The Hidden Kiss
16 Nothing Left to Say
Notas iniciais
* * *
Tudo que Emma conseguiu fazer foi levar as mãos até o pescoço, numa tentativa falhada de afastar a força que a impedia de respirar. Regina a encarava com um olhar vazio, sem cor. Por um momento, ela não reconheceu a antiga Prefeita. Quando sentiu sua cabeça se pressionar contra o chão, Regina deu-lhe as costas. Logo, todo o peso saiu de cima de Swan subitamente. A dor mental foi o primeiro impacto, logo a dor física se espalhou por todo o corpo.
“R-Regina” Gemeu Emma com o ar que conseguira recuperar.
“Você é fraca. Você consegue, mas não quer.” Regina resmungava impaciente.
“Eu não sei fazer o que está me pedindo!” Gritou Emma, tentando pôr-se sentada. “Dê-me um tempo.”
“Tempo? Acha que temos tempo?” Urrou Regina, virando-se agressivamente. “Você acha que a cavalaria do seu reino irá hesitar em mata-la? Quando pegar o que preciso, você realmente acha que eles vão poupá-la? Não, Emma Swan, eles virão que é minha aliada e não hesitarão um segundo em enfiar uma espada no seu peito!”
“E por que eles têm que saber que sou sua aliada, Regina Mills? Por que eu não posso simplesmente pegar aquela droga e ir embora?!” Gritou repetindo o tom da morena.
“Porque você é fraca.” Respondeu seca, aproximando-se. “Você não será capaz de fingir, caminhar por Henry, enganá-lo, para depois fugir. Você não suportaria o olhar decepcionado de Henry ao vê-la sendo consumida pelas trevas.” Dizia friamente. Emma engoliu seco. Agora, Regina estava a poucos passos de seu corpo sentado no chão. A Rainha esticou a mão, oferendo ajuda. Emma receou fazê-lo, mas por fim segurou-a.
“N-Não estou sendo consumida pelas trevas.” Disse Swan baixinho. Regina sorriu.
“Claro que não, querida.” Respondeu fria e sarcástica. Emma franziu o cenho, mas preferiu não insistir. “Vamos fazer um acordo.” Regina repetiu. “O meu tipo de acordo.”
“O que quer dizer?”
“Você vai me obedecer, servir a mim até o conseguirmos o espelho.” Propôs. “Assim que tivermos a passagem, você seguirá sua vida e eu a minha.”
“O quê?!” Exclamou Swan. “Aquele tipo de acordo que só você sai ganhando? Não vou servir a você. E não vou desistir de Henry mesmo quando voltar para casa.” Tagarelava.
“Então avisarei a cavalaria que a Princesa perdida foi encontrada. Quem sabe me dão uma boa recompensa.” Regina ameaçou dando-lhe as costas.
“Não!” Gritou Emma.
“O que disse?”
“O que você quer de mim?” Os olhos verde-esmeralda fitavam o chão. Regina voltou a olhá-la detalhadamente. Seus ombros caídos. Para Emma não restava uma alternativa. Se quisesse voltar para casa. Se quisesse voltar a ter uma vida.
“Apenas umas coisinhas, querida. Está tudo bem.” Respondeu Regina dando passos até a loira. “Somos cúmplices agora.” Acrescentou.
“Só até conseguir o espelho.” Balbuciou Swan.
“Então é melhor eu começar logo...” Regina tocou o queixo de Emma, fazendo-a olhar em seus olhos. “Vamos tentar mais uma vez.” Então, a Rainha deu passos rápidos para trás e lançou uma esfera de energia contra a loira. “Reaja!” Gritava.
* * *
Ninguém podia perturbá-los. Pelo menos por enquanto. David estava sentado àquela mesa de reuniões a mais de uma hora. Gepeto o havia deixado com uma promessa de conseguir achar sua filha perdida. Contudo, algo estava errado. Mais errado do que o Rei poderia imaginar. August ficara calado durante toda a reunião, assim como Ruby. Eles pareciam ter perdido as esperanças. O rapaz havia sentido dores, e a morena insônia. Todos sofriam — de um jeito ou de outro — com a ausência da loira. Snow não mais saía de seu quarto, falava pouco e a única fonte de felicidade estava adoecida. Era a terceira noite que Henry tremia de febre em seu leito. David via sua família desmoronar pouco a pouco sem poder fazer absolutamente nada.
