The Intended: Mutant
15 As pedras de Shark
Notas iniciais
O chão era liso e branco. As luzes eram azuladas. Não tinha nenhuma janela. As paredes eram pintadas de cinza. Várias araras com roupas que se pareciam muito com as que o grupo de Zack usava. Por trás do balcão estava uma mulher ruiva, de pele queimada de sol. Os óculos escuros tampavam os olhos. E ela não sorria para ninguém. Josh foi até ela.
– Temos dezenove mutantes para Shark. – ele anunciou.
– Como vai pagar tudo Josh? – disse a mulher.
– Eu passei anos da minha vida na Proteção e agora que eu saio você me pergunta como vou pagar? Magda, você é mesmo uma…
Ela abriu um sorriso. Sensual e amargo. Poderia dizer que era um súcubo, mas ela parecia excessivamente natural.
– Calminha, a adrenalina é muita, certo? – ela tirou os óculos permitindo aparecer seus grandes olhos azuis avermelhados, com pequenos pontos brancos. — Você ainda deve estar aborrecido por eu ter impedido que você saísse de lá a cinco anos atrás, me perdoe, ok? – ela beijou a bochecha dele.
Josh suspirou mesmo estando nervoso. Estava cedendo aos encantos dela. Finalmente li os olhos dela. Magda era uma manipuladora, uma raça de mutante muito comum e perigosa. Eram arrogantes e cruéis.
– Tudo bem, mas pare com isso. Sabe que eu não esqueci. Eu sei bem o que você é. – Josh a ameaçou. — Me arrependo muito de ter te ajudado a sair de lá.
– Eu sou muito grata por isso. – ela respondeu sorrindo. — Eu só estava brincando com você, ok? Eu sei que você tem exclusividade com Shark, afinal é sua primeira vez fora da Proteção. Mande seu grupo se sentar, vou avisar a ele que você já chegou.
Magda saiu e nós sentamos no chão. Em menos de dois minutos ela voltou. Olhou para Josh e o mandou entrar. Quando ele voltou fixou o olhar em mim. Era a minha vez de entrar. Antes a mulher pediu para tirar uma foto minha e eu perguntei para que. Ela disse que precisava da foto para o arquivo do paciente. E isso me deixou confusa. Tirei a foto e assinei um arquivo já completo com todos os meus dados de mutante.
Entrei na sala. Estava tudo escuro, até que percebi um vulto.
– Olá? – perguntei.
O vulto não me respondeu.
– Magda disse para eu entrar. Já estou aqui. – tentei fazer contato.
A luz foi ligada, fraca e avermelhada.
– Você deve ser Mariah. – um homem todo tatuado abriu um sorriso, um sorriso que lembrava Treze de alguma forma. — Sou Shark.
Fiquei sem jeito e não disse nada. Não era timidez. Era medo. Já não acreditava nas pessoas com tanta facilidade. Dei um passo para trás. Assim seria mais fácil fugir se algo desse errado.
– Escapou da Proteção hoje? – ele perguntou.
– Sim. – respondi.
– Meu irmão trabalha lá. O nome dele é Snake, mas quando se entra na Proteção como segurança você vira um número. – ele riu quase cuspindo em mim. — Acho isso engraçado, mas enfim, ele é Treze.
Dei mais um passo para trás. Estava explicado o porquê de ele parecer tão familiar. Mas diferente de Treze, Shark não me irritava.
– Eu sei quem é ele. – comentei tentando não fazer contato visual.
– Está nervosa?
Ele havia percebido e isso me deixava mais nervosa.
– Não, mas disseram que você está. – respondi.
– Zack. – ele balançou a cabeça em negação. — Eu tive uma briga com ele agora a pouco, afinal ele chamou o grupo dele de “mutantes de lixo”. Foi ofensivo. – ele ficou em silêncio e eu sorri. — Logo você vai chorar de medo.
– Como assim? – perguntei nervosa.
– Josh não explicou a vocês sobre o procedimento? – perguntou Shark. — Ele me disse agora a pouco que explicou.
