The Last Rebel

2 Sweet Home Alabama


Notas iniciais
Vamos ao segundo...

Março de 2002. Começou uma forte chuva. Mary Ann correu para fechar a janela da sala de sua casa. Odiava o barulho dos trovões e o clarão dos raios. E sabia que seu pai deveria chegar dentro de alguns minutos, pois eram oito horas da noite.

O jantar estava pronto na panela. Mary Ann jantara e aguardava Francis para servi-lo. Só depois de lavar a louça iria dormir. Seu pai a tratava como escrava, mas já tinha dezoito anos.

Duas horas se passaram e Francis não aparecia. A chuva cessou, mas havia muito vento. Acabou por adormecer em sua cama, escutando um CD do Lynyrd Skynyrd. Foi quando um forte barulho em sua porta a fez pular da cama, em um grande susto.

- Sua disgramada! Num falei qui eu quiria qui mi isperasse? – Francis falou, em inglês errado.

- Mas pai... O senhor demorou... Eu só peguei no sono...

Francis entrou com violência no quarto da menina, e a pegou pelos cabelos, batendo em seu rosto. Mary Ann não reagiu, apenas implorou por misericórdia:

- Para, pai, por favor! Tá me machucando!

- Você divia ter morrido, não a sua mãe, disgraçada!

E assim ele a surrou mais uma vez. Ninguém na fazenda sabia que ele espancava sua própria filha. Notavam que, periodicamente, ela desaparecia. Mas depois reaparecia, e todos deixavam de perguntar por ela. O único que soubera que Francis batia em Mary Ann era o rapaz que a presenteou com o violão. Mas nem de seu nome ela recordava. Nem ao menos de sua face.

Francis saiu do quarto, esbravejando, e bateu a porta. Mary Ann passou a noite jogada na cama, na mesma posição, lábios sangrando, hematomas no rosto, couro cabeludo doendo, chorando.

Por volta de três e meia da manhã, acabou decidindo tomar uma atitude. Levantou-se, saiu do quarto, foi ao banheiro e lavou seu rosto. Voltou aos seus aposentos e retirou uma mala grande de dentro do armário. Colocou suas roupas, tudo o que coube. Não esqueceu seu inseparável CD do Lynyrd Skynyrd.

E saiu do seu quarto carregando a mala. Deixou a pequena casinha. Mas, quando estava prestes a se dirigir à saída da fazenda, lembrou-se de algo: não poderia partir sem seu violão.

Foi até a árvore e o pegou. Com um pouco de dinheiro que ganhara de uma tia distante, comprou uma capa para o instrumento, e, por sorte, a capa tinha uma alça. Ajeitou o violão nas costas e partiu, sem olhar para trás.

Pegou a estrada a pé, ainda havia a lua no céu. Caminhou uma hora, em direção a Birmingham, mas estava a mais de 20 milhas. Demoraria muito a chegar. Não passara nenhum carro até então.

Andou até se cansar. Eram cinco e meia da manhã e os primeiros raios de sol do início da primavera despontavam no céu. E os primeiros carros começaram a passar. Esticou o braço, erguendo o polegar, pedindo carona. E, finalmente, um veículo parou. Era um rapaz.

- Olá... Você está indo para onde, garota?

- Não tenho destino... – Mary Ann respondeu.

- Bom... Eu estou indo para Birmingham...

- Então... Pode me dar uma carona?

O rapaz abriu a porta do carro e Mary Ann levantou o banco. Colocou a mala no chão da parte de trás do carro, e o violão sobre o banco. Abaixou o assento e sentou. Foi então que o rapaz pôde observar que a moça estava ferida.

- Aconteceu alguma coisa? – Perguntou, preocupado.

- Nada... Nada demais... Só estou mudando hoje o que eu deveria ter mudado há muito tempo atrás.

O jovem que dirigia o carro não entendeu. Respirou fundo e se concentrou na estrada. Mary Ann se calou e ficou a admirar a paisagem rural do Alabama. Amava seu estado, nunca saíra de lá. Mas agora considerava a hipótese de deixar sua terra. Para sempre.

- Meu nome é Charles... Pode me chamar de Charlie... E o seu?

- Mary Ann...

- E você estuda? Já vi que toca violão... Mas...

- Não estudo... Trabalho desde meus 14 anos. Estudei na fazenda onde eu morava... Tinha uma professora... Mas não o bastante para ir para a universidade.

- Ah tá... Mas nunca estudou música?

- Não...

- E esse violão então é enfeite?

- Não... Na verdade eu aprendi a tocar sozinha...

- Sozinha?

- É... Sozinha... Eu tirava as músicas de ouvido...

Charlie ficou surpreso com o que Mary Ann contava.

- Interessante... Eu nunca consegui aprender a tocar nada, nem gaita...

Mary Ann sorriu e respondeu:

- Gaita é fácil...

- Mas o que mais me intriga em você são esses ferimentos... O que aconteceu? Caiu do cavalo? Alguma coisa parecida?

