The Intended: Mutant
9 Josh
Notas iniciais
Logo após alguns minutos Treze abriu a porta. Olhei para o teto, em direção ao relógio. 10h15min.
– Chegou a hora. – Treze parecia nervoso.
– De que?
– Josh está a sua espera. – ele anunciou. — Vou acompanhá-la até ele.
Ele me colocou na cadeira de rodas involuntariamente. Sem minha permissão. Tudo que Treze fazia me irritava.
– Eu não preciso disso! – protestei.
– Precisa. – Treze respondeu sério.
Treze me acompanhou calado, como se estivesse com medo de algo. Chegamos até o final do setor feminino.
– A sala dele fica aqui? – era estranho.
– Não. – ele respondeu com um tom temeroso.
Um elevador transparente desceu até nós. Entramos nele e em menos de quatro segundos chegamos a uma enorme biblioteca. Deixei sem querer a palavra “uau” sair de minha boca. O que deixou minhas bochechas vermelhas.
– Chegamos. – disse Treze. — Vou deixá-la aqui. Acho que você vai passar um grande tempo aqui com ele.
Abri um sorriso falso. Não era uma boa reação, mas finalmente algo bom havia acontecido. A biblioteca era incrível. Sem nenhum cheiro de mofo ou guardado, estantes e mais estantes com livros, parecia que todos estavam em ótimo estado.
Levantei da cadeira vagarosamente, até que um homem veio ao meu encontro. Um homem maduro, que parecia ter trinte e poucos anos. Tinha o cabelo castanho claro e até os ombros. Os óculos com lentes redondas pesavam sobre o nariz. Tinha a estatura média. Vestia uma calça jeans negra e um casaco marrom. Parecia não pertencer aquele lugar.
– Você deve ser a Mariah. – ele apontou para mim.
Ergui a sobrancelha com cuidado. Qual era o jogo dele? Era mais um que arrancaria informações com uma entrevista idiota?
– E você deve ser o famoso Josh.
Ele ajeitou os óculos. Era só mais uma cara nerd e antissocial.
– É assim que me chamam? Pensei que me chamassem de repugnante Josh ou algo como o recluso Josh.
– Não me parece recluso e nem repugnante. – respondi. — Pra mim você é mais um branquelo idiota nesse jogo de peças somente brancas.
– E você não me parece perigosa e fraca. – ele respondeu, ignorando o comentário sobre o xadrez de uma única cor.
– Te disseram isso?
Ele assentiu e eu o encarei por alguns segundos. Coloquei a mão na cintura e o encarei ainda mais séria. Não era fácil jogar quando o oponente era eu.
– Por que me chamou aqui?
– Sabe, preciso te ensinar algumas coisas. – ele cruzou os braços, ainda mais sério que eu. — Bom, eu odeio esse local. Eu odeio a Proteção! – podia sentir o ódio na voz dele, soava real. — Sabia que aqui é o único setor sem câmeras e gravadores?
– Que sorte. – talvez não fosse. — Mas por que odeia a Proteção? Você é um deles.
– Não. – Josh respondeu. — Eu não sou um deles, nem pense que sou um deles. Mas também não sou um de vocês. – levantei a sobrancelha, não estava entendendo. — Sou apenas uma pessoa normal. Ou não, já que tenho uma inteligência mais elevada do que a das outras pessoas, mas não chego a ser um mutante. – ele respirou um pouco. — Bom, você vai ser minha assistente. – ele apontou o dedo novamente para mim.
Estava me incomodando. Era como se Josh esperasse algo de mim. E eu era inútil. Não ajudaria ninguém. Fui capturada e agora queriam aproveitar dos poderes dos mutantes. Não conseguia engolir as palavras de Josh.
– Não assistente, mas vai passar todos os dias aqui. – ele respirou fundo. — Serão poucos os dias, relaxe. Tem sugestão de mais alguém, inteligente e bom em planos.
– Tenho duas sugestões.
– Vou chamar as duas pessoas que você escolher. – era algo que eu não esperava.
– Por que dá tanta atenção para o que digo? – dei um passo para trás e cruzei os braços. — Você acabou de me conhecer.
– Você é a surpresa, a lenda. – seus olhos estavam fixos em mim. — Eu conheço você muito antes de seus pais pensarem em fazer você.