O Rei levantou-se do trono, farto. Saiu da sala e caminhou até o quarto do neto. Sabia que haveria uma equipe dando a assistência merecida ao menino. Ruby, Snow, Granny e até a Madre Superior certificavam-se de que Henry estaria confortável e faziam o máximo para fazê-lo sentir-se melhor.
“Como vai meu campeão?” Disse David em um tom morno. O menino estava ensopado de suor, e as olheiras de cansaço significativamente visíveis. Um aperto em seu peito o afligia só em constatar a cena.
“A febre não cede.” Choramingou Snow, ajeitando o pano úmido sobre a testa do menino. Ruby estava sentada no colchão da cama, acariciando a perna coberta de Henry.
“Mas já vai melhorar, não é, amigo?” Disse David tentando animá-lo. O menino virou a cabeça para o avô, sorrindo genuinamente.
“Quero sair daqui logo” Reclamou Henry.
“Você vai. Aí nós podemos brincar de luta de novo!” O Rei dizia contente. “Tenho muita coisa para ensinar. E Ruby também, não é?” Acrescentou olhando para a mulher. Ruby tinha um olhar perdido, mas assentiu ao perceber que falavam com ela.
“Está tudo bem, Ruby?” Indagou Snow, num tom preocupado.
“Claro. Eu... Eu só preciso dar uma saidinha.” Resmungou levantando-se. “Tudo bem por você, Mary?”
“Sim, tudo bem.” Balbuciou com estranheza.
Ruby andou hesitante até sair do quarto, mas quando adentrou o corredor principal, não tardou em correr o mais rápido que podia até o primeiro andar. Ela não podia ficar calada. Emma precisava saber o que acontecia com o próprio filho. Talvez voltasse se dissesse. Ela só parou quanto avistou a jaqueta preta a sua frente.
“Pensei que não viesse.” Queixou-se August. “Venha.” Chamou. O homem guiou-a até a saída pela cozinha, a saída mais discreta até o enorme campo seco.
“Nós temos que falar com ela, August.” Disse Ruby certificando-se que ninguém os escutaria. “Emma precisa saber que Henry está doente. Ela precisa voltar.” Choramingava.
“Eu sei Red. Mas ela está com a Regina. Mesmo se quiséssemos falar com ela, teríamos que passar pelos zumbis servos da Rainha.” Esclareceu o rapaz, racionalmente. “E nós dois sabemos que Emma não está presa lá dentro. Está lá porque quer.”
“Mas quando ela souber de Henry, irá voltar!” Exclamou Ruby. August repreendeu-a com o olhar. Eles precisavam ser discretos. Ou seriam considerados como traidores. E de certo modo, eles eram.
“Será, Red? Será?” Duvidou. “E se Emma quiser pegá-lo, mas não voltar?” Sugeriu o rapaz, lamentando-se.
“Por que Emma quer tanto ficar naquele castelo?! Quer dizer, por que ela acredita tanto que Regina não queira mais vingança?” Ruby lastimava. August nada precisou dizer. Ambos sabiam a resposta de cor e salteado. O rapaz perdeu seu olhar no horizonte, tinha um ar pensativo até voltar seus olhos à amiga.
“Você não pode falar com ela. Porém, você pode falar com a Rainha. Tenho certeza que Regina ficará tão alarmada quanto Emma.” August dizia. “Se Emma está refugiada no castelo de Regina é porque ela, de certa forma, mudou. Ou devo lembrar-te de quanto ela atingiu Henry tentando matar Swan?” Insistiu.
“Eu sei, eu sei! Mas é difícil aceitar essa tal mudança... Afinal, eu acompanhei todas as tentativas de assassinato da Snow.” Balbuciou Ruby, chutando o ar. “Mas eu temo que Emma-”
“Sim...” Resmungou August. “Mas você sabe... Vai acontecer.”
