Notas iniciais
Olá pessoal! Primeiro capítulo, espero agradá-los! Não sejam leitores fantasmas kkk seu comentáruo ajuda muito! Boa leitura!

Estava entardecendo e meus olhos já estavam acostumados com aquela luz alaranjada, na qual me levava a pensar. Eu estava com seis velhos colegas de escola. Alguns eu nem me lembrava de ter momentos especiais, aqueles que marcam a pessoa em nossa vida, seja por algo bom ou ruim. Estávamos sentados em um morro agradável em que o vento circulava livremente, dessa vez eu poderia certificar que Amy não teria uma crise de asma. Era a primeira vez que via aquelas pessoas depois da formatura do terceiro ano, o que não fazia tanto tempo, embora as coisas tenham mudado profundamente. Para cada um de nós. Sem exceção. Estávamos recordando algumas coisas não muito agradáveis, coisas que mudaram nossas vidas e quem nós somos, ou éramos. Principalmente o mundo a nossa volta ou nosso jeito de lidar com ele. Algo que deu outro significado a cuidado e medo. E eu que pensava que apenas eu estava passando por isso. Parece que a maldição não escolheu somente a mim.

– Já pensaram que tudo poderia ser diferente? – Robert questionou, deitando-se na grama verde do lugar não muito distante do centro da pequena cidade. — Eu queria que fosse diferente.

Sentei-me e suspirei. Eu tinha problemas muito maiores do que suposições. O problema era lidar com esse problema.

Robert, o garoto da voz grossa, branquelo e com os cabelos longos, havia crescido. Já não era mais tão calado como antes. Era evidente que ele também se tornou um. Até mesmo antes de mim e dos outros. Desde pequeno ele já era um mutante, só não sabia disso. O dom da genialidade foi dado a ele que desfrutava com um tanto de desprezo. O que é engraçado, a não ser que esteja passando pelo mesmo. Então ninguém riu. Todos nós sabíamos como ele se sentia e dessa vez ninguém ia julga-lo ou rotula-lo. Era tudo muito diferente de antes.

– Vocês diziam que eu era um gênio. Eu não compreendia, nunca compreendi. E só de pensar que naquela época eu já era um. – ele colocou os cabelos para trás. — Vocês me elogiavam e criticavam também. Nunca gostei. Vocês eram uns bostas comigo, ou algo pior.

Tive que rir. Sempre me pareceu que ele gostava de ser assim. E não. Pelo menos eu nunca tinha sido uma bosta com ele.

– Não ri, é sério. Se pudesse escolher, teria escolhido não ser assim. Jogaria no lixo tudo o que sei pra ser alguém normal. – disse ele. — Minha mãe me obrigou a fazer coisas que eu não queria. – Robert estava irritado.

– Todos nós faríamos isso. – comentei. — Acho que todos que são como nós faríamos o mesmo. Você não está sozinho nisso. Sabe disso.

– Você tem sorte. É a mais normal de todos aqui. Você e a Amy. – ele se sentou e pegou uma folhinha de grama, colocou-a na boca enquanto Amy soltava um risinho estranho. — Vocês não fazem ideia do tanto de coisa que tive que engolir quando minha mãe descobriu, dá pra acreditar que ela já sabia de tudo?! Fiquei muito arrasado. E ela desde sempre tentava tirar proveito disso.

– Não acho que sou tão normal. – retruquei e me calei, Robert também.

– É Mariah! Você é a mais normal aqui sim. Você não sabe como é difícil pra mim. – Vick dizia tentando me convencer e respondi revirando os olhos. — Já faz dois anos que não posso nadar em público, é muito difícil para mim. Vocês sabem muito bem que nadar tinha virado minha vida. Era o que me deixava tranquila, me fazia esquecer as preocupações, as provas.

– As guelras ajudam. – Frank comentou sorrindo de um jeito maléfico.

Aquilo havia sido desnecessário, como tudo o que ele dizia.