- É... Eu caí do cavalo... – A jovem já estava ficando impaciente com as perguntas do moço.

- Deve ter sido um belo tombo...

- Okay, Charlie, agradeço a carona, mas... Pode me deixar aqui, sim?

Charlie se surpreendeu:

- Não... Mas você não ia a Birmingham?

- Sim... Mas se você continuar perguntando essas coisas... Eu prefiro ir a pé... Entende?

- Okay... Não está mais aqui quem falou...

E seguiram, calados, até chegar a Birmingham.

Quando entraram na cidade, Mary Ann ficou boquiaberta. Nunca havia saído da fazenda ou de seus arredores.

- Que lugar mais lindo!

- Nunca tinha vindo aqui? – Charlie perguntou.

- Não... Só vi pela televisão...

- Cuidado... O povo da cidade não é como o povo do interior... Já sabe onde vai ficar?

Mary Ann se deu conta de que não sabia o que fazer. Onde dormir, onde comer, do que viver. Tinha quatrocentos dólares, uma boa quantia em dinheiro, mas precisava trabalhar pois logo esse dinheiro acabaria.

- Eu preciso de uma hospedaria...

Charlie riu:

- Menina! Hospedaria é coisa de interior... Aqui você teria que ficar em um hotel... Vamos ver... Vou te ajudar a encontrar um...

Circularam pelo centro da cidade, até encontrar um hotel razoavelmente bom e barato. Charlie a ajudou em tudo.

- Bom, garota... Agora é com você... Tenho que fazer o que eu devia já estar fazendo, já que eu vim a Birmingham pra isso...

- Você não é daqui?

- Não... Sou de Brandon, Mississipi... Estou viajando há dias...

Mary Ann não fazia ideia da distância. Preferiu ficar quieta a passar vergonha. Retirou seus pertences do carro de Charlie e agradeceu:

- Charlie, muito obrigada... Não tenho como te agradecer a ajuda.

- Que isso... O que me preocupa é que é bem claro que você não sabe nada da vida e caiu na maior cidade do Alabama. Por favor, não confie nas pessoas! Há muita gente ruim por aí...

- Preciso arranjar um trabalho...

- O que você fazia na fazenda?

- Arava...

Charlie se assustou. Sem estudos, sem uma profissão. Mary Ann estava condenada.

- Menina, mas por que você fez isso? Saiu da segurança da fazenda onde vivia e veio se aventurar aqui?

- Porque meu lar não era seguro... E, por favor... Prefiro não entrar em detalhes.

Charlie entendeu absolutamente tudo o que passou a manhã inteira tentando entender. Alguém maltratava aquela garota, e ela fugira de casa. Sentiu uma profunda tristeza, mas não poderia ajudá-la.

- Bom... Tenho que partir...

- Te agradeço mais uma vez, Charlie... Obrigada, de coração.

Charlie retirou um cartão do bolso e deu a Mary Ann.

- Aqui tem meu telefone. Estarei aqui nos próximos quatro dias. Se precisar de algo, me liga!

Mary Ann guardou o cartão de Charlie e agradeceu mais uma vez. Pegou sua mala que estava no chão, seu violão já estava em suas costas, e subiu as escadas da frente do pequeno hotel. Acomodou suas coisas no quarto e desceu, a fim de procurar trabalho. Quando já estava saindo, o rapaz da recepção a chamou:

- Mocinha!

A garota virou e olhou para ele, com medo.

- Você se esqueceu de deixar a chave aqui...

- Ah... Tá... Mas... Se eu deixar a chave... Como vou entrar no apartamento?

- Sim... Mas é regra do hotel: toda vez que você sair daqui, tem que deixar a chave na portaria.

Mary Ann não entendeu nada, apenas obedeceu. Tudo aquilo era tão confuso!

Saiu do hotel e ganhou a rua. Como havia levado um papel e uma caneta, tomou nota do endereço, caso se perdesse conseguiria ajuda para voltar.

Seguiu, pelas ruas, tentando encontrar lugares para trabalhar. Entrou numa lanchonete na qual havia uma pequena placa na porta, escrita “precisa-se de operador de caixa”.

- Olá... Vocês estão precisando de caixa?

Um senhor bigodudo olhou para a menina, observando-a da cabeça aos pés.

- Sim... Estamos... Trouxe seu currículo?

Mary Ann engoliu em seco:

- Currículo?

- É... Seu currículo!

Desviou o olhar, assustada. Até que decidiu perguntar o que era currículo:

- E o que é isso?

O bigodudo deu uma sonora gargalhada. Os outros funcionários que escutaram a conversa também riram. Clientes que estavam tomando o café da manhã também riam.

- Você vem procurar emprego e não sabe o que é um currículo?

Mary Ann abaixou a cabeça, desapontada com sua própria ignorância.

