The Hell Verse
25 Vontade do Inferno
Notas iniciais
As aparências iludem, e Kokuto caíra nessa perigosa artimanha. Observava glorioso, a sua suposta vitória, assistindo Ichigo se transformar num hollow descontrolado. Doce engano… Algo por trás do que seus olhos podiam ver acontecia. O substituto de shinigami aceitara unir-se momentaneamente ao seu hollow interior para proteger a sua amada.
Aparentemente, o ruivo mergulhava num mar branco que parecia afogá-lo numa espessa camada alva, que se apoderava de seu corpo. Seus olhos se converteram em duas esferas negras aterrorizantes, como se fossem a profundeza das trevas, onde somente duas íris douradas se destacavam no negrume. Kokuto perde seu interesse por Rukia, amenizando o agarre do pescoço dela, gargalhando.
– É assim que tem de ser. Quando o corpo se desestabiliza, é fácil de perder o controle!
A explosão albina parecia possuir essência, controlando seus movimentos, dominando completamente o corpo do humano, que parecia embater-se contra ele. De facto, até o fazia. Não para se manter consciente, porque nunca perdeu a razão, mas por ser um processo doloroso para seu corpo. Apesar da união cordial, não deixava de ser um humano e o outro um hollow.
– Não podes lutar contra esse monstro… Então porque não aceitas?
A camada começa a tonificar-se, criando na zona da boca dentes enormes afiados. Perante esse surreal episódio, e também por estar ignorante às razões ocultas, Rukia desesperada para manter Ichigo sã, morde fortemente a mão de Kokuto, aproveitando o facto de ele não fazer-lhe tanta pressão por estar distraído. Grunhindo de dor, ele imediatamente a larga, furibundo.
– Ichigo? Ichigo! Não te transformes!
Novamente, o pecador agarra a Kuchiki pela corrente que ainda a prendia, arrastando-a até seus pés.
– Quieta, maldita shinigami… É agora que a melhor parte vai começar.
Debilitada, mas firme, ela ergue seu olhar para encarar Ichigo enquanto algo atrai a atenção do pecador que olhando em volta, alarga seu sorriso.
– Estás a ouvir, Ichigo? Os kushanadas sentiram a mudança na tua reaitsu.
Incontáveis guardiões semelhantes ao protector do portal infernal revelam-se. Devido ao seu tamanho monstruoso, estes atravessam os pilares os destruindo, reduzindo-os a pó.
– Logo eles vão chegar aqui, para devorarem aquele que pode destruir o Inferno!
O albino impaciente, só ambicionava a finalização da holliwficação podendo assim concretizar seu maior sonho. Ser livre. Mesmo que fosse um fugitivo dos shinigamis, poderia libertar-se do sufoco das torturas constantes, poderia reencontrar a paz que só uma pessoa lhe soubera dar. Provavelmente isso era uma ilusão de sua sede insaciável, ele perdera a oportunidade de ser feliz plenamente quando ela se fora. Nunca encontraria aquela paz, mas poderia livrar-se do sofrimento.
– Vamos transforma-te, ou logo serás devorado! Mas mesmo que sejas, serás revivido… Se não destruíres o Inferno este ciclo vai continuar toda a eternidade. Então, como vai ser?
– Quem iria… Querer isso?
Para surpresa do pecador Ichigo prestava atenção na conversa, lhe respondendo. Mas isso o confundira. Como isso era possível? Não era o hollow que habitava naquele corpo e mente? Porque o ruivo ainda estava consciente? Sua essência já deveria ter sido sugada para os confins do esquecimento. Para desgosto de Kokuto, da mesma forma que Ichigo criou uma união cordial com seu hollow interior, da mesma forma desfez esse elo. Escutando os passos dos guardiões, ele optou por uma outra alternativa. Uma mais segura.
– Só porque não conseguiste o que querias… Vais vingar-te?
O retrocesso da hollowficação começara: os pedaços da máscara lascada começaram a pairar pelo espesso ar tóxico esvoaçando até desaparecem no intenso nevoeiro que cobria um céu negrume.