“Não há nada que possamos fazer contra isso?!” Ruby choramingou.
“Ruby, nós sabemos como isso termina.” Disse August, num tom severo. “Nós lemos o livro, vimos o final da história.” Ruby bufou impaciente.
“Odeio saber disso.” Protestou a morena. “E eu odeio ainda mais ter que esconder aquele livro. Henry já me perguntou milhares de vezes! Provavelmente já deve ter lido o final da história.” Ruby tagarelava. “Ele provavelmente sabe que a Emma-”
“Não, acredito que não. Henry não seria capaz de guardar tal segredo...” Concluiu August. “É melhor você voltar. Vamos nos encontrar à noite, e eu a levo até o território encantado da Rainha.” Acrescentou, dando as costas.
“August!” Ruby chamou. “Por que você pode ver o castelo e nós não?” O rapaz já havia subido na moto quando lhe foi perguntado.
“Por que eu acredito!” Exclamou sobre o barulho excessivo de sua moto. No minuto seguinte, a imagem de August já se confundia com o tom escuro da floresta. E embora Ruby quisesse de todo jeito voltar para casa, tirar seu capuz e correr até o castelo da Rainha, ela precisava amparar à amiga e seu neto adoecido.
* * *
A noite já havia chegado. A lua substituíra a função do sol de iluminar a noite e se colocava no céu como uma enorme lâmpada sobre ambas as mulheres. A loira estava ferida, tinha as mãos ensanguentadas e o corpo dolorido. A tutora, pouco menos machucada, não saíra ilesa do treinamento. Emma era uma pedra bruta, precisava ser moldada até estar preparada. Mas o processo era perigoso, e embora Regina fosse habilidosa na magia, não conseguia controlar aquele tipo.
“Mais uma vez.” Exclamou a morena ofegante. Swan levantou-se do chão, segurando seu próprio pulso firmemente. Sua mão doía a tanto tempo que não sentia mais nada nos últimos minutos.
“Regina... Estou cansada. Já está de noite.” Emma havia parado de contar quantas vezes implorara por uma pausa, um descanso, mas Regina nunca cedia.
“Temos mais três dias até o casamento de Gold. Se você souber revidar um dos meus feitiços até lá, vai ser uma surpresa.” Zombou Regina. “Mais uma vez!”
E assim, Regina ergueu os braços até a loira, fazendo com que seu corpo fosse jogado ao ar, rodopiando e rodopiando inúmeras vezes antes de cair ao chão. Nada foi diferente das últimas centenas tentativas. Emma era movida pela raiva, pelo ódio, pelo ciúme, assim como Regina. Contudo, nada disso era o que a loira sentia. Regina não teria dado crédito à queda se não fosse pelo barulho significativo de algo se quebrando, seguido de um grito estridente.
A morena saltou do chão, correndo até Swan decaía sobre a grama molhada. Emma segurava a própria perna com força, seus olhos fechados comprimiam uma lágrima prestes a derramar.
“Você está bem?!” Balbuciou Regina tocando a perna da loira.
“Lógico que não! Não vê?!” Gritou Emma. “A-Acho que eu...”.
“Não, não, está tudo bem.” Regina se apressou a discordar. “Venha, você consegue andar, não consegue?” A morena ergueu a mão, oferendo ajuda, mas Emma continuava a derramar lágrima atrás de lágrimas. A Rainha sentiu um aperto no peito, sabia que não era um corte superficial. “Venha” Sendo assim, Regina envolveu seu braço nas costas da loira, enquanto o outro braço segurava o inferior da coxa. Ela teve dificuldade de levantá-la do chão, mas não se atreveu a falhar.
“O que está fazendo?” Gemeu Emma, segurando-se no pescoço da morena.
“O que parece que estou fazendo, Miss Swan?” Queixou-se Regina, aguentando o peso do corpo da loira.
