The Last Rebel
1 Rough around the edges
Notas iniciais
Não é continuação... a saga Anjos da Filadélfia acaba no Rock Diaries, portanto, fiquem livres para ler quando quiserem.
E reparem num detalhe: todos os capítulos terão título de músicas ou versos de músicas do Lynyrd Skynyrd.
Então... Curtam às vontade! Aceito reviews!
Julho de 1992. Ele chegou à fazenda ainda pela manhã. Sentiu o ar fresco bater em seu rosto. Tinha acabado de se divorciar de sua primeira esposa, e estava se recuperando de um problema em seu instrumento de trabalho: sua voz.
Entrou na sede e conversou com um senhor. Era um senhor simples demais, nem falar corretamente ele falava. O homem ficou impressionado com seus cabelos longos. Decerto o julgara mal. Pensara se tratar de mais um roqueiro drogado, como muitos que já haviam passado por lá.
- O senhor pode seguir no corredor. O quarto é lá no fundo.
O jovem foi para seu quarto. Entrou e fechou a porta. Abriu a grande janela que dava de frente, mas bem ao longe, com um grande piquete, onde cavalos selvagens eram adestrados.
Seu nome era Tom. Era vocalista de uma banda de hard rock que estourara nos anos 80. Mas, devido a seus problemas de saúde, com envolvimento com entorpecentes e álcool, e com sua doença vocal, dera uma pausa na turnê de sua banda. Foi à fazenda, no interior do Alabama, para fazer um tratamento contra a dependência química. Tinha que ficar livre da cocaína.
Colocou sua mala sobre a cama e a abriu. Retirou roupa por roupa e guardou no armário. Depois, fechou a mala e a colocou em um maleiro. Em cima de sua cama havia um jogo de toalhas. Teve a brilhante ideia de se banhar, já que havia passado horas na estrada e estava muito calor. Pegou as toalhas e se dirigiu ao banheiro, que era de uso coletivo de todos os internos.
Terminado o banho, estava na hora da palestra com a psicóloga que atendia os internos. Após uma hora e meia escutando o que não queria ouvir, Tom saiu. Era uma fazenda de internação voluntária: o paciente decidia quando deveria ir embora. E, por incrível que possa parecer, era um método que dava certo, pois só permanecia lá quem realmente queria se curar.
Decidiu caminhar pela fazenda, para conhecer o local. Eram três e meia da tarde e seguiu por um caminho de terra. Andou até não aguentar mais. Foi quando percebeu que não sabia voltar. Tentou encontrar o caminho. Em vão.
- Que inferno! – Exclamou, preocupado.
Uma hora havia se passado e não encontrara o caminho de volta. Até que, após virar em um local em que ainda não havia passado, escutou o som de um violão.
- Ótimo... Há alguém que pode me ajudar... Vamos lá...
Seguiu o som dos acordes e arpejos, tentando encontrar seu autor. Qual não foi a sua decepção ao notar que, na verdade, quem tocava o instrumento era uma pequena menina?
“Como essa menina vai me ajudar? Só me fodo mesmo...” – Pensou.
No entanto, resolveu tentar. Respirou fundo e se dirigiu à menina. Ela estava sentada sobre uma pedra. Quando ele ia se sentar ao lado dela, ela começou a cantar. E Tom se assustou com a menina. Uma voz linda e doce, suave como seda, entrou pelos seus ouvidos. Como podia uma criança tão pequena ter uma voz tão afinada como aquela?
Ficou a escutar a menina por alguns minutos, em silêncio, sem ser notado. Até que decidiu conversar com ela.
- Oi... – Disse, tímido.
A menina interrompeu sua canção e o fitou, com seus belos e enormes olhos verdes. Ela tinha um cabelo tão preto que refletia a luz do sol em tons de azul.
- Oi... – A menina respondeu, sorrindo.
- Eu me chamo Tom... E você?
- Mary Ann...
- Bonito nome... Sabia que você canta muito bem, Mary Ann?
- Obrigada... – Ela respondeu, desviando o olhar, voltando a fitar o braço do violão.
- E toca muito bem também...
Tom fez um breve silêncio antes de continuar:
- Eu preciso da sua ajuda, amiguinha... Estou perdido, não sei voltar para a sede da fazenda... Será que você poderia me indicar o caminho?
Mary Ann fitou Tom novamente e sorriu.
- Claro – Disse a delicada menina.
Ela se levantou:
- Por aqui...
E Tom a seguiu. A menina deixou o violão na pedra onde estava e rumou em direção à sede.
- Quantos anos você tem?
- Oito...
- E você mora aqui?
- Sim... Meu pai trabalha aqui...
- Ah... E quem é seu pai?
- É o senhor Francis... – Tom estranhou a menina ter dito o primeiro nome do pai. E em nada ela se parecia com aquele velho que o recebeu.
E seguiram até a sede, conversando. Mas Tom não deu muitos detalhes sobre si. Mais perguntou do que contou.
Ao chegarem à sede, Mary Ann parou à porta.
