Notas iniciais
Oi pessoal! Demorei um pouco pra postar, mas aqui está o capítulo. BOA LEITURA!

Acordei às sete da manhã com um som de alerta. Sentei-me na cama confusa. Havia adquirido um medo de sons estranhos.

– Que som é esse? – tampei os ouvidos ainda com estranheza.

– Hora de acordar, amiga. – Vick respondeu com um sorriso.

– Pensei que estávamos em perigo.

– Nem lembre. – disse Vick. — Foi horrível esse dia, só lembro-me de ter desmaiado e depois acordado aqui.

Como eu havia imaginado Vick não havia sido atingida pela luz que nos apagou. Ela havia entrado em choque por causa da situação de perigo.

– Eu não desmaiei por conta das armas deles, mas sim por toda aquela situação de perigo. – ela afirmou.

– Eu percebi. – respondi. — Só não fui tentar reanimá-la, porque seria muito melhor você apagada do que em pânico como todos estavam.

– Obrigada. – ela sorriu enquanto me ajudava a levantar.

– Está explicado porque você se recuperou tão rápido. Mas por que a Jane foi a primeira a acordar sendo que você nem foi atingida?

– Eles acharam melhor deixá-la sedada aqui do que num leito hospitalar. – Vick estava séria. — Jane levou uma grande onda de choque, tanto de medo quanto da arma. – as palavras de Vick saíam com dor. — Chorei tanto quando a vi sendo sedada. Em um dia desses vi a cena. Ela tremendo e gritando e um cara de branco injetava cinco seringas nela. Uma em cada braço, uma em cada perna e uma na nuca.

A cena provavelmente não era agradável. Só de imaginar um arrepio me subiu pelas costas, indo até a nuca. Balancei a cabeça para me libertar daqueles pensamentos frios.

– Jane tem horários próprios. No momento em que ela abrir os olhos e voltar a tremer eles voltam e cuidam dela. – Vick respondeu. — Ela recebe todas as refeições aqui por uma sonda. – as palavras saíram lentas e ainda mais dolorosas.

– Você já viu também?

– Já. – ela respirou fundo, como se também tentasse se livrar dos pensamentos. — Mas fui retirada logo depois que comecei a chorar. – em seguida a morena olhou para mim com um sorriso. — Consegue andar sem meu apoio ou vou ter que chamar o Treze.

– Prefiro você.

Vick riu. Ajudou-me a andar até a porta. E me encarou séria, como se quisesse alertar algo.

– Eu ouvi a conversa de vocês hoje de madrugada. Acho que ele é legal, mas pode te trazer problemas.

– Estamos aqui. – respondi. — E isso já é um grande problema, maior do que você pensa.

Ela abriu a porta e demos de cara com Treze. Ele continuava com o olhar de superior. Naquele momento parecia ainda mais carrancudo. Deixava-me nervosa e com ódio. Eu mataria todos da Proteção. E isso seria o pagamento pela dor que estavam causando a mim, a todas as pessoas que eu considerava algo na minha vida.

– Quer ajuda? – ele perguntou.

– Sim. – respondeu Vick. — Traga uma cadeira de rodas para Mariah.

Vick e eu ficamos paradas na porta, esperando Treze voltar com a cadeira. Não demorou muito, mais ou menos três minutos. Vick sentou-me e Treze nos acompanhou até o refeitório. Eu achava desnecessário. Queria ficar o mais longe possível dessas pessoas de branco.

– Um dia vamos poder andar sozinhas por esse lugar? – Vick perguntou e tinha o mesmo desejo que eu.

– Um dia. – ele respondeu. — Mas não vou deixar, Mariah demonstrou que a cada passo ela pode desmaiar ou matar alguém.

O encarei séria. Não havia graça nenhuma e não queria que pronunciasse meu nome. Queria distância. Fugir. Era isso que eu queria. A maior distância possível dessas pessoas idiotas que nos capturaram. Chegamos no refeitório, finalmente ficaria longe de Treze.

– Vick, você sabe como é o esquema, ensine para a mocinha. Qualquer coisa aqui tem vários seguranças para você pedir ajuda. — ele saiu andando de volta para o corredor.