– Não prestei atenção.
– Ninguém presta. – isso era um fato.
Shark me pediu sentar em uma cadeira. Era estranha, espaçosa e se movimentava para trás. Negra e de couro.
– Coloque seu braço no apoio. – ele pediu. — Os dois braços. Não tenha medo. – ele pegou uma espécie de faca.
– Pare! – disse assustada. — Você é um mutante?
– Sou. – ele respondeu com calma.
– Que nível?
– Dois. – ele respondeu. — Algum problema?
– Meu sangue mata as pessoas. – falei lentamente.
– Tudo bem. – ele disse suavemente. — Fique calma. Não sou uma pessoa comum. Podemos conversar durante o procedimento, o que acha?
– Tudo bem.
Shark segurou meu pulso. Minhas veias pareciam recuar. E eu gelei, como se estivesse em choque, com medo. Meu braço ficou dormente e Shark logo em seguida injetou um liquido azulado com uma seringa. Depois, com a faca, ele fez três círculos em cada pulso, formando um triângulo. E naquele momento pensei que pudesse morrer. Mas isso não aconteceria.
– Qual sua raça? – perguntei para escapar dos pensamentos que me atormentavam.
– Sou um protetor. – ele respondeu.
– Nunca ouvi falar dessa raça.
Ele retirou os círculos de carne e pele.
– Quando uma pessoa está comigo nada de ruim acontece com a pessoa. – disse Shark. — Eu nasci assim e eu aprendi com minha avó também. Ela era uma feiticeira, minha raça predileta. – ele abriu um sorriso sincero. — Ela me ensinou tudo o que eu sei, ela sabia tudo sobre proteção.
– Não sabia que feiticeira é uma raça.
– É sim. Se você é um humano não pode virar um. Precisa nascer com o dom.
Shark pegou seis pedras lilases. Eram brilhantes e em formato de esfera. Colocou-as cada uma dentro dos círculos. Não sentia meu braço. O formigamento era cada vez maior e ainda mais gelado.
– Que pedras são essas?
– São pedras protetoras. – Shark respondeu.
– O que elas fazem?
– Na Proteção seus poderes são bloqueados, mas se você tiver essas pedras em cada pulso isso não acontece. – ele respondeu. – Muito útil, ainda mais agora que a Proteção está em todos os lugares.
Shark colocou os pedaços da minha carne e pele de volta no lugar, cobrindo as pedras. A pele cicatrizou rapidamente. Os braços pararam de formigar e eu nem sentia as pedras no pulso.
– Agora, você não pode vir a um tatuador sem ser tatuada.
– É verdade. – sorri impressionada com meus pulsos.
– Os outros mutantes precisam ver que você é uma protegida. – disse Shark. — Que você passou pelo o estúdio do Shark! – ele riu.
O tatuador tatuou por cima das pedras três círculos idênticos as esferas. Aquilo indicava que elas estavam ali. Protegendo-me.
– Obrigada.
Ele assentiu. Levantei e quando fui sair do cômodo, Shark segurou meu braço e olhou dentro dos meus olhos. E de seus lábios uma frase passou a marcar minha vida:
– Estamos confiando em você.
Abri um sorriso tímido em meio à confusão que estava acontecendo. Queria saber o que tudo aquilo significava. Mas tinha a certeza que as respostas demorariam a serem dadas.
Caminhei de volta para a loja. Não tinha noção do que poderia acontecer. Mas medo eu não sentia. E era o mais estranho.
Todos os olhares foram para mim. Queriam ver se alguma coisa havia mudado. Liam me abraçou.
– Está tudo bem com você? – Liam perguntou.
– Está. – tentei me soltar dele.
– O que fizeram de diferente em você? – sabia que ele perguntaria isso.
Mostrei os pulsos para ele e em seguida Magda chamou Jane.
– Só isso? Pensei que iam fazer, sei lá, um dragão negro cuspindo veneno, mas é só uma tatuagem idiota. – Liam parecia indignado.
– É um implante. – respondi vagarosamente.
– Como assim?
