The Last Rebel
27 It’s a Killer
Notas iniciais
O telefone tocou e foi atendido.
- Fale, espero que você tenha boas notícias...
- Acho que deu certo, me ligaram agora há pouco dizendo que o serviço foi feito. O ônibus caiu no pântano e afundou...
- Esplêndido. Aguardo você aqui em três dias pra receber seu pagamento.
- Não dá pra ser antes não? Meus parceiros estão querendo receber...
- Não, não dá! Preciso ter certeza de que tudo aconteceu conforme planejado.
- OK, então em três dias estarei aí...
Charlie desligou o aparelho e sorriu, triunfante.
* * *
- Traumatismo crânio-encefálico. Estamos estabilizando o quadro e assim que tivermos uma melhora clínica realizaremos uma tomografia para saber se haverá alguma sequela...
Essas foram as palavras do médico em relação a Mary Ann. Tom colocou as duas mãos na cabeça, apavorado.
- Doutor, e quando isso vai acontecer?
- Acredito que dentro de 12 a 24 horas. A pressão dela está mantida, os batimentos estão normais. Só a sedamos um pouco para manter o coma induzido e preservar o cérebro dela. Começaremos a retirar os sedativos em seis horas, e aí ela deve acordar.
- E há realmente riscos de sequelas?
- Não posso avaliar, Sr. Keifer.... Sem ela estar acordada fica difícil. eaHeaBom, com licença...
O médico interrompeu o vocalista que ficou sozinho, atônito.
- Ei, cuidado com isso! – Tom escutou a voz de Eric vindo do corredor.
Virou-se e viu Jullie empurrando Eric em uma cadeira de rodas. O baixista tinha uma perna engessada.
Eles se aproximaram de mim.
- E aí? Como ela está? – Eric me perguntou.
- Em coma induzido... Eles estão tentando preservar o cérebro dela... Mas talvez ela fique com alguma sequela... Precisam fazer uma tomo pra saber...
- É... Ela foi a que mais se ferrou...
- E sua perna, o que deu?
Eric fez uma careta, olhando para o gesso:
- Foi uma luxação no tornozelo. Um mês de molho... Alguma notícia do motorista?
- Até agora ninguém me falou nada... E não o vi dar entrada aqui no hospital...
- Espero que o encontrem... Com vida...
Eric foi para o seu quarto, com Jullie empurrando sua cadeira. E Tom se sentou na sala de espera para aguardar notícias da cantora.
Horas se passaram. Tom acabou por adormecer sentado em uma cadeira. Acordou com uma movimentação de enfermeiros em frente a ele. Assustado, tentou lembrar-se do que havia ocorrido, e se deu conta de que algumas horas já haviam passado ao observar o relógio.
Procurou alguém que pudesse lhe dar alguma informação. Conversou com duas enfermeiras e ficou aguardando notícias.
Meia hora depois, o médico surgiu na porta de uma sala e o chamou. Tom prontamente se levantou e foi até ele.
- Tenho boas notícias. Ela recuperou a consciência e já foi levada para realizar o exame. Em algumas horas saberemos se haverá sequelas, mas aparentemente está tudo bem...
- Ah, que bom, doutor... Vou aguardar então...
- Com licença.
E o médico se retirou. Tom respirou fundo e voltou para a sala de espera. Mas, antes mesmo que pudesse se sentar, viu Fred e Jeff se aproximando. Os dois indagaram em coro:
- E a Mary Ann? Como está?
- Melhor... Eles a deixaram em coma induzido, mas retiraram os sedativos, e ela já acordou. Tá fazendo uma tomografia... O médico não acredita em sequelas.
- Ah, que bom... – Jeff sorriu.
- É... Mas agora há pouco encontraram o corpo do motorista... – Fred adicionou, nervoso – Morreu...
Tom fitou o nada, chateado. Passou a mão na testa e fitou Fred novamente:
- Mais alguém se feriu gravemente?
- Tirando a Mary Ann e o Eric, não...
- Bom... Já avisaram a família do cara? – Tom indagou.
- Parece que sim... Mas não quero saber... Não quero ver o sofrimento de ninguém!
- Alguma testemunha?
Jeff coçou a cabeça, e Fred respondeu:
- O motorista da equipe dela viu... Falou que passou um caminhão gigantesco ao lado da gente, e na descida ele deu uma fechada no nosso ônibus.
- Alguém anotou a placa?