O refeitório não era tão grande como pensava que fosse. Claraboias e grandes vidraças. Era evidente que isso aqui ficava no meio do nada. Provavelmente para ninguém descobrir que sequestravam mutantes. Haviam mesas de madeira pintadas de branco e os bancos também. Alguns vasos com lírios estavam em cima das mesas. O lugar inteiro era branco e monótono. Dava sono. Por sorte a fila não era muito grande.

– É ali que pega a comida? – perguntei.

– Não. – respondeu Vick. — Ali é onde pegamos o número da mesa, lá é onde pegamos a comida. – ela apontou para uma janela onde bandejas de comida eram distribuídas.

– Organizado. – respondi com uma pequena admiração. — Mas ainda é chato.

– E é. Somente os com controle podem comer aqui. Então não se assuste se não ver a Yoko aqui.

Ela me empurrou com a cadeira até a fila da comida. Não tinha atendimento especial, éramos todos iguais para a Proteção. Uma ameaça.

– Vamos fazer assim. Você pega as senhas e eu pego a nossa comida. – disse Vick com a animação que esperava dela.

– Certo. – assenti.

Dirigi minha cadeira até a fila das senhas com muita dificuldade. Até que de repente ficou fácil. Olhei para trás e lá estava Ryan. Os músculos estavam menores e seu olhar parecia mais cansado. As veias da super força não estavam saltando.

– Ah você. – tentei demonstrar desprezo, mas estava feliz por ele estar bem.

– Viu a Sam? – ele perguntou. — Eu sei que ela tá no mesmo quarto que você.

– Quando eu saí, ela ainda estava dormindo. E diferente do que você diria a mim, não vou responder que ela não está no meu bolso.

– Só você mesmo. – ele riu, mas logo ficou sério. — E que pena. Por você também. De cadeira de rodas. Deve ser horrível.

– Quando você tem que arrastá-la sozinho é. – respondi. — Mas quando alguém está empurrando chega até ser agradável.

– Fiquei sabendo do desmaio quando você viu o Liam.

– Não quero falar sobre isso. – respondi já com os olhos lacrimejando.

– Quando quiser desabafar é só me chamar. Tá bem?

Assenti. Havia chegado a minha vez. Pedia duas senhas e a mulher me entregou. Ela também carregava o olhar de superiora a todos. Todo aquele lugar organizado, limpo e branco me irritava.

– Olha que azar. – Ryan demonstrou surpresa. — Vou me sentar na mesma mesa que você.

– Que pena. – soltei um riso abafado, era o máximo que eu conseguia.

Chegamos à mesa. Esperei um tempinho até Vick chegar com a comida. Fiquei na beirada da mesa já que não conseguia me sentar graças a cadeira de rodas. Vick me entregou a bandeja.

Os fitei com um pouco de descrença. Três pãezinhos, dois ovos cozidos, uma maçãzinha e um copo grande de leite puro. Era agradável já que eu estava com muita fome, embora eu não gostasse do leite naquele modo.

– Bom dia, Ryan. – Vick sorriu e ele retribui. — Acho que você ainda não pegou seu café da manhã.

Ele se levantou correndo e voltou para pegar sua bandeja. Como se fosse a coisa mais importante do mundo e para Ryan era.

– Sempre esquecido. – dei uma mordida no meu pãozinho.

– E um dos seus melhores amigos. – Vick sorriu.

– Ele já esteve em uma posição melhor, mas ainda é amigo. – respondi. — Acho que dá para considerar como amigo.

– Eu sei amiga. – Vick continuava sorrindo e eu ainda não compreendia o motivo. — Quer algo da minha bandeja? Você está fraca e precisa se recuperar, precisa mais que eu.

– Não precisa. – respondi.

– Precisa sim, coma pelo menos um ovo, eu não gosto. – ela colocou o ovo na minha bandeja e seu sorriso aumentou.

– Obrigada. – correspondi ao sorriso, por mais que tenha saído fraco.

– É uma simples ajuda de uma simples amiga, uma amiga que quer que você fique bem e não que fique desmaiando feito uma epiléptica.

