The Last Rebel

25 End of the Road


Notas iniciais
Chegou a hora da verdade... dia da audiência!

Mary Ann acordou pela manhã. Levantou-se, enrolando-se em um lençol, e foi se sentar em uma poltrona próxima à janela. Ficou a observar a claridade que entrava, pensando no quanto seria complicado ganhar o processo. Respirou fundo e chorou, em silêncio, ainda assustada com tudo o que estava acontecendo. Era o dia da partida para Los Angeles, pegariam o avião no aeroporto de Columbus, onde fizeram uma pausa na turnê, para, no dia seguinte, participar da audiência do processo duplo. Não podia controlar sua tensão. Não podia sequer respirar sem sentir uma forte e insistente dor no tórax. Fitou a cama e Tom ainda dormia, aparentemente tranquilo, roncando um pouco. Amava aquele homem, mas até que ponto esse amor se manteria caso o processo tivesse um final ruim?

Chester iria depor, juntamente com Melissa. Mas havia dúvida se o depoimento de Tom teria algum valor após a descoberta do namoro secreto dele com Mary Ann. O advogado se preocupara muito, chegando a dar uma bronca nos dois. Abriu-se uma investigação para tentar descobrir quem havia filmado o conteúdo divulgado na internet.

Tom se moveu na cama e, com seu braço, buscou o corpo de Mary Ann. Apenas encontrou um vazio que o fez acordar. Abriu seus olhos e procurou pela jovem. Viu que ela estava sentada na poltrona. Esfregou as pálpebras e espreguiçou-se, bocejando. O barulho chamou a atenção da jovem, que voltou-se para ele. Estava nua, enrolada apenas no lençol. Tom pegou seu celular e checou a hora.

- O que você tá fazendo aí? Ainda são seis horas... Tá cedo... Nosso voo é só à tarde...

- Eu sei... Mas perdi o sono...

- Você tá preocupada, não é?

- Tô... Não consigo relaxar.

Tom se levantou, apenas vestindo uma cueca, e se dirigiu à poltrona, ajoelhando-se em frente da jovem.

- Mary Ann... Você tem que ficar calma... O que tiver que ser vai ser...

- Mas e se eu perder o processo? Tudo o que ganho vai ser pra indenizar aquele filho duma égua! Vou trabalhar pra sustentar aquele...

- Calma... Você não vai morrer de fome... Eu tô aqui... Eu vou ficar com você, vou ficar ao seu lado... Te ajudo financeiramente...

- Não quero que você...

- Pare com isso! – Tom zangou-se – Não diga essas coisas! Somos um só, não somos? Somos um casal, eu quero ficar com você pra sempre... Por que não poderia te ajudar financeiramente?

A jovem suspirou e abaixou o olhar, desanimada.

- Eu sei... Mas perder esse processo é muito mais do que perder dinheiro. É a sensação de injustiça...

Tom bufou e a abraçou. Ela se aninhou em seus braços, enquanto ele acariciava seus cabelos.

- Eu entendo você... Mas não quero te ver triste assim!

O telefone tocou. Tom interrompeu o abraço foi atender o celular.

- Oi... Sim... O voo é às três da tarde. A audiência é amanhã... Vamos sim... Obrigado...

Desligou.

- Quem era? – Mary Ann perguntou, levantando-se da poltrona e indo para a cama, arrastando o lençol no chão.

- Minha irmã... Ela ligou para desejar-nos sorte...

Mary Ann se deitou. Tom se aconchegou ao lado da jovem e ficou a acariciá-la. Adormeceram.

Levantaram-se às 10 horas e foram tomar café. Já não escondiam o relacionamento. Evitavam carícias em público, porém estava sempre juntos. Nos shows, a recepção aos dois foi boa. Mary Ann era sempre muito aplaudida. O fato de os dois estarem se relacionando não fez diferença. No entanto, a imprensa sensacionalista continuava massacrando o casal.

Horas depois, Tom e Mary Ann foram ao aeroporto para voar em direção a Los Angeles. Já no avião, mantiveram mãos dadas, sem outras carícias. Novamente o voo foi tenso para Mary Ann, não apenas pelo medo, mas também pela pressão sofrida por seus próprios pensamentos a respeito do processo.