- Não deu tempo... O caminhão voou pela estrada! – Jeff adicionou.
- Desgraçado! – Tom praguejou.
- Bom... A gente vai para o hotel... Cancelaram os próximos shows... Vamos aguardar agora pra ver o que os médicos vão falar da Mary Ann... – Fred comentou – Qualquer coisa liga pra gente...
- Valeu...
E os dois saíram. Tom continuou aguardando por algumas horas. Saiu, foi a uma lanchonete, comeu, voltou, e nenhuma notícia.
Já no fim da tarde, o médico o procurou novamente. Não era o mesmo do período da manhã, se apresentou como Dr. McGillian, neurocirurgião.
- As notícias são razoavelmente boas. Há uma área do cérebro dela que foi afetada, mas o edema está se resolvendo, provavelmente, se houver alguma sequela, será hiposmia...
- O que é isso, doutor?
- Hiposmia é a redução da sensibilidade aos aromas. Ela poderá ter uma redução ou perda do olfato... Mas é uma possibilidade remota...
- Não, doutor, por favor, não me diga isso!
- É uma possibilidade. Entramos com medicamentos para diminuir a pressão intracraniana e o edema reduziu. Vamos aguardar as próximas horas. Ela será tranferida para o semi-intensivo e aí o senhor poderá visitá-la.
Tom respirou fundo. Não queria que Mary Ann tivesse sequelas. Porém, de qualquer maneira, seria melhor que ela perdesse o olfato que a visão, a audição e principalmente a fala. Aguardou mais um tempo e foi chamado para visitá-la.
Ao entrar, viu a jovem conectada a diversos aparelhos, cheia de fios. Dormia serenamente. Havia cortes na testa, todos muito pequenos, os cabelos estavam contidos por uma touca. Ele se aproximou do leito e pegou sua mão.
- Mary Ann... – Sussurou – Eu tô aqui... Só agora me deixaram entrar...
A jovem abriu lentamente os olhos e piscou. Depois fitou o vocalista abriu um pequeno sorriso. Tom se animou com isso.
- Os médicos estão animados... Disseram que você está muito bem... – Ele complementou.
- Não sei se estou... Tenho uma dor de cabeça chata, não melhora... Quando fica mais forte, eu falo, eles vêm, aplicam um negócio no soro, aí melhora, mas não passa...
- Vai melhorar... Você vai ver... Pena que eu não posso ficar aqui direto...
- Eu sei... Eu escutei eles falando que eu vou perder o olfato... É verdade?
- Não... Eles ainda não sabem o que vai acontecer... Mas tudo indica que você não vai perder...
- Me deixa cheirar você? – Ela pediu ao vocalista.
- Melhor não... – Tom respondeu, temeroso.
- Por favor...
- É porque eu ainda não tomei banho – Ele sorriu.
- Mesmo assim... Preciso tirar a dúvida...
E Tom se aproximou, dando seu pescoço para que ela o cheirasse.
- E aí? – Ele indagou, após se afastar dela.
- Nada... Não sinto nada... – Ela lamentou – Mas vamos aguardar...
Mary Ann parecia otimista. No entanto, Tom se continha. Temia que algo pudesse piorar para a moça.
Após alguns minutos de visita, Tom foi obrigado a se despedir dela.
- Amanhã eu volto... Vou para o hotel, tomar um banho e descansar um pouco...
- Descansa... Toma um banho e vem bem perfumado amanhã...
- Preciso comprar roupas novas... Perdemos toda a bagagem e o equipamento. Acho que vou ter que comprar algumas coisas para você...
- Confio no seu gosto... – Ela sorriu.
Tom aproximou seu rosto do dela e beijou-lhe a face. Depois, alcançou seus lábios e a beijou novamente.
- Até amanhã... Boa noite... – Ele se despediu.
Saiu da unidade semi-intensiva e foi para o hotel, de táxi. Subiu para seu quarto, entrou, tomou um banho e deitou. Mas demorou a pegar no sono. Lembrou-se da conversa que tivera com Mary Ann em Jacksonville. Pressentimento. Ela sentiu que algo estava para acontecer.
- E Robert escapou...
De repente, um estalo: Robert havia escapado. Doença da avó. Como assim? Ele nunca comentara sobre avós. Aquilo era muito estranho.
* * *
- Entra... – Charlie convidou.
Robert entrou e a porta se fechou. A mansão era gigante, muito maior do que imaginava que fosse.