– Obrigada por me chamar de epiléptica. – ironizei.

Ela continuou rindo. E eu ainda me perguntava sobre como ela conseguia rir num lugar assustador.

Ryan voltou com a bandeja que havia acabado de pegar e se sentou do lado de Vick.

– Parece agradável. – disse Ryan.

Eu e Vick assentimos. A fome estava alterando nosso cérebro.

– Vick, me dá seu ovo? – Ryan perguntou.

– Não, já dei um para a Mariah, ela está muito fraca e você não. Seus músculos ainda estão aí. – Vick apontou com o garfo.

– Mas ainda não sinto que sou eu. Estou me sentindo inútil. Não consigo atingir o grau de super força. É muito estranho esse lugar. O que eles fizeram conosco?

– Entendo, não consigo entrar na mente de ninguém. Está tudo vazio e branco. Os olhos estão sem vida, não consigo ler nada. – respondi. — Esse lugar é o inferno vestido de anjo.

– Branco nós sabemos que está. – Vick riu enquanto terminava seu leite.

Terminei a comida e devolvi a ficha no mesmo lugar que a peguei, do mesmo jeito que Vick havia dito para fazer. Colocamos a bandeja na pilha, perto de onde Vick pegou a comida. Tudo muito organizado. Tudo muito direito. Tudo nada haver com o meu gosto.

Vick pediu para um segurança nos acompanhar até nosso quarto. Ela achava aquilo um tratamento especial e eu achava forçado. Quando chegamos lá, a mesma mulher de dourado estava no meio do quarto, a nossa espera. Vick me ajudou a sentar na cama e não consegui esconder a ansiedade. Estava a espera da mulher dizer que Liam havia acordado.

– Sente-se. – ela pediu e Vick se sentou calada, sem questionar.

Pelo que percebi, Sam recebeu a comida ali mesmo. Ela estava lá, sentada com cara de satisfeita. Jane estava meio acordada e meio dormindo, parecia que tínhamos uma pequena melhora da parte dela.

– Tenho notícias a vocês. – a mulher posicionou a prancheta para lê-la. — Os seguintes mutantes acordaram: Amy, Rachel, Ginna, Wesley e Frank. – ela disse vagarosamente. — Devido ao acidente que tivemos com uma de vocês. – as meninas me encararam e me senti ainda mais culpada. — Vocês só poderão visitar essas pessoas quando elas já estiverem em seus quartos. Obrigada. – ela se virou e quando foi fechar a porta eu a interrompi.

– Qual é o seu nome?

– Já estava me esquecendo, você vai ter que vir comigo.

Desci para a cadeira e limpei o suor que escorria no meu rosto. O que eles queriam comigo?

A mulher pediu para Treze empurrar minha cadeira. Tentei não transmitir minha decepção para eles, era difícil. Fui guiada pelo grande corredor, entrando em outros… e outros… e outros. Até que abriram uma sala e fui deixada lá, sozinha em um lugar extremamente fechado e abafado, com apenas alguns buracos no teto, era a ventilação. Fui trancada lá, ou pelo menos era o que parecia. Não entre em pânico, dizia para mim mesma. A luz foi passada para a forma mais forte, o que me fez fechar os olhos enquanto dizia a mim mesma que não era uma espécie de tortura.

Uma voz masculina e suave começou a ecoar:

– Abaixem a luz. A garota mal consegue enxergar.

A luz foi reajustada e destampei meus olhos.

– Olá. – disse a voz repetindo cinco vezes. — PROTEÇÃO.

– O que? – perguntei sem entender.

Um silêncio estranho se fez e minhas pernas tremiam na cadeira. Estava com medo.

– Como se sente? – alguém perguntou.

– Não consigo enxergar. – respondi. — Meus óculos. Preciso deles.

– Serão entregues a você. – a voz respondeu. — Só que não agora. Quando você sair talvez.

– Quem é você? – perguntei.

– Você vai saber logo que for retirada daí.

– Por que não me tiram agora? – perguntei séria. — Por que não libertam as pessoas que estão presas aqui?

– Preciso saber se você é perigosa como seus médicos disseram. E Mariah Hancan, mutantes, todos eles, são perigosos.