- Pronto... Você chegou. – Disse, sorrindo para seu mais novo amigo.
- Muito obrigado, Mary Ann...
No mesmo momento, escutaram a voz do pai de Mary Ann, gritando, furioso:
- ONDE VOCÊ SE METEU, MENINA! PASSEI A TARDE INTEIRA TE PROCURANDO! VAI TOMAR UMA SURRA!
- Não, papai, não faça isso comigo, por favor.
- Calma, senhor... Ela me ajudou... Eu estava perdido na fazenda e ela me ensinou o caminho de volta.
O homem bronco o fitou de cima a baixo:
- O que você fez com minha menina?
- Ele não fez nada, pai...
- Vai embora daqui, Mary Ann!
- Mas senhor... – Tom temeu pela menina.
- EU FALEI PARA VOCÊ IR PARA CASA, MARY ANN! TÁ SURDA? – O homem gritou com a menina, mas sem tirar os olhos de Tom.
A menina saiu, sem dizer uma palavra, cabisbaixa.
- Se você voltar a conversar com a minha filha, eu te corto o que tu tem no meio das perna, entendeu, viado! – Ele disse a Tom, vermelho de raiva.
E deixou o vocalista sozinho. Seguindo na mesma direção em que a menina havia ido.
Tom deu de ombros e foi para seu quarto.
Nos dias que se seguiram, Tom não viu mais a menina. Passou a participar das atividades propostas pelos psicólogos, além de reuniões com os psiquiatras. A abstinência estava forte, mas ele se continha.
E o tempo passou. Dois meses depois, era chegada a hora de Tom partir. Havia evoluído, e não tinha mais vontade de beber. A droga ainda lhe fazia falta, mas continuaria o tratamento na Filadélfia.
Antes de sua partida, resolveu se despedir da natureza local. Caminhou um pouco pelos campos da fazenda. E acabou se perdendo novamente, pois fora para outro local. Andou bastante, mas não podia encontrar o caminho de volta.
E, mais uma vez, o destino o colocara de frente com Mary Ann. Só que a menina estava sentada na pedra, sozinha, muda, triste. Não cantava, e não tinha a companhia de seu violão.
- Mary Ann? – Tom falou.
A menina olhou para ele, mas desviou o olhar, temerosa.
- O que foi, menina? O que aconteceu?
Mary Ann, tremendo, não respondeu novamente.
Tom se aproximou da criança e a fitou com atenção. E se chocou com o que viu: em sua bochecha esquerda, um corte ainda cicatrizava.
- O que fizeram com você?
- Não interessa! – Ela bradou, assustada.
- Foi seu pai, não foi?
A menina se calou, temerosa de contar a verdade.
- Pode me contar... Estamos só nós dois aqui... Você não sabe meu nome inteiro... Eu não sei o seu... Nunca ninguém vai saber que conversamos, e nem nós saberemos mais nada um do outro!
- Meu pai... Ele me bate...
- E ele sempre te machuca assim?
- Sempre...
- E sua mãe?
- Minha mãe morreu...
Tom se sentiu mal com aquilo. Decidiu tentar mudar de assunto:
- E seu violão?
Notou os olhos da menina se encherem de lágrimas. Ela nada respondeu. Tom insistiu:
- Você não está tocando por quê?
Mary Ann o fitou e respondeu:
- Meu pai quebrou meu violão... Disse que se eu conversasse com você novamente, que me mataria... Eu não quero morrer...
Tom sentiu ódio daquele velho desgraçado. Desejou-lhe a morte por alguns minutos em silêncio.
Mary Ann, temendo ser descoberta por seu pai, levantou-se e correu, gritando:
- Se você se perdeu, siga reto ao leste que você encontrará o caminho.
E sumiu, no meio da floresta que cercava a fazenda.
Tom seguiu o conselho da menina e conseguiu voltar à sede. Sentiu-se aliviado em ver que o velho trabalhava.
Foi quando teve uma ideia. Entrou, correu ao seu quarto e pegou o violão que um roadie havia levado para ele durante a internação. Saiu com o violão de lá e correu em direção ao estábulo. Perguntou a um funcionário, que tinha certeza de que não era parente do velho, onde ficava a casa de Francis, e ele o indicou. Cerca de vinte metros antes, encontrou uma árvore que tinha um buraco no tronco. E colocou o violão lá. Foi até a casa de Francis e bateu palmas. A menina saiu à janela. Quando viu de quem se tratava, se assustou. E Tom, sorrindo, disse:
- Não se assuste. Há um presente pra você naquela árvore – E apontou – De coração... Boa sorte, você ainda vai fazer muito sucesso...
E voltou para a sede da fazenda.
Mary Ann se controlou por alguns minutos, mas não aguentou de curiosidade. Correu até a árvore que Tom havia indicado. E, ao observar o tronco vazado, viu o violão que ele lhe deixara.
E assim manteve o instrumento, escondido, durante anos, na mesma árvore, protegido do tempo, da chuva.
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