– Só estás fazendo… Os outros infelizes como tu.
A princesa Kuchiki, fazendo jus ao seu apelido ergue seu tronco com dificuldade, porém com uma elegância extrema. Possuidora de um charme natural, ela conseguia disfarçar seus machucados visíveis, como se estes não causassem dor nenhuma.
– Só queres-te vingar para escapar do sofrimento.
O diálogo era uma estratégia do ruivo, não que ele fosse muito de planos… Ele sempre optava pela prática. Porém estava debilitado após sucessivas lutas. Seu corpo implorava por um descanso merecido mas a mente gritava para ele salvar seus companheiros. Enquanto isso, os guardiões de aproximavam da reunião entre os três presentes.
– Eu quero salvar os meus amigos… Mas para isso… Eu não vou sacrificar nenhuma pessoa inocente!
– Ichigo, foge! Corre!
Vagarosamente, o substituto de shinigami ergue sua cabeça encarando as esferas violáceas desesperadas, para a tranquilizar, ele sorri ternamente. Porém nem sua face descontraída, não acalmou o ser perturbado da Kuchiki quando ela se depara com a cabeça de um guardião na retaguarda de Ichigo.
– Eu juro pela minha alma que eu… Vou continuar lutando!
Por fim, ele se livrara completamente do hollow. Encarando, novamente a maresia violenta, transmitindo-lhe esperança. Ele faz-lhe uma promessa, embalado pelas ondas de seu olhar.
– E te salvarei Rukia.
Ela não saberia se deveria ficar emocionada ou apavorada, porque nesse momento o guardião eleva sua mão para depois pousá-la violentamente contra Ichigo, prevendo esmagá-lo. Kokuto sorria calmamente, acreditando que por heroísmo amoroso, ele perdera a noção do perigo.
– Ichigo!
Rukia engatinhava na direcção do homem que compartilhou seus poderes, chorando, na esperança de impedir o que seus olhos enxergavam. Ela sabia que nada poderia fazer, mas tentaria. Não compreendia, Ichigo não se movia, simplesmente aguardava o golpe. Ele jamais se renderia, jamais quebraria uma promessa. Quando assistiu, dolorosamente e lentamente, a mão cair sob o humano ela estacou. Por um momento tudo suspendeu. Deixou de respirar, seu coração parou de bater… Ela não sentia rigorosamente nada. Como se tivesse sido congelada por sua bankai.
Aguardou um movimento brusco e escandaloso típico do ruivo, mas nada. Longos segundos perduraram, mas ela esperou. Cética, não aceitava sua morte. Por isso, aguardou seu retorno. Ela confiava nele, mesmo que todas as circunstâncias estivessem contra o mesmo.
– Desiste shinigamizinha, ele se foi.
Poeira se levantou, impedindo de observar por ela. No entanto, subitamente um brilho dourado se distingue, saindo entre os enormes dedos do gigante, iluminando o local como um sol.
– Realmente aconteceu. Óptimo, mata todos eles!
O pecador eufórico, já festejava seu sucesso sem aguardar os seguintes acontecimentos, que surgiu o que este menos previa. Ao elevar a mão, Ichigo se revelou intacto com uma armadura de ossos dourada.
– O quê?
O guardião que supostamente o mataria desapareceu em um brilho cintilante. Ele se converteu em sua armadura, aliando-se ao Kurosaki.
Um vento forte, consequência do aumento de reaitsu do ruivo, alastrou-se e Kokuto pouco se importando com a morena, solta Rukia que foi rebolando contra as rochas, se ferindo nas pernas e braços. Ela ao reparar que ia bater com a cabeça, fecha os olhos, mas inesperadamente não sente o golpe mas dois braços a segurarem.
– Ichigo?
– Desculpa a demora Rukia. Estás bem?
Ichigo a encarou, sorrindo descontraidamente no meio de uma guerra caótica. Não imaginava ele, a falta que seu sorriso fazia à Kuchiki, sentindo uma vontade súbita de o abraçar porém o constrangimento a conteve. Apesar de a tentação ser enorme.
– Idiota! Não devias ter vindo… Te arriscaste demais.