– Desculpe, pelo o médico. Não sei o que houve. Não sei mesmo! – minha voz estava rouca e eu estava com mais raiva.

– Acredito. – eu sabia que era mentira.

– Então por que me trancaram aqui? Por que trancam todos aqui?

– Já disse o porquê. Você tem que se acalmar. Assim vai receber medicamentos. – meus olhos se comprimiram. — Igual sua companheira de quarto, a celestial.

– Celestial? – eu sabia o que era, só não conseguia me lembrar.

Celestial era a raça de mutantes alados que possuíam poderes de cura. Eram como anjos. Com aparência angelical, bochechas cheias, cabelos brilhantes e de cores vivas, como loiro e vermelho. Olhos na maioria das vezes claros e arregalados.

– A com asas. Cada mutante é de uma raça, ela é da raça celestial.

– E eu sou do que? – perguntei.

– Não sabemos. – ele respondeu. — A princípio imaginávamos que você fosse da raça dos comunicadores ou leitores, acreditamos que é das duas. Mas depois do acidente com o médico, mudamos de ideia. Não faz sentido. – ele faz uma pausa. — Você é especial demais para apenas ler mentes e olhares. Quando estiver melhor podemos lhe contar algumas coisas, mas isso é somente com Josh.

– Quem é Josh?

– O nosso especialista em história mutante. – respondeu a voz. — Você e os novos mutantes logo terão a possibilidade de ter uma, somente uma conversa com ele. Ao menos que ele queira mais algumas. – ele ficou em silêncio e depois voltou a falar. — Podem tirá-la de lá. Ela me parece inofensiva.

A luz voltou ao normal e fui tirada de lá por outro segurança.

– Posso conversar com quem estava falando comigo? – perguntei.

O segurança se manteve calado. Entregou o controle da cadeira para a mulher de dourado.

– Quem era o homem que falou comigo?

– Sebastian Wilkman, mas chame ele apenas de Sr. Wilkman, mutante.

– O que ele faz?

– Ele é quem faz o primeiro contado oficial com vocês. Para obter dados e entender vocês. – ela falava “vocês” com um nojo visível. — Um trabalho perigoso, por isso a parede falsa de vidro.

– Parede falsa?

– É. Ele estava olhando bem nos seus olhos. Estava de pé, na sua frente. A três passos largos de você.

Fiquei quieta, apenas pensando nas informações. Sr. Wilkman. A três passos de mim. Olhando nos meus olhos. Por trás de um vidro falso. Dizendo que eu era inofensiva, como se eu fosse um animal selvagem. Meu primeiro contato oficial. Obtendo dados sobre mim com apenas uma pequena conversa que me pareceu totalmente inútil. Com toda a certeza a Proteção estava a frente dos homens comuns, talvez até a frente dos mutantes.

– Por que não levaram a Vick lá primeiro? – perguntei.

– Ela já sabe o que é. E ela não parece ser perigosa, pelo menos é o que as câmeras do quarto de vocês transmitiram. – a mulher respondeu. — Você deve saber o que ela é.

– Sereia.

A raça de mutantes que em contato com a água ganham uma calda de peixe, longa, viscosa e reluzente. Os cabelos ficam mais longos e com alguns fios coloridos. Ganham guelras para respirarem embaixo d’água. Os olhos ficam azuis ou verdes e as unhas ficam maiores.

– Exato. E o contato dela com o Sr. Wilkman também não é necessário, ainda mais porque ela não demonstrou desequilíbrio e está satisfeita.

Girei os olhos. Os perigosos desse lugar eram os humanos.

– Qual é o seu nome? – perguntei.

– Me chame de Srta. Olivar.

– Mariah Hancan. – falei.

– Não. – a mulher disse firme. — Você é a arma surpresa.

Arregalei os olhos e a mulher parou a cadeira.

– Não diga a ninguém que te ofereci essa informação, nem mesmo a Treze. Eu já percebi que ele conversa muito com você. Não conte criatura! Se contar eu prometo que acabo com o que você é.

– Vocês já estão fazendo isso. – respondi. — Com todo mundo.

Notas finais
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