The Inter - Worlds (Parte 1): As Aventuras - Ano 2
48 Enquanto Isso - Ela Ainda Está Adormecida
Notas iniciais
Ela Ainda Está Adormecida
Abriu seus olhos. Várias bandagens cobriam o seu corpo. Estava vivo. Qual era a última coisa que lembrava?
Ele estava lutando contra as aranhas. Mas de repente ficou tonto e em questão de segundos estava no chão. Como será que tinha parado ali?
Bem que em seus últimos momentos de sanidade ele jurou ter visto Tauriel e os outros elfos da guarda por perto, mas...algo parecia errado.
Mas o que importava mais naquele momento era o fato de que ele, Legolas, estava vivo. Não sabia como, mas tinha sobrevivido. Não necessitava saber a razão.
Não necessitava? Claro que necessitava! Aquilo tudo estava tão estranho. Tinha aquela mulher também.
Qual era o mistério que envolvia aquela criatura. Mesmo que ela aparentasse ser só uma humana normal, ele conseguia sentir que ela tinha algo de diferente. E também tinham os sonhos. Ele tinha certeza que era ela, não haviam diferenças. Mas ele não teve a coragem de dizer. E se ela fosse do mal e só estivesse fingindo? Qual eram suas reais intenções?
E ela também não aparentou saber quem ele era, então aqueles sonhos deviam ser jogos de outra pessoa...mas quem?
Com tudo isso na cabeça, levantou rapidamente, amaldiçoando tal fato por sentir seu corpo todo doendo com o movimento. Mas não podia se importar com aquilo. Tinha que saber o que tinha acontecido com Ana. Será que ainda estava viva?
Pegando a primeira roupa que viu, cobriu o abdome exposto e saiu do quarto. A primeira pessoa que visse seria alvo de interrogação.
Foi então que ninguém mais ou menos do que Boridrhen, seu fiel amigo e companheiro das horas difíceis, apareceu no final do corredor, como se o mundo estivesse escutando as preces de Legolas.
—Boridrhen! Que bom que você está aqui.
—Príncipe! Você tem que descansar!
—Deixo o descanso para outra hora, tem algo que preciso saber. – dizia Legolas, sem pausas.
—Isso seria...?
—Onde está Ana? – ele perguntou, quase sem fôlego.
—Quem?
—Na floresta, tinha uma garota comigo, onde ela está?
—Você está falando da humana? Ela está sendo tratada pelas curandeiras na-
—Ótimo, me leve lá.
—Calma! Se você se estressar pode ser ruim para o seu tratamento.
—Não tenho tempo para acalmar-me agora, eu preciso encontrar com ela.
—Tudo bem, siga-me.
Então, atravessando os corredores e descendo algumas escadarias, os dois deram na ala médica, onde as curandeiras élficas tratavam de uma Ana adormecida.
—Como ela está?
—Príncipe Legolas! – falaram as curandeiras em uníssono, surpresas.
—Ela está bem?
Todas pareciam surpresas, e não sabiam o que dizer na presença do príncipe, mas uma delas, mais determinada, se aproximou e decidiu explicar a situação:
—Ela está desacordada desde que foi encontrada com o senhor, meu príncipe. Mas se o tratamento ocorrer como o planejado ela deve ficar bem em breve.
—Ótimo, quando ela acordar mandem me avisar.
—Como desejar, Vossa Alteza.
—Tenna' san' – concluiu o loiro, fazendo um gesto e assentindo com a cabeça.
—Tenna' san' – repetiu a elfa, fazendo o mesmo.
Então, os dois elfos saíram do local.
—Quem é essa garota afinal?
—É ela.
—Ela quem?
—Sabe aquela vez que eu comentei sobre uns sonhos estranhos que eu tinha? Sobre uma humana?
—Sim. Você está querendo dizer que-
—Sim, essa garota é ela. Não há dúvida.
—Então, já falou com ela? O que ela disse sobre os sonhos?
—Já falei com ela sim, mas não mencionei os sonhos. Ainda não sei muito sobre ela, e ela parecia não me conhecer, então tem uma chance de não saber sobre os sonhos.