– Só que não. – Vick disse devagar e com um tom de raiva. — Eu tenho medo da neblina e do sereno. Se eu tomar a forma e não estar na água, vocês sabem que eu posso morrer. É como as antigas crises de asma da Amy, só que ao contrário. Eu só queria ser quem eu era, queria saber por que isso tinha que acontecer logo comigo. – ela não se conformava, nenhum de nós.

– Mas você é linda na forma de sereia, amiga. – Jane tentou melhorar a situação.

Vick abaixou a cabeça e bebeu um pouco de água para se hidratar. Elogios pela primeira vez não iriam melhorar a situação para ela.

– Pelo menos você não tem asas. Tudo bem que elas são lindas. Mas não aguento ter que esconder, eu queria mostra-las, aprender a voar como os pássaros. Elas não podem ficar tanto tempo recuadas dentro de mim, é desconfortante, muito desconfortante. – Jane reclamou.

– Vocês reclamam demais. São frescas demais. Até o Robert. Mas tem gente aqui que tem dom útil. O Wesley, por exemplo, fica invisível, isso na escola seria ótimo?! – Frank defendeu.

– Não estamos mais estudando, só para você saber. – corrigi.

Fechei os punhos arrancando alguns fiapos de grama. Não havia vantagem em ser um mutante. Somos inúteis e devemos ser mantidos em segredo. Para a proteção de todos.

– Não tenho o que reclamar, só queria saber por que temos esses poderes. – Wesley disse o que todos nós realmente queríamos saber. — Só isso. – ele abaixou a cabeça e todos nós fizemos o mesmo.

Mas eu sabia que o que Wesley queria saber de fato não era sobre os poderes. Mas sim sobre a sua Bella, que ele já não tinha ao seu lado. Por mais que ela tenha prometido voltar. Era tudo muito suspeito, mas não poderíamos concluir nada. Já que tudo é composto por esta confusão.

O pôr do sol alaranjado cegava suavemente meus olhos amarelados, ajeitei os óculos e coloquei a mochila nas costas. Levantei-me e fui embora. A conversa deles ainda era desconfortante demais para mim, como sempre foi. Eles só queriam reclamar e eu queria saber por que era assim. O desastre deles não me importava, eu só queria saber o porquê do desastre mutante em cada um nós. Nada mais.

Tinha compromissos para esse dia e rever eles era só uma pequena diversão nostálgica diurna e um pouco inútil, bastante na verdade. Assim como todos os seis, eu também havia ido embora da cidadezinha. Havia ingressado num trabalho logo depois que saí do ensino médio, lá na outra cidade. Morei com meu namorado pela primeira vez. Nossa primeira casa, primeira discussão séria pessoalmente, mas isso não é nada. Foi lá que eu descobri que era uma mutante e foi lá que descobri que Liam também era. Só fazia um ano.

O compromisso da noite era encontra-lo. Liam tinha que rever a família, mas combinou comigo que iria voltar para me ver, como antes ele fazia.

De manhã já havia ido encontrar minha família. Tudo continuava igual, até os móveis estavam no mesmo lugar, então como nunca gostei de ficar tanto tempo naquela casa, fiquei esperando Liam na praça. Não demorou muito para vê-lo. Concluí. Há coisas que nunca mudam, por mais que nós mudemos.

– Como foi lá? – perguntei o abraçando.

Ele ficou quieto retribuindo o abraço. Como se não tivesse coragem de responder.

– Teve coragem de dizer? Contou a eles? – insisti na pergunta.

Ele me soltou e encarou meus olhos.

– Não. – Liam suspirou. — Seria muito mais simples para eles eu chegar lá e dizer que nos casamos sem eles saberem de nada, ou que você está gravida. – ele soltou uma risada forçada, o que nunca combinou com ele.

Abaixei o olhar. Mas concordei com ele, realmente seria muito mais fácil, porque eu também não tive coragem de contar aos meus pais que eu tinha me tornado uma mutante. Eles nunca entenderiam.