“Merda Regina! Nós podíamos ter parado antes!” Gritou Emma, apertando sua própria perna. Regina andou até determinado ponto, com a loira em seus braços. Swan mal sabia onde o castelo se localizava muito menos que estava logo ali todo o tempo. A morena tocou o ar, e de repente a estrutura gigantesca foi aparecendo aos poucos. Lá estava a entrada do palácio há poucos metros das duas.
“Majestade... Deixe-me leva-la.” Subitamente o cavaleiro surgiu. Regina franziu o cenho. Eros erguia os braços, pronto para toma-la de si.
“Não!” Exclamou a Rainha. “Eu irei leva-la, entendido?” Acrescentou severamente. O homem rapidamente se encolheu. A morena prosseguiu a andar. Emma choramingava em seu pescoço, gemendo e resmungando baixinho. Os degraus eram altos e cansativos, Regina se via esgotada pelo peso que carregava.
Os corredores ficavam cada vez mais largos. Regina sabia que a magia curaria o osso quebrado da perna de Emma, mas a loira não se quietaria até estar confortável. Logo a maior porta do final do corredor chegou. Regina a empurrou com as costas e deitou a loira em sua cama. Emma continuava a apertar a própria coxa em busca de conforto, ou talvez imaginasse que assim cessaria a dor. Regina deu as costas e virou-se para o enorme espelho.
“Sidney apareça!” Chamou a Rainha, num tom de desespero. Logo a imagem do homem foi surgindo calmamente. “Peça para trazerem-me uma boa dose de morfina. Agora!” Exclamou. Subitamente o olhar o reflexo pairou sobre a cama da Rainha. Seu rosto tomou cor, franzindo o cenho.
“Vossa Majestade, o que essa mulher faz em seu leito?!” Indagou enciumado.
“OUVIU O QUE DISSE?” Gritou Regina, acertando um soco contra o vidro espelhado. O homem saltou no susto e assentiu prontamente. “AGORA!”
A mulher deu as costas e voltou para a loira deitada sobre o colchão. Regina sentou ao lado de Swan, examinando o local ferido. Emma estava como uma concha, agarrada a sua própria perna.
“Deixe-me ver.” Disse Regina num tom morno.
“Não” Resmungou a loira.
“Pare de fazer birra, Miss Swan! Deixe-me ver isso!” Exclamou Regina, segurando as mãos da loira.
“Até onde eu sei, a perna é minha. Deixe-me em paz!” Gritou Emma, afastando-a. Regina engoliu seco, sentindo uma pressão em seu peito. A Rainha respirou fundo, não ia deixar as palavras da loira atingirem-na.
“Emma Swan, eu só poderei curá-la se me permitir.” Sibilou. Emma virou o rosto, fitando qualquer outro lugar que não a mulher. Um sorriso brotou nos lábios da morena. Aquele gênio a lembrava Henry quando pequeno. Recusava-se a receber qualquer ajuda — qualquer que fosse — mesmo que fosse de extremo necessário.
“Do que está rindo?” Resmungou Emma.
“Não estou rindo.” Disse Regina, desmanchando seu sorriso rapidamente. “Deixe-me ver, Swan.” A Rainha segurou as mãos da loira, impedindo que se movimentasse muito. Com a mão livre, ela voltou até a perna fraturada da mesma. Sua mão deslizou sobre o pano que a cobria, sentiu um leve declínio da pele. O osso havia se movido para outro lugar, e consertá-lo seria uma tarefa dolorosa.
Subitamente, a porta do quarto se abriu. Claude e Eros caminharam apressados até a Rainha. O moreno carregava a bandeja com o pedido feito minutos antes, enquanto o cavaleiro preocupava-se em fitar a mulher ferida, como se dada mais fosse relevante.
“Não disse que você estava dispensado?!” Regina exclamou a Eros.
“Deixe.” A voz da Emma resmungou baixinho, enquanto ela segurava o braço da morena. “ Deixe-o aqui.” Regina a fitou por um momento, com a sobrancelha arqueada.
“Tanto faz.” Balbuciou Regina ríspida. “Dê-me isso, Claude.” Ordenou, já pegando a seringa. O líquido era transparente como água, mas frio como álcool.