Após o voo, pegaram suas bagagens na esteira do aeroporto de Los Angeles, tomaram um táxi até o hotel, onde fizeram o check-in e se acomodaram rapidamente no quarto. O celular da jovem tocou:

- Oi, Chester!

- Eu já cheguei! Estou no Hilton!

- Nós também...

- Encontro vocês no lobby então... O advogado ligou e disse que tá vindo...

Mary Ann desligou e contou a Tom. Esperaram um pouco até que o celular dela tocou. Era Chester avisando que o advogado havia chegado. Eles desceram.

- Oi, minha menina linda! – Chester abraçou Mary Ann, que retribuiu o carinho com lágrimas nos olhos.

A jovem também cumprimentou Melissa. Tom repetiu os gestos dela. E todos cumprimentaram o advogado.

Dirigiram-se a uma mesa no coffee shop do hotel e ficaram a conversar.

- Bom, não temos muita estratégia... Chester e Melissa testemunharão primeiro, depois se o juiz não enroscar, testemunhará Tom...

- E o senhor acha que poderemos ter problemas?

O advogado entortou sua boca e, após uma breve pausa, esclareceu:

- Sim... Eles poderão alegar que o senhor está prestando falso testemunho pelo fato de ter interesse na fortuna de Mary Ann...

- Ah, claro... Eu quase não tenho dinheiro...

- Só que se o juiz comprar essa história, o senhor poderá tomar um processo do Estado, poderá ser preso inclusive.

Mary Ann fitou Tom apavorada. O vocalista engoliu seco e emendou:

- Bom... Se tiver que ser processado... Não tenho medo disso... Não tenho nada a temer, quem não deve...

- Dr. Simpson – Mary Ann tomou a palavra, interrompendo o vocalista – Eu não quero que o Tom deponha, prefiro que ele retire o testemunho...

- Infelizmente, Mary Ann, não há como retirar, só há uma maneira de ele não depor: o juiz dispensá-lo. Há essa possibilidade, mas... Também pode ser que depoimento dele seja descartado. O problema é que Neville é um rato. Já deve estar com tudo preparado para tentar reverter. E como os dois processos correm em paralelo, ele poderá tentar enfiar pela goela do juiz abaixo a suspeita de que Tom está tentando tirar algum proveito nos dois processos...

- Ou seja, de qualquer maneira eu estou ferrado... – Tom lamentou.

- Sim, não diria ferrado, mas... Com alguns problemas...

Mary Ann colocou as duas mãos na cabeça.

- Mas eu tenho uma boa notícia... – Dr. Simpson adiu.

Mary Ann, Chester, Tom e Melissa olharam para ele, curiosos.

- Há uma pessoa que apareceu aqui, e está disposta a ajudar no processo... Uma nova testemunha...

- E... Quem seria? – Tom indagou.

O advogado sorriu e manteve o segredo:

- Não posso contar... Prefiro manter segredo até amanhã... Mas poderá ser algo bombástico! – E voltou-se para Mary Ann – Só preciso que você seja sincera, conte tudo o que o juiz perguntar quando essa testemunha for depor.

- Tá... Eu serei...

- Doutor, isso não é certo! Ela tem que saber o que vai acontecer! – Chester interrompeu.

- Não posso revelar. Não sabemos quem são as pessoas que estão por aqui. Mas confiem em mim...

Após a reunião, o advogado se retirou, e os demais foram para o restaurante, a fim de jantar. Após comerem, se recolheram aos seus quartos.

Mary Ann foi para o chuveiro, e Tom permaneceu no quarto. Quando ela terminou, foi a vez dele tomar banho. Por fim, deitaram-se. Mas a jovem não conseguiu pegar no sono a noite inteira.

Por volta de três da manhã, Tom acordou e notou que Mary Ann não havia dormido.

- Mary Ann... O que foi?

- Não consigo dormir... Tô muito ansiosa...

- Tudo vai ficar bem, não precisa ficar desse jeito...

- Mas, Tom... Você pode ser processado! Eu não quero isso...

- Olha, se nem eu que estou correndo este risco estou estressado, por que você está? Bobeira, não fica preocupada!

Ela deitou sua cabeça sobre o tórax de Tom e tentou adormecer. Rapidamente ele pegou no sono, mas ela permaneceu acordada até a manhã.

A audiência era às 10 horas da manhã. Meia hora antes todos já se encontravam no fórum. Aguardaram serem chamados. As testemunhas ficaram numa área e não podiam conversar umas com as outras.