Surpresa. Lenda. Mas que merda significava isso? Eu era apenas Mariah. Uma leitora e comunicadora qualquer. Não havia nada de especial em mim. Era uma mutante fraca do nível quatro.
– Pode me explicar? A Srta. Olivar me chamou assim também.
– Detesto a Olivar, ela trata vocês todos como animais. – Josh coçou a cabeça, ele era muito estranho. — Acho que estou te assustando.
– Por que estaria? Estou muito acostumada com as pessoas falarem muito. – realmente estava, minha colega de quarto era Vick, ela nunca parava de falar.
– Desculpe. É que eu não costumo receber visitas, ainda mais uma visita tão importante quanto a sua.
– Não sou importante. – Josh era um louco.
– Você é. — ele parecia ter certeza do que dizia.
– Você é louco, não me conhece mesmo. – eu estava praticamente gritando.
– Como eu disse, você tem muito a aprender. Principalmente sobre você mesma. – ele sorriu. — Sente-se.
Josh apontou para uma cadeira próxima a uma escrivaninha. Parecia seguro me sentar. Já estava cansada.
– Eu estudei sobre você. – disse Josh.
Não havia compreendido. Era uma mutante comum, com um poder comum e de um nível ainda mais comum.
– O que você acha que é? – ele perguntou.
– Eu leio mentes e olhares. – respondi. — Consigo mandar mensagens telepaticamente e consigo recebê-las também. Sou uma leitora comunicadora.
– Você é mais do que isso. – ele disse com certeza e senti um calafrio.
– Não. – respondi. — Todos sabem que não, eu sou quase normal.
Ele tirou os óculos e os colocou sobre a mesa, como se fosse dizer algo sério. Algo real naquele mundo falso.
– Mariah, você está bem longe de ser quase normal. – disse Josh. — Mas isso ainda não vem ao caso. Você e todos os seus amigos são mutantes. Não mutantes comuns, vocês são mutantes do nível zero. – meus olhos se comprimiram. — Pelo que eu sei demônios foram avisar um amigo seu.
– Como sabe? – era tudo muito suspeito.
– Eu mandei aqueles demônios. – eu já imaginava. — Aqui na Proteção temos um sistema avançado para localizar mutantes. Fica no subsolo e os radares ficam na cobertura. Raramente eles me permitem entrar lá. E no dia que eu soube que eles iriam invadir lá onde você podia estar, fiz questão de mandar alguém antes. Escondido claro. Dois demônios e um amigo meu daqui, com a missão de alertar que vocês estavam em perigo. Mas eles ficaram confusos e só deram a informação que Frank era um nível zero. E meu amigo, bom, ele fugiu logo depois que os demônios avisaram a vocês.
Respirei fundo. Eram muitas informações para um espaço tão curto de tempo.
– Nunca confie em um demônio. – falei lentamente.
– Eles são confiáveis. – Josh sorriu. — Só são confusos.
– Você tem contato com eles mesmo estando aqui? – perguntei.
– Não. – ele respondeu. — Eu libertei esses dois, mas logo eles foram capturados.
– Eles disseram que me conheciam. – comentei lembrando-me do episódio no refúgio.
– Talvez por causa disto. – Josh se levantou e foi até uma estante, em seguida trouxe um livro negro. — Abra. – ele pediu.
Abri o livro com cuidado, como se das suas páginas pudessem sair animais venenosos. Mas nas páginas dele continham fotos nossas e com nossos nomes. Pessoas que eu conhecia e que não conhecia. Por quê? Qual era a finalidade? Um livro Bingo?
– O que é isso? – estava pasma.
– Todos os mutantes que eu estudei. – Josh respondeu. — Vá até a última página.
Folheei o livro até onde ele havia pedido. Meus olhos se comprimiram, minhas mãos tremeram. O que significava aquilo? Minha foto estava lá.
– Por que eu estou aqui?
– Porque você é a lenda. – ele respondeu. — O dragão.
Pisquei os olhos. Focando na imagem meio embaçada de uma foto minha tirada as pressas. Estava provavelmente atravessando a rua e meus olhos brilhavam de um jeito estranho.
– Não entendo.
– Ninguém entende minha cara. Você é uma lenda. – a frase ecoou na minha mente. — Tenho registros em vários livros aqui, contam o mito de que um dia um mutante imortal irá surgir.