“O que é isso? Regina!” Exclamou Emma.
“Quieta, Miss Swan.” Regina, segurou o braço da loira firmemente. “É isso ou sentir seu osso voltar para o lugar. O que prefere?” Disse severamente. Emma fechou os olhos, permitindo que a morena prosseguisse. Sendo assim, Regina depositou o liquido no corpo da loira. Deixando a agulha perfurar a pele e derramar a morfina. Em poucos segundos, Swan não sentiria mais nada.
“Vossa Majestade me parece melhor.” Sussurrou Claude. Mas Regina decidiu ignora-lo. “Vejo que extravasou sua raiva.”
“Cale-se Claude.” Repreendeu a Rainha. O homem não o fez sem antes dar um de seus risinhos.
“Ele está certo.” Resmungou Emma ainda apertando o braço da morena. “Foi culpa sua.” Os músculos de Swan foram relaxando aos poucos, sem pressa. Regina sentiu como se um tiro fosse acertado em seu peito. Ela desejou não estar com expressão alguma no rosto, pois, a essa altura, o pouco de controle que lhe restara não a permitia emoldurar sua própria face. “Tudo isso.”
Sendo assim, a loira fechou seus olhos verde-esmeralda, e, mais uma vez, adormecera na presença da Rainha. A cabeça recaiu sobre o colo da morena, mas esta não ousou se mexer. Pelo contrário, cada músculo, veia, e célula de seu corpo congelaram. Se dissesse se arrepender, estaria mentindo. Era essa a intenção; ferir Emma. Contudo, o físico era o único ponto onde Regina poderia lutar. Swan era forte emocionalmente. E por mais que Regina quisesse se convencer do contrário, sabia que só enganaria a si mesmo. Portanto, tratou de convencer a ela que era fraca como a mãe. Fraca como o lado que escolhera. O que ela julga ser o bem.
“Parece que você fez um ótimo trabalho aqui.” O homem comentou, dando a volta na cama.
“Eu não queria machuca-la...” Regina resmungou baixinho. Claude a fitou com um olhar entediado. “... Tanto.” Subitamente, o sorriso voltou a brotar em seus lábios. A marca do homem.
“Minha querida, vamos ao que interessa: Quer que eu faça isso?” Indagou, apontando para a perna da loira. Regina segurou a cabeça de Emma como quem segura um cristal delicado. Ela a pôs sobre a cama cautelosamente para que não se movesse muito. Logo em seguida, Regina se levantou.
“Vossa Majestade deseja que eu saia?” A voz de Eros a fez saltar. “Perdoe-me” Lamentou-se rapidamente. Regina virou-se bruscamente, havia esquecido que o cavaleiro ainda estava ali.
“Não, Eros.” Respondeu a Rainha, muito a contragosto. “Swan tem essa fixação em você. E, até então, isso a faz bem.” A morena dava passos até o homem, que fitava o chão a todo o tempo, mas tinha ciência da aproximação da Rainha.
“O que quer dizer, Majestade?” Resmungou Eros hesitante, sem olhá-la. Regina cerrou o punho, segurando-se para não machuca-lo — coisa que era de extrema dificuldade para a Rainha. Contudo, Regina impôs um sorriso sínico contra seus próprios lábios.
“Que você será libertado mais brevemente que pensa.” Eros a olhou receoso. Não tinha certeza se deveria comemorar ou não. Se queria ficar ou partir. Regina logo percebeu. Não via o brilho no olhar o cavaleiro. Eros era ingênuo e, devido ao seu passado, muito transparente naquilo que sente.
“Não está contente, cavaleiro?” Regina indagou, aproximando-se do homem. Sua voz tinha um tom grave e ameaçador. “Mudou de ideia sobre voltar a ser lobo?”
“Não!” Exclamou Eros. “Quero dizer... Eu só...” Balbuciava. Regina sentiu seu rosto arder de ódio.
“E o daria essa mudança repentina de ideia, cavaleiro?” A mulher deu apenas mais um passo até o homem. Seu dedo tocava o queixo de Eros, forçando-o a olhá-la nos olhos. Seus olhos coloridos — vermelho e preto — tinham as pupilas dilatadas de medo. “Ela?” Questionou, apontando para Emma desacordada.