– Você vai ver quando for sua vez.
Deixei-o curioso, mas foi por pouco tempo. Depois que Jane voltou chorando, ele é que foi chamado. E depois ele voltou, me abraçou e pediu desculpas por ter zoado o procedimento. Claro que eu não aguentei e comecei a rir.
– Você devia se importar menos com as coisas que me diz. – disse a ele.
– Só me importo com o que você pensa, sendo importante ou não.
Ri mais um pouco e o abracei. Todos lá olhavam para nós, sem fazer ideia do que estava ocorrendo. Mas logo saberiam.
Magda continuou anunciando os nomes. Ryan, Vick, Frank… assim por diante até todos já terem as marcas.
Shark saiu do estúdio e pediu para Magda sair da loja. A ruiva saiu, deixando apenas Shark e nós lá.
– Quantos demônios estão aqui? – ele perguntou.
– Três. – Josh respondeu,
– Os três lá dentro. – pediu Shark. — Demônios costumam ter dragões nas costas. Aumenta o fluxo de poder dos elementos, ainda mais se forem todos mesmo do nível zero.
Liam me soltou e entrou lá novamente. Quando voltou, levantou a camisa e mostrou as costas tatuada. Tratava-se de um dragão branco cuspindo ar pela enorme boca, repleta de dentes. E a tatuagem parecia brilhar.
– Incrível. – admirei.
Frank entrou e depois voltou rindo lateralmente. Já sem a camisa, mostrando a costa também tatuada com um enorme dragão. Só que este era vermelho e cuspia fogo. Depois foi a vez de Yoko, que tremia muito. Exalava medo a distância, mas logo depois ela sorriu e olhou para todos.
– Eu não vou mostrar meu dragão a vocês.
Logo depois aconteceu algo estranho, Shark chamou Vick e ela caminhou lentamente. Quando voltou estava completamente calada. E ninguém compreendeu.
Shark voltou para nós. Estava sério, muito diferente de antes.
– Gosto de revelações sabiam? – disse o tatuador.
Eu não havia compreendido, assim como todos ali.
– Mas vou deixar para os superiores contarem a vocês. – continuou Shark.
Josh se levantou e encarou Shark de uma forma nervosa. Fechou os punhos como se fosse dar um soco, mas depois acabou abrindo as mãos. Aquilo não valia a pena.
– Você cometeu um engano, Josh. – disse Shark olhando nos olhos de Josh.
– Eu nunca cometo enganos. – Josh deu um passo para frente de Shark.
Naquele instante eu pude ouvir o pensamento de Shark. “Nem todos aqui são mutantes de nível zero, Josh vai pagar pelo o engano que cometeu, os superiores vão fazer algo com ele”. Arregalei meus olhos e Shark olhou para mim. “Eu sei que você ouviu Mariah. Não tente protegê-lo, ele não merece proteção alguma”.
Liam pegou minha mão e perguntou o que havia acontecido. Eu estava imóvel, como se estivesse vendo alguém morrendo sem poder fazer nada para evitar. E mais ou menos era isso que acontecia. Só que lentamente.
– Você cometeu um engano de novo. – Shark apontou para a porta. — É melhor ir embora agora.
– Os superiores não vão gostar de saber que você disse que eu cometi um engano.
– Eu não ligo para os superiores, eu estou do lado certo. – Shark olhou no fundo dos meus olhos. — Tem muito rebelde que também está do lado certo, você só está do lado mutante exatamente como Zack. Agora vá embora Josh, seus mutantes já estão protegidos de verdade, não estrague tudo outra vez.
Saímos de lá e fomos para o carro, mas antes de entrar tinha que falar com Josh.
– Aonde vamos agora? – perguntei curiosa.
– Para a verdadeira casa. – ele apertou as mãos dos gêmeos que continuavam com ele e a mulher.
Olhei para Josh sem entender o que significava “verdadeira casa”, afinal eu estava muito longe da minha verdadeira casa. Não fazia nenhum sentido. Aquilo só me deixava ainda mais curiosa.
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