—Ou talvez, como você, ela não quis dizer nada.
—Também tem essa chance. Mas não sei dizer qual dos dois que foi. Ela também é bem misteriosa. Eu a encontrei sozinha na floresta...e não é como se ela estivesse acompanhada de alguém antes.
—O que uma garota humana fazia sozinha na Floresta das Trevas?
—Exatamente o que eu me perguntei. Ela disse que estava indo para a Cidade do Lago. Mas só um tolo ou alguém com muita coragem iria sozinho pela trilha dos elfos invés de fazer o contorno.
—Bem, talvez ela tenha coragem e determinação além da conta. E também temos que considerar que a trilha é o caminho, tecnicamente, mais rápido. Talvez ela estivesse com pressa?
—Talvez...tudo sobre ela é tão incerto. Mas tenho que deixar isso para outra hora, tenho assuntos importantes a discutir. Onde está Tauriel?
—Bom, nessa hora ela deve ter acabado de voltar da caça.
—Essa hora? Caça? Quanto tempo fiquei desacordado?
—Alguns dias.
—E que horas são?
—Já está quase na hora do almoço.
—Onde está o meu pai?
—Ele queria ter ficado, mas tinha uma reunião importante de negócios em outro reino, por isso teve que ir. Deve estar de volta daqui a alguns dias.
—Bom, preciso encontrar com Tauriel agora, tem algo que ela precisa saber.
—Você vai...
—Vou o que?
—Você sabe...
—Não. Não tem nada a ver com isso. É sobre a patrulha que mandaram alguns dias atrás.
—Verdade, só encontramos você. O que aconteceu?
—Fomos capturados por um grupo de bandidos. Eles estão todos mortos. – explicou Legolas.
Boridrhen parou, chocado. Todos tinham...morrido? Como isso era possível? Como um grupo de elite dos elfos da Floresta tinham perdido para bandidos? Que tipo de história era essa.
—Como que-
—De alguma forma, aqueles bandidos nos envenenaram e mataram cada um de nós aos poucos, depois de nos prenderem. Foi por pouco que eu não morri também.
—Como você conseguiu se salvar e os outros não?
—Ana me salvou. Mas eu também fiquei doente pelo veneno.
—É, nós vimos quando estávamos te tratando.
O elfo de longos cabelos castanhos olhava para o chão, ainda sem acreditar no que tinha acontecido.
—Está tudo bem. – disse Legolas, colocando a mão no ombro do amigo. – Eles descansaram em paz nos salões de Mandos1.
—Irão mesmo. – ele concordou.
Então, continuaram seu caminho, até encontrarem com a elfa de cabelos ruivos, que perambulava pela fortaleza.
—Tauriel!
—Legolas! Você não deveria estar descansando?
—Posso fazer isso depois. Existem assuntos que precisamos discutir.
—Bom, eu tenho algumas coisas a fazer, encontro com você mais tarde, então? – interviu o amigo.
Legolas sabia que Boridrhen não tinha nada para fazer, mas entendera as intenções por trás daquela “saidinha”.
—Se você insiste.
—Então, até mais tarde! – disse o elfo de cabelos castanhos, indo para longe.
Então, Tauriel e Legolas começaram a conversar, enquanto andavam pelos corredores. O elfo explicou toda a história dos bandidos, poupando somente os detalhes que achava melhor ela não saber, como, por exemplo, a história dos sonhos e que a sua salvadora estava neles. A chefe da guarda também parecia não acreditar no ocorrido.
—Até onde eu sei, só três deles escaparam, incluindo seu líder.
—Eles não devem ir muito longe na floresta, talvez ainda consigamos encontrar eles.
—Não sei, eles pareciam bem preparados.
—Eles podem ser preparados, mas nós somos mais. Vamos pegar eles assim que possível.
Assim, Legolas prosseguiu para o resto da história, contando o incidente com as aranhas. Depois de concluir, Tauriel comentou:
—Temos que fazer alguma coisa sobre essas aranhas. A cada dia elas se tornam uma ameaça maior ainda.