“Não, Majestade. Não há nada entre mim e a Princesa, por favor, não pense o contrário.” Eros suplicou, compreendendo o verdadeiro tom da Rainha. “Somos bons amigos.”
“Já beijou ela, cavaleiro?” Regina foi mais invasiva. De longe, uma risadinha. Eros engoliu seco, hesitando por um segundo.
“Não, Majestade.” Respondeu o homem de voz trêmula, após alguns segundos. Logo, passos mais barulhentos foram dados até ambos. Claude, com seu habitual sorriso, aproximou-se há tão poucos centímetros do homem quando a própria Rainha estava.
“Majestade — se me permite — creio que a pergunta certa não seja esta.” Claude comentou, comprimindo os olhos azuis cintilantes. A sobrancelha de Regina se arqueou. Eros deu um passo para trás, por instinto, mas já estava à mercê dos dois com suas costas encostada parede.
“Diga-me a verdade, querido.” Sibilou Claude. “Ela já o beijou?” Acrescentou, prolongando seu sorriso um pouco mais. Eros tinha a respiração conturbada, seu peito subia e descia conforme seus batimentos cardíacos eram igualmente agitados. Regina sabia a resposta. A Rainha deu as costas voltando para a cama onde Emma adormecia.
“Chega. Isso é suficiente.” Ordenou Regina em voz alta.
“Majestade, posso jurar que na Princesa não há lugar para outro. Tenho certeza de que-”.
“Acredito que a Rainha disse que já era o suficiente, não acha?” Claude interrompeu rapidamente. Regina virou-se franzindo o cenho. O que ele iria dizer? Eros tinha as sobrancelhas arqueadas e lábios entreabertos. Ele precisava falar algo.
“Eros?” Regina resmungou. O cavaleiro fitou Claude por um segundo, e então a Rainha. “Diga-me! O que quer dizer com outro?” Insistiu.
“Vá querido.” Claude interviu, num tom sínico. “Está tarde. Todos já deveríamos estar na cama.” Disse com malícia.
“Eros... Fale.” Regina ultrapassou o aliado, num tom preocupado. Eros entreabriu a boca mais uma vez, contudo, seu olhar pairou sobre Claude logo atrás da mulher.
“O senhor está certo.” Eros balbuciou, fitando o chão. “Eu devo ir... Se me permitir.” Acrescentou o homem submisso. Regina sentiu seus ombros caírem em decepção. Eros não ousou olhá-la até que ouvisse a confirmação de sua dona.
“Pode ir.” Afirmou. “Mas volte quando quiser. Ela vai querer vê-lo ao acordar.” Acrescentou a contragosto. Um pequeno sorriso brotou nos lábios do cavaleiro. Regina sequer precisava se perguntar, sabia que era verdadeiro.
Assim que a enorme porta se fechou, Regina virou-se para a loira desacordada. Ela estava abraçada ao seu travesseiro, com o cenho franzido como se, apesar da morfina ainda em seu corpo, ela sentisse a dor de sua perna.
“Eu posso fazê-lo.” A voz de Claude soou perto de seu ouvido. Regina o olhou de sobrancelha arqueada.
“Não pense que me esqueci do nosso acordo. Você não toca nela.” Deixou claro, num tom ameaçador. Claude sorriu.
“Mesmo depois de ela beijar o cavaleiro, Majestade?” Indagou duvidoso. Regina fitou a mulher abraçada ao seu travesseiro e, voltou ao homem.
“Não importa isso.” Resmungou Regina. “Preciso dela viva.” Prosseguiu, sentando-se ao lado da mulher. A Rainha segurou a perna de Swan delicadamente, pondo ambas as mãos em volta da fratura. Era possível ver a elevação do osso na pele, e consequentemente na calça.
“Vai precisar tirar.” Comentou Claude amargamente, referindo-se à calça. Regina engoliu seco, mas prosseguiu. Sua mão subiu até o cós da calça de Swan, deslizando o pano sobre a pele branco.