Mary Ann entrou e sentou-se na cadeira destinada a ela. Ficaria de frente com Charlie. Ele estava mais gordo e seu cabelo estava maior. Não fitava Mary Ann. O juiz leu o processo e depois tomou um depoimento de Charlie, depois de Mary Ann. As testemunhas começaram a ser chamadas. Duas pessoas que Mary Ann nunca havia visto depuseram a favor de Charlie. Do lado de Mary Ann, primeiro Melissa, depois Chester. Até que chegou a vez de Tom.

Ele entrou, quando chamado, e Neville deu um breve sorriso para Charlie. Mary Ann viu a reação do advogado de seu ex-empresário e marido.

- Bom, senhor Carl Thomas Keifer, terei que fazer algumas perguntas...

E o juiz começou a interrogá-lo. Quando terminou, Neville pediu a palavra:

- Meritíssimo, eu gostaria de fazer uma colocação.

E lhe foi permitido:

- O senhor Keifer, testemunha da senhora Mary Ann, é uma testemunha ilegítima. Ele tem interesse no caso, visto que o que a imprensa revelou recentemente é que há um romance entre os dois.

Mary Ann retesou todos os músculos do seu corpo. Tom percebeu que ela se preocupou. O juiz tomou a palavra:

- Senhor Keifer, isso que doutor Neville está falando é verdade.

- Meritíssimo – Dr. Simpson tentou argumentar – Eu protesto.

- Protesto negado! – O juiz falou – Por favor, senhor Keifer, responda à minha pergunta.

- Pois bem, Meritíssimo... – Tom começou – Não vou negar que há sim um romance entre eu e Mary Ann Collins. Mas isso ocorreu após a primeira audiência. Foi ao acaso, nos apaixonamos...

- É como eu havia imaginado... Esse homem tem interesse na fortuna dela...

- Por gentileza, doutor Neville, não interrompa o senhor Keifer! – O juiz ordenou – Prossiga, por favor.

- Bem... Como eu ia dizendo, enquanto ela realizava os trabalhos de gravação do seu segundo álbum, ela ficou hospedada na minha casa. Com a convivência, acabamos nos envolvendo. No entanto, o que o doutor Neville alega é uma grande e redonda mentira...

Neville fitou Charlie, rindo. O juiz indagou:

- Sobre interesse na fortuna?

- É... Acho que uma pessoa que tem uma fortuna avaliada em cem milhões de dólares não precisaria de mais dinheiro. Ou seja, eu me comprometo a abrir todas as minhas contas para a justiça, se assim for necessário...

Doutro Simpson arregalou os olhos e sorriu. Mary Ann tremia.

- Além disso, nós procuramos manter nosso romance em segredo justamente para não levantar essa suspeita. Isso talvez foi um grande erro, – Tom continuou – devíamos ter sido abertos desde o começo. A verdade é que fomos filmados através da janela de minha casa por alguém diretamente interessado nisso, seja para fofocas, seja para tirar algum proveito maior, e esse filme caiu nas redes sociais pornográficas da internet, produzindo um grande desconforto para nós...

- De fato. Acompanhei o caso e vi que a polícia está investigando quem teria filmado. – O juiz adicionou.

- Pois bem, peço desculpas a todos aqui por ter falado tanto, mas acho que perante a justiça, era preciso haver alguma explicação... – Tom concluiu.

- Bom, o senhor poderia ser detido por não ter revelado que havia envolvimento sentimental entre o senhor e a senhora Mary Ann. Há dois processos, um movido contra ela, e outro movido por ela, e o senhor é testemunha dos dois. No entanto, não posso ignorar que há a possibilidade de que o envolvimento de vocês dois tenha ocorrido realmente após a primeira audiência. Portanto, para evitar que esta sessão seja inverossímil, o seu testemunho será desconsiderado. O senhor está dispensado.

Mary Ann soltou o ar. Simpson sorriu. Neville fechou a cara e Charlie abaixou o olhar, rindo ironicamente.

- Senhor Simpson – O juiz pediu – Por gentileza, o senhor adicionou uma testemunha?

- Sim...

- Pois então pode entrar o senhor Larry Jones.

A jovem arregalou os olhos. Não podia acreditar. Larry foi o guitarrista que tocou com Mary Ann durante sua primeira turnê, e que testemunhou a tentativa de violência de Charlie para com a cantora.