– E você? Como foi com o pessoal? – ele me perguntou.

– Qual pessoal?

– Os mutantes que estudaram com você, porque os outros não interessam. – ele afinou a voz para me imitar. — Você mesma disse isso quando estávamos voltando para cá, que os normais não interessavam. Você queria ver como os com poderes estavam vivendo.

O encarei com um olhar de confusão. Era de fato muita esquecida. Ainda mais porque aquelas pessoas já não faziam parte da minha vida. Eram insignificantes.

– É verdade. – assenti.

– Mas como foi? Quero saber. – aquela animação era falsa para mim.

– Foi melhor do que pensei. – estava sendo irônica. — Robert não aceitou muito bem a história de ele ser um gênio. Vick se pudesse, arrancava as próprias guelras. Jane sempre louca querendo mostrar ao mundo que tem asas de verdade. Amy não se rebelou nenhum segundo e nem disse nada, somente riu, como eu já esperava. Frank tá satisfeito, afinal ele consegue ver utilidade em ser um “homem de fogo”. Wesley também tá satisfeito, só que não muito.

– Tenso. – ele não tinha mais nada para me dizer.

– Pelo menos eles estão um pouco piores que eu, ou igual, não prestei muita atenção, mas eu percebi uma coisa no olhar do Wesley. Ele ainda sofre pela Bella ter mudado de cidade e esquecido ele. Fora isso, estão bem, ou não, como disse não prestei atenção, só sei que eu estou bem melhor que eles.

Liam sorriu. Não foi um sorriso verdadeiro, porque eu sei o que passa na mente das pessoas e ele não estava tão feliz por isso. Mas sei que ele sorriu como apoio para mim. E foi isso que me confortou.

– Vamos para onde agora? – ele perguntou.

– Frank me disse que tem uma pousada por aqui, que muitos mutantes ficam lá. Ele e os outros estão nela. É tipo um refúgio. Foi aberto logo depois que fomos embora.

– Tá com a sua mochila?

– Claro, minha mãe disse que tinha que viajar. Aí então decidi não ficar lá. Detesto ficar no controle e você sabe disso.

– Vamos.

Pegamos um táxi e fomos para a pousada, que não ficava tão longe da cidade quanto pensávamos. O táxi nos deixou na entrada. O motorista disse que lá era perigoso e que ninguém nunca se atreveu a entrar lá, porque lá é lugar de gente “errada”. E gente errada não significa mutante, na verdade poucas pessoas no mundo sabem da existência de mutantes.

Ignoramos o homem e abrimos o portão de ferro que rangeu um pouco. Parecia mais com um casarão abandonado, mas como lá vivem mutantes era claro que a aparência era só uma forma de afastar intrusos. Tinha uma piscina com água esverdeada que me parecia um belo habitat para Vick, mas como lá é um lar de mutantes preferi manter meus insultos mentais quietos, já que existem muitos mutantes que tem o dom de ler mentes assim como eu. Fui até a porta que estava fechada e toquei a campainha que se parecia muito com as campainhas de castelos de filme de terror. Liam ficou atrás de mim segurando as malas, até que uma mulher muito bonita abriu a porta e nos mandou entrar.

– Queremos um quarto. – pedi.

– Vão ter. – disse a mulher com uma voz forte e provocante. — Frank me disse que vocês viriam. Guardamos até um quarto para vocês dois, juntos é claro.

Enquanto a mulher falava, eu a analisava. Havia algo de estranho e misterioso nela. Algo muito perigoso para ficarmos dando informações sobre nós. Ela não era nada confiável. Era o tipo de pessoa que a cada momento poderia estar de um jeito. E apenas uma raça era capaz de tal coisa. Uma das raças mais perigosas.

– Posso lhe fazer uma pergunta? – perguntei.

– Já fez. Mas pode. – ela me respondeu sem querer ser grossa, pelo menos assim acreditei.

– Você é um súcubo?

– Espertinha você! – ela ergueu uma sobrancelha. — Como percebeu?