- Quer beber alguma coisa? – O anfitrião ofereceu.
- Não... Só quero meu dinheiro. Os caras estão me cobrando...
- Bom... Como eu disse... Eu pagaria o dobro se a coisa fosse bem feita. Só que os dois sobreviveram...
Robert arregalou os olhos:
- Mas o serviço foi feito.
- Mal feito. Bem mal feito, diga-se de passagem.
- Bom... Então pague o valor combinado.
- Muita calma nessa hora, Bob... Tom não sofreu nenhum arranhão. Mary Ann está no hospital, mas está viva. Qual era nossa proposta inicial mesmo?
Robert ficou calado, rangendo os dentes. Charlie continuou:
- Vou refrescar sua memória: a proposta era que se você provocasse um belo acidente...
- EU PROVOQUEI UM BELO ACIDENTE! CONTRATEI DOIS CARAS PRA FAZEREM ISSO! – Robert o interrompeu.
- Calma! Não se exalte! Como eu ia dizendo, se você provocasse um belo acidente um deles morresse, você receberia um valor... Mas se o serviço fosse bem executado e os dois fossem pro inferno, você ganharia o dobro. Como nenhum dos dois morreu... Você não vai receber nada. Desculpe, mas trato é trato!
- SEU DESGRAÇADO! – Robert gritou – EU VOU PROCURAR O TOM E CONTAR TUDO A ELE!
- Não se esqueça de que você é tão assassino como eu. Afinal de contas, o pobre coitado do motorista morreu...
Robert quase transbordou de ódio. Cerrou os punhos, na intenção de partir para cima do empresário, mas conteve-se. Preferiria contar à polícia o que havia acontecido. Era sua melhor vingança.
Virou-se, abriu a porta e partiu. No mesmo instante, Charlie pegou o celular em seu bolso e discou:
- Ele acabou de sair daqui.
* * *
Robert ganhou a rua, irritado. Chutava tudo o que encontrava pela frente. Esbravejava sozinho, xingando Charlie e Neville. Fora enganado. E agora estava correndo risco: se contasse para a polícia, seria preso como cúmplice. Se não tomasse nenhuma atitude, poderia ser morto pelos dois que havia contratado para realizar o crime.
Como já era tarde da noite, o guitarrista andava sozinho. Não havia uma alma sequer nas ruas. Mesmo assim, Robert tinha a sensação de que estava sendo seguido. Olhava para trás a todo instante. Até que notou uma sobra, quando passou por uma área um pouco mais iluminada. A sombra realmente vinha de trás de si. Sem olhar para trás, correu. Correu o máximo que pôde. E ouviu passos que o acompanhavam, no mesmo ritmo. O suor escorria pela testa. Virou a esquina.
- Fim da linha! – Uma voz ecoou atrás de Robert.
Ele estava encurralado. Era um beco. Fitou a parede em frente e, ofegante, temeu virar.
- Agora chega! Cansei dessa brincadeira de gato e rato!
Robert se virou, lentamente, e viu uma pessoa com a arma apontada em sua direção.
- Acabou o joguinho, pode dizer adeus a sua vida inútil...
Um tiro ecoou na noite, seguido de um gemido. Robert caiu de joelhos, com as mãos no peito, molhadas pelo seu sangue. Os olhos sem brilho, pupilas dilatadas, fitavam seu algoz. Mais um tiro ecoou, e Robert não viu mais nada.
O atirador guardou a arma. Retirou um maço de cigarros e acendeu um com um isqueiro. Depois de uma tragada profunda, retirou um celular do bolso onde guardou o maço e discou. Aguardou que atendessem a ligação.
- Podem vir buscar.
Desligou e saiu.
* * *
- Arizona, Novo México... Onde você quiser! Qualquer lugar longe daqui! Tô pagando por isso!
Charlie bateu o telefone. Robert havia sido eliminado. Mas seu corpo não poderia ficar em evidência. Sumir com ele era o mais adequado.
Andava de um lado para o outro, nervoso. Nada saíra como planejara. Se seus alvos tivessem sido abatidos, não precisaria ter ordenado a morte de Robert. Agora, tinha um problema para resolver.
Respirou fundo e discou para Neville.
- Mandei apagar o cara!
- Sempre metendo os pés pelas mãos, não é, Burns? Você ficou louco?
- Vão levar o cadáver pra algum lugar longe daqui... Vamos ver no que vai dar...
E desligou. Mas o seu nervoso não o deixou dormir.
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