- Mocinha, currículo é um papel com seus dados pessoais e uma descrição dos lugares onde você trabalhou. – O bigodudo explicou.

- Ah tá... Não tenho... Eu não tenho isso aí... Só trabalhei na fazenda onde meu pai mora...

- E o que você fazia lá?

- Eu arava a terra...

Mais risadas. E Mary Ann se sentia cada vez mais humilhada.

- Menina, desculpe, mas você sabe o que faz um operador de caixa?

Ela pensou um pouco e descobriu que tampouco sabia que trabalho era esse. Meneou a cabeça negativamente. E mais risadas ecoaram pela lanchonete.

- Então infelizmente a vaga não poderá ser sua... No máximo, faxineira...

- Eu aceito! – Mary Ann sorriu.

- Mas não estamos precisando de faxineira... – O homem apontou para a esquerda, e Mary Ann viu uma senhora limpando o chão com um esfregão.

- Bom... – A jovem disse – Então eu agradeço a atenção... A oportunidade... E peço desculpas pelo... Incômodo...

A menina saiu do local, com vontade de chorar. O homem do grande bigode ficou a observá-la, rindo, porém com muita pena. E sussurrou:

- Essa menina vai se estrepar se cair na mão de algum filho da puta... Muito inocente.

Naquele dia, Mary Ann procurou emprego em muitos lugares. Mas ninguém quis dar uma oportunidade a ela. Voltou para o hotel, com dificuldade, às cinco e meia da tarde. Tomou um banho e se deitou. Dormiu pesado.

No dia seguinte, voltou a procurar emprego. E foi assim nos dias que se seguiram. Até que, no quarto dia, assustada, decidiu procurar ajuda para confeccionar um currículo, pois estava muito difícil conseguir um trabalho. Comprou fichas telefônicas e discou de um telefone público. Aguardou alguns minutos enquanto chamava, e escutou a voz de seu salvador:

- Charlie?

- Quem fala?

- Mary Ann... Você me deu uma carona...

- Ah, sim! Como você está?

- Bem... Mas com dificuldades de arranjar um emprego...

- É... Não tá fácil pra ninguém...

- Mas eles me pedem um papel, onde eu tenho que dizer onde eu já trabalhei!

- Sim... Um currículo!

- Isso... Eu não tenho esse papel... Onde consigo isso?

Charlie riu do outro lado da linha.

- Mary... Você precisa fazer um...

- Mas como faz?

- Você tá naquele hotel, né? Vou passar aí e te ajudar...

Mary Ann agradeceu e desligou. Vinte minutos depois Charlie havia chegado.

- Olá, garota...

- Olá...

Conversaram um pouco, e Charlie a levou a uma lan house. A moça ficou admirada com os computadores:

- Nossa, o que é isso? Um monte de televisão?

- Ahahahahahahahahah! Você nunca viu um computador?

- Ah, isso é um computador? Eu vi na televisão...

- Menina, em que mundo você vivia?

Mary Ann suspirou antes de responder:

- No pior mundo que pode existir...

Charlie não respondeu. Sentou-se em frente a um computador e foi perguntando os dados de Mary Ann. E, em poucos minutos, conseguiu confeccionar seu currículo. Pediu impressão e foi com ela ao balcão a tempo da moça ver o papel sair da impressora. Achou aquilo incrível.

- Pronto... Agora vamos fazer algumas cópias, para você poder distribuir...

Pediu fotocópias do currículo para o menino que atendia no balcão. No final, houve uma briga. Mary Ann não queria deixar Charlie pagar, mas este insistia. Decidiram dividir o valor.

Mais uma vez Mary Ann agradeceu e partiu para procurar um emprego, agora feliz, pois tinha um currículo. Charlie meneou a cabeça negativamente, sorrindo da inocência da jovem.

Ao dobrar a esquina, Mary Ann avistou o primeiro estabelecimento onde havia procurado emprego. Entrou, exultante, e encontrou o mesmo senhor bigodudo:

- Pronto... Agora eu tenho um currículo... O senhor me dá o emprego?

O homem pegou o papel e leu. Sorriu.

- Desculpe, menina... Mas não te dei o emprego naquele dia porque você não tem experiência em operar caixa... E realmente não preciso de faxineira... Acredito que, tendo o currículo, você conseguirá trabalho mais facilmente...

Novamente Mary Ann se desapontou. Quando já estava saindo, o homem do grande bigode a chamou:

- Garota, espera... – E saiu detrás do balcão, indo em direção a ela – Na quinta avenida norte tem um bar que está precisando de funcionário de limpeza... Leve seu currículo lá... O nome do bar é Birmingham’s Groove... Eu vou avisar que você vai lá...

- Obrigada, senhor... Muito obrigada...

- Eles abrem às cinco da tarde... Pode ir e procurar pelo Chester... Eu vou recomendá-la...

E Mary Ann deixou a lanchonete, não triste por ter ouvido o não, mas feliz por saber que poderia confiar em algumas pessoas.