The Last Door
1 Overwhelmed
Eu não dormi naquela noite. As lágrimas não estavam secas e minha consciência me matava enquanto eu tentava dormir alguma vez. Os soluços já eram baixos, mas ao mesmo tempo tão altos.
O despertador de meu celular ecoou pelo quarto. Eu não queria ir para a escola. Já imagino o que irei encontrar quando colocar um pé dentro do gigante edifício.
O que aconteceu de verdade com Anne? Bom, eu também não sei. E eu juro.
Levantei em direção ao banheiro. Estou péssima, nunca estive mais pálida. O rímel que eu tinha passado na noite passada escorreu como as lágrimas, mas deixou uma mancha preta desde meus olhos até o final de meu queixo. Meu corpo todo doía juntamente de minha cabeça. Ela parecia estourar a qualquer momento como uma bomba.
Meus olhos arderam quando abri a porta do meu quarto. A escada estava refletindo o sol, indo em cheio aos meus olhos. É o resultado de uma noite em claro.
- Johana, você vai se atrasar – ouço a voz irreconhecível de minha mãe. Ela estava dizendo com um tom diferente, mas suficiente para fazer minha cabeça doer mais. Suponho que ela está medindo as palavras, como se uma palavra errada poderá me deixar mais machucada que já estou. Não duvido disso.
Pisquei os olhos três vezes antes de descer em direção à cozinha. O dia estava feio, para melhorar tudo. Frio, muita neblina. Que clichê. Eu odeio isso. Eu odeio isso estar acontecendo comigo.
Depois de tomar o café da manhã e me vestir, saí de casa. Assim que eu saí do meu carro, senti aquilo novamente. Aquela sensação de culpa. Fechei os olhos e engoli o choro. Não, não agora. Eu não chorarei em público, não chamarei a atenção para mim. Eu só quero o contrário. Eu não quero atenção. Ah, Anne. Tudo estaria normal se você estivesse aqui.
Senti os olhares em mim assim que entrei no colégio. Ah, droga. O que eu faço?
Ignorei as pessoas que me encararam e andei até o meu armário, do outro lado do colégio. Esse caminho nunca foi tão longo quanto foi agora. Quando finalmente cheguei, tirei meu celular da mochila rapidamente e disquei o numero que já tinha memorizado há muito tempo. O visor apareceu em letras grandes o nome Lauren. Não demorou nem dois toques para ela atender.
- Johana? – ela perguntou, apesar de saber que era eu. Ela falou mais baixo do que o costume, mas não pude conter a sensação de alívio ao ouvir sua voz.
- Oi, Lauren. – respondi depois de alguns segundos. Minha voz falhou, mesmo sendo previsível. – Lau, você já chegou?
Ela suspirou. Ouvi vozes de fundo perguntando ela está aqui? E ela está bem?
- Estou sim. – Lauren finalmente disse, sussurrando em sequência algo que não pude entender. Provavelmente dissera para as vozes de fundo. Eu já sabia quem era as vozes. – Onde você está? Nós vamos aí.
As pessoas ainda tinham o olhar em mim.
- No meu armário. – afirmei. – Lauren, eu não sei o que fazer.
- Tudo vai ficar bem. – ela respondeu depois de uma pausa. A preocupação em sua voz era evidente. A dúvida também. Nada vai ficar bem. – Estamos indo.
E assim, desligou. Eu joguei meu celular de volta a mochila. Respirei fundo. Não sei se conseguirei continuar assim. Afinal, forte é algo que eu não sou. Eu me sinto tão vazia. Eu não deveria sentir nada. A vida nos prega uma peça nos momentos que estamos menos preparados.
Afastei esse pensamento. É melhor não desabar na frente do colégio inteiro. Apenas mantenha sua imagem. A imagem de tudo que eu não sou.
- Johana Scottsdon – um sussurro interrompeu meus pensamentos. – Não vire, será pior para você.
Eu não sabia de quem era a voz. No momento, paralisei. Depois de raciocinar – errado, é claro — em impulso virei para trás.
Mas eu não tinha ideia do que ia acontecer então. O que eu lembro depois disso foi um estrondo... Foi alguém batendo em um armário. Então tudo ficou escuro. Realmente. As luzes se apagaram e eu estava parada, igual a uma tonta. Até que alguém me empurrou para trás, fazendo eu bater a cabeça no armário. O impacto da dor foi imediato. Minha cabeça explodiu. Já estava doendo, e agora foi o que faltava.
- Eu te avisei que ia ser pior.
E bom, agora eu estou aqui. Meu nome é Johana. Johana Scottsdon. Eu tenho dezesseis anos, apesar de não comemorar desde um ano atrás. Um ano. Foi quando tudo isso aconteceu.
Para ser honesta, eu não sei direito o que aconteceu. Foi tudo tão rápido. O que continua igual é o suspense... E Anne, é claro. Nada se sabe ao seu respeito. Desde o dia que foi declarada desaparecida nada mudou. A polícia tem suspeita de assassinato, mas nada certo.
Eu apenas sei que não sinto mais a mesma coisa que sentia quando Anne desapareceu. Aquela culpa. Aquela vontade de chorar toda vez que eu pensava ou alguém dizia seu nome. Suponho que tudo isso tenha ido embora junto com a minha consciência quando bateram minha cabeça no meu próprio armário naquele dia.
Mas o que eu sinto ainda é o medo. Não vire, será pior para você. Eu queria esquecer essa frase, mas não consigo. Quem era essa pessoa? O que teria acontecido se eu não virasse?
As minhas perguntas não possuem respostas, é claro. Seja quem era a pessoa atrás de mim, era inteligente. Ninguém viu quem estava atrás de mim naquele momento. Nem as câmeras o captaram. A polícia disse que tudo aconteceu em uma fração de segundo. Mas para mim pareceu muitos minutos. Como isso é possível? Iremos investigar. É tudo o que temos a dizer. É o que a policia “tem de dizer” para tudo o que está acontecendo.
E o que eu faço? Continuo minha vida. Vou à escola todo dia, todos continuam me olhando. Fico com as pessoas que conheço. Volto para casa. Fico um dia inteiro sem fazer nada. Repito a rotina.
Eu apenas queria que tudo voltasse a ser como antes. Mas é claro que isso não vai acontecer.
Notas finais
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Mentira. Não, verdade. Enfim, obrigada mesmo por ler!
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