—Obrigado por terem nos trazido para cá todo esse caminho, não sei-
—Não fale besteira. Foi a garota que te trouxe até aqui. Encontramos ela caída bem na porta da fortaleza com você no ombro, ela deve ter vindo até aqui com grande dificuldade, mas veio. E desculpa por não ter notado você entre as aranhas. – dizia a elfa, meio embaraçada.
—Foi ela mesma que me trouxe, sozinha?
—Até onde sabemos, sim.
—Que garota forte.
—Não é? Eu me pergunto quando ela vai acordar.
—Eu também...
—Você deveria ir descansar, ainda está se recuperando.
—Mas já não é a hora do almoço?
—Este ainda não está pronto, mas quando ficar alguém pode levar para você. – dizia a elfa, empurrando o príncipe na direção de seu quarto. – Sei que quer fazer muitas coisas agora que está de volta depois de tantos dias, mas vai ter que esperar ou o seu corpo não vai aguentar.
—Tudo bem, eu sei andar sozinho. – o elfo afirmou.
—Então, ande.
—Até mais tarde, então. – dizia ele, enquanto entrava no quarto.
Fechou a porta. Quanto tempo levaria para a garota acordar? Era a única coisa que tinha em sua cabeça. Será que ela acordaria algum dia? Seria que sobreviveria?
Então ele sentiu aquela sensação estranha dentro de seu peito. Aquele sentimento que lembrava de ter sentido há séculos atrás, talvez até um milênio atrás: ansiedade.
Estava se corroendo por dentro, precisava saber mais. Mas o destino parecia brincar com ele.
Você quer falar com a garota? Quer saber o que ela quer e quem ela é? Então, aqui está ela, mas vou fazer ela ficar desacordada para que você não possa falar nada com ela.
Sentia que a vida dizia isso para ele naquele momento, ainda com um irritante sarcasmo em sua voz.
Tinha que tentar esquecer aquilo naquele momento, como todos disseram, ele precisava descansar.
Mas quem dizia que ele conseguiria? Sua cabeça parecia latejar com aquela história toda. Tentou pensar na imagem da garota, mas, estranhamente, nada vinha.
Que absurdo era esse? Nem pensar nela ele podia? Será que só poderia sonhar com ela quando esta estivesse acordada?
Bateu na parede com força. Mas estremeceu um pouco com o impacto da batida. Foi até sua cama e se deitou.
Ele era um elfo, e como todos já deveriam saber, elfos podem (e é o que fazem) dormir em pé e de olhos abertos, para a surpresa de outras espécies.
Mas nem deitado ele estava conseguindo relaxar. Apertou os olhos com força, mas não fazia efeito. Já tinha dormido tempo o bastante, não conseguiria dormir naquele momento e tão perturbado como estava.
Então, decidiu encarar o teto com seu par de olhos azuis. Aquele teto branco, sem nenhuma deformidade. Era liso, perfeito. Não havia nenhum defeito.
Diferente de sua mente naquele momento. Pensou em como tinha falhado com seus companheiros na floresta, como teve que ser salvo várias vezes pela garota, sem fazer nada. Era realmente um inútil, um ser imperfeito e cheio de deformidades, diferente do teto.
Espera...ele estava se comparando ao teto?
Teve que aceitar, não conseguiria tão fácil parar de pensar naquilo. Seria uma longa batalha até conseguir fazer isso.
Mas ele não era o único que estava tendo uma batalha interna naquele momento.
Em outro lugar, na ala médica, Ana ainda estava adormecida.
Ela se sentia caindo, na mais pura escuridão. Sozinha, ela via a luz se afastando. A luz de um mundo belo e livre, que nunca teve a real chance de conhecer, sem ser em seus sonhos. Um mundo de paz e harmonia. Um mundo que, agora, parecia ainda mais distante do que de costume.
Palavras em élfico/sindarin:
Tenna' san' = até então.
Observações:
1 – Mandos: equivalente a Hades da mitologia grega, Mandos julga os espíritos dos elfos mortos, decidindo se continuarão em seus salões ou se irão reencarnar.
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