Subitamente, uma lembrança lhe veio em mente. Regina estava parada na porta do quarto de Emma na hospedagem da Granny. A loira somente de regata e lingerie. A Rainha lembrava-se de não ver um sinal no rosto da antiga Sheriff que indicasse vergonha. Pelo contrário, Emma parecia adorar provoca-la estando somente daquele jeito.
Ultrapassando a coxa, Regina apressou-se para retirar a calça sem muito tocar o ferimento. Assim como quando Emma caiu de Rocinante, o osso estava prestes a invadir a pele e furá-la. A Rainha tinha essa habilidade, esse sangue frio, mas isso estava se tornando mais difícil ultimamente. Sendo assim, ela prosseguiu. Depois de retirar as botas e, finalmente, a calça, Regina deslizou seus dedos pela pele branca de Emma. Seus olhos pareciam pesados, e sua mão apertava a fronha do travesseiro. Talvez sentisse a dor, mesmo inconsciente.
A Rainha envolveu ambas as mãos sobre a perna, apertando de leve. Logo um tom roxeado tomou as mãos da morena. Contudo, essa cor fora se tornando mais clara à medida que os segundos se passavam. Regina franziu o cenho, confusa.
“Minha Rainha!” De repente, a voz grave do servo a fez parar. Regina procurou pela origem da voz, e lá estava o homem moreno em meio ao espelho.
“O que foi Sidney?!” Exclamou Regina, revirando os olhos.
“Temos companhia! Há poucos quilômetros do castelo!” Alertava o reflexo. Então, os olhares de Regina e Claude se cruzaram.
“Quem, Sidney? Quem?!” Regina indagou, em conflito. Suas mãos voltaram a brilhar, mas não a mesma cor. Pelo contrário, um tom mais escuro e cada vez mais.
“Um motoqueiro e a conselheira da Rainha Snow.” Disse Sidney, alarmado. Regina franzia o cenho, mas tinha seu olhar voltado a Emma. O que ela deveria fazer? Sabia que era Ruby e algum amigo da loira. Red poderia esperar. Swan não. Foi tudo que conseguiu concluir.
“Eu cuido disso.” Claude disse, dando as costas.
“Não os machuque. Não é preciso.” Ordenou Regina, severamente. “Peça-os que me espere.”
O homem assentiu, com uma expressão insatisfatória. Claude dissipou-se logo depois, lenta e dramaticamente como apreciava fazer. Deixando apenas seu sorriso e seus olhos cintilantes para trás, estes que desapareceriam segundos depois. Contudo, nada disso foi alvo da atenção da morena. Não, Regina olhava apenas a perna ferida da loira. Aliás, culpa sua também. Swan tinha razão. Tudo que acontecia era culpa dela.
Rapidamente, um estalo. O osso havia voltado para o lugar. Regina fechou os olhos, como se tomasse a dor como sua. Emma comprimiu-se na cama, agarrando o travesseiro. Por um breve segundo — talvez menos — a loira gemeu algo. Tão baixinho que Regina mal pôde escutar. E se escutara, havia sido o sono afetando seu entendimento. A morena ficou alguns minutos olhando-a, esperando que dissesse novamente. Mas o tempo passava e Regina tinha que partir.
Ela levantou sem tirar os olhos da loira. Por que abraçava aquele travesseiro tão firmemente? O que sonhava com tanta convicção? De qualquer forma, Regina não teria as resposta — e talvez nem as quisesse realmente. A Rainha ajeitou o corpo da loira, permitindo que ficasse com o travesseiro. Então, levantou a colcha de ceda e cobriu Emma.
Sendo assim, nada lhe restara. Regina deve de deixa-la, virar as coisas e ir. Precisaria pensar onde passaria a noite, já que Swan se apossara de sua cama.
As portas do quarto se fecharam, e Regina já caminhava apressadamente até o primeiro andar do castelo. Já Emma, parecia tranquila e até um sorriso assolava seus lábios ressecados. Ela apertou o travesseiro, com o cenho franzido:
“Regina...”
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