Após o depoimento do guitarrista, este foi dispensado. O juiz fez novas perguntas a Mary Ann:

- Senhora Collins, as tentativas de agressão física e sexual que o senhor Jones citou são verdadeiras?

Após um suspiro, Mary Ann respondeu:

- Sim, Meritíssimo... Por diversas vezes fui vítima de violência e só escapei naquele dia graças a Larry...

- E, por que a senhora nunca o acusou disso?

- Porque eu não tinha como acusá-lo sem provas... Nunca imaginei que Larry poderia ser uma testemunha... E também porque tive...

Uma longa pausa se fez. O juiz abaixou o rosto, continuando a fitá-la com o olhar baixo. E ela, após uma inspiração, concluiu:

- Tive vergonha.

E o juiz pediu um dia para analisar os processos.

Todos deixaram o fórum e partiram diretamente para o hotel. O único otimista era Simpson, que se declarou surpreso com a atitude do vocalista:

- Parabéns, Tom... Você se saiu muito bem!

- É... Eu fui sincero... Eu disse que quem não deve não teme... Agora vamos aguardar pra ver o que ele vai decidir.

- E eu tenho certeza que será favorável... – O advogado sorriu.

O jantar transcorreu sem problemas, exceto pelo fato de que Mary Ann não conseguiu se alimentar. Depois eles se recolheram ao seus quartos. Após seu banho, Mary Ann ganhou uma massagem de Tom. Ele não era chegado a esse tipo de carícia, mas Mary Ann amolecia seu coração de uma forma que ele sequer poderia imaginar que um dia ocorreria.

E deitaram-se, exaustos, para acordar no dia seguinte e descobrirem qual era a decisão da justiça.

* * *

Chegaram bem cedo ao fórum. Mary Ann estava tão tensa que suas bochechas já tinham marcas de expressão. Tom, Chester e Melissa não puderam acompanhar Mary Ann e Simpson. O juiz entrou e todos se levantaram, em respeito ao seu cargo.

- Bom dia, senhores, informo-lhes que já tenho uma decisão dos dois processos.

E todos se sentaram.

- Primeiramente, o recurso do processo movido por Charles Burns contra Mary Ann Collins. Perante a prova apresentada pela acusação, baseado no contrato assinado, condeno Mary Ann Collins a indenizar Charles Burns em seiscentos mil dólares, sem recurso.

A jovem fitou Simpson e teve que segurar as lágrimas. Neville e Burns se abraçaram, tendo o primeiro dado três tapinhas nas costas do segundo.

- Sobre o processo movido contra Charles Burns por Mary Ann Collins, ficou bem claro que há algumas inconsistências. A nova testemunha afirmou veementente que o réu apresentava um comportamento promíscuo e adúltero e se apresentava violento com a cônjuge. Portanto, condeno o senhor Charles Burns a indenizar, por danos morais, a senhora Mary Ann Collins em seiscentos mil dólares. À defesa, cabe direito ao recurso em segunda instância. Sessão encerrada!

Mary Ann e Simpson se cumprimentaram, enquanto Neville e Burns se mantiveram sérios, demonstrando certa irritação.

Ao saírem da sala, Mary Ann e Tom se abraçaram.

- O que aconteceu, Simpson?! – Chester indagou, afoito.

- O melhor que poderia acontecer, Chester! Ele condenou os dois a pagar a mesma indenização. Ficou elas por elas!

Todos comemoraram. No entanto, Neville e Burns passaram ao lado do grupo e o advogado disse:

- Podem comemorar. Vocês não podem recorrer mais. Mas nós podemos. E esse jogo vai virar!

E se retiraram.

- Isso que ele disse é verdade? – Chester indagou.

- Sim... O processo de Burns era recurso. Já o de Mary Ann não... Eles vão recorrer, certeza, mas sei como trabalhar minha defesa! – Simpson ponderou.

Tom e Mary Ann voltaram à turnê na mesma noite. Felizes, comemorando o resultado da audiência.

- Eu sabia que você iria ganhar essa... – Tom falou, beijando a mão da jovem.

- Eu não acreditava, Tom... Tinha muito medo...

- Não era justo que ele se desse tão bem, menina... Já tava passando da hora de ele se ferrar...

E o avião decolou, rumo à Geórgia.

Notas finais
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