– Seus olhos, a maneira que anda e principalmente o jeito que fala. – pausei. — Somente súcubos e demônios falam desse jeito. Seduzindo. E você não se parece nem um pouco com um demônio. Logo, você é um súcubo.

– Você deve ser uma leitora de mentes. – ela me perguntou. — Ou apenas leitora.

– E de olhos também. – sorri. — Principalmente de olhos.

A mulher sorriu. Senti-me no direito de perguntar o nome dela, o nome verdadeiro dela, mas desisti, pois todos os súcubos quando mudam de forma também mudam de nome. Era inútil aquela informação a não ser se eu conhecesse todas as formas dela. Mas preferi dizer:

– Você me lembra de alguém. – a mulher me ignorou. — Mas deve ser apenas impressão.

– E você diz muitas coisas. – o tom de voz agora era rude. — É muito falante para uma recém-mulher que lê mentes!

Depois de uma patada dessas preferi me manter em silencio e acompanha-la pelo corredor do casarão. Estreito onde a madeira escura rangia suavemente. As portas eram vermelhas. As luzes azuladas eram como pequenos pontos de luz espalhados.

– Pronto chegamos. Esse é o quarto de vocês. – ela apontou para uma porta de madeira vermelha como todas as outras, mas esse era em um tom vermelho morto.

Sorri para ela, mas não permiti que meu namorado também sorrisse, era perigoso demais. Ela jogou as chaves para mim e desapareceu pelo enorme corredor.

Destranquei a porta e vi um quarto simples, porém muito melhor do que o que eu e ele passávamos nossas noites. Liam entrou e deixou as malas num canto.

Comecei a examinar o quarto com os olhos, lá eu sabia que meus pensamentos não seriam lidos caso tivesse alguém como eu lá. Havia uma cama de casal com uma colcha pesada e aveludada também vermelha. Cortinas negras tampavam as janelas de madeira velha que visivelmente imploravam por uma reforma. Nos meus primeiros passos lá já havia percebido que o chão era oco, ou seja, havia um porão. A madeira do chão me parecia nobre, mas eu nunca entendi muito de madeira, isso era coisa do meu pai. Uma luz fraca e azulada de modo para não chamar a atenção dos que passam por perto iluminava não só os corredores e a recepção, como os quartos também. Não havia porta entre o banheiro e o quarto, estávamos em uma singela suíte e é claro que a suíte era de uso único nosso, seria horrível encontrar alguém nu lá se esfregando. O quarto era simples mesmo, mas me agradava.

Sentei-me na cama e pedi minha mochila para Liam que estava sentado do meu lado. Ele pegou a própria mala e retirou a roupa de lá para tomar um banho, mas não pegou minha mochila. Estava visivelmente muito cansado.

– Não demora. – disse a ele.

– Você não vem?

– Não. – respondi demonstrando o mesmo cansaço.

– Faz quatro meses que agente não faz isso? Por quê? Eu não entendo, eu não consigo entender.

– Mas vai querido, quando eu souber o que houve comigo. – desviei o olhar para o lado, Liam nunca entenderia.

Ele ficou preocupado, dava para notar nos olhos dele, mas Liam havia preferiu se manter quieto. Como sempre fez desde que aprendeu que o silencio resolve tudo. Mas talvez a coisa tenha mudado. Já que até no silencio eu ouvia vozes.

Enquanto ouvia o som das gotas frenéticas do chuveiro, me vinha uma vontade imensa de ir lá e mostrar a ele o que estava acontecendo comigo, mas preferi não fazer. Assusta-lo durante um banho não iria ser uma forma de apresentar uma coisa dessas.

Ele saiu completamente pronto para dormir, sem camisa, somente vestido com uma bermuda leve e negra.

– Toma. – joguei uma camisa para ele.

– Pra que?

– Vamos comer bobão. – fazia horas que não comia nada.

Notas finais
Olá de novo! Gostaram? Então acompanhe!!! Aguardando comentários!