– Baixinha rabugenta, eu sempre te virei salvar.
Rukia o encarou e entrelaçou seus braços no pescoço de Ichigo, sentindo seus olhos queimarem mas não cedendo às lágrimas, se mantendo firmes.
– Idiota…
“Não irei agradecer-te, idiota.”
– … Obrigada.
Por um momento o ruivo pareceu surpreso. Esperava que ela brigasse com ele e nunca lhe agradecesse como na Soul Society, mas desta vez ela… Carinhosamente, o ruivo direciona uma mão até seu rosto sob o olhar incrédulo violeta. Descendo, ousadamente, pelo pescoço, chega ao seu objectivo.
– Ichigo? Que fazes?
Gaguejando ela percebeu que num milésimo de segundo ele arrancou a corrente que aprisionava-a àquele lugar medíocre.
– Como…?
– Estás livre. Agora… Conto contigo para tomar conta dela. Se ela ganhar um arranhão sequer eu te mato… Kaien.
– O quê?
Rukia encara pelo ombro de Ichigo e encontra Kaien, ferido, assistindo à luta distante. Um turbilhão de sensações a envolveu naquele momento. A raiva e a clemência pareciam debater-se no interno da shinigami, procurando uma líder, mas nenhuma alcançava a vitória. E agravando seu estado mental pairou a confusão: eles se conheciam? Como?
Subitamente sentiu seu kimono na zona da cintura ser puxado para cima. Um terrível déjà vu se abateu sobre ela, enrijecendo seus pêlos, relembrando o lamentável episódio em que ele a lançou contra o Renji na Soul Society… Ele não faria aquilo de novo, faria…!? Curiosamente sentia-se mais segura antes do que agora.
– Ichigo... Tu não vais….? Nem te atrevas, maldito!
– Apanha-a!
Kaien não tivera uma reacção menos surpresa que o tenente Abarai quando observou a pequena Kuchiki ir disparada em sua direcção embatendo contra seu peito, os fazendo tombar no piso rochoso.
– Ichigo! Desgraçado!
– Ele é… doido.
O Shiba teve vontade de rir com a cena. Por um momento reviu a Rukia que ele conheceu e isso era o que ele necessitava. Contudo ela pareceu lembrar-se de sua presença e o olhar violáceo escuro de ódio e mágoa, o fez culpar-se. Saberia que nunca alcançaria seu perdão. Seus actos foram de facto imperdoáveis.
– Não fale comigo Kaien-dono… Eu não esqueci o inferno que passei por sua culpa!
– Desculpa…
– Eu não quero ouvir nada.
Longe daquele diálogo, o substituto de shinigami encontrava-se frente a frente com o albino abismado.
– Que aparência é essa? O que fizeste?
– Kokuto… Ela pediu que a vingasses?
– Como é?
– Aquela que foi o motivo da tua sede de sangue… Achas que ela queria ver-te envolvido em toda esta matança? A tua vingança só traria mais vingança. Tu… Só a farias infeliz para sempre.
Odiou admitir, mas aquele humano estava-o a tirar do sério com aquelas acusações. Ele odiava Kurosaki Ichigo porque um dia fora como ele, mas seu coração cedera ao ódio ao não proteger sua amada. Um borbulhar perturbou o peitoral do pecador, que rosnou interiormente. O substituto de shinigami não sabia o que era perder a luz de sua vida. Se ele tivesse morto Kuchiki Rukia, ele sentiria o mesmo que ele, compreenderia seus sentimentos. Contudo para contribuir para o aumento de sua revolta, ele também sabia: Ichigo nunca permitia algum mal a ela. Ele sempre estaria lá para a salvar. Ele sempre conseguiu, mas ele fracassou e estava a ser condenado por esse erro fatal.
– Meus amigos não querem vingança… Eles querem que eu te pare. Estás a ver isto?
Autoritário, numa compostura pouco usual nele, o ruivo aponta com o indicador para o próprio peito, mais concretamente para o presente do Inferno.
– O Inferno concorda comigo. O Inferno me prefere ajudar… A deixar alguém como tu escapar!
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