– Mutantes do nível zero são imortais.
– Vocês são mutantes do nível zero, mas seus amigos não são imortais como você. Não se sabe como, mas os primeiros mutantes, os que preveem o futuro. Videntes é o nome mais correto da raça. Bom, eles previram que um dia um mutante imortal e com poder infinito iria nascer. Esse mutante nasceria de alguma raça, não se sabe qual, mas este mutante seria do nível zero, já que neste nível os poderes são bastante brandos. O mutante imortal nível zero fez parecer que todos os mutantes deste nível seriam imortais, mas pelo que li, não é bem assim. Mutantes comuns do nível zero morrem somente quando são mortos, nunca de velhice.
– Quer dizer que nós podemos morrer? – eu estava tentando acreditar, mas soava impossível. — Espere, até alguns minutos atrás eu pensava ser do nível quatro.
– Você não, eu acredito que não. Na lenda dizia que somente o sangue do mutante supremo já mataria um ser humano. Caso um humano veja, sinta o cheiro, toque ou ouça o sangue, a pessoa seria morta em questão de segundos.
– Ainda não acredito. Não faz sentido algum.
– Querida, você matou um homem quando estava dormindo. – Josh respondeu. — Você o arremessou em uma distancia de três metros. O arremesso fez uma rachadura no teto. – eu não sabia. — Somente no momento que seu sangue foi retirado, como já te disseram, é impossível o uso de poderes aqui. Você não usou seus poderes, ele somente viu seu sangue. Entendeu?
O encarei séria novamente. Entender o que? Parecia uma dessas histórias que encontramos em livros de ficção. Era tudo muito estranho e confuso.
– Continua sem fazer sentido.
– Não importa. Seu lugar não é aqui, lugar de nenhum mutante é aqui! – foram essas palavras que me fizeram acreditar nele.
– Então o que estou fazendo aqui?
– A Proteção é uma organização para conter o avanço mutante. Os humanos tem medo de um dia vocês se rebelarem contra o mundo. Só você já possui o poder de matar uma pessoa somente com uma gota de sangue. Imagine um exército bem preparado de mutantes, vocês dominariam a Terra. – ele terminou rindo, com uma admiração estranha. — Decida de que lado está!
– De nenhum. – gritei.
– Aqui você é uma arma contra seus semelhantes, lá fora você é uma arma contra os humanos. Por que acha que não deixaram você chegar perto de Liam?
Minhas pupilas se comprimiram novamente. Será que havia uma mentira escondida?
– Ele estava dormindo. – disse baixo e vagarosamente.
– Ele acordou logo após que você acordou.
– Não é possível. – eu estava nervosa e quase chorando. — Treze me disse que ele acordou hoje, eu mesma o vi dormindo.
– Treze fez isso por que sabia que eu te contaria a verdade. – respondeu Josh. — Ele também não aguentava mais ver você sofrendo. Sabia que estão fazendo a mesma coisa com Liam? Para Liam você está em coma até agora.
– Eu encontraria com ele durante as refeições.
– Não, você não encontraria. – Josh disse lentamente. — Fizeram horários diferentes para você não encontrar com ele. Não é a primeira vez que a Proteção faz isso. Eles fazem isso com muita frequência. Para deixar os mutantes fracos psicologicamente.
– Por que inventariam toda essa mentira?
– Porque eles querem te ver fraca, vulnerável, porque você forte pode fugir a qualquer momento. – ele respondeu. — O jogo da Proteção é acabar com todos que são fortes. Todos os mutantes. Cada um.
Estava confusa e olhando para os lados. Não compreendia nada. Mas que raios Josh pretendia?
– Por que está me contando tudo isso? – perguntei.
– Porque eu acredito que você é a esperança para todos os mutantes que ficam presos na Proteção. Eu acredito que você pode mudar a história. Destruir a Proteção. Libertar seus semelhantes.
– Eu não sou forte o suficiente. – respondi. — Sou apenas uma mutante do nível quatro.
– Não é questão de força, é questão de união. – Josh dizia com certeza total. — Melhor se acalmar, não tenho remédios aqui para te injetar caso você tenha um ataque epiléptico.
Dei um sorriso forçado, talvez Josh jogasse mesmo com a Proteção. Meu mundo estava girando, tudo estava cada vez mais confuso.
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