que sim!
- Ah... Não... Não quero isso!
- Mas por que não? – Chester perguntou, indignado.
- Não posso! Simplesmente não posso!
- Ah, deixa de ser idiota! Você não quer ajudá-la? De certa forma ela é o que é graças a você! Você deu força pra ela continuar!
Tom ficou fitando Chester. Olhos estagnados. Chester continuou:
- Não saia daqui... Não vá embora! Vou tentar descobrir qual seria a reação dela... Mas acho que ter a sua ajuda pode tirar ela do estado de torpor que está!
- Ela...
- Tom, eu tenho quase certeza de que ela tá entrando em depressão... Tenho medo do que ela venha a sofrer... Talvez saber que você é aquela pessoa que acreditou nela...
- Ela possa melhorar? Não acredito muito nisso...
- Ah, Tom Keifer, deixe de ser individualista!
- Tá... Tudo bem... Aguardo um novo contato... Mas... Como você descobriu que eu estou nesse hotel aqui?
- Oras, fui eu que te recomendei esses hotéis aqui da rua...
- É, verdade... – Tom coçou a cabeça – Bom... Então eu espero um contato seu...
Chester se levantou e saiu, batendo a porta. Tom ficou sentado na cama, pensativo.
* * *
Chester chegou ao quarto de Mary Ann, bateu à porta:
- Mary Ann, quero falar com você!
A moça demorou alguns minutos e abriu a porta.
- Oi, Chester, pode falar...
- Mary Ann... Eu queria te perguntar uma coisa...
Chester entrou no quarto da moça e se sentou sobre uma cadeira de uma penteadeira. Mary Ann se sentou na cama.
- Pode falar, Chester...
- Deixa eu te perguntar... Como você comprou esse seu violão?
Chester olhou para o instrumento, que estava em pé, apoiado num suporte. Estava bem velho, e seu som não era claro.
- Não comprei... Foi um presente...
- Mas não acha que tá na hora de trocar?
- Não... Não vou me desfazer dele... Tenho estima por esse violão...
- Mas tá tão velho... Estragado... A madeira tá podre...
- Eu sei... Mas gosto dele... Nunca vou me desfazer desse instrumento...
- E, pra você ter tanta estima por ele... Deve haver um motivo... Quem te deu ele?
- Ah, é uma longa história...
- Se importaria de me contar? – Chester insistiu.
- Não... Eu tinha oito anos... Conheci um interno da fazenda. Meu pai não me deixava conversar com ninguém e, pra me astigar por isso, quebrou o meu violão... Aí esse cara me deu esse daí...
- E você, como se sentiu quando isso aconteceu?
Mary Ann sorriu, lembrando-se do ocorrido. Fitou o instrumento, passando a mão sobre ele.
- Ah... Senti como se ainda houvesse esperança. Alguém se importou comigo. Alguém tentou me deixar feliz. Eu não era feliz, minha única alegria era tocar e cantar... E esse cara apostou em mim, ele acreditou em mim...
- Você se lembra desse cara?
- Muito pouco... Tinha cabelo grande... Lembro que ele usava uma calça de couro, bem apertada, botas caubói, e uma camisa branca, no último dia em que eu o vi... Mas não consigo me lembrar do rosto dele... Nem da voz... Muito menos do nome...
Chester coçou o cavanhaque.
- Mas foi uma pessoa que me fez ter esperança na vida... Num futuro... De certa forma ele foi responsável por eu chegar aonde cheguei...
- Bom... – Chester levantou-se – Vou tentar encontrar o compositor desaparecido...
- Ah, não, Chester! Não vou falar com esse cara!
- Eu vou falar com ele... O que ele pensa? Que pode atrapalhar as pessoas assim?
- Faça o que quiser, mas não me obrigue a falar com esse ignorante...
Chester saiu do quarto de Mary Ann e deixou sua casa, correndo até o hotel onde Tom estava hospedado. Tom o recebeu após ter tido o anúncio de sua chegada.
- Diga... – Disse o vocalista, entediado.
- Ela se lembra de tudo, Keifer... Ela é grata a você por ter acreditado nela, por ter dado a ela motivo para sorrir!
Tom sorriu. Havia, sem querer, lapidado um diamante. Primeiro deu a ela motivos para sonhar. Depois, a oportunidade de cantar, compondo músicas para ela. Mas aonde Chester queria chegar?
- Tudo bem... Fico feliz com isso... Posso voltar a Nashville?
- Não... Vim pedir permissão para que eu a traga aqui para você conversar com ela! Vai fazer bem a ela conversar com você, saber quem é você!
- Ah, Chester...
- Não, Tom, por favor, escute! Ela precisa sair da situação em que estar. Seu auxílio jurídico é importante, mas mais importante que isso é ela saber que você está do lado dela, sendo quem você é!
Tom bufou.
- Tudo bem – Respondeu – Então traga ela aqui e vamos contar tudo...
- Você vai contar a ela quem é... E depois ela decide se quer sua ajuda jurídica!
Chester saiu. Tom ficou sozinho, aflito. E agora, como reagir diante daquela menina? Antes que Chester voltasse com a garota, pegou sua mochila e saiu.
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